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O Conde de S. Luiz

Chapter 23: XX
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About This Book

The narrative follows D. Marianna de Mendonça, who, after accepting an arranged marriage to Alvaro de Mendonça, celebrates the birth of their son Manuel before becoming widowed. The widow devotes herself to raising and educating Manuel, whose precocious intelligence and robust health provoke admiration and anxiety among relatives, especially a cautious cousin who warns against overtaxing him. The story traces domestic life, parental devotion, social expectations, and recurring fears for the child's future, depicting family relationships, episodes of illness and medical interventions, and tensions between protection and schooling across many chapters.

XX

São nove horas da noite. D. Maria Egypciaca, de pé, encostada a um bufete, aguarda com palpitante anciedade a volta de seu marido.

Olympia, agitando-se impacientemente pelo salão, contempla de vez em quando o mostrador de uma pendula, como implorando aos ponteiros que bem depressa lhe marquem a hora da ceia!

Magdalena, reclinada ao parapeito da varanda, fita o astro da noite, que, reflectindo-se sobre as aguas do Tejo as cria de um brilho triste e melancholico.

—Não te demores ahi á janella, disse D. Maria Egypciaca, voltando-se para sua filha. A noite, como vês, começa a arrefecer, e os tempos não estão para brincadeiras.

—Não receíe, minha mãe, respondeu Magdalena. Sinto-me aqui tão bem.

—Faze o que quizeres.

—Em todo o caso, se minha mãe está com susto, eu retiro-me, disse Magdalena saindo da janella.

—Sabes que já me vae dando algum cuidado esta demora de teu pae. São estas horas e elle sem apparecer.

—E é verdade, acudiu rapidamente a filha mais nova. São perto de nove e meia. Provavelmente jantou em casa do visconde e não se lembra que o esperamos para ceiar.

—Decididamente não pensas n'outra coisa senão em comer, murmurou Magdalena sorrindo-se para a irmã. Não sabes que a dieta é o melhor preservativo.

—Pois continuem as senhoras com a sua dieta que eu, pela minha parte, irei comendo o que me aprouver, respondeu Olympia.

Deram as nove e tres quartos e Tristão sem apparecer.

—Se teu pae se demora mais dez minutos, vou ao hospital, disse D. Maria Egypciaca.

—Se o criado se demora mais cinco minutos, vou ao hospital ver se me dão alguma coisa de comer, tartamudeou Olympia com visivel inquietação!

Ao terminar estas palavras abriu-se a porta e entrou Tristão acompanhado pelo visconde.

—Não me tornes a apparecer tão tarde, disse D. Maria Egypciaca voltando-se para o marido. Não sabes os cuidados em que temos estado, tanto, eu como as meninas, ajuntou ella, beijando a fronte de seu esposo e cumprimentando ao mesmo tempo o visconde.

—Desde que sairam do hospital, não podem suppôr o trabalho que tivemos se não fôra Martha...

—Parece uma santa rapariga, disse D. Maria Egypciaca voltando-se para o visconde.

—Tal pae, tal filha, minha senhora, respondeu o visconde.

Magdalena córou ligeiramente ao ouvir pronunciar o nome de Martha?

As suspeitas da infeliz, não eram totalmente despidas de fundamento. Magdalena vira por duas vezes Manuel de Mendonça quando elle fôra visitar o operario. O olhar nobre e varonil do commandante, as suas maneiras altivas e ao mesmo tempo insinuantes, tudo concorreu para que se tornasse sympathico. Manuel não o havia notado ou, pelo menos fingiu ignoral-o.

Orgulhosa em demasia, Magdalena jámais teria descido a declarar-se-lhe. Além d'isso, o seu espirito observador fizera-lhe notar que a filha do operario não era totalmente indifferente a Manuel de Mendonça. Quanto ao que se passava no coração de Martha, era um problema difficil de resolver.

Uma tarde em que Magdalena deitava para o Tejo o seu magnifico telescopio, viu um escaler com quatro remadores, e um individuo sentado á prôa. Reconheceu n'esse homem o mysterioso personagem que lhe apparecêra no quarto de Jeronymo! O barco seguia Tejo abaixo. Assestando o oculo, seguiu o em todos os movimentos. Por ultimo, abordou a uma embarcação que estava fundeada em frente da rocha do Conde de Obidos. Manuel saía do escaler e subia para bordo.

Desde essa tarde, Magdalena não perdia ensejo de olhar para aquella pequena embarcação, e quando por ventura sabia que Manuel de Mendonça estava no quarto do operario, buscava sempre esse momento para o ir ver.

—É de suppôr que ainda não tenha ceiado, meu pae, disse Olympia. A ceia deve estar prompta, acho rasoavel que vamos comer alguma coisa.

—Quem havia de ser a primeira a lembrar-se da ceia, respondeu Tristão, passando o braço pela cintura de sua filha, e convidando o visconde a sair da sala.

—Vocemecê anda sobre as aguas do mar?... (pag. 165)

Na mesa, esplendidamente adornada pela baixella que Tristão havia comprado, sobresaíam as tres netas de Apollo, com que o visconde havia presenteado o seu amigo.

—Eis a alegria da meza, disse Tristão voltando-se para o visconde e apontando ao mesmo tempo para o magnifico centro.

—O que lhe peço, replicou o visconde, é que me não esteja todos os dias envergonhando com esse objecto, que se algum valor teve para mim, foi o de agradar a vossa excellencia.

—Não me cançarei de o gabar, continuou Tristão, offerecendo um logar ao visconde entre sua esposa e Magdalena.

—Tenho vindo todo caminho a dizer a seu esposo, que deve acceitar o titulo que brevemente lhe vae ser offerecido, disse o visconde voltando-se para D. Maria Egypciaca. Já tres ou quatro pessoas me disseram que el-rei o senhor D. Pedro V, encantado pelos seus serviços, tenciona agracial o com um titulo condigno ao seu merito. Sabe o que me respondeu? que não queria acceitar coisa alguma; que para recompensa, bastava-lhe o prazer que experimentava em ser util á humanidade. Isto á luz da philosophia é uma grande verdade, mas para o mundo acho uma loucura!

—Sou quasi da opinião de meu marido. Basta que se chame Tristão de Almeida. De seus paes herdou esse nome sem a mais pequena macula, é razoavel o seu desejo em o querer conservar até ao ultimo momento da vida.

—São vossas excellencias da opinião de sua mãe? perguntou o visconde dirigindo-se ás filhas de Tristão.

—Pela minha parte é-me totalmente indifferente, respondeu Magdalena.

—E vossa excellencia... accrescentou o visconde voltando-se para Olympia.

—Sou da opinião de todos, retrucou Olympia, mastigando o setimo croquette.

—Se vossa excellencia resolvesse seu esposo a acceitar o titulo de conde, compromettia-me a fazer lavrar a carta regia em menos de um mez.

Ao ouvir pronunciar o titulo de conde, os olhos de Tristão brilharam com uma alegria selvagem. Teria dado muito para ser visconde, mas o que elle nunca poderia suppôr, era que obtivesse o titulo de conde!

O visconde comprehendeu-o immediatamente.

«Temos homem! pensou elle. O ensejo é favoravel; ha de ser hoje mesmo! Está proximo o dia vinte. Se até esse praso não levanto dinheiro, a ruina é certa! Vão salvar-me as tres graças e o titulo de conde.»

A ceia correu animadissima! D. Maria Egypciaca, julgando-se condessa, pensava de ante-mão na gloria que esse titulo lhe ia proporcionar. Desentranhando do amago do seu bestunto todos os nomes de terras mais harmoniosos que tinha ouvido, escolhia de entre esses o que mais euphonico lhe parecia.

Tristão, apezar de toda a sua serenidade, olhava ora para a mulher ora para as filhas, como que desejando que a conversação continuasse sobre o mesmo assumpto.

Olympia continuava a comer desafrontadamente, sem cuidar na gloria que se lhe preparava!

Uma pessoa apenas parecia indifferente ao titulo e á ceia, era Magdalena.

A pobre sonhava a felicidade entre o mar e o céu! A sua ventura estava n'aquella barca, para onde ella ao cair da tarde extendia seus olhares entristecidos pelo labutar de uma eterna recordação.


Quem d'alli a duas horas tivesse entrado na sala occupada por Tristão, teria visto o seguinte: D. Maria Egypciaca em profunda meditação, folheando um livro que mandára comprar, cujo titulo era Resenha das Familias de Portugal.

Olympia reclinada n'um sophá fazendo o chylo, e resonando profundamente.

Magdalena encostada á janella contemplando as estrellas que se reflectiam sobre as aguas do Tejo.

E quem, movido de imperdoavel curiosidade, tivesse seguido o visconde e Tristão de Almeida até ao patamar da escada, teria ouvido este ultimo dizer em voz baixa ao visconde:

—Sendo tres horas da tarde, poderá ir receber os trinta contos de réis a casa de Vaz Mendes, e se por ventura se vir n'algum outro apuro, peço lhe encarecidamente que se lembre de mim.

—Ha de ser com uma condição, respondia lhe o visconde.

—Qual?

—Acceitar o titulo de conde.

—Acceito.


XXI

No dia seguinte áquelle em que praticâmos a indiscrição de fazer com que o leitor tambem escutasse as ultimas palavras trocadas entre Tristão de Almeida e o visconde de Coruche, achava se este, antes do meio dia, assentado á secretaria do seu escriptorio, chamando todos os criados, e ordenando a cada um que lhe apresentasse as suas contas.

Os moços estavam como que assombrados! Nenhum podia acreditar que elle estivesse habilitado a falar d'aquelle modo. Todos sabiam o estado da sua casa, e a unica esperança que lhes restava, eram as promessas de um agiota a quem tencionavam vender as dividas.

—Aquillo foi obra de jogo, dizia o cocheiro, refinado velhaco, a quem o visconde havia arrancado á miseria.

—Ora, saude! acudiu o trintanario, quem caiu d'ahi abaixo! Quem lhe havia de dar dinheiro para fazer jogo? Ainda não ha muitos dias que elle perdeu cincoenta moedas, e, a respeito de pagal-as, xó rôlla.

—Dê-me elle o que me deve, o mais tanto se me dá como se me deu! Venha o baguinho, e tanto m'importa que fosse ganho ao jogo, como achado, como roubado!

—O mesmo digo eu, mestre Domingos, interrompeu o criado de quarto. Tomára eu sempre que elle estivesse muito endinheirado. Ha lá melhor patrão! Já o viram olhar para alguma conta? Mais ainda; quando lhe apresentavamos os roes, e que elle tinha dinheiro na gaveta da secretaria preta, quantas vezes me dizia: Põe lá a conta e tira o dinheiro. Patrões assim, agarral-os é que custa.

—Pois sim, tudo isso é uma grande verdade, mas, o que é certo, é que está aqui está sem vintem, disse judiciosamente o cosinheiro.

—Isso é lá com elle, mas quem te diz a ti que esse individuo a quem deu os bonecos de prata...

—O quê?

—Lhe tenha emprestado algum dinheiro.

—Anda cá dinheiro, que te quero ver. Tambem tu vives de caretas? Lá que elle tenha querido encostar o homem, não me admira, mas que o brazileiro caisse ao tiro... essa é que não pega.

—Que elle está muito contente, é que não ha duvida.

—Já tem o bago na mão, hein? Ora adeus? Se o tivesse, a estas horas ninguem o aturava.

—Não sei falar n'essas coisas. Venham os soberanos e o mais tanto se me dá que a agua corra para baixo como para cima!

—O que parece impossivel é que vossês estejam aqui n'este conluio, murmurando de um senhor que os trata como sua excellencia, disse um velho de perto de setenta annos que acabava de entrar. Aqui estou eu, a quem elle deve mais do que a vossês todos juntos, e ainda não abri bico contra elle.

—E o que tem vossemecê com o que nós estavamos falando? disse o cocheiro approximando-se do ancião.

—Se lhe parece, bata-me, tartamudeou o velho, encostando-se serenamente a um aparador. Se o sr. visconde souber o que se passou, podem ter a certeza que vae tudo para o meio da rua.

—E quem lh'o havera de dizer? acudiu um moço de cavallariça.

—Eu! Não serei capaz de lhe contar tudo, tim tim, por tim tim?

—Eu perca a minha liberdade, se vossemecê tornasse a comer mais pão.

—Pensa talvez que me assusta com as suas fadistices? Meu amigo, tenho perto de setenta annos, mas, frangãos assim, para os depennar basta-me a mão esquerda.

—Está bom, está bom! Leva de rumor! acudiu o cosinheiro. Quem quizer fazer banzê, vá para o meio do pateo, que não é este o logar para dize tu direi eu. E demais aquelle senhor tem toda a razão, ajuntou elle olhando para o velho. É o mordomo do sr. visconde, conheceu-o de criança e não gosta de ver o seu amo offendido. Nada mais natural do que tomar as palhinhas por elle.

—Entre vossemecê tambem, se lhe parece, ajuntou o cocheiro, tomando o partido do moço da cavallariça.

—Olhe, meu amigo, disse o cosinheiro, dirigindo-se ao cocheiro, commigo não faz vossê vasa. Cá por mim, não lhe digo quantos annos tenho, mas se me faz chegar a mostrada ao nariz, desabo-lhe d'aqui com esta mão de vacca que fica sem saber da cara por tres dias.

N'este comenos ouviu-se a campainha do escriptorio. Era o visconde que mandava chamar o mordomo.

—Vossa excellencia mandou-me chamar? disse o mordomo ao entrar no escriptorio.

—Mandei, respondeu o visconde. Dei ordem a todos os criados para que apresentassem as suas contas. Toma-as a cada de um de per si; bem sabes que não me chama Deus para esses caminhos. É preciso tambem tomar conta dos credores mais teimosos para se lhes dar alguma coisa por conta. Comprehendes?

—Perfeitamente.

—Lembra-te de gratificares os criados, pobres diabos! Não te parece?

—Eu dava lhes, mas era com um pau, sr. visconde. Não ha maior cafila do que são os criados d'este tempo.

—Porque dizes tu isso?

—Tenho os meus motivos. Isso fica para mais tarde. Não imagina o prazer que terei se vossa excellencia se pozer em dia com toda esta gente.

—Bem, podes retirar-te.

D'alli a uma hora, dirigia-se o visconde para o escriptorio de Vaz Mendes onde Tristão de Almeida havia mandado ordem pela manhã para que entregasse trinta contos de réis ao visconde de Coruche.



—E para que é todo este dinheiro, sr. visconde? perguntou-lhe o banqueiro, lendo-se-lhe nos olhos a inveja e a cobiça. É para algum outro hospital aonde os meus serviços estão dispensados?

—É para a infancia desvalida, respondeu o visconde, mettendo n'algibeira—sem os contar—os maços de notas que recebêra da mão de Vaz Mendes.

—Repare vossa excellencia que não contou esse dinheiro, ponderou-lhe o usurario.

—Nunca contei dinheiro; para esse fim lá tenho em casa um criado que não faz outra coisa, respondeu altivamente o visconde de Coruche.

Pondo insolentemente o chapéu, o fidalgo cortejou o banqueiro e retirou-se para casa.

—Salvo! exclamou o visconde, extendendo se commodamente n'um sophá. Falta agora o titulo, ajuntou elle olhando ao mesmo tempo para um magnifico charuto havano, cujo fumo subindo em espiral inundou os aposentos de um perfume doce e innebriante!


XXII

«Fortes nescios, que idéa formam de mim! O visconde imagina que sou algum minhoto, que foi d'aqui para o Rio de Janeiro varrer o escriptorio do patrão, e que por uma fórma ou outra, adquiri a riqueza que hoje possuo.

«Se elle soubesse que fôra o commendador Felix Justino de Araujo quem lhe havia emprestado os trinta contos de réis.

«Como a sorte me favoreceu em tudo! continuava elle, passeando ao mesmo tempo pelo seu gabinete. Emprestei-lhe trinta contos, e é possivel que nunca mais os torne a ver, mas, quanto vale aquelle magnifico centro de Benevenuto? Quarenta contos talvez. E dizem que um filho da Grã-Bretanha veiu expressamente a Lisboa para lh'o comprar, e se retirou deixando-o aqui. O archeologo tinha bebido muito n'esse dia!

«Não lhe descobriria elle a assignatura? O visconde deve estar satisfeito de me ter logrado! Como elle dirá de si para si: presenteei-o com um objecto que vale mil libras, acenei-lhe com um titulo de conde e o tezo caiu no laço!

«Eu poderia prescindir perfeitamente d'esse titulo. Para que quero eu um titulo? só se fôr, para satisfazer os caprichos da Maria. O que já me vae aborrecendo alguma coisa é o tal hospicio. Ainda que nunca houve molestia que sympathizasse com a minha pessoa, póde apparecer alguma, e ter o mau senso de me levar d'esta para melhor. Parece-me que vou dar parte de doente.

«Agora me recordo, ajuntou elle. Quem demonio seria aquella mulher que veiu hoje procurar o Jeronymo! Pareceu-me reconhecer as feições. Se não tivesse a certeza que D. Marianna de Mendonça tinha morrido doida no hospital de S. José, havia de dizer que era essa velha. Que similhança, meu Deus! E se fosse ella? Se ainda vivesse? Ora adeus! Se eu fôr a devolver tudo quanto d'aqui levei... Nada... os tempos não estão para graças. Se Domingos de Andrade não houvesse tido juizo em Pernambuco, que teria sido do commendador Felix Justino de Araujo, que passou a ser Tristão de Almeida emquanto se não chamar o conde de... O conde de quê? do que elles quizerem ou do que minha mulher escolher.

«Agora por isso, não tenho mais remedio senão comprar alguma propriedade de grande valor. Vou tractar d'isso para a semana que vem. Encarrego o visconde de me arranjar um palacio em Lisboa e uma quinta nos suburbios. Está decidido, sympathizei com aquelle estroina. Parece-me que o estou a ver na casa branca da rua do Arco de Bandeira! Era um verdadeiro demonio, aquelle visconde! Ainda não vi homem mais intrepido ao jogo! Agora por jogo, não tardará muito que principiem a fazer todas as diligencias para me apanharem. Vêem bem!

N'este momento abriu se a porta, e entrou um criado annunciando o visconde de Coruche.

—Que entre, que entre o meu caro visconde, disse Tristão.

O fidalgo não se fez demorar.

—Quanto folgo em tel-o encontrado, disse o visconde extendendo a mão para o seu amigo. Estive hontem no gremio, e durante a noite não se falou senão em vossa excellencia. O conselheiro Poderosa, que appareceu lá á saida do theatro, disse-me confidencialmente que seria o encarregado por sua magestade de lhe perguntar que nome escolhia para o titulo de conde, que brevemente lhe ia ser offerecido. Estive hontem mesmo para lh'o vir participar.

—Dá-me sempre um grande prazer a sua companhia mas para um caso d'esses, seria desnecessario.

—Vejo pela sua indifferença que ainda insiste, apezar da promessa, em não acceitar o titulo! Deixe-se d'isso, meu amigo, um titulo é sempre util; e muito util.

—Façam os meus amigos tudo quanto lhes aprouver; sujeitar-me-hei ao que fôr do seu agrado.

—Não vê o meu amigo, que esse titulo que lhe vae ser concedido, não é favor mas sim uma retribuição honorifica pelo muito do que este paiz lhe é devedor? Diga-me uma coisa, teria vossa excellencia valor de recusar um habito que o general lhe collocasse ao peito, se vossa excellencia se tivesse distinguido n'uma batalha? Creio que não. O mesmo se dá n'este caso. Não está vossa excellencia arriscando a sua vida e a de toda a sua familia? Parece-lhe immerecida essa recompensa? Pode alguem lançar-lhe em rosto a injustiça da mercê? Quem teria o descaro de lhe contestar esse direito? Ninguem, absolutamente ninguem!

—Isso lá é verdade. Que eu tenho arriscado a minha vida e de toda a minha familia, não merece duvida alguma.

—Então, meu amigo, attendendo a todas essas circumstancias, não falemos mais n'isso, e deixe correr o negocio.

—Vá feito, vá feito! gargalhou Tristão de Almeida.

—Tem hoje muito que fazer, sr. Tristão?

—O que sabe: ir ao hospital.

—E depois?

—Depois mais nada.

—Dá-me a honra de ir jantar a minha casa?

—Com muito gosto a receberei.

—Vão lá uns amigos a quem desejo apresental-o.

—Fique certo.

—Então ás cinco?

—Conte commigo.

—Peço-lhe encarecidamente que não falte, accrescentou o visconde n'um cerrado shake-hands, e saindo do gabinete.

«Trata-se de me apanharem ao jogo, pensou Tristão. Veremos quem fica logrado, accrescentou elle extendendo-se sobre um sophá.»


XXIII

Emquanto o visconde de Coruche ordena aos seus criados que lhe preparem um lauto jantar, dirijamo-nos á Rua do Meio, a casa de Jeronymo.

São tres horas da tarde. O operario, á mesa do jantar, entre Marianna e sua mulher, olha de vez em quando para a vidraça, como para ver se ainda continúa a chuva.

Na face pallida de Balbina, desenha-se-lhe o soffrimento. Marianna parece acompanhal a nas suas tristes meditações.

—Vossês não me dirão o que têem? murmurou Jeronymo. Quando a nossa vida se apresenta debaixo dos melhores auspicios, é que principiam a entristecer? O mesmo notei em Martha. Antigamente, era sempre alegre e jovial, agora, custa os dias da vida, primeiro que se lhe arranque um ar de riso. Valha-nos Deus! Não ha felicidade completa.

—Isso é uma desconfiança tua, respondeu Balbina.

—A mim não me enganam vossês, replicou Jeronymo, levando aos labios um copo de vinho. Pela minha parte, ando cá como o outro que diz, meio desconfiado de uma coisa. Permitta Deus que me engane, ajuntou elle, voltando-se para a tia Marianna, que dirigira um olhar significativo á esposa do operario.

—E de que estás desconfiado, Jeronymo? accudiu Balbina, voltando se para seu marido.

—Se eu não desabafasse com vossês, que são a minha familia, com quem havia de fazel o? Creio que não era com a tia Monica ou outras quejandas! Lá vae. Ando desconfiado, como ha pouco lhes dizia que a nossa Martha está assim meia apaixonada pelo sr. Manuel. Isto foi uma pancada que me deu o coração; talvez que não passe de um máu juizo. Mas o que é certo, é que nunca mais lhe tenho visto brilhar os olhos de alegria, senão duas ou tres vezes que esteve defronte d'elle. Lá isso é que ninguem me póde negar.

—Pois uma vez que foste tu o primeiro a falar sobre isso, pergunta agora á tia Marianna o que estavamos dizendo quando tu entraste, respondeu Balbina, olhando ao mesmo tempo para a sua amiga.

—Ha mais de oito dias que andamos a pensar n'isso, disse a tia Marianna voltando se para o operario.

—Valha nos Deus, Balbina! E como havemos de impedil-o?

—Não sei, respondeu Balbina, profundamente entristecida. Sabes o que me disse a tia Marianna? accrescentou ella. Que o sr. Manuel era por força um homem muito de bem; bastava ver a maneira como elle se portou com a nossa filha.

—Tudo isso é uma grande verdade, Balbina, mas, em qualquer dos casos é sempre uma infelicidade. O coração de Martha é... nem eu mesmo sei a que o compare. É uma especie d'estas fasquias que a mais pequena aragem as dobra, mas se lá vem um tufão... ficam logo quebradas pelo meio. Além d'isso, ella bem conhece a distancia que a separa do sr. Manuel, e é capaz como o outro que diz de afogar em si tudo quanto está soffrendo.

—Sou da sua opinião, sr. Jeronymo; Martha é um anjo, e será capaz de morrer, confiando apenas a Deus o segredo que a assassina!

—Eu só o que desejava saber era a maneira de nos encaminharmos em tudo isto, continuou Jeronymo levantando-se da mesa.

—A sr.ª Marianna que nos aconselhe, que é mais velha e tem mais mundo do que qualquer de nós, acudiu Balbina dirigindo-se á sua amiga e companheira.

—Que lhes poderei eu aconselhar, meus bons amigos? respondeu a tia Marianna. Se esse individuo é um homem de bem como eu supponho, e se Martha lhe não foi indifferente, é de crêr que mais dia menos dia o possamos tornar a ver, e, n'esse caso estarei muito prompta a falar-lhe. Não lhe vejo outro remedio, sr. Jeronymo. Prouvera a Deus que fosse hoje o dia. Quanto ao que vossemecê diz, que uma grande distancia os separa, não me parece. Não póde elle ser como Martha, um filho do povo? E sendo assim, não vejo desegualdade de pessoas.

—E se o não fôr? perguntou Jeronymo. Se fôr um fidalgo, um ricasso...

—Torno a repetir-lhe, respondeu Marianna, homem de bem é que eu tenho a certeza que elle é. E a prova foi não ter tornado a apparecer.

—Isso lá é que é a pura da verdade, acudiu Balbina. Tinha trezentos meios para a ter visto.

N'este momento, parou um trem á porta do operario. Eram as filhas de Tristão que vinham trazer a casa a sua amiga.

—Forte delambida! dizia a tia Monica voltando-se para uma visinha, quando Martha se apeava do trem.

—Deixe estar, respondia-lhe a visinha, mais dia menos dia, verá aonde aquillo vae parar.

—Ainda bem que já lhe fiz a cama, quando o outro dia me vieram pedir informações a seu respeito.

—Não sabia d'isso, visinha, não me tinha dito... Quem foi?

—Era um homem que me pareceu assim do trato do mar.

—Desde que se meteu com as fidalgas já não póde andar se não de trem. Saffa, demonio! E não tem medo das más linguas....

—Nem da colera do Senhor, tia Monica, respondia-lhe a visinha, mettendo-se para dentro de casa como se os seus olhos invejosos não podessem resistir ao olhar candido e celeste de Martha, o anjo dos tristes.

Despedindo-se das filhas de Tristão, Martha entrou em sua casa.

Vinha excessivamente pallida. Uma breve mancha azulada, partindo das palpebras inferiores até ás proeminencias malares, tornavam-lhe mais scismadores os seus olhos esplendidamente bellos! Dir-se-hia que se tinha levantado de uma grande enfermidade. O busto, ligeiramente inclinado, dava-lhe aspecto de profunda melancolia.

A Jeronymo arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas.

—Que tem, meu pae? perguntou Martha, approximando-se e beijando-o ternamente na fronte.

—Que tenho, filha?! Que hei de ter! Dia a dia te vejo mais triste, e ainda perguntas o que tenho? Saudades da tua alegria, dos teus olhos; onde estão as rosas d'essas faces, que eram a inveja das tuas companheiras de collegio? Onde estão emfim os teus sorrisos, que eram a minha ventura? Pensas que só eu tenho notado a tua tristeza, ha oito dias a esta parte? Enganas-te. Já tua mãe a percebeu e a tia Marianna, e todos, até o teu cão! para quem já não tens um só carinho. Dize-me o que sentes, filha, e se eu, ou tua mãe n'alguma coisa te podemos valer, sê franca, Martha. Quem melhor do que teus paes poderão saber os teus segredos? Martha, lembra-te que és a unica alegria que eu e tua pobre mãe temos n'esta vida. Se és boa, como te creio e como todos te consideram, abre-me o teu coração, não me occultes coisa alguma. Vem, filha; deposita no meu peito todos os segredos que te obrigam a olhar para a terra para onde eu não quero que te deixes ir.

Pobre Jeronymo! A dôr tornara-o eloquente! Balbina e a tia Marianna tinham se afastado para occultarem as lagrimas.

Apenas Martha se conservava serena como a estatua da resignação.

—Que me respondes, Martha? continuava o operario.

—Que lhe posso eu responder meu pae.

—Senta-te aqui nos meus joelhos, accrescentou Jeronymo, apertando a cintura da filha e approximando-a para si. Vou contar te uma historia.

«Um dia, um pobre operario, que tinha por unica familia sua mulher e sua filha, ao sair do trabalho foi atropellado por um trem. Levaram-n'o em seguida para uma grande hospedaria aonde foi caridosamente tratado, sem lhe faltar coisa alguma a não ser a sua familia que ignorava aonde elle estivesse. As horas passavam, passavam, e elle sem apparecer. Então a filha, pondo o capote aos hombros, saiu de casa, procurando o pae como uma louca.

«Pessoa alguma lhe dava relação d'elle. A triste desanimára!

«Finalmente encontrou um individuo moço, bello, virtuoso. Esse prometteu-lhe procurar seu pae! A infeliz respirou! D'ahi a duas horas o desconhecido dizia-lhe aonde elle estava.

«Grata a esta primeira prova de dedicação, a filha do operario principiou a amal-o em silencio!

—Não me fale n'isso, meu pae, interrompeu Martha, tentando desembaraçar-se dos braços de Jeronymo.

«Depois, proseguiu o operario prendendo-a cada vez mais ao coração, essa criança cheia de ternura, continuou a amar esse homem, sem confiar a pessoa alguma o afecto que a consumia, e hoje, Martha, hoje... está como tu, pallida, triste, adoentada, e seu pae como um louco por a vêr assim.»

—Ahi tens a historia, ajuntou elle largando a dos braços e fitando a com os olhos cheios de lagrimas.

Martha não proferiu uma palavra.

—Não me illudas, filha, esse homem é amado por ti.

—Esse homem, balbuciou Martha, é amado pela filha do nosso protector! Hoje mesmo a encontrei olhando para a sua galera, ajuntou ella, caindo desanimada nos braços de seu pae.


XXIV

—Aposto a minha cabeça em como o visconde ha-de ser tão nescio que se não lembre de arranjar um montesinho antes da ceia.

—Se o não fizer alguns motivos tem para isso. Por tolo, não é, decerto.

—Tambem, se queres que te diga a verdade, não lhe encontro grande esperteza. Já lá vão duas heranças importantissimas, e ambas tiveram o mesmo fim. Se isto é ser esperto, está o mundo cheio de espertalhões!

—Sabes o que eu chamo ser esperto, é saber lavar a sua roupa em familia, como diz o dictado. De quantas lagrimas não lhe tem sido testemunha o seu travesseiro? Vê tu, se já alguem deixou de lhe encontrar o mesmo sorriso? Dizem todos: o visconde está arruinado, é impossivel que possa aguentar por mais tempo aquella opulencia, em menos de um anno hão-de vel-o miseravel, porém desde que morreu o conde, não abandonou o seu palacio, ainda não despediu um criado, ainda não vendeu um cavallo, ainda não deixou de dar almoços, jantares e ceias! Está arruinado: tão arruinado que não ha muitos dias deu um presente, que valia mil libras. Quem dá um presente de mil libras não póde estar pobre.

—Isso leva agua no bico!...

—E que importa? O que não ha duvida, é que pessoa alguma seria capaz de fazer o que elle tem feito.

—Eu tambem não lhe contesto o seu cavalheirismo.

—E o que lhe tem custado as mulheres e o jogo? Tomára eu ter o dinheiro que lhe ganhei ha uns vinte annos, quando estive associado com um grande espertalhão que havia em Lisboa, chamado Felix de Araujo.

—Felix de Araujo? Não me recordo.

—Um vivo demonio, que fez tudo quanto lhe pareceu em Lisboa, acabando por ter uma casa commercial.

—Ai, ai, agora me lembro. Por signal que roubou uma senhora, a casa de quem ia muitas vezes! A pobresinha foi acabar os seus dias no hospital de S. José. Já sei. Era um tratante de marca maior, que fez a desgraça de muita gente. Nunca mais se soube d'elle?

—Disseram-me que tinha morrido envenenado na Costa d'Africa. Que a terra lhe seja leve, que eu, assim como assim, não tenho razão de queixa da sua pessoa; basta lembrar-me que o pouco que sei a elle lh'o devo.

—O pouco que sabe! Se eu soubesse metade...

—Aquillo é que eram mãos! Aquillo é que era dar um salto com limpeza, sem que o baralho desse o mais pequeno estallido! E trabalhar com cinco dados! e tirar ao pegote!

—É verdade, é verdade! A ultima vez que joguei com elle foi em casa do barão. Por tal signal que me roubou quatorze notas de dez moedas á banca portugueza.

—Se aquelle homem não tivesse morrido, com a audacia que possuia, ainda tinha voltado a Portugal...

—O que estará fazendo o visconde?

—Como não usa de cerimonia para comnosco, provavelmente dá as suas ordens para que tudo se faça segundo os seus desejos.

Passava-se este dialogo entre Gil de Carvalho e Bernardo de Paiva.

O primeiro, era um jogador de profissão e refinado velhaco, ao qual todas as portas se abriam por um d'esses desleixos imperdoaveis que é susceptivel em toda a sociedade de grandes capitaes.

Relacionando-se com os individuos que frequentavam certa sociedade onde o jogo era permittido por distracção, Gil de Carvalho introduziu se nos principaes salões de Lisboa.

Ninguem sabia a sua procedencia! As suas maneiras quasi sempre delicadas, resentiam-se comtudo da primitiva educação!

Gil teria uns sessenta annos. A sua fortuna era um mytho. Uns diziam que estava pobre; outros, calculando pelo que havia roubado ao jogo, attribuiam lhe riquezas enormes.

Bernardo de Paiva era um homem pouco mais ou menos da edade do seu interlocutor. Herdára de seus paes uns vinte ou trinta contos de réis e dissipára-os immediatamente em mil loucuras, sendo a principal o jogo, que ainda hoje o dominava com poder immenso!

Bernardo descendia em linha recta de uma das mais distinctas familias de Olhão. Aparentado com muitos individuos de Lisboa, Bernardo com mais algum direito do que Gil de Carvalho, tinha entrada em todas as casas. Ao contrario de Gil, a sua physionomia era sympathica e insinuante.

Jantar onde elle estivesse, corria sempre alegre e animado. Além do seu vivíssimo esprit, tinha outra qualidade que o tornava estimado em todos os circulos: não dizia mal de ninguem. A sua bocca era sagrada, como judiciosamente affirmava o mordomo do visconde de Coruche.

Quando Gil e Bernardo de Paiva se dirigiram para uma saccada que olhava para o pateo, onde se ouviu o rodar de um trem, correu-se um dos reposteiros e appareceu o visconde.

—Peço-lhes que me desculpem esta demora, mas não me foi possivel evital-a. Adoeceu de repente o meu mordomo, tenho de o substituir.

—Pela minha parte estás desculpado, disse Bernardo de Paiva, sorrindo-se para o visconde.

—Repito o mesmo, acudiu Gil.

—Não adivinhas, de quem estamos falando? disse Bernardo dirigindo se ao visconde.

—N'aquelle mariola de Felix Justino de Araujo, accrescentou Gil de Carvalho.

—Não me recordo respondeu o visconde com modo distrahido.

—Ora essa! exclamou Bernardo. O commendador Araujo que ia á Casa Branca, do Arco do Bandeira.

—Ah! Já sei, respondeu o visconde.

—Sabes quem eu acho muito parecido com elle, e só agora foi que me lembrou...

—Quem?...

—O teu amigo Tristão d'Almeida.

—E é verdade, respondeu o visconde. Bem me parecia a mim que já tinha visto n'alguma parte uma physionomia que se lhe assimilhasse.

—É um homem muito sympathico aquelle seu amigo, interrompeu Gil de Carvalho.

—Aonde o viu? perguntou o visconde.

—Ha dias, no gremio, aonde me foi apresentado. A proposito, sabe se elle joga?

—Duvido, respondeu o visconde. Nem me convinha por modo algum que se jogasse em minha casa, accrescentou elle, que tudo havia planeado para esse fim.

—E se elle pedisse? perguntou Gil, tentando ainda profundar-lhe o pensamento.

—Isso então era differente. O meu dever é tornar-me sempre amavel para com as pessoas que me dão a honra da sua companhia.

—Sou da tua opinião, disse Bernardo de Paiva, que lia no mais intimo da alma do visconde.

N'este momento ouviram-se duas badaladas na sineta da loja, e d'alli a pouco entrou um criado de libré, annunciando Tristão d'Almeida.


—Venho aqui pura e simplesmente para lhe provar o desejo que tenho de estar na sua companhia, disse Tristão, depois de falar ao visconde e aos seus amigos. Se não fôra isso teria ficado de cama.

—Mas que teve, meu amigo? perguntou rapidamente o visconde.

—Quanto póde imaginar de mais infernal! Todos os symptomas que apresenta a epidemia. Sabe o que fiz? tomei um grog e fui para o hospital.

—Que valor! interrompeu o visconde.

—Quando alli cheguei, continuou Tristão, augmentaram-se-me os padecimentos. Querem saber os resultados? Vão admirar-se da força da minha vontade. Fui receber um doente, que pouco tempo depois me expirou nos braços. Aquella rapida transposição da vida para a morte, aquelle instante incalculavel que medeia entre o ser e o nada, entre a vontade e abstracção, longe de aterrar, robusteceu-me o espirito e, escudado pela confiança em um mundo melhor e mais perfeito, reanimou-me a ponto de me sentir completamente restabelecido.

—É mais uma prova da sua religião, meu caro amigo, interrompeu Bernardo de Paiva. Os que se aterram em presença do moribundo e na observação do cadaver, é porque receiam o desconhecido! Os que se baseiam nos preconceitos do vulgo, apegando se á vida, e receiando a morte, que, segundo as suas crenças, os colloca em contacto com a Divindade, não são mais que uns miseraveis, uns vermes que vivem e rastejam para a sua e nossa deshonra! A morte, para todo o homem de intelligencia clara e illustrada, não é mais que o principio de uma vida infinita.

Espiritos pobres e tacanhos que se lamentam a cada segundo, dizendo que lhes peza a vida, empallidecem quando a morte de longe lhes acena com as suas azas, brancas para elles que sopezam constantemente a desgraça nas suas longas noites de interminavel soffrimento.

Receiam morrer! Elles que deviam tomar a existencia com um eterno castigo! Que melhor somno para o desgraçado do que o da morte, dormido sob a lousa! Preferem o bulicio da vida á paz do eterno repouso, o andrajo ao sudario, a fome á anniquilação!

—Isso é uma grande verdade, mas a maior parte do mundo não pensa como vossa excelencia, respondeu Tristão. Duas ou tres vezes tenho visto a morte deante de mim, e nunca me atemorizou! Tenho a minha consciencia bastante socegada para me apresentar deante de Deus! Não receio o seu julgamento. Diziam-me em Buenos-Ayres que era um homem de um valor desmedido, emquanto eu não passava de um pobre diabo a quem os peccados não perseguiam na existencia, porque nunca os havia procurado. Digo procurado, porque o homem, a maior parte das vezes, pecca mais por vaidade do que por instincto. Tenho umas theorias, falsas talvez para o seculo em que vivemos, mas que apezar de tudo não desprezo. Deus que fez o homem á sua similhança, ao lançal-o ao mundo, revestiu-o de bons instinctos, porém, a sociedade envenenando-lhe o coração, insinuou-o no crime e apresentou-lh'o atravez de um prisma seductor. Então os seus olhos fascinaram-se, a vontade esmoreceu-lhe, e o coração propenso sempre a ser dominado ao primeiro impulso, extraviou-se da razão e lançou-se cego e inexperiente n'esse dedalo artificioso a que a humanidade nos arrasta! Satanaz ri-se, mas Deus, que tudo perdôa, espera o momento supremo para indultar o peccador e á humanidade que o perverteu! Esta é a minha opinião.

—Sabem quem hontem ganhou trezentas e tantas moedas? interrompeu Gil de Carvalho voltando-se para o visconde. Aquillo é que foi sorte, accrescentou elle, sem notar o espanto que a sua interrupção havia produzido nos circumstantes. Fez um circo, depois outro, depois outro, e bumba, lambeu tudo quanto havia sobre a banca.

—Mas a que proposito vem isso, sr. Gil de Carvalho? perguntou o visconde, emquanto Tristão de Almeida o contemplava com simulado espanto.

—Isto veiu a proposito... d'aquillo em que eu estava pensando, respondeu Gil de Carvalho tornando a cahir no mesmo estado de profunda reflexão.

—Excentricidade do nosso amigo Gil, acudiu Bernardo de Paiva, olhando intelligentemente para o visconde.

O magnate conservava-se frio e sereno como um yankee, entre os quaes largos annos havia habitado.

—Gosta de jogar? perguntou Gil de Carvalho voltando-se para Tristão.

O visconde e Bernardo estremeceram de raiva.

—É uma coisa que ás vezes me diverte, respondeu-lhe Tristão. Não admitto o jogo por vicio, mas, assim de vez emquando, depois de um jantar ou de uma ceia, encontro-lhe alguma distracção, ainda que as poucas vezes que tenho jogado tem sido quasi sempre com uma infelicidade extraordinaria! A ultima foi em França, aonde perdi n'uma só noite duzentos mil francos. O divertimento foi caro, é verdade, mas distrahi-me.

Ao ouvir estas palavras, os olhos de Gil de Carvalho brilharam de visivel alegria. Tinha as suas esperanças realizadas!

O visconde nem pestanejou!

Assim estiveram conversando sobre varios assumptos até que appareceram todos os individuos que o visconde havia convidado.

Ás seis horas foram para a sala de jantar, cuja mesa brilhantemente adornada, revelava a opulencia e bom gosto do dono d'aquella habitação maravilhosa. O jantar correu animadissimo! Bernardo de Paiva, como sempre, esteve esplendido de graça. Tristão de Almeida com grave assombro dos convivas que pela primeira vez o viam e sobre tudo do visconde, que o julgava um homem trivial, apresentou-se totalmente opposto ao que o suppunham.

«Este homem é um mysterio», pensava o visconde, ao mesmo tempo que saudando-o em repetidas libações, fazia as maiores diligencias de o toldar.

Inuteis foram porém todos os seus esforços; o convidado bebia por elles todos, sem que o mais leve indicio de incommodo lhe transtornasse a serenidade da sua imperturbavel physionomia.

Ás nove horas, levantaram-se todos da mesa, e foram para outra sala, onde os esperava o café.

Tristão de Almeida, como o leitor deve fazer ideia, conhecia todos os individuos que estavam presentes, e melhor do que a elles todos a Gil de Carvalho, com quem por mais de uma vez se havia associado.

Ou por calculo ou porque lhe recordassem com saudade as sensações do jogo, Tristão propoz ao visconde que se fizesse monte.

—Estão em sua casa, respondeu-lhes o visconde. Eu também não desgosto de vez em quando arriscar duas ou tres duzias de libras.

Gil de Carvalho estremeceu de jubilo; Bernardo de Paiva exultou de contentamento. Encontrava um meio de adquirir uma ou duas duzias de moedas, jogando sempre na alforreca.

—Quem ha de fazer o monte? eu não por certo, disse o visconde, foi coisa para que nunca tive geito.

—Nem eu tão pouco, acudiu o commendador.

—Visto vossa excellencia ser banqueiro, ajuntou Bernardo de Paiva, dirigindo se para Vaz Mendes, o banqueiro de Tristão de Almeida, pertence-lhe por direito.

—Que o faça o sr. Gil de Carvalho que está mais acostumado a pegar em cartas.

—Resta agora saber se ha cartas em casa. Mas isso pouco importa, mando-as alli buscar ao Club, disse o visconde.

—Estranha coincidencia! exclamou Gil de Carvalho, mettendo as mãos no bolso do peito da casaca, minha mulher tinha-me pedido hoje que lhe levasse dois ou tres baralhos para fazer a paciencia, e ainda aqui estão. Podem servir estas.

—Que favoravel acaso! disse Bernardo de Paiva, sorrindo-se intelligentemente para o visconde.

«Está a mesma coisa», murmurou Tristão de Almeida, de si para comsigo.

—Vamos fazer uma vaca? disse o visconde e em voz baixa olhando para o seu hospede, emquanto Gil de Carvalho se approximava d'uma banca para melhor contar os baralhos.

—Jogaremos de sociedade, visconde, replicou Tristão de Almeida.

—Seja.


D'alli a dez minutos, as cem moedas que Gil de Carvalho fizera de monte, haviam passado para defronte de Tristão de Almeida, acompanhadas por mais do dobro que os outros peritos tinham perdido.

Segundo, terceiro e quarto monte, e o mesmo resultado.

Tristão jogava com uma sorte espantosa! Gil de Carvalho tinha perdido a força moral.

—Tem dinheiro? perguntou elle ao visconde.

—Sirva se, disse-lhe Tristão de Almeida empurrando-lhe um maço de notas.

O banqueiro acceitou.

Outro monte de cem moedas, e em tres cartadas, todo o dinheiro que estava na mão do intrepido jogador havia passado para o banqueiro.

Os olhos de Gil de Carvalho brilharam como uma alegria feroz.

Tristão de Almeida, acendeu tranquillamente um magnifico charuto, e sorriu-se para o visconde.

—Era justo que se perdessem algumas paradas, murmurou elle, tirando da algibeira do peito uma carteira de chagrin.

—Continua a sociedade, visconde? disse o magnate voltando-se para o seu amphitrião.

—Continua, meu amigo.

Gil de Carvalho baralhou as cartas e deu-as a partir a Tristão de Almeida.

—Topo tudo no duque, disse este rapidamente, ao sair a segunda carta do algor debaixo. Gil voltou as cartas a tremer, e á segunda appareceu um duque.

—Vou a casa buscar dinheiro, não tenho fé alguma em jogar com capitaes emprestados, disse Gil de Carvalho, collocando o baralho sobre a banca, e saindo sem quasi dar tempo a Tristão de Almeida e ao visconde de lhe fazerem os seus offerecimentos.

Tristão havia ganho tres contos e seiscentos mil réis.

—Que lhe parece? disse elle voltando-se para o visconde, damos hoje a desforra ao seu amigo Gil de Carvalho, ou guardamos isso para outro dia?

—Ficará para outro dia. Convinha me muito ir ao segundo acto do Trovador.


Ás onze horas os convidados retiravam se, e Tristão de Almeida na carruagem do visconde seguía com elle para o hotel.

Mais tarde parava um trem á porta do visconde. Era Gil de Carvalho que fôra a casa buscar mais dinheiro, e uns certos baralhos em que as cartas se pegavam umas ás outras. Descendo rapidamente, entrou no patim.

—Os senhores já lá vão para o theatro, disse-lhe o guarda-portão.

Gil cuidou morrer de desespero!