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O Bem e o Mal: Romance cover

O Bem e o Mal: Romance

Chapter 13: XI Guilherme Lira
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About This Book

This work explores the duality of good and evil through a narrative that intertwines the lives of various characters, reflecting on their moral choices and the consequences that arise from them. Set against a backdrop of societal norms and expectations, it delves into themes of virtue, vice, and the complexities of human nature. The characters navigate their relationships and personal struggles, revealing the often blurred lines between right and wrong. Through rich descriptions and philosophical musings, the text invites readers to contemplate the nature of morality and the impact of individual actions on the broader community.

«Meu compadre. Vai ser surprehendido com a minha petição, á qual subscrevem minha mulher e meu cunhado. Logo que esta receber, metta-se a caminho com a sua senhora, e venham direitos á sua casa de Villa Cova. Iremos os tres esperal-os a meio caminho. Perder um anno da Universidade não faz implicancia á sua futura sorte, se ella tem de ser boa. Esperamol-os; porque não posso acreditar que meus compadres faltem ao seu Ladislau

Casimiro leu, e disse:

—Vamos, e vamos hoje.


X
A victoria d’uma creancinha

D. Mafalda de Nellas, voltando de Miranda a Pinhel, trazia a escalavrar-lhe o coração o espinho do despeito. Isto não induz a liquidarmos que a menina amasse o primo D. Alexandre. O despeito das senhoras basta a explical-o a indifferença mesma dos homens que ellas desamam.

Como quer que fosse, Mafalda saira de Miranda, odiando o cunhado de sua irmã, no dia seguinte ao da ida d’elle para Coimbra.

Eis aqui o que ella contou ao pai, logo que chegou:

—Estava eu n’uma das grutas da quinta, quando o primo Alexandre, sentando-se, sem me vêr, nas costas da gruta, deu um grande assobio. Fez-me curiosidade aquillo, e estive quieta para vêr o que sortia d’ali. Pouco depois, chegou um homem de grandes barbas, que eu já tenho visto em nossa casa, em companhia do mano Sueiro.

—Bem sei, o desertor—atalhou o pai.

—É isso: eu já tinha ouvido lá dizer á mana, que elle era desertor.

—E depois?

—Depois o primo, assim que elle chegou, disse-lhe:—Olha que vaes commigo para Coimbra. Está decidido—e o desertor respondeu: «Pois isso é que é preciso!»—Mas vê se aparas essas barbas, que tens cara de facinora—disse o primo—eu tenho medo que, em apparecendo morto o Casimiro, todos digam que foi obra do meu creado.—Eu quando tal ouvi comecei a tremer, e tive medo d’aquelle homem! Quiz dizel-o á mana Guiomar; mas ella falla tão mal do Casimiro e da mana Christina, que julguei imprudente dizer o que ouvira.

—E depois?—atalhou o velho com inquietação.

—Depois, estiveram a fallar em facadas e tiros. E o desertor dizia: «são dous palmos de ferro, fidalgo.» E tirou da algibeira uma navalha, que relusia, e tamanha, meu pai, como eu nunca vi! Ainda disseram mais coisas que não me lembram, e foi cada um para seu lado. Ó papá, elles irão matar o marido da mana Christina? Coitado!... por que é que o matam?

—Dá me papel e tinteiro, e um creado que apparelhe o macho para ir immediatamente a um recado.

Ruy de Nellas escreveu esta carta.

«Sr. Ladislau. Sei que alguem intenta matar em Coimbra o marido de Christina. Ha tres dias que para ali partiu o assassino ou assassinos. Avise-o como seu amigo, para que se acautelle, ou se retire. Eu aborreço os infames, e as vinganças covardes: por isso me apresso a participar-lhe este plano, que oxalá não esteja executado, quando chegar a sua carta. Espero em Deus que não. Do seu amigo, Ruy de Nellas

O creado partiu a toda a brida.

Ladislau leu a carta em suores frios. Escreveu duas linhas de agradecimento a Ruy, e preparou-se para ir a Coimbra. Acaso entrára o vigario, e, lendo a carta, impediu de ir, allegando que o correio chegava primeiro.

Padre João e seu cunhado, sabiam os successos de Coimbra, e, sem se consultarem, nomearam D. Alexandre.

—Casimiro está vivo—disse com firmeza o padre.

—Quem n’ol-o assevera?!—perguntaram Peregrina e Ladislau.

—É o raciocinio. Alexandre é incapaz de matar de rosto ou á traição. Precisamente leva um sicario assalariado que eu conheço ha dez annos. Os faccinoras por estipendio são muito covardes, porque amam tanto a vida que, para sustental-a se expõem a perdel-a. Se D. Alexandre offendido vergonhosamente carece de animo para se desaffrontar, devemos crêr que ao carnifice alugado falte a coragem para accommetter o homem que o não offendeu. Além de que eu vou jurar que Casimiro se prepara contra as insidias do seu inimigo, e terá só de pelejar com um homem. Sobre todas essas conjecturas, roguemos a Deus pela vida do nosso amigo, e escreve-lhe a chamal-o em termos, que não assustem Christina.

Escreveu Ladislau a carta copiada no anterior capitulo; e, no dia seguinte, sahiram de Villa Cova, e, á segunda jornada, pernoitaram em Gouvea. Dous dias depois chegaram Casimiro e Christina.

A esposa de Ladislau, para abraçar sua comadre, pousou sobre o leito a creancinha que lhe adormecêra ao seio.

Christina, porém, como se não visse o fervor da amiga, ajoelhou á beira do leito, e beijou soffregamente o menino, que sorria aos affagos de algum anjo. Era bello de verem-se todos cinco, em redor da creança, como se para outro fim se não reunissem! Parece que ella lhes estava dizendo: «Distrahi vosso espirito de dores, que eu estou pedindo a Deus que vos defenda.»

Peregrina pôde furtar as caricias de Christina, tomando-a para si com força.

—Estava a invejar-te, minha comadre!—disse a esposa de Casimiro—mas olha, não devo invejar-te, não!...

E disse-lhe ao ouvido breves palavras, explicadas pela exclamação de Peregrina:

—Sim? e não m’o tinha dito!... que ditosas seremos com os nossos filhinhos!

O vigario sorriu-se, e murmurou:

—Não ha creanças mais creanças que as mães! Estas alegrias raras vezes lh’as recomeçam depois os filhos!...

Casimiro concentrou-se tristemente, e Christina disse:

—Não fallem em mãe diante de meu marido, por quem são!

—Fallem, fallem—disse Casimiro—que eu tenho de encontral-a no ceu pelo muito que a desejei n’este mundo.

E, tomando o braço de Ladislau, chegou a uma janella, e perguntou:

—Que é isto? Que significa esta chamada?

—Não m’o pergunte diante de sua senhora.

—Porque não? ella é forte. Se um dia me fraquearem os esteios da honra, minha mulher ha de fortalecer-m’os. Diga, meu compadre.

Ladislau mostrou a carta de Ruy de Nellas; e Christina, ouvindo-a ler, exclamou:

—Não te disse eu?... Era o desertor ou não?

—Era o desertor—respondeu o vigario.

—Pois sabia?—acudiu Christina.

—Disse-m’o a razão e a pratica dos valorosos barões de Miranda. V. ex.ª viu-o?

—Vi: mostrou-m’o o nosso anjo da guarda!... E meu pai é que te avisa, Casimiro! Quem me déra poder beijar-lhe a mão!

—Seu pai é um homem de bem ás direitas, minha senhora—disse o vigario—Seria um modêlo de virtuosos, se os preconceitos de raça o não molestassem. Porque não ha de v. ex.ª ainda beijar-lhe a mão? Esperemos.

—E agora?—disse Casimiro—que querem de mim? Será airoso que eu me vá esconder a Villa Cova das iras de D. Alexandre?

—É dever de marido e pai fugir o perigo—disse Ladislau—Sabemos que lhe sobra animo; porém agora, quer-se e requer-se que o coração seja maior que o animo. Sua senhora manda; o vigario aconselha; e minha mulher e eu rogamos. Falta-lhe paciencia para viver alguns mezes na tristonha casa da serra? É assim ingrato áquella terra agreste onde desabrocharam todas as flores da sua felicidade, meu compadre?!

—Ó meu amigo, meu generoso irmão!—exclamou Casimiro, nos braços de Ladislau—Vamos, vamos para Villa-Cova. Lá sei eu que tenho segura a vida, a alegria, e sempre viçosas as flores de felicidade, que se abriram no seu nobre coração, e para mim! Não é covardia fugir. Covardes são os que não tem uma esposa, e fogem; covardes são os que não tem amigos como vós, e fogem!

—E no filhinho não fallas?—disse Christina sorrindo-lhe com incantadora meiguice.

—Não o disse eu!—acudiu o vigario—Agora, quer s. ex.ª que todo o coração de seu marido esteja embebido do futuro filhinho! Valha-vos Deus, mães loucas do amor de vossos filhos, que sois capazes de ceder do coração dos maridos em beneficio dos pequerruchos, anjos purissimos a quem basta o bafejo do Senhor!

N’estas doces praticas, que eu, a mêdo, submetti á benevolencia do leitor, se passaram as horas do descanço, até ao repontar da alva, em que proseguiram sua jornada. Lá vão os felizes, escoltados por suas mesmas virtudes.

Entretanto, recebeu D. Alexandre de Aguilar a nova de ter sahido de Coimbra Casimiro Bettancourt, e o mesmo foi assoalhar, mediante alguns necessitados de sua recheada bolça, que o furriel se evadira, sabendo que ia ser desafiado a duello de morte. Correu o boato, justificado por circumstancias: a precipitação da sahida, o estarem abertas as aulas, o ignorar-se o intento da retirada, o ter dito Casimiro, na vespera, que procurava casa em Coimbra, tudo induzia a crer a atoarda molesta á reputada intrepidez do militar.

A Vedeta da Liberdade, jornal portuense, publicou uma correspondencia de Coimbra, em que se dizia em grypho: que um estudante militar, appellidado Bettancourt, fugira com a mulher para se não bater com D. Alexandre de Aguilar, academico brioso, a quem, no anno anterior, insultára. E accrescentava: O tal militar é avezado a fugas: uma vez fugiu com a filha d’um nobilissimo cavalheiro, onde seu tio carpinteirava agora; fugiu com as costellas incolumes, porque o tio carpinteiro não sabe endireitar costellas quebradas.

O jornal appareceu em Villa Cova subscriptado, a Casimiro de Bettancourt.

Casimiro leu a correspondencia em voz alta.

E Ladislau perguntou:

—Que é isso?

—É uma gazeta—disse o vigario.

—Uma gazeta?—reperguntou Ladislau.

—Sim.

—Mas... (desculpem a minha ignorancia...) como se faz isso?

—Isso que, meu irmão?

—Como se estampam esses insultos?

—Estampam-se.

—Então...—estou confuso, e vejo que me não percebem...—as gazetas servem de insultar? quem quer infamar alguem vai a casa do homem, que tem esse modo de vida, e diz-lhe: «imprima lá esse insulto», é isto?

—É isso—illucidou o padre—com o accrescento de que o dono do jornal recebe tanto por linha do insulto publicado.

Ladislau ergueu-se com nunca visto impeto de furia, e exclamou:

—Então isso é infame! e a civilisação que isso consente é a barbaria, é o escarneo de Deus e das leis de nosso paiz!

Casimiro sorriu, e disse:

—A indignação de meu compadre tem graça!... A que distancia este bom rapaz vive do mundo culto! Quer elle, talvez, que a civilisação esteja em Villa Cova, e a barbaria em casa do jornalista!... A gazeta, meu querido amigo, tem outra face, que o sr. vigario lhe não mostrou, e é que, se eu quizer insultar d’aqui D. Alexandre de Aguilar, o mesmo dono da gazeta me vende o espaço de seu papel, e imprime o meu insulto; e, no dia seguinte, vende o mesmo espaço para o louvor de D. Alexandre e meu. O dono d’este papel é como a estatua em que Aretino fixava as suas vaias aos reis e aos papas, n’um tempo em que papas e reis eram cousas sacratissimas e inviolaveis. Agora, que não ha nada defêso, com que direito me hei de eu queixar? Não me alistei eu no exercito que defende as instituições livres?! Seria paradoxo gritar eu contra uma alavanca do progresso, chamada nem mais nem menos que «Vedeta da liberdade»! Os homens livres passam deante da estatua de Pasquino, e descobrem-se. Assim como a discussão racional e illustrada aclara as escuridades e aplana os empeços da ideia util, por igual razão as injurias á pessoa, os ataques á moral de cada individuo servem de o abrir, á luz da analyse, e ver tudo o que elle lá tem dentro do coração e consciencia. A licença da imprensa é uma inquisição: em lugar de fogueiras tem atoleiros de lama. Das chammas do auto-de-fé sahiram almas purificadas, no crer de alguns theologos; e da alma da imprensa desbragada devem sahir as consciencias lavadas, no entender de alguns legisladores. Sejamos do nosso tempo, meu compadre.

—Pois, sim—disse Ladislau—mas deixe-me render louvores a Deus por me ter dado o nascimento n’estas serras! Eu não cuidei que era assim o mundo. N’este ultimo anno quantas paixões más que eu não conhecia! Meu mestre decerto as ignorava; senão, ter-m’as-ia dito. Os meus livros tambem m’as não disseram...

—É por que os seus livros são bons—atalhou Casimiro Bettancourt—A corrompida sociedade da Roma imperial não tinha gazetas; mas tinha historiadores e poetas. Se meu compadre os ler, imagina que maus inventores o querem deleitar com fabulas hediondas. O homem foi sempre mau; será mau até ao fim. A sociedade parece melhor do que foi, olhada collectivamente: é parte n’isto a lei, e grande parte o calculo. Cada individuo se constrange e infrea no pacto social para auferir as vantagens de o não romper: porém, o instincto de cada homem, em communidade de homem, está de continuo repuchando para a desorganisação. Eu acceito, como puros os corações formados na solidão, a não se dar a segunda hypothese do proverbio, que disse: homem sósinho, das duas uma: ou Deus ou bruto[4]. Melhor seria dizer, com Santo Agostinho, ou anjo ou demonio. Ladislau formou-se aqui, rescende virtudes extraordinarias; mas, se fôr ás cidades, á feira dos vicios, sentirá coar-lhe um veneno corrosivo nas entranhas; e, a meia volta, perderá de vista a benigna estrella d’estas suas montanhas. Ó meu amigo, não se alongue do seu paraizo! não queira saber que nome tem, a dez leguas da sua aldeia, o que meu compadre chama dever, civilisação, amor, caridade e Deus.

Os gosos da vida domestica aligeiravam os mezes da inactividade de Casimiro. Ao quinto de residencia em Villa Cova, realisou-se a ventura saudada por Peregrina na estalagem de Gouvea: Christina foi mãi de uma menina, que trouxe do céu o seu quinhão de felicidade, do qual todos participaram.

Queria o pai que Ladislau e Peregrina fossem padrinhos; mas o vigario, consoante as velhas praxes de filhos casados contra vontade paternal, pediu que fosse convidado o avô, por carta de D. Christina.

Escreveu ella com humildade sem baixeza uma carta, onde se lia este periodo:

«É uma ternura filial que me anima a escrever a meu pai: não é a necessidade que me obriga. Se sou pobre, ainda não tive occasião de sentir desejos de ser rica. O perdão de meu pai é que eu desejo e peço, se foi delicto o acto que está sendo a minha felicidade. Quizera um dia beijar as mãos de meu pai e dizer-lhe que tenho tanta vaidade em ser filha de v. ex.ª como esposa de Casimiro.»

Foi lida a carta e discutida. O vigario achou duras algumas palavras d’aquelle relanço, e pediu a illisão das palavras: «se foi delicto o acto que está sendo a minha felicidade»; bem como: «tenho tanta vaidade em ser filha de v. ex.ª como esposa de Casimiro.» As primeiras palavras foram substituidas: as ultimas não. Christina nem ao marido obedeceu.

Ruy de Nellas recebeu a carta, e leu-a sem rancor até ás expressões rebeldes á censura do vigario; mas, n’este ponto, rasgou o papel e disse ao portador:

—A resposta é esta: diz lá que eu é que não tenho vaidade nenhuma em ser padrinho de um filho do sr. Casimiro.

Tal resposta magoou medianamente a familia de Villa-Cova.

—É soberbo!—disse Ladislau.

—Preconceitos de raça—acrescentou o vigario.

—Não tem outra falha a excellente alma do sr. Ruy.

—Pois ha de ser padrinho da neta!—tornou Ladislau.

—Que capricho é esse, meu compadre?—perguntou Casimiro.

—Não é capricho: é batalha dada contra a soberba: havemos de amolgal-a com a brandura.

Na segunda dominga, posterior ao nascimento da menina, sahiu, ante-manhã, de Villa Cova Ladislau, uma ama de leite, e a creancinha. Chegaram a Pinhel ás nove horas, e elle entrou á igreja parochial, onde, por informações de mestre Antonio carpinteiro, Ladislau soubera que o fidalgo ia ouvir missa. A ama sentou-se no adro, e esperou, rodeada de meninos, que se acotovellavam para ver o rosado rosto da baptisanda.

Ladislau apresentou-se ao abbade, com uma carta do padre João Ferreira, e conversaram.

Ás dez horas tangeu a sineta á missa, e chegou o fidalgo com suas filhas, e foram ajoelhar na alcatifa da sua capella privativa. Antes do terceiro toque, o abbade aproximou-se de Ruy de Nellas, e disse-lhe:

—Faz v. ex.ª a esmola de fazer christã uma creancinha?

—Sim, abbade, pois não!

—E de escolher a madrinha?

—Será minha filha Mafalda.

Chamou elle a menina, e acercaram-se do baptisterio.

A ama entrou com a creança, chamada pelo sachristão.

A um lado, estava Ladislau com uma tocha, escondendo-se ao lance d’olhos de Ruy de Nellas.

Ao descobrimento da menina, Mafalda exclamou:

—Ai! tão linda que é!... Veja, papá! Ó manas, venham ver que perfeição!...

—Quem são os pais?—disse o fidalgo.

O abbade, como tivesse começado as ceremonias do sacramento, não respondeu; e, pouco depois, perguntou:

—Qual é o nome?

—É o meu—disse Mafalda.

Findo o acto, foram á sachristia lavrar no livro o assento baptismal.

O abbade escreveu á vista dos apontamentos, e leu depois para conhecimento dos padrinhos:

«Mafalda, natural de Villa-Cova, termo de Pinhel, filha legitima de Casimiro Bettancourt, natural de Santarem, e da ill.ᵐᵃ e ex.ᵐᵃ sr.ª D. Christina Elisiaria de Nellas Gamboa de Barbedo»...

—Como?!—exclamou o fidalgo—Como se intende isto? Que abuso foi este, sr. abbade?!

Ladislau sahiu do escuro da sachristia, e disse:

—O abuso é meu, sr. Ruy de Nellas. E v. ex.ª não me castiga, porque eu vou pôr em seus braços a creancinha a implorar o meu perdão e o de sua mãi.

E tomou a menina dos braços da ama, e depositou-a nos da madrinha, dizendo-lhe:

—Seja v. ex.ª a intercessora de sua irmã!

—Dê-lhe um beijo, papá! rogou maviosamente D. Mafalda.

O velho poz a mão na face da creança, e disse:

—Não tens culpa tu, pobre innocente!...

E o abbade continuou a leitura do assento baptismal, sorrindo, e olhando por cima dos oculos, para ver Ruy de Nellas, que deixava chupar-lhe a creança no dedo mendinho.

Ao sahirem da sachristia, o fidalgo disse á ama da creança.

—Vá lá a casa, depois da missa, mulher, e o sr. tambem se quizer.

Ladislau fez um signal de agradecimento.

Finda a missa, a menina foi levada a casa do avô. As quatro tias deram inquietações á ama, temerosa de que lhe abafassem a creança com beijos.

Entretanto, Ladislau contava a Ruy de Nellas os successos de Coimbra e os aleives da correspondencia da «Vedeta da Liberdade».

O velho ouviu-o em silencio; mas com ar de satisfação, em quanto aos brios de seu genro no justo castigo de Alexandre; porém, quando soube que as gazetas traziam o seu nome aparelhado com o do carpinteiro, irritou-se, e clamou:

—Quando pensei eu de andar pelas gazetas!... É o que minha filha me arranjou!...

Este accesso durou alguns segundos.

Continuaram a conversar serenamente. Eram horas de partir para Villa-Cova. O fidalgo mandou entrar a afilhada, e deu-lhe um beijo, e duas peças á ama.

E—caso unico!—apertou a mão do lavrador de Villa-Cova, e disse-lhe por ultimo:

—O tempo fará o resto. É cedo por ora! A ferida sangra ainda!

—O balsamo do Evangelho, sr. Ruy de Nellas...—respondeu Ladislau, sahindo.


XI
Guilherme Lira

Seria ocioso, bem que alegre trabalho, contar os jubilos de Christina, retomando ao seio a filha, que seu pai e irmãs tinham beijado. Casimiro, homem não estranho a vanglorias, que parecem ser condição das indoles arremessadas ás glorias uteis, folgava de ver sua filha acariciada pelo fidalgo, cuja prosapia, o moço, nas verduras dos dezoito annos, sinceramente invejava. Ó barro humano!

Disse Ladislau que Ruy approvára a sahida de Coimbra, e esperava que o anno decorrido esfriasse a vingança de D. Alexandre, estando elle de mais a mais como vingado, fazendo crer que lhe fugia Casimiro. Era tambem este o parecer do vigario e de Ladislau. Casimiro, ainda assim, dizia contrariando:

—Não, meus amigos: o odio dos fracos é inextinguivel; é a unica força, a energia tenebrosa, que lhes deu a natureza.

No seguinte anno lectivo, voltou a Coimbra, com maior familia, o pobre grangeador do futuro. Doia-lhe ter de augmentar suas despezas, sahidas todas dos celleiros de Villa-Cova. Era grande magoa para o aberto coração de Ladislau entender em pacificar o espirito do seu amigo, fazendo-lhe sentir que escassamente lhe emprestava uma parte das sobras de suas colheitas. E santamente mentia Ladislau! A sua lavoura, comquanto grande, era toda de cereaes, vendidos por baixo preço, e urgentes ao consummo e vestir de sua familia. O que elle estava dispendendo era dinheiro antigo, que encontrára, ouro do seculo XVI, peculio amuado ao canto do armario de pau santo, em que seus tios padres iam annumerando algumas moedas, muitas menos que as derramadas pela pobreza.

Lembrava-se Christina de escrever ao pai, a pedir-lhe sua legitima materna. Casimiro, antes que ella expendesse o seu pensamento, atalhou-a n’estes termos:

—Sendo preciso, iria primeiro pedir a meu tio carpinteiro metade do seu estipendio de cada dia.

Peregrina, sabedora do intento, revelara-o ao marido.

Ladislau, a sós com a filha de Ruy de Nellas, queixou-se, observando-lhe que era crueldade obrigal-o a faltar á sua palavra, tendo elle dito a Ruy de Nellas que sua filha e marido nunca lhe pediriam meios de vida.

Os raros amigos de Bettancourt, assim que o viram em Coimbra, repetiram-lhe as calumnias divulgadas, fingindo não acredital-as. O mais sincero e rude ousou dizer-lhe:

—Déste um mau passo em fugir.

—Não fugi. O amigo, a quem devo a minha subsistencia em Coimbra, chamou-me, e eu fui.

—Não devias ir, tendo sido desafiado por D. Alexandre.

—Nunca fui desafiado.

—Como não foste!?

—Nunca fui desafiado; e, no caso de o ter sido, regeitaria a proposta. Não jogo friamente a vida, que é de minha mulher e de minha filha, contra a vida de D. Alexandre, que é um homem abjecto, nem contra a vida do mais extremado em probidade. Nunca para mim alguem provará a sua honra, batendo-se com victoria, nem o vencido terei em conta de deshonrado. O duello póde significar algumas vezes coragem, mas sentença absolutoria de um infame, nunca.

—Mas decididamente não fugiste ao duello?

—Offende-me a renitencia—respondeu Bettancourt molestado.

—Desculpa, que é a renitencia de um amigo zeloso de tua dignidade. A academia acreditou em D. Alexandre e nos propagadores do boato. Appareceram homens a dizerem que tinham sido agentes do desafio.

—Mentiram.

—Mas a mentira vingou.

—Estou resignado: já a vi impressa n’um jornal, e achei-me forte na minha consciencia.

—Mas a opinião publica...—voltou o academico, espicaçando, em nome da opinião publica, o animo impenetravel do marido e pai.

—Que queres que eu diga á opinião publica?

—Que a desmintas: escreve uma correspondencia.

—Não desço.

—Descer! pois é descer acudires por tua honra!?

—Se a consciencia me não accusa, que logro eu em constituir a academia meu juiz? Além de que, meu amigo, eu venho estudar. Falta-me o tempo para o util: como hei de eu ir dispendêl-o a entreter a curiosidade publica? Diz aos teus amigos que eu sou calumniado, e elles julguem-me a seu sabor.

—Faz o que quizeres: dou por cumprida a minha missão de amigo.

Christina vivia tranquilla. Ladislau, que lançara espias em Miranda, soubera que D. Alexandre sahira para Coimbra, e o desertor ficára. A nova agradou a Casimiro, receioso dos sustos da senhora.

Recomeçou o academico os estudos do segundo anno com fervor. Sabia que seus mesmos condiscipulos o detrahiam, lamentando, como usam lamentar inimigos, a nodoa da farda de um militar. O facto estrondoso do botequim da rua Larga tinha esquecido, ou era interpretado de varios modos, todos estupidos; que a malquerença faz timbre em ser estupida, quando não póde ser feroz. Todavia, a frechada não lhe vasava ao coração. O pai extremoso abroquellava-se com a filhinha, e dizia á esposa:

—Sêde o meu mundo. Aos teus olhos sou quem sou, minha amiga. Infamam-me lá fóra; mas diz-me tu, filha, que eu sou digno de ti.

N’um sabbado ao cahir da tarde, passaram á Ponte, vindos da Quinta das Lagrimas, Casimiro, e sua mulher.

D. Alexandre de Aguilar estava sentado com numerosos estudantes nas guardas da ponte. Ao perpassar Casimiro, o fidalgo de Miranda tossiu aquelle grunhido peculiar do insulto. Os academicos de sua parcialidade, em respeito á dama, abstiveram-se de acompanhar o amigo na trossa.

D. Alexandre, desenfreado como costumam os covardes no momento em que persuadem-se não o serem, disse:

—Não se envergonha aquella dama! Que ostentação e baixeza d’alma.

Christina ouviu. O que o amor nobre faz d’uma alma timida! Voltou-se contra o parente, e respondeu:

—É muito infame!

—Silencio!—disse Casimiro, apertando-lhe convulsivamente o braço.

D. Alexandre expediu uma cascalhada; e os academicos, indifferentes ao conflicto, disseram-se:

—Com effeito! é muito covarde o Bettancourt, que deixa assim insultar a mulher! Comprehendam lá a decantada historia do botequim!

Na extremidade da ponte, estava o academico, já conhecido por seus dialogos com Casimiro. O marido de Christina aproximou-se d’elle e disse-lhe:

—Conserva-te aqui um instante ao pé de minha mulher, que eu volto já.

—Não!—exclamou Christina.

—Christina—disse elle com um aspecto, que a esposa nunca lhe vira.

E caminhou ao longo da ponte, sem denotar arrebatamento na serenidade do passo.

Os academicos do bando de D. Alexandre disseram:

—É elle que vem!

O fidalgo desceu-se da guarda como quem se prepara a receber o aggressor. Não era isso. O mêdo pesa como chumbo na região abdominal. Foi o gravame do mêdo que mecanicamente o desceu.

Casimiro lançou-lhe a mão esquerda á garganta, e com a direita levou-lhe a cabeça a aresta da guarda.

Depois como o atordoado fidalgo escouceasse os couces instinctivos da defeza, o aggressor abarcou-o pela cintura, no proposito de o despejar ao Mondego. Acudiram-lhe muitos, sem, comtudo, arremetterem contra o furriel. Casimiro sentiu nas barbas mão estranha. Olhou com impetuosa furia, e viu Christina, que punha as mãos supplicantes. Descurvou os dedos da garganta do estudante, e deu o braço a sua mulher. Pelo ar quieto, com que elle sahiu ao fim da ponte haviam de imaginar que o sujeito acabava de abraçar um amigo!

Grande parte da academia parecia andar envergonhada depois d’este successo. Os detraidores, chamados por algum amigo de Bettancourt, a dizerem ácerca do facto, corriam-se, e gargarejavam o desmentido, que os suppliciava.

O academico, mais dolorido do descredito de Casimiro, seguiu-lhe os passos a casa, abraçou-o com transporte, e exclamou:

—Tu és um grande homem!

—Vem vêr minha filhinha como dorme docemente!—respondeu Casimiro.

—Que dirão agora os calumniadores?—tornou o academico.

—Que eu sou um assassino.

—Um bravo! um modêlo de dignidade.

—Como quizerem. Vem ver minha filha, se gostas de creancinhas.

Foram. A mãi, que, uma hora antes, sentira denodo viril para aggredir o insultador, estava agora chorando sobre as faixas da filhinha. Casimiro aconchegou-a de si e murmurou:

—Então? que é isso, filha?

—Tremo pela tua vida, Casimiro!

—Convence-te, Christina: eu não posso ser morto por D. Alexandre, nem por assassinos de sua paga.

O fidalgo dos Vitos Alarcões tractou da cabeça na cama uns quinze dias: parece que o granito lhe entrou dentro obra de meia pollegada, sendo que em tal cabeça nunca tinha penetrado cousa alguma outra. Fechada a brecha, metteram-se as ferias de Natal, e o convalescente foi para casa.

Ladislau, sempre attento aos passos do desertor, soube que chegara a Miranda D. Alexandre de Aguilar, de cujo infortunio na ponte já estava informado por carta de Christina, que incessantemente lhe pedia toda a vigilancia sobre o scelerado.

D. Sueiro deu logo tento da cicatriz da cabeça fraterna, e disse:

—Levaste ou cahiste, mano?

—Cahi do cavallo.

—Bom tombo! ias ficando sem um olho! Estás um limpo cavalleiro, não tem duvida!

E ficaram n’isto; mas as familias d’outros academicos de Miranda, de bocca em bocca, fizeram chegar ás orelhas de D. Sueiro de Aguilar a rija sova, que levara o irmão.

O senhor dos Coutos de Fervença e Caçarelhos Estevães e Villariça disse ao irmão:

—Como assim?

—Assim quê?—perguntou D. Alexandre.

—Corre que essa cicatriz foi bordoada que levaste! Foi ou não?

—Foi desordem: dei e levei.

—E ficaste mal?

—Fiquei ferido; mas sem deshonra. O adversario era valente como as armas.

—Quem?

—O marido de tua cunhada.

—O villão? E vive!...

—Por em quanto... vive.

—De que serve aqui o Ayrão?

Ayrão era a graça do desertor.

D. Sueiro acrescentou:

—Leva-o, e mostra-lh’o. Acabemos com isto de uma vez... Estou a ver quando o tio Ruy de Nellas recebe o genro em casa. Já lhe baptisou o filho, e, escrevendo a Guiomar, fallou-lhe de Christina com piedade. O tio Ruy degenerou. Se viver muito, ha de envergonhar-nos.

Foi para Coimbra D. Alexandre.

Ladislau recebeu a ponto a informação: o desertor ficára. Avisou-o de Villa-Cova. Christina exultou; mas, seis dias depois, recebeu novo aviso: o sicario partira aforrado, e em disfarce. A pontualidade d’estas informações deviam-se a um jornaleiro de Villa-Cova, o qual, industriado por Ladislau, fôra a Miranda pedir trabalho á casa dos Alarcões, e lá ficára servo de lavoura.

D. Alexandre concertára o plano do homicidio, com estupido ardil: já se lhe não dava que se lhe imputasse a morte de Casimiro; e, para desviar suspeitas de braço estranho, escondia o matador em casa.

Ayrão entrou de noite, e sumia-se de dia nos quartos escusos da casa. Os frequentadores dos jantares de D. Alexandre guardavam delicada reserva ácerca da desgraça do mez anterior. O amphitrião é quem, uma vez por outra, dizia:

—Tenho sêde de sangue!

Ou, bebendo até cahir, exclamava:

—Á saude do assassino, que ha de vingar a honra de vinte gerações de fidalgos de solar conhecido!

Defronte de D. Alexandre morava o estudante de direito Guilherme Lira.

Lira foi o mais esforçado e turbulento academico dos seis annos subsequentes á restauração da liberdade. Presidiu á famigerada «Sociedade da Manta»[5]. Era o pau mais valente do riba-Tejo, e o mais figadal inimigo de poltrões.

Do fidalgo de Miranda tinha elle nojo, nojo favoravel ao covarde; se fosse odio, tel-o-ia desorelhado.

Observou Guilherme Lira que em casa do visinho D. Alexandre estava um homem de cara sinistra, o qual se escondia no escuro da casa assim que nas janellas fronteiras assomava gente. Lira espreitou, e viu-o, accendendo o cachimbo no charuto do amo, e gesticulando com aquelle especial geito das féras humanas, vesadas ao tracto da taverna, da feira, e da encruzilhada.

Guilherme sympathisava d’alma com Casimiro Bettancourt. Depois do facto da ponte, estando elle com o seu bando de bravos na Calçada, viu Casimiro, que vinha com sua esposa. Lira sahiu da roda, foi á frente do furriel, e disse, com os olhos em Christina:

—Dê-me v. ex.ª licença que eu abrace seu marido.

E pegou d’elle ao alto soffregamente, exclamando:

—Que pena que tu sejas casado, homem de figados, que te queria entregar o macête da minha loja!

Casimiro sorriu, agradeceu, e apertou-lhe affectuosa e modestamente a mão.

Isto explica a espionagem de Lira, e o aventar de prompto que o ignobil visinho traçava a morte de Casimiro.

Foi logo d’alli em procura do estudioso mathematico, e disse-lhe:

—Olha que o covarde tem uma besta-féra em casa. Estuda socegado, que eu te guardarei, porque não estudo, nem tenho que fazer.

—Agradeço—disse Casimiro—mas, em verdade te juro que não temo a besta-féra.

—Bem sei, rapaz, bem sei; mas o que eu te venho dizer é que não penses mesmo no modo de a mandar ao diabo. Isso cá se arranja. Adeus: não te quero roubar tempo.

Descubriu Guilherme que D. Alexandre sahia de noute, e com elle outro academico sobre quem a capa mal ageitada ia delatando a contrafacção.

Fez-se Lira encontrado com elles, metteu-lhes a cara, e reconheceu o assassino, sob o disfarce de estudante.

A traça do homicidio era desesperada. Como Casimiro passava as noutes estudando, Ayrão lembrara il-o matar em casa. O rancor applaudiu o alvitre, e accelerou a execução. D. Sueiro esporeava de lá os brios do mano e pasmava da demora.

Descubriu Lira que os visinhos por volta de dez horas paravam á sombra do Arco, que faz a extrema da Couraça dos Apostolos, onde morava Casimiro, e depois subiam distanceados a calçada, e o mais corpulento, que era o disfarçado, contra-punha de leve o hombro a uma porta de quintal, ou remirava a janella alumiada pelo clarão do candieiro, ao qual Casimiro estudava até duas horas da manhã.

As portas apalpadas não davam de si; arrombal-as com estrondo seria derrancar o plano.

Accudiu nova idéa ao homicida: chamar Casimiro á janella, e desfechar-lhe um tiro.

Reflexionou D. Alexandre, e previu que a opinião publica havia de reprovar o covardissimo feito.

Regeitou, por tanto a idéa, e reforçou-se na do assalto.

Casimiro Bettancourt ignorava o que ia cá fora em sete noutes successivas. Guilherme achou inutil avisal-o. Queria elle egoistamente para si a cabal satisfação de castigar os miseraveis, sem incommodo do estudante. A muito custo se refreára, durante as sete noutes, á espera de lhes comprehender o intento, e cahir sobre elles no momento de o praticarem.

Guilherme Lira desvellava-se e preoccupava-se d’esta catastrophe, como se vida de pai, irmão, ou amada corressem perigo!

Sublime doido! Sympathica loucura!


XII
Serenidade da innocencia

Ás dez horas de uma noute de janeiro de 1840, Christina, convidada pela limpidez da lua, tão brilhante n’aquellas noutes, se o céu está desannuviado, chegou á janella, sem correr as vidraças. Do exterior não podia ser vista, que era completa a escuridade dentro; viu, porém, Christina, dous homens parados na rua, com as cabeças muito conchegadas, em agitada e inaudivel conversação. Teve mêdo, e correu ao gabinete do marido a chamal-o. Casimiro, pé ante pé, segundo a esposa lhe recommendava, espreitou, e, sem hesitação, disse:

—Um é D. Alexandre; o outro não conheço. Vejamos o que fazem.

—Vê!—disse Christina—olharam para a janella do teu quarto.

—É uma contemplação estupida!—redarguiu Casimiro.

—Agora esconderam-se debaixo das janellas.

—Quererão escalar a casa?!—tornou elle em ar de mofa.

—Quem sabe?! Olha... lá deram um encontrão á porta do quintal!

—É que são ratoneiros de couves. Que podem elles querer do quintal senão as tuas couves gallegas?

—Tu brincas, meu Casimiro!... Olha que isto é sério!... E não passa patrulha nenhuma!...

—Calla-te, creança! Se te ouvem, perderemos este espectaculo gratuito. Deixa vêr no que isto dispara. Lá vem outro estudante, rente pela parede d’alem! como elle se embuça!...

—Parou!—disse Christina agitada.

—Será da malta?! As couves não chegam para todos.

—Lá vai para baixo.

—E os outros seguem-no.

—Já não seguem.

—Elles ahi voltam, outra vez para a sombra.

—Outro empurrão á porta da escada!—murmurou Christina alvoroçada e tremula.

—Então o negocio não é de horta! Teremos hospedes assim mal-criados! Ver-me-hei forçado a recebêl-os com igual delicadeza!

A arma unica de Casimiro Bettancourt era uma enferrujada espada de seu pai. Tirou-a de baixo do leito, e disse á esposa:

—Deixa-me a escada livre, e não temas.

—Á escada não vais: póde vir um tiro!

—Não vem tiro nenhum: apaga todas as luzes.

Dous estrondosos encontrões metteram dentro a fragil porta. Christina soltou um ai, e involuntariamente correu ao leito onde a menina chorava acordada pela rija pancada.

Casimiro estava no topo da escada, e viu do lado da rua um homem de batina academica apanhar de hombro a hombro com um pau as costas, do que elle affirmára ser D. Alexandre. Os dous aggressores saltaram ao meio da rua, e Casimiro, ia na colla d’elles, quando Christina, com a menina nos braços, lhe estorvou o passo, exclamando:

—Casimiro, Casimiro! pela tua filhinha te rogo!

A catastrophe, tão almejada de Guilherme Lira, rematava assim na rua.

Ayrão, logo que o amo levou a primeira pancada, correu de faca sobre Guilherme, e recebeu em cheio peito uma choupada, e segunda no ventre. Já cambaleava moribundo, quando recebeu a terceira, e bateu nas lages com a face morta.

D. Alexandre ia fugindo, com a maxima velocidade de sua prudencia, quando uma segunda bordoada o apanhou pela nuca. Rugiu e afocinhou, forçado por um doloroso raspar de ferro na orelha direita.

Guilherme volveu a sondar a respiração do desertor, e responsou-o ao diabo.

D’alli correu á escada de Casimiro, e chamou-o.

—Quem é?—respondeu Casimiro com a espada apontada.

—O Lira. Creio que estão ambos mortos; um de certo. Agora, acautella-te... Já está gente nas janellas. Posso sahir pela porta de traz? Aqui reconhecem-me.

—Sahe—disse Casimiro—Vem por aqui... Quem mataste?

—Boa pergunta! A besta-féra não se levanta mais; o outro desconfio que está vivo. Deixal-o viver... Por aqui?... bem... Adeus! Segredo de sepultura, ouviste?

—A recommendação é indigna de mim.

Guilherme Lira entrou no Becco das Flores, e sumiu-se de travessa em travessa, reapparecendo, vestido á futrica, na Couraça dos Apostolos.

Quando chegou occupavam a rua centenares de pessoas. Em redor do cadaver de Ayrão estavam muitos estudantes de envolta com a policia. Nenhum academico reconhecia o morto, que trajava batina, bem que tivesse illeso o rosto. Emquanto a este, esperou-se o dia para lavrar-se auto.

D. Alexandre já tinha sido transportado em braços, e moribundo, segundo diziam os que lhe viram o rosto ensanguentado, e ouviram o archejar estertoroso do peito comprimido pelo derramamento das costas.

A visinhança dizia que vira entrar um homem de batina e capa nas escadas de Casimiro Bettancourt. A opinião geral decidiu que fôra Casimiro o assassino, visto que o sugeito entrado não sahira.

Christina chorava, e dizia, ouvindo as vozes da rua:

—Que será de nós? Prendem-te, Casimiro. Fujamos... vamos para Villa Cova.

—Socega, filha. Se me prenderem, hão de soltar-me! Attende-me, Christina: Nunca dirás uma só palavra com referencia a este acontecimento. Nunca proferirás o nome de Guilherme Lira. Nunca dirás que eu estou innocente. Juras-m’o?

—E tu... perdido, meu infeliz amigo... perdido!—atalhou ella, archejante de gemidos—desgraçado por minha causa!

Casimiro apertou-a ao seio, e disse-lhe:

—Crês em Deus?

—Se creio em Deus...

—Crês que a justiça divina me faça padecer innocentemente?...

—Mas a justiça humana...—interrompeu ella.

—Mulher de pouca fé!... Se visses a serenidade do meu espirito, vias em mim a influição de Deus!

As authoridades superiores, avisadas do acontecimento e do author indigitado do crime, mandaram guardar por soldados as avenidas da casa de Casimiro, para o prenderem de dia.

O academico deitou-se á sua hora regular, e obrigou a alvoroçada esposa a deitar-se com a filhinha inquieta.

Ás tres horas e meia da manhã rebentou de subito um ruido estridoroso na rua, depois de alguns repetidos brados das sentinellas.

Chegava a «Sociedade da Manta» acaudilhada por Guilherme Lira, em numero de vinte e tantos bravos, armados de refes e clavinas.

Os soldados outros tantos seriam. Á primeira carga inesperada, a tropa titubeou entre fugir ou defender-se, e, n’esta perplexidade, soffreu o desaire de ser desarmada e contundida com as proprias armas.

Libertas as portas, Guilherme chamou Casimiro, subiu e disse imperiosamente:

—Foge!

—Não fujo.

—Como não foges?

—Não: salva-te tu, que eu me livrarei da justiça.

—Não livras: diz toda a gente que tu mataste o homem. Alexandre está vivo, e diz que foste tu quem mataste o seu creado, e lhe tiraste a elle a orelha.

—Deixaste sem orelha o homem?

—Nada de riso: foges ou não?

—Já te disse, Guilherme: vai na certeza de que o teu nome nunca será envolvido na minha justificação.

Uma vez de fóra disse:

—Olha que tocam as cornetas na Sophia, ó Lira! Vem, que não temos partido contra o regimento.

—Adeus!—concluiu Guilherme—Oxalá que te não arrependas!

—Fujamos!—exclamou Christina.

—Porque me não attendes, filha? disse maviosamente Casimiro, e desceu a fechar a porta.

Poucos segundos depois, estava a rua cogulada de soldados, e muitas vozes diziam que o assassino tinha fugido com os academicos.

—O melhor é arrombarem as portas, camaradas!—dizia um cidadão—Que fazem vossês ahi, se elle fugiu? É arrombar que não ha outro modo de saber se elle está.

—Arrombar!—contrariou um alferes—a Carta Constitucional prohibe arrombar; mas bate-se a ver se falla alguem.

—Ou isso—disse o cidadão prudente.

O alferes bateu urbanamente. Casimiro abriu de prompto a janella do seu quarto, e perguntou:

—Quem é?

—Ah!—disse o alferes—está em casa?

—Estou em casa. Não quer mais nada?

—Não sr. Foi para sabermos... dizia-se que não estava lá ninguem... Perdoará o incommodo.

—Boas noutes—respondeu Casimiro. Depois, baixou a vidraça, e disse a Christina—A rua está vistosa! As armas refrangem a lua, e dão a lembrar uma illuminura da idade média! Apaga a luz da saleta, que eu gosto de ver este arraial de batalha, que me parece um sonho!

—Ó Casimiro!—balbuciou ella—como tu pódes rir, e eu sinto-me aqui morrer!

—És fraca. Nunca te tinha conhecido esse aleijão! Parecias-me uma natureza perfeita em amor, em brios, e em força. A força é que te falta, minha debil filha!

—Enganas-te, Casimiro!—replicou ella—É que eu era tão feliz!...

—E ámanhã que impede que o sejas?

—Ámanhã... estarás preso!....

—E então? A luz do teu amor teme de romper as grades da cadeia?! A nossa filhinha hesita entrar lá comtigo? Não vai commigo a imperturbavel consolação da consciencia?

—Mas eu tambem vou...

—Pois irás, filha. Quem te veda de estar com teu marido preso?!

Conversaram n’este sentido longo tempo; e já a final, Christina estava conformada com a ideia da prisão, e logo cuidou em enfardelar os fatinhos da filhinha, emquanto o marido escrevia a seguinte carta: