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O Conde de S. Luiz

Chapter 45: PORTO
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About This Book

The narrative follows D. Marianna de Mendonça, who, after accepting an arranged marriage to Alvaro de Mendonça, celebrates the birth of their son Manuel before becoming widowed. The widow devotes herself to raising and educating Manuel, whose precocious intelligence and robust health provoke admiration and anxiety among relatives, especially a cautious cousin who warns against overtaxing him. The story traces domestic life, parental devotion, social expectations, and recurring fears for the child's future, depicting family relationships, episodes of illness and medical interventions, and tensions between protection and schooling across many chapters.

XXXV

Havia quinze dias que sahira o decreto concedendo o titulo de «conde de S. Luiz» ao illustre e philanthropico varão, que, com tanto e tanto afan, continuava a espalhar as joias da sua caridade.

A condessa, impando de orgulho e de vaidade, ora se pavoneava pelas ruas mais concorridas da capital, ora embocetada no palacio de S. Francisco de Paula, aguardava o sequito das fidalgas caridosas, que, esquecendo o amarellecido dos seus pergaminhos, iam, movidas pela virtude da moderna titular, fazer antecamara áquella que dias antes se chamava apenas D. Maria Egypciaca.

Graças ás repetidas instancias do seu amigo o visconde de Coruche, Tristão de Almeida, ou, para falarmos com mais propriedade, o conde de S. Luiz, fizera um arrendamento a longo prazo de um magnifico palacio em Buenos-Ayres, outr'ora pertencente aos marquezes de...

Encarregando-se por especial favor do que dizia respeito ás cavallariças, o visconde, como homem entendido na materia, fez acquisição de tudo quanto n'esse genero havia de melhor.

Tornou-se notorio o luxo d'aquella irreprehensivel vivenda.

Os fidalgos, que n'esse tempo—menos por necessidade, do que pelo prazer de manifestarem aos quatro ventos do céu o seu desamor pela archeologia—esbanjavam sem dó nem piedade, os mais preciosos objectos de arte, deparados nos empoeirados sotãos dos seus castellos feudaes, correram atropellando-se ao escriptorio do conde de S. Luiz, afim de ver qual seria o primeiro a depositar nas mãos do magnate as nobres reliquias dos seus preclarissimos antepassados. Não tardou que o palacio do conde de S. Luiz se tornasse n'um museu de antiguidades! Retratos houve de familia, que foram jazer empilhados na estrebaria por não lhes permittirem os salões o seu elevado porte.

O conde, pagava tudo com prodiga generosidade, o que lhe deu o triste resultado de alguem lhe metter um collar de perolas falsas por barrocas, o que elle generosamente acceitou e pagou, attendendo que esse mesmo collar havia figurado no pescoço de um grande ministro de um excelso monarcha.

Juntem se a estas nobres qualidades, uma mesa esplendida, e que o leitor avalie se a casa do conde de S. Luiz seria ou não frequentada.

O conselheiro Poderosa, graças ás ausencias do visconde, de dia para dia se tornava mais sympathico para Olympia, para o conde e para a condessa.

Olympia adivinhava no conselheiro, não só um marido exemplar, como um dedicado companheiro de mesa, prompto sempre a affrontar qualquer ataque apopletico por mais anormaes que fossem as epochas.

O conselheiro comia e bebia por dez conselheiros, o que era extremamente agradavel para Olympia, porém, quando ella um dia notou que depois do jantar, os olhos do seu futuro se fitaram brandamente n'uma othomana que estava proxima, Olympia exultou de alegria, e viu n'esse homem, o unico individuo capaz de fazer a sua felicidade: comer e dormir, acordar e comer!

Olympia esperava apenas que o conselheiro a pedisse a seu pae.

A condessa sabia d'estes amores. Por mais de uma vez tinha dito a Olympia, que pela sua parte não encontraria a menor opposição.

Exceptuando duas pessoas, todos alli viviam felizes: essas duas, eram Magdalena e o conde de S. Luiz! O que entre ambos se havia passado, sabia-o apenas Deus, que ajudára a primeira nos seus pedidos e escutara as promessas do segundo!

Quanto á condessa de S. Luiz, ou porque a sua alegria não lhe tivesse dado tempo a reflectir na tristeza do conde e de sua filha ou porque inteiramente lhes não desse importancia, não cuidava senão em distrahir os seus convidados.

Aos almoços, succediam-se os jantares, a estes os bailes, de forma que o palacio do conde de S. Luiz tornou se em poucos dias o centro da melhor sociedade de Lisboa.

Debalde tentavam Magdalena e seu pae, encobrir a dôr que lhes roubava a felicidade. Este ultimo, vendo constantemente deante dos olhos a imagem grave e severa de D. Marianna de Mendonça, recordando lhe o seu passado; Magdalena lembrando-se do homem que teria feito a ventura da sua alma, mas a cujo sacrificio tinha prendido um juramento!


Magdalena no dia immediato áquelle em que entregara Manuel de Mendonça nos braços de sua mãe, fechada com seu pae no escriptorio do hospital, communicára-lhe tudo quanto dizia respeito á familia de Athaide de Mendonça.

O conde de S. Luiz, que não tinha segredos para sua filha, abrindo-lhe inteira a sua alma, desenhára-lhe em traços rapidos o quadro inteiro da sua vida, accrescentando-lhe, que por ella e só por ella havia incorrido em certas coisas de que se arrependia profundamente.

Magdalena exigiu-lhe uma restituição d'aquelle dinheiro extorquido á viuva, compromettendo-se a preparar tudo de forma que a opinião publica ainda mais se levantasse em favor de seu pae, vendo-o entregar cem ou duzentos contos de réis, á filha d'esse homem, para cuja morte involuntariamente havia concorrido.

Concordando plenamente em tudo quanto Magdalena exigiu, pediu apenas a sua filha o maior segredo para com a condessa e Olympia, accrescentando a isto a maior brevidade possivel no casamento, o qual, auctorizando aquella restituição, lhe ia devolver a paz ao espirito.

Abraçando seu pae, Magdalena assegurou-lhe que partiria immediatamente para casa de Martha, afim de se oferecer para madrinha do seu casamento. Com effeito, ás duas horas da tarde, e não ao meio dia como havia combinado com Manuel de Mendonça, Magdalena entrou em casa do operario.

Martha havia passado a noite mais tranquilla. O doutor não se tinha illudido; a sua doença era menos physica do que moral.

Desde as onze horas da manhã que Manuel de Mendonça estava ao lado de sua mãe. Já na vespera tinha visto Jeronymo, e já lhe havia pedido a mão de sua filha.

Magdalena entrou no quarto de Martha, e, dando-lhe os parabens, offereceu-se para madrinha do casamento.

Consummara-se o sacrificio!


—Quando se realisará esse casamento? perguntava todos os dias o conde de S. Luiz.

—Brevemente, respondia-lhe Magdalena!


XXXVI

Instigado pelos conselhos do visconde, e pela persistente côrte que D. Olympia lhe dirigia, o conselheiro resolveu se emfim a pedir aos condes a mão de sua filha.

Eram duas horas da tarde. O conde tinha partido para o hospital, mas, para sua felicidade estava em casa a condessa de S. Luiz, e prompta como sempre, desde as dez horas da manhã, para receber todas as visitas que lhe mereciam a honra da sua amizade.

O conselheiro foi introduzido para um pequeno gabinete «á renascença», todo mobilado ao gosto do visconde de Coruche.

A condessa não se fez demorar muito tempo. Já esperava que mais dia menos dia o conselheiro se resolvesse a pedir-lhe Olympia.

—Quanto folgo vel-o n'esta casa, e a esta hora, disse a condessa, ao mesmo tempo que lhe extendia a mão. Adivinho pouco mais ou menos do que se tracta, ajuntou ella designando-lhe uma othomana, e puxando uma cadeira para si.

A condessa queria ser a primeira, sempre, em resolver qualquer questão.

—Provavelmente vem pedir a mão de Olympia?... ajuntou ella, sem admittir que o conselheiro lhe dirigisse uma só palavra. Quanto o estimo! e como o conde vae ficar alegre! Pela minha parte, concedo-lh'a da melhor vontade, e, desde já lh'o affianço, que o conde ha-de ser da minha opinião. Tenho toda a certeza que v. ex.ª ha de ser o mais feliz possivel com minha filha. Não parece uma rapariga d'este tempo. Para Olympia é-lhe tão indifferente ir aos bailes, como passar as noites em casa. Não dá importancia alguma ao luxo! O seu gosto é estar em casa e olhar pela dispensa. Nem é mesmo d'essas meninas que passam o dia a lêr livros, como Magdalena por exemplo, que está ás vezes até as duas horas da noite amarrada á sua Biblia, e outros romances quejandos. Olympia detesta os livros, tem-lhes um odio de morte! Lá quanto a isso, parece-se commigo. Foi coisa que nunca pude supportar! Olympia, o seu maior prazer é fazer pudins e fructas de compota.

O conselheiro, olhando estupefacto para aquella Niagára de eloquencia, debalde esperava o ensejo favoravel para lhe dizer o fim que alli o havia trazido. A condessa não lh'o permittia!

—Em Olympia não ha coisa alguma a desejar, formosura, riqueza, saude, tudo, tudo, accrescentou a condessa de S. Luiz, tirando o lenço da algibeira para limpar o suor que em bagas lhe escorria.

—Pois, minha senhora, acudiu rapidamente o conselheiro, aproveitando o ensejo que lhe favorecia a limpeza d'aquella individualidade titular, o que me trouxe a casa dos condes de S. Luiz, foi o mesmo que v. ex.ª com esse instincto que lhe é natural, adivinhou! Escuso portanto de lh'o repetir.

—Quanto o estimo, meu querido genro, respondeu a condessa, approximando-se do conselheiro e apertando-lhe ambas as mãos.

—Vae fazer-me o mais feliz de todos os homens.

—Sim?... respondeu a bojuda matrona, vae vêr: levantando-se, puchou o cordão da campainha.

—E crê v. ex.ª que a sr.ª D. Olympia responde aos eccos do meu coração?

—Não o comprehendo, sr. conselheiro.

Este occultou a custo um sorriso.

—Quero eu dizer, se o meu amor será retribuido por sua excelentissima filha?

—Ora essa! respondeu a condessa tornando a sentar-se ao lado do conselheiro, se soubesse quanto ella o estima...

N'este momento appareceu um criado.

—Vá dizer a Maria que participe á Gertrudes que suba ao quarto da aia da menina Olympia, para lhe dizer que venha immediatamente falar com sua mãe.

O conselheiro abysmou deante d'aquelle prodigio de memoria, que com tanta facilidade decorava tão grande porção de nomes!

D'alli a momentos entrou a aia de Olympia, participando que a menina ainda teria alguma demora, porque se encontrava um pouco indisposta.

—Provavelmente ceiou muito. É o seu unico defeito, sr. conselheiro. É muito gulosa esta minha filha.

A criada retirou-se.

—O mesmo sou eu, minha senhora, respondeu o conselheiro.

—Sim?

—É verdade. Tenho dias de jantar tres vezes.

—Ai que ar! gargalhou a condessa de S. Luiz. Pois realmente, sinto que Olympia não esteja de pé. Em todo o caso, sempre vou lá acima. Talvez que seja apenas um leve incommodo; e, levantando-se saiu da sala, deixando o conselheiro na contemplação de umas gravuras em aço que adornavam as paredes do gabinete.

«Isto corre ás mil maravilhas! pensava o conselheiro. Olympia pelo que me parece, consultando o estomago, decidiu de si para si que lhe não era antipathica a minha pessoa. Sua mãe, pelo que se vê, encontrou em mim o seu sonho dourado! Quanto ao conde de S. Luiz por certo que se conforma com tudo que sua mulher decidir! Emfim, será o que Deus quizer! Em todo o caso, foi um achado, um verdadeiro achado, este Tristão de Almeida. E eu que estive para desprezar a sua apresentação!... Desconfio que, apezar de todo o amor que Magdalena experimenta pelo visconde, o meu casamento ainda se ha de effectuar primeiramente do que o seu. Custa-me a acreditar que um caracter como o de Magdalena, possa experimentar pelo visconde, outro sentimento, a não ser o de repulsão. O que fôr verdadeiramente bom e digno, não póde amar senão o que é digno e bom! E demais, Magdalena deve conhecel-o. Tão pouco falado tem elle sido na sociedade de Lisboa.»

N'este comenos entrou a condessa; Olympia seguia-a de perto.

Se aos vinte annos a pallidez traduz em absoluto a poesia da alma; se o desbotado da face é synonimia dos sofrimentos intimos que lavram o coração, Olympia n'aquelle momento, a despeito da sua anafada estructura, dir-se-ia nutrida estatua da poesia affectada pelas terriveis consequencias de uma gastro enterite!

Ao approximar-se do conselheiro, a filha do conde de S. Luiz debalde se esforçava para, n'uma graciosa mesura, cumprimentar aquelle a quem brevemente ia conceder a sua mão. O esophago não lhe permittia a mais leve inclinação do busto. Olympia conservava se firme como um sargento, deante d'esse que era de ha muito o commandante dos seus pensamentos!

—Venho agora mesmo de saber por minha mãe a sr.ª condessa de S. Luiz que vossa excellencia deseja estreitar os laços matrimoniaes com a minha pessoa. Se a meu pae lhe não fôr desagradavel a união das nossas almas, estou muito prompta a acceder em tudo aos seus desejos.

O conselheiro contentou-se apenas em lhe apertar a mão n'um transporte de reconhecida ventura.

—Como já tive o gosto de dizer a vossa excellencia o conde de S. Luiz terá o maior desejo em que este casamento se effectue o mais depressa possivel, portanto, não tem vossa excellencia mais cousa alguma a fazer senão vir hoje mesmo pedir-lhe a mão de Olympia. Meu marido e eu mesma, accrescentou a condessa de S. Luiz, nos temos informado por todas as pessoas que frequentam o nosso palacio, quem vossa excellencia é; deve portanto suppor a honra que nos vae causar, entrando para o seio da nossa familia.

—A honra sou eu que a recebo, senhora condessa de S. Luiz, e é tão profundo o meu desejo em ver realizadas as nossas esperanças, que, hoje mesmo, se vossa excellencia acha conveniente...

—Se acho, meu genro! O conde de S. Luiz, sendo cinco horas, mais migalha menos migalha deve cá estar. Não falte pois, accrescentou ella extendendo a mão ao conselheiro, que foi recuando sem descravar os olhos de Olympia, até que se retirou.

—Até que vês as tuas esperanças realizadas, disse a condessa de S. Luiz voltando-se para sua filha.

—É verdade, minha mãe, suspirou Olympia! E agora, para ter forças de supportar todas estas commoções, vou ver se me dão um caldo de cabeça de vitella.


XXXVII

Segundo havia combinado com a condessa, o conselheiro ás cinco horas da tarde foi procurar o conde de S. Luiz.

Este parecia ouvil-o sem lhe prestar attenção alguma; porém, graças á sua esposa, declarou por ultimo que não tinha duvida em conceder-lhe a mão de Olympia.

João Poderosa exultou de alegria! Olympia sentia brincar-lhe o travesso amor nas cavidades estomacaes apontando-lhe ao mesmo tempo as flechas de ouro, ao orgão musculoso do corpo humano, a que vulgarmente se chama coração!

Momentos depois começaram a entrar convidados para jantar; entre esses vinha o visconde de Coruche.

Ao toast, a condessa de S. Luiz declarou que estava justo o casamento de sua filha D. Olympia com o conselheiro João Poderosa.

Em seguimento aos brindes do estylo, não houve quem deixasse de notar que esta declaração não tivesse sido feita pelo conde. Mas que influencia tinha isso? Não fôra esplendido o jantar?!

O que ninguem podia descortinar era o motivo da tristeza do conde de S. Luiz e de Magdalena!

Attribuiam a esta ultima, que uma paixão em silencio pelo visconde de Coruche, era a causa da sua terrivel melancolia.

Em vez de conversarem com as visitas, de fazerem sala, como vulgarmente se diz, Magdalena e seu pae passaram quasi toda a noite n'um pequeno gabinete contiguo a um dos salões.

—Planeiam o modo de agarrar o visconde! dizia um individuo que por mais uma vez intentara fazer a côrte a Magdalena.

—Como se isso fosse uma coisa muito difficil, respondia-lhe o outro. Não tem Magdalena um dote de quatrocentos contos?

—Póde ser que a não ame, e n'esse caso...

—Que innocencia! Quem despreza quatrocentos contos? E sobre tudo o visconde que está sem um vintem.

—Tomáras tu assim estar.

—Olha, quem foi esperto foi o João Poderosa... Quem o ha de agora aturar com quatrocentos contos?

—Felizes dos jogadores!

—Desconfio que não! Já tem comido do pão que o diabo amassou. Não é o conselheiro que torna a arruinar-se.

—Não digas isso. A lei natural é esta: o homem rico, que se arruina e que depois por um bafejo da sorte torna a enriquecer, embriaga-se no fausto e na opulencia, e nunca mais se recorda das terriveis noites de miseria senão quando ellas principiam a despontar vagamente por entre o sol da sua felicidade.

—A mim não me succederia outro tanto.

—És uma excepção.

—A excepção, é o que tu dizes.

—Será o que te aprouver. O que eu não estou é para teimas. Já querias aproveitar esta minha opinião para me ferrares uma estopada. Adeus. Vou lá dentro ver se tomo um grog.


Á meia noite, retiraram-se todos os convidados.

—Como deves estar satisfeita, Olympia, dizia Magdalena voltando se para sua irmã.

—Eu! respondeu Olympia. Ora essa! Pelo muito que jantei.


XXXVIII

O conselheiro saira da casa do conde de S. Luiz acompanhado pelo visconde.

Ao despedirem se, este ficou de ir no dia seguinte almoçar com João Poderosa, para saber todos os promenores da sua entrevista com o conde de S. Luiz.

São dez horas da manhã. Louco de alegria pelo negocio que viera de fazer, o conselheiro formúla mil planos para o seu dourado porvir!

A geada de muitos invernos que lhe nevara no coração, ia desfazer-se aos raios do sol de melhores dias. Ia subir aos pinaculos da felicidade, e contemplar de uma grande altura os lodaçaes da pobreza, onde havia alguns annos se estorcia.

N'este momento, entrou um criado annunciando o visconde de Coruche.

—Que entre, disse o conselheiro.

Minutos depois, entrou o visconde.

O fidalgo vinha pallido como uma estatua.

—Que temos! Meu Deus! Como vens perturbado! acudiu o conselheiro fitando o rosto do seu amigo.

—Uma grande desgraça! Uma grande fatalidade! exclamou o visconde.

—Uma grande desgraça?! Uma grande fatalidade?!

—Venho agora mesmo de casa do conde de S. Luiz, e...

—Morreu Olympia de alguma indigestão?...

—Peior! tartamudeou o visconde, sentando-se n'uma othomana.

—Peior do que isso?! Ora essa! O que poderia acontecer peior do que isso!

—O conde de S. Luiz foi atacado pela febre, e porque forma, meu caro amigo! A sua morte é irremediavel, mas o peior, ainda não é isso, o peior foi o que me disse agora a condessa...

—O que te disse a condessa? perguntou anciosamente o conselheiro.

—Que Magdalena entrará para um convento no mesmo momento em que seu pae morrer.

—Respiro! disse emfim o conselheiro.

—Respiras?! perguntou o visconde profundamente admirado.

—Sim, cuidei que fosse alguma coisa que me dissesse respeito.

—Mas diz-me respeito a mim, louco! Não sabes que amava essa mulher? Que eu era amado por ella?

—Pois se tu a amas, e és amado por ella, é collocares-te á porta d'esse convento e não a deixares entrar.

—É que tu não comprehendes o seu caracter, João. Não sabes a especie de amor que essa mulher me consagra? Amor que a tem feito soffrer e que lhe vae abrir a sepultura!

—Não comprehendo, murmurou o conselheiro.

—Pois eu t'o explico. Magdalena dirigindo-se pela opinião geral, julga-me incapaz de ser um bom marido, por estes dez ou doze annos, emquanto tiver sangue na guelra, segundo a phrase de Olympia! Ora, meu amigo, Magdalena é ciumenta como uma leôa, que não admitte que se divida o coração, prefere morrer por mim, abraçada á cruz do seu amor, do que ser minha, sem ter fé na fidelidade da minha alma. Comprehendes?

—Olha, se queres que te diga a verdade, não comprehendo bem essas cousas. Ahi tens tu porque eu gosto da minha Olympia. Quanto a essa, estou certo que me não ha de atormentar muito com ciumes, nem aturdir-me com aquelles estirados monologos de sentimento, em que Magdalena está constantemente delirando. Sempre te disse que não trocava a minha felicidade pela tua, se por ventura viesses a ser meu cunhado, o que jámais pude acreditar, e se queres que seja sincero comtigo, nunca me pude aperceber d'essa paixão, que tu dizias ter-lhe inspirado, apezar de m'a estares querendo metter pelos olhos. E que tencionas fazer? ajuntou elle mudando de tom.

—Que tenciono fazer! Conformar-me com o meu destino, como ella...

—Como ella quê? interrompeu o conselheiro, recolheres te tambem a um convento?

—Não, mas esquecel-a em todas as loucuras da vida! No jogo, na embriaguez...

—Mau systema, respondeu o conselheiro.

—Sabes uma cousa, João? acudiu o visconde despeitado com a serenidade do conselheiro.

—Dize, respondeu este fleugmaticamente.

—Está-me revoltando essa tua serenidade! Devias interessar-te mais por mim, lembra-te...

—Que te sou devedor da minha futura felicidade, mas que queres! Creio pouco na tua paixão. Tenho-te visto trinta vezes apaixonado, e no dia seguinte, curado d'esse sentimento com o coração prompto e limpo para receber outro que te appareça. Se fosses pobre como eu, se tivesses as minhas theorias sobre o dinheiro, então poderia acreditar que estavas penalizado pela entrada no convento, porém como se não dá isso, felizmente para ti, pouco tenho a compadecer-me. Ámanhã por estas horas, completamente esquecido de Magdalena, apaixonas-te por qualquer mulher que seduzes pelo teu ouro e pela tua intelligencia, e appareces-me d'aqui a dias curado d'essa paixão que te atormenta.

O visconde mordeu os beiços de raiva. Havia tanto de ironia nas palavras do conselheiro, que não tardou muito que as intenções lhe fossem completamente denunciadas.

—Que tencionas portanto fazer? perguntou elle a Poderosa, querendo dissimular a perturbação que lhe haviam produzido as suas palavras.

—Que tenciono fazer? Ir immediatamente para Buenos-Ayres. E tu?

—Tenho muitas voltas a dar, não poderei ir senão de tarde. E despedindo-se do conselheiro, o visconde saiu, deixando o entregue ás suas profundas reflexões.

«Pobre visconde! Realmente, compadeço-te. Quanto melhor te fôra o teres sido sincero para commigo. Se tens sido esperto, apanhavas-me cincoenta ou sessenta contos por me teres conseguido este casamento. Assim, melhor foi, custar-me-ha apenas cincoenta ou sessenta libras!»

Meia hora depois, o conselheiro mandou buscar um trem, e dirigiu-se para Buenos-Ayres.


XXXIX

São tres horas da tarde. O palacio dos condes de S. Luiz, que na vespera ainda brilhantemente illuminado, abria os seus magnificos salões á primeira sociedade de Lisboa, apresenta se agora entristecido como fachada de edificio legendario!

É que a morte, estranha e indifferente a todas as grandezas humanas, assenta-se melancholicamente sobre os degraus d'aquellas escadas de marmore, e, erguendo-se de vez em quando, fixa o seu olhar invisivel, que atravessando as salas, vae pousar lugubremente no rosto pallido e cadaverico do conde de S. Luiz!

Tristão sente-lhe as mãos frias e descarnadas pesando-lhe sobre o peito. Quer falar; a voz prende-se-lhe na garganta! De vez em quando, levanta um olhar de piedade para um Christo, que de braços abertos o contempla da sua cruz, como se o convidasse a recolher-se ao seu divino seio! Então o conde torna a abaixar os olhos como se aquella imagem o assustasse, e, levantando ao mesmo tempo uma das mãos, pede a Magdalena que se lhe approxime.

Ha quatro horas que não fala! Para maior expiação, a sua intelligencia está clara e completamente serena!

Magdalena, debruçada sobre o leito, pegando n'um lenço de cambraia, limpa-lhe de vez em quando o rosto banhado por um suor lento e copioso. O seu rosto, denota-lhe o martyrio e a resignação.

A condessa, curvada n'uma poltrona, descança a fronte nas mãos, erguendo-se de minuto em minuto para contemplar o infeliz esposo. O seu olhar é triste, mas resignado como o de sua filha.

Olympia ao fundo do quarto, sentada n'um sophá tapa os olhos com um lenço de assoar, mastigando occulta e prestidigiosamente, umas bolachinhas de agua e sal.

O commendador Lopes de Miranda e o banqueiro Vaz Mendes, ora se approximam dos pés do leito, ora se dirigem aos outros gabinetes, onde uma multidão de individuos esperam com anciedade saber o estado do enfermo.

N'este comenos entra o conselheiro Poderosa. Demora-se um minuto olhando para o conde, e, engatilhando um gesto de sofrimento dirige-se para a condessa.

Esta extende-lhe silenciosamente a mão, occultando ao mesmo tempo o rosto com um lenço de cambraia.

João Poderosa fica immovel por alguns segundos, e em seguimento retira-se para falar com Olympia.

Ao approximar-se lhe, a noiva simula um estremecimento de surpreza, e, esquecendo o embrulho das bolachinhas que conservava no regaço, entorna-o, fazendo rebolar as bolachas sobre a alcatifa.

O conselheiro curva o busto, e salva os despojos farinaceos que se preparavam para fazer as delicias da mastigação da sua futura esposa!

No momento em que o conselheiro principiava o seu dialogo com Olympia, Magdalena, que havia chegado o rosto aos labios de seu pae, volta-se para a condessa.

Esta pergunta lhe o que deseja.

—Meu pae, necessita estar sosinho commigo e pede a todos que se retirem, responde Magdalena.

A condessa levanta-se. Olympia e o conselheiro seguem-n'a. Este ultimo demora se no gabinete com sua futura sogra; Olympia aproveita a occasião de ir á copa tomar uma canja de gallinha.

—Sinto que me foge a vida, filha, disse o conde extendendo a mão para Magdalena. Não quero morrer sem ter cumprido os meus e os teus desejos. Agora que me sinto mais tranquillo, vae tu, Magdalena, vae tu mesma buscar D. Marianna de Mendonça. Quero ouvir-lhe o perdão de seus proprios labios, e tambem do Manuel. Vae Magdalena, vae, minha filha, cumpre com este ultimo desejo de teu pae.

—E minha mãe?... e toda a gente?...

—E o que temos nós com toda esta gente, Magdalena? Trata-se agora da minha consciencia. Quero apresentar-me deante de Deus arrependido de todos os males que causei n'este mundo. Desde que confiei todos os peccados áquelle santo padre que me trouxeste, minha filha, já não receio o desconhecido. Sinto-me muito mais alliviado. Quando eu morrer, Magdalena, dentro da minha secretaria, encontrarás um pequeno cofre de platina; guarda-o, e a mais ninguem confies os segredos que elle encerra. Só tu serás digna d'isso. O meu testamento está na gaveta pequena d'aquella secretaria. Ha quatro dias que foi feito. Parecia adivinhar o que succedia! Foi Deus! Deixo quatrocentos contos a D. Marianna de Mendonça: ainda não é muito, para o que lhe fiz soffrer! Agora, que sabes o principal, vae filha, e possa o perdão d'essa mulher fazer com que a minha alma, voando aos pés de Deus, seja acolhida no seu divino regaço.

Afastando-a brandamente, tornou a pedir-lhe que fosse buscar D. Marianna de Mendonça.

—Se tua mãe te perguntar onde vaes, accrescentou elle, responde-lhe que é um segredo que juraste guardar a um moribundo.

Magdalena, depois de beijar seu pae na fronte, saíu do quarto e atravessou pelo gabinete onde sua mãe conversava com o conselheiro.

—Onde vaes? perguntou-lhe a condessa.

—Vou saír.

—Saír?

—Buscar uma pessoa a quem meu pae deseja falar antes de morrer.

—E essa pessoa... quem é?

—É um mysterio e um segredo, e recommendando á condessa que fosse para junto de seu pae, Magdalena atravessou as salas, e subindo ao quarto, preparou-se para saír.

Era tal o respeito e consideração que Magdalena inspirava a sua mãe; tinha tanta certeza da inutilidade de todos os seus esforços, para lhe quebrar qualquer dever, que a condessa resumiu-se ao silencio, e dirigiu-se sem mais reflexões ao quarto de seu marido.

—Aonde foi Magdalena?

—Buscar uma pessoa a quem desejo pedir perdão antes de morrer, e com quem pretendo ficar sósinho.

A condessa, sem responder uma palavra, foi sentar se na mesma poltrona d'onde momentos antes se havia levantado.

Amparado por aquelle desejo ardente, o conde de S. Luiz parecia de momento para momento ganhar mais tranquillidade.

Um quarto de hora depois, Magdalena entrou de novo no quarto de seu pae, participando lhe a chegada de D. Marianna. O conde fez um gesto significativo a sua mulher, esta comprehendendo o em seguida com uma obediencia passiva, levantou-se e saíu do quarto. Pouco depois entrava D. Marianna de Mendonça e seu filho. Magdalena fechou a porta deixando-os a sós com o conde.

Magdalena dissera-lhe apenas que seu pae os queria ver antes de expirar.

O conde, ao vel-os parados no meio da sala, extranhos e alheios áquella situação, ergueu se n'um supremo esforço, e, chamando-os pelos nomes, convidou-os a approximarem-se do leito.

D. Marianna, accedendo immediatamente aos seus desejos, acercou-se do enfermo.

—Lembra-se D. Marianna de Mendonça, recorda-se Manuel, d'um banqueiro chamado Felix Justino de Araujo, que em 1835 a mandou ir um dia em companhia do seu advogado, levantar um deposito de perto de quarenta contos de réis?

—Lembro-me, respondeu D. Marianna de Mendonça, fixando demoradamente o semblante do conde de S. Luiz.

—Se esse homem, que fez a sua desgraça, que lhe roubou filho, haveres, e por ultimo a razão, debruçado sobre a sepultura, lhe extendesse a mão supplice e arrependida, implorando lhe o perdão para sua alma, que lhe faria?

—Perdoar-lhe tudo, para que Deus tambem me perdôe os meus peccados, respondeu ainda D. Marianna.

—Perdôa-me tambem, Manuel de Mendonça? disse o conde. Perdoa a este homem, que durante vinte e tres annos o separou de tudo quanto tinha de mais caro no mundo! Perdoa a este homem, accrescentou elle, que conduziu sua mãe á miseria e á loucura.

—Perdoae-lhe, Senhor, como eu lh'o perdôo de todo o meu coração, respondeu Manuel de Mendonça, voltando-se para a cruz do Redemptor, juiz supremo d'esta tocante scena.

—Morrerei tranquillo, disse então o moribundo, com a voz já enfraquecida.

—Que Deus perdôe ao pae d'aquelle anjo, disse D. Marianna caindo de joelhos, e apontando para a porta por onde Magdalena havia saido.

—Diz bem, D. Marianna; d'aquelle anjo, accrescentou o conde de S. Luiz. Foi aquella candida pomba a encarregada por Deus para me conduzir á sua divina presença! A ella devo o seu perdão, sr.ª D. Marianna!

—E eu devo-lhe o meu filho, respondeu D. Marianna, arrastando-se de joelhos sobre a alcatifa, até se collocar deante do Christo. Pela vossa infinita misericordia, exclamou ella levantando as mãos para a cruz, perdoae-lhe Senhor, como eu de todo o coração lhe perdôo, e queira a vossa infinita vontade conservar-lhe largos annos de vida, para que este arrependido conheça a sinceridade das minhas palavras.

—Chamem a minha filha que deve estar n'aquelle quarto, murmurou o conde, voltando-se para Manuel de Mendonça, e apontando para uma porta que separava os dois aposentos.

Magdalena entrou immediatamente. Ainda que dotada de uma organização robustissima, a infeliz, já principiava a resentir-se de tantas commoções.

D. Marianna, lançando-se-lhe nos braços, debalde tentava occultar as lagrimas.

—Falta me aqui uma pessoa a quem desejava ver antes de morrer. Queria abraçar a Martha, a minha companheira do hospital.

—Deus favorece-lhe os seus desejos, meu pae. Ha dois minutos que alli estão todos tres: e, abrindo a porta, deu passagem a Balbina, Jeronymo e sua filha.

—Approximem-se, meus amigos, disse-lhes o conde de S. Luiz. E, emquanto fôr tempo, accrescentou elle, apertem esta mão, que sempre se lhes extendeu com amizade.

As lagrimas embargaram-lhes as vozes. Uma pessoa apenas se conservava n'uma serenidade de martyr. Era Magdalena!

—Infelizmente, accrescentou o conde voltando-se para Martha e Manuel de Mendonça, não lhes posso assistir ao casamento mas aqui lhes fica este anjo, continuou elle voltando-se para Magdalena.

Esta ficou immovel!

Alma temperada nas grandes agonias, a que realeza de martyrio foste arrancar esse diadema que te corôa?

Momentos depois, retiraram se todos do quarto.

O conde ficou em estado de profunda atonia.

Não se ouvia um ruido. Apenas o estremecimento da prece passando pelos labios descorados de Magdalena.

Como tudo isto estivesse em socego entraram no quarto a condessa, Olympia, o conselheiro e o visconde de Coruche. Seguiam n'os o commendador e o banqueiro.

—Dorme tranquillo! disse o visconde olhando na direcção do leito.

—Dorme acudiu a condessa, á medida que se approximava de seu esposo.

Magdalena, n'esse momento, adeantou se mais, e debruçou-se a escutar a respiração.

—Morto! exclamou a pobre filha, n'um arranco d'alma! Bemdito Deus, que me permittiste salvar meu pae! ajuntou ella caindo sobre o cadaver do conde, e aproveitando nos seus labios o derradeiro calor d'aquelle rosto extremecido.


Gozando em branda paz as delicias do hymeneu, havia comtudo uma terrivel sombra que lhes perturbava a paz domestica: o conselheiro não era capaz de fazer nem um beefsteak! Toda a sciencia culinaria de que se vangloriara, era apenas um mytho que elle creára para conquistar o estomago de D. Olympia!

Quando emfim sobre Lisboa deixaram de esvoaçar as azas negras do monstro, e que Magdalena fechou as portas áquelle hospital, d'onde não tinha saido desde a morte de seu pae, o visconde de Coruche, vivamente ferido pela grandeza d'alma de Magdalena, lançou se-lhe aos pés e pediu-a em casamento.

—Vou casar-me com Deus, respondeu Magdalena, levantando os olhos para o céu!

No dia seguinte, Magdalena entrava no convento de ***, onde morreu pouco depois, recebendo as bençãos da pobreza, com quem havia repartido os seus rendimentos.

Lopes de Miranda, associado com Vaz Mendes n'uma casa de penhores, abre os seus armarios a todos os objectos de valor que o visconde de Coruche periodicamente lhe envia pelo seu mordomo. Este espera ainda ver seu amo n'um estado florescente, attendendo ao axioma de um dos nossos primeiros vultos litterarios: que um fidalgo arruinado sempre tem cem contos de réis!

Quanto á condessa de S. Luiz, uns dizem que está beata, outros asseveram que se tornou capitalista de uma partida de Roulette não sei em que parte da Europa, e de que são feitores Gil de Carvalho e Bernardo de Paiva, tendo-lhe o primeiro ganho a confiança pela paga espontanea das cem libras que devia a seu defuncto marido, e de que nem ella mesma era sabedora.

E Martha, e Manuel de Mendonça, e sua mãe, e Balbina e Jeronymo, e Mascatudo?

Apezar da tia Monica asseverar aos que á noite se reunem na tenda da rua da Lapa, que foram todos parar aos peixinhos, pessoa de credito affirmou a quem estas paginas escreve, que essa familia, venturosa na sua união, se foi estabelecer nos Estados-Unidos, gosando em doce calma os prazeres de uma existencia honesta, moral e religiosa.

E ter-se-hão esquecido da memoria de Magdalena?

Nunca! N'aquelles corações não cabia a ingratidão.

Fim


COMPANHIA PORTUGUESA EDITORA, L.DA

PORTO

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