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O Conde de S. Luiz

Chapter 11: VIII
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About This Book

The narrative follows D. Marianna de Mendonça, who, after accepting an arranged marriage to Alvaro de Mendonça, celebrates the birth of their son Manuel before becoming widowed. The widow devotes herself to raising and educating Manuel, whose precocious intelligence and robust health provoke admiration and anxiety among relatives, especially a cautious cousin who warns against overtaxing him. The story traces domestic life, parental devotion, social expectations, and recurring fears for the child's future, depicting family relationships, episodes of illness and medical interventions, and tensions between protection and schooling across many chapters.

VIII

Deixemos por algum tempo os preclaros bemfeitores do pobre Jeronymo; a inconsolavel esposa rezando á Virgem Santissima; D. Maria Egypciaca abençoando o fructo dos seus burocraticos amores, e volvamos a uma epocha vinte annos anterior a estes successos, quando, perdida a razão, a infeliz D. Marianna de Mendonça deu entrada no hospital de S. José.

Como o leitor deve estar lembrado, a viuva não tinha um unico parente sobre a terra. As pessoas que frequentavam a sua casa havia muito que se tinham afastado, em virtude das intrigas urdidas pela sua amiga intima, que annos antes a aconselhára a depositar os capitaes nas mãos do commendador.

Até o advogado que fôra acompanhal-a ao escriptorio no dia da fuga de Felix Justino de Araujo, até esse a havia abandonado, para com o seu conselho salvar as victimas do fugitivo.

Maria Gertrudes, uma das creadas que lhe era mais affeiçoada, ao vel-a entrar n'aquella situação, dirigiu-se immediatamente a casa da amiga da sua ama participando-lhe o estado em que D. Marianna se encontrava, perguntando-lhe o que queriam dizer aquellas palavras que proferira o commendador—que lhe tinham roubado todos os seus bens.

—Que a sua ama sempre propendeu para a loucura, ha muito que o suspeitava, mas que tivesse chegado a esse ponto, é que não podia crer. Vejo-lhe apenas um remedio: metterem-n'a no hospital dos doidos, e, quanto a isso, quem está nas melhores condições é o regedor. E sem mais tir'te nem guar'te, voltou as costas á fiel criada, mostrando-lhe que o sitio por onde tinha de sair era o mesmo por onde minutos antes havia entrado.

Esperançada no restabelecimento de D. Maria, a pobre mulher voltou para casa.

—Já não ha meios de a soffrer, disse-lhe uma sua companheira. Tem quebrado tudo quanto encontra á mão, e se assim continúa, não temos ámanhã um copo por onde beber. Pela minha parte, entendo que visto a senhora não ter amigos nem parentes, o melhor era dirigirmo-nos ao sr. regedor.

—O mesmo disse a sr.ª D. Maria Clara. Porém, entregar a nossa ama á justiça, nós que lhe queremos tanto! Não seria mais razoavel supportal-a ainda alguns dias, como antes de hontem nos disse o medico? respondeu Maria Gertrudes.

—Pois supporte-a vossemecê, que eu pela minha parte já estou farta. E demais, nós as criadas não temos obrigação de aturar doidas. Se a tal me quizesse sujeitar, ia para o hospital de S. José, onde tinha melhor ordenado do que n'esta casa. Vossemecê, que é mais antiga do que eu, se gosta, sopeteie, que quanto a mim, não tenho mais nada se não arranjar o bahu, pôr o capote e o lenço, e pés para que te quero.

É que não sei; não sei o que hei de fazer á minha vida. Valha-me Deus, para que estava guardada.

—Estivesse eu no seu caso; eu lh'o diria.

—Então o que havia de fazer?

—Chamar o regedor e ferrar com ella no hospital.

—E esta casa? Quem ha de ficar n'esta casa?

—Ora essa sr.ª Maria Gertrudes! Ficavamos nós emquanto o filho não viesse.

—E sabemos por ventura aonde está o filho?

—Onde está! Está no estrangeiro. Bem se vê que a sr.ª Maria Gertrudes não é mulher d'este tempo. Boa está. Olha que grande difficuldade! Pensa talvez que não sei como essas coisas se fazem. Para que servem os correios? Não tem mais nada senão pôr: ao sr. Manuel de tal, e em baixo: pelo correio do Estrangeiro, em letras muito grandes.

—Isso lá é verdade; e quanto tempo pode levar isso tudo?

—O tempo que leva uma carta ao estrangeiro. Olhe, sr.ª Maria Gertrudes, se vossemecê quer, não diga nada ao criado, que eu mesmo me encarrego de a escrever. Por agora o que devemos fazer é ir a casa do sr. regedor. Já com este são cinco dias que estamos aturando aquella doida, e bem vê que isto não póde durar por muito tempo.

—Lá n'isso tem muita razão.

—Ora ainda bem; então mãos á obra.


Maria Gertrudes resolveu-se a ir falar ao regedor.

N'essa mesma tarde, a infeliz senhora, que cinco dias antes se considerava rica e cheia de ventura, entrava na enfermaria das alienadas como uma simples pedinte sem protecção e sem abrigo. Quando dois mezes depois, informado pelos visinhos, soube o regedor o que se estava passando em casa de D. Marianna de Mendonça e como os seus creados de dia para dia iam roubando os haveres, entendeu-se com o juiz eleito, e entrando em casa, viram com effeito que não eram mal fundadas as suspeitas da visinhança.

A carta remettida para o estrangeiro ainda não tinha chegado ás mãos de Manuel de Mendonça, e a desgraçada continuava no hospital sem que nenhum dos creados fosse indagar o seu estado.

No dia seguinte, o juiz mandou tomar posse de tudo quanto existia, e depois de competentemente inventariado, collocou no meio da rua aquelles dedicados servos que tão tranquillamente habitavam a casa de sua ama sem ao menos saberem se ainda existia ou não.

Pelo espaço de sete annos, esteve D. Marianna nas enfermarias de S. José. Finalmente, recobrou a razão e deram-lhe alta.

Antes da saida pediu para falar com o director. Depois de lhe confiar todos os pormenores da sua vida, perguntou-lhe se durante a sua enfermidade alguem tinha vindo informar-se da sua saude.

Sympathizando com as maneiras da viuva e condoido pela sua desgraça, o director levou-a para casa da sua familia.

Finalmente, graças ás relações do seu protector, D. Marianna tomou posse do que lhe restava. Entre louça, moveis e roupas brancas apurou dois contos e duzentos mil réis.

Alugou uma casa proxima á dos seus protectores, entregou-lhes o resto para lh'o empregarem no que melhor lhes parecesse, até que o destino, cançado de a torturar, lhe proporcionasse a maior de todas as felicidades: devolver-lhe o filho querido da sua alma!

Debalde se passaram annos e annos, e o destino sem se compadecer da sua desventura.

Os dezeseis vintens que pouco mais ou menos lhe rendiam as inscripções, juntos aos ganhos que os seus bordados lhe produziam, eram mais do que sufficiente para o seu alimento. Infeliz de todo não se considerava D. Marianna, e ingrata seria para com Deus se da sua sorte se queixasse. Era já muito o amparo que lhe concedia a Providencia representada nas pessoas do director e de sua mulher; porém a desgraça que parecia ter-se aninhado no seu coração, não podia permittir-lhe que descesse á sepultura sem que primeiro a bafejasse uma vez ainda com o seu halito envenenador. Levou-lhe em menos d'um anno as duas unicas pessoas que tinha sobre a terra: o director e sua esposa!

Aterrada com esse golpe, julgou de novo enlouquecer!

Querendo mudar-se do bairro, que lhe recordava os seus protectores, á sombra de cuja amizade tanto tempo se abrigára, lembrou-se de ir viver para a Lapa.

Uma tarde saiu, e dirigindo-se para aquelles sitios encontrou na rua do Meio a casa que lhe convinha. Dois dias depois, alugou e mudou para alli a sua pequena mobilia. Foi onde oito annos depois a encontramos atacada pela febre amarella.

A pobre senhora, na doce esperança de ainda tornar a vêr seu filho, economizava, quanto cabia em suas forças, os poucos haveres que lhe restavam.

«Este dinheiro, dizia ella ás vezes comsigo olhando para as inscripções, não me pertence, é de meu filho; cumpre-me fazer tudo quanto possivel me fôr para lh'o augmentar.»

Explicado está portanto o seu modo de viver.


IX

A physionomia doce e melancholica de Martha impressionára de mais o desconhecido para que a sua promessa deixasse de ser cumprida.

Quando ao apear-se no Largo das Duas Egrejas se demorou alguns segundos para pagar ao bolieiro, olhou instinctivamente para um grupo composto de quatro individuos que estavam discutindo.

—Se fosse algum de nós que tivesse atropellado o homem, provavelmente estava preso, dizia um d'elles.

—Mas como foi o sr. Tristão d'Almeida... acudiu outro.

—E o visconde de Coruche, accrescentou terceiro.

—Mas elle morreu ou não morreu?

—Dizem que está melhor.

—Veremos como se porta o brazileiro.

—Até agora, não ha razão de queixa, segundo me disseram. Lá ficou n'um bello quarto do hotel, tendo por enfermeiras a mulher do magnata, e as duas filhas.

—Tenho pena de não ter sido eu o atropellado, só para ter taes enfermeiras.

—Vocês vão d'aqui para o Marrare de Polimento, ou ficam ainda a descobrir a mysteriosa individualidade do menino de ouro, como se diz na minha terra?

—Vamos para o Marrare, responderam os outros tres, dirigindo-se pela rua do Chiado.

Reflectindo em que o atropellado podia muito bem ser o pae de Martha, o mysterioso protector da infeliz criança seguiu os quatro individuos até á sua entrada no Marrare de Polimento.

Entrou tambem.

O que primeiro falára do acontecimento ficou á porta assobiando alegremente; os outros dirigiram-se para os bilhares.

—Deve estranhar uma pergunta que lhe vou fazer, disse o desconhecido interrompendo o assobio do dilettante. Ha tres horas que procuro um individuo que desappareceu de sua casa. Quando me apeei de um trem no Largo das Duas Egrejas, percebi que falavam ácerca de uma pessoa que tinha sido atropellada, e confesso-lhe que commetti a indiscrição de os escutar. Póde ser que seja esse o mesmo individuo que procuro.

—Talvez, respondeu amavelmente a pessoa a quem estas palavras foram dirigidas. O que sinto é não lhe poder dizer o seu nome. Sei apenas que está no Hotel de Bragança.

Retribuindo n'um aperto de mão a amabilidade com que fôra recebido, o protector de Martha correu immediatamente para o sitio que lhe haviam indicado.

Ao chegar perguntou ao guarda portão se ainda alli estava um sugeito que de manhã fôra pizado por um brazileiro.

—E não só por um brazileiro como tambem por um visconde, respondeu o guarda portão, como se n'estas palavras quizesse tornar mais illustre o atropellamento, ou diminuir a culpabilidade dos animaes dividindo-a por todos quatro.

—É possivel falar lhe?

—É possivel vel-o; emquanto a falar-lhe isso fia mais fino, respondeu o guarda portão. Ainda não tornou a si.

—Pois obsequiava-me muito se me podesse conduzir ao seu quarto.

Minutos depois entrava no quarto do ferido.

Jeronymo ainda se encontrava no mesmo estado lethargico. A dôr das feridas havia-lhe diminuído progressivamente, comtudo a perda de sangue tinha sido abundante, e ao pobre operario nem forças restavam para pedir que chamassem a sua familia, de quem n'esse instante tão amargamente se recordava. A imagem de Balbina e de sua filha passava-lhe por entre as visões da febre, como se as visse alli, pregadas á sua cabeceira.

Sentia na fronte a mão fina e delicada de Martha, e pousando lhe sobre o coração, que fortemente lhe palpitava, a face de sua mulher incendida pelo terror.

Jeronymo via tudo isto como atravez de um sonho.

Junto ao leito o desconhecido olhava-o caridosamente, levando-lhe de vez em quando a mão á fronte.

Momentos depois os olhos do operario, até alli brandamente cerrados, abriram-se como que para contemplar o desconhecido, que fitando-o parecia descobrir-lhe nas feições alguma similhança com as da pobre Martha. N'este comenos o enfermo fez um movimento como se tentasse falar.

Manuel, o creado que lhe servia de enfermeiro, approximando-se suavemente, perguntou-lhe se desejava alguma cousa.

—Falar... mas... não posso, murmurou o infeliz Jeronymo, deixando cair sobre o colchão o braço direito que tentára levantar.

O desconhecido approximou-se ainda mais.

—E ainda não houve meio de se saber quem é este homem?

—Ouviu aquellas palavras que elle disse? Foram as primeiras! respondeu o creado.

—Como se chama vossemecê, perguntou o desconhecido debruçando-se sobre o leito.

—Jeronymo, balbuciou o pobre; e a minha familia mora na rua do Meio, á Lapa.

—Basta! bradou rapidamente o desconhecido, e saindo do quarto sem que o criado tivesse tido tempo de lhe perguntar aonde se dirigia, encaminhou-se para o Loreto, afim de procurar uma sege.

Martha havía-lhe dado o nome da rua e o numero da porta. Dizendo ambas as cousas ao bolieiro, ordenou-lhe que trouxesse Martha e sua mãe ao Hotel de Bragança o mais depressa que lhe fosse possivel.

Foi n'este momento que Manuel desceu á casa do jantar para dizer a Tristão de Almeida que o ferido estava no uso das suas faculdades.

Deixemos o mysterioso descobridor do pae de Martha esperando á porta do hotel a mulher e a filha de Jeronymo, e vejamos o que se está passando no quarto do ferido.


X

—Ora graças a Deus que está livre de perigo, exclamou Tristão de Almeida approximando-se do leito de Jeronymo. Não calcula o quanto me tem feito soffrer a sua prostração. Quero que nos perdôe todo o mal que involuntariamente lhe causamos, eu e o meu amigo visconde.

—Mas agora, felizmente, sente-se melhor! perguntou o visconde approximando-se de Tristão.

—Nem mesmo sei como me sinto, meus caros senhores, respondeu Jeronymo, como se ainda estivesse sendo victima de uma allucinação. De quanto se passou, continuou elle, com uma voz muito enfraquecida, lembro-me apenas que fui atropellado por um trem, e de nada mais me recordo. Sei que tenho tido umas dôres horríveis tanto na cabeça como em todo este lado direito, e nada mais posso responder a vossa senhoria. O que apenas me mortifica é lembrar-me os cuidados em que deve estar minha pobre mulher e filha, o resto será o que Deus quizer. Tratamento, graças aos senhores, vejo que me não tem faltado. O que eu tambem agora desejava pedir-lhe eram dois favores; o primeiro, que me dissessem onde estou, e o segundo, que mandassem immediatamente a minha casa participar a Martha e a minha mulher que estou aqui, vivo e bem tractado. As infelizes a esta hora cuidam que fui atacado pela febre amarella, e andam á minha procura por toda a parte.

—Emquanto ao sitio aonde se encontra, respondeu Tristão, bastará dizer-lhe que está entre amigos, e que nada lhe faltará; emquanto a mandar chamar sua familia, queira dizer-me aonde mora.

—Moramos na rua do Meio n.º 7, Lapa, respondeu Jeronymo, fazendo ao mesmo tempo uma dolorosa contracção.

—Que é isso, meu amigo? acudiu rapidamente o commendador dirigindo-se ao mestre de obras.

—É uma dôr muito grande que me toma a cabeça toda, respondeu elle, levando á fronte ambas as mãos.

—Veja se póde socegar um momento, e tranquillize se porque vamos immediatamente chamar a sua familia.

—Para que venham mais depressa vou mandar o meu trem, disse o visconde dirigindo-se para a porta.

—Bom será, visconde, ajuntou o commendador, quanto mais depressa descançarmos aquella pobre gente tanto melhor para todos.

—Se vossas senhorias fossem tão bons que tal fizessem, seria uma grande obra de caridade, disse Jeronymo, tentando sentar-se sobre o leito.

—Não faça similhante loucura. Conserve-se como está, e tenha a certeza que d'aqui a meia hora terá a seu lado as pessoas que tanto deseja.

N'este momento entrou a sr.ª D. Maria Egypciaca, acompanhada por suas duas filhas.

—Já sabemos, graças a Deus, quem é o nosso doente, e onde mora, disse a D. Maria Egypciaca o visconde, que n'esse momento saía do quarto, com o fim de dar ordem ao cocheiro para trazer a familia do ferido.

—Quanto estimo, meu Deus! respondeu D. Maria, erguendo para o tecto os seus grandes olhos azues.

—Em que sustos estará a sua pobre familia! disse Magdalena olhando para Olympia.

—Talvez que nem hoje tivessem que jantar.

—Enfim! disse D. Maria Egypciaca depois de ter contemplado o ferido por alguns instantes, Deus tudo quanto faz é para melhor. É certo que teve esta pequena contrariedade, mas graças ao Senhor, está livre de perigo, e vae fazer a felicidade de sua familia. Não é verdade, Tristão? ajuntou ella dirigindo-se ao esposo.

—Quantos desejariam ter egual sorte! disse o commendador intromettendo-se na conversação.

—Magnifico achado para dirigir as obras do nosso hospital, disse o banqueiro voltando se para Lopes de Miranda.

—Do hospital?! perguntou admirado o commendador.

—Não ouviste dizer ha pouco que era mestre de obras?

—Lembra bem, lembra bem, meu amigo, disse Tristão sentando se n'um pequeno sophá.

N'este momento, ouviu se o rumor de muitos passos subindo apressadamente a escada que dava para o segundo andar. Segundos depois abriu se a porta e appareceram duas mulheres. Eram Balbina e Martha. O desconhecido seguia-as de perto.

No momento em que Balbina e sua filha se precipitavam sobre o leito de Jeronymo, este fez um supremo esforço para se erguer, porém as dôres que lhe atacavam a cabeça e todo o lado direito tornaram a prostral-o completamente.

Todos se compadeceram ao contemplar aquella scena de amargura, até a propria Olympia arrancou dos fundos penetraes do estomago, unica viscera onde a sensibilidade se lhe refugiára, um par de lagrimas que vinham em turvos crystaes, rescendendo mais a fricassé do que a natural piedade.

O desconhecido, com os olhos fitos n'aquelle grupo, parecia contemplar a physionomia de Tristão, como se uma vaga reminiscencia lhe houvesse acudido á memoria.

O mesmo se passava no espirito do magnata; aquelle individuo não lhe era estranho.

Seguido da esposa, approximou-se do leito de Jeronymo e contou a sua familia tudo quanto tinha acontecido.

O mesmo fez Balbina e sua filha.

—É portanto a este cavalheiro que devemos tudo? disse Tristão. Quanto folgo que tenha concorrido para a felicidade d'esta familia, ajuntou elle extendendo a mão ao desconhecido.

Este, retribuindo-lhe o aperto de mão, cumprimentou rapidamente a todas as pessoas e saiu d'aquelle gabinete.

—Quem será este moço? perguntou Tristão voltando-se para o banqueiro.

—Deus sabe; respondeu Vaz Mendes. Acho-o pouco delicado.

—Quer tornar-se mysterioso, acudiu Lopes de Miranda.

—Provavelmente é algum rapaz acanhado que não sabe estar entre gente fina, disse D. Maria Egypciaca.

—Não sou d'essa opinião; pelo contrario, pareceu-me um moço de um trato finissimo, mas excessivamente modesto para se conservar n'este quarto. Receiava que o cobrissem de elogios. Não achas Magdalena? ajuntou Tristão dirigindo-se a sua filha.

—N'isso mesmo pensava eu, meu pae, respondeu Magdalena. Quando o sr. Vaz Mendes o alcunhou de indelicado, de mysterioso o sr. Lopes de Miranda, e de pouco sociavel minha mãe, não concordei com opinião nenhuma d'essas. Julgo o como meu pae: modesto de mais para escutar os elogios de que é merecedor.

—Que innocencia! gargalhou Vaz Mendes. Quem se esquiva a ser elogiado?

—Muita gente, sr. Vaz Mendes, ainda que não seja senão por egoismo. O elogio frivolo e banal, inscripto no codigo da civilidade, é uma ironia pungente para o que tem a consciencia do seu merito. Ha o louvor que anima e a adulação que fere. O incenso nem sempre é agradavel; está muitas vezes pendente da mão que balança o thuribulo, e comtudo sempre é incenso.

—Quer vossa excellencia dizer que os nossos encomios o poderiam offender? perguntou o visconde.

—Nem por sombras, sr. visconde! Não era essa a minha intenção, respondeu Magdalena approximando se de sua irmã.

—Não seria melhor deixarmos em paz esta pobre gente? disse Olympia em voz baixa para sua mãe. E demais, acrescentou ella, já se vão approximando as horas do chá, e se quer que lhe diga a verdade, estou sentindo uma fraqueza...

—Bemdito Deus, respondeu D. Maria Egypciaca, sempre, sempre pensando em comer.

—Em que quer a minha mãe que eu pense? tartamudeou Olympia, fazendo-se vermelha como a fita que lhe cingia o collo.

No entretanto, o visconde, Vaz Mendes e Lopes de Miranda conversavam em voz baixa n'um dos angulos do quarto.

—O que lhes peço, disse Tristão approximando-se de Balbina e de sua filha, é que estejam aqui tanto á sua vontade como em casa propria. Fiquem certas que coisa alguma lhes faltará. Se necessario fôr que seu homem aqui se demore, o que espero em Deus tal não permitta, não consinto que d'aqui se afastem. E emquanto a vossemecê, ajuntou Tristão dirigindo-se a Jeronymo, não se persuada que fica sem trabalho; apenas estiver melhor, ha de fazer-me o plano de uma obra que vamos immediatamente principiar e de que o meu amigo fica encarregado.

Nos olhos do pobre Jeronymo deslizaram duas lagrimas de gratidão.

Absortas na contemplação de Jeronymo, Balbina e sua filha ouviam as palavras de Tristão como se não as comprehendessem.

—Agora que terminaram os cuidados, e que seu marido está livre de perigo, disse o visconde approximando-se do leito do operario, agradeçam á Providencia o ter lhes deparado a mão que os veiu arrancar da pobreza, ajuntou elle, voltando-se para Balbina que o contemplava como que assombrada.

—Minha santinha, ás vezes, d'onde a gente menos o espera, é d'ahi que provém ou grande mal ou uma grande ventura, disse Lopes de Miranda approximando-se do visconde.

—Será a ultima, acudiu rapidamente D. Maria Egypciaca, collocando protectoramente sobre os hombros de Balbina a sua mão direita, cujos dedos cravejados de brilhantes feriram os olhos verdes e entristecidos da pobre Martha.

—Vamos dar ordem para que tragam alguma coisa de comer a esta gente, disse Olympia, puxando pela saia de sua mãe.

—Safa, inimigo! Que esta rapariga não pensa n'outra coisa senão em comer, resmungava D. Maria Egypciaca á proporção que, seguida dos seus hospedes, saía do quarto de Jeronymo.


—Que bem que alli cheira, dizia Olympia dirigindo-se para sua irmã e aspirando os aromas culinarios que rescendiam no corredor por onde atravessavam. Provavelmente foi algum hospede que mandou vir o jantar ao seu quarto. Quem me dera fazer o mesmo!


XI

Cada vez mais impressionado pela ingenua formosura da filha do operario, debalde tentava o desconhecido afastar para longe da memoria aquella imagem que o perseguia.

«Mas, pensava elle, e se tudo isto não passar de uma illusão, d'um capricho de phantasia?

«Casar-me hoje, para d'aqui a mezes aborrecer a companheira da minha vida? Continua solteiro Manuel de Mendonça, e se um dia te impressionar como agora algum rosto de mulher, estuda o teu coração e a tua intelligencia, apalpa, mede e analysa esse sentimento que experimentas, e se o considerares estavel, firme e immorredouro, pede então a mão da mulher que o tiver despertado, e torna-a a companheira inseparavel da tua existencia.

«Ai, do homem só!» diz Salomão, e eu digo: ai, do homem casado, que sente ao lado da esposa a solidão. E comtudo, é esta a primeira vez que sinto palpitar o coração! Será o amor esta intranquillidade de espirito que ha horas me atormenta? Esta saudade que me traz a ausencia da sua imagem e o desejo ardente de a tornar a ver será ainda o amor? Veremos.

«Só ámanhã poderei saber o tempo que me demoro em Lisboa. Se fôr pouco, bem vamos; no mar largo substituirei a sua imagem pela doce contemplação das estrellas, quando por noites caladas ouvir apenas o vogar da minha galera, e de longe em longe o canto rude, mas harmonioso dos marinheiros. Nada, continuava Manuel de Mendonça, se essa é a minha casa e elles a minha familia, para que abandonal-a, trocando a por outros que me são desconhecidos e que, se eu morresse, nem talvez uma lagrima de saudade fossem chorar sobre a minha sepultura.

«Mas se eu me demorar, se a imagem de Martha me continua a perseguir? Não póde ser! Não ha de ser, não quero que seja! Estou ainda muito novo para me prender. E demais, affeito a uma vida isolada, como poderia eu cumprir todos os deveres de um bom chefe de familia? Desde os dezeseis annos que me afastei da unica pessoa que tinha n'este mundo: minha mãe. Só, em terra estranha, sem um amigo que me protegesse, alonguei a vista para os horizontes da patria, e extendendo-lhe os braços, debalde lhe pedi noticias d'ella. Desanimado ao principio, vi por ultimo que não tinha outro remedio senão revestir-me de valor, e luctei, e soube vencer.

«Quando, possuidor de algum dinheiro, tentei voltar á Europa afim de ver minha mãe, disseram-me na Bahia, poucos dias antes de embarcar, que a pobre estava reduzida á miseria. Vim para Lisboa, e ao chegar descobri a terrivel verdade, que tinha morrido no hospital dos alienados!

«Aterrado, saí immediatamente de Portugal, buscando nos transportes de uma vida arriscada esquecer a dôr que me feria. Como eu sorri á tormenta que parecia zombar da minha agonia! Com que desejo ardente de seguir minha mãe eu me lancei em tudo quanto havia de perigoso, e Deus sempre a proteger-me, como se me estivesse guardando para algum fim sobre a terra. E que poderei eu esperar? Que felicidade posso conceber lembrando-me que, emquanto dispendia contos e contos de réis, jazia a minha infeliz mãe nas palhas d'um hospital?

«Nada, continuava Manuel de Mendonça, passeiando pelo seu quarto do hotel da Europa. Permitta Deus, ajuntava elle, que ámanhã termine o negocio que espero e que possa levantar ferro quanto antes.»

N'este momento, baterem mansamente á porta do quarto.

—Entre, disse Manuel, volvendo os olhos para a porta.

Um individuo alto e excessivamente delgado levantou o ferrolho, e entrou no gabinete.

O homem chamava-se Luiz, por alcunha o Mascatudo.

A camaradagem que Mascatudo tivera por largos annos com os irlandezes, a bordo dos seus navios mercantes, introduziu lhe por tal forma o vicio de mascar tabaco, que o pobre Luiz, quando o não tinha, era capaz de mascar tudo quanto lhe apparecesse.

Contava-se d'elle a seguinte anecdota, que prova a quanto aquelle vicio o arrastava:

N'uma viagem a Macau, acabára-se-lhe o tabaco. Receiando a tripulação que se prolongasse a derrota, defenderam todos das maxillas do tio Luiz a preciosa planta que começava a escassear-lhes.

Certos e mais do que certos se tornaram os seus receios, a viagem durou mais onze dias do que esperavam. Não havia tabaco a bordo!

Dizendo mal á sua vida, a tripulação debalde vasculhava os mais reconditos escaninhos das algibeiras! Ninguem fumava! Um marujo apenas seguia no seu eterno ruminar. Era o tio Luiz.

—Forte velhaco! diziam uns.

—E eu que ainda o outro dia fui tão tolo que lhe dei dois charutos havanos!

—E eu, acudiu outro, perto de meia quarta de rollo. Daria agora por elle um mez da minha soldada.

—Um raio me parta se aquelle marau me apanha mais um cigarro em toda a sua vida, dizia com voz rouquenha o timoneiro.

—Arrebentado morra eu da sobre gata se aquelle arenque de fumo me leva mais uma cachimbada, acrescentava um velho marinheiro.

E gritando e vociferando, iam todos contra o tio Luiz, e elle sempre sereno, tranquillo, ruminando e salivando ao mesmo tempo.

Finalmente chegaram a Macau.

Á tarde, o commandante chamou o tio Luiz e ordenou-lhe que se vestisse afim de o acompanhar a terra.

O marujo empallideceu, mas não teve mais remedio do que cumprir as ordens do commandante.

Meia hora depois ouviu-se á ré um grande motim, e viu-se entre os apupos e os risos da tripulação o tio Luiz gravemente compromettido, com uma bota de cano no pé direito e no esquerdo uma especie de sapato de mulher completamente franjado.

O tabaco que os seus companheiros injustamente lhe attribuiam, era o cano da bota esquerda, que o tio Luiz mascára durante os onze dias de atrazo. O marujo preparava-se para entrar pelo pé esquerdo se por ventura não deitam ferro defronte da grande cidade.

Os creditos foram-lhe de novo restituidos, e desde esse dia o tio Luiz foi conhecido a bordo pela alcunha de Mascatudo.

O tio Luiz tinha quarenta e dois annos. O seu valor e honradez faziam com que todos o estimassem.

Quando Manuel de Mendonça comprou em Buenos-Ayres uma galera, Mascatudo foi-lhe o mais recommendado entre os tripulantes que lhe inculcaram. Desde esse dia até ao momento que o vemos entrar no hotel, Manuel de Mendonça nunca teve um momento de se arrepender da profunda confiança que n'elle tinha depositado. De todos os seus amigos, como chamava aos seus tripulantes, Mascatudo era o mais intimo, sem que nenhum dos outros jámais levantasse a voz para deprimir as nobres qualidades do seu companheiro de perigos.

Mascatudo havia perdido sua mãe, unico parente que lhe restava, e que elle adorava com todo o ardor do seu coração, coração grande e ingenuo, como de todo o homem que passa a vida separado do resto da humanidade, entre a colera dos elementos e a mercê do Creador!

Seria esta circumstancia que fazia com que essas duas almas se casassem? Era o! Nos espiritos irmãos pelo infortunio, vasa Deus o balsamo da sympathia para que possam juntos enlaçar os soffrimentos que os pungem.

Era bello vel-os, quando á noite, ao lado um do outro, contemplavam em religioso silencio a solidão das aguas, olhando de vez em quando para o céo, como se alli procurassem algum vestigio d'aquellas que lhes haviam dado o ser. Outras vezes, sosinhos na sua camara, Mascatudo contava a Manuel as suas viagens, acabando quasi sempre por lhe ler as cartas que sua mãe lhe escrevia, e que aquelle já ha muito sabia de cór.

Era portanto este o amigo a quem Manuel abria inteira a sua alma, e em cujo coração depositava todos os segredos da sua vida aventurosa.

—Venho participar-lhe que não poderemos sair d'aqui em menos de cincoenta dias, o que deveras sinto, porquanto é um tempo precioso o que estamos perdendo, disse Mascatudo, encostando-se desembaraçadamente a uma commoda que estava no quarto de Manuel. Se imagino que tal acontecia, juro por Santa Barbara que não era eu que o tinha aconselhado a vir a Portugal.

-Pois sinto-o deveras, respondeu Manuel de Mendonça, sobretudo n'esta occasião; e fazendo sentar Mascatudo a seu lado, contou-lhe em poucas palavras a aventura da vespera, não sem lhe mostrar os graves receios que atormentavam a sua alma.

—Nunca se arrependa de que a sua presença tenha feito a felicidade de alguem. Dizia minha mãe, que Deus haja, que tudo quanto o Senhor fazia era para melhor. Ora quem nos diz a nós que atraz d'essa borrascasita que lhe arrebentou no coração, não está perto a bonança?

—Parece-te portanto... que devo dar azas a isto, que nem eu mesmo sei como hei de chamar?

—Como se acha? perguntou Martha levantando se da cadeira... (pag. 85)

—Olhe, sr. Manuel de Mendonça, dizia minha mãe, que Deus tenha, que o homem só n'este mundo é alvo da perdição. E eu digo o mesmo. Antigamente não pensava assim, porém hoje, que me sinto cançado de trabalhar, parece-me que, apezar das muitas saudades que me ficariam do mar, viveria talvez mais feliz ao lado de minha mulher, tendo a barca sempre em ordem e o porão cheio de mantimentos para sustentar os filhitos, vendo-os alegres a todos, e trepando por este velho mastro, açoitado dos vendavaes. Ha lá nada melhor n'este mundo, como dizia minha mãe, que Deus haja, do que ter a gente umas sopas para comer ao pé de sua familia! Basta a gente lembrar-se que tem quando morrer quem lhe feche os olhos, e lá de vez em quando, quem se recorde da nossa alma, resando-lhe uma oração sobre a sepultura do corpo. Emfim, faça o sr. o que quizer, que eu cá por mim deixo correr a embarcação.

O prazer que Manuel de Mendonça experimentava ao ouvir falar do objecto amado, era mais uma prova do seu amor.

Foi então que elle reconheceu de verdade o seu estado.

—Esperemos, disse elle finalmente de si para comsigo, e vestindo-se saíu com Mascatudo, dirigindo-se a bordo.


XII

No dia immediato aos acontecimentos que presenceamos no hotel de Bragança, a saude de Jeronymo melhorou consideravelmente. O medico que pela manhã o fôra visitar declarou as feridas de pouca importancia, aconselhando, a despeito de tudo, que seria muito mais prudente não removerem d'alli o ferido, attendendo ao estado anormal em que Lisboa se encontrava.

Tanto o mestre de obras como a sua familia não se cançavam de agradecer á Providencia a felicidade que tinham achado no meio da sua desventura.

Não houve delicadeza que lhe não fosse dispensada por aquella santa familia. A tal ponto foi levada a dedicação de D. Maria Egypciaca, que por tres vezes se levantou da cama afim de se informar do doente.

Foram taes as promessas feitas por Tristão ao pobre Jeronymo, que este quasi que dava graças a Deus de ter sido atropellado pelos cavallos do visconde.

Phantasiando trezentos planos de vida, o operario julgou ver realizado o seu sonho de vinte annos: um pequeno casal nas proximidades de Lisboa, onde tivesse uma ou duas vaccas, e um garrano que de vez em quando o trouxesse á cidade.

Via Balbina com a quarta rasa de milho dirigindo-se á estrebaria para arraçoar a cavalgadura, Martha seguindo-a a poucos passos, em busca da creação, e elle, no centro da horta, ao lado dos seus trabalhadores, ora regando o milho, ora arrancando-lhe as bandeiras, e enfeixando as para as levar á vacca malhada, a sua favorita, essa a quem devia pôr o nome de Estrella, por ser o nome de uma vacca torina que seu pae lhe dera no dia em que Jeronymo fazia quinze annos.

Embevecido no seu phantasioso sonho, com as palpebras semi-fechadas, extendia de vez em quando a mão para sua filha, a qual, beijando lh'a n'um transporte de amor filial, fazia ao mesmo tempo votos ao Todo Poderoso para que lhe melhorasse quanto antes o seu querido pae. Balbina, assentada no canapé, olhava ora para Jeronymo, ora para sua filha. Esta, sorrindo meigamente, apontava para o leito de seu pae, como se tentasse mostrar-lhe o socego em que elle repousava.

De repente o ferido abriu os olhos, e, como se despertasse de um sonho, apertou brandamente as mãos da filha, fitando-a com toda a ternura do amor paternal.

—Como se acha? perguntou Martha levantando-se da cadeira e debruçando-se-lhe sobre o leito.

Balbina approximou se.

—Tenho menos dôres, balbuciou o enfermo, e espero em Deus que não tardará muito que eu te possa extender estes braços que a muito custo levanto. Mas não me dirão quem é esta santa familia que com tanto amor nos tem tractado? acrescentou elle, dirigindo-se a sua esposa.

—Ignoro, respondeu Balbina.

—Foi alguem mandado por Deus para nos valer com a sua protecção, continuou elle, como se ainda o acompanhasse aquelle sonho.

—Pois olhe, meu pae, acudiu Martha, apezar de tudo, preferia estar em nossa casa a vêl-o aqui entre estas cortinas.

—Se d'isto resultar a tua felicidade, e a tua, ajuntou elle voltando-se para Balbina, terei de agradecer a Deus estas dôres que me atormentam.

—Pois eu, Jeronymo, ainda que tudo quanto Deus faz é para melhor, desejava bem vêr-te fóra d'este quarto, disse a pobre Balbina olhando ao mesmo tempo para a porta.

Esta abriu-se e entrou Tristão de Almeida.

Depois de as cumprimentar approximou se do leito de Jeronymo.

—Como se sente? perguntou Tristão pegando brandamente na mão do operario.

—Melhor; muito melhor.

—Quanto folgo! disse Tristão, puchando uma cadeira e abeirando-se do leito. É forçoso que se restabeleça quanto antes para tomar conta da sua obra: um hospital para as pessoas pobres atacadas da febre.

—Pelo que vejo, disse Martha, vossa excellencia não se occupa senão da sorte dos desgraçados.

—É essa a minha unica ambição, respondeu o magnata fitando o rosto ingenuo da filha do operario. Ámanhã por estas horas já devemos saber o logar designado para o hospital, e, como desde hontem o considero meu empregado, accrescentou dirigindo-se a Jeronymo, não pense que vossemecê e sua familia se estão aqui tornando pezados. Se alguma cousa tem que fazer em sua casa, sr.ª Balbina, disse Tristão voltando se para a mulher do operario, eu lhe mando chamar um trem para que a demora não seja muita.

—Não tenho outro remedio senão ir a casa, respondeu Balbina, mesmo por causa da tia Marianna, ajuntou ella voltando-se para Martha.

—Visto isso, vou dar ordem a um criado para que lhe chame um trem, e sem attender a Balbina, que pretendia dissuadil-o da sua determinação, o protector da familia de Jeronymo desceu ao primeiro andar.

—Ainda não vi melhor coração, murmurou Jeronymo voltando-se para sua filha.

—Tudo é muito verdade, meu pae, mas torno a dizer-lhe, preferia que nada d'isto tivesse succedido.

Meia hora depois, com grandes esforços de Tristão de Almeida, Balbina dirigia-se n'um trem de bandeirinha para sua casa.


XIII

Emquanto se estão passando estas veridicas scenas, entremos em casa do visconde de Coruche.

—Vê como pões esse pó de arroz, imbecil! Olha que me estás arranhando as costas! dizia o visconde voltando-se para o seu groom.

—Não é da minha mão, sr. visconde, é uma borbulha que v. ex.ª aqui tem.

—Uma borbulha! exclamou o visconde, eu nunca tive a mais pequena excrescencia na pelle. Dá-me d'alli aquelle espelho.

Sem proferir uma palavra, o groom dirigiu-se ao toucador, e tirando de dentro um espelho em fórma de ellipse, entregou-o ao visconde.

—Vejamos, disse este, voltando as costas para um toucador. Com effeito tinhas razão.

—D'isso tenho eu tido aos centos e não faço caso algum, ajuntou o criado.

—Queres tu comparar a tua á minha pelle?

—Eu tambem não digo a vossa excellencia que a minha pelle seja como a sua, digo só que d'isso tenho eu aos centos. Olhe, sr. visconde, se vossa excellencia quer, verá como lhe curo isso n'um momento. Tome o sr. visconde uma... que digo eu? meia pilula das Monicas, ou uma receita que tem as irmãs do padre Bernardo que moram em Jesus, e verá como fica bom no mesmo instante. Isto provavelmente são os humores que andam levantados.

—Será o que tu quizeres, respondeu o visconde. Dá-me d'alli uma camisa.

—Que camisa quer?

—Das mais finas, e põe-lhe os botões de camafeu.

—Ou é serviço ou grande pantomimice, resmungou o criado em voz baixa, abrindo ao mesmo tempo a gaveta do guarda roupa e tirando de dentro uma finissima camisa de cambraia. Agora por isso, ajuntou elle approximando-se do visconde, veiu cá hontem e já voltou hoje um individuo que trouxe para vossa excellencia a conta da camisaria.

—Dize-lhe que volte no fim do mez.

—Recordo a vossa excellencia que estamos hoje no dia 30, e que ámanhã é o ultimo de outubro.

—Pois sim; mas eu quando disse no fim do mez, quiz dizer que era para o mez que vem.

—Cumprirei as ordens de vossa excellencia. Que fato quer? perguntou elle, dirigindo-se para uma commoda á Luiz XV, sobre a qual estava um cofre de tartaruga.

—Um fraque e collete preto, com quaesquer calças de côr.

—Agora por isso, sr. visconde, disse o criado pondo nos punhos da camisa dois magnificos camafeus de Italia, veiu cá hontem um individuo com uma conta do alfaiate, e como vossa excellencia não estivesse em casa, disse-lhe que viesse ámanhã, em sendo duas horas.

—Fizeste muito mal, respondeu o visconde mergulhando uma pequena escova de dentes n'um liquido pardacento, e levando-a repetidas vezes ao bigode. Já te disse que nunca se mandam receber contas senão no fim dos mezes.

—Pois foi exactamente por esse motivo que o mandei cá vir ámanhã, que é o ultimo de outubro.

—Já te disse ha pouco que o meu fim do mez é sempre o de novembro, respondeu o visconde encolerizado, passando a escova por sobre o labio inferior, e deixando o côr de chocolate.

—O mesmo disse eu ao sr. Alves, quando a semana passada o procurou por causa d'aquella letra de 600$000 réis que se vence no primeiro de novembro.

—E elle insiste em não querer a reforma?

—Creio que insiste. O alquilé a quem vossa excellencia comprou as eguas baias, foi dizer-lhe que o sr. visconde promettia pagar-lhe tudo no primeiro de novembro.

—Veremos o que se ha de fazer, disse o visconde, esfregando com uma essencia a nodoa côr de castanha que lhe descompunha a phisionomia. Dá-me d'alli umas ceroulas de seda. É preciso que vás logo ao Baron que me mande uma duzia de camisolas.

—Cumprirei com as ordens de vossa excellencia, respondeu o criado, abrindo a gaveta d'uma commoda, e tirando um par de ceroulas de malha de seda.

—Se alguem me procurar ás tres horas da tarde, dize lhe que não volte antes do primeiro de novembro, caso não queira perder o tempo, disse o visconde, atirando para longe com umas lindas chinellas de velludo bordadas a oiro, e vestindo ao mesmo tempo as ceroulas.

—Vossa excellencia sae a cavallo ou de trem?

—O dia está tão bonito que me parece melhor saír a cavallo. Sim, continuou elle, depois de reflectir alguns segundos, dize ao Marçal que me apparelhe a egua lazã. É necessario montal-a; ha perto de oito dias que não sáe.

Depois de collocar sobre uma ottomana o fato do visconde, o criado abriu a porta do toucador, e saíndo foi transmittir as ordens que seu patrão lhe dera.

—Sim senhores! a coisa não vae feia, dizia o visconde de si para comsigo. Se não levanto o dinheiro do deposito estou arruinado. O credito escassea-me, os credores, longe de me sustentarem a posição que seria o unico recurso para se embolsarem do que lhes devo, começam a negar-se e até me atormentam. Fazem bem, o futuro lhes dará o pago e tambem Deus, que de vez em quando ainda se recorda de mim.

«Não encontro meio algum de salvação! Se apeio os trens, se revelo, ainda que por sombras, o estado da minha casa, não tarda a ruina, seguindo-se a poucos passos a miseria, com toda a sua hediondez que me assusta.

«Devo a todos, e aos que me devem não me atrevo a pedir-lhes contas; não, seria uma loucura para a situação em que me encontro. Exigindo-lhes essas miseraveis quantias, seria mostrar-lhes que as necessito, e eu não tenho mais remedio senão representar que estou rico. Quanto custa esta falsa posição! Á custa de quantas insomnias se adquire um nome que não dá honra no presente nem tão pouco no futuro! Que luctas inglorias! Quem me dera ter nascido filho de um lavrador, e gosar em branda paz os encantos d'uma vida tranquilla. E os homens julgam me feliz! quantos dariam metade dos seus haveres para terem o meu nome! Pobres nescios! Vêem os meus trens, os meus cavallos, os meus vestuarios, e mal pensam as horas que todo esse fausto me rouba ao somno.

«Vi a meus pés as primeiras mulheres de Lisboa, por mais de uma vez, com as faces incendiadas pela colera do ciume, vi os maridos a contemplarem-me, e eu mudo, indifferente, com o sorriso nos labios, desprezando-as a ellas, e escarnecendo d'elles.

«Quanto dera agora por ter amado uma unica vez, e ter consagrado a esse objecto do meu amor toda a exuberancia da minha vida, todo o ardor das minhas paixões.

«Rico, saudavel, com uma intelligencia clara e algum tanto cultivada, porque não creei a melhor de todas as instituições: a familia?

«Que futuro me espera? Poderei eu sustentar por muitos annos esta vida, sem dinheiro, alicerce indispensavel d'este edificio? Se ámanhã, completamente desanimados os meus credores, comprehenderem a nenhuma vantagem de me conservarem n'esta situação, que poderei fazer? Sair de Lisboa? e para onde?

«Que sei eu fazer? Montar a cavallo ou guiar bem um tilbury. É isto o sufficiente? E demais, affeito a este luxo que me rodeia, teria eu bastante valor para lançar mão de qualquer modo de vida, que não estivesse em harmonia com o que hoje tenho?

«Se eu podesse encontrar um homem que me emprestasse dez a doze contos de réis, talvez ainda conseguisse levantar-me. Por isso me liguei com o commendador e com o banqueiro, a fim de explorarmos o Tristão, mas ou eu me engano muito ou d'aquella moita não sae coelho.

«Aquillo é homem para duzentas ou trezentas libras, que nada me podem remedeiar. Se eu me convencesse do contrario, ajuntava o visconde abotoando o collete, cujos magnificos botões de coral contrastavam com a pallidez morbida do seu aristocratico semblante, se aquelle Tristão de Almeida fosse homem para emprestar uma duzia de contos de réis, separava-me totalmente dos meus companheiros e recorria á sua bolsa. E quem sabe? Quem me diz que a minha salvação se aninha na sua algibeira!

«Quem sabe, continuava elle, mirando-se ao espelho, se as suas idéas ácerca do hospital tem no amago o conseguir um titulo. Se assim fosse estava salvo. Tenho alguns amigos no ministerio, homens que até já dispozeram da minha bolsa, póde ser que elles me sirvam para isto. Se fosse dinheiro tinha eu a certeza que m'o negariam, porém um titulo...

«Experimentemos, e se são esses os seus desejos, ficarei salvo. E se não forem? Embora, convencel o hei de que um homem na sua posição necessita um titulo, e que para o alcançar basta ter dinheiro».

Quando no meio d'estas judiciosas reflexões se preparava o visconde de Coruche para, afastando-se de Lopes de Miranda e do banqueiro, se lançar aos fundos de Tristão de Almeida, entrou de novo o seu groom annunciando lhe o commendador.

—Que teremos? disse o visconde comsigo mesmo, pondo ao mesmo tempo as esporas.

—Disse lhe que vossa excellencia se estava vestindo, porém, foi tal a sua insistencia que não tive remedio senão fazel-o entrar para a sala.

—Dize-lhe que vou immediatamente. Espera! accrescentou elle como mudando de pensamento. Entre rapazes não ha cerimonias. Que venha para aqui mesmo.

O groom retirou-se, e acompanhou d'alli a minutos o commendador.

—Deve estranhar o tel o procurado tão cedo, exclamou o commendador, dando-se ares de janota, palavra que n'esse tempo principiava a estar em voga.

—Por caso nenhum! Estou sempre ás suas ordens.

—Podemos conversar á vontade?

—Pois não, respondeu o visconde, visivelmente importunado pela presença do commendador, que viera interrompel-o nas suas profundas meditações.

Ou por esquecimento, ou por pouca importancia concedida áquella entrevista, o visconde não havia mandado retirar o groom.

Lopes de Miranda não tardou em fazer-lh'o notar.

Córando ligeiramente, o visconde comprehendeu aquelle reparo e mandando retirar o criado, assentou-se n'um sophá, offerecendo um logar ao commendador.

—Preciso fazer lhe uma pergunta. Que idéa fórma de Tristão de Almeida?

—A melhor que se póde formar; que é uma excellente alma, e desambicioso de todas as grandezas do mundo.

—Fala serio?

—Quanto se póde falar.

—Julga portanto?...

—O quê?

—Que o seu projecto a respeito do hospital seja movido, pura e simplesmente, pela idéa de pôr em pratica uma obra de caridade?

—Assim o creio.

—Outro tanto não penso eu, meu nobre amigo. Ha em tudo aquillo um arrière pensée, ajuntou Lopes de Miranda, querendo mostrar ao visconde os seus conhecimentos linguisticos. O homem deseja um titulo.

Feliz em que o seu pensamento se tivesse encontrado com o do commendador, o visconde, como homem experimentado, calculou que o unico partido de que podia lançar mão, seria o dissuadil-o completamente das suas suspeitas.

—Crê portanto o commendador que essa caridade que antes de hontem viu dispensar ao mestre de obras, era movida apenas por um calculo? Quanto se illude! Seria necessario ter avaliado todas as circumstancias que se deram, para formar o seu juizo. O mesmo suppunha eu, mas logo vi o contrario. Ha factos que se não podem fingir, sr. Lopes de Miranda. Seria necessario que Tristão fosse um grande actor, para tão desassombradamente poder jogar com todas as paixões, como fez antes de hontem quando atropellámos esse infeliz. Seria tambem um calculo o interesse com que sua esposa se approximou do leito do moribundo, e calculo foi tambem de suas filhas, quando com as lagrimas nos olhos pediram ao medico informações do doente? Não me considero de uma credulidade parva, sr. commendador, mas a Cezar o que é de Cezar. Se Tristão, tem ou não desejo de entrar na sociedade precedido por um titulo, não me atrevo a dizel-o, o que lhe affianço, é que, se realmente tem esse desejo, não é elle o movel da sua caridade. Homens tem havido muito caridosos que desejam possuir um titulo, e Tristão póde muito bem ser um d'esses individuos.

—Pois eu é que não sou da sua opinião, e venho propôr-lhe o seguinte: Como sabe, tenho tido ha dois annos a esta parte consideraveis perdas em resultado da escassez do vinho, e o sr. visconde, creio que tambem n'esta occasião não abunda em dinheiro. Lembrava me por isso que propozessemos a Tristão, mediante um emprestimo de doze a quatorze contos de réis, o obter-lhe um titulo de visconde, ou mesmo de conde. Que lhe parece?

—Em primeiro logar, sr. commendador, nem vossa excellencia nem pessoa alguma está auctorizada a saber se eu abundo ou não em dinheiro, e em segundo devo dizer-lhe que estranho sobremaneira que se atreva a propôr-me similhante indignidade! Creio que nunca, nem ao sr., nem a outra pessoa extendi a minha mão para pedir dinheiro, por maior ou menor que fosse a quantia; estou portanto habilitado a pedir-lhe o favor de mudar de assumpto.

Comprehendendo a loucura que tinha practicado, o commendador mudou immediatamente de conversação.

Pretextando em seguida varios negocios que tinha de tractar, Lopes de Miranda despediu-se do visconde, seguindo d'alli para casa de Vaz Mendes, esperançado de encontrar melhor acolhimento no banqueiro.

Dez minutos depois, perfumado, burnido e penteado, o visconde de Coruche n'um irreprehensivel pied fé fazia em branda flexão voltar o pescoço á Andorinha, a egua lazã que mandara apparelhar.

Saindo do pateo em duas upas obrigadas, a Andorinha levou o visconde, que formulando o seu plano, se dirigia ao hotel Bragança.