—Peço-lhe, minha amiga, que disponha do que é meu—disse a menina apertando-lhe a mão.
—Muito agradecida, minha senhora; por emquanto, cá me irei remindo, como puder. O que eu queria da minha menina para o meu apaixonado Victor, sabe o que era?—isto.
E, apontando-lhe ao coração, trejeitava com os olhos mui derramados e um pender de cabeça languescida—coisas e modos que muitas vezes deviam ter eschammejado vesuvios no deputado Elias e no conego Antunes.
—Tem de mim o snr. Victor—disse solemnemente D. Maria—o mais que posso offerecer a um irmão.—E logo, norteando a palestra n'outro rumo:—Ainda me falta pedir-lhe um favor, minha amiga. Queria eu que seu filho soubesse a maneira de eu remetter a meu pae tres contos de reis, que é o que posso liquidar das inscripçoens, tirando para mim o necessario para manter a minha lojinha de luvas.
—Ella cá torna com a mania! Então não muda de idéa?{71}
—Não.
O tom imperioso e sêcco da resposta fechou o debate.
D. Rozenda sahiu, promettendo communicar-lhe o que seu filho lhe informasse quanto ao modo de remetter o dinheiro.
No dia seguinte, D. Maria, recebidas as informaçoens, entregou a D. Rozenda
os seus papeis legalisados para a venda.{72}
{73}
VII
OS TRES CONTOS DE REIS
Por entre o labio torpe e podres dentes,
D'aquelle abysmo esqualido, que póde
Sahir que não tresande!?GOETH., Fausto Segundo—côro.
E n'aquelle tempo reinava em Portugal D. Pedro V—cidadão portuguez, que morreu honrado e sinceramente carpido.
Aquelle rei era triste, porque o sol ardente do espirito, o ardor da sciencia lhe crestaram o viço da juventude.
O conde da Carreira e outros pedagogos, que trajavam ainda calção e rabicho na alma, intouriram o animo do principe com iguarias indigestas, introvertendo-lhe para o viver intimo, em florescencias sem aroma, os gomos da mocidade que nunca desabrocharam perfumes de contentamento. {74}
E, porque era triste, era bom, compadecido, esquivo a vanglorias, como quem sabia, que, nas naçoens livres e pobres, nenhumas ostentaçoens sobredouram o manto real senão as da reportada parcimonia e abstenção de soberanias extemporaneas.
Um regimen de governação, que facultasse ao rei amplas prerogativas, demonstraria que o primogenito da snr.ª D. Maria II era especulativo de mais para deliberar n'esta rasa missão de governar homens. O polyglotto snr. Viale inoculara-lhe empólas academicas, uns arrôbos já bastantemente serodios em glossas de mysterios dantescos, pelos quaes o principe, absorto entre o enigma da meia-edade e o enigma peior dos mestres, revelou predilecção impertinente.
Que farte sabia o previsto alumno dos pingues sabios que lhe não montaria ganancia alguma o estudo da sciencia de governar este manso povo, que lhe havia apedrejado o avô e rossado a injuria desbragada pela sombra da mãe impolluta. Nas angustias da snr.ª D. Maria da Gloria se lhe revelou a condição acerba de quem ha de ver homens e factos atravéz do prisma dos validos. Desde o padre Marcos até ao senhor do castello de Gualdim Paes, encadearam-se successos que mostraram ao meditativo principe o indeclinavel calix{75} em que sua mãe lhe legara—para saudades e exemplo—o travo de suas lagrimas.
Por isso aquelle moço não provára as alegrias e regalos de sua edade e jerarchia.
Ao saír do sereno ambiente do gabinete de estudo para as borrascas da vida pratica, retrahia-se aos braços da chimera luzentissima que esvoaçava ás regioens sombrias da Divina Comedia—semsaboria immortal!—ou se librava nas nevoas de Macpherson,—immortal semsaboria!
O ar do paço tresandava ás prêas que os escaravêlhos rolavam pelas alcatifas. Da camarilha das mulheres ainda vaporavam as caçoletas encontradas nas recamaras da Bemposta. Na camarilha dos homens mal podia o principe sincero extremar entre respeito e adulação, e entre silencio estupido e sisudeza discreta. Se os mestres, preleccionando-lhe o reinado de seu tio-avô, bosquejassem o caracter dos validos que o derrancaram, o rei, nas suas salas, cuidaria achar redivivos, em cada cortezão, o Vadre, o barbeiro viscondisado, e o Sedvem, mais seriamente vestidos com as librés de 1857.
Uma vez, D. Pedro V, obedecendo a impulsos de bonissima indole, ordenou que as lastimas dos queixosos de iniquidades pudessem chegar á quasi soledade onde se amiserava{76} um rei. Inaugurou-se a celebrada caixa onde os requerimentos eram lançados. A chave d'esse cofre de lagrimas, que já haviam sido acalcanhadas no peito dos repulsos, era el-rei que a tinha. Confluiram a centenares os appêllos da injustiça dos ministros para o simulacro do braço soberano; mas as reparaçoens eram baldas, porque D. Pedro V o mais que podia dar em beneficio dos queixosos era a esmola aos que lh'a mendigavam, e commiseração aos que se deploravam, pedindo justiça ao rei e não esmola ao abastado. O alvitre do imperante denotára alma egregia; mas o infortunio vingára apenas fazer-se conhecido no gabinete real. E mais nada. As virtudes do rei não podiam ser mais fecundantes que as do cidadão, primeiro na jerarchia, mas não decerto o primeiro em bens de fortuna. Era rei, consoante a pauta constitucional; e os accusados no seu tribunal fantastico eram os pennachos, as togas, os arminhos e os argentarios a quem os éphoros pediam de usurario emprestimo as mezadas da lista civil.
Os aulicos de quem o principe se rodeava, forçado pela pragmatica, nunca lhe referiram com certeza as penurias que esmaltavam as cans de D. Miguel de Bragança. Não era respeito á legitima soberania, nem temor do real desagrado que os amordaçava. Elles sabiam{77} que na alma do rei não negrejavam odios ao irmão do seu avô, nem se quer á sequéla legitimista que explorava nas franquias do codigo liberal a liberdade de injuriar o throno, vendendo a injuria impressa. Enfreava-os o receio de espertar em a liberalidade do coração dadivoso, defraudando-se dest'arte do quinhão que repartiam, pondo o almoxarife á porta das mercearias insoffridas a pedir-lhes que não denegassem ao refeitorio do rei de Portugal as massas e os paios fiados com desconfiança.
Não obstante, D. Pedro V soube que D. Miguel, levado pela providencia applacada aos braços da espôsa, que lhe tapetava de flores tardias o breve caminho da sepultura, e o rodeava de alegres berços, povoados de ridentissimas creanças—uma senhora, no mais vicejante dos annos, e no esplendor da belleza, immaculada, neta de reis—espectaculo que dulcifica lagrimas!—offerecia o seio para reclinatorio de um velho expatriado e pobre!
No regaço d'aquella dama alguns portugueses, ajoelhados, não á rainha, mas ao anjo, depunham o producto das esmolas colhidas em Portugal.
O Senhor D. Pedro V apreciára a virtude dos que, sem esperança de galardão, mantinham no exilio a mediania do infante. Quiz,{78} pois, egualar-se no sentimento da caridade aos que se devotavam ao homem esbulhado de todas as grandezas, e até privado da gloria posthuma com que a historia fartas vezes honra a lapide dos que resvalaram do throno ao sepulcro pela rampa do exilio.
E, depois, o magnanimo monarcha, arrobado no resplendor de uma estrella que lhe levára para Deus a luz ephemera dos seus jubilos, alou-se no raio celestial, e gosou-se de lá na contemplação das mais sinceras lagrimas que ainda alguma nação chorou sobre a mortalha do seu principe.
E então somente em um secreto livrinho de lances, que o rei deixára escriptos de sua vida intima, se encontrou a verba mensal de trezentos mil reis votada a D. Miguel de Bragança.
Ora haveis de saber que o irmão do snr. D. Pedro IV nunca recebeu a mezada do rei de Portugal, nem os tres contos de reis de D. Maria José.
Posto isto, leitor attento e sobre tudo philosopho, diga-me V. Ex.ª, se dado o exemplo da fraude em tão altas regioens, é muito de espantar que Victor Hugo José Alves enriquecesse o seu sangue depauperado com a substancia metallica dos tres contos de reis que a obscura D. Maria José enviara ao pae!{79}
É d'este modo que se esclarecem as melhorias tão depressa feitas na pessoa espiritual e corporea do filho de D. Rozenda Picôa.
O procedimento d'este escriptor não seria, talvez, digno da commenda de S. Thiago da Espada, nem tambem me consta que elle a pedisse; todavia, não se me figura irreprehensivel equidade alcunhar de ladrão qualquer sujeito, porque não foi agraciado. Se não teem sido muitos os exemplos d'este descuido em Portugal, as excepçoens não devem menoscabar os creditos de Victor Hugo. Os reis não podem, sobraçando a cornucopia das mercês, espreitar todos os latibulos onde se forjam malfeitorias. Não é da attribuição dos cabos de policia enviarem a sua magestade um mappa mensal dos malandrins mais conspicuos da sua esquadra. Por via de regra, o poder executivo não leva todas as quintas feiras á munificencia regia pessoas de quem o leitor costuma acautelar o seu relogio, ou receia encontrar em ruas não patrulhadas.
Quando um ministro do reino apresentava, ha poucos annos, ao senhor D. Luiz I, que Deus guarde, o decreto que laureava com a corôa de barão de S. Diniz um proprietario de bordeis no Rio de Janeiro, seria indecoroso para o alcouceiro agraciado ajoujarem-no a um biltre ordinario. O rei sabia que tambem Catão{80} ministrava em Roma collarejas de alquilaria das quaes cobrava percentagem. Qual rei denegaria um baronato a Catão censorino?
Victor Hugo José Alves que espere. Mais tarde será regalardoado na proporção da injustiça ou da inveja que lhe atabafou os meritos. Deixe o bem estreiado cidadão germinar a semente que fiou do uberrimo torrão da sua patria. A arvore ha de bracejar vergonteas afestoadas de grinaldas que algum dia lhe hão de juncar a escarpa do capitolio.
Entretanto, a conversão de tres contos de reis em objectos attinentes á reformação physica e moral do poeta, seria acto digno de moderados elogios, se o sujeito não precedesse de calculos e consideraçoens politicamente transcendentes a consubstanciação do metal com a sua pessoa. Dotado de vistas perfurantes nas nuvens pardas do futuro, Victor Hugo, estribando-se nos correligionarios, e mais ainda na efficacia dos seus proprios artigos e instinctos amotinadores, previu que o principe proscripto seria cêdo ou tarde redintegrado no throno. Não era base menos fundamental de seus propheticos raciocinios a depravação das doutrinas liberaes, desde que a classe media corrompida gafára de sua lepra a gentalha, de quem se divorciou, pensando que o irmanar-se com fidalgos desbragados{81} era desencanalhar-se da ralé onde havia nascido.
O severo snr. Alexandre Herculano, no prologo Da Origem e estabelecimento da Inquisição, tinha escripto umas phrases biliosas de que Victor Alves inferiu a provavel restauração do rei legitimo. O vidente historiador, no conceito do cavalleiro da Ala, não podia illudir-se, quando vaticinava a restituição do absolutismo pelos proprios esforços da burguezia, sua triumphante inimiga, a qual, já temerosa das sanhas da plebe desafrontada do cabrêsto religioso, se colligaria com reaccionarios para repor rei absoluto que lhe caucionasse os haveres, cortando com a espada dos dragoens de Chaves as cubiças dos proletarios.
Prenhe d'estes grandes palpites sociologicos, Victor impoz-se o dever civico de jurar bandeiras na vanguarda do trôço mais aguerrido, metter a cabeça aventureira á brecha mais bombardeada, e lampejar claroens onde a noite dos espiritos fosse mais caliginosa—claroens de eloquencia nos clubs, nos botequins, e até nas salas das Aspazias vetustas, que, desde 1834, anafavam as barbas de todos os Pericles—como elles vingam n'este paiz—mais ou menos similhantes em esthetica e plastica ao chorado Elias de D. Rozenda.
Á mais vivida luz do entendimento se mostra{82} que Victor Hugo não conseguiria relacionar-se na sociedade, onde lhe cumpria fecundar com o verbo as convicçoens legitimistas, se não se entrajasse com o asseio e galanice que hoje em dia realçam as clausulas do bom orador. Decerto lhe seria atravancado o accesso aos saloens, se na sua guarda-roupa tivesse sómente a quinzena de panno pilôto com que mediocremente se distinguia nas cêas do Collete-Encarnado; e com a qual se escondia na penumbra de um «caffé» da rua de S. Roque, aquecendo a grogs fiados a fantasia. Tempos calamitosos eram esses em que o deputado Elias o brindava com um paletó no fio, e um collete de mozaico desbotado, relançando á mãe um olhar que requeria gratidão, fidelidade, e talvez a renuncia completa ás caricias do conego Antunes!
Victor Hugo tinha presenciado das galerias da camara baixa que os homens, em cuja testa latejava a inspiração estuosa dos Izocrates e Hortencios, primavam na casquilhice do trajo, no adamado da penteadura lustrosa, no azeviche brunido dos bigodes. Viu que o involtorio engrandecia mais que muito as posturas sculpturaes e antigas da gesticulação, bem que a clamyde grega ondularia mais imponente nas omoplatas do snr. José de Moraes, do que em verdade as abas do fraque um tanto{83} canhestras para as attitudes largas e arrojadas. Reparou em particular o embellesado Victor Hugo José Alves no aprumo estatuario do snr. Carlos Bento; e, com quanto o fino gosto dos Phidias inéditos estivesse cubiçando uma toga cahida com romana magestade sobre aquella confirmação de myologia classica, o bem posto da pessoa entre as costuras da vestimenta não prejudicava de todo os raptos de eloquencia que lhe phosphoreciam no aspeito grávido de idéas. Ia n'estes effeitos, desconhecidos a Longino, o segredo da arte de vestir bem.
Não lhe fez menor impressão o snr. Arrobas, que sorria de esconso para o collete listrado do já hoje defuntissimo snr. João Elias; nem pôde esquivar-se a imaginar que o snr. Mártens Ferrão, sem o primor das suas casacas, e o compassado pendulo do braço direito á competencia com o pendulo compassado do braço esquerdo, apenas vingaria com os seus discursos retirar das pharmacias o láudanum, e constituir a camara em permanente jardim das Oliveiras, onde os discipulos de Jesus dormiam de tristesa, como S. João refere. Dormir de tristeza!—é o mais curial e justificado somno que pode narcotisar uma assemblêa de legisladores, quando a providencia das naçoens não encarrega alguns deputados bem penteados e vestidos de manterem o{84} auditorio em alegres insomnias, salvante o snr. duque de Loulé para quem o proprio snr. padre Antonio Ayres do Porto seria uma amendoada.
Destas contemplaçoens sahiu o filho de D. Rozenda Picôa bastante inquieto sobre a proveniencia dos recursos precisos a quem por força, privado d'elles, havia de abdicar dos destinos apontados fatidicamente pelo genio.
Se elle enviasse ao snr. D. Miguel de Bragança os tres contos de reis, e assim se exonerasse de ser o motor da restauração, á mingua de fato digno d'um restaurador, não seria isto damnificar o paiz, a trôco de ser honrado com um homem? Que montaria mais ao proscripto—o ouro da filha, ou a restituição da corôa? E, se alguns punhados de ouro, em mãos alheias, lhe estavam logrando juros de patria e corôa, não era obra para tres vezes bemdita aquella santa ladroagem que habilitava o revolucionario a acercar-se, depois, do solio do rei restituido, com a ufania de outros bandoleiros que elle via assentados á orla do solio usurpado?
Tres contos de reis nas algibeiras de Victor Hugo, estavam germinando casos e transformaçoens de magnitude incalculavel, ao passo que, enviados a Heubach, seriam ingloriamente{85} consummidos em comestiveis e outras ridiculezas de todo ponto inuteis á reivindicação da lei fundamental de Lamego.
Ao proposito da legislação patria, derogada pelo direito da força, muniu-se Victor Hugo de copiosa livraria; mas tanta era a confiança que pozera na espontaneidade original dos seus syllogismos, que lia quasi nada, contentando-se com o substractum extrahido dos escriptos do padre José Agostinho de Macedo e fr. Fortunato de S. Boaventura. Um livro que elle preferia ao Punhal dos Corcundas era Les talismans de lá biauté, obra até certo ponto estranha ás estudiosas vigilias d'um conspirador; mas conducente aos seus intuitos de coadjuvar a beldade dos actos do espirito com a compostura esmerada do corpo.
A limpeza da sua pessoa, longos annos suja, não se fez rapida nem superficialmente. O talento, que o infuriava hydróphobo contra os banhos do doutor Nilo, impunha-lhe agora a necessidade de, todas as manhans, se retoiçar voluptuariamente n'um banho aromatisado com Lait d'amande douce, friccionando-se com saboens de Thridace e da la reine des abeilles, ou Crème froid mousseuse. Depois, no amanho dos espessos e oleentos cabellos, que em outro tempo fariam recuar um javali assanhado, enfileirava os cosmeticos numerados desde o{86} Baume des violettes d'Italie e crèmes duchesses até á Eau redivive de Nangavaki e á Diamantine lustrale. N'esta operação capillar, em frente d'um espelho de Veneza ladeado de columnas com arandelas de bronze, formadas por Leda com o cysne e Europa com o boi, ia Victor Hugo ensaiando as prégas da fronte e os vincos do sobrôlho, significativos de cerebro causticado pela cantharida do genio: ensaio previo que elle imaginava contribuir assás para os triumphos oratorios do snr. Sá Vargas.
Involto em robe de chambre azul-ferrete de brocatel, cingido á cinta por cordoens de sêda e borlas escarlates, Victor encaracolava as favoritas do bigode, encerando-o e lustrando-o com Pommade hongroisse; depois ungia a epiderme com crème Pompadour, e operava o quarto lavatorio da untuosa cara com agua saturada de rosée des abeilles. Finalmente, seguia-se o polimento das unhas escovadas e alfanadas com poudre oriental. Todo o requinte n'este ponto lhe parecia baldo, figurando-se-lhe que as suas mãos não accusavam na delgadeza e transparencia a aristocracia dos Marialvas ou Vimiosos.
Feito isto, alli se quedava largo espaço narcizando-se diante do vidro com o languor mulheril de um Bathylo ou Juvencio. Requebrava{87} o colo em dengosas flexuras de cysne preto, e entre-abria sorrisos de donzel, deixando apenas descerrar os labios. Risos francos e abertos não os confiava sequer do espelho. Eram-lhe dôr, desaire e violencia enormes não poder rir.
E porque não ria este homem tão alvoroçado de alegrias intimas? Seria para simular profundeza de juizo, e cuidados de conspirador que lhe traziam os miolos amartellados? Não, senhores. É que tinha os dentes lurados de cavernas cariadas e chumbadas, e as gengives tábidas d'um gluten verdoengo. Era uma podridão de caveira, um arcaboiço de mandibulas a vaporar febres perniciosas.
Tirante os dentes, o alinho complexo do poeta, visto a vulto, recendia a olorosa elegancia que lhe perfumava o ambiente, mitigando-lhe o halito paludoso, e temperando sadiamente o ar a favor dos circumvisinhos.
Não assevero que Victor Hugo ensaiasse com alguma felicidade, nos saloens da aristocracia herdada, a influencia anachreontica dos seus dotes physicos; antes pendo a suspeitar que lá se sentisse mais a corrupção dos seus dentes que a da sua alma.
As finas bellezas das raças historicas olhavam-no de soslaio, e trocavam entre si tregeitos indicativos de espanto e mofa. O inculcado{88} talento do poeta não obteria sequer, na sociedade frivola das damas illustres, aquella attenção convencional e contrafeita que a sociedade burgueza dispensa aos litteratos, sob condição de que o poeta escreva o soneto em dia de annos, ou a necrologia nos obitos da familia.
Rosnava-se, porém, que uma marqueza, já bem esfolinhada de teias de aranha de preconceitos em 1820, não o fizera esperar, como Ninon a um certo abbade, o anniversario natalicio dos seus annos ultra-canonicos, para o convencer de que a lira do bardo hodierno podia, sem profanar o culto antigo, desferir endeixas accommodadas á magestade de uma cathedral gothica. Outro sim constava que o filho do Alves dos couros, morto em odor de caceteiro cabralista, cultivára aquelles amores como quem escarda, no estylo do seculo XVI, archaismos para os lardear, com presumpção de entendido, nas modernas formulas litterarias.
Queriam dizer, ou dizia elle que a marqueza, reliquia das antigas usanças de palacio, collectora de anecdotas attinentes ao viver intimo da fidalguia, e refinadamente polida de maneiras exclusivas da sua casta, pagava generosa as fumigações do nardo, dando ao seu poeta uma demão de verniz de bom-tom,{89} que elle decerto não dispensaria para escodear as crustas da educação, na convivencia do capitão da carta e nas cêas de figado frito na tasca da Rua das Pretas com os clowns do Price.
Como quer que fosse, n'estes amores transitorios e meramente acceites como appendice de policiamento, Victor Hugo José Alves guardava intemerata e sem nodoa a poesia do seu peito. D. Maria não se lhe despintava da idéa apaixonada.
A conversão do dinheiro em beneficio da causa de D. Miguel era incentivo a maior para que elle, mais ao diante, na liquidação de suas contas com D. Maria José de Portugal, descontasse a verba empalmada, incendrando-lhe em ternuras o mais fino ouro do seu amor.
Entretanto, o causidico da legitimidade ganhava entre os seus confrades o nivel dos mais esperançosos talentos da restauração. Ensejo de fallar melodramaticamente não perdia um. Ageitava a occasião de exhibir troços de discursos que compunha no seu escriptorio, declamando-os á tia Euphemia, que se mostrava accessivel ás descargas electricas da metaphora, resultado da sua diuturna familiaridade com um auctor dramatico, que a denominava a sua Laforêt, e a beijava com{90} delirio, se ella lhe cantava, com as mãos no peito bambo, as chacaras dos seus dramas. Com os olhos suados de saudoso liquido, D. Euphemia, attenta ás oraçoens do sobrinho, cuidava estar ouvindo o dramaturgo, que se fôra d'este mundo com os ouvidos ainda atroados das ovaçoens do Salitre, e o coração alanceado de invejas roazes aos Dous Renegados do snr. Mendes Leal.{91}
VIII
RAUL
No rosto do anjo que desdem tão nobre!
DANTE, Inf., c. IX.
Relataram-se os casos anteriores ao realisado designio de fazer-se luveira D. Maria José.
Já, ao começo d'esta historia, José Parada, o meu introductor á presença da filha de D. Miguel, nos referiu, mais ou menos hyperbolicamente, a concorrencia de preitos á volta da galante dama. Não foi, certo, encarecido louvaminheiro quando nos relatou as esquivanças da luveira ás propostas de casamento, já com velhos endinheirados, já com rapazes de genio, e até com um rico e elegante môço que podia aspirar ao mais selecto consorcio na melhor sociedade da côrte. Tal era aquelle Raul, filho unico do conde de Baldaque, millionario{92} que entrára em Lisboa com o seu socio e amigo Manoel Pinto da Fonseca, o homem de ouro que as mulheres de carne cognominaram o conde de Monte-Christo.
D. Maria José não estremára o filho do conde entre os frequentadores da sua loja, senão pela timidez tartamuda, e rara infelicidade no acovardar as phrases, tão avêssas da galhardia dos meneios e tom de peralvilho que lhe dava a luneta, e de uma certa dextridade a que devia nos saloens o renome de bom conversador.
Nas suas praticas com a luveira da Rua Nova da Palma mediavam intercadencias de silencio que tanto podia significar amor que absorve a palavra na contemplação, como cansaço de duas almas em spasmos de tedio reciproco.
Raul, porém, amava n'aquelle extremo em que a mulher impõe respeitosa adoração, independente do prestigio do nascimento. Póde ser que elle, desconhecendo a origem real da luveira, se houvesse em presença d'ella com menos resguardos, sem todavia lhe querer menos; mas, em leal verdade, o dizer-se que a gentil menina era filha de um rei, e o porte soberano com que ella, sem arte e genialmente, justificava sua fidalga condição, eram realços á já de si peregrina belleza, os quaes,{93} a meu vêr, insinuaram ao animo enthusiasta do môço brazileiro a idolatria genuflexa que se confunde com a superstição.
Raul de Baldaque, saltando do dog-cart á porta de D. Maria de Portugal, e atirando as guias ao jockei, ia encontrar a luveira pregando botoens em luvas. A gentil senhora correspondia-lhe graciosamente ao cumprimento, passava-lhe uma cadeira, que elle recebia com ademanes de extremada cortezia; e, cumprido o dever de urbanidade como se o exercitasse nas salas opulentas de sua mãe, continuava o seu negocio, tratando os freguezes com semblante prasenteiro e um sorrir de paciencia que ninguem, entendido em dôres recalcadas no fundo da alma, poderia vêr sem pena.
Raul, subtilisado pela paixão que adelgaça os temperamentos mais espêssos, adivinhou um dia que o sorriso da luveira em resposta aos desabrimentos de certa mulher que lhe regeitava umas luvas esgarçadas ao vestir, era a expressão ironica do infortunio que se irritava, ou acaso a serena alegria da voluntaria martyr.
Desatou-se-lhe então da alma ao concentrado môço um dizer que o engrandeceu no conceito de D. Maria:{94}
—Quantos sorrisos d'esses terá tido o snr. D. Miguel de Bragança!...
A senhora fitou-o com os olhos já nubelosos de lagrimas, e respondeu:
—Não ha comparação, snr. Baldaque. O snr. D. Miguel não póde sorrir. O que póde haver egual entre o principe e a luveira é o chorar... Mas que differença no travôr das lagrimas! Eu choro por elle, e elle... chora por si mesmo. Eu vejo a tortura, e compadeço-me: elle é o torturado. E essa mesma piedade que lá chega em escassos beneficios deve ser-lhe fél coado ás feridas do pundonor... Ha infelizes que se estorcem em sêdes abrasadoras; os amigos querem apagar-lh'as, e dão-lhes veneno... Não sei se para esses, que tudo perderam, a mais relevante caridade seria deixal-os morrer...
Não seria facil a Raul atar as idéas descozidas e interceptadas por silencios; mas o que elle percebeu animou-o a proferir uma expansiva bondade que soou asperamente nos ouvidos da luveira:
—Se eu não fosse rico, as suas palavras, minha senhora, seriam tambem para mim uma tortura...
—Não me comprehendeu—murmurou ella, abaixando o rosto sobre o engenho das luvas.{95}
—Creio que entendi;—replicou Baldaque—mas, se a magoei, perdôe-me...
—Que entendeu?—disse ella, sem levantar os olhos.—Que eu lhe pedia uma esmola para o snr. D. Miguel?
—Não, minha senhora, eu entendi que... balbuciou o môço grandemente embaraçado.
—Então que foi que entendeu?
—Que V. Ex.ª lamentava que seu pae não tivesse morrido, antes de acceitar os donativos dos seus partidarios.
—Se assim é, que importa que V. Ex.ª seja rico?
—Tenho medo de lhe responder—disse Raul, erguendo-se de golpe, e sacudindo com a mão os longos cabellos que lhe afogueavam as faces.
—Mêdo!... que poderá dizer-me que o intimide?
—Tem razão, minha senhora. Eu preciso ser franco... preciso ser mais feliz do que sou... quero abrir-lhe a minha alma... quero, emfim...
Susteve-se algum espaço; e maior seria a detença se D. Maria José o não desfitasse d'aquella penetrativa interrogação que parecia recommendar-lhe summa prudencia nas palavras que ia proferir.{96}
E proseguiu, tirando brios propriamente da necessidade que tinha de se justificar:
—Se eu ainda lhe não disse que a adoro, é porque, na sua presença, todas as minhas resoluções fraqueam. Sou ainda novo; mas conheço o mundo. As almas infelizes envelhecem cedo. Eu não amei nunca; mas sei as palavras com que se pintam as grandes paixoens. Depois de aqui vir repetidas vezes, disposto a dizer-lhe que a amo, e não o fiz, deliberei escrever-lhe. A mesma timidez me acanhava em lhe entregar a carta. Cheguei a ter pejo de mim proprio; porque vi o desassombro com que certos homens, sem lhe faltarem ao respeito, ousavam dizer-lhe palavras que me feriam o coração e o amor proprio, ao mesmo tempo. Restava-me, ao menos, em meio de minhas amarguras uma consolação: e era que, dado que V. Ex.ª me não visse a alma atravéz do silencio, me não julgaria um frivolo namorador, sempre a ponto em dizer palavras banaes. E ainda outra consolação mais me lisongeava: era ver que V. Ex.ª, se me desprezava, ou me não via, não prestava maior attenção ás pessoas que a cortejavam, sabendo eu que o proposito de algumas era tão honesto quanto eu quizera que minhas irmans, se as eu tivesse, o merecessem.{97}
—Eu nunca dei occasião a que me fizessem propostas de natureza nenhuma—interrompeu a luveira.—Digo-lhe isto, snr. Baldaque, para o despersuadir de que tenho a vaidade de haver rejeitado propostas que o mundo chama partidos vantajosos.
—Sei isso...—acudiu Raul, algum tanto abatido da coragem com que ia discorrendo, por inferir da interrupção assomado orgulho.—Sei isso...; e, porque o sabia, contive-me, aconselhado pelo desengano dos outros. Mas, apezar de tudo, talvez me illudisse a vaidade de me suppor mais digno do que elles, porque eu sentia por V. Ex.ª a veneração, que não impediu que os outros se declarassem. É isto a unica distincção que me deve singularisar; pois, sendo natural que todos amem uma senhora bella no semblante, no coração e no espirito, nem sempre succede que a paixão se deixe abafar pelo acatamento. Agora, porém, minha senhora, já não haverá nada que me empeça de lhe revelar em poucas palavras todas as minhas meditaçoens de seis mezes; mas, se V. Ex.ª me está ouvindo constrangida... se me confunde com os homens que a importunaram com phrases mais ou menos similhantes ás minhas, então diga-me que me escuta por mera delicadeza... {98}
—Por mera delicadeza o estou ouvindo—disse serenamente D. Maria José.
—Pois bem...—tartamudeou o moço empallidecendo—calar-me-hei... Mas...—volveu elle, passados instantes em que o rubor succedeu á pallidez.—Mas... V. Ex.ª perguntou-me ha pouco:—que importava que eu fosse rico?—E eu disse-lhe que tinha medo de responder. A snr.ª D. Maria José animou-me a explicar-me; e antes que eu chegasse á justificação, emmudece-me, declarando que me está ouvindo, porque é delicada! Se fosse tão boa de coração quanto é melindrosa, não m'o dizia tão seccamente... antes havia de permittir que eu me desculpasse d'umas palavras innocentes que lhe deram de mim conceito injusto e máo.
—Máo conceito, não, senhor—emendou D. Maria—pareceram-me apenas uma impertinente phrase que só violentada podia entrar na nossa conversação. Eu dizia-lhe que o snr. D. Miguel é infeliz; e V. Ex.ª respondeu-me que era rico. Figurou-se-me que me considerou medianeira nas esmolas que se pedem para elle...
—Errou, minha senhora—retorquiu Raul, fortalecido pela pureza nobilissima das suas tençoens.{99}
—Então, seja generoso em me desculpar, e creia que por interesse, e não por civilidade desejo ouvil-o.
Baldaque, após uma longa pausa, em que denotou no rosto penosa inquietação do animo, disse verdadeiramente conturbado:
—Já não posso...
—Não póde!?—sobreveio a luveira com ares de incrédula.—Então não póde? porquê? Isso faz-me desconfiar que...
—Desconfiar?...
—Sim, desconfiar que V. Ex.ª, em sua hesitação, me dá a perceber a difficuldade de combinar o respeito, que me tem, com a explicação que me ia dar da sua riqueza. Se assim é, agradeço-lhe mais o silencio que a explicação... Deixemos no escuro o seu segredo e esqueçamos o que houve de mais nas suas revelaçoens. Entretanto, snr. Baldaque, não lhe direi que vou ser com V. Ex.ª mais sincera do que fui com outras pessoas de quem me não aggravo nem me orgulho. Com essas pessoas a minha evasiva foi o silencio, sem desdem nem menos preço. Com V. Ex.ª não será assim. Serei verdadeira, porque vou responder ao que me disse e talvez até ao que formou tenção de me dizer. No dia em que abri esta loja de luvas, estabeleci com a sociedade as unicas relaçoens compativeis com{100} este modo de vida. Não escolhi esta posição, calculando outra melhor. Não pensei puerilmente em prender admiraçoens de espiritos extraordinarios que folgam de matizar os actos vulgares da vida com o ouropel da poesia. Esta loja, com uma pobre mulher que tira d'aqui o seu parco sustento, não é romance, é occupação ajustada ás minhas faculdades e aos meus recursos. Eu poderia optar por encargo mais senhoril e lucrativo; poderia ensinar nos collegios as linguas que estudei, e algumas prendas que vou deixando esquecer como inuteis; poderia; mas o contacto com a sociedade assustava-me; a convivencia de mestra com as discipulas privar-me-hia dos confortos da alma que esperava achar e achei neste viver obscuro: é a soledade, o estar sósinha o maior numero das minhas horas, o desprendimento de cuidados que me forçariam a sahir de mim mesma, se eu quizesse dar boa conta do meu prestimo salariado á educação de meninas. Sei que me desempenharia mal por não poder, com este espirito que tenho egoista de sua tristeza, prestar attenção aos sagrados deveres de quem educa...
—Mas V. Ex.ª...—interrompeu Baldaque.—Perdão!... receio ser indiscreto, fazendo-lhe uma pergunta...
—Queira dizer.{101}
—Se ouso perguntar, é porque muita gente diz que V. Ex.ª herdou...
—Esta casa e nove contos de reis em inscripçoens.
—Nove contos de reis em inscripçoens...—volveu receioso o filho do millionario—não bastam para quem tiver aspiraçoens menos modestas que V. Ex.ª; mas... o rendimento d'elles, creio eu, dispensariam a snr.ª D. Maria José de dirigir este negocio tão pouco lucrativo; e, se me concede dizer mais, bem podéra V. Ex.ª, afastando-se inteiramente da sociedade, gosar as suas horas todas de solidão, poupando-se ás lagrimas que ha pouco vi explicarem o seu sorriso... Peço outra vez perdão, se me excedi nestas observaçoens á sua vida intima.
—As observaçoens são justas—respondeu tranquillamente D. Maria—mas eu não tenho hoje de meu senão esta casa e o valor dos objectos desta loja. A indagação de V. Ex.ª deve satisfazer-se com saber isto, e nada mais. Se mais alguem o sabe, não ha razão para que eu esconda a minha pobreza d'uma pessoa já convencida de que eu desejo ser pobre.
—Ó minha senhora!... nem mais palavra hei de proferir a tal respeito...
—A minha pobreza é voluntaria, reflectida e aprazivel—continuou a filha de D. Miguel.{102} Quem tiver pena de mim, usurpa a sua commiseração a quem a merece e necessita... Ha pouco me disse V. Ex.ª que eu não dei valor ás generosas propostas de cavalheiros abastados que me pretendiam com honrosos intentos. Não dei valor á opulencia que me offereciam; mas ao sentimento que os moveu a favorecer-me sou muito grata. Eu desejava que para cada mulher mal-afortunada sorrisse a ventura dos casamentos ricos. Deve ser muito cubiçada similhante felicidade, porque tenho visto o espanto, e talvez o despeito, no rosto das pessoas cuja riqueza eu me dispensei de apreciar. E a mim, ao mesmo tempo, parecia-me indiscrição e mediania de polidez vir aqui alguem obrigar-me a ser indelicada para evitar exposiçoens de affectos, que só então me faziam pensar na inconveniencia de ser luveira.
Dona Maria sorriu, passou a mão alvissima pela fronte, deteve n'ella a cabeça como quem revoca idéas fugitivas, e proseguiu:
—Snr. Baldaque, cheguei ao fim do que deve saber de mim propria. Escolhi esta posição. Se sahisse d'ella, attrahida por bens de fortuna, a minha alma teria pejo de sua baixa indole. Ha sacrificios que tem glorificaçoens intimas e ineffaveis. São dôres que os pacientes não querem consoladas; são as rozetas{103} dos cilicios que as creaturas delirantes de amor divino apertam mais, quando é maior a angustia. Ha penitencias moraes muito parecidas com as voluntarias macerações das santas. Nem a penitente acceitaria os supremos regalos deste mundo a trôco das suas disciplinas, nem eu trocaria a minha independencia, nesta solitaria e obscura distancia de theatros e bailes, pelo brilho que meus olhos cançados de chorar não supportariam.
—Comprehendi, minha senhora... disse Raul, revelando a magua no tremor da voz.—A palavra coração nem uma só vez appareceu entre as phrases glaciaes com que me repelle. Ha poesia sublime e santa no mysterio que lhe nortêa a existencia; mas, nas suas estrellas, no céo das suas visoens, estrella de amor não brilha nenhuma... Como havia de V. Ex.ª comprehender-me, se eu, articulando em soluços as minhas confissoens, seria como o infeliz que exhora uma divindade de marmore, e não a alma apaixonada que pretende communicar o seu ardor a outra alma?... As minhas confidencias não poderiam ser ouvidas no alto ponto d'um sentimento incomprehensivel em que V. Ex.ª me esconde as suas phantasias. Eu sabia que tinha posto os olhos da face e os da alma na mulher virtuosa; mas tambem cuidava que as excellencias{104} do espirito não matam de esterilidade as flores, do coração. Na sua edade, snr.ª D. Maria José, ha almas devastadas, que, desde o baixo positivismo do descrer, vingaram, por effeito da fé ou da graça divina, desferir nas azas da piedade altos vôos até pousarem no seio de Deus; essas, porém, sei eu que lá mesmo do céo devem chorar sobre as illusoens perdidas da terra. Sei que ha almas assim cahidas e resgatadas; mas sobre as cinzas de minha mãe irei jurar que na pureza do rosto, na serenidade do olhar, na virtuosa altivez de suas palavras, minha senhora, lhe transluz a vida inteira, sem nodoa, sem laivo escuro que ahi deixasse o anjo maldito do desengano. Nenhuma esperança lhe foi mentida, nenhum desejo lhe foi malogrado. V. Ex.ª não desejou nem esperou as felicidades que espera e deseja a mulher na flor dos annos. Se alguma hora sentiu estremecimentos de amor, soffreou-os com a violencia da sua justa vaidade...
—Vaidade!—interrompeu D. Maria—Vaidade!
—A palavra não é esta;—insistiu Raul com firmeza—ha outra mais bem cabida, mais senhoril; mas tambem menos desculpavel em nossos dias de luz, de expansão e de guerra victoriosa aos preconceitos...{105}
—Diga a palavra... Não se constranja...
—Orgulho do seu nascimento—obedeceu elle receioso.
—Louvo-lhe o coragem, snr. Baldaque. Se disfarçasse a idéa, não conseguiria enganar-me. Agradeço-lhe a franqueza. Tenho orgulho, é verdade, tenho muito orgulho de ser filha do principe pobre, do principe desterrado; e, cortejada á beira do throno de meu pae, talvez o não tivesse. Tenho orgulho de me ver abatida, e tenho pezar de não haver compartido das amarguras do grande infeliz. Quando elle soffreu extremas necessidades nos primeiros annos do seu desterro, ainda eu via nas salas e guarda-roupa de minha mãe valiosas reliquias de uma opulencia que não havia sido d'elle, nem do estado, nem da casa do infantado, nem das extorsoens feitas a uma nação arruinada. Se essa opulencia subsistisse áquella hora em que fiquei orfan, eu venderia até o leito de minha mãe para o soccorrer, e ajoelharia á divina Providencia, exhorando-lhe que me deixasse ganhar o pão de cada dia, e permittisse que a miseria se abraçasse com a dignidade, e as lagrimas, se era precizo choral-as, me não sahissem impuras do coração. O meu orgulho já vê, snr. Raul, que principiou assim: principiou como começa a humildade de muita gente desafortunada. Filhas de{106} reis haverá muitas que se julgariam aviltadas pelo trabalho; e eu soccorri-me do trabalho humilde para sustentar o meu orgulho de filha d'um rei. A mulher que se dá a fidalga distincção de igualar-se á plebe, reservando para si a superioridade de agradecer com um sorriso as offensas inevitaveis nas posiçoens humildes, não se lembra que é neta de reis para ter orgulho. Mas esta palavra é aspera, é negativa da virtude, sôa rispidamente aos ouvidos da moral christan. Tambem aos meus. Se a consciencia me não dissesse que ella exprime innocentemente o conceito que de mim fórmo, pediria a V. Ex.ª que antes lhe chamasse energica hombridade, vigor de caracter, condição excentrica e singular, se quizer, mas defeito de coração seria injustiça attribuir-m'o. Orgulho de pobreza, sim; mas sem as irritaçoens do orgulho plebeu; sem a cupidez infernada na alma. Tenho uma ambição, mortificante mas inoffensiva, uma ancia, que, se é peccaminosa, as lagrimas, que ella me faz chorar, de certo me tem lavado a alma das suas impurezas. Esta ambição é um desvario de enfermo que se estorce no ardor da febre; mas é peor ainda;... que as minhas agonias não devem revelar-se, são profundas, abafo-as, escondo-as de todos; porque estou sósinha n'este mundo; e tão desgraçada{107} que não acharia allivio algum em confidencial-as... Expliquei-lhe o meu orgulho—concluiu D. Maria José, sorrindo e bebendo as lagrimas ao mesmo tempo.
E, volvidos alguns segundos, como Raul, embebecido na contemplação d'aquella mulher, em que duas formosuras pareciam deslumbrar-se, não proferisse um monosyllabo, disse ella, amaciando a aspereza da pergunta, com a brandura do tom:
—Chamou-me orgulhosa do meu nascimento, snr. Baldaque. Eu confessei que sou; e, olhe, tenho uma qualidade mais reprehensivel ainda... quer que lh'a diga?
—Outra virtude?
—Outro defeito... Sou soberba.
—Soberba!...
—Sim, disto que vê: d'aquellas luvas, d'aquellas camisas, d'estas farraparias que me rendem as preciosas galas que eu preciso para sustentar a minha soberba.
E terminou por um frouxo de riso indescriptivel, talvez um gemido convulso, um regolfo de lagrimas que se retrahiu ao coração.
N'este lance, entrava uma criadinha com duas latas, de feição de marmitas, nas quaes ia o jantar da luveira, comprado em uma taverna das portas de Santo Antão.
Raul, com olhos turvos e voz tremente,{108} apertou a mão de D. Maria José de Portugal, murmurando estas palavras de modo que a criada as não ouvisse:
—Eu não a mereço... mas hei de amal-a como um escravo, que eu tive, me quer e ama ainda hoje. E assim como o amor do escravo me faz bem á alma, póde ser que o meu amor seja na vida de V. Ex.ª um sentimento suave.
E sahiu.
José Parada, e os convivas de Raul de Baldaque e eu não duvidamos assacar ao amador da luveira os estimaveis defeitos que dão quilate superior a quem faz praça d'elles com a invulneravel petulancia da riqueza. Julguei-o mal á primeira vez que o vi galhardear-se com tregeitos e garridices incompetentes de rapaz sisudo. Além de que, na altania do seu olhar, no sobrecenho arrogante com que mediu as minhas modestas dimensoens, emfim n'aquelle hirto aprumo da sua catadura, eu, illudido pela experiencia de dezenas de exemplares de tolos que me trazem desconfiado, conjecturei que Raul hão tinha dotes que podessem inliçar o affecto da filha de D. Miguel, a não ser a sua pessoa tafulamente vestida, o urco do seu phaeton, e o alardo de uns presumptivos mil e tantos contos.
Este rapaz escolhêra o peor expediente para se fazer acceitar na estima dos seus conhecidos{109} em Lisboa. Deu-lhes jantares cuja magnificencia inculcava proposito de ostentação; e, não contente da vangloria de ser rico, desvanecia-se em exceder nas graças de espirito os seus contubernaes. A reputação de nescio crearam-lhe estes. Havia na calumnia o ignobil intuito de se arranjarem com a consciencia que os arguia de parasitas; e o accôrdo, que elles faziam com a sua dignidade beliscada, era imaginarem-se «disfructadores» do parvena.
Póde ser que o filho do conde de Baldaque, alguma vez ou todas as vezes que presidiu ás suas ceias irritantes e escandecentes no Matta, quer inflammado pelo ardor natural da sua compleição, quer exagitado pela perfidia dos licores, se demasiasse em basofias de galan, relatando com indiscreta jactancia proezas fameaes, mais ou menos phantasmagoricas. Os seus commensaes, mordidos no orgulho nacional, de mate forçoso deviam trocar-se aquelle geito de olhar de soslaio com que o despeito convencionalmente se dá a mascara de disfructe. Não sei até que ponto o sensato idolatra da luveira havia direito á fatuidade de afortunado em jerarchias somenos da filha de um Bragança, mas tanto ou quanto aparentadas com a sua real amada. Como quer que fosse, os seus amigos apregoavam-no{110} petisco infinitamente brazileiro; e as suas amigas, com aquelle fino faro de que são prendadas as damas menos candidas, por tal arte o haviam conceituado que todas as aventuras contadas, em estylo de roué, vinham a ser o mais desgraçadamente exactas que é possivel;—desgraçadamente, digo, porque eu desejo que no seio das familias, que respeito, não sejam sómente conhecidas as tres virtudes theologaes.
Se as entranhas d'aquelle rapaz de vinte e seis annos estavam canceradas; se as suas victimas lhe resvalavam do seio de gêlo á sepultura levadas em lagrimas torrenciaes, não sei, nem o diria quando o soubesse; que este livro não é obituario. Contra quem me levanto, é contra mim proprio, porque, á primeira intuição, o aquilatei no vulgar dos rapazes ricos, libertinos, e cansados.
Não fundamento esta retratação e protesto unicamente na sensibilidade, polidez, e atilado accento de suas palavras á luveira, por tanta maneira louvaveis que, sendo apaixonadas, não desatremam da prudencia, e podem ser dadas como exemplar de colloquios do paço dos nossos reis e senhores.
O meu protesto cimenta em bases que não podem dar de si. É o estylo. Quem falla d'aquelle feitio a linguagem portugueza,—quem{111} ama com todas as partes da oração em concordancia irreprehensivel, poderá, por inveja ou injustiça grave, não ser mencionado nos Logares selectos; mas tolo é que não pode ser.
Ora agora, se amar luveiras regiamente phantasticas, com tamanho siso e tão desusada reverencia, é hoje em dia argumento contra a sanidade intellectual de um homem que representa mais de dois milhoens, isso é outra questão que ha de ventilar-se opportunamente.{112}{113}
IX
DAMIÃO RAVASCO
A pelle é feia; mas o sangue que gira dentro é estimavel.
EURIPEDES, O Cyclope, acto IV.
A gravidade fria e desanimadora de D. Maria José de Portugal não vingou despersuadir o filho do conde. As visitas continuaram com a mesma quotidiana assiduidade, bem que menos demoradas. Raul Baldaque, ao reverso do que era natural, em vez de ganhar alento e desembaraço, depois que tão resolutamente se manifestára, tornou áquella timidez de collegial, vencida no impeto da paixão.
Ás vezes, o abatido moço sahia confuso e como corrido de sua tibieza, pedindo aos proprios brios que o salvassem de tão ridicula, senão indecorosa pusillanimidade. Desconfiado,{114} porém, da inefficacia do seu pundonor em assumpto de per si rebelde a razoens de orgulho, formava a só comsigo venerandos juramentos de sacrificar a chimera da luveira á realidade do seu alegre viver de rapaz. N'estes protestos fazia elle entrar a sacratissima memoria de sua mãe; imagem que raramente lhe passava diante dos olhos do espirito sem lhe deixar no coração bons sentimentos e um suavissimo ideal da felicidade humana estreme de dissabores, tedios e remorsos.
Mas a querida imagem, invocada a solemnisar o juramento, não lhe antepunha mulher que offuscasse a filha do infante. A deparar-lh'a, dar-se-hia o unico milagre possivel n'estas conjuncturas, milagre aliás frequente, quando as mulheres queridas não tem comsigo a predestinação da luveira, e o iman tresdobradamente portentoso da formosura, do talento e do espirito, sem fazer menção do mais feiticeiro filtro que ha ahi n'isto de magia amorosa, que vem a ser a esquivança da que é adorada, um não-querer de exempta, uma delicada repellencia que a um tempo vos alanceia coração e amor-proprio.
As conversaçoens de Raul e D. Maria versavam, ás vezes, sobre occorrencias politicas d'onde derivou a guerra civil funesta ao rei absoluto. D. Maria José, sem ousar arguir as{115} imprudencias do pae, lamentava que os seus conselheiros não fossem mais esclarecidos do que elle, cuja educação apoucada o obcecara em meio das alvorejantes idéas do seu seculo. Discorrendo varonilmente ácerca da historia das luctas entre a democracia e o privilegio, concatenou os successos que precederam a revolução de 1820, e justificou as resultas de que seu pae devia ser a victima, em castigo de prestar-se a representante passivo dos ambiciosos estupidos que lhe aconselharam a transgressão do juramento feito.
Baldaque saboreava-se não do tom preleccionador da dama, que não o tinha; mas da feminil suavidade com que ella simplificava, em breves e claros termos, passagens da historia patria, na maior parte ignoradas do brazileiro.
O leitor, que esvoaça em regioens diaphanas onde se não condensam vapores crassos de historia, dispensaria que a inspiradora das suas lyricas lhe referisse chronologicamente os annaes de D. João VI no estylo flatulento de mestra regia bem saturada da philosophia do historiographo snr. Moreira de Sá, ou qualquer Niebuhr da sua estôfa. Quero até persuadir-me que o leitor anemico, e avêsso a iguarias condimentosas, rejeitaria mesmamente a senhora de espiritos assás metricos{116} que lhe leccionasse os fastos lusitanos em estancias do snr. conselheiro Viale, poeta voluptuoso como gondola veneziana, vista da Ponte dos Suspiros, a balouçar-se cheia de... repôlhos.
Dou-lhe razão.
O amor seria divindade indigna das lagrimas que se lhe choram nas aras, se algum peito succubo d'elle podesse acceitar liçoens de historia como flechas do seu carcaz.
A ignorancia, mais ou menos absoluta, é uma das clausulas que nos impõe á nossa servidão o filho da deusa viciosa, cuja illustração não poderia medir-se com a da senhora Dona Canuto, Venus Urania, se é forçoso mitifical-a—ou outra capacidade menos provada.
No adro dos templos do frécheiro não demandemos philosophos eructando azias hegelianas, nem jurisperitos polvilhando a ambula dos perfumes com o vinagrinho que lhes espirita o cerebro resentido da cegueira da justiça. O que lá se nos depara, em redor dos pagodes do deus cego, é gentio a rir e a chorar, que ora se postra supplicante, ora se espoja em desbragada alegria.
Amor spasmodico, amor macabro, amor epileptico. Ha d'estas tres castas d'amor na zona luminosa da mulher peregrina. O spasmodico{117} é o comtemplativo; o macabro é o que salta e se estorce nas vascas voluptuosas do deleite; o epileptico é o que escabuja debaixo da garra da perfidia. Ha uma quarta especie d'amor, do qual ninguem faz livros porque é a mais analphabeta: é o amor de mercearia, o amor sebaceo e rubido como o burril antigo o immortalisou nas cascatas, e no coração de nossas avós. Encontra-se esta reliquia dos tempos honestos no terceiro andar das familias cujos chefes labutam nas suas tendas. Está sentado na travesseirinha do leito nupcial, brincando com os folhos e borlas azues da almofada. Resfolega, por bochechas de cravelina, frouxos de riso á esposa, quando ella, depois da ceia, desaperta os nastros da ceroula conjugal, emquanto elle encarapuça o marido no barrete de dormir. Não temos que entender com algum d'esses amores n'esta chronica, exceptuado o primeiro, o spasmodico. Nem Stendhal creou adjectivo tanto ao ponto. Deixemo-nos de crystallisaçoens. Spasmos, macabrismos e epilepsias—é o que ha. Mais nada.
Raul de Baldaque estava, pois, escutando as narrativas da luveira em arroubos que sobreexcedem os de um alumno de boa fé absorto a escutar o snr. João Felix Pereira, quando arenga ácerca de Herodoto.{118}
Em uma d'essas tardes de innocentissimo prazer, entrou na loja de D. Maria José um mulato offegante, com os olhos vidrados de lagrimas, e exclamou em soffocativas intermitentes, dirigindo-se a Raul:
—Menino, venha depressa a casa... venha depressa... que o snr. conde...
—Que é, Damião?!—interrompeu Raul—que tem meu pae?...
—Cahiu por morto, quando ia a entrar na carroagem... levei-o nos braços para casa... chamou-se o medico; mas já não respirava...
O moço, apertando a mão de D. Maria José, que balbuciava algumas palavras compassivas, sahiu acceleradamente.
Quando entrou no quarto de seu pae, as pessoas que rodeavam o leito, não responderam á interrogação de Raul. O medico apertou-lhe convulsamente a mão e sahiu. Os restantes eram criados, cujos aspeitos exprimiam mais espanto do que dôr.
O filho ajoelhou á beira do leito e beijou a mão do cadaver; depois, encostando a face ao hombro do pae, soluçou palavras inintelligiveis. Do outro lado do leito ajoelhou alguem com os punhos cerrados na fronte e as lagrimas a borbulharem-lhe dos olhos espavoridos no rosto do morto: era o mulato Damião.
Digamos d'este homem que se nos revela{119} sympathicamente em frente d'um filho que chora, e ao lado do velho que lhe expira nos braços.
Damião Ravasco era o seu nome. Gentil corporatura de mestiço. Feiçoens levemente denunciativas da origem indiana de sua mãe. Olhos fulgurantes. Epiderme esmaiada, aquelle esfumado de marfim antigo, que nas raças europêas distingue as bellezas finas, o pallor romantico, a vantagem do espirito sobre a riqueza do sangue.
Damião Ravasco orçava pelos trinta e dous annos. Já sua mãe havia nascido em casa de Antonio Ferreira Baldaque, pae do defunto conde. Ninguem lhe attribuia filiação d'este ou d'aquelle. As escravas eram muitas e fecundas todas. Entretanto, nos traços physionomicos de Damião, realçavam parecenças com o pae de Raul; e, no particular affecto com que o capitalista o estremara desde a primeira infancia, havia o quer que fosse indicativo de virtude não vulgar nos progenitores dos filhos das escravas.
Antonio Ferreira Baldaque deu aso a suspeitarem-no pae do mulato quando o mandou á escóla, trajando-o com decencia incompetente a um servo. Aggravaram-se, porém, as desconfianças, quando, prompto em primeiras lettras, o rapaz seguiu estudos superiores.{120}
Poucos annos antes, havia casado o negociante com a mãe de Raul, a qual, ciosa da consideração que o esposo liberalisava ao filho da escrava, disparou em impertinencias que poderiam resultar a felicidade do mulato, se elle pendesse a engrandecer-se por lettras.
Quiz o prudente esposo restabelecer a paz domestica, enviando Damião a seguir em Portugal a carreira da jurisprudencia ou da medicina na universidade de Coimbra. O rapaz ouviu as ordens do padrinho, e respondeu humilde, mas com firmeza, que não queria ser doutor, nem tinha queda para estudos.
Esta confissão não era vaidade mal rebuçada em modestia. Em Damião Ravasco, ao passo que a esforçada musculatura se alargava com proporçoens agigantadas, parecia que as potencias da alma lhe eram deprimidas pelo pezo da materia. Os condiscipulos não ousavam motejar-lhe a rudêza, desde que elle, em polemicas grammaticaes, abusando dos preceitos mais vulgares da camaradagem litteraria, respondia com sôccos ou marradas aos argumentos dos adversarios: indignidade que ainda não vimos praticada em outra parte, senão no parlamento portuguez.
Os professores haviam já prevenido o protector do mulato, quanto á incapacidade rebelde{121} do estudante; apesar disso, Baldaque desejou illustral-o, até ao momento em que Damião por claros termos se recusou.
Interrogado sobre o modo de vida que melhor quadrava ao seu genio, o rapaz, que então contava dezoito annos, respondeu que o seu gosto era ser boleeiro; e acrescentou que tarde ou cedo o havia de ser, porque ninguem fugia á sua estrella.
Ou porque respeitasse a estrella de cada sujeito, ou receiasse denunciar o que era, ou dar mais fortes suspeitas do que não era, o negociante offerecera alguns contos de reis a Damião Ravasco a fim de que se estabelecesse, consoante sua vontade e vocação.
O mulato rejeitara o dinheiro dizendo entre soluços que não queria deixar o padrinho; e, abraçado ao pequeno Raul, rogava-lhe, debulhado em lagrimas, pedisse ao pae e á mãe que o não mandassem embora.
A esposa do submisso negociante não condescendera. Os rasteiros instinctos de Damião, preferindo a cocheira á universidade, e a sella ás cartas de bacharel, acerbaram o desamor da dama que afiava cortantes chacotas contra a defunta escrava, assacando-lhe que ella arteiramente capacitara da tal paternidade o seu senhor, usurpando direitos de progenitura a algum obscuro lacaio. Antonio Baldaque,{122} posto que não se desse como pae do mulato claramente, devorava em silencio o insulto, deixando-se invilecer e maneatar pelas centenas de contos que a esposa augmentara aos seus haveres.
Não era elle todavia insensivel ao espinho occulto que lhe pungia na vaidade de pae, quando diligenciava demover o afilhado da vil profissão de boleeiro, incitando-o a sair para Portugal, onde lhe segurava recursos para negociar, se não quizesse outra carreira.
Damião Ravasco, soffreando esforçadamente a sua mania, cuidou que poderia conformar-se, e já parecia vencido das indirectas instancias do padrinho. Mas, um dia, como visse annunciada a venda de carroagem e parelha do ministro francez, concorreu ao leilão, licitou por não poder conter-se, e arrematou o trem, obedecendo á espora do instincto que o não deixou reflectir na desobediencia.
Dado tal passo, Damião foi despedir-se do padrinho que o recebeu de máo rosto, improperando-lhe a baixeza das inclinaçoens. O moço, porém, possuido dos fidalgos espiritos de muitos portuguezes coevos, netos de Gamas, Albuquerques, Castros e outros, respondeu que a sua inclinação, não o deshonrando a elle não podia deshonrar ninguem.
A pessoa de quem Damião Ravasco se{123} despediu com muitas lagrimas era o menino Raul. A creança pagava amorosamente os afagos do mulato, defendendo-o como podia, quando a mãe o tratava com desaffecto, e fugindo d'ella para os carinhos do filho da preta, quando a retrincada senhora o appellidava affrontosamente o negro.
Começou o mulato sua vida de alquilador prosperamente, comprando carroagens, e boleando-as elle mesmo. A paixão da almofada e do pingalim não lhe consentia aristocratisar-se na sua esphera de proprietario de nove parelhas normandas e seis aceados trens. Era artista em extremo grau. Entrajava com menos alinho que os seus criados. Todo o seu deliciar-se em luzimento e galhardia de composturas eram os arreios dos cavallos e o brilhante verniz das equipagens.
A propensão do mulato não era das que menos se prestam a irritar as sanhas das indoles brigosas. A parçaria com homens de Cavalhariça, de natural bulhentos, muitas vezes o poz no gume do perigo, e outras tantas lhe deu admiraveis triumphos de pugilato, quando não era a navalha que empurrava os adversarios para o hospital. A policia, inquietada e nem sempre respeitada pelo valentão, quiz prendêl-o em cumprimento d'uma pronuncia por crime de tentativa de morte nas{124} pessoas de dous negros que haviam maltratado na chacara Raul de Baldaque, em occasião que este se comprazia frechando-os com alfinetes desempolgados do arco, sob pretexto de ensaiar-se para Guilherme Tell.
Homisiou-se Damião em Vassouras, recommendado pelo padrinho, a quem cumpria patrocinar o generoso defensor do filho legitimo.
Este caso amolleceu a dura condição da mãe do menino, cujo prazer de assetear negros lhe seria descontado em torcegoens de orelhas, se o filho da escrava não sangrasse a ferro as iras dos offendidos. Quebrou-se, pois, a antipathia da dama, até á condescendencia de permittir que o marido sahisse a publico em abono do afilhado, legalisando as navalhadas como justa defesa.
Damião Ravasco regressou absolvido, mas não emendado, ao Rio de Janeiro. A impunidade alargara-lhe o fôlego das proezas. Cuidar-se-hia que a sua paixão dos quadrupedes ia desandando n'outra menos estranha á super-intendencia do codigo criminal. Quando evitasse o ensejo de provar a mão na cara dos que se lhe arrostavam, vêr-se-hia á sua beira Raul a quem elle obedecia docilmente; mas, como essas occasioens eram menos que os lances em que o provocavam, ou elle se considerava provocado, raro era o dia em que{125} Ravasco não tivesse de explicar á policia a razão por que certos queixosos haviam perdido alguns dentes, ou, com os olhos tapados por contusoens, recorriam á justiça pouco menos cega que elles.
N'este meio tempo, falleceu a esposa do capitalista.
O viuvo apressou a liquidação dos seus grandes bens de fortuna, com o proposito de repatriar-se, e saborear em socego o restante da vida.
Não queria elle trazer para Portugal o mulato, receiando desgostos e sobresaltos, em tempo e terra onde lhe sorriam esperanças de remançosa tranquillidade. Tanto poderam, no emtanto, com elle instancias do filho que não houve recusar-lhe a companhia do amigo.
O conde de Baldaque, em Lisboa, ostentava opulencia ajustada ao titulo. Damião mordomisava a cocheira, com voto deliberativo na escolha das parelhas e carroagens. A paixão recrudecera-lhe a termos de não querer outra posição em casa do padrinho. Pelo que toca ao sestro das valentias, corrigira-se tanto quanto o conde podia ambicionar. Como não tinha inimigos em Lisboa, o mulato, absorvido no deleite de palmear e almofaçar as ancas dos seus cavallos, apenas uma ou outra vez esbofeteava os criados gallegos da cavallariça{126} para exercitar a pujança dos tendoens in anima vili.
Raul de Baldaque, nas estouvices de rapaz, se precisava de um amigo que lhe antepozesse a sua vida aos lances arriscados, aventurava-se aos maiores perigos com Damião ao lado. Confidencias amorosas, particularidades que elle escondia dos seus commensaes, dialogos intimos com damas de primeira plana, tudo revelava a Damião Ravasco. O mulato ria das aventuras do amo, e aconselhava-o a ser rasgado e audacioso com as fidalgas quando elle se prezava de o ser com as môças dos visinhos.
Não lhe era portanto mysterioso o amor de Raul á luveira.
E o seu modo de pensar a respeito d'esses amores, que tão mudado lhe traziam o pensativo menino, o saberemos logo.
Dada em resumo a biographia do mulato, personagem de maxima importancia n'esta historia, temos explicado aquellas lagrimas, que o filho da escrava chorava, beijando a mão fria do homem a quem nunca ousára chamar pae, posto que, no silencio da alma, uma voz mysteriosa lhe dissesse que Raul era seu irmão.{127}