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O Conde de S. Luiz

Chapter 29: XXVI
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About This Book

The narrative follows D. Marianna de Mendonça, who, after accepting an arranged marriage to Alvaro de Mendonça, celebrates the birth of their son Manuel before becoming widowed. The widow devotes herself to raising and educating Manuel, whose precocious intelligence and robust health provoke admiration and anxiety among relatives, especially a cautious cousin who warns against overtaxing him. The story traces domestic life, parental devotion, social expectations, and recurring fears for the child's future, depicting family relationships, episodes of illness and medical interventions, and tensions between protection and schooling across many chapters.

XXV

Alguns esclarecimentos ácerca de Manuel de Mendonça, de quem vossa excellencia e a pallida Martha, ha tempos a esta parte, nada tem sabido.

Quando verdadeiramente fascinado pela formosura da filha do operario, saiu do hotel Bragança—vespera da retirada de Jeronymo para sua casa—o maritimo havia-lhes promettido de brevemente os visitar; porém, reflectindo mais pausadamente sobre esse gravissimo assumpto, quiz ainda forcejar com o coração, abafando-lhe quanto podesse a chamma que o consumia!

Tudo foi inutil! Ao cabo de dez dias, a pobre alma, cada vez mais preza á recordação de Martha, ia a tal ponto identificando-se com ella, que Manuel resolveu de si para si, ou sahir immediatamente de Portugal ou pedir a filha de Jeronymo.

No dia seguinte ao romper da manhã já elle tinha procurado Mascatudo. Fechando-se ambos na camara, participára-lhe a sua resolução.

O marinheiro, cujo unico desejo era a felicidade de Manuel, abraçou de boa mente a sua determinação: elle, que sobretudo não comprehendia a verdadeira ventura sem os verdadeiros regozijos da familia!

—Hoje mesmo, disse-lhe Manuel de Mendonça, irás informar-te pela visinhança sobre a conducta de Martha, e se fôr como eu supponho, e espero em Deus que seja, ámanhã mesmo irei pedil-a a seu pae.

«Que me importa que seja uma triste filha do povo, se o seu comportamento for virtuoso, pensava Manuel de Mendonça, encostando-se á amurada da sua galera. Quem sou eu? continuava elle, um homem sem familia, sem parentes! Que me importam os brazões dos meus antepassados! Em que concorreram elles para esta pequena posição que hoje tenho na sociedade? Quanto sou, devo-o a mim, e só a mim! Está decidido, em oito dias, Martha será minha mulher.»

D'alli a meia hora, Mascatudo com o seu fato domingueiro, approximou-se de Mendonça.

—Á ordem, meu commandante.

—Estás prompto?

—Prompto.

—Sabes o serviço que me vaes fazer?

—Ora essa!

—Serás discreto, reservado?

—Como uma carranca de prôa.

—Bem estamos. Sabes aonde ella mora?

—Rua do Meio, á Lapa.

—Numero?

—Cento e doze.

—Tal e qual. Chegas assim como quem não quer a coisa, e pergunta alli pela visinhança, quem é pouco mais ou menos o Jeronymo; se a sua vida é moral e religiosa, se é um homem trabalhador, etc., etc.

—Bem sei como essas coisas se fazem, meu commandante.

—Em primeiro logar, para que se não desconfie, é falar só de Jeronymo; o resto, vem mesmo sem o perguntares. Entendes bem?

—Se entendo... O commandante vem tambem p'ra terra?

—Não, espero aqui a resposta.

—Então ás ordens, e que a Senhora da Bonança vá em minha companhia. Descendo para o escaler sentou-se á prôa e mandou remar.

Uma hora depois, Mascatudo entrou n'uma pequena tenda da rua da Lapa, que ficava quasi em frente da casa de Jeronymo.

Approximou-se do balcão e pediu de comer.

Á proporção que comia e bebia, o marujo ia adquirindo uma certa intimidade com o caixeiro, offerecendo-lhe de vez em quando do seu copo, em que elle pegava sem se fazer rogar.

—Diga-me uma coisa, perguntou emfim Mascatudo. Dá-me noticias d'um mestre de obras, que d'antes aqui morava, chamado Jeronymo? Ha quantos annos o não vejo!

—Olhe, respondeu o caixeiro, apontando ao mesmo tempo para a casa do pae de Martha, ainda alli mora n'aquella casinha.

—É um bom homem!... E sua mulher ainda vive?

—Ainda.

—A filha é que deve estar uma senhora?

—É toda mystica! disse o caixeiro; e enthusiasmando-se com a formosura de Martha, despejou, sem Mascatudo lh'o offerecer, o resto do vinho que estava no copo.

—Conheci aquillo uma criancinha, accrescentou Mascatudo, olhando de soslaio para a meia canada que o moçoilo acabava de despejar.

—Ha pouco tempo succedeu uma disinfelicidade ao pobre Jeronymo, continuou o caixeiro, que lhe ia custando uma grande felicia.

—Sim? perguntou Mascatudo.

—É verdade.

—Então como foi isso?

—Eu lh'o conto. Foi atropellado por um fidalgo muito rico, que tem agora um hospital para a rua de S. Francisco de Paula, e como elle ficasse muito mal tractado, sabe o que o fidalgo fez? levou-o para a hospedaria onde estava, tractou d'elle sem lhe faltar nada, e por ultimo empregou o, dando-lhe quinze tostões por dia. Ora veja vossemecê como o diabo as tece! Ha males que vem por bem! Quem me dera a mim encontrar um fidalgo que me atropellasse com a condição de me dar, já não digo quinze porém cinco tostões por dia. Ha dois annos que estou n'esta maldita casa, e o miseravel do patrão ainda me não augmentou o ordenado. Aqui estou ganhando dois mil reis por mez, que como o outro que diz, não me chega nem para beber uma pinga aos domingos. Agora por isso, ajuntou elle, mudando de tom, creio que já despejou todo o vinho. Quer que torne a encher?...

—Encha, respondeu Mascatudo, occultando a custa um sorriso.

—E ainda ahi não fica, como ia dizendo. Em tal graça caiu a sua familia para com os fidalgos, que é raro o dia, em que as meninas não vém no seu proprio trem buscar a filha de Jeronymo.

—E ella porta-se bem?

—Diziam que sim, porém agora, já ha quem lhe rosne no credito. Ora aqui para nós tem razão! Uma rapariga tão bonita como a Martha, e pobre como é, andar no luxo em que anda!

—Mas talvez que esse luxo lhe tenha sido dado pelas filhas do tal fidalgo, respondeu Mascatudo, sentindo um grande estremecimento no coração.

—Tambem isso é verdade; póde muito bem ser, e n'esse caso então, não lhe deviam cortar na pelle.

—E quem é que lhe corta na pelle?

—Olhe, alli vem uma das visinhas que não lhe faz lá muito boas ausencias: a tia Monica.

N'esse momento, a beata, de quem o leitor deve estar lembrado, involta na sua mantilha de merino preto, entrou na tenda.

—Deus seja n'esta casa, disse ella, olhando ao mesmo tempo para Mascatudo.

—Amen, respondeu este, cravando os olhos no rosto cadaverico da intrusa.

—Então como vae isso hoje lá por baixo a respeito da febre, perguntou o caixeiro, que já sabia que era a hora em que ella vinha da baixa.

—A colera de Deus continua a castigar os peccadores, respondeu a misera abaixando ao mesmo tempo a cabeça. Hontem, continuou ella, disseram-me que houve uma mortandade espantosa. E estes herejes do sitio sem fazerem uma procissão como tantas vezes lhes tenho pedido!

—Porque não mette n'isso o mestre Jeronymo? perguntou o caixeiro á tia Monica, piscando ao mesmo tempo o olho para Mascatudo.

—Cruzes! Credo! Virgem da Soledade! Pedir uma coisa d'essas a similhante creatura! De que Deus me livrasse, sr. André!

—Pelo que vejo, não é muito amiga do nosso visinho!

—E como queria o senhor que uma mulher como eu fosse amiga de similhante homem?

—Pois olhe, basta o que elle fez pela tia Marianna, para mostrar que tem bom coração. Lá o que é verdade, deve-se dizer sempre! Ha de haver mez e meio, proseguiu o caixeiro voltando-se para Mascatudo, foi aqui atacada uma mulher pela febre amarella, e ninguem se atreveu a entrar em sua casa; a unica pessoa que o fez, foi Martha, a filha de Jeronymo. Com tanto amor a tractaram, que hoje está viva e sã.

Mascatudo sorriu d'alegria ao ouvir a boa acção de Martha.

—E porque fez elle isso tudo? resmungou a beata. Sô para que depois se dissesse pela visinhança que eram uns santinhos. Que santinhos de pau carunchoso!

—Seja lá pelo que fôr, o grande caso é que salvaram aquella embarcação que ia dar á costa, acudiu Mascatudo.

—Pelo que vejo respondeu Monica contemplando o marinheiro, vossemecê anda sobre as aguas do mar? Que o Senhor dos Navegantes, a quem mesmo agora acabo de rezar duas estações, o livre de todos os perigos, meu filho; e possa tambem a Senhora da Bonança andar sempre em sua companhia. Padre nosso que estaes nos céos... continuou ella.

—Então o que se diz por ahi de Jeronymo, tia Monica, perguntou Mascatudo, começando a tratal-a com certa confiança.

—Ora! O que se ha de dizer! O que se diz sempre d'um homem que consente que sua filha esteja fóra de casa, e que venha a altas horas da noite, muitas vezes acompanhada por um individuo, que vem sósinho com ella dentro d'um trem. Quem elle é ainda eu não pude descobrir, mas, agora que felizmente já consegui encaixar-me no hospital e fazer conhecimento com as meninas... vou descobrir quem é o melro.

Mascatudo sentiu um estremecimento por todo o corpo. Elle que a julgava pura como um anjo, começava a duvidar da sua virtude. E não tinha mais remedio senão contar tudo que ouvira.

—Agora que já tenho lá entrada como lhe ia dizendo, é que hei de saber qual dos amigos do fidalgo, é o que está acostumado a acompanhal-a. E a boa da tia Marianna, sempre por toda a parte a dizer d'ella mil maravilhas, e eu a saber como os meus dedos, a peça que é a creancinha! Dizem-me que anda sempre muito triste. Deus sabe como ella andará! Que Deus me perdoe de fazer maus juizos!... exclamou a beata curvando a cabeça.

Outro que não fosse Mascatudo, teria regeitado as opiniões da execravel beata, porém ferido por aquella primeira impressão, o caracter fogoso e ao mesmo tempo selvagem do marinheiro, levou-o a acreditar em tudo quanto lhe haviam dito! Sem descer a mais indagações, e abandonando ao caixeiro a segunda meia canada que mandara encher, Mascatudo pagou o que devia, e sem quasi se despedir nem d'um nem d'outro, saiu apressadamente da loja. Seguindo pela rua da Lapa, desceu a rua de S. Domingos, e entrando nas Janellas Verdes, alcançou a rocha do Conde de Obidos, aonde embarcou para bordo da galera.

Manuel de Mendonça, passeiando á prôa, aguardava com impaciencia o resultado da commissão do marinheiro.

Os olhos de Mascatudo arrazados de lagrimas, seguiam os movimentos do seu commandante. O pobre homem receiava os instantes que o approximavam de Manuel de Mendonça, afim de lhe participar o que se havia passado.

O escaler abordou finalmente á galera e Mascatudo subiu a escada.

—Que soubeste? perguntou Manuel conduzindo-o á sua camara.

Revestindo-se de valor Mascatudo contou-lhe quanto tinha ouvido.

Manuel de Mendonça sorriu-se brandamente, e olhando para aquelles horisontes, toldados então por uma neblina espessa, fitou a vista no oceano, como que dizendo-lhe que o esperasse.

N'essa mesma noite adoeceu com uma febre gravissima, de que lhe resultou estar quinze dias de cama.

Foi durante esse tempo, emquanto ao infeliz, entre as visões da febre, se lhe desenhava a imagem da supposta peccadora, que Magdalena na varanda do hospital, assestava de vez em quando o telescopio para descobrir o rasto do commandante da galera.


XXVI

—Terá a bondade de dizer á sr.ª D. Magdalena que está aqui a sua pobresinha, dizia a tia Monica voltando-se para o guarda-portão do hospital.

—A sr.ª D. Magdalena não póde agora recebel-a; acha-se á cabeceira de um doente que está por pouco... respondeu-lhe o guarda-portão.

—Pois sim, pois sim, vá sempre dizer-lhe que é a tia Monica, a quem deu ordem para que viesse aqui hoje sem falta. Ande, avie-se; verá se me fala ou não.

—Já lhe disse a vossemecê o que tinha a dizer-lhe. Escusa de me importunar mais.

—Deixa estar que eu te direi, dizia a velha comsigo. Alcance eu o que desejo, e verás como te ponho no andar da rua, só pelo mal que me estás tratando. Estejas tu meu traste mais oito dias sem cá vir, e eu te direi, como te ponho tambem no meio da rua, minha Martasinha.

—Então vossemecê, vae ou não vae! ajuntou a tia Monica em voz alta, voltando-se de novo para o porteiro.

—E ella a dar-lhe, e a burra a fugir, disse o guarda-portão, voltando-lhe a cara para a banda, e continuando a varrer o patim. Se vossemecê continua a atormentar-me subo lá acima e digo ao mestre Jeronymo que lhe pegue por um braço e que a ponha fóra da porta. Forte impertinente! cruzes, canhoto!

—Ora sempre haviamos de ver isso, se o tal mestre Jeronymo seria capaz de pôr no meio da rua uma pessoa mandada aqui vir por uma das filhas do dono da casa! Faça isso, sr. Antonio, até desejo que o faça. Ande, então...

N'este momento, uma enfermeira que vinha de jantar, entrou apressadamente no hospital.

—Tem a bondade de dizer á sr.ª D. Magdalena que está aqui a tia Monica, e que lhe vem trazer a resposta d'aquelle recado que lhe encarregou, disse a beata, perseguindo a mulher.

—Farei entregue, respondeu a enfermeira, subindo apressadamente a escadaria.

—Vossemecê não tem vergonha de estar assim com essa teima?

—Pois veremos quem vence—se sou eu ou se é vossemecê; e sentando-se tranquillamente sobre um dos bancos da entrada, a tia Monica começou a olhar para o enraivecido porteiro, com um modo insolente e provocador.

Cinco minutos depois, desceu a mesma enfermeira, dizendo lhe da parte da sr.ª D. Magdalena que fosse ter com ella ao terceiro andar.

A velha, radiante de gloria e de regosijo, fixou o porteiro do alto da sua magestade, e despedindo-lhe um olhar de compaixão, subiu afoita as escadas, promettendo a si mesma vingar-se do pobre homem, logo que o ensejo lhe fosse favoravel.

A principio, o porteiro rugiu de colera, porêm, vendo a inutilidade do seu mau genio, conformou-se com a sorte, e empunhando de novo a vassoura continuou na sua constante operação.

Magdalena, ao ouvir as palavras da enfermeira, encarregou a sua irmã o moribundo, e subiu logo ao terceiro andar, aonde mandaram conduzir a velha.

Quando ella entrou, Magdalena, encostada á varanda, contemplava o Tejo, no Tejo a galera, na galera Manuel de Mendonça, e n'esse a vida que para ella lhe fugia!

—Bons dias, santinha! disse ella approximando-se da tia Monica.

—Muitos bons dias, meu anjinho, replicou a asquerosa beata tentando beijar a mão que Magdalena lhe extendia. Já lhe disse que não quero ver esse rosto tão pallido, minha rosa desbotada. Anime-se, ande, ria-se para mim.

—Soube alguma cousa? perguntou Magdalena.

—Alguma coisa se soube. Ainda não é tudo quanto desejamos; mas de cá se vae a lá, como dizem os hespanhoes. Um amigo d'um sobrinho meu, que está na armada, foi a quem encarreguei. Hoje, seriam oito horas da manhã, quando eu vinha de ouvír as minhas missas, e de pedir a Deus pela minha querida menina, senti baterem-me á porta, abri, e era o Manuel, o tal rapazola. «Que temos?» perguntei-lhe eu. «Que havemos de ter? Já soube onde pára o tal individuo, e quem elle é» respondeu Manuel.

—E quem é elle? perguntou avidamente a filha de Tristão de Almeida.

—É o commandante da galera Esperança. Tem estado muito doente. Ha mais de quinze dias que não sae de bordo!

—Meu Deus! disse Magdalena, eis o motivo porque nunca mais o pôde ver!

—Quanto ao resto, accrescentou a beata, posso-lhe dizer quasi com toda a certeza, que alli anda cousa, e anda por isto:—Ha tempos estando eu na tenda do Melro, entrou um homem de tracto do mar e começou a perguntar informações de Martha. Esse individuo não tinha sido senão alguem mandado por elle, para saber se se portava bem ou mal.

—E o que lhe respondeu, tia Monica?

—Que queria a menina que lhe respondesse! Póde-se julgar mal d'uma pessoa que anda na companhia de dois anjos, como as minhas duas meninas? Embora eu soubesse quem esta familia é, a minha bocca nunca se me teria aberto para dizer similhante coisa!

—Parece-lhe portanto que as minhas suspeitas eram bem fundadas?

—Se me parece! E faça se bem! As meninas a protegerem aquelle traste, e ella pagando-lhes assim!

—Isso não, tia Monica! Pobre rapariga, que culpa tem ella do que se passa no meu coração? O mal que me está causando é involuntario, e tão involuntario que ella propria o desconhece; e demais, se ha alguem culpado em tudo isto, sou eu, eu apenas.

—E pensa a menina, que um rapaz como esse tal sr. Manuel de Mendonça, possa descer a olhar para uma mechanica? uma reles filha d'um operario, tendo a palpitar pela sua pessoa, um coração nobre e generoso como o da minha rica menina? Para que havia Manuel de Mendonça querer a filha d'um operario: só se fosse para ser sua criada.

—Pois olhe, tia Monica, veja como eu sou, se tivesse a certeza de que Martha era de ha muito amada por Manuel de Mendonça, creia que embora eu morresse de paixão, seria capaz de me sacrificar, a ponto de ser eu a propria madrinha do seu casamento. Hontem estava pensando n'isso. Mas o que eu queria, era ter uma certeza. Se o que tem conservado Martha n'aquelle estado, é uma paixão, serei eu a propria, embora d'isso me resulte a morte, a fazer todas as diligencias de os reunir. Se elle fôr nobre, pedirei a meu pae, que tire de meu dote alguns contos de réis, para collocar aquella pobre criança n'uma posição que lhe não envergonhe os seus pergaminhos. Porém se esse amor que eu supponho existir no coração de Martha, não fôr mais do que uma desconfiança, então Monica, se lhe não fôr indifferente, rico ou desventurado, nobre ou plebeu, Manuel de Mendonça será o meu esposo, porque o amo muito, muito, tia Monica!

E a pobre Magdalena, tremula e offegante, debalde tentava occultar as lagrimas que a suffocavam!

Era muito de ver-se o contraste d'estas duas creaturas! Magdalena, o amor, a generosidade, a pureza de affectos! Monica, a mentira, a ambição, a crapula emfim de todos os sentimentos!

Alma candida e inexperiente, não avaliava sequer a immensa distancia que as separava. A pomba approximava-se d'aquelle asqueroso reptil, sem comprehender com quantas voltas lhe poderia enrolar o seu pescoço de neve!

Ao escutar aquellas palavras que tão claramente denunciavam a ingenuidade da sua alma, a tia Monica julgou perder a partida. Além dos lucros que esperava obter servindo de intermediaria n'aquelles amores, havia um outro sentimento que a dominava, mais forte talvez que o primeiro: o desejo de se vingar da familia de Jeronymo! Desejo infundado, sem motivo algum, explicado apenas por aquella profunda inveja que os bons mais ou menos inspiram aos que o não são nem o desejam ser!

Envenenando-lhe o seio com o ervado punhal do ciume, a tia Monica poderia fazer com que retirassem a sua protecção ao mestre de obras. Poderia fazer com que Magdalena, odiando a pobre Martha, lhe roubasse a pessoa a quem ella amava, ficando apenas reduzida á miseria e ao descredito que por toda a parte lhe proclamava.

Eram estas as suas idéas, idéas que principiavam a desvanecer se, á proporção que ia lendo na alma de Magdalena toda a grandeza d'aquelle coração, immenso como a agonia que o dilacerava!

—Veja, continuava Magdalena, se por esse individuo, me póde saber, custe o que custar, se Manuel de Mendonça escreve a Martha, se a vê, ou se por ultimo se encontram.

—E se por ventura se amarem? perguntou rapidamente a beata.

—Abençoal-os-hei! respondeu Magdalena como se ao pronunciar estas palavras se lhe rasgasse o coração.

—E se não se amam! insistiu a velha.

—Será meu, disse Magdalena com uma voz debil e melancholica. Tirando depois algumas moedas de prata de dentro de um porte-monnaie, entregou-as á tia Monica.

—Se elles não se amassem! pensava Magdalena ao despedir-se da velha.

—Se Deus me ajudasse! repetia a tia Monica sahindo do gabinete.


XXVII

Ao cabo de quinze dias, graças á sua robusta compleição, Manuel de Mendonça pôde subir ao convez, esperando, dizia elle, conseguir com a brisa do mar completo restabelecimento.

Mas não era esse apenas o motivo que alli o conduzia. Mascatudo havia-lhe dito na vespera, que da galera se via perfeitamente o edificio do hospital, e quasi todos os dias, depois da uma hora da tarde se divisava um vulto na varanda, assestando o oculo na direcção do barco.

Achando se completamente restabelecido, Manuel de Mendonça pegou no seu magnifico telescopio e dirigiu-se á prôa do navio afim de descobrir quem tão assiduamente o espreitava.

Ao vêr o edificio que Mascatudo lhe designára, já o seu olhar de lynce havia descoberto que alguem o estava observando.

Manuel de Mendonça levantou o seu oculo, e descobriu o rosto pallido e insinuante de Magdalena.

Não era esse o semblante que elle cuidava encontrar; comtudo, continuou por alguns segundos esperando ainda descobrir a imagem que durante a sua terrivel enfermidade o havia perseguido. Mas tal não succedeu. Magdalena continuando a olhar, parecia não perder um segundo da sua persistente observação.

Desalentado, metteu o oculo debaixo do braço, e caminhou serenamente para a ré.

Então um milhão de reminiscencias lhe acudiu á memoria. Lembrou-se d'aquelle dia em que Magdalena o contemplára tão demoradamente, quando fôra visitar Jeronymo.

«Quem sabe, pensou elle, se esta mulher me ama, e se lançou mão d'alguma intriga para desconceituar a meus olhos a filha do operario? Se tal fosse! Veremos o que pensa Mascatudo. Não façamos juizos temerarios. Que importa que eu vá visitar seu pae? Não lh'o prometti eu?»

Erguendo o seu telescopio, Manuel assestou-o pela segunda vez na direcção do hospital, onde Magdalena se conservava ainda no seu posto de observação. O maritimo, voltando as costas desceu á camara onde Mascatudo o aguardava.

Quem n'esse momento tivesse entrado no hospital da rua de S. Francisco de Paula, e houvesse subido aquelle terceiro andar, onde Magdalena se achava, teria ouvido o som da queda de um corpo e uma voz entrecortada pelos soluços, soltando estas palavras:

—Amam-se, não ha duvida!

—Maldito caldo de gallinha, puff, está a escaldar! dizia uma outra voz. Era a de Olympia.


XXVIII

Graças aos rasgos de valor e profunda dedicação que o dono do hospital da rua de S. Francisco de Paula espalhava a cada a hora sobre a cidade de Lisboa, o seu nome tornou-se popular.

Todos á uma desejavam encontrar esse homem, que, arriscando constantemente não só a sua preciosa existencia, como tambem a de sua mulher e duas filhas, se chegava hoje ao leito do moribundo com palavras consoladoras, ámanhã amortalhava o cadaver de outro por cuja existencia batalhára até a ultima. Era de justiça, mais do que justiça, indispensavel até conceder-se-lhe a mercê em que sua magestade dias antes havia falado com o ministro do reino, segundo este havia dito ao visconde de Coruche.

Uma manhã em que o visconde, fazendo a sua demorada toilette, se preparava para ir ao hospital, foi procural-o o conselheiro Poderosa.

—Sua magestade encarregou-me hontem de te procurar, fiado na amisade que existe entre ti e o Tristão da Almeida.

—Estou ás ordens de sua magestade, respondeu o visconde.

—El-rei deseja agraciar Tristão de Almeida com o titulo de conde, e mandou-me que te viesse procurar com o fim de lhe perguntares qual o nome que deseja juntar ao titulo.

—Quanto agradeço a honra que el-rei me dispensa, fazendo-me intermediario para um acto de tanta justiça! Tencionava hoje passar o dia em casa, mas, em virtude das ordens de el-rei, corro immediatamente a casa do meu amigo, afim de lh'o participar, e juntamente pedir-lhe que me diga o nome que deseja juntar a esse titulo.

—Nunca se fez um acto de maior justiça, disse o conselheiro.

—Escuso de te repetir que sou da mesma opinião.

—Realmente, tem-se portado como um heroe.

—E suas filhas?! e sua mulher! parece impossivel como tenham escapado a tantos perigos, acudiu o visconde.

—É um verdadeiro milagre da Providencia. Mas, aqui para nós, visconde, quem será esse Tristão de Almeida?

—Ora essa! Tristão de Almeida, segundo elle o diz, e eu o creio, descende d'uma das principaes familias de Monforte. Seu pae, homem d'um caracter excentrico e ao mesmo tempo muito gastador, quando se encontrou completamente arruinado, mandou este rapaz e um outro irmão para Val-Paraiso, para casa d'um primo que alli estava estabelecido com uma riqueza enorme. Vasco, seu irmão mais velho, ficou empregado na casa gerindo os negocios de seu primo, de quem era o unico herdeiro, emquanto que Tristão dotado de um genio mais energico e emprehendedor, seguiu uma vida aventureira. Ao cabo de cinco annos, isto peço-te que não contes a pessoa alguma, que foi dito confidencialmente por Tristão, ao cabo de cinco annos repito, já elle tinha feito cinco viagens a salvo, introduzindo na Havana uma grande porção de Chins. Feliz em todos os negocios que emprehendia, Tristão d'alli a dez annos estava archi-millionario. Achando-se uma occasião em Buenos Ayres viu n'um jornal que havia fallecido o seu parente, tendo deixado por unicos herdeiros a elle e a seu irmão.

—E seu pae? interrompeu o conselheiro.

—Já tinha morrido a esse tempo.

—Dias depois partiu para Val-Paraiso. A riqueza que seu primo deixara estava calculada em quatro mil contos. Ao cabo de um mez teve a desgraça de perder o irmão.

—Que fatalidade! murmurou o conselheiro.

—É verdade! vê tu que fatalidade! Tristão, continuou o visconde, reduziu toda a fortuna a dinheiro e partiu para a Europa, onde annos depois se casou com D. Maria Egypciaca, senhora do Minho, com quem fizera conhecimento uma das vezes que viera a Portugal.

—É um romance a vida d'esse homem.

—Tem coisas admiraveis! disse o visconde.

—Com que então, acudio o conselheiro, a sua fortuna póde calcular-se em...

—Cinco ou seis mil contos.

—Já se póde passar com isso!

—Agora, disse o visconde, é um homem d'uma generosidade incalculavel! Se tem cahido nas mãos dalguns individuos que nós conhecemos...

—Haveriam tirado um grande partido da sua bolsa, emquanto que tu...

—Como graças a Deus não preciso recorrer a ella; mas, se o fizesse, tenho toda a certeza que sempre a encontraria disposta a abrir-se-me.

—Eu tambem não digo que tenhas precisão, mas um homem d'esses, pode-se aproveitar para qualquer empreza, grande já se vê, e de que outros tirassem bom partido, tirando o elle tambem.

—Ainda não pensei n'isso.

—E as filhas são bonitas?

—Uma d'ellas, Magdalena, é um anjo de bondade e formosura.

—E a outra?

—Olympia? Também não é feia, mas é muito gorda. Essa representa o estomago, e a sua irmã o coração. Magdalena ama, suspira e desfaz-se em sentimento. Olympia come, dorme, e emquanto dorme sonha no que ha de comer ao despertar. Afóra isso, é uma creatura esplendida.

—Eis a mulher que me convinha, disse o conselheiro. Confesso-te que já não tenho outra distracção senão a meza. Seria capaz de me casar não pelo coração mas sim pelo estomago! Que verdadeiro achado seria para mim essa Olympia! Uma mulher com bom paladar, que deve infallivelmente saber fazer muito bons doces. Que dorme muito e que come muito!

—Mas tu d'antes não eras assim! disse o visconde accendendo um charuto. O teu typo era a mulher magra, vaporosa, sentimental. Gostavas das olheiras, das rosetas da febre, e sobretudo da pontinha de tosse, como regularmente se diz.

—Isso foi antigamente, meu amigo, quando eu tinha vinte annos, e conservava intacta a riqueza que herdei de meus paes. Porém agora, não; prefiro a mulher sadia, forte, que possa ser uma boa ama de leite para me crear os garotos, se porventura Deus me quizer conceder os deleites da paternidade.

—Como tu estás mudado, João!

—Que queres? são as circumstancias que me fazem assim pensar.

—Pois meu amigo, habilíta-te e terás em Olympia a mulher que te convém. Junta a todas essas qualidades, um dote de trezentos a quatrocentos contos de réis. Que tal, hein? Agora só te peço uma coisa: se á força da tua vontade, ajudada pelos meus esforços, conseguires realizar este sonho...

—Dirás.

—Has de fazer um novo fardamento ao teu guarda-portão.

—Approvo e desde já t'o prometto! Se Olympia fôr minha, o meu guarda-portão terá outro fardamento. Mas agora serio, ajuntou o conselheiro, eu ainda não estou feio de todo, falam por ahi do meu talento, sou filho de gente fina, que mulher se poderá esquivar a conceder-me a sua mão, muito mais, estando eu nas disposições em que me encontro, que é viver pura e simplesmente para comer e dormir e depois accordar para tornar a comer, sem que minha mulher nem os criados de casa me ouçam levantar a voz, a não ser que os pequenos me venham interromper o somno, amotinando me os ouvidos com algum tambor de feira?

—Estou d'accordo comtigo, e tanto, que se me falas serio, mas bem serio, entendes, farei com que Olympia te encontre alguma vez, e se te guiares pelos meus conselhos, vencerás a batalha. Se por ventura a fôres visitar ao hotel e falares com a tua futura, não te approximes da janella, erguendo olhares inspirados para o Tejo; não, longe d'isso, faz um gesto de profunda meditação, engatilhando ao mesmo tempo o ouvido em direcção ao corredor e aspirando o aroma das iguarias que se espalha na atmosphera. Não fales nem de flores nem de estrellas, discute-lhe as empadas do José Romão, e os pasteis de nata da rua da Rosa. Não lhe fales de Dumas nem de Eugenio Sue, conta-lhe a biographia de Vatel, promette-lhe a phisiologia de paladar de Brillat Savarin, e conta lhe isto, com os olhos radiantes de enthusiasmo, e as faces incendiadas pelo quinto peccado. Se assim fizeres, Olympia terá um conselheiro e o teu guarda-portão um fardamento novo!

—Convem-me, respondeu o conselheiro, e tu, ajuntou elle, porque não aproveitas a poetica Magdalena? O teu espirito ainda ás vezes infantil e sonhador, casar-se-ia admiravelmente com a sua organização. Então é que era, visconde: nós os amigos de tantos annos, casados com duas irmãs, que representavam já oitocentos contos e que representariam seis mil para o futuro!

—Se o quizesse fazer, não tinha senão dar o meu sim. Se tu soubesses o que tem ido por essa casa a meu respeito! Magdalena ama-me desde o primeiro dia que me viu. Orgulhosa de mais nunca se atreveu a declarar me o seu amor, mas de sobejo se lhe lê no olhar com que me contempla, na voz que lhe estremece quando por ventura me dirige a palavra, no gesto cuja melancolia me chega ás vezes a causar remorso. Eu tenho sempre feito que nada comprehendo, porém seu pae não o ignora nem a mãe. Falta só dizerem-me em voz clara, o sentimento que a minha presença inspirou á filha.

—Pois acho que fazes uma grande asneira, disse o conselheiro.

—Eu ás vezes também assim penso, mesmo porque talvez venha no futuro a sentir remorsos de ter concorrido para a morte d'aquella creança. Se tu soubesses quanto soffre. Aquelle ardente desespero com que Magdalena se lança a todos os perigos, penso eu ás vezes ser mais vontade que tem de morrer para não affrontar a minha indifferença, do que realmente caridade.

—Mas porque motivo não lhe retribues tu com muito amor, o affecto que essa creança te consagra?

—Porque a não amo, João. E como, graças a Deus, não estou na posição de me casar por necessidade, não quero sacrificar os longos annos que ainda me restam de vida, passando os ao lado de uma mulher, que nada tem a desejar, mas pela qual o meu coração não palpita de amor. O motivo é este, apenas este.

—Tens-me falado com seriedade em tudo isto? acudiu o conselheiro depois de alguns instantes de profunda reflexão.

—Dou-te a minha palavra de honra que tenho.

O visconde não mentia. Fiado ainda na sua belleza proverbial, e afeito a que todas as mulheres o estremecessem, pensou que esse sentimento que a pobre Magdalena nutria em silencio por Manuel de Mendonça, era o resultado de uma paixão que elle lhe havia inspirado.

Orgulhoso do seu nome, o visconde, apezar da inquestionavel vantagem que lhe poderia resultar d'esse enlace, não queria, diremos, baixar da sua dignidade entregando-se n'uma facil conquista, a essa mulher cujo coração o estremecia, a quem elle nunca poderia ter sido indifferente, attendendo á sua formosura e altas virtudes que a distinguiam.

Viu n'um relancear de olhos o proveito que poderia tirar, arranjando o casamento do conselheiro com a irmã de Magdalena. Por essa fórma viveria mais em familia, e se um dia, exasperada de amor e incendiada de paixão, Magdalena se lançasse em seus braços, pedindo-o em casamento, elle então do alto do seu throno de vaidade, extenderia a mão para lhe dar um sim de protecção. Eram estas as suas idéas, as que elle estreitamente guardava no fundo da sua alma.

Por isso não mentia, quando respondeu ao conselheiro que lhe estava falando a serio.

—Pois então, disse João Poderosa, visto não me teres illudido, digo-te tambem, e muito de coração t'o peço, que me auxilies n'esta tentativa, cuja realização póde fazer a tua e a minha felicidade. Pensa nos meios que temos a empregar; dirige-me em tudo se te apraz; serei um automato se m'o exigires, mas colloca-me ao contacto d'essa mulher. Agora, accrescentou elle, como se um mundo novo se desenrolasse a seus olhos, vou contar a el-rei o que se passou comtigo, e logo, sendo sete horas, antes de ir para o theatro, aqui te venho buscar. Ficamos certos?

—Pois não, respondeu o visconde, e á fé de quem sou te prometto, que em menos de um mez, Olympia será tua mulher.

Despedindo-se do visconde, o conselheiro seguiu para o paço.



«Vae tudo ás mil maravilhas, pensava elle. Com esta missiva official farei de Tristão quanto me aprouver! Tenho até a certeza que obteria a mão de Magdalena. E porque não hei de requisital-a? Requisital-a não, que ella m'a requisite. Se eu me curvava á filha de um Tristão de Almeida! Parece-me mais razoavel, accrescentou o visconde depois de alguns momentos de graves locubrações, fazer com que o Poderosa consiga a mão de Olympia; feito isso serei eu a entrar em scena. Por agora não, tratemos apenas do titulo. Quem tudo quer tudo perde!»

Vestindo-se em seguida, montou n'um magnifico cavallo inglez, e partiu a trote largo, dirigindo se para o hospital.

Proximo á calçada do marquez de Abrantes, viu que um homem o chamava de dentro de um trem. Estacando de repente o cavallo, approximou-se do postigo da sege.

Era Gil de Carvalho.

—Encontrei-o emfim, disse o jogador. Então onde se póde ver o seu amigo Tristão de Almeida?

—Aonde se póde ver? por ahi, respondeu o visconde.

—Não é isso o que eu queria dizer; perguntava aonde elle joga para lhe pagar as cem libras que sabe.

—Ah! o meu amigo Tristão de Almeida? esse já não joga, respondeu o visconde, mas se lhe quer pagar as cem libras, entregue-m'as, que eu lh'as darei.

—Peior é essa! exclamou Gil de Carvalho, suspendendo o movimento que fizera para tirar as notas da algibeira.

—Então não quer que lh'as entregue? repetiu o visconde, que começava a desconfiar da velhacaria do jogador.

—Suppuz que vinha prevenido, mas enganei-me, respondeu Gil de Carvalho. Ámanhã passarei por sua casa.

—Pois então adeus, meu amigo, disse o visconde, batendo as pernas ao cavallo.

Deixemos o visconde e Tristão de Almeida no jardim do hospital discutindo ácerca do nome que tencionam escolher para o titulo, e subindo pela rua do Conde, vamos a casa da pobre Martha, de quem não sabemos desde aquelle dia em que se prostrou sem sentidos ao ouvir a historia do mestre de obras.


XXIX

Magdalena, ao ver a cruel realidade das suas suspeitas, resolveu esmagar nos seios d'alma aquelle affecto que lhe era vida, e dirigindo-se a casa de Martha, exigir da sua amizade a revelação de todos os segredos.

Havia dias que a pobre criança, cada vez mais enfraquecida, parecia levantar os olhos a Deus, como pedindo-lhe pela sua infinita misericordia que a recolhesse na paz divina de seus braços.

Balbina e Jeronymo, sem se retirarem um só momento do lado de sua filha, erguiam de vez em quando os seus olhos supplices e inquietos para a Virgem da Conceição.

Martha não falava, afóra algumas palavras á tia Marianna, com quem abria inteira a sua alma.

Bem sabia Martha, que n'aquelle peito podia sem receio depositar todos os seus arcanos! A pobre velha havia-lhe jurado nunca revelar a pessoa alguma as confidencias que lhe depositasse no cofre do seu coração!



São duas horas da tarde. Martha na vespera havia peiorado! A febre, augmentando-lhe consideravelmente, dera graves receios ao doutor Hermenegildo, distincto facultativo do hospital do magnate.

Ouve-se o rodar de um trem, que pára á porta do operario, e, de dentro d'elle, envolta n'uma comprida capa de velludo preto, apeia-se uma mulher. É a filha de Tristão, Magdalena. Escusado seria dizel-o, que n'essa hora, Olympia, á mesa do lunch, saboreia em doce encantamento as altas locubrações d'um intelligente cozinheiro.

Contra o seu habito, Magdalena vem completamente só. O olhár e a pallidez do rosto, denunciam-lhe um soffrimento profundo. No pisado das palpebras, adivinha-se-lhe o rasto produzido pelas lagrimas. A sua voz, ordinariamente firme e sonora, perturba-se á mais pequena palavra, como receiando que as lagrimas lh'a interrompam! O descuidado da toilette, o desalinho dos cabellos, tudo emfim lhe descobre a tempestade em que se agita o seu coração!

Não era Magdalena, era apenas a sua sombra!

Bate á porta de Jeronymo, e Balbina vem abrir.

Ao vel-a n'esse estado, a mulher do operario não pode occultar o seu assombro.

Jeronymo secunda sua esposa na admiração.

—Mas que é isto! Valha-me Deus, minha querida menina, disse a mulher de Jeronymo voltando-se para Magdalena.

—Preciso falar-lhe em particular, e depois, com sua filha. O que me traz aqui, é grave e muito grave sr.ª Balbina.

Esta, fazendo toda a diligencia para que Martha se não apercebesse da presença de Magdalena, leva a para uma pequena alcova que deita para o quintal de Jeronymo, outr'ora tão cuidadosamente tratado, e triste ha uns tempos a esta parte, como o coração do seu cultivador.

—Estamos sós? perguntou Magdalena para Balbina.

—Tão sós que ninguem nos póde ouvir, respondeu Balbina sem comprehender o que se passava em torno de si.

—Em primeiro logar, como está a pobre Martha?

—Mal! bastante mal, minha boa menina, e tanto que, hoje o medico...

—O quê?

—Disse-me que me não illudisse, ajuntou Balbina agarrando se á amiga de sua filha.

—Pobre anjo! exclamou Magdalena apertando-lhe fortemente as mãos. E o que diz elle a respeito da sua doença?

—Que é toda moral, e portanto mais difficil de se lhe encontrar o curativo.

—E a que attribue a senhora isso? perguntou Magdalena fitando a mulher do operario.

—Eu sei! respondeu esta, tornando a resumir-se ao silencio.

—Seja sincera commigo, sr.ª Balbina, e lembre-se que ninguem n'este mundo será capaz de ser mais amiga de sua filha do que eu sou.

—Creio o bem, minha senhora.

—Pois então porque não abre commigo a sua alma? Diga me não deposita em mim bastante confiança no meu caracter? Olhe, continuou Magdalena, descobrindo inteiramente o rosto. Diga-me se n'estas feições adivinha a menor sombra de hypocrisia?

—Por Deus, minha senhora! acudiu rapidamente a mulher de Jeronymo.

—Pois então, Balbina, se acredita na lealdade de minha alma, seja sincera commigo, e fale-me como se eu fosse uma outra sua filha. Não imagina o prazer que me vae dar. Como eu serei feliz podendo desabafar n'um coração de mãe, quanta dôr existe n'este meu pobre peito.

—Já que tanto insiste, minha senhora, vou confiar-lhe um segredo, que nunca me teria atrevido a revelar, se não fosse conhecer a nobreza da sua alma! O que a minha filha tem, é uma paixão, paixão que a leva á sepultura.

—E esse homem que lh'a inspirou, é?... perguntou Magdalena, como se ainda uma pequena esperança lhe restásse.

—Esse homem é o commandante da galéra Esperança, o mesmo que descobriu aonde estava meu marido, na noite do dia em que foi atropellado por seu excellentissimo pae.

—Manuel de Mendonça! exclamou Magdalena.

—Elle mesmo!

—E elle?

—Nunca mais o tornou a ver.

—E como soube tudo isso? perguntou Magdalena.

Balbina então contou-lhe quanto se havia passado entre Jeronymo e a filha, não lhe omittindo a circumstancia d'estas terriveis palavras: «esse homem é amado pela filha do nosso protector.» Magdalena pensou morrer. A nobreza d'alma d'aquelle anjo, deixando se descer á sepultura, sem interromper o sentimento que dominava o coração de Magdalena, a sua generosidade, abandonando-lhe por assim dizer aquelle homem que ella amava, e de quem tinha a certeza de ser correspondida, tudo concorreu para que no seu coração immenso tambem como o de Martha, se formassem mil conjecturas tendentes todas á generosidade.

«Morrerei, pensava ella, mas salvarei este anjo que tão nobremente se me sacrificou. E que m'importa a vida? De que me serve este eterno martyrio? Vivam! que vivam para serem muito felizes, e abençoarem a minha memoria se eu concorrer como espero para a sua ventura!»

—Bem, ajuntou Magdalena voltando-se para Balbina, vá ao quarto de Martha, veja o estado do seu espirito e se ella estiver mais tranquilla, quero-lhe falar.

A pobre Balbina sem comprehender o choque que este encontro poderia produzir na alma de sua filha, apressou-se em cumprir as ordens de Magdalena.

«Parece que sobre a nossa familia peza uma grande desgraça, continuou a filha de Tristão de Almeida olhando para o pequeno horto. De que serve a enorme riqueza de meu pae! A sua alegria, é sempre aquella eterna mascara com que tenta encobrir as lagrimas que o devoram na eterna solidão de sua alma. Minha mãe, afeita a illudir, tem chegado a convencer-se que é muito feliz, não passando d'uma desgraçada! Eu, que tenho passado uma existencia de tristeza, no momento em que pela primeira vez na vida me poderia considerar venturosa, vem o destino, e corta-me rapidamente o fio da minha felicidade. Olympia, graças ao seu genio, é a unica fadada para a completa tranquillidade da alma! Vive e come, pobre irmã, que seria o mesmo que dizer-te: vive e sê feliz!

«Falarei com Martha, e hoje mesmo lançar-me-hei aos pés de meu pae, pedindo-lhe que d'esse dote dos quatrocentos contos que tantas vezes me tem promettido me conceda apenas cincoenta para dar a Martha, e depois de os ver ambos casados, felizes, abençoando a minha mão que lhe estreitou a sua ventura, eu então, ou buscarei a morte, ou fechar-me-hei entre as grades d'um convento!»

N'este comenos entrou Balbina. Martha havia accordado e esperava a visita de Magdalena.

Esta sem mais hesitar, entrou no quarto da criança, e, occultando a custo as lagrimas que a suffocavam, lançou-se sobre o leito abraçando a pobre amiga.

—Ha dias que desejo falar-lhe sobre um assumpto muito importante, porém, a sua eterna reserva para todas as pessoas que deveras a estimam, tem sido a causa de me não ter atrevido, disse-lhe Magdalena. Quem mais do que Martha possue corações verdadeiramente dedicados? accrescentou ella. Não vê que está offendendo a Deus que a protege? Porque pensa em morrer, minha amiga? Não vê que morrendo, mataria sua mãe, seu pae, e que fará soffrer a todos que se interessam pela sua vida? Por que motivo se tem occultado á sombra da sua agonia sem buscar um peito amigo com quem desabafe os seus desgostos? Não tinha minha irmã? Não me tinha a mim? á sua propria mãe? Quem melhor do que ella, podia ser a confidente dos seus segredos?

—Segredos! Eu? murmurou Martha.

—Sim, Martha; segredos e muito importantes. Não queira negar-me o que sei.

—Não tenho coisa alguma a negar, minha boa menina, respondeu Martha, como se já não tivesse forças para sustentar aquelle dialogo.

Insciente do mal que as suas palavras poderiam influir no espirito de Martha, Magdalena seguia apenas a que o seu coração lhe ordenava.

—Nunca amou ninguem, Martha? Seja sincera commigo. Deposite as suas magoas n'este coração que lhe quer tanto como se fosse sua propria irmã.

Os olhos da creança inundaram-se de lagrimas. A mentira jámais havia passado por seus labios! A infeliz não sabia que responder.

—Responda, minha irmã. Até hoje homem algum lhe feriu esse coração? Jura-m'o?

Haveria ainda algum vestigio de esperança no coração de Magdalena ao insistir n'aquellas perguntas? Sabia-o Deus e a sua alma!

Martha sem responder agarrou-se ao pescoço de Magdalena e desatou n'uma torrente de lagrimas.

—Perdôe-me, disse ella emfim, mas eu não sabia que o amava. Foi o primeiro homem que meus olhos viram. Havia tanta bondade, tanta nobreza no seu caracter! A quantas pessoas perguntei por meu pae, todas me responderam brutalmente que não sabiam quem elle era. Aterrada com a minha desgraça, encontrei-me só, completamente só. Então, appareceu o sr. Manuel de Mendonça; promptificou-se a procurar meu pae, e encontrou-o. Desde esse dia, a sua imagem ficou-me impressa na memoria. Quiz esquecêl-o, mas era-me completamente impossivel! Dias depois, vi-o. O que eu sentia na minha alma, foi crescendo, crescendo gradualmente, até que reconheci que o amava. Quando já era tarde foi então que comprehendi toda a loucura do meu sentimento, avaliando ao mesmo tempo a immensa distancia que nos separava. Um dia, descobri que esse homem era amado por quem melhor do que eu o merecia. A dôr quebrava-me a alma, mas a ninguem revelava a minha angustia! Desde então, minha boa amiga, entendi que o melhor era esperar resignada o momento em que Deus me chamasse á sua divina presença sem ter deixado no mundo um rastro de ingratidão! Ame-o, sr.ª Magdalena! Amem-se, que são dignos um do outro, e, se um dia se recordarem da pobre Martha, vão ambos, rezem-lhe uma oração sobre a sua sepultura, e lembrem-se da que está no reino dos tristes pedindo a Deus pela sua ventura e pela felicidade do sr. Manuel de Mendonça!

—E quem te disse a ti, filha, que esse homem era amado por mim?

—O meu coração, respondeu Martha, inclinando a cabeça no travesseiro.

—Illudiu-te, e o tempo t'o provará, respondeu-lhe Magdalena. Eu nunca o amei! accrescentou ella, empregando n'estas ultimas palavras todo o valor da sua alma. Eu só quero a tua felicidade, Martha.

—A minha felicidade está no céu, respondeu a infeliz, levantando os olhos para o tecto.

—Enganas-te! exclamou Magdalena. A tua felicidade está nos braços d'esse homem como a sua ventura deve estar n'um coração nobre e generoso como o teu! Já a mim mesma o prometti, irei hoje preparar o teu bem estar. Agora, filha, accrescentou Magdalena, que esses teus olhos se enxuguem para sempre, e que as lagrimas desçam sobre os meus para jámais os abandonar. E abraçando estreitamente a pobre creança, Magdalena sahiu do quarto, e sem quasi se despedir de Balbina, deixou a casa do operario e partiu para o hotel Bragança!