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O Carrasco de Victor Hugo José Alves cover

O Carrasco de Victor Hugo José Alves

Chapter 18: EPILOGO
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About This Book

The narrative unfolds in a Lisbon café during the mid-19th century, where a group of politically engaged individuals engage in spirited discussions. The atmosphere is charged with civic enthusiasm, reflecting the political climate of the time. Among the patrons, there are eccentric characters who express their beliefs in metempsychosis, claiming to embody the spirits of historical figures like Robespierre and Mirabeau. The narrator humorously contemplates his own identity, suggesting he may carry fragments of Falstaff and Sancho Panza within him. This work explores themes of political discourse, identity, and the interplay between history and personal experience.

XIV
A VINGANÇA

Sunt quædam quœ honestè non possum dicere.
Ha ahi coisas que eu não posso honestamente referir.

CICERO, Seg. Philipica.

Tenho á vista o folheto que Rozenda Picôa entregou ao filho, feito o pacto de vingança.

Em 1840, desoito annos antes dos successos até aqui referidos, publicou-se em Lisboa, na Typographia portuense, estabelecida na rua da Palmeira n.º 36, um opusculo de 23 paginas em 8.º, intitulado: A villan fidalga. Ou aventuras e transformaçoens da filha d'um moleiro conhecida em Lisboa pela alcunha de D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolem Portugal, moradora actualmente na Travessa nova de S. Domingos n.º 4, segundo andar, etc. {182}

O signatario do opusculo, Luiz Caetano da Rocha, principia por uma Breve exposição na qual relata que Marianna Joaquina o arguira de falsificador de um titulo de divida, em que a assignatura da querelante era imitada. O ministerio publico tambem querelara. Luiz Caetano, depois de oitenta dias de cadeia, foi ao tribunal para assistir á ratificação da pronuncia.

O advogado da accusação era Abel Maria Jordão, que morreu visconde de Paiva Manço; o da defeza era Antonio José Dique da Fonseca. Arcaram os dois athletas forenses com toda a pujança da sua notoria habilidade. Diziam os espectadores que o melhor causidico de D. Marianna era a sua formosura, bem que ella orçasse então pelos trinta e nove annos. O certo é que a parcialidade do juiz e delegado eram por tanta maneira insidiosas que o patrono do réo foi chamado á ordem, quando contava aos jurados a vida escandalosa da auctora. Quer, porém, o jury se deixasse vencer do soborno ou convencer da justiça, é certo que não ratificou a pronuncia e affirmou que era dolosa a querela.

Vem depois o réo absolto á imprensa com os documentos que o seu advogado não logrou ler no tribunal.

Examinemol-os succintamente, bem longe{183} de os acceitarmos com a importancia que o foliculario lhes dava quando escrevia: talvez que ainda uma penna habil se sirva d'estes documentos para compor uma novella... a qual mostrará que no mundo muitas vezes o plebeu se atavia com as galas da nobreza, o vicio se encobre com a capa da virtude, e nem tudo é o que parece.[3]

O primeiro documento é um attestado onde se diz que Marianna Joaquina, filha de Eusebio Joaquim e d'outra Marianna Joaquina fugira de Azeitão em 1814 com João Lopes Giraldes.

Do segundo documento convem trasladar o seguinte, que é já copiado da nota do tabellião de Lisboa Thomaz Isidoro da Silva Freire (Livro 214, folhas 103):

 

Saibam quantos este instrumento de declaração virem que no anno do nascimento de nosso Senhor Jesus Christo, de mil oito centos e trinta e um, aos vinte e nove dias do mez de novembro, n'esta cidade de Lisboa, na rua da Magdalena n.º 70 e casas de morada de D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolem, aonde eu tabellião vim, estando ahi presente Eusebio Joaquim da {184} Silva, morador em Villa Fresca de Azeitão, e por elle foi dito na minha presença e das testimunhas ao diante nomeadas: que, no anno de mil oito centos e quatro, lhe foi entregue e a sua mulher Marianna Joaquina da Conceição, uma menina para crear, a qual viveu em sua companhia, e da dita sua mulher na Villa d'Azeitão, reputada como sua filha até á edade de treze annos para quatorze em que se casou, e que agora pela prezente escriptura declara que a referida menina é a dita D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolem, e que não é sua filha, nem com ella tem parentesco algum, e que esta declaração promette, e se obriga haver em todo o tempo por firme e valiosa. Estando tambem presente a dita D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolem por ella foi dito acceita esta declaração na forma d'ella.

 

O terceiro documento é um auto lavrado em 1838, na villa de Azeitão, onde appareceu um José Antonio Atalaya, com procuração de pessoa que o documento omitte, citando Eusebio Joaquim da Silva para jurar em sua alma se D. Marianna Joaquina de Portugal residente em Lisboa, é sua filha, e se ali possue uma quinta. Eusebio declara ser verdade o allegado na petição.

Segue um documento denominado Querela.{185}

É o traslado da querela que deu em 1821 contra Marianna Elisia, mulher solteira, um Manoel Rodrigues, padeiro na Travessa do Secretario da Guerra, queixando-se de ter sido roubado em objectos de ouro e diamantes no valor de 848$000 reis.

Vem depois um attestado do solicitador de causas Antonio Gamarra, passado em 1838, certificando que Marianna Joaquina da Conceição Elisia, concubinaria do padeiro em 1821, era a mesma que, desasete annos depois, se chamava D. Marianna Joaquina Franchiosi Rolem Portugal, e vivia na rua da Emenda, onde tinha carruagem propria.

Accresce outra attestação do prior de S. Nicolau Francisco do Rozario e Mello, datada em 1839. Jura elle in verbo sacerdotis que, no anno de 1827, apparecêra no cartório da egreja de S. Nicolau uma mulher de capote dizendo que pretendia se lhe baptizasse um menino filho de paes incognitos, e que trazia procuração do desembargador Ferraz para ser padrinho; mas, no acto de lançar o competente assento no livro, ella observára que, sendo verdadeiramente padrinho quem tocava no menino, melhor seria não designar elle prior como padrinho o dito desembargador, mas sim o portador da procuração. Attesta mais o padre que, volvido algum tempo, appareceu{186} no mesmo cartorio uma senhora ostentando grande personagem pela tafularia dos vestidos e carruagem de que apeara, e disse chamar-se D. Marianna Joaquina Portugal; mas declara o prior que logo reconheceu ser a mesma que solicitara o baptismo já referido. E declarou a dama que tinha havido um filho do desembargador Ferraz, o qual menino ali fôra baptisado como filho de paes incognitos. Acontecendo, porém, ter proximamente fallecido o desembargador, ella pretendia que no assento baptismal de seu filho se declarasse o nome do pae. O padre recusou-se, sem que a competente auctoridade o auctorisasse. Dias depois, voltou a mesma senhora com uma ordem do vigario geral, o desembargador José Gonçalves Pereira, mandando proceder o prior ás diligencias necessarias para averiguar se o menino Francisco era filho do desembargador Ferraz. Em observancia de tal mandado foi o prior a casa de D. Marianna de Portugal, e ouviu o depoimento de tres mulheres; todavia, no dizer do padre, as testimunhas eram tão discordes nas circumstancias, que nenhum credito lhe mereceram. E acrescenta que tendo elle despedido um preto seu criado, o preto entrou no serviço de D. Marianna de Portugal; e, voltando para casa d'elle prior, declarara que na casa, d'onde sahira, havia um{187} menino comprado para herdar d'um homem rico e fallecido.

Temos agora outra attestação, que vae integralmente copiada:

 

José Joaquim do Cabo Pinto, commendador da ordem de S. Bento de Aviz, tenente coronel de cavallaria, governador do Forte da Cruz Quebrada. Attesto que D. Marianna Joaquina Franchiosi Portugal, hoje intitulada Rolem, talvez por se ter naturalisado franceza, tem sido heroina sem egual, como é notorio n'esta cidade, querendo-se intitular fidalga, sendo filha de um moleiro de Azeitão, por nome Euzebio, a quem fugiu com um official de Marinha, vindo assistir para o pé da Fundição; dizem que depois cazou com um sombreireiro, que a deixou e fugiu; tomou uma caza na rua dos Douradores, a que deu o nome de hospedaria, aonde iam os figuroens com as suas amasias, e por isso adquiriu grandes conhecimentos, dos quaes soube tirar partido, sendo seus apaixonados Luiz da Motta Fêo, o Barrão, coronel de milicias, Antonio Sicard, tenente de cavallaria que morreu na Torre de S. Julião, e um Rego, e a final o desembargador Ferraz que lhe poz carruagem, e ella largou então a hospedaria, e veio morar para o Carmo; mas, indo todos os dias á Travessa de Pombal a caza do tal Ferraz, que morreu quasi de repente, apoderou-se de um {188} bahu em que elle tinha os seus papeis; e, por temer que lh'os procurassem em caza, foi morar ao pé do Paço de Bem Formoso, e metteu-se depois a protectora de pretendentes, alcançando muitas coizas pois era protegida do ministro da fazenda D. Diogo Lousan; passou a ser espia de D. Miguel, a quem ia fallar um dia sim outro não, quasi sempre, e por isso contrahiu grande amisade com o Vadre. E, como receasse a chegada do snr. D. Pedro a Lisboa, se naturalisou franceza, pois sei a quem ella mostrou a carta de naturalisação; isto era para jogar com um pau de dous bicos. Finalmente é heroina do seculo, como é notorio. E, como me consta haver uma cauza que a dita propoz ao snr. F... na qual diz que uma menina que tem em caza é filha do tal F... declaro pela presente que ainda que ella fosse sua mãe propria, era impossivel saber se...[4] Mas é constante por ella o dizer ás suas amigas que a menina era sua afilhada, e a tinha tomado por a mãe ser pobre; mas agora no seu proceder se conheceu o fim para que a tomou... etc. Lisboa 5 de julho de 1838.

 {189}

Agora são duas senhoras que véem quebrar a dureza do quadro com as mimosas feminilidades dos seus dizeres. A snr.ª D. Maria Leonor da Cunha Saldanha, solteira, diz em 1838 que conhecera D. Marianna de Portugal em 1831 e 1832, a cuja casa ia; e vendo então uma menina de peito lhe perguntára de quem era. Primeiro, D. Marianna respondera que era filha d'uma mulher que a declarante via por lá; e, passados mezes, dissera que aquella menina era sua filha e do snr. D. Miguel, intitulado rei n'aquelle tempo.

A snr.ª D. Joanna Candida da Silva Monteiro, viuva, diz que conhecera entre 1817 e 1818 D. Marianna Elisia, criada de M.me Chapsal. Sabe que ella depois teve amisade com um padeiro, e depois com Luiz da Motta Fêo, e depois com o desembargador Ferraz; e que uma menina que tem em casa, e conta hoje de seis para sete annos, por nome Maria José, lhe disse ella que era sua afilhada. Declara mais D. Joanna que conhecia a pessoa contra quem depõe por ter sido ella depoente sua costureira, depois que, na ausencia de M.me Chapsal, a sua antiga criada, já n'outra posição, ficára senhora da casa.

————

{190}

Eis muito compendiada a substancia do opusculo que D. Rozenda entregou ao filho.

Victor Hugo empeçonhou a segunda edição do libello com prefacio e notas, para fazer bem sensivel que a filha de Marianna era a logrativa luveira da Rua Nova da Palma, feita por obra e graça dos seus olhos feiticeiros condessa de Baldaque.

O folheto, impresso clandestinamente, espalhou-se pela posta interna. O conde e a esposa receberam exemplares em duplicado. Foi ella quem os recebeu e descintou, á hora em que seu marido não estava em casa. Leu as primeiras paginas, e já pouco percebeu do affrontoso attestado do tenente coronel de cavallaria. O sangue, regorgitando-lhe do coração anciado, estuou-lhe no cerebro. Escurentou-se-lhe a vista, não por lagrimas, mas pela treva da congestão que lhe deu receios da morte. A attribulada senhora ainda chamou a brados a sua amiga Ernestina Tavares, lançou-se-lhe nos braços já esvahida, e balbuciou ainda:

—Que Raul não veja...

Alludia ao folheto que ali estava cahido no pavimento; mas Ernestina, sem attentar no folheto nem ponderar as inintelligiveis palavras, rompeu em altos clamores, mandando todos os criados procurar o conde. {191}

Já elle subia accelerado as escadas, perguntando a Damião Ravasco se o correio da posta interna havia trasido alguns papeis.

—Trouxe dois folhetos;—disse o mulato—um para V. Ex.ª e outro para a senhora condessa.

—Que desgraça!—murmurou o conde.

É que elle, entrando em casa do seu banqueiro, vira sobre a escrivaninha um folheto ainda cintado, e lera nas margens onde não chegava o papel sobrescriptado as palavras Marianna e Portugal. Pediu licença para abrir o folheto, leu salteando algumas linhas de cada pagina, e sahiu precipitadamente no intento de impedir que a condessa visse os insultos a sua mãe.

Entrou ao quarto onde Ernestina escutava a agitada respiração da condessa.

—Ella leu o folheto?—perguntou o conde.

—Não sei que folheto V. Ex.ª diz... Eu ouvi-a gritar, corri logo, e achei-a n'este estado. Ainda me disse não sei que palavras que mal percebi...

A este tempo, Damião Ravasco, esquecido do respeito usado com a ante-camara de seu amo, tinha tambem entrado, e erguido do chão o impresso. O conde, que transportára nos braços a esposa para o quarto inferior, não reparou no mulato que ficara lendo o folheto.{192} Quando, passados dez minutos, voltou para mandar procurar um medico, achou Damião a lêr.

—Quem te chamou aqui?—perguntou com azedume.

—Vim eu, snr. conde—respondeu serenamente o mulato.—Estava aqui a vêr quem é que fez isto... Ha de dar-me licença de levar este folheto... Quem o escreveu, dou-lhe a minha palavra de honra, juro-lhe pela alma de seu pae, que não torna a escrever outro. Diga-me, pela memoria de sua mãe, e pela vida da snr.ª condessa lhe peço que me diga quem escreveu isto?

—Não sei, Damião...—respondeu o conde reconhecido ao zelo e vehemencia dos rogos do mulato—Nós o saberemos... Vae chamar medico... Não te demores.

O medico não tardou; mas Damião Ravasco só entrou noite alta. Dizia-se que um mulato, com o fogo do inferno nos olhos, andára perguntando de typographia em typographia se um folheto que mostrava tinha lá sido impresso. Parava á beira dos grupos e imaginava que poderia descobrir rasto por onde fariscasse o auctor do folheto. Estacára no Chiado em frente do deputado da sova memoranda, a vêr se poderia, com mais ou menos justiça, escorchal-o contra um frade de pedra. Offerecêra{193} dinheiro grande a uns agentes da policia que lhe descobrissem a victima. E nestas diligencias que lhe queimaram o sangue e centuplicaram os demonios do máo genio, andou Ravasco todo o dia e grande parte da noite.

Quando chegou a casa foi muito ás surdas até á porta dos aposentos do conde. Escutou e ouviu passear na ante-camara. Bateu de mansinho. O conde sahiu á saleta.

—Como está a senhora?—perguntou Damião.

—Está com febre.

—Não descobri nada—voltou o mulato.

—Não descobriste o quê? que procuravas tu?

—O auctor do papel.

—Prohibo-te que faças taes indagaçoens. Eu o saberei; mas, se o souber, prohibo-te que me vingues. Se o infame não puder ser castigado por um homem de bem sêl-o-ha por um lacaio; mas não por ti que és... meu irmão...

Damião dobrou os joelhos, e cobriu de lagrimas as mãos do conde.{194}
{195}

XV
A PROLE DE D. AFFONSO VI

Para vós verdes como coisa nenhuma é encoberta.

BERN. RIB., Menina e Moça, cap. XII

Aquelle folheto, impresso em 1840, explica tres annos de angustias dilacerantes que levaram Marianna Rolem de Portugal ao extremo desafôgo do suicidio, ao ver-se desvalida das pessoas que se pejavam de conviver com a mulher infamada, e de mais a mais empobrecida.

Mas quem era Marianna Joaquina Franchiosi Rolem de Portugal?

Que havemos de inferir dos attestados reimpressos por conta de Victor Hugo?

É a filha aventureira do moleiro de Azeitão? Fugiu d'alli com um official da armada?

É a criada da franceza Chapsal?{196}

É a infiel contubernal do padeiro Manoel Rodrigues?

É a supposta parturiente do menino Francisco, e a indigitada amante de D. Miguel?

Donde lhe veem aquelles appellidos? Quem a levou a Joaquim Euzebio para que a creasse?

Vamos derivar a resposta de tão justa curiosidade desde 1661.

Onde isto vae!

A historia patria, que o leitor conhece impressa, não lhe refere que D. Affonso VI, á volta dos dezoito annos, viu em Lisboa, nas circumvisinhanças de Queluz, uma rapariga muito formosa, pelo braço de um mancebo de boa figura. Encarregou o valido Henrique Henriques de indagar quem fosse a galante menina. Descobriu-se que era Catharina Arrais, natural de Coimbra, donde fugira com seu primo, Manoel Arrais, estudante, a fim de se casarem em Lisboa, logo que obtivessem dispensa de parentesco e remoção de outros impedimentos canonicos attinentes ás fragilidades da sua céga paixão.

Sabido isto, e a residencia dos profugos amantes, estava sabido tudo. Manoel Arrais foi preso e conduzido a Coimbra. Catharina, na noite d'esse dia, foi assaltada no seu esconderijo por um tal Agostinho Nunes e por{197} Henrique Henriques de Miranda que a levaram ao rei.

Dois annos depois, Catharina Arrais era freira em Santa Anna, e Manoel Arrais era fallecido de dôr.

Antes, porém, de ser dada como esposa a Jesus Christo, houvera Catharina uma filha de Affonso VI, a qual se chamou D. Luiza de Portugal.

Esta D. Luiza, quando prefez seis annos, foi transferida a casa do famoso estadista conde de Castello Melhor, onde recebia tratamento de alteza.

Aqui se deteve com honras de infanta até ao anno de 1667, em que o pae já estava preso á ordem do principe seu irmão. Mas um dia o corregedor da côrte entrou á força no palacio do marquez, apoderou-se de D. Luiza de Portugal, e levou-a para o mosteiro de Santa Anna.

Soror Catharina recebeu sua filha, pensionada pelo infante, com a declaração de que sua alteza não a reconhecia como sobrinha; mas a protegia como desgraçada victima da libertinagem de seu augusto irmão.

Vejamos agora o que se fez para destruir as conjecturas de ser filha de D. Affonso VI aquella menina. A historia impressa não o diz. Ha manuscriptos que nos elucidam; e um,{198} que possuo com a maior estimação e de nenhum modo suspeito, vae referir-nos a villissima traça que teceram os partidarios da rainha e do infante para desfazerem a embaraçosa hypothese da fecundidade do filho de D. João IV.

O manuscripto intitula-se: Vida de el-rei D. Affonso VI, escripta no anno de 1684.[5]

Dava que pensar e receiar a crença publica de existir a filha do rei. O processo do divorcio, fundamentado em rasoens de torpissima deshonestidade, tropeçava n'aquella menina.{199} O procurador da rainha, duque do Cadaval, refere o expediente que lhe desatravancou o passo. Sobeja malvadez onde a imaginação coxêa no enredo. O homem escreveu isto para a posteridade, e talvez vaidoso de engenhar o capitulo d'uma novela ao sabor do tempo. Conta elle: «Offerecia-se ao duque uma grande duvida do bom successo da causa (o divorcio); porque dizia que era impossivel, tendo el-rei uma filha em casa do conde de Castello Melhor, chamada D. Luiza e com tratamento de alteza. Achando-se este negocio com esta grande duvida, Deus, que é a mesma verdade, foi servido de buscar os meios de se descobrir e averiguar com toda a certeza.

Recolheu-se um dia ao jantar para casa; achou na mão de um criado seu, um escripto que ali tinha deixado um moço. Dizia elle: Se V. Ex.ª quer saber um negocio muito importante para a cauza da rainha com que V. Ex.ª corre, ache-se á noite no seu coche, só, ás escadas do Loreto, de sorte que espere n'aquelle logar o sino da meia noute. E não se assignava o escriptor. Logo foi o duque á Esperança,[6] e, mostrando o escripto á rainha, lhe disse ella{200} que de maneira nenhuma queria que fosse, por que aquillo podia ser de grande perigo. Respondeu-lhe o duque que havia de ir, e que deixasse sua magestade á conta d'elle a segurança.

«Reedificava-se a egreja do Loreto do incendio que havia padecido. Tinha no adro um grande telheiro a cujo abrigo trabalhavam os officiaes da obra. Mandou o duque metter n'elle o capitão de cavallos Manoel Travassos e o de couraças Manoel Caldeira, ambos de grande valor. Acompanhavam aos capitães quatro creados do duque, todos valorosos e bem armados com ordem de que, se vissem mais de que uma pessoa, sahissem do logar onde estavam. Foi o duque áquelle logar assignalado esperar a meia noite. Eis que chega ao estribo do coche uma mulher embuçada; e, perguntando ao duque se a conhecia, o duque lhe respondeu que não; e ella lhe tornou que era D. Anna Saraiva, que havia muitos annos o duque a vira e lhe fallara muitas vezes; e disse-lhe o duque que entrasse no coche, e que fossem até á Cotovia, que era parte mais solitaria.

«Disse-lhe D. Anna Saraiva que lhe queria mostrar como uma menina, que estava em caza do conde de Castello Melhor não era filha d'el-rei, posto que tractada por tal. Perguntando-lhe{201} o duque como o sabia, lhe contou toda a historia, e disse que, morando Agostinho Nunes nas cazas do armeiro-mor, a convidou para ir ver botar uma náo ao mar; e que alli vira uma moça bem parecida, descorada e com o cabello cortado; e que, perguntando-lhe algumas cousas a fim de saber quem era, e que vida era a sua, lhe respondeu que as más cores do seu rosto eram effeito da sua dor, e os cabellos lhe haviam sido cortados pela mão d'el-rei. Foi D. Anna, que era destra, inquirindo a môça, até que esta lhe manifestou sua desgraça, e disse que se chamava Chatharina Arrais; e, galanteando-a Manoel Arrais seu primo em Coimbra, viera para Lisboa com animo de casar com elle; e que, morando em umas cazas com o dito seu primo, a foram furtar uma noite Agostinho Nunes e Henrique Henriques, e a levaram ao paço, e pernoitou na camara de el-rei: que seu primo morrera de magua em Coimbra, e ella fôra para casa de Agostinho Nunes, onde se achava, e fôra obrigada a dizer, quando desse á luz, que a creança era filha d'el-rei; e sobre isso lhe fizeram grandes tyrannias até chegar el-rei a cortar-lhe os cabellos. Disse mais D. Anna Saraiva que D. Catharina Arrais estava freira em Santa Anna, e que ella lhe fallara, e estava resolvida{202} a vingar-se, declarando a verdade. Chamou o duque a Agostinho Nunes e em presença de Duarte Ribeiro foi inquirido e disse a verdade. Resolveu-se o duque a ordenar a Aurelio de Miranda, tabellião de notas, fosse ao campo de Santa Anna, perto da egreja, e alli esperasse recado d'elle duque; o qual deixando Augusto Nunes no seu coche, mandou dizer á prelada que quizesse fallar-lhe; e, vindo a prelada, lhe disse que tinha que fallar com Catharina Arrais, e sua mercê lh'a mandasse á grade. Assim fez. Appareceu; e, dizendo-lhe o duque que não vinha tirar-lhe a sua tença, antes conservar-lh'a; que elle sabia a verdade do que tinha passado; que convinha muito que o depuzesse em juizo, e que elle pediria licença á rainha para tal deposição. Veio Aurelio de Miranda. Disse D. Catharina o que havia succedido, e assignou. Averiguada esta materia, foi D. Luiza tirada pelo corregedor da côrte de casa do conde de Castello Melhor, e o infante lhe deu uma tença. Tirado este impedimento, se processou a causa de divorcio até final conclusão, etc.»

Até aqui a fantasia do historiador, atando alguns lanços verosimeis com outros de todo o ponto irracionaes. Que precisão tinha D. Anna Tavares de revelar o mysterio, a deshoras,{203} nas escadas do Loreto? De quem se temia ella, se tinha por si a rainha, o infante, o duque, Agostinho Nunes e todos quantos haviam sido alcayotes do rei preso? Quem teve a sandia credulidade de acceitar que D. Catharina, á primeira vez que via D. Anna, lhe contasse as miudezas vilipendiosas de sua vida? E o caso de el-rei lhe cortar de mão propria as tranças, por que ella se recusava de o acceitar como pae da creança que havia de nascer? Claro é que os personagens d'aquelle tenebroso drama de cruezas e devassidoens eram melhores algozes que romancistas.

Todavia é certo que soror Catharina recebeu sua filha, e, segundo a vontade de quem lh'a pensionára, quiz que ella fosse religiosa. Estava, porém, um amor infantil começado em casa do grande ministro de Affonso VI com D. Pedro de Mello e Alencastre, fidalgo de primeira plana, aparentado com os Castello-melhor. O moço, com quanto nobilissimo, olhava timidamente para a filha do rei; mas, depois que a prepotencia rebaixara a jerarchia de D. Luiza, complanou-se o terreno em que elle mais affoitamente podia requestal-a.

Estreitaram-se as relaçoens amorosas—tanto quanto os degenerados mosteiros do tempo as facilitavam—mantidas, ainda assim,{204} no mais alto ponto da honestidade. D. Pedro de Mello e Alencastre casou com D. Luiza de Portugal, e viveram em uma quinta do Riba-Tejo, em um quasi desterro imposto pelo contrariado infante.

Houveram varios filhos todos varoens, e um d'estes, D. Prior de Guimaraens, de amores com uma dama da côrte e de stirpe muito selecta, reconheceu sua filha D. Maria de Portugal, que casou com Marco Franchiosi, filho de um conde milanez, que militara em Portugal, no fim do reinado de D. Pedro II. Seguiu-se, neta de D. Luiza, D. Maria Izabel Franchiosi de Mello e Portugal e Alencastre, dama da côrte da rainha D. Marianna de Austria, acolhida pela soberana por dó da extrema pobreza em que a deixára o pae, homem de vida estragada.

N'este tempo, appareceu em Lisboa um provinciano riquissimo, de Pinhel, chamado Salvador da Costa Fagundes, a quem D. João V fez capitão de cavallos, deu habito de Christo, foro de fidalgo, e nomeou sargento mór da sua terra.[7]{205}

Este Salvador Fagundes, movido pela formosura e prosapia da açafata da rainha, casou{206} com D. Maria Izabel, segunda neta de D. Luiza de Portugal.

Tiveram quatro filhos: um que succedeu na casa, dois que professaram em Santa Cruz de Coimbra, e uma senhora que se chamou D. Maria Escolastica Pulcheria Fagundes de Alencastre Portugal.

Esta menina, que vivia na côrte em casa de parentes, amou um official francez chamado Hilario Lescœure Rolem, (Rolin?) com o qual fugiu para Azeitão e mais uma filhinha nascida em Lisboa. Por Azeitão viveram anno e meio clandestinamente em uma quinta que o francez ali comprara. Descoberto e perseguido pela justiça, o official foi assassinado em acto de resistencia, e D. Maria reconduzida aos seus parentes, depois de ter deixado entregue a Joaquim Eusebio, moleiro em Azeitão, a filha, que se chamou Marianna Joaquina.

D. Maria, em 1808, forçada pelo irmão, casou para o alto Minho com o representante de uma casa antiquissima, cujos appellidos omitto em respeito a seus netos.

E, como em 1816 ficasse viuva, foi a Lisboa, e encarregou um seu afilhado, official de marinha, de procurar Marianna em Azeitão, e convencêl-a a seguil-o para Lisboa, se tivesse a fortuna de a encontrar.

O official encontrou a filha de sua madrinha{207} moirejando no cazebre do moleiro. Facil lhe foi movêl-a a acompanhal-o.

Orçava então pelos treze annos D. Marianna Elisa. Era linda quanto Deus podia fazel-a. A mãe nobilitou-lhe o nascimento com as suas lagrimas, e entregou-a aos disvellos de uma franceza illustrada que se chamava madame Chapsal.

A mãe demorou-se com a filha alguns mezes, fez-lhe doação da quinta de Azeitão revindicada de illegitimos possuidores, estabeleceu-lhe abundantes recursos, e voltou para a provincia, onde tinha filhos na primeira infancia.

Não sei se esta senhora voltou a Lisboa desde aquelle anno até ao de 1819 em que faleceu, depois de haver rogado a um provedor Ferraz, então seu hospede em Ponte do Lima, que entregasse a Marianna o seu cofre de joias, não podendo legalisar-lhe outra herança.

Este Ferraz, quando entregou as joias, rendeu-se por tal feitio á belleza da orfan, que não houve mais desenliçar-se d'aquella fascinação. Por desventura, o provedor era rivalisado por um gentil cadete de cavallaria, de nome Antonio Sicard.

Travou-se entre os dois emulos batalha de odios abafados, que mais tarde levaram Sicard, já alferes de cavallaria, por denuncia aleivosa de Ferraz, á Torre de S. Julião, onde morreu.{208}

Presume-se, todavia, que D. Marianna decidira o pleito a favor do cadête, por maneira tão decisiva e inappellavel que se estadiava em publico, de braço dado com o esbelto môço.

Tambem conjuraram bastantes tradiçoens a confirmar que o desembargador Ferraz, homem teimoso e rico, lográra tal qual dominio no coração de D. Marianna, á custa de liberalidades, entre as quaes realçavam o palacete e a carruagem.

Que D. Marianna de Portugal quiz mais tarde legitimar um filho para succeder na herança do magistrado é de todo o ponto inquestionavel, segundo jura o prior de S. Nicolau; mas essa creança não desdoira os creditos da quinta neta de Affonso VI. Era um filho artificial.

A opinião publica desdoira as mães dos filhos naturaes; dos artificiaes, não. Ultraja-se a natureza e respeita-se a arte.

Vivia D. Marianna de Portugal fóra de portas, quando D. Miguel a viu. Sua sexta avó D. Catharina Arrais soprara a mesma lavareda no peito de Affonso VI. Mas o real amante, graças á brandura de costumes d'este seculo, não a tosquiou, antes lhe beijou as tranças, e se deixou encadear por ellas. Tambem não consta que Marianna se doêsse do pejo da maternidade, á imitação da freira de Santa Anna,{209} consoante o duque de Cadaval a calumniou. Muito pelo invéz: ella adorava o principe, e sentia-o na alma e no sangue quando a creança lhe palpitava no seio.

Attesta o coronel José Joaquim do Cabo Pinto, no opusculo reeditado por Victor Hugo José Alves, que D. Marianna visitava D. Miguel de dois em dois dias. Isto não me parece exacto. Pendo a crêr que ella o visitasse todos os dias. Quanto á espionagem, que lhe assaca o desbragado commendador d'Aviz em estylo de tarimba, isso é calumnia a descambar em parvoice. As espias absolutistas não tratavam com o rei directamente: começavam no Miguel alcaide, e tocavam o ápice do valimento se levavam a denuncia até ao intendente geral da policia.

D. Marianna de Portugal empobreceu durante a sua intimidade com o rei. Para sustentar carruagem, libré e uma apparente abastança, vendeu as joias da mãe, depois que exhauriu o peculio que amealhara nos cofres do desembargador. Animo isempto e estreme de vil ganancia ostentou-o nobremente quando o coração predominou e abafou os baixos sentimentos que a pertinacia do desembargador lhe implantara na alma plebeamente educada. Um amor grande com os luzimentos verberados{210} da corôa real, devia ser segundo baptismo para o coração da neta de reis.

Acabada a guerra e desterrado o infante, D. Marianna estava pobre e tinha uma filha.

O desembargador Ferraz volveu a procural-a como amigo, como protector, e como velho inveterado de paixão, agora exacerbada pelos realces que o amor de D. Miguel haviam resurtido da belleza de D. Marianna.

Se é preciso confessar que a desvalida senhora acceitou a protecção do magistrado por amor á filha e desamor á penuria, diga-se o delicto bem alto, e haja de lhe perdoar em silencio a notoria sensibilidade do leitor.

Voltou a neta de D. Catharina Arrais a equipar sege e lacaios; mas, em 1838, o desembargador, aquelle Merlin cupidineo, levou comsigo para o inferno dos desembargadores a lanterna milagrosa que fazia prodigios de ouro á volta de Marianna.

Recorreu a mãe de Maria José ao expediente da hospedaria. N'esse trato, ia provendo á educação da filha, e costeando certas pompas um tanto desbotadas, mas incongruentes ainda assim com o seu estado. Contrahiu dividas, precipitou a queda na rampa da uzura; e é bem de presumir que o agiota, de quem a filha herdou, a desbalisasse a termos de lhe {211} não poder a consciencia com o roubo. Exemplo unico.

O insulto publicado em 1840 impeçonhou a vida da infausta vergontea de Bragança. Os tres annos que ainda arrastou á volta da filha, como quem se estorce e despedaça entre o amor de mãe e a necessidade de morrer, foram expiação acerba, purificação que nos torna respeitavel a memoria d'esta senhora de tão illustre sangue.

Em 1842 devia ter D. Marianna de Portugal quarenta annos proximamente, e vivia ahi por perto da Praça dos Romulares, com o seu hotel bastante luxuoso ainda, para dignamente hospedar o principe Lichnowsky.

Este principe viu-a, admirou-lhe as graças, comquanto já desluzidas, e então soube que uma linda menina, que ali se via, era filha do principe proscripto. Nas suas Recordaçoens, do anno de 1842, escreveu elle: Fui recebido na rua de... em uma hospedaria...[8]A dona da casa, uma ci-devant bella mulher com ainda classicos vestigios de depostos encantos, esteve antigamente na posse de ternas relaçoens com D. Miguel. Ha mesmo alguem assás atrevido{212} para chegar a assegurar que existem provas vivas d'aquella perdilecção real.[9]

Poucos mezes mais disputou a vida atormentada, a desgraça, que, de dia para dia, lhe esvasiava os guarda-fato e os bahús. Não é mister rendilhar phrases lugubres, que deixem transparecer as dilaceraçoens que a levaram ao suicidio.

Duas palavras bastam: vergonha e pobreza. Vergonha dos opprobrios d'aquelle folheto, e ninguem que a defendesse. Pobreza, que explicava o desamparo dos protectores, e a impunidade da injuria.

Morreu, descansou.{213}

XVI
RESSURREIÇÃO DE UMA ALMA

Nec sine premio virtutes.
Não ha virtude despremiada.

BOETIUS, da Consolação da Philosophia, Liv. IV.

A medicina, informada da origem da enfermidade moral da condessa, aconselhou viagens como distracção. O caracter intermittente dos accessos de lagrimas, e a incongruencia das palavras, delirantes sem febre, eram symptomaticas de perturbação de juiso. Todo seu empenho apontava em provar ao marido que as affrontas atiradas á sepultura de sua mãe eram calumniosas. O conde esforçava-se por convencêl-a de estar d'isso bem persuadido; ella, porém, sobrevinha na mesma prova, se despertava apoz um breve espaço de repouso.

Assim que a desfigurada condessa ganhou{214} forças e se docilisou ás carinhosas supplicas do marido, aprestou-se tudo rapidamente para a viagem.

Da casa e direcção dos negocios do conde ficou encarregado Damião Ravasco. O mulato exultou quando o dispensaram de os acompanhar, sem todavia manifestar o intento que o prendia a Lisboa. Toda a sua esperança era descobrir o publicador do folheto, bem que de si para comsigo devia ser um dos dois que elle esmurraçára, sem embargo de lhe dizer Christovão Tavares que suspeitava muito d'um tal Victor Hugo. Queria muito o mulato que lh'o mostrassem a fim de o não procurar longo tempo, se um dia o diabo o atraiçoasse. E, com effeito, chegou a vêl-o á porta do Marrare do Chiado. Contemplou-o com disfarce, e disse entre si: «deve ser este!» Entretanto, as cartas vindas de differentes paragens da Europa, não davam esperanças do restabelecimento da condessa. A monomania da justificação da mãe resistia ás diversoens, aos rogos, ás caricias, e á therapeutica dos banhos, frios da Allemanha.

No outono de 1860, chegaram a Baden, esperançados nas aguas mineraes. Ao mesmo tempo, chegava D. Miguel de Bragança com sua esposa e alguns filhos.

O conde levou alvoroçado a noticia á enferma,{215} que teimava em não sahir do seu quarto. A condessa agitou-se, riu-se, chorou, bateu as palmas, abraçou o marido, beijou a sua amiga Ernestina, e exclamou com febril vertigem:

—Vou vêr meu pae!... vaes vêl-o, Raul!... verás o que elle te diz de minha mãe... verás que é tudo calumnia!...

Mas o conde receiava que o infante desconfiasse da sanidade intellectual de uma senhora que lhe saisse ao encontro a chamar-lhe pae, sem de antemão se haver prevenido para tal apresentação.

Contida no seu enthusiasmo a condessa por considerações de etiqueta indispensaveis com os principes, o conde fallou a um sacerdote da pequena comitiva do infante, e industriou-o sobre a maneira de precaver D. Miguel para ser cumprimentado por uma dama portugueza, a condessa de Baldaque.

O principe alegremente mostrou vivo desejo de conhecer a esposa de um cavalheiro a quem elle e os legitimistas portuguezes deviam relevantes finezas.

Incutia receios o arquejar do peito da condessa, quando apeou da carruagem á porta do infante.

Sahiu D. Miguel de Bragança ao patamar da escada a recebel-os. Quando, com a mais{216} lhana cortezia, o principe offerecia a mão á dama, ella ajoelhou; e, suffocada por soluços, cobriu de lagrimas e beijos a mão que não pôde esquivar-se áquelle estranho transporte.

—Ó minha senhora!—exclamava o infante—por quem é! peço-lhe que se levante...

E olhava para o conde, como a pedir-lhe a explicação da anciedade da dama.

E o conde, com os olhos turvos de lagrimas, disse:

—Vossa magestade comprehenderá a perturbação de minha mulher, sabendo que ella é Maria José de Portugal, filha da snr.ª D. Marianna...

—Ah!—exclamou o infante—já sei... já comprehendo...

E, com maior esforço, inclinando-se até poder levantal-a dos seus pés, abraçou-a, beijou-a na testa, correu-lhe as mãos pelas fontes, e murmurou:

—Vi-a creancinha... de seis mezes...

E, tomando-lhe o braço, conduziu-a á sala, sentou-a na othomana, ao seu lado, lançou-lhe o braço pela cintura, e disse-lhe quasi em segredo:

—Sua mãe... é morta?

—Ha muitos annos...—balbuciou a condessa.

—Porque me não escrevia, quando me{217} enviava...—tornou elle, feita uma longa pausa.

—Oh!—atalhou D. Maria—peço-lhe que não se lembre... vossa magestade...

—Que me não lembre?... Eu não me esqueço senão dos ingratos... minha filha!...—E voltando-se para o conde:—sênte-se, senhor... Como se chama seu marido?—perguntou á condessa.

—Raul—respondeu ella.

—Sênte-se, snr. Raul... Sei que é brazileiro... Agradeço-lhe esta boa hora da minha vida—proseguiu tomando entre as suas a mão de Maria.—Mal diria eu!... Ella aqui está... aquella creança que eu via como um anjo lá ao longe da vida... um ponto branco e luminoso do passado... um sonho!...

D. Miguel alongou os olhos tristes para o horisonte azul que as montanhas recortavam. Que visão! que saudade! que escuridade ia dentro d'aquella alma, purificada na onda das lagrimas, na fragua da indigencia, no cadinho ardente do desesperar!

O conde, embevecido no aspecto respeitavel e triste d'aquellas cans geadas dos invernos de vinte e oito annos, escutava-o tão admirado, quanto em Portugal a opinião da plebe das letras malsinava de ignorancia o principe. D. Miguel interrogava, ora o conde,{218} ora a filha sobre coisas e pessoas da patria, alheando-se da politica, e instando a sua dolorosa curiosidade em miudezas de certos sitios, dourados pelo sol da infancia, e esmaltados de indeleveis côres pelo archanjo da saudade, que lá de longe nos segue até nos entregar ao archanjo da morte.

Quando um criado entrou á sala annunciando que a rainha se recolhera do banho, o infante disse ao conde:

—Minha mulher ha de querer cumprimental-os em occasião mais opportuna.

A condessa levantou-se, dobrou o joelho ao lado do esposo, beijaram as mãos do principe, que deu o braço á dama, até ajudal-a a subir ao estribo da carruagem.

Desde esta hora, raiou luz nova no espirito da condessa. As lagrimas do enthusiasmo filial diluiram a mancha negra que lhe ennoitecia, a intervallos, a razão. Se a causa d'aquelles crepusculos da escuridade da alma tinha sido julgar-se abatida pela calumnia aos olhos do marido, a cura operou-se pelo exalçamento que lhe dera a consideração do pae em presença do conde. Só assim: nenhuma outra ancora salvaria do golpho das trevas aquelle espirito. A ferida escalavrara o orgulho da neta de Affonso VI, por sua mãe e por seu pae.

Demorou n'aquella paragem o conde até{219} que D. Miguel recolheu a Heubach. Depois, deteve-se em Allemanha. Por espaço de anno, raros dias se não viram as duas familias. A felicidade de Maria José era o céo, como raras vezes a virtude n'este mundo o encontra, na consciencia, e nas alegrias inalteraveis da vida exterior.

O conde, adivinhando os discretos silencios da esposa, disse que nunca mais voltaria a Portugal. Projectou, pois, deter-se na Europa mais dois annos, e voltar para o Brazil, onde o chamavam as memorias da infancia, como quem queria continuar as doçuras da vida adulta e lá esperar a quietação da velhice.

N'este proposito ordenou ao seu procurador e mormente a Damião Ravasco a venda de todos os seus haveres em Lisboa, com ordem ao leal amigo de o ir encontrar a Marselha, levando comsigo Christovão Tavares e toda a familia do afortunado velho.

Quando Damião, grandemente desconsolado por ter de sahir de Portugal sem vingar o conde, obedecia ás ordens recebidas, foi colhido de sobresalto por uma noticia que, segundo elle affirmou, por pouco o não matava de prazer.

Christovão Tavares mostrou-lhe uma gazeta liberal em que o articulista, em polemica virolenta com o redactor d'outra gazeta, escrevia{220} estas lisonjas: «... Quem é este sevandija que nos falla em moralidade, em caracter, em firmeza de principios, em dignidade jornalistica? Quem é o gaiato, o fundibulario das esnogas d'Alfama, que nos despede a pedra, sem receio que o recochête lhe vá bater no stigma infamante da testa, onde a lei já não deixa escrever LADRÃO com ferro em braza? Quem é, e donde veio este Victor José Alves, que incravou no nome plebeu o «Hugo» tão honrado no mundo? Quem lhe disse a elle que onde estava o Alves, para memoria de um certo Diogo, devia intervir o sobrenome do primeiro poeta do universo?

«Victor Hugo! elle, o filho da estalajadeira, que ainda tem, como brazão de familia, atraz da porta o cacete do marido, que quiz mercadejar com as costas dos septembristas, como com os coiros de vacca onde se levantou subindo pela tripeça do pae!

«Victor Hugo! elle que imbaiu uma certa luveira a dar a D. Miguel uns tres contos de reis, que o escroc desbaratou em pasteis de camarão e orgias nos bordeis!

«Victor Hugo! elle que depois prefaciava um apontoado de injurias aleivosas que haviam matado a infeliz mãe da luveira roubada, e levaram depois ao cairel do sepulcro moral a razão de certa condessa, que hoje{221} erra foragida da patria em companhia de seu honrado marido!

«Elle, Victor Hugo, que apoz tantas protervias, umas culminantes de infamia, outras de irrisão, exerce hoje um logar de confiança politica, o secretariato d'um governo, e pendura na lapella da casaca, que devia ser blusa de forçado, duas commendas, uma que lhe dá o foro de fidalgo, e outra que o representa benemerito das consideraçoens litterarias!... Elle que...»

Damião Ravasco arrojou o jornal, e atirou-se aos braços de Tavares exclamando:

—É meu o homem! Se alguem lhe põe a mão, arranco-lhe os figados pela bocca!

E parecia jorrar ascuas de forja afogueada por ambos os olhos.{222}
{223}

CONCLUSÃO

É immolado um porco á terra.

HORACIO, Epist. I, Livro II.

Corria o mez de agosto de 1862.

Na estação de seges de praça, que descorrem pela cidade baixa, notaram os boleeiros a concorrencia de um mulato, que elles tinham visto, adestrando as soberbas parelhas do conde de Baldaque, ou aderençando pôtros rebelloens e alfarios com a galhardia de consummado picador. Reputavam-no mordomo do millionario; porém, quando o viram na praça, boleando uma sege numerada, inquiriram d'elle mesmo se deixára o serviço do conde. E elle respondeu:

—O conde foi-se embora para França, e eu, que me dou bem por cá, empreguei as minhas soldadas n'este trem, e vou vivendo.{224}

O serviço de Damião agradava sobre modo aos rapazes do Chiado. O mulato era já conhecido da mocidade de pechisbeque, versão genialmente portugueza da jeunesse dorée lá d'álem. Em dia de toirada era ditoso quem o emprazava de vespera.

Victor Hugo rara vez sahia de sua caza na Travessa do Estevão Galhardo—aonde voltára reconciliado com a mãe e um tanto fallido ao dinheiro—que não visse o mulato convidando-o a acceitar-lhe o seu serviço.

Uma vez, entrou na sege, e disse:

—Ás camaras!

A sege voou. Victor, apeando, disse:

—Isso é que é andar, rapaz! Como te chamas?

—O mulato.

—Mas como é o teu nome?

—Mulato.

—Mulato não é nome, é côr. Tu deves ser Simão ou André ou Belchior...

—Sou mulato.

—Pois então, mulato—voltou sorrindo o commendador da Conceição—queres ir amanhã levar-me a Cascaes?

—É longe, meu amo. Faz muito calor. Estafo os cavallos á torreira do sol; e eu não sei andar a passo. É para lá! bem vê V. Ex.ª... Eu não poupo o gado...{225}

—Pois vamos de noite, queres?

—De noite? A que horas?

—Ás tres.

—Isso é de dia.

—Ás duas, serve-te?

—Convem. Chegamos lá ás sete.

—Sabes onde moro?

—Parece-me que sei... é...

—No Hotel da Travessa...

—Do Estevam? já sei... Lá estou ás duas em ponto.

—Sem falta? palavra?

—De mulato. Quer que espere?

—Não. Pega lá...

E deu-lhe, com fidalga bizarria, dez tostoens. Damião recebeu-os na luva de algodão. Subiu á almofada, largou para a rua de S. Bento, e deixou caír as duas corôas no regaço de uma mendiga cega.

Á uma hora da manhã Victor Hugo recolheu do Gremio, e sevou o seu rewolver de seis tiros. Depois trajou-se á campezina, fato inteiro azul anil, luva amarella, chapéo de palha, uma gravata de muitas pontas com muitas flores e muitas borboletas. O espelho lisongeava-o, occultos os dentes, o vestibulo infecto d'aquella caverna do peito, as navalhas podres do javali que esfoçava lá dentro.

Victor Hugo ia a Cascaes á cata d'uma grega{226} que, por aquelles dias, alvorotára os galans enfrascados em damarias d'aquella casta. Farto de amores peninsulares, o poeta Alves almejava um amor grego, perfumado das auras do Bosphoro, coisa que lhe désse uma vez ao menos as morbidezas do oriente na Travessa do Estevam Galhardo.

A grega perseguida dos caens vadios de Lisboa, que se lhe penduravam de cauda de murzêlo, fugira para Cascaes, no intuito outro sim de traduzir o Alkorão para uso dos seus cathecumenos.

Victor Hugo ia procurar a grega, fugida do serralho de Bysancium, e disposto a enrodilhar o turbante na cabeça, mahometanizar-se, restaurar a Grecia por amor d'ella, dar a casca em Missolonghi, e almoçar com ella, se pudesse.

Ás duas horas rodou a sege na calçada e parou. D. Rozenda, quando o filho passava no corredor, disse lá de dentro da alcôva:

—Onde vaes tão cedo, Victor?

—Vou a Cascaes.

—Que vaes fazer a Cascaes, homem?!

—Respirar as brizas do mar.

—Forte asno!—murmurou a mãe, e adormeceu. A sege abalou velocissima.

Ahi por Paço d'Arcos, Victor perguntou ao boleeiro, quando a sege ia muito a passo:{227}

—A quem compraste esta boa parelha?

—No leilão do conde de Baldaque. V. Ex.ª conhece-os?

—Conheço o conde, os cavallos não.

—Não me saberá dizer porque é que o conde se foi embora?

—Sei: casou com uma aventureira...

—Que vendia luvas...

—Isso...

—E depois?—tornou o mulato.

—A opinião publica fez-lhe troça e elles safaram-se.

—Ah!... então a troça como foi?... Acho que havia de ser um folheto que ouvi ler, a dizer o diabo da mãe da tal condessa...

—É isso...

—E aqui, ha de haver um mez, leram-me um jornal onde se dizia que o folheto fôra publicado por um snr. Victor Hugo, que tinha roubado grande chelpa á tal luveira. Sempre ha cada malandro! O senhor conhece-o?

—Quanto déste pela parelha?—perguntou Victor, como se a pergunta fosse feita a um pavão, que berrava no arvorêdo dos Palhas.

—Cincoenta libras—respondeu o mulato, muito mais delicado que o seu interlocutor.

—Não foi cara.

—Todo o trem do conde se vendeu ao desbarato. Contou-me um criado d'elle, meu patricio,{228} quero dizer, tambem mulato, que a condessa fôra de Lisboa doida, por causa do tal folheto, publicado pelo larapio que a roubou. Veja V. Ex.ª que patife aquelle! O mulato é levadinho de dez milhoens de diabos, e disse-me que não se vae embora de Portugal sem cortar a cabeça ao tal Victor Hugo!

—Quem, o preto?—perguntou sorrindo o commendador.

—Sim, o preto...

—Ha de ser um que dava sôcos nos namoros da luveira...

—Hade ser esse, provavelmente...

—Pois, se o vires, dize-lhe que o tal Victor Hugo só deixa cortar o pescoço depois que mette seis balas na cabeça de quem lh'o quer cortar.

—Então o homem pelos modos é têzo?

—É: fia-te em mim.

—Não duvido, patrão; mas a valentia não tira que elle seja um ladrão; e um malvado que roubou a alegria e o juizo a uma senhora que lhe não fez mal nenhum, que eu saiba.

—Elle lá teve as suas rasoens... Olha lá, não deixes adormecer os cavallos... Ainda agora vamos em Oeiras...

—Temos muito tempo, patrão... V. Ex.ª não conhece um caminho por onde se atalha uma legua boa?{229}

—Não.

—Quando chegarmos ao fim do muro da quinta do marquez, eu lh'o mostrarei.

Damião chicotou os cavallos com frenezi. Era a onda de sangue que já lhe girava como meandro de vitriolo por entre os seios do cerebro. As chicotadas eram uma maneira de se desafogar d'aquella congestão.

Chegados á extrema do muro, o mulato metteu por uma vereda estreita, desterroada e pedregosa.

—Não é por ahi!—disse Victor—por onde diabo vaes?

—Por aqui é o atalho—respondeu Ravasco.

—Deixemo-nos de atalhos agora de noite!

—Não tenha medo, patrão. O snr. não traz rewolver?—dizia e affoitava a parelha.

—Trago rewolver; mas...

—Então que medo tem?

—Não é medo de ladroens; é medo que esbarrondes a sege! Olha que o caminho vae já bater ahi n'uma charneca fechada, não vês? Volta para traz, bruto!

Damião Ravasco não respondeu. Levou impetuosamente os cavallos aos sacoens até entestal-os com um comoro eriçado de piteiras e socavado nas margens resvaladias, e saltou de golpe da almofada, quando as bestas se escabravam trepando á valla.{230}

Este abrupto salto, depois da pertinacia do cocheiro em fustigar os cavallos contra o vallado, incutiu em Victor Hugo a suspeita de estar em perigo de ser roubado pelo mulato. Instinctivamente arrancara do rewolver, quando o boleeiro saltou. E, no conflicto em que Damião arremettendo á sege, puchava de repellão pelas cortinas embreadas, Victor desfechou-lhe um tiro na face, e o segundo no respaldo da sege, porque o pulso lhe estalou e revirou-se na mão do mulato como se os ossos se deslocassem dos ligamentos estorcidos por uma tenaz.

E do mesmo impeto fincou-lhe na garganta a garra esquerda, e empuchou-o para fóra da sege.

Victor, escabujando de encontro aos raios da roda, rugia gritos de soccorro, luctando em balde para arrancar a mão ainda armada á torquez que lhe desarticulava o pulso.

O mulato remessou-lhe um joelho ao ventre, e disse-lhe n'um rouquejar de voz, mudada em bramido pela ferocidade da ira:

—Hasde saber quem sou, perverso ladrão! Sou o preto do conde de Baldaque. Dá-me seis tiros na cabeça antes que eu te corte a tua. Um já cá o tenho no rosto; se morrer delle, perdoo-te.

Á ultima palavra vociferou elle um rispido{231} regougo, coisa parecida ao soturno urrar da féra; e, no mesmo acto, arrancou da navalha espanhola já aberta entre a manga da jaleca e o braço, e cravou-lh'a através da garganta.

Era cadaver o insultador da condessa de Baldaque; mas o leão não desenterrára os gryphos aduncos das carnes do tigre morto.

A cólera recrudescia ao compasso da dôr atroz que lhe sangrava na cara. Levou a mão ao olho direito, e retirou-a empapada em sangue e humores. Receiou morrer, e este mêdo dava-lhe vertigens, e um raivar de demonio, cada vez que o sangue barbotando lhe tolhia a vista.

Talvez que a vingança ficasse áquem das raias da barbaridade, se Victor o não houvesse ferido mortalmente, como elle suppunha. Travou dos cabellos ao cadaver, e correu-lhe á volta do pescoço repetidos golpes até o degolar. Atirou para dentro da sege a cabeça, e deixou o restante no chão ensopado da sangueira.

Antes de repontar o sol, sege e cavallos estavam na cocheira do conde.

A cabeça de Victor Hugo foi submersa em álcool n'uma vasilha negra. E Damião Ravasco, entregue aos cuidados de Chistovão Tavares e d'um cirurgião, soffria a dolorosa anatomia{232} da extracção do olho direito e esquirolas da orbita correspondente.

Ai! elle não poderia mais vêr a cabeça de Victor Hugo José Alves senão com um olho!

Do apparecimento do cadaver descabeçado na Azinhaga das Cobras deve lembrar-se perfeitamente o leitor de Lisboa. Primeiro, disse-se que era uma victima das vinganças clandestinas dos carbonarios. Alguem pensou que fosse o administrador do concelho de Oeiras, que n'esse dia estava sadio e incolume em Cascaes namorando a grega. Outros, os mais sensatos, pediam a cabeça do sujeito para fazerem o seu juiso ácêrca da identidade da pessoa. A final soube-se quem era, por causa d'umas cartas de namoro que lhe encontraram na algibeira, dirigidas a Victor Hugo; mas tambem isto foi motivo a conjecturar-se que o auctor do Napoleon—Le petit, viera incognito a Lisboa, e o imperador dos francezes o mandára assassinar, decapitar, etc., etc. O que é certo é que muita gente, quando se disse que o descabeçado era o Victor, filho do Alves dos coiros, respondeu brutalmente: Foi bem feito.

Sarado da ferida, mas cego do olho, e esburacado no bordo inferior da orbita, Damião Ravasco, liquidado o trem da homicida façanha, fez-se ao mar e mais o official realista e{233} as filhas e os netos. Marselha era o itinerario prescripto pelo conde. Dirigiram-se á rua Camebiere, hotel des Empereurs.

Entraram juntos á sala privativa do conde. Damião ia na frente, sobraçando uma caixa de estanho, com argolas lateraes. Quando se defrontou com o conde e a condessa, ambos exclamaram espantados da tão differente cara de Ravasco:

—Que é isso!?—bradou o conde—Vens cego de um olho, Damião?

—E que profunda cicatriz elle tem na face!—disse a condessa.

—Que foi isso?—tornou o irmão.

—Este olho que me falta—respondeu Ravasco pousando o caixote sobre uma banca; e repetiu:—Este olho, que me falta, tirou-m'o um sujeito chamado Victor Hugo José Alves.

—Porque, meu Deus?—disse a condessa.

—É possivel!?—exclamou o conde—E tu...

—Eu sempre ouvi dizer ao meu mestre de latim: «olho por olho, dente por dente»—respondeu Ravasco;—mas, a fallar a verdade, não me accommodo com esta lei. Quem me tira um olho a mim ha de ficar sem dois, pelo menos.

E, dizendo, destapava a caixa de estanho. A condessa tremia convulsamente. O conde encarava-o estupefacto. O ex-brigadeiro e as{234} filhas e netos agrupavam-se á volta da condessa. E Damião continuou:

—Ora eu que não tinha vagar, nem a occasião era a melhor, para tirar os dois olhos ao sujeito que me tirou um, achei que o mais summario e seguro era cortar-lhe a cabeça. Eil-a aqui! Vejam se a conhecem!—disse o mulato, mostrando a cabeça tragica, mergulhada em espirito de vinho, no amplo frasco extraído da caixa.

A condessa parecia desmaiar nos braços do marido, exclamando em extrema afflicção:

—Jesus! que horror! que barbaridade!...

—Horror, sim, minha filha!—disse o conde—mas barbaridade... Não culpes Damião sem o escutar.

E Ravasco, aproximando-se da condessa, fallou serenamente:

—Eu tenho pouco que dizer em minha defesa, snr.ª condessa. Em Lisboa sahiu um folheto no qual se dizia que sua mãe roubava padeiros de quem era amazia...

—Silencio!—bradou o conde.

—Deixe defender-se o barbaro, snr. conde!—volveu Damião—N'esse folheto havia uma nota em que se dizia que o conde de Baldaque casára com uma aventureira. Se o snr. conde casasse com uma mulher perdida, eu não o vingaria, por entender que era justo{235} o castigo; mas como eu sei que V. Ex.ª era uma senhora honesta, entendi que devia cortar a cabeça d'onde sahiram os insultos a V. Ex.ª e a um homem que me chamou irmão. Não tenho mais que dizer. Cá levo a cabeça para lhe dar honrosa sepultura nos esgotos de Marselha.

E sahiu com o caixote debaixo do braço. Na sala era tetrico e profundo o silencio. Nem que aquillo fosse a cabeça de Holofernes, ou de Pompeu! E as lagrimas derivavam copiosas no rosto de Maria José.

Ó egregia alma, como essas lagrimas deviam ser abençoadas do soberano e inexprimivel Espirito que tão perfeita scintilla de sua divindade te bafejou no berço!{236}{237}

EPILOGO

Os condes de Baldaque, n'este anno de 1872, viajam no Oriente, com o filho mais velho.

Damião Ravasco, reconhecido irmão do conde, e quasi millionario, vive no Ceará com sua mulher D. Luiza Tavares, a mais nova das filhas do ex-brigadeiro já fallecido.

As outras filhas, exceptuada Ernestina que acompanha a condessa, casaram e são ricas.

Os netos do brigadeiro, doutorados na universidade de S. Paulo, estão estabelecidos no imperio brazileiro.

D. Rozenda Picôa é mestra regia na Porcalhota.{238}

D. Eufemia, dada ao mysticismo, e repêza de escrupulos purificantes, está no seminario de Brancanes, encarregada da limpeza dos jesuitas.

Obrigado pelas leis da transmigração, Victor Hugo José Alves resuscitou nos corpos e almas de tres sujeitos que hão-de prosperar n'este paiz, se não encontrarem mulatos...

 

FIM{239}