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O Christão novo / Romance Historico do Seculo XVI cover

O Christão novo / Romance Historico do Seculo XVI

Chapter 11: V
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About This Book

Set in mid-16th-century Portugal, the narrative follows a member of the community of recent converts as social suspicion, religious zeal, and court intrigue converge around personal misfortune and public ceremonies. The author interweaves documented events and imagined episodes to show the influence of clerical orders, tensions within royal authority, and the workings of prejudice and accusation. Scenes range from intimate domestic crisis to public festivals and theological debate, and the text reflects on the novelist’s liberties with historical fact while probing conscience, institutional power, and the clash between tradition and emerging liberal ideas.

[6] Moeda de ouro mandada cunhar por Dom Duarte e depois refundida por Dom Manoel. Valia 1$600 reis.

[7] Obr. de Sá de Miranda.

[8] Nov. diction. hist. par une société de gens-de-lettres, art. Kempis.

[9] La Clede. Hist. ger. de Port.

{53}

IV

O FESTIM DE BALTHASAR

Era Francisco Xavier um dos raros exemplos com que os jesuitas poderiam alardear a santidade da sua universal associação; mas quem é que em Lisboa se importava das virtudes do apostolo das Indias?

Por outras differentes rasões se recreava Lisboa com folganças e festejos.

Desde o alvorecer da madrugada salvava com festival estrondo a artilharia do velho castello.

Por todos os angulos do Rocio e do Terreiro do Paço resoavam alegres musicas de atabales e clarins.{54}

Grande parte das ruas e casarias se decoraram vistosamente com galhardetes multicores, bambolins de murta e festões de louro e rosas.

Estavam preparados com sedas e damascos os toldos e os enfeites dos escaleres reaes.

No tope dos mastareus das galeras e bergantins do Tejo viam-se tremular flammulas e estandartes de todas as nações.

É que a côrte portuguesa regalava-se com um dos mais esplendidos dias de gala.

Ao bispo de Coimbra, Dom João Soares, bem como ao duque de Aveiro, Dom João de Lencastre, fôra commettido o honroso cargo de irem buscar a Castella a princesa Dona Joanna e n'esse dia chegava esta guapa noiva á cidade de Lisboa com o mais soberbo acompanhamento de gentis-homens e equipagens que raras veses se vira em terras de Portugal.

Nada pouparam o faustoso Dom João de Lencastre nem o opulento Dom João Soares para se mostrarem com a magnificencia que competia ao seu estado e á sua posição.

Luxo e estrondo por toda a parte. Os mais ricos veludos serviam de fasenda aos elegantes{55} capirotes dos pagens. Eram sedas recamadas de bordaduras de ouro os vestuarios dos condes e dos gentis-homens. Custosos brocados de prata reluziam nos xaireis de centenares de ginetes e no aço polido das armaduras dos arautos e reis de armas reflectia-se o sol com raios coruscantes.

Nunca o povo de Lisboa se recordava de presencear festejos de tanta vista e de tamanho esplendor. Era grande a alegria d'elle por isso. Ao som de confusas charamelas soltava enthusiasticos vivas, e assim em infernal confusão de vivas e descantes cada vez mais accendia os seus enthusiasmos!

Ia-se acoutando o astro do dia nos abysmos do oceano, á mesma hora em que nos reaes paços da Ribeira começou a solemne recepção da princesa castelhana e do seu apparatoso cortejo.

Todos na sala do throno vestiam com o mais apurado gosto e com uma especie de luxo oriental. Eram principalmente as roupagens da rainha adereçadas da mais rica pedraria e do mais esquisito artificio. Cingia-lhe a fronte um bello diadema cravejado de perolas e diamantes. Cravejada{56} tambem de preciosa joalharia decorava-lhe o peito a cruz da ordem de Isabel a Catholica. O manto, finalmente, era guarnecido de renda de ouro e pespontado dos castellos e quinas de que desde o fundador da monarchia fasem uso os mantos regios[10].

El-rei envergava uma custosa vestidura de terciopello e cobria-lhe os hombros alentados uma opa roçagante de lhama de ouro e prata. Por cima da curta cabelleira pousava-lhe na cabeça um chapeu enfeitado com plumas brancas, de aba erguida de um lado e presilha recamada de vistosa pedraria. Emfim as bellas insignias do Tosão de Ouro assoberbavam-lhe o peito e da cinta pendia-lhe um dourado espadim em que relusiam meia duzia das mais preciosas gemmas da colonia do Brasil.

Satisfeitas as varias ceremonias e etiquetas exigidas em semelhantes conjuncturas, procedeo-se depois a um desses opiparos banquetes que entravam na lista dos praseres dos monarchas de Babylonia.{57}

De direito fez as honras da mesa el-rei Dom João III, ficando-lhe á dextra a princesa de Castella Dona Joanna e ao lado esquerdo o poderoso valido Antonio de Athayde. Em frente do velho monarcha sentara-se a rainha Dona Catharina de Austria, cedendo a cadeira de honra a seu filho o principe Dom João e a esquerda ao infante Dom Luiz de Beja.

Por sua grandesa e gerarchia ali estava resplandecendo tudo o que se poderá notar de melhoria nas ordens clericaes e nas raças aristocraticas de Portugal.

Não faltavam ao banquete, além dos principes e mais pessoas da familia real, o bispo de Coimbra, os arcebispos de Braga e Lisboa, o beato jesuita Simão Rodrigues, o illustre Dom João de Lencastre, o chanceler doutor João Monteiro, o desembargador Dom Gonçalo Pinheiro, o nobre Marquez de Villareal, o prudente Duque de Bragança e ainda tres dusias de lusidos personagens que na maior parte representavam a curia de Roma e as côrtes estrangeiras.

Bellos vinhos de Caparica e Seixal, bons licores{58} e as mais esquisitas iguarias serviam-se com profusão. Os vinhos eram de excellente paladar e por isso motivaram algumas alegres modificações no rigoroso codigo das etiquetas.

Foi Dom João III o primeiro personagem que se ergueu com a copa na dextra. Já não era o monarcha de severo e sisudo caracter. Mostrava-se de faces rubicundas, olhos risonhos e maneiras joviaes. Nunca o seu espirito se abrira com tanta expansão e tanta liberdade. Sorrindo com alegria, olhou por um momento em derredor da mesa e proferiu pausadamente as palavras seguintes:

—Sem lisonja o digo, senhores. Sobreluzem no semblante e no espirito da mui alta e excellente esposa de meu presado filho Dom João todas as graças e mais prendas que podem exornar a pessoa de uma princesa. Para goso e ventura de todos os meus vassallos imploro de Deus lhe dilate a preciosa vida por muitos annos. Sempre lhe tributarei n'esta côrte as mais ternas affeições como filha a quem muito amo e todas as homenagens como princesa das mais excelsas virtudes. Por isso é, fidalgos e prelados{59} da minha côrte, que eu com summa alegria do meu coração brindo agora á saude da nobre princesa Dona Joanna!

Todos os prelados e fidalgos levaram aos labios as preciosas amphoras espumantes do saboroso Caparica, ao mesmo tempo que, de pé e em reverente postura, baixaram respeitosamente para Dona Joanna as radiosas cabeças.

De branco vinho do Seixal tornou logo o monarcha a encher a Copa e novamente se dispoz a abrir os diques á sua expansiva loquela.

—Grandes e senhores da minha côrte, principiou elle, não deixarei tambem de faser votos pela existencia e ventura do herdeiro do meu throno. Piamente confio em que Deus lhe inspirará amor pela justiça, respeito ás leis do reino e obediencia ás doutrinas da nossa santa religião. Firmam-se n'elle as esperanças dos leaes portugueses e certamente meu filho se tornará digno por seus talentos e virtudes do amor dos meus vassallos. Escuso de lhe declarar as affeições do meu seio; mas saiba que eu o amo e preso como pai e como amigo. Rogarei sempre aos céus nas minhas orações lhe prospere Deus{60} a preciosa existencia... Que Deus lh'a prospere e viva por muitos annos o glorioso principe Dom João! Meus senhores, perorou erguendo mais a copa e a voz, viva meu filho o principe Dom João!

Um coro dissono e rapido de vivas eccoou pelos recantos do vasto salão do festim. Principes e embaixadores, fidalgos e prelados ouviram com enthusiasmo as ultimas voses de el-rei e todos a um tempo, levando á altura dos beiços as copas cheias d'esse valente liquido que o peito accende e a cor ao gesto muda, soltaram o grito fremente de viva o principe Dom João! Viva o principe Dom João!

Sentaram-se depois e por um pouco arrefeceram os gastronomicos delirios. Apenas se escutavam o rangido frouxo dos talheres e as brandas passadas dos criados. Foi porém de breve duração esta calmaria. Levantou-se o Conde da Castanheira e, com fallas adamadas e gestos em demasia palacianos, dispoz-se a discursar.

—Pedindo venia a vossas altesas serenissimas—começou o poderoso valido, cortejando com a cabeça o monarcha e Dona Catharina—ouso{61} tambem manifestar a grande satisfação que me desperta o glorioso dia que em tam esplendido banquete se commemora. O feliz consorcio do nosso principe real é para todos os leaes portugueses motivo de felicitações e regosijos. Quem não ha de exultar com as virtudes varonis e prendas naturaes dos augustos noivos? Permitti que vos saude, excelsa princesa! Dae-me a liberdade de brindar á vossa ventura, augusto principe!

Dom Antonio de Athayde bebeo de um trago o vinho do seu calix e a tam palaciano brinde logo corresponderam em coro todos os convivas.

Por seu turno ergueram-se ainda com os calices na mão o inquisidor geral D. Henrique, o velho arcebispo de Braga e tambem Dom João de Lencastre. Entresachados de latim e de textos theologicos se desenvolveram os dous primeiros discursos, mostrando-se assim a erudição e sabedoria dos respeitabilissimos varões que os proferiram. O de Dom João de Lencastre, esse foi declamado na lingua espanhola em frase singela e correntia como sendo de pessoa mais{62} adestrada no jogo das armas que em torneios de palavras.

Como nas marés dos oceanos, dá-se tambem o fluxo e o refluxo nas marés do enthusiasmo. Nem tudo, por esta rasão, era delirio e voseria. O silencio reinava tambem de longe a longe.

Silencio profundo reinava no salão do banquete quando, emfim, de um dos recantos da mesa se levanta um mancebo de tez morena e bronzeada como a dos povos da India.

Era o joven amigo do infante Dom Luiz de Beja.

—Monarcha Dom João, prologou elle com voz clara e rosto sereno, eu venho como o profeta Daniel vaticinar-vos a sorte de Balthasar!

Mal fôra proferida esta ameaça terrivel e já duas duzias dos mais esforçados fidalgos se adiantaram com o punho nos copos dos dourados chifarotes.

O pagem não se intimidou, porém. Deu maior volume á voz e com o seu placido gesto exprimiu-se ainda:

—Não encareço as vossas virtudes nem culpo os vossos vicios, monarcha Dom João; mas{63} sempre vos imputarei a responsabilidade dos tremendos crimes que se commettem na vossa côrte...

—Crimes na minha côrte! bradou o monarcha portuguez ao erguer-se da cadeira como impellido por uma secreta mola.

—Admiro, replicou immediatamente a rainha Dona Catharina, que ainda não vos dissessem que tentaram hontem assassinar vosso irmão o infante D. Luiz.

Á inesperada revelação succedeo um momento de espanto e alvoroço. Quem não presaria em Portugal a vida do infante? Presavam-na deveras assim fidalgos como peões e por isso ninguem havia entre os nobres commensaes que se não sobresaltasse com a nova de que a vida de Dom Luiz de Beja correra imminente risco.

—Fallae agora vós, meu irmão. Por acaso premeditaram alguns sicarios contra a vossa vida?

—Tentaram na verdade, placidamente respondeo a el-rei o infante Dom Luiz. Hontem por alta noite fui eu acommettido por tres bandidos{64} e de certo dos seus punhaes seria victima innocente se me não acode aquelle generoso pagem.

—Graças dou a Deus, volveu el-rei, por haverdes escapado do perigo. Mas que foi feito dos assassinos? Justiça rigorosa se fará, meu presado irmão.

—Justiça rigorosa vol-a reclamo eu! solemnemente bradou a rainha.

—Justiça! justiça! conclamaram todos os convivas.

Gradualmente foram esmorecendo as vingadoras explosões de enthusiasmo e então o monarcha portuguez, retirando-se bruscamente da mesa, fez terminar esse festival e ruidoso banquete que, para dar em tudo semelhanças do festim de Balthasar, só faltou que mão invisivel escrevesse na parede as mysteriosas palavras manéthécelpharês!

[10] Vid. Hist. polit. e militar de Port. por L. Coelho, t. I, pag. 249.

{65}

V

ORAÇÕES E JEJUNS REDIMEM TODAS AS CULPAS

Da casa do jantar passou a maioria dos convivas para um faustoso salão em cujos moveis sobresaiam riquissimos estofos de cores amarella e carmesim.

Aqui principiaram damas e fidalgos de se entreter com jogos de cartas, girando a rodo sobre as mesas moedas de prata e ouro como se fossem alcacer de Astrea os paços de el-rei Dom João III.

Dom João III, esse vamos vel-o no seu gabinete preoccupadamente sentado em larga poltrona franjada de ouro e prestando a maior{66} attenção ás fallas veneradoras de dous illustres personagens.

Estes personagens vestem com excessiva desigualdade no feitio e na fasenda: traja o mais novo rico veludo roxo e o mais velho humilde roupeta de estamenha.

Será empresa difficil todavia distinguil-os no valimento e no poderio. Ambos representam duas hierarchias eminentes: a nobresa e o clero.

São o padre mestre provincial Simão Rodrigues e o celebre Conde da Castanheira, esse poderoso valido que grangeara famas de que «n'aquelle tempo ninguem se lhe avantajava nas partes de conselho e maduro juiso[11]».

—Juro-vos, estava asseverando o jesuita, que nada se descobrio. As palavras d'esse estonteado badage motivaram-nas os vapores do vinho.

—O mesmo acredito eu, accrescenta o conde. A noite corria escura e a empresa foi commettida a gente de confiança...

—Mas, interrompe el-rei, não me disseram{67} já que o attentado se baldou por artes do diabo ou por manhas de quem quer que fosse?

—Verdade é, responderam ambos ao mesmo tempo.

—Em tal caso facilmente se poderia descobrir tudo...

—Os aggressores, acode o jesuita, acautelaram-se bem. Os chapeus e os capotes deram-lhes panno de sobra para cobrirem as barbas e, quando chegou o diabo, todos debandaram com prudencia.

—Tal accommettimento ha de ser sempre o dessocego do meu espirito! desabafa el-rei.

—O bem do estado assim o reclama, volve por sua vez o conde.

—Dizes, conde, que o bem do estado nos moveu... O bem do estado seria, mas porventura não peccamos nós contra os mandamentos da santa religião? Receio, meu padre, o castigo da Providencia!

—Que póde recear vossa altesa real, o mais fervoroso filho de Deus? replica o poderoso jesuita com extrema brandura.

—O castigo dos meus peccados, o castigo dos{68} meus peccados... Conheço que ordenei um assassinio. Não terei eu, como Caim, manchado as minhas mãos em sangue fratricida? Meu padre, a colera do Senhor cairá sobre a minha cabeça!

—A oração e os jejuns redimem todas as culpas...

Proferia Simão Rodrigues esta mistica sentença quando estalou na sala do jogo um grande alvoroto de voses e passos.

Sobresaltou-se o monarcha Dom João como se novamente lhe retumbasse nos ouvidos o tremendo vaticinio do pagem: Eu venho, como Daniel, profetisar-vos a sorte de Balthasar.

O Conde da Castanheira dirigio-se com prestesa para a soleira da porta a colher noticia do alvoroto e, dando volta á chave, eis que frente a frente se lhe depara a figura travessa do indio.

O badage, sem comprimentos nem venia, collocou-se em poucos passos defronte do monarcha.

—Não se enfade vossa altesa serenissima, lhe disse respeitosamente. É natural o ruge-ruge que vos chega aos ouvidos, senhor. Não provém de{69} rebellia nem de incendio. Toda a côrte se alvorota e desconsola porque o principe Dom João adoeceu repentinamente ao levantar-se da mesa.

—Asseveras que está doente meu filho, o meu querido filho Dom João? inquire el-rei ao mesmo tempo que se levanta da poltrona com visivel preoccupação.

—E doença de morte o accommetteu, prosegue o badage. Mas nada receie vossa altesa serenissima, que a oração e os jejuns redimem todas as culpas.

—Pardés, assim ousaes chalrar com tal desassombro! prorompe o valeroso conde carregando o sobrolho.

—Fallo a verdade sem rebuço e mais direi ainda se el-rei me permitte a ousia de fallar.

—Sei que és ave de mau agouro; mas conta-nos tudo, conta-nos tudo! volve o monarcha em profundo estado de abatimento moral.

—Pois sempre vos direi, meu rei e senhor, que propinaram veneno a vosso filho o principe Dom João!

Cahio o monarcha na poltrona como se padecera os effeitos fulminadores de um raio.{70}

Assim alguns momentos se demorou em uma especie de glacial insensibilidade sem que o jesuita e o conde se atrevessem a interromper o silencio. Por fim ergueu-se tremulamente o monarcha e, não descobrindo já o destemido badage, perguntou com voz desfallecida:

—Que é feito do pagem?

Olharam os dous validos para todos os recantos do gabinete, mas já não avistaram ninguem.

Não quiz el-rei que d'elle fossem em procura e, dirigindo-se para os seus validos, lhes exprobra com friesa:

—Ahi tendes a vossa obra... Ahi tendes o castigo da Providencia! Quiz Deus punir-me com a morte de meu filho, esse innocente filho que sobre todas as coisas eu queria e presava. Mas ai de vós, senhores, ai de vós e de mim se elle morre!

Os dous validos não aventuraram palavras de defesa ou de conforto com que salvassem semelhante conjunctura e el-rei, deixando-os impassiveis no meio do gabinete, saío pela porta a informar-se das clamorosas scenas que occorriam.{71}

—Trocaram-se os papeis provavelmente, resmoneou o Conde da Castanheira logo que se viu a sós com o jesuita.

—Por certo, concluiu o antigo companheiro de Francisco Xavier em voz mais baixa ainda. Vou crendo que o veneno, em vez de o tragar o infante Dom Luiz, tocou desastradamente ao principe real. Feliz noivado, feliz noivado!

Por fortuna a causa efficiente do bulicio parecia limitar-se a um leve achaque estomacal de que o principe se queixara. Explicara o joven principe que uma vertigem lhe estonteara a cabeça e algumas nauseas lhe trouxeram incommodos ao estomago, mas que já se sentia completamente alliviado e fóra de perigo.

De feito o sabio medico Francisco Lopes, tateando-lhe o pulso com o maior cuidado, depressa declarou que a doença apresentava apenas o caracter de uns passageiros effeitos gastricos motivados naturalmente pelos molhos indigestos das iguarias.

Foi o principe recolhido á cama com todos os conchegos e, como asseverava o discipulo de Hypocrates que os symptomas do accidente{72} não offereciam gravidade, os bellos e illuminados salões do paço continuaram até deshoras a servir de entretenimento aos nobres fidalgos e aos venerandos prelados.

No gabinete reentrou el-rei de espirito mais socegado e rosto mais ledo. Uma certa dose de satisfação parecia resumbrar dos seus olhos asues e a pallidez que pouco antes lhe amarellecera as faces fôra substituida por tintas rubicundas.

—Receei peor coisa, rumorejou elle esfregando as mãos.

Atraz de el-rei saira logo o Conde da Castanheira e foi por isso o jesuita a unica pessoa que se deixou ficar no gabinete.

Abrira sobre a mesa regia o seu predilecto livro De imitatione Christi e, pelos signaes de concentração que lhe transpareciam no gesto, inculcava aproveitar-se do momento para erguer a Deus alguma fervorosa prece.

Não obstante disse pausadamente ao levantar-se da poltrona:

—Estava rogando aos céus que afugentasse desditas dos paços de vossa altesa...{73}

—Obrigado, meu padre. Jamais olvidarei o interesse que tomaes por minha pessoa. Mas d'esta vez não succedeo perigo. Do sobresalto que soffremos foi culpado sómente aquelle estonteado badage.

—A não fallecerem justiças n'este reino, cumpre que seja punido para lição de rebeldes e escarmento de atrevidos. De que pensar é vossa altesa?

—Elle não tardará no tronco, meu padre. Mas agora outra coisa pretendo saber em puridade: poderei eu remir ainda com obras e orações as minhas culpas?

—Está isento de culpas o coração de vossa altesa...

—Sei que sou um grande peccador!

—A alma de vossa altesa está limpa de mancha. É grande o amor que professaes pela fé catholica. Não esquece Deus os beneficios que tendes prestado pela igreja de Jesus Christo...

—Consolam-me essas palavras, meu padre. Em recompensa de tantas consolações haveis de lembrar-me o que vou prometter-vos: se não fôr de morte o mal de meu filho, contai para{74} as festas do milagroso Santo Antão com uma custodia de ouro massiço e pedras preciosas...

—A graça de Deus seja comvosco...

—Prometto mais quinhentos crusados para compra de alfaias e paramentos do culto...

—Não deixarei jamais de rogar aos céus pelo bem do estado e pelas prosperidades de vossa altesa serenissima...

—Lançai-me agora a vossa benção, meu padre.

—Real senhor, eu vos abençôo em nome do Padre e do Filho e do Espirito Santo!

Ajoelhou el-rei para receber a benção do jesuita e em tam humilde postura de santidade poder-se-hia conhecer que nunca um piedoso monarcha illustrara mais com suas devoções os fastos da monarchia portuguesa.

[11] Frei Luiz de Sousa. Annaes. Parte II, livro II, cap. II.

{75}

VI

A CAÇADA

Alguns dias depois do casamento convidou el-rei toda a côrte para assistir a uma caçada.

Ajaesaram-se logo os mais vistosos palafrens e os mais rapidos ginetes. Desenas de creados afadigavam-se nos preparos dos nobres paços de Almeirim e tudo ali se dispoz com o luxo de uma casa de fadas.

Chegou a côrte aos paços de Almeirim por uma tarde enxuta e serena, posto que bastante fria e nublosa a modo das tardes inglesas.

Era a vespera da campanha venatoria.

Na immediata madrugada foi servido um almoço{76} leve e em seguida ao almoço montaram a cavallo damas e fidalgos.

O monteiro-mór, a toque de uma ostentosa busina, repenicou o signal da partida e então el-rei, cavalgando ao lado da princesa Dona Joanna e precedido por uma centena de ricos fidalgos, adiantou-se com a rapidez de uma frecha em direcção dos matagaes.

Abundavam as opulentas coutadas de Almeirim em caça grossa e miuda de toda a especie. Veados e corças, lebres e coelhos e cabras monteses costumavam fugir e saltar aqui e além por entre as urzes e os giestaes, por debaixo dos ramos dos sobros e das pernadas dos choupos. Porem a raça canina via-se decerto em penosa maré de infelicidade. Latiam, uivavam e remordiam-se os lebreus e os podengos sem conseguirem alcançar uma lebre ou abocar um coelho.

Debalde se esperava nas clareiras a passagem de alguma peça grauda quando alguns dos mais affoutos caçadores resolveram entrenhar-se no cerrado da floresta. Ahi, sim, deixavam de ficar ociosas as balas e a polvora das clavinas. Os tiros rapidamente se succederam aos tiros.{77}

Entretanto a maioria dos caçadores ainda esperava nas clareiras. Em posição de pontaria por veses ergueram elles ao hombro o cano polido e relusente das espingardas, os latidos dos cães ouviram-se por veses a curta distancia e os cavallos, ao cheiro aspero da polvora, escarvavam impacientemente com as unhas ferreas na grama do solo; mas ainda não passara ao alcance das balas uma só lebre ou um só veado.

Resolveram-se por isso desmontar e, aproveitando o exemplo dos primeiros caçadores, lá se entrenharam egualmente por entre os verdes arbustos e os robles gigantescos.

A rainha, a princesa Joanna, o cardeal Henrique e o badage foram as unicas pessoas que permaneceram no mesmo sitio. Mas tambem depressa lhes falleceu a paciencia de esperarem assim na sella dos cavallos. Apearam-se pouco a pouco e a passos vagarosos foram passeando ao longo de um renque de choupos.

—O tempo corre bem, disse a rainha dando principio á conversação. Temos um ceu claro e magnifico; mas parece-me que não produz resultado a caçada.{78}

—Também me parece, accrescenta a princesa Dona Joanna.

—Juro pelos Vedas que ainda hoje teremos fartura de caça, replicou o pagem.

—Fallaste nos Vedas; mas que entendes tu por isso? inquiriu o sabio cardeal cioso de desenvolver a sua vasta erudição.

—Eu vol-o digo se vos apraz, senhor.

—De bom grado escutarei. Dize lá: que são os Vedas?

—Os Vedas formam uma grossa collecção de slokes ou estrofes escrita em sanscrito sob a designação de Rig-Veda, Yadjur-Veda, Sama-Veda e Atharvana. A todos os indios e povos do mundo, menos aos brahmanes, foi por Vichnu, o verbo de Brahma, prohibida a leitura d'elles. Mais ninguem sabe o que dizem e contém esses livros santos. Os brahmanes guardam-nos tão cuidadosamente nos seus pagodes como os usurarios podem guardar um cofre de ouro. Conta-se que o poderoso Akbar, imperador mahometano, quiz um dia conhecer as differentes religiões dos paizes que lhe eram tributarios e, como os brahmanes tenazmente se recusavam{79} a revelar-lhe os mysterios da sua crença, usou então de um subtil estratagema. Lembrou-se o imperador mahometano de enviar á santa cidade de Benares um indiosito chamado Fietzi e, fasendo-o passar por filho de um brahmane, foi o indio adoptado e instruido na linguagem e nos ritos sagrados. De tal modo seria satisfeita a curiosidade de Akbar, mas aconteceu que Fietzi se apaixonou por uma formosa filha do seu preceptor e, arrependido da fraude, foi lançar-se em lagrimas aos pés d'elle e tudo ingenuamente lhe confessou. Imagina vossa altesa qual seria o procedimento do brahmane? Arrancou immediatamente do punhal para matar o sacrilego! Por fortuna o brahmane cedeu aos rogos da filha, dando-a por fim em casamento ao indio com a solemne condição de nunca em sua vida trahir os Vedas[12].

Ainda o pagem se dispunha a proseguir na anecdota de Fietzi quando o toque arrebatado e successivo das businas lhe fez dirigir a attenção para outro ponto.{80}

—Caça, temos caça? exclama com alegria Catharina de Austria.

Inesperadamente por baixo das ramagens do arvoredo mais proximo appareceu e adiantou-se o corpo ameaçador de um lobo.

Mostrava-se nas proporções de um molosso reforçado das patas, com os olhos horrorosamente injectados de sangue, com a cabeça de uma grossura enorme e infundindo pela arrogancia do olhar todo o pavor que podem incutir no espirito de um homem os animaes carnivoros.

Era bem curta a distancia entre elle e os desapercebidos personagens. Alguns passos mais e logo as garras da fera encontrariam para repasto o corpo delicado e fragil da rainha. Mas o molosso, por uma impressão de medo ou qualquer motivo de surpresa, sosteve-se ali.

Com as patas vigorosas escarvando o tojo e os urzes, por momentos estacou como se o prendesse pela cerviz um cadeado de ferro.

Esta demora de segundos foi, todavia, bastante longa para acodir o badage. O corajoso rapaz depressa se postou fronteiro ao lobo.

Ia agora travar-se uma luta hortenda. Iam{81} certamente repetir-se as barbaras scenas do circo romano: o combate do homem contra a fera.

De feito o molosso arremessou-se ao badage. Erguer as patas e aventurar um salto enorme, tudo foi obra executada com a rapidez de uma frecha. Mas o badage, que se affisera ás caçadas dos tigres e dos javalis nas florestas gentilicas da India, esperou-o com a firmesa de um athleta. Quando o lobo se arremessou ao pescoço do indio na intenção de lhe verter o sangue e lhe despedaçar as carnes com o vigor das garras, o indio de repente cravou-lhe na garganta a lamina de uma comprida faca de mato.

A jorros espirrou o sangue da garganta da fera. Mas a fera não se estorceu nem baqueou. Abrindo com maior furia as patas dianteiras, apertou os hombros do indio e pretendeu esmagal-o com um amplexo terrivel.

O indio não conseguio resistir áquelles musculos de bronze. Foi grande a convulsão que padeceu. Perdendo as forças e o equilibrio, cambaleou, estorçeu-se e cahio.

Na queda acompanharam-no as garras do lobo. Estava decidido que, em holocausto da sua{82} dedicação, o pobre mancebo perderia as forças e a existencia. Quem lhe podera acudir nos apertos e nos trances de tam medonha conjunctura?

Talvez os companheiros. Porém o susto levara o augusto cardeal a esconder-se na toca de um carvalho e as duas delicadas senhoras seriam demasiadamente franzinas de pulso para tam heroica defesa.

O badage, comtudo, não havia abandonado a coragem. Conservava na dextra a comprida faca e lembrou-se de ainda faser uso d'ella. Por um momento affrouxou o lobo a compressão das unhas e esse momento foi o melhor auxilio que o badage podia receber.

Não é mais rapido um relampago: erguer o braço e ferir novamente a fera, eis os prodigiosos movimentos que elle fez.

O aço da faca despedaçou agora as guelas do lobo e logo em maior abundancia se inundaram as algas e folhas do chão com um lago de sangue.

A força da fera cedeu por fim ao esforço do homem. O lobo cahiu, estrabuxou e contorceu-se. Depois atroou as selvas com dous uivos medonhos e perdeu os últimos alentos de vida.{83}

Quasi ao mesmo tempo resoa nos espaços a buzina do monteiro-mór e é então que no estadio da contenda se apresentam de facas e carabinas os arredios caçadores.

—Que novidades houve? inquire o monarcha ao passo que descança o cano da espingarda ao tronco de um carvalho.

—Pardés que não nos faltou susto! apostrofou o timido cardeal ao mesmo tempo que se aventurava a sair da toca d'essa mesma arvore.

El-rei não pôde conter a explosão de uma risada e todos, sem distincção de gerarchias, expansivamente lhe seguiram o exemplo.

—É bom signal, affoutou-se a diser o pagem, que sua altesa esteja de agradavel humor.

—Signal é de boa caçada. Não achas, pagem?

—Assim me parece, meu senhor.

—Mas que tens ahi? Que animal é esse?

—Meu senhor, são os despojos da caçada.

Em seguida contou a princesa Dona Joanna as peripecias do fatal acontecimento e logo de todos fôra o pagem felicitado por sua valentia e dedicação.{84}

[12] Cesar Cantu. Hist. universal. Edição francesa, tomo 1, pag. 305.

{85}

VII

A LUTA

A rainha, forcejando por esquecer as extraordinarias impressões da caçada, recreava-se momentos depois na sua recamara dos paços de Almeirim com a leitura das trovas populares do celebre Juan de Encina.

A tristesa empanava-lhe levemente o brilho dos olhos feiticeiros e a cada minuto lhe assaltava o espirito de ideias desconsoladoras. Parecia inquieta do animo como se adivinhasse alguma funesta novidade.

Entrou o pagem n'esta occasião e pé ante pé{86} dirigindo-se para o lado esquerdo da rainha, fitou-a com olhares de poetica melancolia.

—Estimo ver-te, pagem. Tenho passado aborrecida e será muito do meu gosto ouvir contar alguma façanha alegre. Sempre me dirás o que tens feito...

—Nem tudo se diz, senhora.

—Sempre te conheci mysterioso. Mas agora, meu pagem, lembra-te de que estás ao pé de quem deveras te estima...

—Sei reconhecer a vossa amisade, senhora. O pobre pagem deixar-se-hia estrangular pelas garras de um tigre só para vos compraser. Não faseis ideia da minha dedicação, não podeis medir a grandesa do meu amor!

A rainha estremeceu levemente como se a ferisse a ponta de um alfinete.

—Por ventura me tens amor? assim o interrogou com um sorriso jovial.

—Juro-o pelos Vedas.

—Mas não reparas nos meus annos? Não vês claramente que já sou velha!

—Uma rainha nunca envelhece. É uma eterna primavera de florescencia e de perfumes.{87}

—Sendo verdade o que dises, reconheço que sou uma excepção.

—Senhora, esplendem em vós todas as graças e possuis todos os encantos!

—Ousado mancebo, não saberei regeitar as tuas galanterias; mas emfim não sabes que uma rainha não deve amar ninguem? Contenta-te com a minha estima. Dou-te a minha amisade e isso é bastante.

—Sabei que para vos amar, confidenciou o badage com a selvagem entoação do seu paiz natal, pouco me foi preciso. Senhora, bastou o vosso olhar... Mas para odiar-vos ainda será preciso menos. Escolhei...

—Escolhe tu, pagem.

—Escolho o vosso amor!

—Comprehendo; mas que provas queres tu que eu te dê, que exigencias por acaso imaginas impor-me?

—Concedei-me tudo quanto vos peça.

—Com algumas condições...

—Sou orgulhoso. Não admitto condições. Disei se sim ou não.{88}

—Pois bem, prometto.

O pagem, com o enternecimento de Othello ouvindo a Desdemona a primeira revelação de affecto, estremeceu fibra a fibra de alegria.

—Obrigado, lhe agradece com enthusiasmo. Ides faser a felicidade do pobre pagem. Mil veses obrigado, senhora!

—Mas então que pretendes de mim? volveu-lhe a rainha com uma espontanea expressão de carinho.

—Quasi nada e todavia pretendo tudo.

—Dize...

—Quem sabe se vos offendo! Talvez me não atreva...

—Fases mal. Eu gosto das pessoas temerarias...

—Deixai-me, senhora, dar-vos na face... na, face de rosa... um beijo... um beijo unico!

—Mancebo, retorquiu Dona Catharina com accento grave e de rosto em plena calma, saberás que a palavra de uma rainha não falta ao que promette. Aqui tens a minha face! O pagem com a rapidez de uma frecha aproximou-lhe{89} do rosto os labios cubiçosos e ali imprimiu com soffreguidão um beijo escandecente como as lavas do Etna.

Immediatamente, como possuindo-se de vergonha e respeito, fugiu com prestesa da recamara.

—É certo que tambem lhe consagro eu alguma coisa mais do que amisade, ficou a rainha pensando agora. Grande coração aquelle! É capaz de todos os heroismos e todavia diante de mim parece uma criança cheia de timidez. Parece decerto uma criança. Mas quem o não é em taes circumstancias de enleio e talvez de demencia? Amor, amor! és o mobil de todas as acções esquisitas, porque és o germen de todos os pensamentos humanos. Jamais se realisam os teus desejos e todavia ninguem deixa de sujeitar-se de boa vontade ao teu jugo. Queres e não queres, acaricias e odeias, confias e desconfias de tudo ao mesmo tempo. Foi sempre voluvel o teu caracter como voluveis costumam ser as ondas do mar. És a gota de agua que fertilisa a aridez da vida, és ainda uma redoma de perfumes e um sacrario de virtudes; mas{90} tambem és um elemento de odios e um antro de vicios. Socrates não saberia definir as tuas virtudes; Hercules não poderia medir-se com a tua força. Homens e mulheres egualmente abrigam e sentem nas fibras dos seios as tuas chammas e os teus effeitos; porém quem logrou ainda sondar os teus arcanos, quem porventura conseguiu explicar os teus mysterios?

N'este comenos transpunha o pagem uma sala immediata á luxuosa recamara. Depois, abrindo uma porta gigantesca, predispunha-se a entrar no vasto corredor do palacio quando quatro alabardeiros do serviço particular de el-rei lhe impedem a passagem.

—Acompanha-nos, meu caro.

A esta desceremoniosa intimação de um dos quatro soldados o badage retorquiu orgulhosamente:

—Á ordem de quem?

—Manda el-rei nosso amo e senhor. Obedece!

—Preciso primeiramente conhecer-vos. Em guarda, belleguins!

O pagem desnudou a fiel espada com a ligeiresa{91} de quem d'ella se sabia servir a tempo e horas e, recuando tres passos, aguarda com animo frio a aggressão dos alabardeiros.

—Mãos á obra! ordena um d'elles. Faça-se por mal o que se não póde faser por bem. Pagarás cara a temeridade, meu criancelho!

Á luz baça do corredor montantes e alabardas em poucos momentos se disposeram a começar o seu officio.

Era vasto o corredor; mas todos conservavam as mesmas posições. O badage, mestre consummado no jogo da espada, não deixava adiantar uma polegada aos quatro contendores. Ninguem, resuscitando o pomposo estylo do padre Vieira, soube ainda com mais garbo e valentia brandir a lança, erguer a espada e fulminar o montante. Crusavam-se as armas, acachoavam diabolicas imprecações, empregavam-se titanicos esforços para se decidir da contenda; mas o badage parecia sustentar nas mãos de bronze a clava de Hercules.

—Com mil demos! rugiu um dos alabardeiros ao cambalear no soalho com o desiquilibrio de um ebrio.{92}

—Sinto-me ferido! regougou o segundo camarada ao largar a alabarda com desanimo de uma vez para sempre.

Eram agora sómente dous os inimigos do badage. Mas um d'elles principalmente não affrouxava os golpes. Era de todos o mais alentado e o mais temerario.

—Aposto que me não conheceste ainda, meu criançola!

O badage retorquiu-lhe:

—Parece-me que já nos encontramos, sicario.

—Por signal que te acompanhava um alto personagem. Bella noite aquella!

—Covarde! Eras tu quem de emboscada queria assassinar o infante Dom Luiz?

—Tens memoria, meu fidalgote. Nem mais nem menos... Olha bem para mim: sou o teu conhecido Jacobo.

O badage retrocedeu meio passo e por dous momentos apresentou a descoberto a arca do peito. Aproveitou este arriscado estratagema para triunfar do seu terrivel adversario, porque Jacobo, julgando certeiro e infallivel o golpe, resolveu apenas valer-se da vantagem de ferir o{93} pagem. Todavia o denodado mancebo, por meio de uma rapida manobra, desviou o corpo e arremessa a ponta da espada em direitura do contendor. Em um abrir e fechar de olhos rasga-lhe a carotida e completamente lhe atravessa o pescoço de lado a lado!

Ouve-se então um clamor horrendo. Á testa de uma dusia de archeiros e familiares do Santo Officio com ascumas e espadas acode tumultuariamente o jesuita Simão Rodrigues, o qual, primeiro que o pagem aproveitasse ensejo de evasão, com arrogancia o intima a render-se por ordem de el-rei.{94}

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VIII

OS ESTAUS

Ao indio amarraram os pulsos com rijas cordas e violentamente o conduziram dos paços de Almeirim á residencia inquisitorial do Rocio.

Aqui foi, sempre debaixo de uma orchestra de apupos, introduzido na abobada subterranea que servia de encerro, onde lhe vestiram uma casula ou escapulario de panno amarello com cruses de Santo André pintadas de vermelho assim por diante como por detraz.

Era o carcere um espaçoso quadrilongo lageado de tijolos, sustentado por vastas arcadas e com paredes lavradas de cantaria. A humidade,{96} o frio e todas as inclemencias da invernosa estação ali contrariavam sobremodo todos os elementos de hygiene. Ausencia radical de mobilia, de conforto e ambiente puro. Á propria luz do dia, que é propriedade que Deus reparte sem restricção por todos os seres racionaes ou irracionaes, era quasi totalmente prohibido o accesso. Para bem se descrever precisava-se do estylo de Victor Hugo: era, em frase do grandioso poeta, morada onde não havia ar no verão, onde não havia fogo no inverno, onde não havia pão nem de inverno nem de verão. Morada lugubre do mysterio e do crime, áquella especie de catacumbas romanas de proposito se imprimira o caracter de infecta e lobrega sepultura a que faltava apenas a terrivel inscripção do inferno do Dante: lasciate ogni speranza!

Tres dias successivos viveu o pagem a codeas de pão e a goles de agua sem que lhe indicassem a sorte de supplicios que lhe cumpria padecer. Unicamente communicava com o alcaide ou carcereiro, cerbéro de aspecto extremamente alvar e discreto de lingua como um rochedo. Todavia o pagem não se incommodou com o{97} seu estranho encerro. Naturesa moldada a todos os vaivens da fortuna, a transição da ventura para o infortunio era quasi para elle um phenomeno insensivel. Sempre se dispunha com animo inquebrantavel a experimentar quaesquer acontecimentos por mais extraordinarios que fossem.

—Na verdade, monologava elle em maré de maior expansão, tem suas rasões o procedimento de Simão Rodrigues. Confesso que a sua senhoria não era affecto nem adstricto de maneira que podesse facilmente dispor dos meus serviços e, juro-o pelos Vedas, não se enganou de todo o ladino jesuita. Mas eu prometto ainda, meu padre, prometto ainda pagar-te juros e capital na mesma moeda. Pardés que havemos de saldar contas!

Só ao entardecer do quarto dia é que foi o pagem visitado. O proprio Simão Rodrigues lhe appareceu disfarçado nos trajos de familiar do santo officio.

—Não ignoras, lhe disse depois de algumas palavras de comprimento, não ignoras, meu filho, que peccados te condusiram a estes lugares. Escuso de avisar-te que, por teu mal, és accusado,{98} na qualidade de christão novo, de rebelde ás praticas da religião e de Deus...

—Quando se não póde esmagar a vibora, respondeu-lhe corajosamente o pagem, foge-se pelo menos da sua presença. Eu devera fugir para longe, embora procurasse nas brenhas dos sertões do Mandovy a companhia das onças e dos tigres. Mas sem cautela me deixei quedar n'este paiz de fanatismo e de crimes. Por isso me não reconheço justiça de queixar-me. Aqui me tens agora, bem disposto de alma e corpo a escutar as tuas fallas e á espera dos teus castigos. Adivinho o que me espera: antes do baraço da forca o soffrimento da masmorra, ou talvez, para mais demora das derradeiras agonias, a tortura da fogueira...

—Estranha linguagem é essa, volveu-lhe com brandura o jesuita. De certo, pobre mancebo, o teu cerebro não regula assisadamente. A falta de crenças e de fé estiolara o vigor do teu espirito. Quem te manda ser tam orgulhoso? Lembra-te que é virtude evangelica a humildade. Os humildes serão exaltados e os orgulhosos abatidos conforme a palavra infallivel do Evangelho.{99}

—Meu padre, embora me chames hereje ou christão novo, aprecio as bellesas e virtudes da religião catholica. Por ella abandonei as crenças de meus paes e as tradições seculares da minha raça. Voluntariamente recebi o baptismo das mãos de Antonio Criminal e desde então para sempre se inflammou no meu espirito o amor acrisolado do Deus dos christãos. De bom grado lidarei por toda a vida em defensão da cruz e da fé. Porém não quero, meu padre, seguir os teus preceitos e abraçar as tuas doutrinas, Não quero que me obrigues a pensar a teu sabor, repugnam-me todas as peias impostas á liberdade de consciencia, abomino emfim o jugo atroz a que a vossa oligarchia clerical reduz o espirito humano. De outro modo bem diverso comprehendo os deveres do homem. Não basta a Deus que o amemos sobre todas as coisas? Não basta ao rei que se seja bom cidadão? Obedecer ás leis, dar exemplos de bons costumes, estimar a familia e defender a patria: eis tudo!

—Fallas bem, mas não convences. Amor de Deus e obediencia ao rei não bastam.

—Dize-me então quaes são as leis que governam{100} o mundo. Explica-me todos os mysterios do teu governo e da ordem inquisitorial.

—Em duas palavras se resumem, criança: mandar e obedecer.

—Mas a quem se obedece, meu padre? A Deus, ou aos seus missionarios na terra? ao nosso rei, ou aos aulicos miseraveis que, usurpando-lhe o sceptro, abusam da indole e fraquesa do rei?

—Vou mostrar-te a quem é.

A esta laconica e mysteriosa ameaça chamou o jesuita pelo silencioso carcereiro, a quem ordenou, ainda com maior laconismo, estatelasse o pagem no segredo.

O carcereiro puchou por uma das argolas de ferro pregadas na parede e, mediante um alentado esforço, depressa fez sobresair uma abertura da capacidade de tres palmos de largo e uns sete palmos de alto.

Guardando sempre o mesmo silencio, pegou do corpo do badage como se lidasse com uma pluma de ave e, começando de lhe introduzir os pés e as pernas, fechou-o com celeridade na mysteriosa crypta.{101}

A nova prisão era uma especie de armario de granito cuja parte superior, á semelhança de um enorme funil, apresentava geometricamente o desenho de uma figura conica.

Sendo armario como parecia, abundava em estantes ou prateleiras, mas prateleiras de gosto e feitio a darem ideia aproximada das divisões funerarias de que se formam as capellas dos nossos cemiterios.

—Sepultam-me vivo estes sacerdotes do Senhor, pensou o pagem. Está decidido que de aqui só se vae para o ceu ou para o inferno.

Mas o pagem, mal se lhe proporcionava ensejo de criar este lugubre pensamento, viu escancarar-se de novo a tampa do seu sepulchro.

—Podes sair, ordena o jesuita.

—Bem ruim gracejo, meu padre. Julguei asphixiar como se fosse um perro. Nem luz nem ar e sobretudo um cheiro, a vermes podres que deveras me incommodava o nariz.

—Pois arrepende-te dos teus erros. Os bens da terra não os merecem os peccadores que a todos os momentos offendem a vontade de Deus. Reconhecendo as leis e o dominio da nossa ordem,{102} terás para sempre o socego do teu corpo e a ventura do teu espirito. Os filhos de Jesus Christo, a despeito de parecerem os ultimos pela modestia do habito, são hoje por todas as partes do mundo os primeiros na força e no poderio. Ai do insensato que julga encravar com um dedo a roda dos seus triunfos! Por isso, meu filho, expulsa quanto antes do teu seio as glorias vans do mundo secular. Em vez do gibão de velludo ou do cossolete de aço polido, enverga o saio de estamenha e abraça o lenho sagrado de Jesus Christo.

O jesuita, deixando novamente a sós o badage, retirou-se a passo lento.

Vendo-se agora o badage n'quella solidão tremenda, por mais uma vez relanceou as vistas em redor do carcere.

A argola puchada pelo carcereiro inflammou-lhe a imaginação e, querendo descobrir o segredo de outras argolas identicas, adiantou-se em direitura da parede.

Á imitação do homunculo, puchou com força. Era uma argola de ferro carcomida pela ferrugem de alguns annos. Ella parecia ceder ao primeiro{103} empuxão; mas ficou segura e fixa como se a pretendesse abalar o pulso de uma criança. Novo empuxão com maior violencia e ainda, todavia, se não obteve mais feliz resultado.

—A questão é de geito, considerou o pagem.

Com effeito, sem exigir metade do esforço a argola cedeu á sexta ou setima tentativa.

No bojo da parede, ainda que de fórma differente do armario de granito onde fôra introduzido o badage, manifestou-se uma crypta de genero egualmente lugubre. Formavam-na quatro paredes escuras de dez ou doze palmos de largo e deseseis ou desoito palmos de altura. Nada inculcaria de notavel a não ser uma especie de feretro levantado no centro do pavimento. O feretro, que era fabricado de pedra tosca em harmonia com todo o escondrijo, servia de asylo a um esqueleto de mulher. Os braços e tronco, as pernas e a caveira ali se viam com a pelle arroxeada e os ossos amarellecidos pelos effeitos da podridão.

O badage, pensando na sorte das malaventuradas creaturas, sentiu ainda mais activa a prurigem da curiosidade. Não cuidando de fechar{104} a porta do escondrijo, lembra-se de percorrer a trechos a parede. Lançou as mãos a segunda argola e eis que lhe apparece novo escondedouro. Não tem sarcophagos, nem feretros, nem prateleiras, nem divisões. Menos alto do que largo, é simplesmente uma grande caixa de pedra. No pavimento amontoam-se braços encrusados, pernas desconjuntadas e caveiras ás duzias. Era uma pilha putrefacta e immunda de caveiras e esqueletos humanos: um repulsivo e fetido ossario emfim.

Nuvens de fumo espesso e acre vieram entretanto invadir pouco a pouco o espaço do carcere. Cada vez se pronuncia mais um cheiro violento de substancias asphixiadoras. Ficam por todo o espaço predominando esses dous inimigos dos pulmões: o acido carbonico e o acido sulphydrico.

Esta horrivel atmosphera devia naturalmente influir nos sentidos e na organisação do badage. Influiu. A cabeça entonteceu-lhe e, cambaleando como um ebrio, cahiu na distancia de algumas polegadas das caveiras e esqueletos do ossario!

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