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O Bem e o Mal: Romance cover

O Bem e o Mal: Romance

Chapter 1: O BEM E O MAL
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About This Book

This work explores the duality of good and evil through a narrative that intertwines the lives of various characters, reflecting on their moral choices and the consequences that arise from them. Set against a backdrop of societal norms and expectations, it delves into themes of virtue, vice, and the complexities of human nature. The characters navigate their relationships and personal struggles, revealing the often blurred lines between right and wrong. Through rich descriptions and philosophical musings, the text invites readers to contemplate the nature of morality and the impact of individual actions on the broader community.

The Project Gutenberg eBook of O Bem e o Mal: Romance

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Title: O Bem e o Mal: Romance

Author: Camilo Castelo Branco

Release date: July 12, 2020 [eBook #62624]
Most recently updated: October 18, 2024

Language: Portuguese

Credits: Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
Proofreading Team at https://www.pgdp.net

*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O BEM E O MAL: ROMANCE ***

OBRAS
DE
CAMILLO CASTELLO BRANCO

EDIÇÃO POPULAR

VI

O BEM E O MAL


VOLUMES PUBLICADOS

Eis os titulos dos ultimos volumes:

N.º 29—As virtudes antigas—Um poeta portuguez... rico!

N.º 30—A filha do Doutor Negro.

N.º 31—Estrellas propicias.

N.º 32—A filha do regicida.

N.ºˢ 33 e 34—O demonio do ouro.

N.º 35—O regicida.

N.º 36—A filha do arcediago.

N.º 37—A neta do arcediago.

N.º 38—Delictos da Mocidade.

N.º 39—Onde está a felicidade?

N.º 40—Um homem de brios.

N.º 41—Memorias de Guilherme do Amaral.

N.ºˢ 42, 43 e 44—Mysterios de Lisboa.

N.ºˢ 45 e 46—Livro negro de padre Diniz.

N.ºˢ 47 e 48—O judeu.

N.º 49—Duas épocas da vida.

N.º 50—Estrellas funestas.

N.º 51—Lagrimas abençoadas.

N.º 52—Lucta de gigantes.

N.ºˢ 53 e 54—Memorias do carcere.

N.º 55—Mysterios de Fafe.

N.º 56—Coração, cabeça e estomago.

N.º 57—O que fazem mulheres.

N.º 58—O retrato de Ricardina.

N.º 59—O sangue.

N.º 60—O santo da montanha.

N.º 61—Vingança.

N.º 62—Vinte horas de liteira.

N.º 63—A queda d’um anjo.

N.º 64—Scenas da Foz.

N.º 65—Scenas contemporaneas.

N.º 66—O romance d’um rapaz pobre.

N.º 67—Aventuras de Bazilio Fernandes Enxertado.

N.º 68—Noites de Lamego.

N.º 69—Scenas innocentes da comedia humana.

N.ºˢ 70 e 71—Os Martyres.

N.º 72—Um livro.

N.º 73—A Sereia.

N.º 74—Esboços de apreciações litterarias.

N.º 75—Cousas leves e pesadas.

N.º 76—Theatro:—I. Agostinho de Ceuta.—O marquez de Torres-Novas.

N.º 77—Theatro:—II. Poesia ou dinheiro?—Justiça.—Espinhos e flores.—Purgatorio e Paraizo.

N.º 78—Theatro:—III.—O Morgado de Fafe em Lisboa.—O Morgado de Fafe amoroso.—O ultimo acto.—Abençoadas lagrimas!

N.º 79—Theatro:—IV.—O condemnado.—Como os anjos se vingam.—Entre a flauta e a viola.

N.º 80—Theatro:—V.—O Lubis-Homem—A Morgadinha de Val-d’Amores.


CAMILLO CASTELLO BRANCO

O BEM E O MAL

ROMANCE

SEXTA EDIÇÃO

LISBOA
Parceria Antonio Maria Pereira
LIVRARIA EDITORA
Rua Augusta, 44 a 54
1910

1910

OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO
MOVIDAS A ELECTRICIDADE
Da PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA

Rua Augusta, 44, 46 e 48—1.º e 2.º andar
LISBOA


PREFACIO DA SEGUNDA EDIÇÃO

Foi vagarosa a sahida da primeira edição d’este livro.

É obvia e, ao mesmo passo, desconsoladora a explicação. A novella não perdeu por mal escripta; mas por mal pensada. Quanto a linguagem tanto montava o quilate d’esta como o das suas irmans. A incorrecção é o castigo de quem escreve muito á pressa para ir acabando mais de vagar. Em Portugal é preciso isto.

O defeito d’este livro é a superabundancia de virtudes de infastiar leitores que as exercitam eguaes e maiores, todos os dias.

Ainda bem.

Quem quizer voga e fama pinte e salpique de sangue e lama os seus paineis. Ganhar a curiosa attenção dos leitores sómente é permittido a quem lhes dá noticia de cousas não sabidas nem experimentadas. A virtude é o ranço d’estas gordas almas da nossa terra. Relatem-se crimes de cafrárias em linguagem de cafra.

S. Miguel de Seide, agosto de 1868.

Camillo Castello Branco.


AO

PADRE ANTONIO DE AZEVEDO

Nome que os pobres, seus irmãos, reverenceiam, e os enfermos da alma abençoam; ancião virtuoso; operario infatigavel em serviço de DEUS e da humanidade

OFFERECE ESTE ESCRIPTO

O Auctor.


Meu Amigo:

Ha vinte e tres annos que eu vivi em sua companhia.

Lembra-se d’aquelle incorrigivel rapaz de quatorze annos, que ia á venda da Serra do Mesio jogar a bisca com os carvoeiros, e a bordoada, muitas vezes?

Esse rapaz sou eu; é este velho, que lhe escreve aqui do cubiculo de um hospital, muito visinho do cemiterio dos Prazeres.

Eu sou aquelle a quem padre Antonio de Azevedo ensinou principios de solpha, e as declinações da arte franceza.

Sou aquelle que leu em sua casa as «Viagens de Cyro», o «Theatro dos Deuzes», os «Luziadas», «As perigrinações de Fernão Mendes Pinto», e outros livros, que foram os primeiros.

Sou aquelle que, sem saber latim, resava matinas, laudes, terça, sexta, etc., com padre Antonio.

Sou, finalmente, aquelle, a quem padre Antonio disse:—«O tempo ha de fazer de você alguma cousa.»

Passados vinte e tres annos, como eu acabasse de escrever o meu quadragesimo segundo volume, lembrou-me dedicar-lh’o, meu venerando amigo, e rogar-lhe que peça a Deus por mim.

Lisboa, 22 de junho de 1868


I
A visão do presbyterio

Apresento o sr. Ladislau Tiberio Militão de Villa Cova.

Nasceu no termo de Pinhel em 1818. Seu pae, viuvo sem consolação, vestiu o habito de frade mendicante no convento de Vinhaes. Assim cuidou elle que dignamente honrava a memoria de sua santa mulher. Escolhera convento pobre como penitencia, e deixara sua casa e filho unico sob a vigilancia de um irmão clerigo, sujeito de clara fama e varão doutissimo.

N’aquella casa de Villa Cova, que dera o appellido a dez gerações de honrados lavradores, floreceram, na passagem de cinco seculos, padres de muito saber, uns famigerados na oratoria, outros grandes cazuistas, e alguns bastantemente notaveis por sua virtude sem lettras, e nenhum por lettras sem virtudes.

O educador de Ladislau sobre ser virtuoso, era grande letrado; a sua sciencia, porém atrazára-se dous seculos na historia do espirito humano.

Padre Praxedes de Villa Cova sabia de cór Aristoteles e Platão. Philosophia, physica, historia natural, grammatica, logica, metaphysica, poetica, meteorologia, politica, e mais um centenar de sciencias todas lh’as ensinaram os dous sabios de Stagira e Athenas. Na opinião d’elle, a intelligencia do homem, depois de Platão e Aristoteles, envelhecera, ou fingira remoçar-se com atavios de ouropel e pechisbeques, sem quilate na experimentada mão de um sabio.

Era padre Praxedes copiosamente lido em livros portuguezes anteriores ao seculo XVII, e possuia os melhores nas suas ponderosas estantes de castanho. Da epocha dos Senhores Reis D. João V e D. José I já pouquissimos volumes, e esses mesmos entremados do ouro puro dos classicos, se honravam de prender-lhe a attenção.

Foi, desde menino, Ladislau encaminhado por esta, em parte, errada vereda da sabedoria util e verdadeira.

Começou a escrever como caligraphicamente se escrevia ha dous seculos: lettra garrafal, com as hastes a prumo, longas e enfeitadas com mui engenhosos quadrados, mórmente as maiusculas. Era a escripta de padre Praxedes, tal qual a que seu tio avô, sabio fallecido em 1707, transmittira a um padre Heliodoro, seu filho, e este ao avô de Ladislau, e o avô ao filho, que vinha a ser o tio paterno d’este padre Praxedes. De modo que, n’aquella familia, o «traslado» da escripta em 1830 era fielmente copiado do de 1680. Em tudo mais como na escripta.

Está situada a casa dos Militões de Villa Cova nas faldas de uma serra chamada a Castra. Affirma documentalmente o padre que o chamar-se Castra o sitio, vem de ter estado alli presidio romano, ha vinte seculos; e quer elle que sobre as ruinas d’aquella atalaia dos senhores do mundo esteja cimentada a modesta habitação dos Militões desde o seculo IX.

É a casa grossa de cantaria com dez janellas de peitoril sem vidraças, quasi a roçarem nas proeminentes cornijas, assentadas em fortes cachorros sem lavor. É largo e alto o portão de castanho, que abre sobre um espaçoso quinteiro, intranzitavel na maior parte do anno, por causa das gabellas de tojo e urze, que os pés do gado vão calcando e curtindo.

Do fundo do quinteiro, sobe larga escadaria a um pateo lageado com guardas de pedra tão em bruto e sem visos de esquadria que parecem ter alli ficado casualmente postas umas contra outras pelo revolutear aquoso de algum diluvio.

Este exterior assim é triste, mais triste que a soledade das ruinas de outras casas, que em redor existiam até ao começo d’este seculo, e ás quaes os francezes acossados pegaram fogo, na sua ultima evasão de Portugal. Do desastre da Povoa de Villa Cova salvou-se a casa dos Militões, porque os incendiarios não acharam brecha por onde lançassem o lume: o morro de pedra era incombustivel; as portadas de castanho tão sómente a bala raza poderiam saltar dos seus enormes gonzos.

Os donos das ruinas não quizeram reedificar no sitio onde seus antepassados tinham construido os pobres casalejos. Ajuizadamente edificaram em terreno mais ao centro das suas leiras, visto que, em casa de mais fertil torrão, já os avós dos actuaes tinham levado longe o arroteamento e a cultura.

A casa dos Militões ficou, porém, solitaria, e tomou a si em bem dos pobres o desmontar da terra deixada a monte.

As corpulentas arvores, que se abraçaram no declive da serra, mal deixavam entrever a casa de Villa Cova. O vestigio unico de vida n’aquelle fundão era o rolo de fumo que o vento rarefazia em apparencia de nevoeirinhos sobre a copa do arvoredo, o qual, visto da cumiada da Castra, semelhava uma mouta de arbustos.

Volviam mezes e mezes sem que pessoa estranha descesse a serra, em demanda da casa dos Militões, excepto o viandante, que, surprehendido pela noute, se guiava pela neblina de fumo, vista ao entardecer, ou pelo convidativo cantar do gallo.

Em dias santificados, a familia fiava dos cães de gado a guarda da casa, e ia ouvir missa á igreja parochial, um quarto de legua distante. Desde tempos immemoriaes era a freguezia pastoreada por clerigo da casa de Villa Cova. Este clerigo que, no discurso de tres seculos, parecia sempre o mesmo, tinha sempre comsigo uma irmã, que, no traje, no dizer, e no sentir, era a mesma irmã do padre do seculo XV.

Depois da missa, o pastor acompanhava os seus a Villa Cova, onde pasava o dia; e á noute, entoadas as preces das Ave-Maria, lá transmontava o serro, que o separava da sua igreja, abordoando-se d’um cerquinho, que diziam ter trezentos ou mais annos de uso—tradição fundada na certeza de outras muitas.

Este era ainda em 1830 o viver d’aquella patriarchal familia.

Ladislau Tiberio Militão estudava n’este tempo a grammatica de Aristoteles. Frei Braz, seu pai, morreu n’aquelle anno; e no seguinte, o tio, que parochiava. Ficou reduzida sua familia ao padre, que o ensinava, e á tia Sebastiana, que, por morte do tio, voltára da igreja á casa, onde uma serie de onze antecessoras tinha voltado com o lucto no coração e a vida por um fio.

Apenas fallecido o pastor, foi padre Praxedes nomeado interinamente para a vigararia de S. Julião da Serra. Não havia outro clerigo na familia, nem outro administrador para a lavoura. Quiz o padre declinar a pesada herança; mas, mal o souberam, os parochianos acudiram em rogos e lagrimas a Villa Cova, pedindo ao virtuoso irmão do defuncto vigario que os não desamparasse. Praxedes arrendou os bens, e transferiu-se á residencia parochial com irmã e sobrinho, esperando ainda que algum clerigo pobre das cercanias lhe tirasse dos hombros o cargo, e lhe libertasse o tempo necessario ao ensino de Ladislau.

Malograda a esperança, e nomeado pelo governo, o parocho trasladou a sua livraria, como quem já tinha ao certo que seus derradeiros annos, muitos ou poucos, alli seriam vividos ao pé da sepultura dos seus onze antepassados.

Na casa do presbyterio, continuou a educação litteraria de Ladislau.

Vivia o mocinho entre seus tios; não conhecia rapaz da sua idade com que entretivesse as horas feriadas, ou conversasse em materia de estudo. Mui naturalmente lhe pendeu o animo a umas tristezas que nem viço e contentamentos de primeiros annos podiam desassombrar. Isto não faria especie ao vigario nem á senhora Sebastiana. Era aquella soturna melancolia a norma commum do viver d’esta familia. Muita quietação, silencio tumular, um moverem-se de phantasmas, perpassando uns por outros com glacial taciturnidade.

Estava ainda gravado no animo de todos o lance funereo da viuvez de Braz. A mãe de Ladislau morrera como quem passa de um tumulo para outro. Nem mesmo, depois que sahira o esquife, os gemidos se ouviram longo tempo. E o viuvo, quasi sem declarar seus intentos, sahiu, ao terceiro dia, de casa, foi orar sobre a lagea de sua mulher, e d’alli se partiu, a pé, caminho de Vinhaes. Aqui, bateu á porta do mosteiro, que se lhe abriu como casa de infelizes, e lá ficou. Tudo assim na vida ordinaria, modelado por este extraordinario succedimento!

Ladislau contou os dezoito annos da sua idade, sem sentir abrir-se-lhe o coração a alguma poesia: nem sequer á poesia da natureza!

As graças campestres das Georgicas de Virgilio sabia traduzil-as em termos frios, rigorosamente grammaticaes, irreprehensiveis em sã e fradesca latinidade; porém, no interno da sua alma, nenhum enlevo o transportava da euphonia do verso para a formosura dos prados, das fontes e do luar das suas noutes solitarias. Dormia-lhe o coração; ninguem á volta de si proferira aquella palavra, que é bastante a despertal-o para as alegres alvoradas do primeiro dia de amor, amor sem mulher, sem esperança, sem emblema, amor em competencia com o ideal do amor dos serafins.

Como se padre Praxedes premeditasse amortalhar este mancebo, já morto antes de haver experimentado o palpitar estranho da vida, que estremece em confusos desejos, uma vez, acabando de traduzir com Ladislau alguns capitulos da «Cidade de Deus», de Santo Agostinho, fallou assim ao moço de dezoito annos, sem uma só primavera:

—Ladislau, pensava eu esta noute, e muitas noutes hei vellado a pensar que, d’aqui a pouco, voltarás á casa onde nasceste, deixando teu mestre debaixo da pedra onde esperam o grande dia todos os nossos. Pensei com tristeza que não virá tão cedo de nossa casa o padre guardador d’este rebanho que os nossos antepassados acceitaram como de Deus, e vieram, no atravessar de tantos annos, passando o cajado uns a outros. Agora é que se acabou este legado de serviços, desvelos, e caridades aos nossos irmãos... Quão grata seria a Deus que o não regeitassemos! Não estás tu aqui tão bem inclinado á virtude, e aproveitado na sciencia das cousas santas?!... Queres tu ser padre, Ladislau?

—Quero, meu tio—disse o moço com inalterado semblante, como se fosse convidado a traduzir a «Carta aos Pisões» ou as «Lamentações de Jeremias».

—Sentes em ti vocação ao sacerdocio?—reperguntou o padre com alegre sombra.

—Sinto, sim senhor; porque não hei de sentir?—disse Ladislau.

—Não tens pensado em outro futuro, meu sobrinho?

—Outro futuro!?—perguntou o moço como alheado na estranheza da insistencia.

—Sim: outro futuro... Pensaste alguma vez em te casares?

—Não senhor.

—Nem te pende para a vida de esposo e pai a inclinação de teu animo?

—Nem tenho cogitado n’isso.

—Pois pensa, sobrinho, pensa, que esta vida de padre tem grandes alegrias e grandes amarguras, como todas as vidas, todas as vocações. Se queres a paz, que me tens visto no rosto, entra na trilha de meus passos; os dissabores de dentro, esses, que são muitos, Deus te afaste o calix d’elles; mas se t’o der, acceita-o, que a remuneração é infallivel: acceita-o, meu sobrinho, que o descanço, vindo apoz a batalha, é ineffavel como o jubilo dos Santos. Ora pois: pensarás um anno; consultarás o teu espirito; e, em cada amanhecer, pedirás ao divino Espirito Santo que te allumie.

Antes de findado o anno, padre Praxedes deu a alma ao Senhor; e Sebastiana, que vivia para sepultar o ultimo vigario de S. João da Serra, lá ficou na campa mais proxima, adormecendo-se a beneplacito de Deus, como quem cumpriu sua missão.

Ladislau voltou á casa de Villa Cova com a sua livraria, e as supremas palavras do tio moribundo, que tinham sido estas:

—Espera um anno mais, o conselho do Espirito Santo. Se o teu coração estiver desatado de paixões, que prendem á terra, dá-o a Deus; se não, meu sobrinho, sê um bom marido e bom pai, que esta virtude é por si tambem um sublime sacerdocio. A vida solitaria, que tens vivido, se poderes continual-a, filho, não a troques pelo mundo. Sacerdote, marido, ou simples homem, sem mais obrigações que as communs com os outros homens, além das que o decalogo te manda, foge, quanto poderes, da vida que traz comsigo o esquecimento da morte. Ladislau, a sciencia é um grandissimo mundo povoado de espirituaes amigos; os teus livros encerram, cada um, sua alma, que te falla como amiga. N’este, acharás um desgraçado contricto, que te conta os seus infortunios com o bispo de Hippona, ou o fundador da nossa Arrabida[1]. Outro, como o thesouro de Kempis, se te desentranha em balsamos para quantas feridas a dôr do ermo ou os desenganos do mundo te abrirem no seio. Nos livros apprendi a fugir ao mal sem o experimentar. Confessor quarenta annos, vi as angustias, que vão por esse mundo, tantas, que não cabiam lá, e transbordavam até ao nosso escondrijo. Recolhe-te a ti; não deixes os teus campos; affaz-te a amar estas serras, onde o pé do impio não chegou ainda. Olha tu com que serenidade eu fio meu remedio e salvação da divina misericordia: aqui tens, na morte, um exemplo das vantagens da vida, que eu tive. É isto, filho; é este acabar sem remorso nem temor, consolando-me de ter sido tão moderado em meus desejos, que nem se quer peço a Deus que me dispense mais um dia de existencia.

Estas e poucas mais foram as ultimas palavras do presbytero.

Ladislau Tiberio viveu um anno esperando o conselho do Espirito Santo.

Os chorosos parochianos de S. Julião da Serra, quando viram suas consciencias em guarda de um sacerdote moço, que viera de longe pastoreal-os, foram ter com Ladislau, representados pelos lavradores mais abastados da freguezia.

—Que querem de mim?—perguntava o moço—que hei de eu fazer-lhes?

—Seu tio, que Deus haja—respondeu o mais respeitado—nos disse que talvez o sr. Ladislau tomasse ordens para ser o nosso vigario.

—Pois sim; mas é cedo ainda, meus amigos. Deixai-me esperar o dia destinado á minha decisão.

O dia chegou: era o anniversario da morte do padre Praxedes.

Ladislau, na manhã d’aquelle dia, foi orar ao templo, e ajoelhou sobre a campa dos sacerdotes seus antepassados.

Raiava a aurora, quando entrou á egreja.

E enxergou um vulto, orando no arco da capella-mór.

Mais tarde, como o sol coasse pela estreita fresta lateral um raio de luz sobre o vulto ajoelhado, Ladislau reconheceu uma mulher.


II
Amor de predestinação

A mulher ajoelhada á sombra do escuro arco, era Peregrina, irmã do vigario.

Viera de longe para alli com seu irmão, sacerdote pobre, que devia a sua ordenação ao bemfazer do padrinho, velho fidalgo de Pinhel. Em quanto João se ordenava em Bragança, Peregrina vivera e educara-se sob o amparo do padrinho de seu irmão, e querida das filhas do fidalgo, que a vestiam de seus vestidos, e a sentavam entre si á meza.

Disse padre João a sua missa nova na capella do bemfeitor, e alli ficou estimado como da familia, até que, por diligencias do fidalgo, recebeu a apresentação na igreja de S. Julião da Serra.

Peregrina beijou a mão do velho caridoso, beijou o rosto de suas amigas de infancia, e sahiu com o presbytero em demanda da vetusta igreja. Os parochianos, posto que descontentes ao verem semblantes desconhecidos no adro dos seus mortos, disseram:

«Assim é que vinha o pastor de Villa Cova com a irmã».

Era melancolico o presbyterio; as arvores ressequidas; o chão arido; as penedias calvas; os tectos assentes em vigas; as paredes interiores afumadas; os taboados movediços. Alli, as primaveras passariam despresentidas, se não fosse o azulejar-se o céu, e os festões das giestas na serra, e o calar-se o estridor das torrentes despenhadas dos cerros das montanhas.

Peregrina, quando alli se viu, por um anoutecer de novembro, disse:

—Como isto é triste e feio!

Padre João olhou em redor de si, e respondeu:

—Irmã, este chão triste é que nos ha de dar o pão santo da independencia. Bemdigamos o coração generoso dos nossos amigos, que me deram terra onde lavrar com minhas proprias mãos o nosso sustento de cada dia. A casa parece-nos agora triste, porque é noute. Ámanhã um raio de sol nos virá alegrar estas paredes.

E, como assim fallasse, o vigario desceu ao adro, subiu sobre uma peanha tosca, travou da corda que movia o sino unico do simulacro de torre, e tangeu as nove badaladas de Ave-Marias. Os lavradores, que iam passando, descobriram-se, pararam, oraram, benzeram-se, e seguiram seu caminho murmurando:

—Os padres de Villa Cova faziam o mesmo. Quer Deus que todos os nossos vigarios sejam bons e devotos.

Entretanto, Peregrina, rezada a oração final da sua prece da tarde, alongou os olhos ás sombrias serras que avultavam para o lado de Pinhel, e chorou. Eram saudades das filhas do bemfeitor, e do casal onde nascera, e onde seus pais, caseiros do fidalgo, haviam morrido.

A irmã do vigario tinha 18 annos. Era dotada de abundantes graças, compleição menos robusta que o ordinario das moças aldeãs, senhoril talvez extraordinariamente, rica de negros cabellos, formosa de olhos, doce e meiga no dizer, modestissima, parca em sorrisos, meditativa, laboriosa, e muito dada á oração.

Costumava ella erguer-se ante-manhã, quando ouvia os passos do irmão no sobrado visinho do seu quarto. O vigario madrugava assim para dizer missa á hora em que os parochianos sahiam ás suas lavouras. Peregrina accendia o lume, aconchegava o pucaro das brazas, cegava as couves, ia assistir á missa do irmão, e vinha depois cosinhar o caldo que era a refeição matinal do sacerdote e d’ella.

Uma grande parte do clero, que pastorêa almas, póde bem ser que me não acceite a verosimilhança d’este caldo de couves. Espero que se desçam de sua incredulidade, se eu lhes disser que a congrua e pé-de-altar de S. Julião da Serra não davam para chá, n’aquelle tempo em que os direitos da charopada chineza eram enormes, e os paladares eram genuinamente portuguezes, lá d’aquellas serranias, se saboreavam de preferencia no salutar cozimento de couves adubadas de saboroso unto. Ora eu, que n’esta fidalga e franceza Lisboa tenho sido espectaculo de riso, pedindo nos hoteis, e recommendando aos meus amigos o caldo verde, insisto contumazmente em me expôr á mofa da gente culta, dando á estampa, n’este logar e para meu duradouro opprobiro, o panegyrico do caldo verde, caldo de meus avós, e de padre João e de sua irmã.

N’aquella madrugada, em que Ladislau fôra celebrar o anniversario da morte de seu tio, orando na igreja, Peregrina demorára-se a rezar, finda a missa, porque seu irmão entrára no confessionario. Déra ella conta de ajoelhar-se alli perto de si o moço, já quando o templo estava vazio. Soffreou, em quanto pôde, sua curiosidade, que teimava em querer conhecer o recolhido devoto. Não era costume seu voltar a cabeça a um lado ou outro, quando fallava a Deus; porém, tanta força lhe fazia o animo para o sitio onde estava o moço que, apesar de profanação, aventuro-me a suppor que o coração lhe estava tirando para alli os olhos por uns filamentos mysteriosos que, alguma vez, a anatomia ha de encontrar entre olhos e coração.

Foi o raio de sol nascente, vertido pela fresta esguia da capella-mór, que de todo em todo aliciou Peregrina a olhar. Um raio do sol do Senhor a alumiar-lhes o escuro do templo para se verem! Donoso e sublime confidente de duas almas carecidas uma da outra! Nunca tão auspiciosos preludios de um amor começaram n’esta vida. São dous moços: ella virgem, e formosa, e immaculada; elle gentil, puro, e alli ajoelhado em consultação de seu destino. A que bemdita e predita hora se entreluzem as duas almas, embebidas em Deus e subitamente encontradas no mesmo arco da igreja, em que os esposos costumam receber as bençãos!

Ladislau tinha as mãos erguidas, quando encarou no rosto de Peregrina. As mãos ficaram na postura fervorosa; mas a oração, cortada em meio, olvidou-se-lhe. E ella, que entrepassava nos dedos as contas do seu rozario, continuou a dizer as palavras santas, mas sem ouvil-as na audição interior do espirito.

Ambos a um tempo acordaram da fixidez da sua contemplação, e córaram. Ladislau baixou os olhos, e ella ergueu-os. Um parece que pedia contas á terra d’uma delicia, que nunca lhe havia dado nem presagiado; outro ia no ceu como a decifrar o enigma da sensação nunca experimentada.

Instantes depois, padre João appareceu á porta da sacristia, e mandou á irmã que accendesse os castiçaes do altar-mór, emquanto elle se revestia para ministrar a sagrada communhão á confessada. Ladislau, como ouvisse as ordens do vigario a Peregrina, ergueu-se e disse:

—Eu vou, se o sr. vigario quer. Já sei este serviço, que era minha obrigação, em tempo de meus tios, que Deus haja.

Padre João já conhecia o sobrinho do defuncto Praxedes, como primeiro lavrador da freguezia, e moço de estudo e virtudes, segundo lhe disse o regedor da parochia, e o gravissimo mordomo do orago confirmára.

Acceitou o vigario o serviço a que Ladislau se teria offerecido, ainda mesmo que a presença de Peregrina o não movesse á delicadeza. Esta delicadeza era instinctiva certamente, e ensinada pelo coração, a fundamental de todos os ceremoniaes, que nas activissimas cidades os meninos aprendem em livros, como se a cortezia com damas não fosse pagina escripta no mais diamantino do peito desde que abrimos olhos para vel-as.

Accendeu Ladislau as velas, e proveu de agua o jarro da communhão, emquanto o vigario se paramentava. Subiu o ostiario ao altar, abriu o sacrario e tomou a particula da pyxide. Uma nuvem escura de trovoada imminente entoldára o sol, e a capella-mór voltava á frouxa luz crepuscular. O ministro, severissimo em todo o ritual de seu sagrado encargo, como não fiasse da claridade de uma só vela a perfeita passagem da hostia á lingua da commungante, acenou á irmã para que tomasse uma vela do outro lado.

Ladislau tremeu quando a viu tão perto de si; mas assim mesmo, não desatremou em desconcerto com a urbanidade: entregou-lhe o cirio, que tinha e foi tomar outro da tocheira.

Em verdade lhes digo, meus sensiveis leitores, que eu desejava ter assim um painel, para serem dous os papeis da minha estimação. O que já possuo é uma menina lagrimosa, que está dando de comer ao seu cão moribundo, que não vê o alimento mas ainda a vê a ella, e parece despedir-se a chorar. O outro quadro queria eu que fosse o vigario de S. Julião da Serra pendido á fronte humilde da christã; d’um lado, Peregrina com o rosto banhado do escarlate da flamma, que ella quer affastar de si, adivinhando que os olhos do moço a estão contemplando; do outro lado, Ladislau, involuntario, captivo, alheado de si, sem poder desfital-a. Eis aqui as minhas quatro figuras todas absorvidas em amor de Deus. O padre está enlevado na suprema magestade do seu ministerio: a penitente está-se identificando a divindade do corpo e sangue de Jesus; Ladislau, em seu silencioso spasmo, está psalmeando o hymo de graça que o primeiro homem deu ao Senhor, no instante de ver inclinado a si um seio amparador de mulher. E ella, Peregrina? De ti, purpureada virgem, só podem sentir teus extasis, e contar-no’l-os as tuas iguaes n’este mundo, as que tiveram simultaneamente a intuição do amor e a visão do primeiro homem amado. Todos, pois, enlevados em aspirar divino: o sacerdote e a commungante pela consciencia, os outros pelo coração, aberto em perfumes que queimam a Deus o mais selecto e fino bago do seu incenso.

Findo o acto sacramental, o padre subiu os dous degraus do altar, cerrou o sacrario, ajoelhou, e voltou á sacristia. Ladislau ficou em pé, rente com o tocheiro de castanho tosco, d’onde tirara o cirio. Peregrina foi depor a sua vela sobre a credencia, desceu ao fundo da igreja saudando os quatro altares lateraes, e sahiu do adro, e logo entrou na vigairaria. Ladislau, viu-a desapparecer, e disse de sua consciencia para Deus: «Não tornarei a vel-a?»

Assomou o pastor no limiar da sacristia, e disse a Ladislau, que ia sahindo:

—Desejo tel-o em minha companhia algum pouquinho tempo, sr. Ladislau. Se não vai com pressa, tenha a bondade de esperar, que eu faço oração, e vou já.

—Espero no adro o tempo que o sr. reverendo vigario quizer.

—Por que ha de ser no adro e não em casa?—tornou padre João.—Entre na residencia, que a porta do sobrado está aberta.

Ladislau esperou no adro, e, emquanto esperava, tinha os olhos na janellinha da saleta, em que seu tio costumava estar nas noites quentes, esperando os freguezes, que voltavam das ceifas, e a todos fallava, mandando-os sentar nos troços brutos de pedra, que alli tinham ficado d’uma casa incendiada pelos francezes.

Assim contemplativo, viu elle chegar á janella a irmã do vigario, e esconder-se, apenas o encarou, surprehendida.

Que instantes aquelles para ambos! Que ceus e ceus, vistos á lus d’um relampago! Que extensos poemas de lagrimas costuma a saudade fazer depois com as reminiscencias de uns momentos tão fugitivos!

Sahiu o vigario do templo, fechou a porta, e disse:

—Estava o sr. Ladislau a recordar-se de seus tios?... Não admira, que eu mesmo, sem os ter conhecido, lhes respeito a memoria, pelos grandes louvores que ouço dar ás suas virtudes. Basta ver o que este bom povo é, para se avaliar as excellencias de quem assim o educou. O espirito dos dous ultimos e defuntos vigarios de S. Julião da Serra está ainda com o seu rebanho. Facil me ha de ser a mim, homem sem virtude nem experiencia, pastoreal-o. Mais tenho que aprender que ensinar.

E, no sentido d’estas humildes palavras, foi dizendo outras, que se insinuavam ao coração do moço já captivo do conciliador semblante do sacerdote; e assim entraram na casinha parochial.

—Peregrina—disse o padre á irmã que os vira subir, e, sem saber por que, se alvoroçara—olha que temos hospede; vê lá como te saes; não queiras que o nosso convidado nos julgue forretas. Almoço de abbade rico, ouviste?

A moça não respondeu. Affastou da fogueira o caldo que fervia, lançou alguns ovos á certã, e, tão depressa os cosinhou, foi á modesta arca do seu fragal tirar a melhor toalha, e os garfos de ferro ainda lusidios em primeiro uso.

Peregrina, posto o almoço na mesa, sentou-se no seu logar de costume, que era um banquinho tosco achegado do escano. A mesa, construida de uma só taboa afumada, engonçava n’aquelle adorno da lareira, talvez tão antigo como a vigairaria de S. Julião da Serra.

Quando a moça se assentou, disse Ladislau:

—Aquelle banco era o logar de minha tia, que Deus tem!

E ficou contemplativo.

—E eu—disse padre João—estou no logar de seu tio, e o sr. Ladislau vem sentar-se no logar que era seu.

Estava já na meza a travessa de barro vidrado com a fritada de ovos e farinha triga. O vigario sorriu-se, e disse:

—Na meza de seu tio havia um prato e um talher para cada pessoa?

Ladislau, que não sabia o significado da palavra «talher», respondeu:

—Comiamos todos do mesmo prato; e na minha casa de Villa Cova, tanto meu pae como meus tios comiamos á mesma meza dos creados e jornaleiros.

—Como ha trezentos annos—ajuntou o padre—como os patriarchas idumeos com os seus servos e escravos. O sr. Ladislau ainda não viu, á luz da civilisação, a grande distancia a que está dos seus criados. Vive, por em quanto, na fé de que senhor e servo são homens filhos do mesmo pai, um favorecido, outro desfavorecido pelo acaso do nascimento... O sr. não lê as gazetas?—perguntou o vigario abruptamente.

—Não leio, nem as vi nunca—respondeu o moço—Ouvi dizer a meu tio que um padre, d’aqui tres leguas, quando acertava de encontrar-se com elle na feira de Pinhel, lhe mostrava gazetas.

—Pois—tornou o padre—as gazetas são uns papeis escriptos em letra redonda, creados e sustentados para demonstrarem que todos os homens tem direitos eguaes. Muito me admira que seus avós e o senhor tenham praticado a egualdade sem terem lido as gazetas! Provavelmente em casa dos Militões de Villa Cova lia-se o Evangelho de Jesus Nazareno.

—Lia, sim, senhor.

—Só assim pode explicar-se a virtude sem a doutrinação das gazetas. Dizem que ellas são o baluarte da liberdade, da egualdade, e da fraternidade; e eu estou em defender que o sermão da montanha, prégado pelo filho de Deus ha mil e oitocentos annos, e o sermão da natureza, que sem cessar se está ouvindo, bastam para fazer um homem irmão e amigo do outro homem, por amor de Deus, que é pai de todos.

Posto que não excedesse os vinte e oito annos, o vigario, no pausado e reflectido do seu dizer, competia com os cincoenta annos de algum egresso d’aquelle tempo.

As faculdades d’este bem-fadado ministro da verdade tinham amadurado antes da sasão propria. Costuma ser a desgraça quem antecipa, com a precoce experiencia, a reflexão; porém observa-se que o juizo—o que commummente se chama siso—proveniente das lições do infortunio, é um recolhimento melancolico, mysantropo, deshumano ás vezes, e quasi sempre intolerante. Em exemplos d’esses, que os ha em grande copia, acerto seria arguirmos ao enojo das chimeras d’esta vida o que attribuimos á reflexão.

A madureza do vigario não era apressada pela desventura, nem triste, nem intolerante. A indole, o habito da soledade, o estudo, a clara vista da alma com que entrava no secreto e desconhecido do coração alheio, explicam o ar grave, monacal, e discordante de seus annos. Não obstante, o geito com que dizia as suas satyras ás gazetas dava mostras de espirito faceto ou humoristico, segundo agora francezmente se diz.

Dos estudos do seminario passára o presbytero á capellania do padrinho de Pinhel, fidalgo, como se disse, intractavel desde 1834, retrahido ao seu quarto, em lucta permanente com os achaques da alma egualmente dolorosos que os do corpo. A gota, o rheumatismo, a sciatica impacientavam-no tanto ou menos que o desmancho das cousas politicas. Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo, que assim se chamava o gothico solarengo de Pinhel, se alguma vez chamava padre João Ferreira ao seu quarto, era para lhe perguntar pela quinquagesima vez:

—Que me dizes a isto, padre João?

—A isto?

—Sim, á queda do rei legitimo?

—É um facto consummado—dizia o padre.

—É uma usurpação consummada!—replicava o fidalgo, e sibillava um agudo ai, levando a mão ao artelho esquerdo, cuja dor só podia comparar-se á do artelho direito.

E como o afilhado não pudésse restaurar ao throno usurpado o senhor legitimo á vontade do padrinho, Ruy voltava-lhe as costas, e o padre sahia melancolico a encerrar-se no seu quarto com os seus poucos livros, ou ia leccionar em primeiras letras as filhas do fidalgo, a segunda das quaes principiara o alphabeto aos dezeseis annos, Deus sabe com que repugnancia.

Demorei-me accintemente n’estas dispensaveis explicações para dar tempo a que os tres convivas almoçassem e conversassem. Conversassem, é menos exacto. Quem fallou sempre foi o vigario, e é de presumir que o auditorio o attendesse escassamente. Ladislau, se alguma cousa escutava, era o poema interior, os hymnos descompassados, mas sublimes, que soavam dentro em seu coração. Estranhas musicas deviam de ser aquellas para o moço surprehendido, na alva do seu primeiro dia de amor, por enchentes de luz desconhecida! O amor, que vem procurado, como sensação necessaria á felicidade da vida, perde dous terços da sua embriagante doçura; porém, o amor inesperado, impetuoso e fulminante, esse é um abrir-se o céu a verter no peito do homem todas as delicias puras que não correm perigo de impestarem-se em contacto com as da terra. Era d’esta especie o sentimento de Ladislau, nascido na hora em que elle ia confirmar sobre a sepultura de seu tio o pacto de ser sacerdote, abjurar as desconhecidas allianças do coração com o mundo, e acceitar as que atam o coração ao mundo com o laço da caridade evangelica.

Ora, aquelle poema interior, se alguem podia decifral-o, era Peregrina. A mulher innocente e admiravelmente dotada do sexto sentido, que recebe as impressões não classificadas na ordem physica nem moral. Adivinha quem a ama, antes que lh’o digam. Parece que o ar se lhe povoa de espiritos amigos, que giram entre ella e os olhos de quem, a fito ou de revez, a requesta. Aquelle diaphano veu de escarlate que lhe purpurea o rosto, não é sangue como dizem os materiaes definidores de tudo: a mimosa susceptibilidade de cutis, chamada pudor, não pode ser sangue; em quanto a mim, é o sombreado das azas iriadas dos espiritos que voejam no ambiente da mulher immaculada, ou então reflexo das coroas de rosas, com que o deus festivo dos amores a infeita, cioso de ter nos seus altares o pouco d’este mundo que merece e desculpa a idolatria.

Posto que este dizer tenha um sabor mythologico, pagão, e, sobretudo, antiquissimo, ha-de o leitor conceder que o seu servo romancista, tal qual vês, se desgarre do caminho trilhado á moderna, para não dizer sempre que os seus personagens estavam arrobados, extaticos, ou, o que é peior, perdidos de amor.

Os meus personagens, Ladislau e Peregrina, não estavam arrobados nem extaticos, porque ambos confessam que comeram da travessa vidrada a sua porção de ovos, e tomaram cada qual o seu caldo-verde (palavra indigna de tão levantado assumpto!)

Perdidos tambem não estavam; porque o perder-se ou transverter-se o coração é quasi sempre a prova real de não ter sido o primeiro nem o melhor um certo amor com que os alienados se desculpam.

O amor, que não perde nem desvaira, esse é que é o amor.

Eil-o ahi, pois, profundo, sereno e bello como o oceano em calmaria.


III
Casamento patriarchal

Eu, que já escrevi doze casamentos felizes de uma assentada, querendo agora enfeitar o de Ladislau e Peregrina, é tamanha a penuria do engenho em que me vejo, que—a não me acudir a fada do estylo—hei de contar o ditoso enlace, como elle está escripto no livro dos casamentos da freguezia de S. Julião da Serra.

Convém saber que é cousa para pouco discurso a passagem do amor ao sacramento, que o completa, lá n’essas terras abençoadas do obscurantismo, como era o termo de Pinhel, e continuará a ser por estes quatro seculos por vir, em virtude de lhe andar por muito longe das raias o caminho de ferro. De S. Julião da Serra, então, isso aposto eu que nunca ha de ser desalojada a santa ignorancia, que faz amarem-se e casarem-se logo as pessoas que se querem.

Vamos a bosquejar o casamento de Ladislau e Peregrina. Se a descripção me sair muito florida, não servirá. Guardarei os enfeites para exornação de outros casamentos, onde as flores sejam empregadas em disfarçar a mingua de coração e virtudes.

Findo o almoço Ladislau disse ao vigario:

—Como o dia está soalheiro e alegre, pedia eu ao sr. padre João e a sua irmã, que viessem passar o dia a Villa Cova. Se houver precisão da sua vinda á egreja para administrar a extrema-uncção, depressa o irá chamar alguem a minha casa; porém, graças a Deus, não está ninguem, que eu saiba, doente na freguezia.

—Pois vamos—disse o vigario sorrindo.—Caro lhe ha de ficar o almoço... O bom presunto vai pagar os maus ovos. Vem d’ahi, Peregrina, vamos lá ver a casa d’onde sahiram tantos homens grandes e obscuros, como são os homens que se escondem da sociedade para serem bons. Quem dirá, sr. Ladislau, que no curto horisonte d’estas serras que nos cercam, estão fechadas as lembranças dos santos ministros do altar, que vieram de sua casa para dentro d’estas quatro paredes velhas!... E seu pai, o viuvo amortalhado no habito de frade pedinte!... Vamos!... A minha indole melancolica chega a ser rustica! Vejo que o sr. Ladislau está alegre, e eu a chamal-o a lembranças pesarosas!...

No decurso da caminhada de um quarto de legua, foi Ladislau contando em miudos a sahida de seu pai para o convento de Vinhaes, e a saudade escura dos que ficaram, encarando a porta, que se abrira á passagem de um caixão, e logo ao desterrado perpetuo das alegrias d’esta vida. E o moço, a fallar de sua mãi, chorava; que é sabida cousa a facilidade que temos de chorar, quando o amor nos amollece, e, para assim dizer, anima o coração. Sem a presença de Peregrina, Ladislau seria mais insensitivo, mais duro, mais homem. O amor afemina as condições mais viris, e tem feito que as faces queimadas e negras da polvorada das pelejas se orvalhem e brilhem de lagrimas. No animo tenro e como infantil do moço de Villa Cova, a bem dita influição da meiga menina, que o ia ouvindo e amando, devia de abrir-lhe no peito os conductos todos das lagrimas maviosas. Não sei que mysterio santo e dulcissimo está no fallarmos de nossa mãi fallecida á mulher que nos bem quer. Póde ser que venha esta sensibilidade de recebermos de uma o coração, que damos a outra. Ou, talvez, seja de nos faltarem carinhos de mãi, e cuidar a gente que a esposa nol-os-ha de reviver.

Subiram os tres caminheiros o serro de uma quebrada, d’onde se entrevia a casa de Villa Cova, mal distincta do arvoredo de soutos e carvalhaes. N’este alto, está um rochedo, a pender sobre uma gruta de lage, ageitada pela natureza, e conhecida dos pastores, com guarida segura das trovoadas.

—Esta lapa convida—disse o vigario. Sentemo-nos aqui um pouco.

—Minha mãi,—disse Ladislau—chamava a esta penedia a sua gruta... eu ainda lhes não disse que minha mãi era pastora.

—Pastora?!—acudiu Peregrina, com ar de lisongeira admiração, significando sentir a patriarchal poesia da vida pastoril.

—Olhem se avistam—tornou o moço—pela garganta d’estas duas quebradas, lá em baixo, uma casa, nas costas de um souto fechado? Alli nasceu minha mãi de uns lavradores remediados; e, logo que teve a idade, tomou conta da rez, e vinha todos os dias com ella para a serra. Aqui no cavo d’este penhasco é que ella comia a sua merenda; e, assim que o sol começava a descer, tambem ella descia ao valle.

—Sosinha?—atalhou Peregrina, com visagem de sústo.

—Sosinha com dous cães de gado, os quaes, assim que anoutecia, um tomava a dianteira do rebanho, outro ia á beira d’ella. Muito chorou minha mãi, ao morrerem-lhe de velhos os seus cães! Quando vinhamos á igreja, minha mãi sentava-se sempre ahi n’essa pedra, onde está a sr.ª Peregrina, e dizia a meu pai: «Olha, se te lembras, meu santo!» E ficavam-se a olhar um no outro com semblante alegre.

Ladislau cessou de dizer o quer que fosse que attentamente o padre e a irmã esperavam. Por mais curiosa e lhana, Peregrina perguntou:

—E que seria? Porque lhe dizia ella que se lembrasse?

O moço sorriu-se candidamente, e continuou:

—Meu pai estudava para padre, e já tinha ordens menores, quando encontrou aqui minha mãi, andando elle ás perdizes. D’ahi a pouco tempo estavam casados. Isto me contaram meus tios. É bem de ver que ella se lembrasse, quando aqui chegava, da primeira vez que se viram, depois que eram grandes. Em pequeninos tinham sido muito amigos; mas, como meu pai desde os doze annos começou a estudar com um tio vigario, e veio habitar na residencia de S. Julião, quando se tornaram a ver foi tamanho o amor que...

Ladislau susteve-se com feminil pudor.

—E foram muito amigos?—disse Peregrina.

—Tão amigos—respondeu o padre—que se amortalharam ao mesmo tempo.—E, erguendo-se, acrescentou:—Ora vamos lá por ahi abaixo.

D’alli até casa, Ladislau foi contando ao vigario os estudos que tinha feito com seu tio, os livros que lêra, e os que mais eram do seu gosto. No tocante ao intento de ordenar-se, nada tinha dito, quando padre João lhe perguntou:

—Segundo me disseram, o sr. Ladislau está na ideia de ordenar-se?

—Faz hoje um anno que morreu meu tio—disse o sobrinho do padre Praxedes.—Pouco antes de ir a Deus, me disse elle que esperasse um anno a inspiração do Espirito Santo. Agora venho de orar sobre a sepultura de meu tio, pedindo-lhe...

—Que o allumiasse no difficil transito—atalhou o vigario, e ajuntou logo:—E vem decidido a ordenar-se?

Peregrina, que os seguia com alguma distancia, como ouvisse aquella pergunta, insensivelmente estugou o passo para ouvir a resposta.

Ladislau respondeu:

—Ainda não.

E, como voltasse o rosto ao padre no acto de responder, e visse os olhos de Peregrina, fitos em si, e expressivos de anciedade intima, Ladislau recebeu dentro da alma uns tamanhos abalos de alegria que não pôde nunca mais topar delicias comparaveis ás d’aquelle momento.

Entraram no quinteiro da casa de Villa Cova.

Á porta da córte dos cevados estava uma mulher octogenaria, com uma varinha na mão, acommodando os recos, que brigavam em redor da pia.[2] Esta mulher que tinha setenta annos de serviço em casa dos Militões, quando o amo, Peregrina e o vigario entraram no quinteiro, deixou cahir da mão trémula a varinha, e benzeu-se murmurando: «em nome da Santissima Trindade, Padre, Filho e Espirito!»

Amen, disse padre João.

—Que tem vm.ᶜᵉ, tia Brazia?!—perguntou Ladislau.

—Ainda não estou em mim!—respondeu a velha Brazia, caminhando para o grupo, e formando com as mãos um sobreceu aos olhos para poder enxergar os recem-chegados; e proseguiu:—Cousa assim! Pois não me havia de parecer agora que via entrar por essas portas dentro... credo!...

—Quem lhe parecemos nós?—tornou Ladislau.

—Esta moça—tornou Brazia, aproximando-se de Peregrina—pareceu-me sua mãe, que Deus tem; o meu menino parecia-me seu pae, o santinho; e este sr. padre dava-me ares do sr. reverendo vigario Praxedes. Estou a vel-os como eram ha trinta annos, quando vinham da igreja, depois da missa do domingo, cá jantar a casa!

—Pois repare bem—disse o moço—que somos pessoas vivas, tia Brazia, e havemos de jantar para a convencermos de que não somos phantasmas.

—Pois sim, meu menino; graças a Deus ha muito quê; mas olhe que os servos estão todos por fóra, e eu não tenho pernas para andar atraz da gallinha. Cozinhal-a cozinho-a eu; mas pilhal-a isso ha-de ser vm.ᶜᵉ. E quem é essa mocinha tão bem posta e ageitada, benza-a Nosso Senhor?

—É irmã do sr. padre vigario, que está aqui.

—Ah! este é que é o sr. reverendo vigario? Bem me tinham dito que era ainda bem moço; mas isso não tira. Se a santidade fosse aquella dos velhos, então já eu estava no altar! Deite-me a sua benção, sr. reverendo vigario, e com Deus venha a esta casa d’onde sahiram tres santos só dos que conheci. Eu tenho dou carros de annos, aqui onde me vê, sanzinha e escorreita, bemdita seja Nossa Senhora.[3] Conheci, só á minha parte, o sr. padre Timotheo, o sr. padre Heitor, e o sr. padre Praxedes, afóra o santo pai do meu Ladislau, que morreu com o habito dos missionarios de Vinhaes.

Ladislau interrompeu Brazia, que ia sentar-se n’um feixe de vides para mais commodamente contar os successos alegres e tristes dos ultimos setenta annos da casa de Villa Cova. Pediu-lhe elle com brandura e graça que reservasse para depois de jantar as suas historias.

—Então vamos para dentro—disse ella—eu cá vou com a nossa menina mostrar-lhe a casa. Como é a sua graça?

—Peregrina.

—Por muitos annos e bons. Era melhor chamar-se Rosa, que é mesmo uma flôr; que Pelingrina tambem é bonito nome. Ora, pois, vá o menino apanhar a ave, que a panella vae já p’ro lume.

Ladislau e o vigario sahiram do quinteiro entraram na eira onde esgaravatavam as gallinhas. No entanto, Peregrina, como a velha se agachasse na lareira para espertar o lume amarroado, pediu-lhe que se assentasse no escabello, e a deixasse a ella cosinhar. Brazia cedeu ás instancias, repartindo o trabalho com a hospeda.

Ladislau entrou na cosinha com a ave, e viu Peregrina com um alguidar no regaço, cegando as couves. Estranhou a Brazia o estar a irmã do sr. vigario n’aquelle serviço, e a velha respondeu serenamente:

Ella assim o quer; e bem haja a moça! Estou-me a regalar de a ver! Parece-me mesmo sua mãisinha, quando aqui entrou pela primeira vez. O noivo estava lá no sobrado com os padrinhos e parentes, e ella desceu cá p’ra cosinha a ajudar as criadas.

—Pois sim—replicou Ladislau—mas minha mãi era dona da casa e esta senhora é hospeda.

—E por que não ha de ser dona? Se o não é, ella o será, querendo Nossa Senhora.

Estas palavras avermelharam as faces de ambos, que não poderam suster o relance de olhos que se trocaram.

—Pois então!—continuou a serva, cortando do presunto uma boa talhada.—A vida de padre boa é; mas não queira o Senhor que o menino seja padre. O que é preciso é casar, sr. Ladislau. Deus que lhe deparou esta creatura, lá sabe por que o fez. Vamos; é casar depressa, que eu não quero morrer sem ver gente miuda n’esta casa. O menino fez-me cabellos brancos, quando era pequeno (que a fallar a verdade eu já não tinha cabello preto nem para uma mézinha). Andava sempre a fugir p’ros campos, e eu a procural-o, e ia dar com elle a caçar grillos á torreira do sol: e de inverno andava sempre por essas fragas acima em risco de malhar aos fundões. Deu-me que fazer; mas é o mesmo: quero aturar tambem os seus filhos. Quando eu vim para cá, seu pae tinha cinco annos, e eu dez; se eu morrer, deixando cá um netinho delle, vou contente... Então não dizem nada?

Ladislau, sem a velha dar fé, tinha sahido envergonhado, e mais ainda por ver que a Peregrina, ao passo que Brazia fallava, descia o rosto sobre a hortaliça, voltando-o de modo a não ser visto de frente pelo moço, que por sua parte se estava tambem escondendo no mais sombrio da cosinha, até encontrar a porta por onde sahiu.

O vigario, estava esperando Ladislau, na vasta casa da livraria.

Havia muito que ver e admirar nas estantes dos numerosos sabios d’aquella familia. A bibliotheca fôra principiada no ultimo quartel do seculo XIV por um padre Vicente Militão, que fôra peregrino a Roma, e estivera no concilio tridentino, e lá fôra muito acceito, por seu saber, e reportadas virtudes, ao santo arcebispo de Braga, D. Bartholomeu dos Martyres. Encadernadas em pergaminho, com o Breviario do padre Vicente, lá estavam algumas cartas do primaz das Hespanhas, cartas magoadas revelando o peso das obrigações prelaticias, e outras mais de folga, datadas no convento de Vianna do Minho, onde o humilde principe da igreja se fôra a descançar, e morrer nas delicias «d’uma estreita cella, paredes nuas, em mezas sem panno, um candieiro de ferro pendurado de um prego, uma cama de frade ordinario sem cortina, nem genero de paramento sobre uma táboa de pinho.» Estas palavras de fr. Luiz de Souza recordava o padre João Ferreira, quando religiosamente deletreava os caracteres amarellados e meio delidos das cartas do arcebispo.

Voltando á livraria, os successores de Padre Vicente enriqueceram-n’a, empregando n’ella quanto dinheiro podiam amealhar, sem prejuizo dos pobres. Como quer, porém, que o rendimento de sua grande lavra sobre-excedesse o gasto, o remanescente era trocado por livros, enviados á escolha de entendedores monasticos, com quem os padres de Villa Cova, por amor da sciencia e piedosamente, entabolavam correspondencia.

Os tres ultimos sacerdotes d’esta familia não tinham comprado livro algum, desde os ultimos annos do reinado de D. João V, em que a religião degenerou de sua simplicidade em luxuosa, e, até certo ponto, hypocrita ostentação; e, de mais a mais, os que a tractavam moral ou dogmaticamente, escreviam-n’a em linguagem, que não era a de Domingos Feo, Thomé de Jesus, Heitor Pinto, Arraes e Lucena. Para bem aquilatarmos em qual grau de purismo classico andava a vernaculidade n’aquella serie de padres letrados, basta dizer-se que no frontespicio do primeiro volume dos sermonarios do padre A. Vieira, um padre Timotheo Militão escrevera: «Tambem este grande engenho está gafado!» A gafa de que se lastimava o escrupuloso idolatra dos aureos escriptores sem liga era aquelle geito de conceitista italico-hispano em que o preclaro jesuita, a espaços, se descuidava na oratoria.

Em quanto Ladislau e o vigario se entretem n’estas e semelhantes praticas, ingratas ao leitor de paladar mais delicado, Brazia está assim conversando com Peregrina, hombro a hombro, no escano da lareira, emquanto a galinha ferve:

—Brazia não seja eu, se Deus me não ha-de ajudar! Lá que os moços se querem, como eu á menina dos meus olhos, isso vou eu jural-o sobre umas Horas, sendo preciso! A menina é uma perfeição; o meu Ladislau é aquillo que alli está. Duas creaturas assim já vem lá de cima talhadas para serem uma da outra; e, quando acertam de se toparem no mesmo caminho, vão ambas p’ra direita, ou p’ra esquerda. Não tem remedio senão casarem-se.

—Pois sim—repetia Peregrina o que havia dito duas vezes:—Ainda hoje nos vimos, e já a sr.ª Brazia nos quer ver casados?

—Então a menina cuida que uma pessoa só se conhece por ser vista muitas vezes? Eu ouvia ler a Historia Sagrada á sr.ª Sebastiana, que sabia ler como um padre, e já lá está na corte dos bemaventurados... Rezemos-lhe por alma.

A sr.ª Brazia rezou alto, e Peregrina mentalmente.

Requiescat in pace,—disse a velha.

Amen,—respondeu Peregrina, e benzeram-se.

Brazia continuou:

—Pois como eu vinha dizendo, a Historia Sagrada conta que antigamente um moço sahia da sua terra em cata de outra terra, onde estava a noiva, que elle nunca vira. Batia á porta do sogro, pedia-lhe a filha e casava. Isto é que eram tempos, moça! «O coração não tinha peccado que fosse preciso descobrir com o tempo» dizia o sr. padre Praxedes, quando a irmã se admirava de casamentos assim de fugida. Olhe-me bem n’isto, que estas palavras teem muito que deslindar. N’aquelle tempo, a moça casadoura era por dentro como por fóra; via-se como á luz do meio dia o que ella lá tinha no seu interior: agora, pelos modos, é preciso espreitar muito tempo as inclinações das pessoas! O pai do sr. Ladislau era dos rapazes antigos: viu a menina lá em cima na lapa da Crasta, gostou d’ella, tornou lá a saber se ella o queria, foi ás Chãs aonde ao sogro; e, d’ahi a dias, já ella aqui estava a encher esta casa de satisfação. É como foi, e é como ha de ser! Senhor Jesus do bom despacho, não me deixeis ficar mal!

Ladislau e o vigario, chamados pela velha, desceram á cosinha, onde estava posta a meza. Jantaram alegremente e de vontade. Os dizeres de Brazia, tendentes todos ao casamento, assazoavam as singelas iguarias do vigario, que pondo os olhos, quer na irmã quer em Ladislau, reparava na gravidade com que em silencio escutavam as facecias da inquebrantavel velhinha.

—Será possivel que...

Disse entre si padre João, e cuidou ler no rosto do hospede e no rosto da irmã esta resposta:

—É possivel, e é certo.

Findo o jantar, sahiram a tomar o sol na eira.

Brazia, porém, puchou da batina ao vigario, chamou-o de parte, e disse-lhe:

—Deixe-os lá...

Padre João não achou que responder á velha, e fez menção de seguir sua irmã, que o estava esperando.

—Não vá sem me ouvir duas palavras, sr. reverendo vigario. Sente-se n’este tamborete, que eu vou dizer aos moços, que vão á sua vida, e nós lá iremos ter.

O dialogo deteve-se boa meia hora. Depois sahiram á eira; e o padre levava amparada no braço a velha, que jogava difficilmente os joelhos.

—Ora diga-me o que elles estão fazendo, que eu já não enxergo nada—murmurou a velha.

—Ladislau está apanhando flores na ribanceira.

—Vê?—acudiu Brazia—que lhe disse eu? Flores são amores... E ella que faz? Não anda tambem ás flores?!

—Não, tia Brazia. Está sentada.

—A enfiar algum annel de missanga?

—Tambem não.

—Não? Então é uma ingrata. Vou ralhar com ella. E, acercando-se com extraordinaria presteza de Peregrina, disse-lhe em tom de graciosa severidade:

—Vá fazer tambem um raminho, ande, menina, e dê-o ao sr. Ladislau.

Peregrina poz a vista timida no irmão. O vigario fez um gesto de consentimento. Ergueu-se ella a colher umas enfezadas flores silvestres e inverniças que se definhavam entre os silvedos, e Brazia, ao mesmo tempo, dava umas palmadas e tregeitava uns saltinhos de cegonha, muito para riso, senão justificassem a alegria que lhe acreançava os oitenta annos. Santa creatura para namorados era aquella Brazia! Estar ella dizendo tudo que elles queriam dizer-se; fazer-se lingua de corações á hora em que nem os proprios donos saberiam articular a linguagem d’elles; obrigar Peregrina a colher flores, quando a moça estava perguntando a si propria se parecia mal colhel-as e offerecel-as! E hão de rir-se pessoas, que amaram ou amam, da velhinha que tudo aquillo fez com tanto sizo e proposito e angelicas intenções!

Peregrina deu as suas flores a Ladislau, e recebeu o ramilhete d’elle. Qual dos dous tinha coração mais feminil? Pelo rubor da face não havia estremal-os.

—Onde iria a tia Brazia?—perguntou o vigario, vendo-a sahir açodada e regamboleando as rebeldes pernas pela eira fóra.

A velha pouco se deteve. Chegou esbofada. Chamou de parte Ladislau, e disse-lhe de modo que o vigario e a irmã ouviram:

—Esta argolinha de ouro deu-a seu pae á mãisinha na vespera de se casarem, e já foi de sua visavó. Aqui a tem. Vá dal-a á sua noiva, senão levo-lha eu.

Ladislau ficou atonito e immovel. O vigario sorriu, e disse á velha:

—Sr.ª Brazia, vm.ᶜᵉ está sonhando um alegre sonho. Deixe ver se o tempo, com a vontade de Deus, confirma os seus bons desejos, que serão tambem os meus.

Ladislau, como levado de insuperavel força, avisinhou-se de Peregrina e offereceu-lhe o annel. O vigario, abalado e commovido pela acção inesperada do mancebo, tomou a mão convulsa de sua irmã, e vestiu-lhe o annel. Depois, apertando nos braços o noivo de Peregrina, exclamou:

—Pois não é um sonho?

Accudiu Brazia:

—Qual sonho? O que eu quero é os primeiros banhos apregoados no domingo; e de hoje a um mez esta menina é minha ama.

—Sua amiga, sua filha!—disse Peregrina abraçando-a.

Assim foi. Na quarta dominga seguinte receberam as bençãos estas duas creaturas preordenadas para a felicidade da terra e ceu.

Os casamentos, que Deus escolhe, são assim determinados com uma singelesa, copiada dos tempos visinhos da creação de varão e femea, como entes necessarios a si, e de repente identificados por unidade insoluvel de almas. E então era o viverem tão sós e um, como quem de uma só vida tinham de prestar contas ao juiz supremo.

A mim parece-me que o cazar-se a gente devia ser como Ladislau e Peregrina. Andar annos com o coração em ancias é desvigorisal-o para quando elle é mais necessario. Pelo ordinario, os noivos que se amam longo tempo, cazam-se quando o mais fino da sensibilidade está desgastado na abstracção e na chimera.