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O Conde de S. Luiz

Chapter 18: XV
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About This Book

The narrative follows D. Marianna de Mendonça, who, after accepting an arranged marriage to Alvaro de Mendonça, celebrates the birth of their son Manuel before becoming widowed. The widow devotes herself to raising and educating Manuel, whose precocious intelligence and robust health provoke admiration and anxiety among relatives, especially a cautious cousin who warns against overtaxing him. The story traces domestic life, parental devotion, social expectations, and recurring fears for the child's future, depicting family relationships, episodes of illness and medical interventions, and tensions between protection and schooling across many chapters.

XIV

Quando Manuel de Mendonça e Mascatudo sairam do hotel d'Europa, encaminharam-se para bordo, como o leitor deve estar lembrado.

A galera que fôra em Buenos-Ayres comprada por Manuel de Mendonça, era uma formosa barca de duzentas a trezentas toneladas.

Era muito de vêr-se o aceio e a disciplina que reinavam a bordo da galera Esperança, habilmente commandada por Manuel de Mendonça, cujos conhecimentos nauticos fariam inveja ao mais experimentado maritimo.

Com sobejos motivos chamava elle aos seus tripulantes os seus amigos e companheiros! A amizade e a confiança com que os tractava jámais concorreu para que lhe dessem o minimo desgosto de indisciplina.

Durante a folga todos o tractavam como se elle fôra um amigo, no serviço todos o respeitavam como o seu commandante. Quando por qualquer circumstancia se agitava a mais pequena questão entre os marinheiros, e elle apparecia perguntando-lhes a causa, era bello de vêr como esses homens endurecidos pelas luctas dos elementos, se enterneciam ao ouvir as palavras do seu capitão chamando-os á ordem, e expondo-lhes em phrases insinuantes as terriveis consequencias da má camaradagem.

Então, aquelles que momentos antes se haviam levantado exaltados pela colera, graças á eloquencia de Manuel, acabavam sempre por se abraçarem.

A galera fundeada a pouca distancia da Rocha do conde de Obidos, parecia na sua eterna inquietação aguardar o que era dono e commandante.

Quando um velho marinheiro divisou o escaler do capitão, e este sentado á prôa, o maritimo debruçou-se do navio como criada velha que espera á janella a criança que volve ao lar.

Então começaram a apparecer os outros marinheiros, esperando anciosamente que o escaler abordasse á embarcação.

E a galera agitando-se aos movimentos da corrente, parecia tambem esperal-o inquieta.

Finalmente, o escaler atracou, e Manuel subindo por uma pequena escada de corda entrou a bordo seguido por Mascatudo.

Quem de perto observasse o tractamento que elle dava aos marinheiros, e ignorasse o logar que occupava, tel-o-ia tomado por um simples navegante.

Depois de falar a todos aquelles homens, desceu á camara, e alli, em companhia de Mascatudo, continuou a conversação que uma hora antes havia começado no hotel Europe.

—Estamos aqui mais sós para podermos falar, dizia elle ao marinheiro. Ninguem poderá ouvir as nossas palavras a não ser o mar, e Deus que nos escuta.

—O mesmo me acontece, respondia-lhe Mascatudo. Não sei o que sinto quando passo uma noite encarcerado entre as quatro paredes de uma hospedaria! Acordar pela noite velha sem ouvir o rumor da agua batendo de encontro á quilha da embarcação, e sem ver o lume de alguma estrella reflectindo-se de vez em quando como se estivesse a acompanhar o meu dormir, parece que é acordar n'um tumulo.

—Quero pedir-te um favor, disse Manuel de Mendonça, depois de alguns instantes de profunda meditação. Como já t'o disse, sei apenas que ficaram no hotel de Bragança. Desejava saber quanto se tem passado, mas falta-me o valor para ir eu mesmo proceder a indagações. Terias duvida em ir procurar essa familia da minha parte?

—Eu! exclamou o marinheiro. E porque motivo? Foi alguma acção má a que o sr. praticou? Ora essa! É para já. Não tem mais do que dizer-me o sitio onde tenho de me dirigir.

—Aonde te disse, ao hotel de Bragança. Se ainda lá estiverem, pede ao guarda portão que te conduza ao quarto. Pergunta por sua mulher ou por Martha, e dize a qualquer das duas que vaes da minha parte saber da saude de Jeronymo.

—É só isso o que deseja saber? Veja lá; lembre-se bem, ajuntou Mascatudo, sorrindo-se para o seu commandante.

—É só isto.

—E o sr. fica á minha espera, aonde?

—A bordo.

—Volto portanto aqui?

—Já se vê.

—Quer que vá já?

—Quero.

—Era melhor ter-me dito isso lá em terra, ponderou judiciosamente o marinheiro.

—Quiz antes pedir-te isso sobre as aguas do mar.

—Pois então, sr. Manuel de Mendonça, como bom maritimo que sou, irei sondar esses mares desconhecidos, e tenho fé em Deus, que em poucos dias poderemos navegar de vento em pôpa, sem que o mais leve indicio de temporal nos faça perder o rumo. O que eu não quero é vel-o assim entristecido, accrescentou o fiel marinheiro, fixando a vista na melancolica physionomia do seu commandante.

—Pensas talvez que me sinto prezo a essa mulher? perguntou Manuel com aquella pueril ingenuidade de que se revestem os espiritos sujeitos ás mysteriosas influencias do amor!

—Não sei, respondeu Mascatudo, mas apostava que sim. Ás vezes, tudo está no começar. O maior temporal principia a levantar-se por uma brisa serena.

—Espero em Deus que essa aragem que tu adivinhas, nunca seja nuncia de nenhuma tormenta.

—Que Santa Barbara e a Senhora da Bonança nos protejam, commandante, disse Mascatudo, levantando-se e preparando-se para cumprir as ordens do seu capitão.

—Amen, respondeu Manuel, reclinando a fronte na mão direita.

Mascatudo, sem esperar mais observações, saiu da camara, e, subindo ao convez mandou preparar o escaler. Manuel olhava-o em silencio.

—Será este o anjo que Deus me mandou á terra, para me acompanhar nas longas noites da minha solidão? pensava elle espraiando os seus olhares entristecidos na direcção do soberbo edificio do hotel Bragança.


XV

Desembarcando no Terreiro do Paço, Mascatudo tomou o rumo do hotel. Desde que saira de bordo, o dedicado amigo em mais alguma coisa havia pensado senão em Martha.

O seu caracter concentrado e ao mesmo tempo sensivel, levava o a acreditar na impossibilidade de ventura na terra, e, muito menos sobre as aguas do mar, sem se possuir um coração fiel e dedicado, qual a sua imaginação o phantasiava.

A mulher, essa divina creação que Deus lançou ao mundo para inseparavel companheira do homem, que deante de nossos sorrisos levanta o rosto brilhante de felicidade, e que desmaia a fronte pallida e inquieta, ao enxugar-nos as lagrimas de desventura, concebia-a Mascatudo no seu coração selvatico com toda a força de um vigoroso sentimento.

É que a esse espirito, agitado pelas luctas infrenes dos elementos, descêra um dia o anjo do amor, e pousando-lhe as brancas azas na fronte crestada pelos soes, imprimira-lhe o osculo indelevel do soffrimento.

Amára uma vez na vida! Amára com toda a força da sua alma, alma joven e inexperiente, para quem o mundo era um jardim florido, e cada pomo um goso, e cada goso uma esperança, e cada esperança uma existencia de immorredouras felicidades!

É que a sós entre o mar e o céu, o grito raivoso das paixões humanas, ferindo-lhe os ouvidos, jámais lhe havia interrompido os extasis, quando assentado ao leme da embarcação contemplava os astros que se reflectiam nas aguas prateadas do oceano, vagas como o seu pensamento, indecifraveis como as suas aspirações!

Conhecia apenas a ira do mar, mas a colera do homem envenenado pela inveja ou pela traição, jámais a havia sonhado o seu instincto.

Por isso vira na mulher o anjo, na sua convivencia a felicidade unica e possivel.

Amou!

E quão grande teria sido o affecto n'aquella grande alma?!

Possuia algum dinheiro das suas economias, julgou-se em circumstancias de casar.

Dois mezes depois, Mascatudo realizava no casamento todas as suas aspirações. Curta, porém, foi a sua ventura. A brisa da morte, agitando-se mysteriosamente sobre o tecto do seu ninho, devastou-lhe ao cabo de um anno flôres e fructo!

O triste voltou á vida do mar; e quando por noites caladas o seu barco sulcava as aguas do oceano, via-se ás vezes o tio Luiz encostado á amurada da embarcação, contemplando o firmamento, como que perguntando a cada nuvem em que paragem se occultava aquella metade da sua alma.

Desde então, Mascatudo viveu apenas para duas sepulturas: a da esposa e a da mãe!

—Hei de saber tudo, dizia elle, ao chegar á porta do hotel. Se fôr como a pintam, serei o primeiro a aconselhal-o a que não perca esta occasião.

Cumprindo á risca as instrucções que recebera, Mascatudo foi conduzido pelo guarda portão ao quarto de Jeronymo.

Balbina já estava de volta de sua casa, aonde tinha ido mais com o intuito de tranquillisar a pobre Marianna do que para tractar dos arranjos domesticos.

—Venho aqui da parte do meu commandante, para saber como está o sr. Jeronymo, disse Mascatudo, olhando desassombradamente para o operario e para a mulher e filha.

O enfermo, que nada comprehendêra, ficou como abysmado olhando para Balbina.

—Creio que me não expliquei bem, ajuntou o marinheiro; venho da parte do individuo que avisou a sua familia do sitio onde vossemecê estava.

—Ah! já sei; vem da parte d'esse sujeito a quem somos tão obrigados, exclamou Martha, fazendo-se vermelha como o estofo do sophá onde estava assentada.

—Até que perceberam, continuou Mascatudo, approximando-se do leito de Jeronymo. Foi esse mesmo o que me mandou saber da sua saude.

—Quanto lhe estamos agradecidos, interrompeu Balbina, dirigindo-se ao marinheiro. Se não tivesse sido aquelle excellente senhor, talvez que ainda a estas horas estivessemos sem saber onde elle parava. Diga-lhe que graças a Deus, o Jeronymo está muito melhor, e que tanto elle como eu e minha filha desejamos saber onde o podemos encontrar para lhe darmos os nossos agradecimentos.

—O sr. Manuel, respondeu o marinheiro, póde encontrar-se a bordo da sua galera, e quando alli não estiver, accrescentou, fixando ardentemente os olhos em Martha, que parecia escutal-o com interesse, está no hotel d'Europe, na rua Nova do Carmo. Mas lá por isso não seja a duvida; deixem estar, uma vez que elle se interessa tanto pelos seus, eu farei com que ámanhã ou depois, se por acaso ainda estiverem n'esta estalagem, elle os venha ver a vossemecês.

—Quanto estimaria conhecel-o, interrompeu Jeronymo voltando-se para o maritimo.

Martha empallideceu ligeiramente.

—N'esse caso eu farei a diligencia de o trazer aqui, respondeu Mascatudo, satisfeito por comprehender o que se passava no coração de Martha.

Despedindo se de todos, o marinheiro saiu do hotel.

—É um anjo, ou eu sou um grande asno, dizia elle comsigo mesmo, emquanto se dirigia para bordo.


XVI

Deixemos Mascatudo participar a Manuel de Mendonça os resultados da sua entrevista, e encaminhemo-nos a um pequeno gabinete do hotel onde Tristão costuma receber as visitas de mais confiança.

O visconde, como o leitor não ignora, tinha resolvido tirar o maior partido que podesse do seu novo amigo; com este fim se havia dirigido para o hotel.

Tristão acabava de chegar de casa de um banqueiro, a quem fôra consultar ácerca de uma transferencia de fundos para o Banco de Portugal na importancia de 650:000$000, para lhe não succeder o mesmo que lhe acontecêra com quantia superior a essa, que tinha no banco de Havana, d'onde havia dois annos não recebia juro algum.

Vê-se portanto quaes eram as riquezas d'aquelle homem!

Ao ouvir estas palavras, ainda mais seguro ficou o visconde no bom exito da sua tentativa, e, ampliando apenas a cifra resolveu-se a preparar quanto antes o terreno que tinha a explorar.

—Com que então, meu amigo, disse-lhe o visconde, já sei que os seus protegidos dormem em leito de rosas o doce somno da esperança, acalentados pelas azas brancas do anjo dos tristes.

Por esta exuberancia de imagens, poderá o leitor formar a sua idéa psychologica ácerca do caracter do visconde de Coruche.

—Assim o creio, respondeu Tristão, offerecendo-lhe um magnifico charuto havano.

—E quando principiam os nossos trabalhos do hospital?

—Pela minha parte hoje mesmo, se vossa excellencia quizer; porém, vejo que tem tantos negocios a tractar...

—Por Deus, meu caro amigo! Para uma coisa d'essas deixaria tudo de parte. Hoje mesmo, se lhe apraz, iremos escolher o local.

—Isso é que era ouro sobre azul! Não calcula a anciedade de minha esposa em vêr realizados os seus desejos. Quando se propôe qualquer coisa, não ha quem a dissuada, nem eu o intentaria n'este caso.

—O mesmo sou eu. Veremos quem se lança denodadamente na arena da caridade. E como vossa excellencia vae lucrar n'esta obra! Como se conceituará na opinião publica? De que serve a riqueza, se não fôr applicada ao bem? Quantas ha em Lisboa que para nada servem, a não ser para satisfazer os olhares cubiçosos dos avarentos que as possuem! passam miseravelmente emquanto vivos, e, quando morrem teem por unico elogio dos seus herdeiros, o dizerem que sempre foi um homem muito amigo de olhar pela sua casa. É que esses entes, na minha opinião, esquecidos de Deus, atravessam a vida sem conhecerem a verdadeira felicidade que sente aquelle que, extendendo a mão á pobreza, leva o consolo ao ninho do desamparado. Muitos d'esses miseraveis, renegando o povo d'onde sairam, querem chegar-se á aristocracia, transpôr os humbraes do chefe do Estado, e nem ao menos se lembram de seguir o exemplo, abrindo como elle a sua bolsa aos desvalidos, e os seus pulmões á atmosphera corrompida pelos miasmas da epidemia. E ainda a semana passada o joven monarcha desceu ao leito de um moribundo e passou-lhe a regia mão pelo peito, como para sondar se o coração ainda batia. Já que pessoa alguma o segue no seu heroismo; já que a maior parte d'esses satrapas o abandonam, seja vossa excellencia o heroe que venha a empallidecer-lhes o rosto de vergonha, tomando o exemplo d'aquelle santo rei.

Havia tanta verdade nas palavras do visconde; era tão singela a sua dicção, tão arrobadas de sentimento as phrases que acabava de proferir, que Tristão, apezar do seu profundo conhecimento do coração humano, hesitou por alguns instantes, sem poder avaliar se essas palavras seriam calculadas, ou se eram apenas dictadas por um coração votado á caridade.

Tristão era homem de arrojado animo. Por mais de uma vez sorrira para a morte que se lhe approximava sem que os lábios houvessem mudado de côr ou o seu coração pulsado com maior violencia.

Affeito a uma existencia aventurosa, ainda o fascinavam os perigos. A despeito de se considerar bastante avançado em annos, fiava se na sua robustissima compleição, e, sopesando as forças, distinguiu rapidamente o que ainda podia fazer, graças ao seu arrojo, intelligencia e capitaes.

Então desenhou-se lhe um mundo inteiramente novo! Julgou-se cercado pela aureola do prestigio, e ouviu pronunciar o seu nome com todas as pompas de uma gloria merecida. Viu-se a edificar um hospital, e mais tarde, elle mesmo, sua mulher e suas proprias filhas, descendo como anjos á cabeceira dos enfermos. Viu os olhos do monarcha iriados de angelica expressão, volvendo-se agradecidos para elle e para sua familia. Fascinou-o a gloria de um renome, e, elevando se nas azas da caridade, creu subir ao ultimo céu das ledices sociaes!

—Tem razão e muita razão, sr. visconde. Vamos hoje mesmo dar um grande impulso á nossa idéa. Jeronymo, a quem tenciono entregar a direcção das obras, segundo me consta, tem tanto de intelligente quanto de honrado. O pobre homem por estes dois ou tres dias não poderá sair de casa; vamos nós sem mais delongas escolher o sitio. Em que bairro lhe parece?

—No de Santos. Por exemplo lá para as bandas da Pampulha.

—Visto isso, vou mandar pôr o trem, e entretanto subo ao quarto de Jeronymo para lhe communicar as nossas intenções. E sem mais demora saiu do gabinete.

—Esplendido, exclamou o visconde, contemplando ao mesmo tempo um album de retratos que estava sobre uma banca de jogo. O negocio corre ás mil maravilhas. Em todo o caso, é necessario espaçal-o por mais alguns dias, e em vez de dez ou doze contos, serão vinte ou trinta, hypothecando-lhe... hypothecando-lhe o quê? umas propriedades que eu desejava possuir no Algarve. O homem está sequioso de gloria. Cega-o a vaidade. É um zote que eu domino com a força da minha eloquencia. Bastam-me duas palavras para o conduzir aonde me aprouver.

N'este comenos entrou o magnate, dizendo lhe que já estava o trem á porta.

Desceram e entraram na carruagem. Tomando pela rua do Arsenal, dirigiram-se ao Corpo Santo. Proximo á egreja grande multidão contemplava um pobre velho, que, estorcendo-se em terriveis convulsões, denunciava ter sido atacado pela febre. Mandaram parar o trem, e Tristão, apeando-se primeiro, dirigiu-se para o grupo.

O visconde seguia o sem dar uma palavra.

—É um infeliz que foi atacado pela febre, disse um gallego a quem Tristão se havia dirigido.

—E tambem pela fome, interrompeu uma vendedeira de hortaliça.

—E ainda não appareceu ninguem que lhe fosse buscar soccorros? perguntou o visconde.

—Saberá vossa excellencia que ainda não senhora, respondeu a vendedeira.

—Pois se vossemecê se interessa por esse homem, peço-lhe que se encarregue de lhe chamar os soccorros, accudiu Tristão, approximando-se mais da mulher e entregando-lhe quatro libras. Se elle tem familia, diga-lhe que me procurem logo no hotel Bragança, e vá vossemecê com ella, para lhe dar tambem alguma coisa.

O oiro assombrou a vendedeira, que esteve por alguns segundos sem poder soltar palavra.

—É uma caridade, meu senhor, porque está cheiosinho de familia, disse finalmente a mulher com voz tremula e commovida. Mas agora outra coisa, meu senhor, ajuntou ella, por quem devo procurar.

—Pelo excellentissimo sr. Tristão de Almeida disse vivamente o visconde.

Mettendo-se outra vez na carruagem, abandonaram aquelle grupo, pasmado por tanta generosidade, e partiram pela rua da Boa Vista.

—A sorte favorece-o, proporcionando-lhe todos os ensejos para pôr em pratica a sua grande obra, dizia-lhe o visconde, fitando-o com um olhar de lynce.

—Assim o creio, respondia-lhe Tristão, olhando para todas as ruas por onde passava, com a curiosidade que todos experimentam, ao contemplarem pela primeira vez os logares que lhe são desconhecidos.

—Agora me recordo, disse o visconde, parece-me que está uma casa para alugar na rua de S. Francisco de Paula. Se lhe parece vamos vel-a.

—Deus permitta que esteja nas condições que precisamos.

Finalmente chegaram á rua designada pelo visconde.

A casa, segundo elle havia pensado, era magnifica para aquelle fim. O dono morava longe, porém a boa vontade tanto de um como de outro principiava a não admittir difficuldades, e seguiram immediatamente para casa do senhorio.

No dia seguinte ás oito horas da manhã, na rua de S. Francisco de Paula, começavam todos os preparativos inherentes á fundação do hospital.

O anjo da caridade, invocado por Tristão de Almeida, elevava as suas azas brancas sobre os telhados d'aquelle edificio!


XVII

—Acompanhas-me, Luiz? Tenho tanto desejo de ir visitar aquella gente... e comtudo não me sinto com valor.

—Ora essa, meu capitão, da melhor vontade! Não sei o que li n'aquelles olhos verdes de Martha; ainda se me não poderam tirar da memoria! Póde ser que me engane, mas essa menina é um anjo! Ha na meiguice do seu olhar um não sei quê, que me prendeu!

—Será isso uma illusão da tua parte?

—Nem por sombras! Se a visse, quando eu prometti a sua mãe que faria com que o senhor lá fosse...

—Então mostrou muitos desejos de me ver? perguntou Manuel com essa visivel curiosidade dos namorados, e como desejando prolongar a conversação de Mascatudo.

—Se mostrou! Ao principio fez-se branca como a cal da parede, e em seguida tornou-se vermelha como uma romã. Havia tanto interesse no seu olhar, quando me falou a respeito do senhor, que logo comprehendi que alguma coisa se passava no seu coração.

—Pois então, meu amigo, o que tem de ser, seja. É Deus que o determina: iremos hoje vel-os. Passava-se este dialogo a bordo da galera Esperança, no mesmo dia e á mesma hora em que o visconde de Coruche expunha a Tristão de Almeida, no gabinete do hotel Bragança, as graves conveniencias que lhe resultariam da sua philanthropica resolução.

Subindo á tolda, Manuel mandou apromptar o escaler e veiu para terra em companhia de Mascatudo.

Dirigiu se ao hotel.

Ao subir a escada que conduzia aos quartos de Jeronymo, sentiu que um mundo novo e inteiramente estranho se desenrolava a seus olhos! Receioso pelo sentimento que lhe perturbava o espirito, o marinheiro quasi pedia á Providencia, que qualquer circumstancia fortuita lhe viesse impedir a realização dos seus desejos!

Batendo mansamente á porta do quarto de Jeronymo, ouviu a voz doce e melancholica de Martha que de dentro lhe respondia. Faltou-lhe o valor; foi necessario que Mascatudo o animasse a entrar. Entraram ambos.

Reclinado sobre uma poltrona, Jeronymo dir-se-ia um cadaver.

A seus pés, assentada n'um tamborete, Balbina olhava-o com gesto de profundo desalento, fitando de vez em quando sua filha que de pé os contemplava!

Martha ficou immovel!

—Venho saber da saude de seu marido, disse Manuel para Balbina, extendendo ao mesmo tempo a mão ao mestre de obras.

Este sorriu-se brandamente para o maritimo, apertando entre as suas aquella mão que se lhe offerecia.

—E como se sente?

—Melhor, felizmente, muito melhor! respondeu Jeronymo, olhando ao mesmo tempo para sua mulher, e indicando-lhe que approximasse uma cadeira.

Manuel, pegando na cadeira que Balbina lhe offerecia, sentou-se ao lado do enfermo.

Mascatudo contentava-se apenas em observar os olhos de Martha, buscando em cada movimento descobrir o que lhe passava n'alma.

Balbina então relatou a Manuel quanto havia succedido, sem lhe omittir os rasgos de generosidade de que era devedora a Tristão e a toda a sua familia.

—E quem é esse homem tão caridoso? perguntou Manuel, como se já n'esse instante se lhe começasse a perturbar o espirito com a idéa de que essa protecção fosse menos devida á caridade do que á formosura de Martha.

—Quem é elle, não lh'o podemos dizer, respondeu Balbina. Sabemos apenas que é um senhor muito rico, e que todo o seu fim é fazer bem á pobreza. Agora vae elle estabelecer um hospital para as pessoas atacadas pela febre, hospital de que meu marido é o encarregado.

—E não só elle, como sua mulher e filhas, se tem interessado o mais possivel por mim, ajuntou Jeronymo.

—Nunca me ha de esquecer aquella noite, menina, tartamudeou Manuel dirigindo-se a Martha.

—Quanto lhe devemos, meu caro senhor, acudiu o operario, olhando ora para Manuel, ora para a mulher e para a filha.

—Como elle se portou com a nossa filha! Não temos modos de agradecer! disse Balbina visivelmente reconhecida.

—É merecedora de tudo! Nada tem que me agradecer, respondeu Manuel olhando ao mesmo tempo para a interessante Martha.

Quando a filha do operario, mais familiarizada com a presença do maritimo, se preparava para lhe dirigir a palavra, soaram uns passos no corredor e abriu-se em seguida a porta do quarto.

Eram Tristão e o visconde.

—Venho prevenil-os de que já temos casa para o hospital, e que ámanhã por estas horas—graças á actividade do sr. visconde—já devem começar os trabalhos, disse Tristão de Almeida, reparando ao mesmo tempo em Manuel de Mendonça e Mascatudo.

Estes ultimos olhavam para os recemchegados, sem poderem occultar que as suas presenças se lhes não tinham tornado muito sympathicas.

—Estes senhores pertencem á sua familia? perguntou o visconde dirigindo-se a Martha.

—Não, senhor, respondeu Martha. E indicando Manuel de Mendonça, accrescentou: este senhor foi quem me encontrou na rua, e que mais tarde descobriu aonde estava meu pae.

—Ah! foi este senhor! acudiu Tristão. Quanto folgo em ter o gosto de o conhecer. Se me não engano, n'aquella mesma noite tive o prazer de o encontrar; porém, quando ia para lhe extender a mão, já vossa senhoria tinha saido d'este quarto, ajuntou Tristão dirigindo-se a Manuel de Mendonça e extendendo-lhe brandamente a mão.

Se n'aquella noite do atropellamento os olhos de Manuel de Mendonça se haviam cravado particularmente no rosto de Tristão, mais cuidadosamente o fixaram n'aquelle momento.

O mesmo se passou com o magnate. Dir-se-ia que esses dois homens já se haviam encontrado alguma vez na vida! Onde? Sabia-o Deus, que n'esse instante os não illucidava!

O physionomista que de perto observasse o rosto de Manuel, ter-lhe-ia notado um estremecimento de repulsão no momento em que, extendendo a mão, a sentiu em contacto com a de Tristão de Almeida.

A Mascatudo não lhe passou desapercebido.

—Queira Deus, pensava elle comsigo, que o sr. Manuel de Mendonça não comece já a imaginar que lhe querem estorvar a pesca. Se elle vê que lhe lançam a fisga, põe-se de ventas á enchente e vae tudo com trezentos mil diabos. Elle é bom, isso lá é que não ha duvida, mas, se lhe pegam fogo ao paiol da polvora, vae tudo pelos ares em mil estilhaços.

Tristão e o visconde trocaram ainda algumas palavras entre si, e depois de alguns momentos de silencio, despediram-se de Jeronymo e de sua familia, e sairam do quarto cumprimentando affavelmente Manuel de Mendonça.

—Conhece aquelle senhor? perguntou Martha a Manuel de Mendonça, referindo-se a Tristão de Almeida.

—Não conheço, respondeu o maritimo, comtudo, parece-me já ter visto aquelle individuo, aonde não me recordo.

—O mesmo me pareceu a mim, acudiu Mascatudo. E a elle, se me não engano, tambem o senhor não lhe era estranho.

—O que elle me parece é um santo homem, disse Balbina, que não via em Tristão mais do que o protector de seu marido.

—Assim o julgo, respondeu Manuel, levantando-se e despedindo-se de Jeronymo.

—Já se retira? perguntou Martha, lendo-se-lhe nos olhos o que principiava a sentir no coração.

—Tenho de ir para bordo, respondeu Manuel despedindo-se de Martha, e promettendo-lhe voltar no dia seguinte.


—Então o que me diz, meu capitão? perguntava Mascatudo ao sairem o pateo do hotel.

—Que gosto muito d'ella, respondeu Manuel de Mendonça olhando para as paredes do edificio como se buscasse a janella do quarto onde havia ficado a familia do operario.


XVIII

São dez horas da manhã. Deitado no seu leito de precioso ebano, e fazendo mil conjecturas ácerca de Tristão, a quem na vespera havia convidado para almoçar, o visconde de Coruche, como homem experimentado, palpa, estuda e analysa o terreno por onde tem de caminhar.

Tudo estava prevenido para o almoço. Uma grande parte da baixella, que dias antes tinha sido substituida no prégo por outros objectos cuja ausencia se não fazia notar, já estava sobre os aparadores. Entre os riquissimos trabalhos de prata destacava-se um pelo seu grande valor e merito artistico.

Era um centro de mesa. Representava as tres graças sustentando uma enorme concha.

Era esta, por assim dizer, a ultima reliquia que lhe restava do seu para sempre chorado tio!

«Fiz mal, pensava elle, em não ter convidado o commendador e Vaz Mendes, para almoçarem commigo. Podem prever n'isto alguma insidia e intrigarem-me com o meu Cresus! É mais prudente escrever-lhes. E sem mais delonga, levantou-se e desceu ao escriptorio, formoso aposento ao rez do jardim, esplendida e custosamente mobilado.

«E pensar que tudo isto é sol de pouca dura! accrescentava elle olhando para as estufas do jardim. Não terei valor para cair com a minha ruina? Hei de ver de pé firme e olhar sereno, sair d'esta casa para o poder dos agiotas, até á ultima, todas estas reliquias? Deus não póde permittir que um homem que tem vivido e gozado como eu, se encontre um dia a braços com a miseria! É forçoso tomar uma deliberação. Tenho ainda uns seis mezes para viver, é pouco; prolongue-se a existencia, custe o que custar. Homicidio é um crime, e deixar-me escorregar na pendente do meu infortunio é um suicidio. Não quero ser criminoso.

«Arvores a cuja sombra me abriguei na minha infancia, nem vós já me pertenceis! continuava elle olhando para o vetusto arvoredo do jardim.

«Tectos que vistes expirar meus paes, que impia mão de atroz capitalista te manchará o culto? Aqui nasceu meu avô, aqui morreram todos os que tiveram melhor senso do que este desgraçado! «Soberbo choupo para me enforcar com o cordão do meu chambre», dizia elle como se quizesse zombar de si mesmo e contemplando ao mesmo tempo a arvore, que parecia convidal-o ao passo mais acertado que podia dar em toda a sua vida.

Abandonando estes lugubres pensamentos, o visconde sentou-se á carteira, e escreveu duas cartas, uma ao commendador, e outra a Vaz Mendes. Pedia em ambas a honra de virem almoçar em sua companhia.

Tocou a campainha e entregando as cartas a um criado para que as levasse sem demora ao seu destino, o visconde deu ainda algumas voltas pelo jardim e dirigiu-se á casa de banho.

Ao meio-dia em ponto entraram Vaz Mendes e o commendador Lopes de Miranda.

—Quanto folgo me não tivessem faltado, disse-lhes o visconde conduzindo-os para a sala de visitas. Tristão, acrescentou elle, vem hoje almoçar commigo, era forçoso pedir que mais alguem lhe tornasse menos pezado o sacrificio. Vamos discutir largamente sobre o hospital. Sabem que já temos a casa arrendada?

—Sabemos, responderam ambos.

—Um magnifico palacio á Pampulha.

—O local não podia ser mais bem escolhido, disse o commendador reclinando-se n'uma poltrona. E quando principiam os arranjos? perguntou Vaz Mendes.

—Hoje mesmo; para esse fim os mandei chamar. Vamos comprar tudo o que fôr necessario para que principie a funccionar de hoje a oito dias.

—Realmente é um homem de muita caridade este Tristão, interrompeu Vaz Mendes, olhando para uma soberba aguarella de Howell.

—Basta o que elle tem feito pelo mestre de obras, ajuntou Lopes de Miranda.

—E quem seria capaz, já não digo de mais, mas de tanto? acudiu o visconde. Isto é que é a verdadeira caridade, sem alarde nem ostentação.

—Tambem, disse Vaz Mendes, quem tem uma fortuna superior a dois mil contos, o que deve fazer senão dividil-a com a pobreza?

—E quantas pessoas conhece o meu amigo, que não são capazes de gastar um ceitil com os pobres? perguntou o visconde.

—Concordo, respondeu o banqueiro, olhando de soslaio para um Salvator Rosa, unica pintura que restava da galeria do conde de ***.

Ao ouvir-se o rodar de um trem, o visconde approximou-se da janella para se certificar se era a carruagem de Tristão que chegava.

Não se enganára.

Deixando os dois convidados, desceu ao pateo para o receber.

Quando entraram na sala foi uma agradavel surpreza para Tristão de Almeida o encontro dos seus dois amigos.

Á hora designada dirigiram-se todos para a sala de jantar, onde um variado e bem servido almoço os esperava.

Ao contemplarem a magnificencia da baixella, Vaz Mendes e o commendador entreolhavam-se, assombrados por tanta riqueza.

Tristão olhava para tudo com um gesto de profunda indifferença! Um objecto apenas se tornou o alvo da sua attenção: foi o centro de prata, de que já falamos ao leitor.

Havia muito que elle desejava occultar a sua admiração; por ultimo não se conteve.

—É de suppôr que saiba o que alli tem, disse Tristão voltando-se para o visconde, e apontando ao mesmo tempo para as tres graças.

—Sei. É magnifico! Atribuem-n'o ao cinzel não sei de que artista notavel, cujo nome me não lembra, respondeu o visconde.

—Vale um bom par de contos de réis, replicou Tristão dirigindo-se a Vaz Mendes.

«Forte asno, murmurou o banqueiro para comsigo.

«Está doido! pensou o commendador.

«Achei! disse o visconde falando com o seu coração.

«Fortes nescios! reflectiu Tristão, que pelos differentes jogos das suas physionomias, lhe adivinhára os pensamentos.»

Ás quatro horas da tarde sairam todos tres, tendo previamente combinado com o visconde, para que os esperasse no hotel das seis para as sete horas da noite.

«Estou salvo! dizia o visconde, á proporção que os via desapparecer. Por qualquer dos dois meios venço. Desfazendo me das tres graças, que já para mim não tem graça, posso vender-lh'as talvez por dez ou doze contos. Mas espera, accrescentou elle como se uma idéa lhe acudisse subitamente, é mais decente, mais elegante mesmo: presenteal-o com esse objecto. Ninguem chegou a mais de mil libras, e, para isso, foi necessario que encontrasse um inglez que as julgava Benevenuto! Mas quando viu que o não era, creio que me não daria nem mais dez libras do que o seu pezo. Se elle o attribue a cinzel, bem estamos; deve pelo menos avalial-o em vinte contos, portanto, em vinte contos avaliará o presente. Não ficarei habilitado a pedir-lhe vinte e cinco ou trinta? Ao centro, visconde, e chegarás ao teu fim! E, sem mais reflectir, chamou o groom e mandou embrulhar as tres graças em finissima toalha de Flandres, ordenando-lhe que as collocasse dentro do coupé.

Ao cair da tarde, acompanhadas pelo visconde, as tres filhas de Eurynome abandonavam a casa do fidalgo para entrarem de graça em casa de Tristão, que bem caro teria de pagar aquella graça.


XIX

O hospital da rua de S. Francisco de Paula, em virtude dos esforços do visconde de Coruche e da inexgotavel bolsa de Tristão, estava prompto de tudo. Sem lisonja, podia chamar-se-lhe um hospital modelo! A boa ordem reunida ao aceio e todas as outras condições hygienicas, tornavam aquella instituição a melhor do seu genero.

Em Lisboa, Tristão d'Almeida era o assumpto de todas as conversações. Todos falavam na sua caridade; todos se assombravam das sommas fabulosas que dispendia.

Além do custeamento do hospital, Tristão collocára cincoenta contos de réis em metal sonante na burra do seu escriptorio, para serem applicados ás familias dos doentes que por ventura alli morressem, deixando por unico legado a fome e a saudade.

Além d'estas circumstancias, uma outra havia mais transcendente: era a maneira por que a sua familia se dispunha para receber e tractar os enfermos.

D. Maria Egypciaca e suas duas filhas, todas tres com a mesma equipendencia de valor, eram as encarregadas das enfermarias das mulheres.

Tristão e o commendador tomaram entregue das do sexo masculino.

Oito pessoas entraram no dia da abertura. Por mais perigoso que fosse o estado de qualquer d'esses individuos, não houve um só que deixasse de sentir á cabeceira do leito a voz doce e animadora da mulher de Tristão de Almeida, e de suas duas filhas, sobre tudo de Magdalena.

As principaes familias de Lisboa quasi todas desejavam relacionar-se com aquelles quatro anjos do bem que vinham de longes terras para descançar o seu vôo sobre a cidade agonizante!

Ao encontrar se completamente restabelecido dos ferimentos, Jeronymo partira para o hospital afim de se encarregar da sua direcção.

Ás vêzes, na janella do terceiro andar que olhava para o Tejo, via-se uma criança loura e formosa como os anjos: era Martha. Entristecida, ora parecia buscar n'aquelles horizontes algum objecto que lhe prendia a imaginação, ora descia aos salões do hospital, como se procurasse na morte a branda paz que a sua alma havia perdido sobre a terra!

Avaliando a immensa distancia que a separava de Manuel de Mendonça, Martha havia depositado no mais intimo do coração todos os martyrios que a suffocavam! Vira-o pela ultima vez no dia em que seu pae saira do hotel.

Manuel dissera-lhe que d'alli a poucos dias iria visitar sua mãe, isto a meia voz, sem que Balbina o notasse.

Foi n'esse momento que ella começou a comprehender que lhe não era totalmente indifferente. Mas, d'isto tudo o que poderia resultar? Quem era Martha, para ser amada por um homem como Manuel de Mendonça, um commandante de navios, emquanto ella não era mais do que a filha de um operario!

N'esses momentos subiam-lhe á mente mil idéas que a torturavam. Era um tumultuar de receios que nem a sua intelligencia tinha forças para comprehender, nem o seu coração para os supportar.

Assim foram passando muitos dias, e Manuel sem cumprir a sua promessa.

Tel-a-ia esquecido?

Impossivel! Aquelles olhos não lhe haviam mentido! As ultimas palavras que proferira, revelavam bem todo o interesse que ella lhe tinha inspirado. Teria adoecido com a febre? Morrido? Não! Morrer tão novo, tão anciosamente adorado! Deus não consentiria que elle deixasse este mundo sem que Martha lhe houvesse assistido ao derradeiro sopro d'aquella vida, que era todo o seu querer, todo o seu pensar, toda a sua existencia! Manuel vivia, mas havia a esquecido por outra. Magdalena contemplára-o com interesse, n'uma tarde em que se encontraram na varanda do hotel! Ainda que Manuel não lhe respondeu ao seu olhar, podia tudo isso ter sido um calculo.

«Quem sabe se eu fui um instrumento da sua vontade, fazendo-me suppôr que era a mim e só a mim a quem elle amava, emquanto o seu coração estava inclinado para a filha de Tristão? pensava Martha. Mas sendo assim, tudo poderei descobrir; e se fôr, buscarei a morte como ultimo recurso á minha desgraça.»

Immersa n'estas terriveis conjecturas, Martha desceu ás salas do hospital.

Já haviam entrado D. Maria Egypciaca e suas filhas.

Notando a profunda pallidez da filha de Jeronymo, as fidalgas, segundo Martha lhe chamava, começaram a receiar pela sua saude.

Magdalena foi a primeira a approximar-se-lhe, e beijando a meigamente na fronte, pediu lhe por tudo quanto havia que não arriscasse tanto a sua saude, perdendo as noites ao lado dos doentes.

Durante todo esse dia, aonde mais intensos reinavam o perigo e a afflicção, alli se encontrava Martha!

Quando ao anoitecer a familia de Tristão se preparava para sair do hospital, Magdalena insistiu com a filha do operario para que tambem se retirasse. Foram inuteis todos os seus esforços. Pretextando que tinha de ficar com seu pae, Martha acompanhou-as até á carruagem e voltando depois para o terceiro andar, tornou a encostar-se áquella janella onde a encontrámos no principio d'este capitulo.

Deixemos a infeliz criança enchugando em silencio as suas primeiras lagrimas, e dirijamo-nos ao hotel Bragança.