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O Conde de S. Luiz

Chapter 35: XXXII
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About This Book

The narrative follows D. Marianna de Mendonça, who, after accepting an arranged marriage to Alvaro de Mendonça, celebrates the birth of their son Manuel before becoming widowed. The widow devotes herself to raising and educating Manuel, whose precocious intelligence and robust health provoke admiration and anxiety among relatives, especially a cautious cousin who warns against overtaxing him. The story traces domestic life, parental devotion, social expectations, and recurring fears for the child's future, depicting family relationships, episodes of illness and medical interventions, and tensions between protection and schooling across many chapters.

É de joelhos que lh'o imploro! (pag. 213)

XXX

Ao chegar ao hotel de Bragança, Magdalena encontrou sua mãe louca de alegria. Já tinha sabido por Tristão e pelo visconde de Coruche, a mercê que sua magestade acabava de lhe offerecer.

—Um abraço minha filha! exclamou D. Maria Egypciaca. El-rei, attendendo aos serviços que temos prestado ao paiz durante a epidemia, acaba de encarregar o conselheiro Poderosa, de perguntar a teu pae que nome deseja dar ao titulo de conde que lhe vae ser concedido. Fique portanto sabendo, accrescentou ella, que d'aqui a pouco tempo será filha de uma condessa! Que te parece Olympia?

—Parece-me que sua magestade acaba de nos dispensar uma grande honra, respondeu Olympia, para dizer qualquer coisa a sua mãe.

—Mas que vejo, Magdalena! disse D. Maria Egypciaca, voltando-se para sua filha. Que tens tu? meu Deus! que terrivel pallidez!

—É tão grande a alegria que nossa mãe experimenta só com a ideia do titulo, que nem sequer reparou para o estado em que te encontras! Doe te a cabeça, Magdalena?

—Não, respondeu ella; comtudo, sinto-me alguma coisa indisposta.

—Pois faz a diligencia de te animares! É de suppôr que venha cá hoje passar a noite o conselheiro Poderosa. Já pedi a tua irmã quasi de mãos postas que se fizesse mais amavel. Veremos como se porta.

—Preciso falar-lhe, minha mãe, interrompeu Magdalena, dirigindo-se a D. Maria Egypciaca.

—É negocio grave, pelo que vejo! Succedeu alguma novidade no hospital?

—Não, por certo. É outro assumpto inteiramente diverso.

—Não podemos falar aqui mesmo? perguntou a futura condessa.

—Já disse a minha mãe que era uma coisa em particular.

D. Maria Egypciaca, seguida por sua filha, entrou no gabinete de Tristão, aonde varias vezes temos conduzido o leitor.

—Que queres pois? perguntou ella, reclinando-se commodamente sobre uma cadeira á voltaire.

—Venho prevenir minha mãe que desejo entrar para um convento antes do prazo de um mez.

—Estás doida, ou variada! exclamou ella como se não acreditasse nas palavras que escutava.

—Nem doida, nem variada! respondeu Magdalena. É uma resolução de que ninguem será capaz de me afastar.

—Mas que te impelle a similhante determinação? Explica-m'o. Quem melhor do que tua mãe poderá ser tua confidente.

—Basta que o saiba Deus, em cujos braços me quero occultar, respondeu-lhe serenamente Magdalena.

—Esta rapariga enlouqueceu! acudiu D. Maria.

—Já respondi a minha mãe que não estava louca, nem tão pouco variada, accrescentou Magdalena sentando-se no sophá.

—Agora que, escudadas por um titulo, vamos brilhar como ninguem na sociedade, é que te queres retirar a um convento?

—Quero agradecer ao Senhor os beneficios que lhe devo, recolhendo-me sob os tectos da sua habitação.

—Jámais t'o consentiria, e muito menos teu pae.

—Torno a dizer a minha mãe, que pessoa alguma poderá impedir a minha resolução.

—Mas que pretendes, filha? Amas alguem? Receias que teu pae se opponha á tua vontade? Fala, fala por Deus, mas não me atormentes! Eu que esperava anciosa a tua vinda para te participar a alegria em que estavamos! Que esperava, emfim, passar uma noite agradavelmente na companhia do visconde e do conselheiro Poderosa, o encarregado por sua magestade de nos offerecer o titulo.

—Não queria falar em coisa alguma com meu pae, sem primeiro lhe dizer as minhas intenções, ajuntou Magdalena com um sangue frio imperturbavel.

—Ah! exclamou D. Maria Egypciaca, levantando-se rapidamente da poltrona. Comprehendo agora que não eram infundadas as desconfianças de teu pae.

—Que desconfianças? perguntou Magdalena.

—Que amas...

—Eu?

—Tu, sim...

—Quem? perguntou Magdalena tornando se cada vez mais pallida.

—O visconde de Coruche!

—Que testemunho! Já disse uma vez a minha mãe, que nunca amei, nem seria capaz de amar o visconde.

—Assim me queres convencer...

—Nunca tentei illudir pessoa alguma, e muito menos a meus paes.

—Então outro homem?

—Não posso amar! respondeu Magdalena cada vez mais perturbada.

N'este momento abriu-se a porta do gabinete, e entrou Tristão de Almeida.

Ao contemplar a physionomia de Magdalena, a sua filha predilecta, o pobre pae sentiu um estremecimento que lhe toldou a côr do rosto! Julgou-a atacada pela febre.

—Saberás, disse D. Maria Egypciaca, que n'um dia, para nós de tanto regozijo, a tua filha...

—O quê? perguntou Tristão, voltando-se para sua mulher.

—Quer recolher-se a um convento?! respondeu D. Maria.

—Recolher-se a um convento!? perguntou Tristão como se não acreditasse em similhantes palavras. Recolher-se a um convento! accrescentou elle, voltando-se para Magdalena. Tu, filha da minha alma? Abandonares-me? Tu que és a unica ventura da minha vida? Mata-me primeiro, e depois, faze o que te aprouver! Sabes o que significa essa palavra «deixares me!» Ignoras que só tu me tens sustido a existencia? Não conheces inteira a minha vida? Não te contei todos os sacrificios que tenho feito por tua causa? Desconheces o que fiz para te ganhar um patrimonio; para ti, só para ti, que és a vida da minha vida? Deixares-me! quando a existencia começa a sorrir-me... quando os meus cofres cheios de ouro se despejariam ao teu mais pequeno capricho? Deixares-me quando a gloria desce sobre a nossa familia, não digo por esse titulo que não passa de uma miseria, mas pelo que temos feito por esses desgraçados. Se amas alguem, bom ou mau, rico ou pobre, dize m'o, e farei tudo para me não separar do teu lado. Se fôr bom, abraçal-o-hei, se mau, tu o tornarás bom, Magdalena! Pobre, o meu ouro o fará enriquecer, e tu verás cumpridos os teus desejos. Mas deixar-te? Nunca, torno a repetir t'o!

—A minha resolução é inabalavel; comtudo, antes d'isso, tenho um grande favor a pedir lhe:

Tristão parecia attendel-a sem consciencia de vida.

—Segundo meu pae muitas vezes m'o tem dito, o meu dote é de quatrocentos contos?...

—O teu dote é tudo quanto eu tenho, Magdalena, respondeu-lhe Tristão, e se ainda mais quizeres, accrescentou elle, mais ainda serei capaz de te adquirir.

—Peço-lhe portanto um favor, meu pae.

—Dize.

—É que d'esse dinheiro, disponha de cincoenta contos para eu poder dotar uma amiga que tenho, se porventura ella resistir á enfermidade que a anniquila.

—Terás, não cincoenta contos de réis para essa amiga, mas cem, duzentos ou aquillo que te aprouver! Porém, abandonares me, nunca! Queres esse dinheiro? Ámanhã; hoje; agora mesmo! Se o desejas, não tenho mais do que ir buscal-o a casa do meu banqueiro...

É que esse homem perverso por instincto, o unico sentimento grande que havia experimentado na vida era o amor por sua filha!

—Juras me que não abandonas teu pae? accrescentou elle pegando nas mãos de Magdalena e levando-as junto ao coração.

—Juro que não abandonarei meu pae, respondeu Magdalena apertando-o nos braços!

—Parece impossivel! disse Olympia, abrindo ao mesmo tempo a porta do gabinete. Ha mais de dez minutos que está a sopa na mesa, accrescentou voltando-se para Magdalena.

—Já vamos, respondeu esta.

—Ah! temos lagrimas! ajuntou Olympia sahindo do gabinete.

—E quem é essa pessoa que tu queres dotar, Magdalena? perguntou Tristão depois de alguns momentos de silencio.

—É Martha, a filha de Jeronymo.

—Conta com esse dinheiro, respondeu Tristão.

—Obrigada, disse lhe Magdalena. Agora estou mais tranquilla, e, dando o braço a Tristão, sahiram do gabinete, seguidos por D. Maria Egypciaca, e dirigiram-se á casa do jantar.



Apresentado pelo visconde, ás oito horas da noite, entrou o conselheiro Poderosa.

O visconde ao notar a pallidez de Magdalena, olhou de soslaio para o conselheiro, como se lhe indicasse o soffrimento que se lhe notava no semblante.

Poderosa sorriu se! Depois, ao vêr a obesidade da irmã de Magdalena, o rosado das suas faces, e toda aquella economia exhalando vida e saude, pensou de si comsigo que era essa a unica mulher que lhe convinha.

Depois das apresentações do estylo, o conselheiro sentou-se junto do magnate para lhe falar ácerca da missão de que sua magestade o tinha encarregado.

No entretanto, o visconde, proximo de D. Maria Egypciaca, entretinha-se com a futura titular, discutindo sobre o nome que devia juntar-se ao titulo.

—Minha senhora, dizia-lhe o visconde, eu não tenho a mais leve desconfiança que seu marido lhe usurpe o direito da escolha. O que depende do bello pertence a vossa excellencia, queira vossa excellencia lembrar-se do nome que deve ter esse titulo, accrescentava elle olhando significativamente para Magdalena, nos momentos em que por acaso encontrava os olhos do conselheiro.

N'este comenos, o conselheiro, que acabava de falar com Tristão, approximou-se de D. Maria Egypciaca e do visconde.

A conversação correu animadissima até ás onze horas da noite.

Seguindo as instrucções do visconde, o conselheiro portou-se bizarramente no tocante a dissertações culinarias, falando sempre com muito acerto sobre os diferentes generos de cosinha.

O coração de Olympia, ou, para melhor dizer o estomago de Olympia, começou desde esse momento a palpitar pelo joven conselheiro, e a cabeça, que tanta relação tem com essa viscera, principiou tambem a comprehender que era o conselheiro o unico marido que lhe convinha.

Ás onze horas, retiraram-se o conselheiro e o visconde, combinando ambos com Tristão de Almeida a hora para no dia seguinte se encontrarem, a fim de se decidir o nome que devia ser escolhido para o titulo.


D'ali a duas horas, Olympia resonando profundamente, via em sonhos um lauto banquete, e, a seu lado, com a farda de conselheiro, aquelle que na sua vida lhe tinha proporcionado o ensejo de se convencer que no seu todo havia uma outra viscera sem ser o estomago.

Magdalena, com o rosto encostado aos vidros da janella, contemplava os astros, adivinhando em cada um d'elles o rosto grave e melancholico de Manuel de Mendonça.


XXXI

No dia seguinte á entrevista do conselheiro, á mesma hora que este e o visconde se preparavam para ir falar com Tristão, Manuel de Mendonça resolvia procurar informações de Martha.

—Se tudo quanto te disse aquella infame beata, não fosse mais do que uma calumnia... pensava Manuel ao mesmo tempo que o proferia a Mascatudo.

—Póde muito bem ser que tal aconteça, respondia-lhe o marinheiro. Em todo o caso, se eu fosse ao sr. Manuel de Mendonça...

—Que fazias? acudiu rapidamente o capitão.

—Ia saber d'aquella pobre menina.

—Tomarei o teu conselho. Vou. Não sei o que me adivinha o coração; porém, ou eu me illudo muito, ou Martha está innocente como os anjos.

—Estou da sua opinião. No que o senhor fez mal, foi em acreditar nas primeiras palavras d'essa mulher. Se eu sei, tinha-lhe occultado tudo quanto a seu respeito ouvi dizer.

—Não te arrependas, Mascatudo; nos teus casos, teria feito o mesmo.

—E se essa mulher não passasse de uma infame mentirosa?

—E se tudo quanto a tia Monica te disse fosse verdadeiro? Que remorsos não terias n'este momento, se me tivesses dito que a conducta de Martha era irreprehensivel?

—Isso lá é que é verdade, sr. Manuel de Mendonça. Em todo o caso, tudo se poderá hoje descobrir. Se o senhor consentisse que eu fosse em sua companhia...

—Da melhor vontade e até me fazes muito favor.



Em menos de um quarto de hora, Manuel de Mendonça acompanhado por Mascatudo, desembarcava na rocha do conde de Obidos e, subindo a rampa, dirigia-se para a rua do Meio.

—Se lhe parece, disse Mascatudo ao chegarem á rua das Praças, vamos á tenda em que lhe falei. O caixeiro, que já é meu conhecido, póde nos dar mais algumas informações.

—Confesso-te que me vae custando esta espionagem, respondeu placidamente Manuel de Mendonça.

Seria a delicadeza da sua alma, ou o receio de saber alguma circumstancia menos favoravel ácerca da vida intima de Martha, que fazia com que o maritimo fugisse a mais investigações?

Deixaremos isto ao juizo da intelligente leitora, que para casos de tal monta não nos julgamos habilitados.

Ao chegar defronte da casa onde habitava a filha do operario, Manuel de Mendonça estremeceu. Lembrou-se da noite em que pela primeira vez a encontrára, quando ella com as supplicas de piedade lhe pediu entre lagrimas que a ajudasse a procurar seu pae. Logo, recordou-se das duas ou tres vezes que a vira no hotel Bragança, quando ainda as boccas maliciosas não se haviam aberto para lhe cuspir o fel da maledicencia. Em toda a pureza angelica da sua castidade, Martha desenhava-se-lhe deante dos olhos, como muitas e muitas vezes a imagem grata de sua mãe lhe apparecia por entre as nevoas da tarde, quando a galera, sulcando as aguas do oceano, o conduzia a estranhos climas onde nem um só coração amigo se lhe approximava.

Mascatudo comprehendeu-lhe o soffrimento.

—Que devemos fazer? perguntou Manuel.

—Sondar estes baixios, e se o rumo não fôr perigoso, seguiremos a nossa derrota, respondeu Mascatudo.

N'este momento passava uma carruagem.

Manuel olhou instinctivamente para dentro do trem.

Ao mesmo tempo, o cocheiro como se já estivesse prevenido, estacou os cavallos.

Era Magdalena que vinha dentro da carruagem!

Collocando a cabeça fóra do postigo, a filha de Tristão fez um aceno a Manuel para que se approximasse.

—Necessito falar-lhe quanto antes, acudiu ella rapidamente, dirigindo se ao maritimo, que a contemplava com um gesto de espanto impossivel de descrever. Provavelmente, accrescentou ella, tenciona ir ver a pobre Martha; não o faça sem primeiro me falar.

—Estou ás ordens de vossa excellencia, respondeu Manuel de Mendonça, reconhecendo n'esse momento a filha de Tristão de Almeida.

—Mas aqui é inteiramente impossivel por causa da visinhança, accrescentou ella, com uma voz tremula e assustada.

—Dir-me-ha então?... perguntou Manuel.

—Dirija-se ao passeio da Estrella. Espero-o na montanha; e antes que Manuel tivesse tido tempo de reflectir, Magdalena falou ao cocheiro, e os cavallos partiram n'um trote largo, caminho da rua dos Navegantes.

Manuel ficou como assombrado! Não sabia que pensar! Aquella mulher, que na ante-vespera o estivera olhando por um telescopio, seria a confidente dos amores de Martha, ou seria ella mesma que o amava? Aquella insolita maneira de o avisinhar; a perturbação das suas palavras; a visivel pallidez do rosto, que augmentava á proporção que os seus olhos o contemplavam, tudo concorria para que o maritimo ficasse como abysmado.

—Que foi isso? perguntou Mascatudo, ao notar a profunda perturbação de Manuel de Mendonça.

Manuel contou-lhe o que se havia passado.

—E que tenciona fazer? perguntou Mascatudo.

—Ir immediatamente para o passeio da Estrella. Que te parece?

—Que vá quanto antes, respondeu Mascatudo.

Sem mais hesitação, Manuel de Mendonça entrou na rua da Bella Vista, e seguiu para o passeio da Estrella.

—Espera-me aqui junto ao lago, disse elle a Mascatudo ao entrarem as portas do passeio.


XXXII

Espera-o, martyr! Unge-lhe o peito com o divino balsamo do teu nobre sacrificio! Lagrimas misericordiosas foram as tuas, derramadas sobre a face da pobre virgem! Vae, infeliz; fere, profunda, arranca uma por uma as fibras do coração, e que o sangue que d'ahi te gotejar, lavando as nodoas do futuro conde lhe purifique a alma para um dia entrar no reino dos justos com o passaporte de uma retribuição!



Manuel subiu á montanha.

Magdalena não faltára.

—Venho cumprir com as ordens de vossa excellencia, disse Manuel de Mendonça, approximando-se.

—Ah! respondeu ella, como se despertasse de um sonho. E accrescentou, visivelmente perturbada: realmente, deve estranhar o meu proceder, porém, uma circumstancia grave e muito grave me obrigou a procural-o hoje mesmo. Tracta-se de salvar uma pessoa cuja vida me interessa.

—Estou ás ordens de vossa excellencia para tudo quanto me fôr possivel.

—Sabe que tem estado á morte a filha de Jeronymo?

—Não o sabia, minha senhora, respondeu Manuel começando tambem a perturbar-se.

—Ha quinze dias que a infeliz, deitada sobre o leito da agonia, olha para o céu que lhe pertence. Hontem, que foi a ultima vez que lá estive, o medico sahiu completamente desanimado. A sua enfermidade é menos physica do que moral, e só á ultima hora lhe podemos descobrir a causa.

—E essa causa é?... perguntou Manuel.

—Amar um homem que a tem desprezado! Aquelle anjo, occultando a todos o sentimento que a devora, reclinou se sobre a sua sepultura, aguardando apenas que lh'a venham abrir para desprender a alma a Deus!

Os olhos de Manuel humedeceram se de lagrimas. Havia tanto sentimento nas palavras de Magdalena, a sua voz, ainda ha pouco perturbada, tornára-se tão firme e tão segura, que elle não pôde ver em Magdalena mais do que uma amiga verdadeira e dedicada de Martha.

—E onde existe esse homem que a póde salvar?

—Onde existe?... accudiu Magdalena com uma expressão que principiava a denunciar-lhe o seu estado. Esse homem... accrescentou ella, é... o sr. Manuel de Mendonça!

—Eu! exclamou o maritimo n'um transporte de indescriptivel alegria.

—Sim, continuou Magdalena. O senhor, em cujo espirito adivinhou inteira a sua felicidade. O senhor a quem uma vez encontrou na existencia para nunca mais o esquecer! Mais tarde, o seu coração candido e inexperiente fez-lhe conhecer que o amava. O seu nascimento, a humildade de educação, a pobreza de seus paes, tudo emfim concorreu para que Martha não se atrevesse a declarar a pessoa alguma o amor que o senhor lhe tinha inspirado. Emquanto teve forças, lutou, mas um dia, exhausta, a pobre Martha cahiu como essas flores delicadas que não têem força bastante para supportarem a furia dos elementos. Hontem, finalmente, abriu-me inteira a sua alma, alma candida e serena como a dos anjos que hoje lhe tecem o seu diadema de martyr! Sem lhe descortinar as minhas ideias, resolvi commigo mesma de o procurar, e pedir-lhe que salve da morte a minha pobre amiga. Não sei quem v. s.ª é, porém, julgo-o um homem de bem e capaz de fazer a felicidade de qualquer mulher.

Pallida, com as fontes palpitantes e os olhos afogueados por aquella immensa lucta em que a alma se lhe debatia, Magdalena parecia elevar-se nas azas de uma inspiração sublime! Levantando depois a voz que principiava a enfraquecer-lhe, Magdalena pediu a Manuel que lhe concedesse a sua mão para a filha do operario.

Manuel não respondeu!

E no emtanto as aves chilreando por entre as ramas dos arvoredos vinham como n'um concerto infernal soar aos ouvidos da pobre Magdalena!

—Que me diz, sr. Manuel de Mendonça? Hesita? Não a ama? É possivel? Quem póde deixar de amar aquelle anjo?! exclamou Magdalena dando emfim livre curso ás suas lagrimas.

—Mas porque chora? perguntou Manuel de Mendonça dirigindo-se meigamente para Magdalena.

—Porque choro? Porque avalio a dôr de Martha! Porque a sinto tão viva e tão penetrante como ella que a soffre! Porque choro? Porque sei quanta agonia ha, n'esse amar em silencio, o homem que nunca póde ser nosso!

—Pelo que vejo... ama alguem? perguntou Manuel com voz tremula.

—Já amei alguem... sim... mas ha muito tempo. Hoje não, sr. Manuel de Mendonça! Hoje, toda a minha vida cifra-se apenas n'uma missão que tenho a cumprir.

—E essa missão, é?..

—Vel-o casado com Martha. Vão ambos ser muito felizes. Ella ama-o tanto, tanto como eu seria...

Aqui a voz ficou-lhe embargada n'uma torrente de lagrimas.

E as avesinhas chilreando por entre a moita dos junquilhos que emmolduravam a montanha, acordavam no espirito de Magdalena um como concerto infernal!

Finalmente, Manuel de Mendonça prometteu-lhe que pediria a Jeronymo a mão de sua filha.

Apertando-lhe fortemente a mão, Magdalena despediu-se do maritimo e saiu do passeio.

Como aturdido por aquelles estranhos acontecimentos, Manuel dirigiu-se para o sitio onde Mascatudo o esperava, e, saindo tambem do passeio dirigiram-se pela rua da Boa Morte.

—Para onde vae, sr. Manuel de Mendonça, perguntou Mascatudo vendo que o seu capitão seguia a direcção da estrada do cemiterio dos Prazeres.

—Preciso de ar livre, respondeu-lhe Manuel. Escalda-me a febre. Para que haviamos de ter vindo a Lisboa?

Era tal a agitação do seu espirito, que Mascatudo nem se atreveu a perguntar-lhe o resultado da entrevista que tivera com aquella senhora.

O mais que entre ambos se passou foi um mysterio. Soube-o ella e Manuel de Mendonça. Agora, quando estas paginas escrevemos, Magdalena dorme o somno da morte. Manuel, discreto como a sepultura da pobre amiga, seria incapaz de o revelar.


XXXIII

Ao metter-se no trem, Magdalena dissera ao cocheiro que parasse na rua do Meio.

Ao voltar para a esquerda da rua da Bella Vista, ouviu que a chamavam. Era Monica!

Magdalena mandou parar o trem e a beata approximou-se.

—Ora aqui a temos outra vez com os olhos arrasados de lagrimas! exclamou ella. São essas as promessas que me tem feito? Pois, minha querida menina, accrescentou a velha, quanto estimo tel-a encontrado! Fique vossa excellencia sabendo, que o amigo do meu sobrinho, com quem me vou encontrar, ficou de me dizer hoje tudo tim tim por tim tim!

—Pois, sr.ª Monica, respondeu-lhe Magdalena, tirando duas libras do porte-monnaie, e entregando-as na mão da beata, escusa de se incommodar mais por minha causa.

—Ora essa, minha senhora! accudiu rapidamente a velha, fechando ao mesmo tempo a mão onde as libras se occultavam. Dar-se ha o caso, continuou ella, que não esteja satisfeita com os meus serviços? Se tal succede, ralhe-me, ralhe-me muito mas não me tracte por essa forma.

—Não é isso, tia Monica: é que já sei tudo quanto tinha que saber; e, fazendo um signal ao cocheiro, fez com que o trem seguisse a sua direcção, deixando a beata estupefacta pelo que vinha de lhe acontecer.

Ter-lhe-ia Manuel de Mendonça contado a historia dos seus amores? Ter-lhe-ia narrado o que se dera entre Mascatudo e a beata? Ignoramol-o!

O trem chegou á porta de Jeronymo. Ao apear-se, Magdalena foi recebida de braços abertos por Balbina e pela sua amiga.

Como era de esperar, Martha n'aquella noite havia peiorado!

—Venho prevenil-a, que ámanhã antes do meiodia, alguem virá pedir-lhe a mão de sua filha, disse Magdalena. Agora mesmo acabo de estar com essa pessoa. Quando prometto, cumpro, embora vá n'isso a existencia.

A gratidão não tem phrases! Balbina e Marianna, abraçando-se a Magdalena, confundiam entre as suas, as lagrimas da pobre martyr!

—Agora, murmurou Magdalena desembaraçando-se das suas protegidas, cumpre-me falar com Martha.

—Mas, é possivel que um senhor d'aquella ordem deseje casar-se com a filha de um mestre de obras perguntou Balbina com as lagrimas nos olhos.

—Almas como as de Manuel de Mendonça, olham apenas para a virtude e nunca para o nascimento, respondeu Magdalena.

—Manuel de Mendonça?! exclamou Marianna com uma voz tremula e indecisa. E que edade tem esse homem? E quem são os seus paes? ajuntou a pobre mulher approximando-se cada vez mais da filha de Tristão de Almeida.

—Infelizmente, não tem paes, respondeu Magdalena.

—E sabe vossa excellencia quem elle é, perguntou Marianna.

—Sei.

—Oh! por piedade! diga m'o! Dar-se-ha o caso que seja...

—Quem? perguntou Magdalena visivelmente perturbada.

—O meu filho, que ha vinte e tres annos supponho morto!

—Como se chama elle? perguntou Magdalena.

—Manuel de Mendonça Athayde, respondeu a velha com uma voz enfraquecida.

—E seu marido?... como se chamava? ajuntou Magdalena.

-Alvaro de Mendonça...

—Justiça de Deus! exclamou a filha de Tristão, caindo sobre o canapé, e occultando o rosto entre as mãos.

—Oh! mas por Deus não me torture! bradou Marianna, lançando-se aos pés de Magdalena. Diga-me se é elle o meu querido filho! É; não ha duvida! Essa sua perturbação... Vive ainda o meu Manuel, o meu querido filho da minh'alma? Não a deixo, minha senhora, não a deixo emquanto me não contar tudo!

—É o seu filho! respondeu Magdalena levantando-se com uma serenidade heroica. Deus que nunca desamparou os que são verdadeiramente bons, concedeu-lhe em mim o instrumento da sua justiça, e n'elle a consolação para a sua velhice. Agora sr.ª D. Marianna, ajuntou ella lançando-se aos pés da velha, sou eu quem lhe devolve o seu filho, que, em nome de Deus e em meu nome, lhe pedimos o perdão para um culpado! Concede-m'o?

Marianna não sabia que responder!

—É de joelhos que lh'o imploro! ajuntou ella, collocando-se deante da velha, e confundindo as suas vestes de setim negro, com os andrajos da infeliz!

—Eu vos perdôo de todo o meu coração! exclamou D. Marianna de Mendonça cahindo sobre o chão. Mas a quem perdôo eu? accrescentou a infeliz senhora, que não pensava senão em ver seu filho!

—Obrigada, disse Magdalena levantando D. Marianna, e levando-a de encontro ao coração! Agora que lhe perdoou, vou buscar seu filho, e trazel o aqui mesmo.

Com uma physionomia alvar, Balbina contemplava toda esta scena sem a comprehender.

Magdalena fechou-se por alguns instantes no quarto de Martha. Afinal sahiu, e, abraçando de novo as suas amigas, entrou no trem, e seguiu para o hospital.

No entretanto, Manuel de Mendonça descendo a calçada das Necessidades dirigia-se para bordo.


XXXIV

«Felizmente, pensava Magdalena, Manuel de Mendonça nem sequer desconfia que Tristão de Almeida foi Felix Justino de Araujo e muito menos Domingos de Andrade. Poderei conseguir tudo sem comprometter meu pae. Vejamos; seriam quarenta, cincoenta contos... Pedir-lhe-hei o meu dote, e será uma retribuição generosa! Ao principio oppôr se-ha ao meu pedido, mas por ultimo, não terá outro remedio senão acceder. Occultarei tudo de minha mãe. Permitta Deus que o possa encontrar no hospital. São estas as suas horas.»

N'este momento, o trem chegava á rua de S. Francisco de Paula. Ao entrar o portão, a primeira pessoa que lhe appareceu, foi a criada de Olympia, dando lhe os parabens não só pelo titulo que haviam concedido a seu pae, como pelo lindo nome que elle tinha escolhido: o conde de S. Luiz.

Sem lhe prestar attenção alguma, Magdalena perguntou-lhe apenas se alli estivera seu pae.

—Ora essa! respondeu a criada de Olympia; acaba agora mesmo de ir para o paço, afim de agradecer a sua magestade.

—E Olympia?

—Sua irmã está lá em cima na casa de jantar a comer umas gallinholas, que até dá nauseas a quem vê similhante coisa! Mandou fazer umas torradas, e deitar sobre ellas o miolo das tripas. Já viram maior porcaria? E diz ella que é o melhor cozinheiro que tem tido, e que faz pena que esteja no hospital!

Magdalena subiu á casa do jantar, onde encontrou sua irmã deliciando o paladar n'uma soberba torrada coberta dos despojos ornithologicos d'aquella innocente gallinhola.

—Já sabes o titulo que o papá escolheu? perguntou Olympia.

—Sei, respondeu Magdalena quasi sem lhe prestar attenção.

—É muito bonito! não achas?

—Muito bonito!

—Estiveste em casa de Martha?

—Estive.

—Vae melhor?

—Muito melhor.

—Não te offereço d'esta gallinhola porque é de suppôr que não esteja ao teu gosto, disse Olympia dissecando a carcassa da avesinha.

—Agradeço, murmurou Magdalena deixando sua irmã, e dirigindo-se para o terceiro andar d'onde dias antes contemplava a galera de Manuel de Mendonça.

Alli pôde emfim dar livre curso ás suas lagrimas!

D'aquella janella por mais de uma vez, insciente da cruel realidade, contemplára o Tejo, no Tejo a barca, na barca o homem, no homem, tudo quanto havia de mais valioso para o seu coração!

Fôra d'alli que vira o seu primeiro desengano, quando Manuel de Mendonça, afastando o oculo, lhe denunciava não ser ella a pessoa que tão anciosamente buscava!

Só, entregue a uma multidão de pensamentos, Magdalena começou a planear o modo de seu pae restituir os quarenta contos de réis extorquidos a D. Marianna de Mendonça.

Magdalena tinha sobejas provas de que a virtude nem sempre havia adejado sobre o proceder de Felix Justino de Araujo. Não ignorava que uma grande parte da sua riqueza tinha sido adquirida em commercios illicitos, porém, o que ella jamais suppozera, é que seu pae tivesse sido capaz de um roubo.

Juntem-se a estas grandes agonias, o infeliz amor que lhe ia n'alma, e vossa excellencia que me lê, e, cujo coração é egual ao de Magdalena, diga me se dôres tamanhas podem caber em coração humano!

Alli se demorou perto de meia hora. Depois, como se um pensamento lhe acudisse rapidamente á imaginação, a infeliz saiu d'aquelle quarto, lançando-lhe uma ultima e dolorosa despedida!

Ao descer ao segundo pavimento encontrou Olympia.

—Que tens? perguntou esta ao notar a pallidez de Magdalena.

—Doe-me a cabeça.

—Isso é fraqueza, respondeu Olympia. Assim estou eu.

Magdalena desceu ás enfermarias e depois de dar as suas ordens, entrou no trem e mandou seguir para Alcantara.



«Disse-me que ia para bordo. Já lá deve estar. Mas isto é uma loucura, pensava ella. Uma mulher da minha edade ir procurar um homem a bordo do seu navio? Embora! A minha consciencia está livre e tranquilla! Não foi Deus quem predispoz todas estas circumstancias, servindo-se de mim para sua intermediaria? Que poderei receiar?»

Voltando-se para o cocheiro disse-lhe que parasse na rocha do Conde de Obidos.

Ao chegar ao boqueirão, Magdalena apeou-se, e dirigindo-se aos catraeiros, pediu a um d'elles que a levassem a bordo da galera Esperança.

Todos queriam ser o primeiro a conduzil-a.

Escolhendo o mais edoso, desceu a rampa e entrou no bote.

Que de poemas se agitavam em sua alma á medida que se approximava da galera! Como ella, escrava de um dever, ia para sempre abandonar a sua ventura!

Restava-lhe apenas no meio dos seus infortunios, a grata lembrança de devolver aos braços d'aquelle homem a pobre mãe que elle tão anciosa e infructiferamente havia buscado!

A pouca distancia viu Manuel de Mendonça, de pé, encostado á amurada. Com o rosto curvado sobre o peito, olhava para as aguas da corrente, que vinham no seu eterno movimento gemer de encontro á quilha da embarcação.

Ao ver aquelle bote que se lhe dirigia por estibordo, reconheceu immediatamente a filha de Tristão de Almeida, e, descendo a escada de corda, veiu recebel-a no momento em que abordava á embarcação.

—Preciso falar-lhe, disse Magdalena. E nem mesmo subo, ajuntou ella, olhando tristemente para a galera.

Manuel entrou para o bote, e Magdalena mandou que remassem para o caes.

Durante o curto espaço de tempo que levaram em chegar á rocha, Magdalena não lhe dirigiu uma palavra.

Manuel não sabia que pensar.

Os catraeiros olhando-se mutuamente, conjecturavam entre si, o que seria a causa d'aquelle mysterio.

Chegaram finalmente á rocha.

Ao subir as escadas, Magdalena voltou-se para Manuel de Mendonça, ergueu o véu que lhe occultava o rosto, e demorou-se fitando-o por alguns instantes.

—Vim buscal-o tão apressadamente, porque lhe quero dar o maior prazer que tem experimentado na sua vida. A Providencia fez com que me encontrasse, para lhe depositar nos seus braços tudo quanto tem de mais precioso sobre a terra.

Manuel contemplava-a sem comprehender uma palavra.

—Não lhe offereço o meu trem; poder se-ia tornar reparado, accrescentou ella; mas, o que lhe peço, é que venha immediatamente a casa de Jeronymo para onde me dirijo. E saltando para dentro do trem, mandou ao cocheiro que seguisse para a rua do Meio.

Metteu-se n'uma sege que passava n'aquelle instante Manuel de Mendonça e acompanhou a carruagem de Magdalena.

Chegaram ao mesmo tempo á porta de Jeronymo.

Magdalena foi a primeira a apear-se, e, entrando rapidamente em casa de Jeronymo, dirigiu-se ao quarto de D. Marianna de Mendonça.

A pobre senhora lançou-se-lhe nos braços!

—Venho cumprir a minha promessa, disse-lhe Magdalena. Vae ver seu filho! O que lhe peço, é que tenha valor para resistir a este lance! e, abrindo a porta que communicava com a saleta, chamou em voz alta por Manuel de Mendonça.



Vêde a leôa a quem haviam roubado o filho, e que o torna a colher entre as suas garras, e podereis avaliar o que se passou n'aquella eternidade de sensações.



Magdalena, de pé, com os olhos arrasados de lagrimas, contemplava esta scena ao lado da mulher de Jeronymo.

Perto de cinco minutos esteve a pobre mãe agarrada ao pescoço de Manuel de Mendonça! Ainda lhe parecia impossivel aquella palpavel realidade! Desprendendo-se emfim do collo de seu filho, D. Marianna lançou-se aos pés de Magdalena, e, beijando-lh'os no transporte de uma alegria assustadora, ergueu-se de novo cingindo-a pela cintura e cobrindo-lhe a face de beijos e lagrimas de gratidão!

—Agora, disse Magdalena desembaraçando se de D. Marianna, devemos attender ao estado de Martha. É necessario prevenirmos todas estas circumstancias. Ter-nos-ha ouvido?

—Com certeza que não; e demais tem um somno muito pesado, respondeu Balbina enxugando as lagrimas que lhe rolavam pelo rosto.

N'este momento, Martha chamava por sua mãe.

Balbina e Magdalena dirigiram-se ao quarto da doente.

—Que voz foi essa que ouvi na saleta, minha mãe? perguntou Martha sem notar a presença de Magdalena.

—Era a minha voz, respondeu a filha de Tristão approximando-se do leito e beijando-a na face.

—A sua! exclamou ella. Eu suppunha...

—O quê?

—Que era...

—A voz de Manuel de Mendonça? Não se illudiu. É Manuel que vem hoje pedil-a a seu pae.

Erguendo se n'um impeto de suprema vontade, Martha lançou-se ao pescoço de Magdalena.

Que lagrimas não foram as d'essas duas mulheres! N'uma, o pranto consolador da alegria; na outra, lagrimas que vinham do coração, abrazando-lhe as palpebras n'um fogo do inferno!

—Valor! disse Magdalena, soltando-se dos braços de Martha, é necessario que se restabeleça para em breve conceder a sua mão ao filho de D. Marianna de Athayde!

—Ao filho de Marianna de Athayde! exclamou ella sem comprehender uma palavra do que acabava de ouvir!

—Sim, ao filho da sua amiga Marianna.

—Então Manuel de Mendonça é...

—Seu filho. Agora, cumpre-me dar ainda alguns passos para resolver completamente a minha missão, e, abraçando a sua protegida, Magdalena sahiu do quarto e dirigiu-se á saleta aonde Manuel de Mendonça, ainda preso nos braços de sua mãe, agradecia á Providencia o ter-lhe devolvido tudo quanto elle tinha de mais caro n'este mundo.

Ao vel-a, D. Marianna lançou-se-lhe de novo ao pescoço e cobriu-a de beijos!

Manuel de Mendonça, que fixára o rosto entristecido de Magdalena, cravou os olhos no chão, como receiando que o trahisse o seu olhar.

Teria elle comprehendido o que se passava no coração de Magdalena?

—Agora, disse Magdalena, retiro-me. Ámanhã sendo meio dia, aqui estarei, por que tenho graves negocios a tractar com vossa excellencia e com seu filho. Extendendo a mão a este ultimo e a D. Marianna, Magdalena retirou-se, caminho do hospital.