The Project Gutenberg eBook of O Conde de S. Luiz
Title: O Conde de S. Luiz
Author: Thomaz José de Mello
Release date: May 22, 2009 [eBook #28928]
Most recently updated: January 5, 2021
Language: Portuguese
Credits: Produced by Júlio Reis, Carlo Traverso, Leonor Silva and
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Nota de transcrição: O uso do hífen nesta obra é bastante inconsistente; o mesmo se passa com a ortografia. Assim, ocorrem por exemplo "entregara" e "entregára"; "ante-mão" e "antemão"; "dirigindo se" e "dirigindo-se". A grafia não foi harmonizada, por não ser possível determinar a intenção original do autor.
Índice:
- Capa
- Bibliotheca Portugueza Illustrada
- Capítulo I
- Capítulo II
- Capítulo III
- Capítulo IV
- Capítulo V
- Capítulo VI
- Capítulo VII
- Capítulo VIII
- Capítulo IX
- Capítulo X
- Capítulo XI
- Capítulo XII
- Capítulo XIII
- Capítulo XIV
- Capítulo XV
- Capítulo XVI
- Capítulo XVII
- Capítulo XVIII
- Capítulo XIX
- Capítulo XX
- Capítulo XXI
- Capítulo XXII
- Capítulo XXIII
- Capítulo XXIV
- Capítulo XXV
- Capítulo XXVI
- Capítulo XXVII
- Capítulo XXVIII
- Capítulo XXIX
- Capítulo XXX
- Capítulo XXXI
- Capítulo XXXII
- Capítulo XXXIII
- Capítulo XXXIV
- Capítulo XXXV
- Capítulo XXXVI
- Capítulo XXXVII
- Capítulo XXXVIII
- Capítulo XXXIX
- Epilogo
- Companhia Portuguesa Editora, L.da
Tabela de ilustrações:
- Capa
- Bibliotheca Portugueza Illustrada
- N'este momento a viuva acabava de assignar...
- —Como se acha? perguntou Martha levantando se da cadeira...
- —Vocemecê anda sobre as aguas do mar?...
- É de joelhos que lh'o imploro!
O Índice e a Tabela de ilustrações não estão presentes na edição original em papel.
Biblioteca Portuguesa Ilustrada
D. TOMAZ DE MELO
O CONDE DE S. LUIZ
LIVRARIA BARATEIRA
34, Rua do Duque, 36—T. Trind 1264—LISBOA
O CONDE DE S. LUIZ
EMPREZA da HISTORIA de PORTUGAL
SOCIEDADE EDITORA
LIVRARIA MODERNA: R. Augusta, 95 ‡ TYPOGRAPHIA: R. Ivens, 45 e 47
BIBLIOTHECA PORTUGUEZA ILLUSTRADA
Nova collecção economica a 200 réis o volume
Contendo 200 a 250 pag. com 5 illustrações originaes de pagina
É esta bibliotheca exclusivamente constituida por livros nacionaes, dos nossos melhores escriptores, custando cada volume de cerca de 250 paginas, em magnifico papel, com 5 illustrações originaes e expressamente feitas para esta publicação, apenas 200 réis, ou 300 réis, bellamente encadernado em capas especiaes a côres.
ROMANCES PUBLICADOS
Os Fidalgos do Coração de Ouro (Chronica do reinado de D. Sebastião) por M. Pereira Lobato. Dois vol., broc. 400 rs., enc. n'um só, em capas especiaes, 500 rs.
A Queda d'um Gigante, (continuação do antecedente). Um vol., broc. 200 rs., enc. 300 rs.
A Baroneza de la Puebla, (romance do seculo XVI, continuação dos 2 anteriores). Um vol., broc. 200 rs., enc. 300 rs.
Estandarte Real, (conclusão dos romances anteriores). Um vol., broc. 200 rs., enc. 300 rs.
Lição ao Mestre, por Teixeira de Vasconcellos. Tres vol., broc. 600 rs., enc. n'um só 700 rs.
A Mascara Vermelha, (romance historico) por M. Pinheiro Chagas. Um vol, broc. 200 rs., enc. 300 rs.
Juramento da Duqueza, (continuação do antecedente) por M. Pinheiro Chagas. Um vol., broc. 200 rs., enc. 300 rs.
Noites Perdidas, livro de contos, de Betamio d'Almeida. Um vol., broc. 200 rs., enc. 300 rs.
Esboços de apreciações litterarias, de Camillo C. Branco. Um vol., br., 200 rs., enc. 300 rs.
Conde de S. Luiz, por D. Thomaz de Mello. Um vol. br., 200 rs., enc. 300 rs.
A PUBLICAR:
Duello nas sombras, por A. F. Barata,—Annel mysterioso, de Alberto Pimentel, etc., etc.
ASSIGNATURA PERMANENTE
BIBLIOTHECA PORTUGUEZA ILLUSTRADA
X
D. THOMAZ DE MELLO
O CONDE DE S. LUIZ
ROMANCE ORIGINAL
SEGUNDA EDIÇÃO
LISBOA
Empreza da Historia de Portugal
Sociedade editora
|
LIVRARIA MODERNA R. Augusta 95 |
TYPOGRAPHIA 45, R. Ivens, 47 |
1903
I
Era no anno de 18*** N'um palacete proximo á Calçada de Santo André, vivia, em companhia de seu filho e de duas creadas, D. Marianna de Mendonça, filha bastarda de Manuel Pires de Athayde, que fôra em tempos de pouco saudosa memoria alcaide-mór da cidade de * * *
Poucos mezes antes de morrer, Manuel Pires de Athayde, entregára a sua filha dezeseis mil cruzados em dinheiro, afóra joias e outros objectos de valor, pedindo-lhe ao mesmo tempo que acceitasse por esposo a Alvaro de Mendonça seu primo co-irmão, moço serio e de bom porte, e, além d'isso, possuidor de riquezas quasi eguaes ás que o alcaide-mór lhe legava.
Recusando, a principio, o noivo que o pae lhe indicava, D. Marianna, por ultimo, não teve mais remedio senão acceder aos seus desejos.
Tres mezes depois, com grande alegria de todos os parentes, recebeu se com Alvaro de Mendonça na freguezia dos Anjos.
O pobre velho parecia apenas aguardar a realização d'este ultimo desejo para volver a alma ao Creador, entre as lagrimas da filha e dos amigos que o estremeciam. Ao cabo de oito dias de casada, D. Marianna ficava sem pae.
Manuel Pires de Athayde não se havia enganado na escolha; Alvaro de Mendonça era o exemplo dos maridos. A sua proverbial honestidade tornava-o estimado em todos os logares onde apparecia, acompanhado quasi sempre pela esposa, digna e respeitada como elle.
Ao fim d'um anno, a Providencia, prodiga em lhes proporcionar todas as venturas, concedeu-lhes a maior que póde dar aos que deveras se amam sobre a terra, e que medem o mundo todo, pelo curto espaço do seu domicilio: um filho.
Manuel—tal foi o nome do recemnascido—de dia para dia se tornava mais robusto. Era um gosto vel os á tarde por sobre os canteiros do seu pequeno jardim, correndo com o Manuelito, e disputando entre si, qual dos dois alegraria mais a creancinha.
Marianna, por esse tempo, teria uns dezoito a vinte annos, Alvaro trinta e quatro.
Amor, saude, mocidade, riquezas e um filho! Que lhes faltava para serem felizes?
Pelo espaço de doze annos, trabalhando mais do que as forças lh'o permittiam, afim de melhorar o futuro da creança, correu a vida de Alvaro de Mendonça, sem que uma só vez podesse D. Marianna deixar de levantar as mãos aos céus, para agradecer á Providencia o esposo que lhe havia concedido.
Uma circumstancia apenas lhes toldava de vez em quando o iris da sua felicidade; eram os continuos receios que um velho primo lhes infundia, sobre a precoce intelligencia do estremecido fructo dos seus amores patriarchaes.
«Não puchem pelo rapazola se o não querem ver no cemiterio, dizia-lhes elle muitas vezes. Um talento como este deve ser muito poupado. Se meu pae não me tem acudido a tempo, retirando-me do collegio, talvez lhes não estivesse agora dando este conselho. Eu fui o mesmo que o Manuelito; aprendi a grammatica portugueza de fio a pavio em menos de um mez. Não percebia bem o que dizia, é verdade, mas sabia tudo de cór, que era até um gosto ouvirem-me. Sabem o que fez meu pae? Annuiu aos desejos do mestre, que era um doidinho por mim, e retirou-me do collegio para que não estudasse mais. É certo que estou hoje sem saber coisa alguma, porquanto a grammatica esquece muito, mas pelo menos tenho vida e saude, que é o principal.»
A despeito d'estas e de outras judiciosas reflexões, Manuel continuou a frequentar a aula, onde era querido por todos os professores e condiscipulos. Estes, longe de lhes causar inveja o seu inquestionavel merecimento, todos á uma se ufanavam em lh'o proclamar.
Aos quinze annos já tinha feito os exames de philosophia e latinidade.
Quando mais venturosa sorria a existencia de Alvaro de Mendonça, coroada pelos louros de seu filho, a Providencia, como se já estivesse fatigada de lhe sorrir, fez com que o anjo da morte, descendo lentamente sobre o seu leito, lhe cerrasse para sempre os olhos.
D. Marianna de Mendonça, ainda que dotada de intelligencia clara e reflexiva, faltava-lhe comtudo aquella experiencia do mundo impossivel de conseguir a qualquer senhora que, como ella, tivesse vivido apenas entregue aos cuidados de sua casa.
Abatida pelo golpe que acabava de soffrer, muito fazia a infeliz viuva em administrar a sua casa de portas a dentro, e bem assim seguir a educação de Manuel, que de mez a mez fazia mais rapidos progressos, continuando a disfructar uma irreprehensivel saude, apezar de todos os prognosticos de seu primo, o ex-grammatico, que se não cançava de lembrar á viuva o absurdo da sua insistencia em que o pequeno continuasse no collegio.
Entre as pessoas que ordinariamente frequentavam a casa da viuva, distinguia-se o commendador Felix Justino de Araujo, homem probo e honesto para todos que tinham a honra de lhe merecer a sua confiança, o que elle prodigamente espalhava afim de conquistar as geraes sympathias.
Corriam varias edições ácerca da sua mysteriosa individualidade, chegando algumas pessoas a levar o seu arrojo a ponto de dizerem que o commendador não passava de um refinado velhaco, e que, mais dia menos dia, as suas gentilezas teriam de ser desmascaradas em praça publica; isto tudo, já se vê, proferido em voz baixa, depois de com elle terem gasto os joelhos das calças, nas respeitosas zumbaias que diariamente lhe dispensavam. É que já n'essa epocha, a raça de commendadores que hoje invade a capital começava a manifestar-se com toda a força do seu prejudicial desenvolvimento. Era muito de ver se como toda aquella gente o tractava no tocante a futeis banalidades. Riam-se uns dos outros, e todos em sua presença disputavam entre si, qual deveria ser o seu primeiro thuribulario.
Uns diziam que era viuvo, outros que era casado com uma mulher de baixa esphera, de quem tinha duas filhas, porém que se não atrevia a apresental-a na sociedade, em virtude das suas maneiras pouco distinctas.
A sua riqueza ninguem ao certo a poderia saber; porém o faustuoso luxo com que se tractava levava a suppôr que enormes rendimentos havia herdado da sua nobre ascendencia, cujos brazões nobiliarios fariam estremecer de inveja qualquer puritano.
Uma noite em que D. Marianna de Mendonça se queixava amargamente de um certo procurador, lembrou-lhe uma das suas amigas que talvez lhe fosse conveniente entregar a administração da casa ao commendador, se elle porventura a isso estivesse resolvido, e que ella mesma lhe falaria a tal respeito.
A viuva acceitou de bom grado o que a sua intima lhe propozera, e falando esta com o commendador, ao cabo de oito dias Felix Justino de Araujo tinha geral procuração para arrendar, subrogar, ou alienar qualquer propriedade, se por ventura assim o julgasse conveniente para o futuro do seu Manuel que, segundo o dizer do administrador, era tanto para elle como se fosse seu proprio filho.
Não tardou muito tempo que o magnate fizesse uso de uma das condições da procuração. Uma fazenda que Alvaro de Mendonça herdára por morte de uma tia, tres ou quatro annos depois de estar casado com a filha de Manuel Pires de Athayde, foi-lhe vendida em hasta publica. A venda fôra de um excellente resultado para a viuva, segundo o commendador affirmava, porquanto o seu principal rendimento eram arvores de fructa, e essas mais anno menos anno cairiam todas ao pezo d'uma epidemia que, segundo as suas observações agronomicas, teria de grassar d'alli a tempo, assaltando todas as fazendas sem exceptuar uma unica.
Em face d'esta cruel prophecia, quem se negaria a separar-se de qualquer terreno, por mais dolosa que fosse a venda?
O commendador empregou esse dinheiro n'uma industria cujo dividendo deveria exceder dez por cento.
Quasi todos deram os parabens á viuva pelo bom negocio que vinha de fazer, attendendo não só á grande differença do rendimento, como tambem a ter-se livrado d'esse terrivel cataclysmo, a que estava exposta conservando uma só arvore.
Assim decorreram dezoito mezes sem que D. Marianna tivesse a mais pequena razão de se arrepender da plena confiança que tinha depositado no seu administrador.
Por este tempo, Manuel, que havia saído do collegio, chegou se a sua mãe, dizendo-lhe que desejava partir para o Rio de Janeiro, afim de se dedicar á vida commercial, para que se sentia com decidida vocação.
Recordando lhe ao principio a loucura do seu projecto, a pobre mãe ponderou-lhe a pouca necessidade de buscar em terra estranha o que já possuia na sua patria: a riqueza.
Por essa epocha, os bens da casa montavam a uns trinta contos de réis, graças á herança que Alvaro de Mendonça havia recebido por morte de sua tia, e ás economias que a viuva fizera durante aquelle tempo.
—Com o dinheiro que possuimos, dizia-lhe sua mãe, poderás dedicar-te ao commercio, mas aqui em Lisboa. É verdade que não tens um unico parente que te proteja, mas, graças a Deus, temos meios. Partires, e deixares-me, filho, acho que será uma grande loucura, ajuntou ella, arrazando-se-lhe os olhos de lagrimas. Em todo o caso, farás o que te aprouver. Não quero que um dia me lances em rosto que o muito amor que te consagro foi a causa de cortar a tua carreira.
N'essa noite, quando appareceu o commendador, D. Marianna manifestou-lhe os desejos de Manuel.
—Que vá, respondeu elle rapidamente. Seu filho é activo, audaz, intelligente e emprehendedor. Póde um dia, se Deus o ajudar, vir a ser um grande homem. Não tenho filhos, acrescentou, porém se um dia os tiver, nunca os hei de contrariar nas suas resoluções, se ellas forem justas como as de Manuel.
—Mas que precisão tem elle de expôr a sua saude n'um clima tão perigoso? Trinta contos ou perto d'elles que possuimos não será o sufficiente para se viver em qualquer parte do mundo?
-Porém se seu filho é ambicioso, e capricha em adquirir um capital pelo seu trabalho, é justo que sua mãe lhe impeça a sua determinação? Faça o que quizer, mas tome o meu conselho, deixe-o partir. Deus ha de guial-o, porque Manuel é bom, honesto, moral e, sobre todas estas coisas, muito trabalhador.
—E que dinheiro se lhe deve entregar, sr. Felix? dez contos, quinze, vinte... que lhe parece?
—Vossa excellencia está louca! acudiu apressadamente o commendador. Entregar contos de réis a um rapaz da edade de seu filho! Lançar Manuel n'um paiz como o Rio de Janeiro, proporcionando-lhe os meios de se perder! Nem por sombras! Quaes contos de réis! Com seis moedas desembarquei eu em S. Paulo, e ao cabo de doze annos possuia uma fortuna para cima de dez mil libras! Contos de réis! Só essa me faria rir! A passagem paga, meia duzia de moedas, e as cartas de recommendação que para ahi lhe entregarei, são mais do que o sufficiente.
—Mas não me disse v. ex.ª que meu filho era um rapaz de juizo, honesto e moral? Que receio teremos em lhe entregar o que realmente lhe pertence? Não é elle o meu unico herdeiro?
—Fará vossa excellencia o que entender, e se lhe quer entregar tudo quanto possue, faça-o; está no seu direito, e lavo d'ahi as minhas mãos. Se quer que lhe preste as minhas contas, estou muito prompto a fazel-o. Sabe que o unico interesse que tenho em tudo isto é apenas o seu bem estar, e o futuro de Manuel. Se quer estragar tudo quanto tenho feito em seu proveito, é senhora das suas acções, póde fazel-o, que desde este momento me considero desligado de todos os meus encargos.
Esta linguagem, rude mas na apparencia sincera, produziu no animo debil de D. Marianna o resultado que o commendador desejava. Affeita a obedecer-lhe em tudo, havia-se deixado dominar completamente por aquelle homem que, segundo a opinião de todas as pessoas que frequentavam a sua casa, havia sido um anjo salvador.
Dois annos depois da sua administração, os vinte contos de réis, que rendiam á viuva cem mil réis por mez, haviam subido a um rendimento de um conto e seiscentos por anno, graças á applicação que elle dera a esses capitaes. Quanto ao producto da propriedade, era um segredo, que mais dia menos dia seria revelado como surpreza agradavel. Que razão teria ella para o arguir de mau administrador?
Estas e outras circumstancias faziam com que D. Marianna obedecesse cegamente a quanto elle lhe impunha.
No dia immediato, Manuel chegou-se a sua mãe, afim de saber o que se havia passado entre ella e o commendador.
—Sinto deveras que me queiras abandonar, porém se essa é a tua vontade, vae, e que as minhas orações, acompanhando-te sempre, te possam salvar de todos os perigos. Quanto a dinheiro ajuntou ella, esperançada em que o commendador se resolvesse a entregar-lhe maior quantia, dir me-has quanto necessitas.
—Nunca pedi contas nem a minha mãe nem ao sr. commendador, mas supponho que não farão grande differença nos capitaes que devemos possuir quatro ou cinco contos de réis para me estabelecer, mas ainda assim, se minha mãe suppõe que essa quantia é muito avultada, contentar me-hei com menos, ou por ultimo, com aquillo que julgarem conveniente. É tudo quanto tenho a dizer-lhe, accrescentou elle, pregando os olhos no olhar turvo e entristecido de D. Marianna.
No dia seguinte a viuva foi ao escriptorio do commendador e contou lhe o que passára com Manuel.
Felix de Araujo, depois de a ter escutado, insistiu serenamente em que seria uma grande loucura entregar a seu filho uma quantia superior a essa de que tinham falado na vespera, repetindo porém, que estava no seu direito de fazer o que lhe aprouvesse.
Todos os espiritos, por mais debeis que sejam, teem um momento na vida, em que uma circumstancia, ou um milagre providencial lhes dardeja um raio de valor.
A maneira, o gesto, o olhar, com que a viuva fitou o commendador, foram sufficientes para que elle comprehendesse que todos os esforços seriam inuteis. D. Marianna estava resolvida a entregar a seu filho a quantia que elle lhe havia, senão pedido, pelo menos indicado.
Não havia remedio! Era forçoso entregar esse dinheiro no momento em que lhe fosse exigido, para que se não realisassem certos boatos que lhe tinham chegado aos ouvidos, de que mais dia, menos dia, as suas gentilezas seriam desmascaradas!
—Seja o que vossa excellencia quizer, disse elle, depois de alguns instantes de reflexão. Que quantia quer?
—Quatro a cinco contos de réis. Como tudo o que possuo é em dinheiro, não haverá duvida em os receber por estes oito dias.
—Oito dias! replicou o commendador, simulando grande tranquillidade de animo, hoje mesmo se vossa excellencia quizer; não tenho mais trabalho do que tiral-o d'aquelle cofre, ajuntou elle, apontando para um grande armario de ferro.
—Posso portanto ficar tranquilla?
—Póde, mas lembre-se, minha senhora, que vae fazer a desgraça de seu filho. Conheço o Rio de Janeiro, e sei o que póde succeder a um rapaz da edade de Manuel, achando-se possuidor de similhante quantia.
—Será o que Deus quizer, respondeu a viuva despedindo se.
Quem, momentos depois, commettesse a indiscrição de o espreitar, no pequeno gabinete do escriptorio, conheceria immediatamente pela sua perturbação, que os trinta contos de réis em que consistia a fortuna d'aquella familia não estavam tão seguros quanto ella os julgava.
Oito dias depois, quando tudo estava preparado para a viagem de Manuel, sua mãe dirigiu-se a casa do commendador, afim de receber os cinco contos de réis, e encontrou-o sereno e bem disposto, mas insistindo ainda em que tão grande quantia seria prejudicial a um moço inexperiente como seu filho.
—Já disse ao sr. commendador o que tinha a dizer-lhe, respondeu D. Marianna, sentando-se tranquilamente a seu lado.
—Visto não haver meio algum de a convencer, queira vossa excellencia ter a bondade de me passar um recibo d'esse dinheiro. Levantando-se serena e fleugmaticamente, o commendador dirigiu se ao armario de ferro, tirou de dentro d'elle um pequeno cofre e collocou-o sobre a secretaria de que D. Marianna se tinha approximado para passar o recibo. O commendador, depois de contar os maços de notas de dez moedas, poz junto de D. Marianna os que prefaziam a quantia exigida.
N'este momento a viuva acabava de assignar o recibo.
—Se não fosse a profunda sympathia que vossa excellencia sempre tem sabido inspirar-me, creia que de hoje em deante, deixaria de lhe administrar os seus bens, e pedir-lhe-hia que mandasse buscar vinte e sete contos de réis que alli tenho n'aquelle cofre; digo que os mandasse buscar, porque grande parte d'esse dinheiro está em ouro e em prata, com que vossa excellencia não poderia. Não o faço, porque além de todas as outras circumstancias, affeiçoei-me ao Manuel, mais do que se elle fosse meu proprio filho, como já uma vez lh'o disse.
Se algumas desconfianças começassem a agitar o espirito da viuva, todas se desvaneceriam em presença d'esta scena. Havia uma dupla intenção nas palavras do commendador: a primeira inspirar á viuva profunda confiança no deposito dos seus capitaes; a segunda, evitar ainda a entrega dos cinco contos de réis. A primeira saiu-lhe bem, a segunda não foi tão favoravel.
—Então quando é a saida da galera? perguntou elle a D. Marianna.
—Ámanhã, ás duas horas da tarde.
—Não me comprometto a ir ao bota-fóra; ser-me-ia penoso acompanhal-o ao começo da estrada da sua infelicidade.
—Será o que Deus quizer, respondeu tristemente a pobre mãe, pegando nos maços de notas e mettendo-os dentro do seu sacco de veludo.
Cinco minutos depois, acompanhada pelo commendador, entrava D. Marianna para uma sege, e seguia caminho de casa.
No dia seguinte, ás duas horas da tarde, desprendendo se dos braços de sua mãe, entrava Manuel de Mendonça na galera Boa Ventura, e ao cair da tarde perdia de vista o que ha de mais caro na vida: mãe e patria.
«Acautele-se do commendador» foram as ultimas palavras que Manuel dissera a sua mãe.
Ao cabo de tres mezes, a viuva recebeu uma carta de seu filho, em que lhe participava que tinha chegado depois de uma feliz viagem, e que esperava em pouco tempo estabelecer-se vantajosamente com uma casa commercial.
Assim passaram mais oito mezes.
As mezadas que D. Marianna recebia de Felix de Araujo continuavam a ser-lhe entregues com a mesma religiosa pontualidade, o que fazia com que todas as pessoas que chegaram a duvidar da honestidade do commendador começassem a proclamal-o homem de evidente credito.
Durou isto perto de um anno. As cartas que Manuel escrevia a sua mãe eram cada vez mais consoladoras. N'algumas, mandava-lhe dizer que os seus maiores desejos seriam tel-a a seu lado.
Um dia, finalmente, escreveu lhe seu filho, mandando-lhe pedir encarecidamente que retirasse quanto antes os capitaes que tinha na mão do commendador, porque lhe tinham dado as peiores informações a seu respeito, sendo a primeira não se chamar Felix Justino de Araujo, mas simplesmente Domingos de Andrade.
Afflicta com esta carta, a infeliz senhora procurou um advogado, que fôra muito amigo de seu defunto marido, e communicou-lhe os seus receios.
N'esse mesmo dia, o doutor acompanhou-a a casa do commendador. Este, ao vel-a, comprehendeu immediatamente do que se tractava.
—Tencionando retirar-me para o Rio de Janeiro, venho prevenir vossa excellencia de que desejo levantar da sua mão os capitaes que honestamente me tem administrado. Se não fosse o desejo de ir ver meu filho, continuaria a aproveitar me da zelosa e desinteressada administração do sr. commendador.
—E sabe vossa excellencia se n'este momento lhe poderei entregar esse dinheiro? Não m'o confiou para negociar, afim de que tivesse maiores lucros do que estando na sua mão? Na vespera de seu filho partir para o Brazil, quando dei a vossa excellencia os cinco contos de réis, que me exigiu, não me promptifiquei a entregar lhe quanto aqui tivesse? Vossa excellencia não comprehende a possibilidade de que esse dinheiro esteja empregado em qualquer negocio, e de que n'esse caso me seja difficil devolver-lh'o de um momento para o outro? Felizmente não succede assim, pelo que dou graças a Deus! Quanto o estimo! Vossa excellencia, por qualquer circumstancia, deseja retirar das minhas mãos os seus capitaes, e não tem o sufficiente valor de m'o dizer de cara a cara! Pois, minha senhora, continuou elle, simulando um gesto de profundo resentimento, e levantando um pouco a voz, eu, que tenho a coragem das minhas acções, escudado pelo meu nome e pela minha honestidade, declaro aqui, alto e bom som, que sou eu que exijo, que vossa excellencia retire d'aqui os seus fundos, e quanto antes.
Havia tanta dignidade nas palavras do commendador, a sua voz era tão firme, tão altivo e tão seguro o seu olhar, que D. Marianna chegou a convencer-se de que era uma ingratidão o que vinha de fazer.
—Ha perto de quatro annos, continuou o commendador dirigindo se ao advogado, que eu administro os bens d'esta senhora. O seu rendimento, que não chegava a um conto e duzentos por anno, subiu a um conto e seiscentos. Uma propriedade que lhe valia o muito quatro contos de réis, vendi-lh'a e appliquei o producto d'ella n'um negocio, que rende para cima de doze por cento. Que necessidade tenho eu d'isto tudo? Tenho empregado trabalho e tempo; e preciso eu por ventura de capitaes alheios para fazer as minhas transacções? Escusado será dizer que não. Para que o fiz? Para o seu bem! Boa paga, não haja duvida. Que esta lição me sirva! Pois, minha senhora, ajuntou elle, voltando-se para D. Marianna, rogo a vossa excellencia que ámanhã, sem falta, até ás onze horas da manhã, encarregue alguem de me tomar contas, e queira vossa excellencia vir tambem, afim de me passar recibo do dinheiro que tenho na minha mão. Hoje mesmo, se lhe fosse possivel, apezar de ser tarde, muito prazer me daria.
—Ámanhã aqui estarei, visto assim o exigir, respondeu D. Marianna, olhando ao mesmo tempo para o advogado, como que esperando a sua opinião.
—Sendo onze horas aqui viremos, disse o jurisconsulto, despedindo se do commendador.
—Que lhe pareceu? perguntou a viuva ao chegarem á porta da rua.
—Um homem honesto, ferido pela ingratidão que acaba de receber, respondeu fleugmaticamente o doutor. Em todo o caso, accrescentou elle, faça vossa excellencia o que quizer; sendo dez horas estarei em sua casa.
No dia immediato, conforme haviam combinado, apresentou se o advogado em casa de D. Marianna de Mendonça.
Ás onze horas metteram-se n'uma traquitana, e dirigiram-se ao escriptorio do commendador.
Contra todos os usos da casa ainda estava fechado.
—Que lhe parece isto? perguntou D. Marianna ao advogado, com mais receio do que na vespera ao perguntar-lhe como lhe havia parecido.
—Que é um homem ferido pela ingratidão, e que anda a tratar de levantar dinheiro para a embolsar d'essa quantia, respondeu elle ingenuamente.
Momentos depois começaram a apparecer varios individuos. O physionomista que de perto os observasse, veria em todos elles a mesma sombra de receio que se revelava no rosto pallido e transtornado de D. Marianna de Mendonça.
D'alli a duas horas ainda Felix de Araujo não tinha apparecido.
—Que lhe parece isto tudo doutor? dizia a viuva ás cinco horas da tarde, olhando para o advogado, que a contemplava com uma physionomia alvar.
Que é um refinado ladrão que nos deixa a todos desgraçados! accudiu um individuo que ouvira a pergunta feita pela viuva.
O commendador Felix Justino de Araujo havia fechado o escriptorio. Domingos de Andrade fugira, roubando dinheiro a todos aquelles que, como D. Marianna de Mendonça, o haviam depositado nas suas mãos.
Cinco dias depois D. Marianna, com a razão perdida, entrava para a casa dos doidos no hospital de S. José.
II
Pelos fins do anno de 1858, vivia n'uma pequena casa da Rua do Meio, freguezia de Nossa Senhora da Lapa, Jeronymo de Almeida, honrado mestre de obras, em companhia de sua mulher e de uma filha de dezeseis annos, chamada Martha. A excentricidade de caracter do operario, fazia com que todos os visinhos o detestassem. Para elle, não havia domingos nem dias santificados que o obrigassem a distrair-se do seu trabalho. A sua janella encontrava-se sempre fechada.
O cultivo do microscopico jardim era a unica distracção que n'esses dias se permittia. Alli entre sua mulher e sua filha, Jeronymo mondava o pequeno canteiro de hortaliça, que duas horas depois tinha de fazer as delicias da refeição domingueira. No armario da cozinha, esperava desde a vespera a garrafa do Cartaxo que figurava á sua meza, sobria sempre, porém honradamente disfructada com o suor do rosto.
Emquanto Jeronymo trabalhava no pequeno horto, Balbina, a esposa, assentada na cadeira de costura, largava apenas a agulha para agradecer a Deus o marido que a Providencia lhe havia destinado.
Martha, a preguiçosa Martha como Jeronymo n'esses dias lhe chamava, escondia os ferros de engommar, para seguir seu pae, sorrindo-se e gracejando a cada passo que elle dava pelo jardim.
Toda a visinhança da rua do Meio se mordia de despeito ao contemplar a beatifica tranquillidade d'aquella pobre mas venturosa familia; até uma sobrinha do sr. regedor, que se finava de inveja ao contemplar os olhos verdes de Martha, chegou a dizer ao sr. padre prior que era impossivel que toda aquella gente não tivesse grande peccado na consciencia, attendendo á constante reclusão em que vivia. O sacerdote, que conhecia o invejoso caracter da menina Gertrudes, passou de leve sobre o caso, e contentou-se apenas em responder-lhe que era tal a confiança que depositava na virtude d'aquella familia, que não teria duvida alguma, embora se sacrificasse a pôr fóra de casa a velha ama, a admittir Martha a viver em sua companhia, entregando-lhe nas mãos as chaves da dispensa, e tudo quanto possuia de mais valor. Gertrudes desanimou na lucta, contentando se apenas em desacredital-a em voz baixa, quando por ventura alguma das amigas lhe falava a seu respeito.
Defronte da casa de Jeronymo morava uma pobre velhinha, que se tornava um mysterio para toda a visinhança, passando apenas despercebida da familia do operario, pouco affeita a importar-se com as vidas alheias. A apparencia de sua casa, o seu trajar emfim, tudo revelava summa pobresa, porém nunca a sua mão se estendeu a pedir o obulo da caridade.
A velha costumava sair todas as manhãs a fazer as compras. Um dia a porta conservou-se fechada, e a tia Marianna, segundo lhe chamavam, não apparecia. Ou por curiosidade, ou por interesse, não faltou quem lhe batesse ao postigo. Em resposta ouviram-se apenas uns gemidos. O regedor chamou dois cabos de policia e mandou immediatamente arrombar a porta. Encontraram-n'a exanime sobre o leito. A infeliz havia adoecido com a febre amarella; foi esse um dos primeiros casos que se dera na freguezia da Lapa. Atterrados, não houve quem quizesse approximar se da enferma. Não tardou muito que o facto transpirasse por toda a visinhança. No momento em que o regedor, dois metros affastado da porta, dava as suas ordens para que fossem buscar a maca afim de conduzirem a velha ao hospital da rua do Sol, Martha, a loira Martha, saiu de casa e atravessou a rua, dirigindo-se ao logar do sinistro.
—Onde vae a menina? perguntou o sr. Venancio da Conceição.
—Levar esta gotta de caldo á visinha, respondeu Martha ao previdente regedor.
—Não consinto similhante loucura! disse elle; a velha foi atacada pela febre amarella, e vae immediatamente para o hospital.
—O que vocemecê não me póde impedir, é que eu pratique uma obra de caridade; e demais, veja se está no seu direito de mandar para o hospital uma pessoa que se póde curar em sua casa.
—Essa mulher não se póde tratar em sua casa, não tem familia.
—E quem lhe disse ao sr. que não tem quem a trate? acudiu Martha, afastando o regedor e dirigindo se para o interior da casa da tia Marianna. Ora essa! ajuntou ella, e se eu a quizer tratar, ha de alguem oppôr-se?! Creio que não. Com sua licença, sr. regedor; e entrando animosamente, dirigiu-se a uma alcova, onde a desgraçada, extorcendo-se em dolorosas agonias, cravava os olhos n'um pequeno crucifixo, collocado sobre uma commoda.
Os cabos, regedor, e todos quantos alli se encontravam, olhavam-se mutuamente sem proferir uma só palavra.
—Assim o quer, assim o tenha, disse a auctoridade, depois de alguns instantes de reflexão. Se ella fosse minha filha ou coisa que me pertencesse, por certo que não havia de lá entrar. Eu cá é que não tomo nada, acrescentou elle olhando com receio para dentro da casa.
Instantes depois, saía Martha de casa da velha.
—Mandem chamar immediatamente um medico, disse ella voltando-se para o regedor. Póde ser que ainda lhe possamos acudir. Pelo facto de ser uma pobre mulher, bem vê que não a devemos deixar morrer ao desamparo. E dizendo estas palavras, tornou a entrar para dentro da casa da tia Marianna.
—Vá á botica pedir soccorros, disse o regedor, voltando se para o cabo geral, e que venham immediatamente; porquanto, esta mulher pelo facto de ser pobre, não devemos deixar morrer ao desamparo, ajuntou elle, secundando as palavras de Martha, e repetindo-as como se fossem suas proprias.
O cabo geral, sem mais hesitar, voltou as costas aos circumstantes, e resmungando subiu a rua do Meio, dirigindo-se aonde a auctoridade o havia mandado.
Não tardou muito que á porta da tia Marianna se ajuntasse um circulo de curiosos. As visinhas a quem o terror da cruel epidemia havia infiltrado nos animos o mais terrivel desalento, debalde vociferavam contra a estulta caridade de Martha, e a pueril condescendencia do regedor, em annuir aos desejos da filha do mestre de obras. Revestindo-se emfim de todo o seu poder, o sr. Venancio da Conceição convenceu o auditorio, repetindo-lhe pela segunda vez, que, pelo facto da tia Marianna ser uma pobre, não a deviam deixar morrer ao desamparo.
N'este comenos, appareceu o mestre Jeronymo.
—A sua filha está doida de todo! diziam uns.
-Já tres vezes que vamos avisar a sr.ª Balbina para que a retire d'aquella casa e ainda não houve meios, acudiu uma ajuntadeira de calçado, que nem por isso gozava de muitos bons creditos na visinhança.
—Que loucura! que loucura! dizia a capellista.
—Parece que está a zombar da cholera do Senhor! acudiu respeitosamente a tia Monica, beata que vivia de resas por conta das fidalgas de Buenos Ayres, quando os seus affazeres não lhe permitiam conversar com o Todo Poderoso por conta propria.
—Se Deus a arrasta ao leito da moribunda, elle mesma a salvará, respondeu fleugmaticamente mestre Jeronymo, lendo-se-lhe, apezar de tudo, um certo receio pela vida da criança que estremecia.
—Muito estimo que assim penses, acudiu Balbina, que saira n'este momento de casa. O mesmo pensei eu quando Martha me foi pedir uma gotta de caldo; entregando-lh'o, entreguei a a Deus.
—Pois olhe, sr.ª Balbina, disse a capellista, fosse ella minha filha, não lh'o consentia.
—Cada qual tem o seu modo de pensar, sr.ª Margarida, e Deus fez-me assim; mas deixemo nos de mais dize tu, direi eu, e vamos a ver o que se poderá fazer por aquella infeliz. E sem mais reflexionar, entrou n'esse recinto mortuario, por onde momentos antes sua filha havia desapparecido.
—Avé Maria, cheia de graça, o senhor é comvosco, benta sois vós, dizia a beata. Forte impostora! accrescentou ella; aquillo não é senão para se fazer valer na visinhança.