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O Bem e o Mal: Romance cover

O Bem e o Mal: Romance

Chapter 16: XIV Episodio
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About This Book

This work explores the duality of good and evil through a narrative that intertwines the lives of various characters, reflecting on their moral choices and the consequences that arise from them. Set against a backdrop of societal norms and expectations, it delves into themes of virtue, vice, and the complexities of human nature. The characters navigate their relationships and personal struggles, revealing the often blurred lines between right and wrong. Through rich descriptions and philosophical musings, the text invites readers to contemplate the nature of morality and the impact of individual actions on the broader community.

«Meu caro compadre.

«D. Alexandre de Aguilar foi gravemente ferido, e o seu creado está morto. Este acontecimento deu-se á porta da minha caza, ha cinco horas. O povo, a academia, e as authoridades indigitam-me como author do successo. Esperam que nasça o sol para me prenderem.

«Escrevo-lhe agora, 4 horas da manhã, receando que os interrogatorios me tirem o tempo no correr do dia.

«Minha mulher tem estado attribulada, mas, como appelei do seu coração para a sua coragem, vejo-a reanimado e esperançosa da minha absolvição em despeito do povo, da academia e das authoridades.

«Peço aos meus amigos que não se afflijam, e me creiam forte bastante para luctar com o mal do mundo. Refugio-me na vossa estima, e sou o vosso irmão agradecido, C. Bettancourt

Ao apontar o sol, a authoridade administrativa, auxiliada pela militar, bateu á porta de Casimiro, e esperou instantes. O proprio academico desceu a abrir, e offereceu ceremoniosamente a sua casa.

—Está o sr. preso—disse o administrador.

—Já o sabia—respondeu Casimiro.

—Bem. V. s.ª acompanha-me. Irá comnosco o sr. alferes da companhia.

—Como queiram: vou só, vou com v. sr.ᵃˢ, vou com a escolta: para mim é de todo o ponto indifferente.

—Dispenso a força, sr. alferes, disse o administrador: póde v. s.ª mandal-a recolher com o sargento; o sr. alferes tem de ficar para solemnisar a prisão d’este academico que é furriel.

—Se querem subir...—disse o preso.

—Não, senhor: vá, e volte, que nós esperamos.

O administrador, em quanto Casimiro subiu a dar as ultimas palavras de conforto a sua mulher, disse ao commandante da força:

—Este homem ou está innocente, ou excede tudo que eu tenho visto em coragem!

—Será cynismo? replicou o militar.

—É cynismo, não pode deixar de ser cynismo—optou o cidadão que propozera o arrombamento das portas.

No entanto, Casimiro dizia a Christina, depois de beijar Mafalda:

—Eu escrevo-te de casa do administrador, dizendo-te o meu destino; naturalmente irei de lá para a cadeia; e tu, como boa gerente da casa—continuou elle jovialmente—irás lá ter, depois de ter dado as ordens para o jantar. Olha que a instauração de um processo por crime de morte não obriga a jejum, minha filha. Lembra-te que as consciencias puras concorrem muito para o bom appetite, e são optimas auxiliares do estomago. E adeus, até logo.

Christina ajoelhou com a filha nos braços, e orou. E, orando, ouvia dizer fóra:

—Mas como elle vai direito e senhor seu!

—Elle se entortará quando lhe pezarem nas costas os caibros da Portagem!

—Terá pena ultima?—perguntava uma rapariga de má vida, e acrescentava: coitadinho! é tão novo, e de mais a mais casado, e tem uma filhinha!...

—Deixal-o ter!—atalhava uma velha, que vinha da missa d’alva, e ia ouvir a segunda, para depois ir ouvir a terceira—Deixal-o ter! Quem mata, morra! As forcas não se inventaram para os que morrem, é para os que matam.

O axioma foi applaudido pelo cidadão prudente, e outros sujeitos honestos, cuja garganta zombára muitas vezes da corda de esparto do Livro V das Ordenações.

E Christina callava a oração para escutar, e orava para não ouvir.

Perguntou a authoridade a Casimiro Bettancourt o nome, a naturalidade, os annos, o estado, a profissão, etc. E proseguiu:

—A voz publica e as apparencias dão-no ao senhor como homicida de um homem ainda desconhecido, e tambem o incriminam de espancador de D. Alexandre de Aguilar, cuja vida está ainda duvidosa. O sr. Bettancourt é réu d’estes crimes?

Casimiro não respondeu.

—Ouviu a pergunta que lhe fiz?—tornou a authoridade suspeitando a surdez do preso.

—Ouvi, sim, senhor.

—Que responde?

—Nada.

—Nada?! é boa essa!... Matou ou não matou?

—Se ha provas de que fui eu, porque m’as pedem? Se as não ha, porque me prendem?

—A lei manda interrogar os réus.

—Póde ser; mas não obriga os réus a responder.

—O silencio é uma confissão—redarguiu o administrador.

—É o anexim «quem calla consente» arvorado em axioma juridico. Boa hermeneutica!

—Modere as suas ironias, que a occasião é inopportuna, sr. Bettancourt. D. Alexandre de Aguilar Vito de Alarcão Parma d’Eça diz que fôra atacado pelo sr. Casimiro, quando passava á sua porta.

—Se o diz, elle o provará.

—A visinhança depõe que v. s.ª entrára em sua casa depois de ter deixado morto um homem e o outro cahido.

—Já sei: ouvi o parecer de meus visinhos antes de v. s.ª os interrogar.

—E que diz a isto senhor?

—Nada.

—Diz que está innocente?

—Já tive a honra de dizer a v. s.ª que não digo nada. As provas responderão por mim, e a lei me julgará.

—Está claro. Vai v. s.ª recolher-se á cadeia, e esperar lá a nota da culpa.

—Posso ser visitado por minha mulher e minha filha?

—Sim, senhor, em quanto a policia julgar isso indifferente ao processo.

—E quando póde impecer ao processo que eu veja minha familia?

—Ha casos...

—Bom. Recebo as suas ordens.

—Vai acompanhal-o um official do juizo. O sr. Bettancourt inspira-me confiança, e por isso o allivio do vexame de ir com soldados.

—Agradeço a confiança; mas os soldados não me vexam: cumpra v. s.ª o seu dever de authoridade.

—Vá, e pense sériamente na sua situação, que é grave, sr. Bettancourt. Póde ser que o senhor esteja innocente; mas as suas desavenças anteriores com D. Alexandre condemnam-no. Póde ser que v. s.ª matasse em justa defeza: se assim foi, convém attenuar a culpa com essa circumstancia. Esse seu systema de responder com o silencio, sobre ser excentrico, é confirmativo da imputação. Dou-lhe este conselho, movido pela sympathia que me causa a sua abnegação e como despreso da vida. Sei que tem familia, e avalio as angustias de sua consorte; por isso lhe peço que se abstenha d’esse stoicismo inutil, e—peior ainda—prejudicial. Se póde, decline de si a responsabilidade de um homicidio, que é sempre e em todos os casos deshonra. Se matou, negue, negue sempre!—acrescentou o administrador, collando-lhe no ouvido os labios.

Casimiro agradeceu o conselho com um sorriso, e sahiu á direita do official de justiça.

Á porta da authoridade, quando Casimiro sahiu, agglomerava-se um cento de pessoas, gentio baixo, regateiras da praça de Sansão, serventes, gaiatos, e alguns cidadãos honestos, nomeadamente o oraculo da Couraça dos Apostolos. A custo rompeu o aguazil a multidão, que se premia em redor de Casimiro, e lhe roçava as faces com o halito acre da aguardente.

—Chamo soldados!—bradou o official de justiça.

—Não é preciso—disse um academico, que estanceava mais distante n’um grupo de estudantes.

E, tirando a carreteira das mãos de um lavrador, cresceu sobre a multidão, e apanhou quatro cabeças da primeira paulada. A rua, momentos depois, estava deserta, como se passasse n’ella a ira do Senhor.

—Foge que é o Lira!—diziam muitas vozes, convulsas de terror, menos o cidadão da Couraça dos Apostolos, que levou a sua cabeça ao visinho boticario.

Era, com effeito, Guilherme Lira, cujo sangue refervia em phrenesi, e sêde de beber o sangue da humanidade. Infurecia-o o remorso de ter deixado vivo D. Alexandre! Saber elle que o vil declarava ter sido assaltado por Casimiro, espicaçou-lhe o odio e a ancia de ir estrangulal-o em casa. Depois, via Casimiro preso, sabia já as suas respostas á authoridade, pungia-o o arrependimento de o perder, quando cuidava salval-o de inimigos infames, e não poder salval-o, sem se declarar elle mesmo o aggressor!

O governador civil, o reitor, as authoridades subalternas, receiosas de sublevação academica, instigada por Guilherme Lira, preveniram a tropa, e assignaram ordens de prisão dos mais celebres desordeiros, no caso de motim.

A este tempo estava na cadeia Casimiro Bettancourt, contrastando, com sua quietação, o reboliço que fremia cá fóra. Christina seguira-lhe os passos, e entrara apoz elle. Mafalda ia muito risonha e fagueira. Não fallava, mas gesticulava as suas caricias, e pendurava-se do collo do pai, beijando-lhe os olhos.

E Christina observava em redor de si a nudez, a sombra, a immundicie da salêta. Queria chorar; mas pejava-se do esposo, e retinha-se para o não affligir.

—Voltas a casa, minha filha?—disse Casimiro—Olha que são dez horas, e nós costumamos almoçar ás nove. Basta de sacrificio á justiça humana, Christina! Uma hora é de mais!

—Tu não estás muito triste, pois não, meu Casimiro?—exclamou ella, cingindo-lhe o pescoço, com quanto carinho podem exprimir as angustias supremas.

—Se estou triste!... Quando me viste mais risonho, Christina!... Alegre, minha esposa, alegre como esta creança que te sorri! A minha consciencia está serena como a d’esta menina; por isso nos vês tão contentes ambos!


XIII
O Réu

A carta, recebida em Villa Cova, foi a primeira grande angustia que alanceou o coração de Ladislau.

Correu á igreja, e d’ali a uma aldeia da serra, onde estava o vigario sacramentando um enfermo. Leram a carta, e ambos inferiram que o matador era Casimiro; justa inferencia dos termos d’ella.

—Matar!—disse o vigario consternado.—Matar!... Eu não cuidava isto de Casimiro! Nem ao menos diz que matou defendendo sua vida, a vida de sua mulher, e de sua filha!... Repara tu na serenidade com que elle diz: D. Alexandre de Aguilar foi gravemente ferido, e o seu creado está morto. Este acontecimento deu-se á porta de minha casa ha cinco horas. O povo, as authoridades, e a academia, indigitam-me como author do successo... Se não fosse elle o author, diria: indigitam-me falsamente!... E mais abaixo: Minha mulher tem estado attribulada, mas como appelei do seu coração para a sua coragem, vejo-a reanimada e esperançosa de minha absolvição em despeito do povo, da academia e das authoridades!... De que elle fia a sua absolvição, se as provas o condemnam a tal ponto que tudo lhe é contra!... Ó meu Deus, meu Deus! que conta havemos de dar á nossa consciencia de termos trabalhado para o casamento de Christina com este malfadado!

Ladislau ouviu a mais larga exclamação do attribulado sacerdote, e disse com pausa:

—Eu estou em crêr que Casimiro não matou.

—Ó homem, tu não intendes esta carta?

—Penso que intendi. Onde diz elle que matou?

—E onde diz elle que não matou?—retorquiu o padre.

—É verdade: não confessa nem nega. Diz que o apontam como matador. Isto é differente. Eu leio no Evangelho que Jesus Christo, quando o arguiam...

—Calla-te meu irmão! esses confrontos são sacrilegos!—atalhou o sacerdote, inflammado em zelo santo.

—A minha intenção era boa, Deus o sabe. Seja o que fôr, eu creio que o meu compadre está innocente. Um homem, que mata, não escreve assim com este socego. Aqui ha mysterio, e continuará a havel-o. As cartas demoram-se; e, quer demorem quer não, amanhã vou para Coimbra e Peregrina vai comigo. Desgraçada Christina!... E que terá elle penado? que fará sósinha a pobre menina com sua filha?...

—Vai a Coimbra, Ladislau, vai!—disse o vigario—Se é criminoso, amparemol-o; se não é, ajudemol-o a vencer as iniquidades do mundo, querendo Deus que nós sejamos instrumentos de sua divina justiça. Eu tambem iria, se podesse: escrever-lhe-hei as consolações da religião.

No dia proximo sahiram de Villa Cova Ladislau, Peregrina, e o menino, a grandes jornadas para Coimbra. O lavrador levava todo o seu peculio, o ouro de sua mulher, e alfaias de antiga prata, que havia em casa. Apearam na estalagem, e foram d’alli á cadeia. Encontraram Casimiro sentado á meza de jantar com a filha no collo, e Christina a um canto da salleta aquecendo café n’um fogareiro.

—Não t’o disse eu?!—exclamou Christina, quando o chaveiro abriu a porta, e deu entrada aos visitantes—Não veio carta, vieram elles!

As duas senhoras abraçadas fallavam em soluços. Ladislau rompeu tambem em pranto desfeito. Casimiro, porém, sereno e com os braços abertos, dizia:

—O compadre tambem é dama?! Não rivalisemos com as nossas mulheres no seu privilegio de chorar!... Conversemos como homens.

—Está innocente, meu amigo?—perguntou de sobresalto Ladislau.

—Que pressa!...—respondeu em ar de graça o prezo—Parece que o meu compadre sahiu de casa com essa pergunta á flor dos beiços. Ora, diga-me: se eu lhe responder que matei o desertor, e feri de morte o fidalgo, o meu amigo retira-me a sua mão pura e generosa?

—Não. Casimiro só mataria um homem defendendo-se. Foi em defesa que o matou?

—Vou responder-lhe; porém, requeiro á sua nobre alma um juramento antes de me ouvir. Não lhe digo que me jure por seu pai, pela vida de sua esposa ou filho: jure por sua honra.

—Jurei.

—Agora saiba que eu não matei, nem mandei matar.

—Oh meu amigo!—clamou com agitada vehemencia Ladislau.

—Não falle mais alto que eu, meu compadre, que póde ser ouvido. Não matei nem mandei matar, nem folguei com a morte do assassino trazido para mim, nem com os ferimentos de D. Alexandre. Houve um homem que me quiz salvar dos dous inimigos, que me esperavam, e matou-os, no momento em que me arrombavam as portas. O nome d’este homem irá commigo e com minha mulher á sepultura: nunca m’o pergunte. A sociedade proclama-me assassino: embora. Deus me defenderá e salvará. Aos interrogatorios nada respondo que me absolva ou condemne. Veremos se o jury me vê provado assassino. Agora, meu amigo, tem o sr. a sua honra de sentinella á sua lingua. Tomemos café. São só duas as chavenas; mas tambem ha dous pires: as chavenas para os hospedes; os pires para nós, Christina. Arranja lá isso.

Ladislau fitava nos olhos Casimiro, e murmurava:

—Que homem! que desgraçado tão digno d’outra sorte!

—Veja lá o que são as cousas! eu cuidei que meu compadre me estava invejando esta paz de coração!—disse Casimiro.

Horas depois, sahiram duas senhoras a transferir a bagagem da estalagem para a casa da Couraça dos Apostolos. Concordaram em viver juntas, nas horas em que era vedado o ingresso no carcere.

O processo proseguiu seus termos, com desvantagem de Casimiro, sem embargo de ser vigiado pelo primeiro advogado de Coimbra, que alcançára procuração do réu, depois de muitas instancias suas e de Guilherme Lira.

D. Sueiro de Aguilar tinha descido a Coimbra, com comitiva de dois lacaios, e dinheiro grosso para, consoante a sua phrase, erguer, sendo preciso, uma forca de ouro, onde perneasse o assassino de seu irmão.

D. Alexandre erguera-se ao cabo de vinte dias, e composera as melênas de modo, que o logar da extincta orelha ficasse coberto de lustrosas espiraes. A orelha cancerára e cahira, deixando um orificio hediondo e pustuloso. Guilherme Lira, quando acertava de o encontrar, dizia-lhe sempre:

—Cuidado com a outra.

—A outra quê?—animou-se a perguntar D. Alexandre.

—A outra orelha, patife!

O epitheto gelou de neve as cavernas d’aquelle vil peito que esvasiava o pus pelo esqualor do ouvido.

D. Sueiro accelerava o processo, e descia de sua prosapia regirando do advogado para o escrivão, do procurador para o delegado, do juiz para os influentes do jury.

N’uma d’essas suadas correrias, passando ao escurecer no bêco de D. Sisenando, encontrou um academico, que lhe cingiu ao pescoço umas mãos, que pareciam golilhas de ferro, e lhe jogou a catapulta da cabeça, tres vezes, contra a hombreira do floreado granito da porta do palacio, onde morreu apunhalada a irmã da rainha D. Leonor Telles. Depois, largando-o atordoado, disse:

—Primeira admoestação!

E andou.

D. Sueiro, ao outro dia, escreveu a todos os governadores possiveis de Coimbra. A policia fingiu que se mechia, e D. Sueiro não sahiu da cama.

O leitor já sabe que só Guilherme Lira podia tentar a destruição da melhor pedra monumental de Coimbra com a cabeça de D. Sueiro de Aguilar Vito etc.

Um homem sisudo da policia disse ao rico-homem de Miranda:

—O meu parecer é que v. ex.ª vá para sua casa. A meu vêr, o fidalgo traz á perna a sociedade da Manta. Dê louvores a Deus em o não terem matado como fizeram a um lente, ha dous mezes: e perdoará o atrevimento do seu servo em o aconselhar. Em quanto a mim quem quebrou a cabeça de v. ex.ª foi o Guilherme Lira! Mas vão lá prendêl-o, e, de mais a mais, sem provas! Bem aviado estava eu! Elle bate-se com um regimento, e é capaz e mais os seus trinta companheiros, de arrasar Coimbra.

—Então isto aqui é um sertão de selvagens!—bradou D. Soeiro—As leis...

—As leis estudam-se aqui—disse o cadimo aguazil—e o Guilherme Lira sabe-as bem, que é quintanista de direito; mas o malvado despreza as leis de papel, e tem lá umas de pau para seu uso, não digo bem: para uso d’aquelles que as levam impressas nas costas. Em fim...

O homem da justiça encolheu os hombros, e despediu-se.

No dia seguinte, D. Sueiro foi para Miranda, e levava ainda uns parches de alvaiade na testa, e uns pontos nos tegumentos sobrejacentes aos ossos parietaes.

D. Alexandre ficou; porém, assim que o sol inclinava ao poente, recolhia-se. Guilherme Lira entrava em casa todas as noutes, e espreitava-o da janella. Cada noute, ao vêr-lhe a luz no quarto, arrepellava-se. Dizia com picaresco chiste o feroz academico a Casimiro: «a vida d’aquelle homem peza-me como um burro sobre o peito!»

E Bettancourt pedia-lhe encarecidamente que o deixasse, por ser um estorvo nullo á sua liberdade.

Ruy de Nellas, conscio do successo, mandou chamar o vigario de S. Julião da Serra, e informou-se. Padre João Ferreira relatou de cór o contheudo da primeira carta de Casimiro, e mostrou duas linhas de outra de Ladislau, que dizia: Casimiro está innocente. Casimiro é victima da sua honra. Nada mais te digo, porque só isto me é permittido dizer, e a ti só, meu irmão.

—E tu crês na innocencia de Casimiro?

—Creio, meu padrinho, como creio que vivo.

—E elle deixa-se ir á revelia?

—Não posso, nem sei responder a v. ex.ª

—É preciso que eu o proteja. É preciso, que elle é marido de minha filha! Os de Miranda não hão de levar a melhor.

—Que quer v. ex.ª que se faça?

—Que vás a Coimbra, e leves dinheiro para elle, e para a justiça.

—É desnecessario dinheiro. Meu cunhado foi prevenido.

—Deixal-o ir. O dinheiro que eu mando, é meu; quero que minha filha o receba! Eu vou mandar o meu capellão substituir-te na igreja, e tu partes já para Coimbra.

—Recebo as ordens de v. ex.ª

—Vamos ver quem vence!—continuou o fidalgo, apertando os alveolos, onde os dentes ausentes não podiam rangir.—Os de Miranda, tem muita prôa?... Deixa que eu vou abater-lh’a!... Vai, João, que lá irão umas cartas. Se Casimiro ficar condemnado, tu ou teu cunhado vão para Lisboa, e entreguem as cartas onde eu mandar. Lá está minha irmã, a condessa de Asinhoso. Ha vinte e tres annos que não lhe escrevo: mas sei que ella está morta por fazer as pazes commigo.

—Bom seria que estivessem feitas—disse respeitosamente o padre.

—É verdade; mas que queres? orgulho de parte a parte... E sabes tu porque eu despresei minha irmã?

—Nunca v. ex.ª me deu a honra de m’o revelar.

—Pois eu t’o direi quando voltares. Foi um caso de honra, que os de Miranda não costumam castigar. Lá tem em casa uma irmã do pai, que fugiu do mosteiro de Lorvão, e deu escandalo. Lá a tem... e não põem crepe nas pedras d’armas... E vinha cá D. Sueiro vituperar-me porque eu não mandava matar Casimiro!... Olha quem!... Se eu tivesse tantos santos a pedir por mim, como de vezes me tenho arrependido de lhe dar a minha morgada!... Forte brutalidade!... Cegaram-me as vaidades de reatar as duas casas dos mais antigos ricos-homens da Beira e Traz-os-Montes!... Emfim... o que eu não consinto é que da casa de Miranda vão matadores professos assassinar o marido de minha filha... São horas... Aqui tens um conto de réis em ouro. Parte, João; e escreve a dizer o que se passar. Dá muitos beijos a minha afilhada, e diz a minha filha... que lhe perdôo!

O vigario ajoelhou diante de Ruy de Nellas, e clamou:

—Deixe correr as minhas lagrimas de alegria sobre as suas mãos, meu nobre, meu virtuoso padrinho!

—Não fiques agora ahi a chorar, homem!—Disse o velho, erguendo-o.—Aqui estou eu tambem...—proseguiu, enxugando os olhos.—Vai, que são horas.

A apparição do vigario na saleta da cadeia foi saudada com um brado de alegria. Cercaram-n’o todos, e beijaram-n’o todos.

—Eu só dou beijos em creanças,—disse elle em tremores de exultação.—Sr.ª D. Christina deixe-me dar á sua filha os beijos do avô.

—Fallou com o meu papá!—exclamou ella.—Está muito zangado contra o meu pobre Casimiro?

—Isso está, minha senhora! zangadissimo, feroz!

—Cuida que foi elle quem...—E reteve-se, relanceando os olhos ao marido, que a observava.

—Não sei o que elle cuida...—volveu o padre. A ira do fidalgo subiu ao ponto culminante d’elle mandar ao sr. Casimiro um conto de réis para o custeio das suas despezas judiciarias. É onde póde chegar a ferocidade humana!

—O sr. Ruy perdoou-me?—perguntou Casimiro mais recolhido que expansivo.

—Se isto não é perdoar... A mim não me encarregou de lhe notificar o perdão; mas á sr.ª D. Christina manda dizer que está perdoada. Aqui teem o dinheiro, que é ouro, e rasga-me a algibeira da sotaina.

Christina fez um gesto, significando ao padre que entregasse o dinheiro ao marido; Casimiro fez outro gesto, indicando Ladislau.

—Então que resolvem?—disse o padre.

—Resolve minha mulher,—disse Casimiro—que esse dinheiro passe ao poder do nosso mordomo, o sr. Ladislau Tiberio Militão de Villa Cova, em cujo cargo hemos por bem nomeal-o para lhe fazermos honra. Assim deve formular as suas nomeações quem tem, como eu, guarda de official á porta.

Ladislau, sorrindo, respondeu:

—A não servir de mais, deixem-me ser mordomo. Eu guardo o dinheiro, e darei contas.

Relatou o padre a sua chamada a Pinhel, e o sentir do fidalgo, com a promessa das cartas para Lisboa, caso o exito do processo fosse funesto em primeira instancia. Acrescentou que Ruy de Nellas tinha muita confiança no valimento de sua irmã, na capital, a sr.ª condessa de Asinhoso.

—É a primeira vez que ouço fallar n’essa irmã do sr. Ruy!—disse Casimiro.—Nunca me fallaste em tua tia, Christina.

—Porque a tinha esquecido—respondeu a senhora.—Eu e minhas irmãs mais novas ainda ha poucos annos soubemos que tinhamos em Lisboa uma tia. Ignoro as desintelligencias que se deram entre ella e o papá, muito antes de eu nascer. O certo é que em nossa casa nunca se fallou em tal tia, e diante do papá seria perigoso fallar. Muito me espanta agora que elle queira escrever-lhe! Vejo que meu pai está mudado!

—Sabe que desavença de familia foi essa, padre João?—perguntou Bettancourt.

—Não, senhor. Ninguem o sabe em Pinhel. Apenas sei que em Lisboa viveu desde menina a irmã do sr. Ruy de Nellas, em companhia de um grande fidalgo seu tio, e mais os dous irmãos filhos segundos. Tambem sei que estes irmãos lá morreram, e que a sr.ª casou com o conde de Asinhoso. É o que eu sei d’um clerigo velho de Pinhel, que a viu em menina, e me disse ser ella vinte annos mais nova que o morgado. Deve hoje ter, portanto, a sr.ª condessa quarenta e seis.

Sobre este incidente exhauriu-se aqui a pratica, em que Bettancourt, de condição scismadora em cousas mysteriosas, mostrava estar muito entretido.

O patrono de Casimiro, sabendo que o sogro do seu cliente o protegia em Lisboa, e quasi seguro da condemnação do réu no tribunal conimbricense, inredou o processo de modo que, no caso de se provar o crime em jury, houvesse direito a pedir um recurso por nullidades, sem ser ouvido o tribunal da segunda instancia. A lei organisadora dos processos em Portugal, paiz de mais leis que tem o universo é uma corda bamba que se presta a saltos maravilhosos sob o pé d’um habil volatim. «Vai o processo para Lisboa, dizia o jurisconsulto, e lá, se o braço fôr forte, os autos vem arremessados á cara do juiz, e o juiz dá alvará de soltura ao preso.»

Este salvador intento do causidico foi revelado a Casimiro, com grande alegria, pelo vigario. E o preso respondeu:

—Não quero! diga-lhe que não quero! Ha-de ser a lei, sem coacção, sem torcedura, sem vexame de poderosos, que me destrancará aquellas portas. Mas que digam ser dolorosa a experiencia: não importa. Quero experimentar até que ponto um réu innocente póde ser torturado. Hei de ir de condemnação em condemnação, até poder dizer: «Acuda-me a justiça divina, que a dos homens é infame!»

—Mas—atalhou o padre—se as provas são taes que a lei tem de forçosamente o reconhecer criminoso?

—Não são tal! As provas permittem que as destrua o ardil d’um habil jurisconsulto. É isto certo?

—É.

—Pois bem: eu quero que a lei as anniquile, e não a trapaça: que este acto se cumpra á luz do sol, á luz de todas as consciencias, que me condemnam. Que faz que as influencias poderosas me libertem, se o mundo ha de dizer: «salvaram-no as influencias! o ferrete de homicida lá o tem na testa!» Não quero, sr. padre João! Agradeça ao compadecido patrono: mas avise-o de que eu serei no tribunal o interprete mais severo da lei contra mim.

O advogado, quando tal ouviu, pasmou e disse:

—É um doudo maior da marca, este homem! Creia que irá da cadeia para a enfermaria dos alienados!

E proseguiu:

—É vergonha fazer-lhe eu uma pergunta, sr. padre João: Casimiro Bettancourt, matou um homem e espancou o outro?

O padre não respondeu. E o advogado repetiu:

—Matou ou não?... Pois o senhor cala-se a esta pergunta?

—Calo, sim, sr. doutor. Não posso responder.

—Está claro! Outro doudo!... Que esquisita familia é esta! Já fiz a mesma pergunta á mulher do preso: silencio! Interroguei Ladislau Tiberio: silencio... O sr. padre João Ferreira...

—Silencio!—atalhou o vigario.

—Nem a mim, que sou seu advogado—tornou com azedume o doutor—ha uma pessoa que me diga matou ou não!...

—Ha—disse um academico que entrava.

—És tu?—perguntou o advogado a Guilherme Lira.

—Sou eu. Casimiro Bettancourt não matou. Tu vaes advogar a causa do homem mais honrado e innocente do mundo!

—Posso dar-te como testemunha, Lira?

—Da sua honra e innocencia? podes; mas não me cites, que eu... ouve-me... eu hei de tirar Casimiro da forca.

—Santo Deus!—exclamou o vigario, lavado de subito suor.—Da forca! Pois é caso de sentença ultima?

—Se a sentença ultima é inapplicavel n’este caso,—disse o advogado—não sei onde está no codigo penal o crime condigno! Mas não se falla aqui em forca... pensemos...

—Não pensemos...—interrompeu Lira—Deixa correr o tempo que pensa por nós.

Padre João foi contar a Casimiro o que ouvira em casa do lettrado, citando o nome de Lira.

O academico recolheu-se, voltou a face, e o sentido apparentemente, sobre outro assumpto, e disse em sua mente:

—Que intenta fazer aquelle desgraçado?

Pergunta que o leitor se digna fazer-me e espera a resposta.


XIV
Episodio

O padre João Ferreira escrevia miudamente ao fidalgo de Pinhel, e o mesmo Christina, bem que Ruy de Nellas tão sómente respondesse ao padre, accusando a recepção das cartas da filha, com a incumbencia de dizer a Christina que lhe eram agradaveis as suas lettras. De Casimiro Bettancourt só dizia o necessario, attinente ao processo.

Entre o velho e D. Sueiro corria declarada inimisade. Já o de Miranda sabia que o seu sogro protegia Casimiro. Escrevera-lhe altivo reprovando amargamente a incongruencia do seu proceder. O de Pinhel respondeu que o marido de Christina padecia innocente, e D. Alexandre mentia imputando-lhe a morte do faccinoroso, de que elle villãmente se acompanhava. Replicou raivoso D. Sueiro, doestando o sogro, e ejaculando phrases de lacaio a proposito do lustre de sua raça, sujada por um parente, posto que remoto garfo de seu tronco. As palavras sublinhadas affrontaram gravemente Ruy de Nellas! Este repto, quinhentos annos antes, daria de si guerra a ferro e fogo, entre os dous ricos-homens. Mas agora, n’este tempo de calmaria podre, em que as injurias se castigam na policia correccional com multa de dez tostões e custas do processo, Ruy de Nellas rebateu a provocação com outras não menos pungentes que certeiras injurias. E foi grão-caso perguntar-lhe o velho se a Madre Nazareth, fugida do mosteiro de Lorvão, em 1810, e agarrada por ordem regia nas encruzilhadas do inferno, e mettida no tronco para se depurar dos vicios, seria um garfo meritorio do tronco dos Parmas d’Eça ao qual elle Ruy de Nellas se glorificava de ser estranho? Chegadas a tal extremo as insolencias, a reconciliação era impossivel, apesar mesmo das frias tentativas de D. Guiomar, que nunca fôra amorosa filha nem irmã.

As cartas do padre ao fidalgo aventavam como certo o mau resultado do pleito em Coimbra, e invocavam o patrocinio de Ruy para que em Lisboa o supremo tribunal ou o poder moderador dirimissem a sentença condemnatoria.

Teve Ruy de Nellas como acêrto escrever desde logo a sua irmã, convidando-a a esquecerem o passado, para ir assim predispondo-a a mais de vontade o servir. A condessa de Asinhoso respondeu com muito amor ao irmão, lastimando que elle recusasse a sua amisade tantas vezes, em diversos tempos, offerecida; e accrescentava: «Eu não podia odiar o mano Ruy, que nenhuma parte tomou nos supplicios que me fizeram. Os algozes já estão na presença de Deus!»

—Ainda não está arrependida!...—disse entre si o fidalgo, relendo aquelle periodo.—Mulheres, mulheres!...—accrescentou sacudindo a cabeça.

Estranhará o leitor, que entre aqui mal cabido o episodio de umas aventuras de D. Eugenia de Nellas, condessa de Asinhoso. Conto, porém, com a sua attenção; e peço licença para me desvanecer de apontado em não me desviar da historia principal, sem ao depois me justificar do defeito.

D. Frederico de Paim e Lucena, tio materno de Ruy, vivia na capital, e muito no Paço, gozando as suas numerosas commendas, solteiro, septagenario, e abastado.

Corria por sua conta a educação palaciana de dous sobrinhos, Vasco e Gonçalo, irmãos de Ruy.

Eugenia, muito mais nova que seus irmãos, sahiu tambem de Pinhel, aos doze annos, em 1806, para ser educada em convento, visto que sua mãe tinha morrido, e sua cunhada a tractava asperamente.

Em 1811 sahiu a menina do collegio para casa de seu tio. Eram uns dezoito annos superabundantes de quantas graças feminis, raras vezes, a inspiração divina segréda aos creadores que dizem á tella ou ao marmore o seu fiat lux, e o marmore e a tella desentranham em Fornarinas de Raphael, em Collonas como as de Angelo, em Venus como as de Praxiteles. D’estas, o artista, o que não é artista, o homem de coração e sêde do bello, diz: «fel-as o cinzel ou o pincel dos anjos!» de Eugenia diria o artista, o amador, o poeta, o moço ardente, o ancião esquecido de seus ardores, diriam todos: «é um bafejo de Deus, uma alma vestida das perfeições materiaes, privativas do céu, se no céu podem conceber-se fórmas corporeas!»

Foi Eugenia requestada por consideraveis senhores da côrte. D. Frederico respondia aos que solicitavam sua mão: «Minha sobrinha é orphã de pai e mãi. Casará á sua escolha. Intenda-se com ella quem houver de ser seu marido, que eu lavo as mãos d’ahi.»

Boa resposta; mas Eugenia repellia delicadamente os pretendentes, as maviosidades, e as soberbas feridas na resistencia.

Pois tão dotada e fadada para amar, Eugenia era assim de refractaria condição ao bem supremo da vida? Dar-se-ha que o seu peito seja dentro de alabastro como se afigura no exterior?

Não; o mesmo amor de que a julgam inimiga é quem a incrueceu assim contra os aulicos, os ricos, os soberanos da galanteria d’aquelle tempo.

Amava Eugenia, e amava desatinadamente. O eleito de sua alma era um alferes de cavalleria, amavel de figura, composto de encantos; mas sem fôro grande nem pequeno, sem amigos das primeiras casas do reino, sem nome, que, ao menos, recordasse um general illustre, um lidador distincto das ultimas pelejas grandes da patria com os estranhos. Um mero e simples alferes, pallido, só, melancolico, e timido debaixo dos olhos d’ella.

O palacio de D. Frederico de Paim era na rua de Santa Barbara. O alferes passava alli duas vezes em cada dia, e alguns dias duas vezes em cada hora.

E ella via-o sempre, esperava-o sempre, esperava-o até mais vezes do que o via. Gonçalo e Vasco viam-no tambem, e diziam:

—A assiduidade d’este homem!... Que cuidará elle, ou que cuidará nossa irmã!

Indagaram pela rama; e, em occasião opportuna, disseram a Eugenia:

—Olha que o militar que vês ahi passar, e procuras vêr, é um biltre, que principiou soldado. Sirva-te isto de governo, e lembra-te que és Eugenia de Nellas Gamboa de Barbedo.

A menina, se a revelação a envergonhasse, córaria; se o coração lhe doesse, impallideceria; ora, como nem córou nem impallideceu, é razão presumir que o seu pudor e coração ficaram illesos; e, depois, concluir que ella, assim mesmo, amava-o sem pejo da baixeza d’elle nem vangloria de seus appellidos. Concluam assim que tem a maxima probabilidade do acêrto.

E o alferes continuou a passar na Rua de Santa Barbara, e a surgir no alto da collina da Penha de França, d’onde Eugenia do seu miradouro o avistava.

D. Frederico, avisado pelos sobrinhos, disse que estava seguro do bom siso de Eugenia; mas, por cautella, na primavera de 1815, quando a menina já entrava nos seus vinte annos, foi passar seis mezes á sua quinta de Camarate.

—O remedio prudente é este—disse o velho aos sobrinhos.—Não façamos alarido, que ha casos de frageis avesinhas, espavoridas por algazarras, romperem os arames da gaiola.

Quando isto foi, já o alferes se carteava com Eugenia, mediante a aia, que viera de Pinhel.

A passagem para Camarate aggravou a infermidade. Convem saber que ha casos em que o amor, o mais sadio e rosado dos deuses, se chama «infermidade». Exemplo: amarem-se duas pessoas, divorciadas pelo acaso do nascimento ou da riqueza, é infermidade; amarem-se, porém, um casal de ricos, de nobres, de ralé social, ou de mendicantes, isso sim é amor, que é saude, e só póde adoecer, n’uns, em hidropesia de tedio, n’outros, em resiccação de fome.

A quinta de Camarate era um arvoredo, que competia com o reinado de D. João III. Fôra plantado e alinhado por D. Mem Vasques de Lucena, sumilher de El-Rei, e aio do infante D. João, pai de D. Sebastião Era memoria que aquellas arvores, ainda tenras, tinham visto os amores de D. João III com D. Izabel Moniz, moça da camara da rainha D. Leonor, amores que deram de si o principe, arcebispo de Braga, D. Duarte, que morreu na flor dos annos. Para alli diziam os Lucenas que o monarcha transferira a dama, odiosa á rainha.

Parecia, pois, que a folhagem do arvoredo estava rumorejando uma chronica de reaes amores.

As fontes respondiam ás arvores, as aves ás fontes, as borboletas dialogavam com as flores, as flores trahiam com a viração as borboletas: era tudo alli um suspirar, um ouvir-se muito interno harpas e córos, symphonias aerias, milhares de pronunciações confusas da terra, dizendo todas «amor»!

E para onde elles levaram Eugenia, que já comsigo levava a saudade!—a saudade, verdugo que mata acariciando, corda de estrangulação tecida com fios de ouro, segredo que Lucifer, ao despenhar-se, roubou do céu, e nunca mais restituiu!

Alli é que o amor pegou d’ella com violenta mão, sendo que até áquelle dia lhe fôra sempre mão cheia de meiguices e serenas esperanças.

Gonçalo e Vasco julgaram sua irmã segura, e ficaram por Lisboa, onde tinham seus affectos, e suas devassidões. O velho, contente com as suas arvores, e com a menina, que lhe ouvia a menos edificativa lenda dos amores de D. Izabel Moniz, não sahia de Camarate.

Á noite, assim que a brisa esfriasse, D. Frederico digressava do jardim, dava um osculo em sua sobrinha, e fechava-se em seus aposentos.

Ora, depois ainda, a menina ficava sentada no banco rustico, resguardada de sycomoros, aspirando as baunilhas, sacudindo as granulações das pimenteiras, ou devaneando pela via lactea fóra, de constellação em constellação, com os olhos lá, e o coração na terra proxima, no muro da quinta por onde o alferes subia. E não se atemorisava dos plátanos gigantes nem das danças macabras das sombras, agitadas pelo vento da alta noute!

Á uma hora rugia a folhagem debaixo dos seus pés nas ruas ladeadas de murtas; os molossos lambiam-lhe as mãos, sorvendo os latidos ferozes; as avesinhas acordavam e saudavam-na ao passar; o rouxinol das cinceiras soltava as notas mais dilectas; e ella ia á gruta conhecida, e esperava com a mão no seio como quem diz ao coração: «Espera, ditoso impaciente!»

Ao abrir da manhã de 16 de agosto d’este anno de 1815, Eugenia ouviu quatro tiros nas cercanias da quinta, e tremeu, tremeu até cahir de joelhos.

D’ahi a pouco estrondearam os argolões do portão da quinta. A aia entrou ao quarto da menina, e disse:

—Chegaram seus irmãos. O senhor Gonçalo vem ferido n’um braço: já foi chamar-se o cirurgião ao Lumiar.

Gonçalo e Vasco estrenoutaram o tio, e fecharam-se com elle. O que ahi disseram collige-se dos successos seguintes.

Durante o dia, Eugenia não viu seus irmãos nem tio. Sabia que se faziam preparativos de viagem. Mandou indagar dos caseiros o que seriam os tiros da madrugada. Os cazeiros tinham ouvido as detonações, e a estropeada de cavallos. Estaria morto o alferes?

—Matal-o-hiam?—perguntava Eugenia á sua aia—e, depois, ousava perguntal-o a Deus.

Se ella podesse ouvir este dialogo dos irmãos...

—Chego a duvidar que as pistolas tivessem ballas—dizia Gonçalo.

—Carreguei-as eu—afirmava Vasco.

—E foi-se a salvo!

—Quem sabe?!

—Não o viste correr sobre nós, e desfechar de perto, e retirar-se muito a passo? E depois não o avistaste a subir a charneca sobre o cavallo?

—Vi.

—Como queres tu que elle fosse ferido!?—retorquiu Gonçalo—Com meia pollegada á esquerda, o canalha mettia-me a bala na cintura—dizia elle levando a mão ao ante-braço direito—Eu é que estou ferido devéras... Não contávamos com isto, Vasco! O homem tem fibras!

Ao fim da tarde, sahiu da cocheira uma caleça de jornada apposta á parelha de machos.

N’esta occasião foi chamada á presença de seu tio, que mansamente lhe disse:

—Se tivesses pai ou mãi, mandar-te-ia para elles, sem te dizer a razão: tu a saberias de mais, e eu me pouparia á dôr e pejo de repetil-a. Entrego-te a teus irmãos. D’elles te defendi alguma vez; agora estou desarmado pelo teu proceder. Disse de mais. Ahi fóra está posta a caleça para conduzir-te a outra parte, segundo vontade de Vasco. Não vai Gonçalo, que está ferido da bala do homem que saltava os muros da minha quinta, com teu consentimento. Adeus, Eugenia.

D. Frederico entrou rapidamente no seu quarto, contiguo á sala, e fechou-se a chorar.

Vestiu-se Eugenia soluçante, e cobrou animo, quando viu que a sua aia se preparava. Entraram ambas na caleça, onde as seguiu Vasco. Chegaram de noute a Lisboa, e pararam á porta do palacio de D. Frederico.

Vasco mandou descer a aia de sua irmã, e disse-lhe:

—Sobe; diz ao mordomo que te pague; e vai á tua vida.

—Onde vai ella?!—gritou Eugenia.

—Não queremos gritos—atalhou o irmão.—Pica, bolieiro!

As mulas galoparam até entrarem á estrada do Beato Antonio, onde Vasco de Nellas cavalgou, adiantando-se.

A jornada de Eugenia durou dous dias e meio. Parou a carroça diante de um palacete velho, em Recaldim, no termo de Torres Novas. Era ali uma grossa commenda de D. Frederico, casa chamada da «renda», habitada pelos Pains de Lucena, quando, desgostosos da destronisação de Affonso VI, se affastaram da côrte.

Entrou Eugenia a um grande salão decorado como o deixaram seus avós, quando voltaram a Lisboa.

A tranzida menina sentiu frio e medo.

Surdiu-lhe logo, de sob a orla de um reposteiro de côr inqualificavel, uma creatura, ao que parecia, femeal. Dirieis que uma cuvilheira dos Lucenas, adormecida em 1680, ao sahirem seus amos, acordára como Epimenides, cento e trinta annos depois, e estremunhada sahira ao salão para vêr qual das fidalguinhas Pains estava a soluçar.

Eugenia encarou-a, e estremeceu.

—Entrou a velha, fez tres mesuras, e disse:

—Guarde Deus a v. ex.ª

—Adeus—murmurou Eugenia.

—Em quanto não chegam as outras creadas—tornou a creatura com ares benignos—a fidalga queira mandar-me em seu serviço. Eu fui ama de leite de sua mãezinha, que foi casar a Pinhel.

Estas palavras reanimaram Eugenia, que se aproximou voluntariamente da velha, em quanto ella continuava:

—V. ex.ª é o retrato d’ella: já o sabia por m’o dizer o sr. Frederico; mas eu estou aqui ha quarenta annos desde que ella casou. Seu avô, o sr. D. Carlos de Lucena, mandou-me para Recaldim com ordenado e casa para a velhice. Já quiz botar-me por essa estrada fóra, até Lisboa, só para ver a filha da minha menina; mas a carga dos annos, oitenta bons, não se leva onde a gente quer. Fiquei agora atonita, quando vi entrar o menino Vasco, e me disse: «minha irmã vem aqui estar algum tempo. Ámanhã chegam outras creadas, que ficam debaixo da sua vigilancia, e um creado que lhe transmittirá as minhas ordens.

—O mano já sahiu?—atalhou Eugenia.

—Chegou ás quatro, e sahiu ás cinco horas da manhã. Admiro que v. ex.ª o não encontrasse... Então é que foi pelo caminho de baixo.

Eugenia, n’um impeto de confiança, abraçou-se na velha, e exclamou:

—Por alma de minha mãi, vale-me?

—Se lhe valho, meu serafim? que quer v. ex.ª da sua serva humilde?

—Queria escrever uma carta.

—Ó menina, isso barato é de fazer; mas o rendeiro da commenda anda á cobrança, e levou a chave da sala, onde está o tinteiro e o papel.

—Pois nem um bocadinho de papel?!... Não tem um livro?...

—Livro tenho as minhas Horas e o Retiro Espiritual.

—Deixa-me vêr se ha uma lauda em branco?

O Retiro tinha a folha do ante-rosto surrada, mas susceptivel de receber caracteres. Eugenia despregou um alfinete, picou o dedo indicador, apertou-o até bolhar sangue. Depois com a cabeça do alfinete embebida, escreveu:

Estou em Recaldim, perto de Torres Novas, na commenda do tio. Aqui morrerei. Voltou-se com recrescente vehemencia para a velha, e disse:

—Dá-me um bocadinho de pão para eu fechar este bilhete?

—Sim, minha menina.

Mastigou o pão, fechou o bilhete e subscriptou-o.

—E agora?—tornou ella—o peor é agora...

—Que queria v. ex.ª?!

—Que me levasse esse bilhete a Lisboa.

—A Lisboa? A menina não sabe o que é ir a Lisboa! São dous dias e meio de jornada, andando de noute duas horas.

—Não importa... Eu pago...

—Mas pagar a quem, meu anjinho do Senhor? Ora venha cá... isto é paixão?

—Paixão de morrer, minha amiga...

—Chame-me sua creada Brites. Paixão para bem ou para mal?

—Eu queria casar-me com elle; mas meus irmãos perseguem-nos.

—Eu logo vi que a vinda de v. ex.ª era cousa de amor... O seu adonis não é fidalgo pois não?

—Não é...

—Logo vi... E é pessoa de bom porte?

—É um alferes de cavalleria, muito bom de coração, muito gentil, a minha paixão unica, o meu disvello de ha tres annos, a minha vida... e será a causa da minha morte.

—Coitadinha! Deus o fará melhor. Então quer a menina que elle saiba que a trouxeram para aqui?

—Sim, queria.

—Então, deixe estar, que eu de hoje até ámanhã, hei de cogitar no caso. Pediu-me isso por alma de sua mãi, eu só se não poder de todo em todo. Quem me ha de levar a cartinha, se as contas me não falham, ha de ser o cocheiro da caleça; mas o peor é não termos outro papel... Ora espere, que eu tenho alli uma sentença que me cá deixou meu sobrinho, que andava a aprender a ler. Tinta arranja-se sem a menina furar os seus mimosos dedinhos. Com uma pouca de felugem da chaminé e vinagre, faz-se tinta. Penna, vai se tirar uma de gallinha, e com uma faca fazem-se-lhe os bicos.

A sr.ª Brites em tanto tempo quanta era a anciedade de Eugenia, veio com tudo a ponto: meia folha de papel sellado do tempo de D. João V, uma tigella com a dissolução de felugem em vinagre, uma penna de galinha, e a faca mais afiada.

Eugenia, se se não uzasse o aparo das pennas, tel-o-ia inventado n’essa occasião.

Estava tudo em ordem. Sorveu a sr.ª Brites uma pitada de esturrinho, e disse:

—Escreva lá v. ex.ª


XV
Continuação

D. Eugenia escreveu o que dictava Brites:

«Minha sobrinha. Logo que esta receberes, sem demora de tempo, vai tu mesma em pessoa pessoalmente...»

—Onde é que ella ha de ir levar a carta?—perguntou Brites.

—Ao quartel de cavalleria a Alcantara.

—Escreva, meu serafim: