III
Meia hora depois d'esta veridica scena, que acabamos de descrever, appareceu o medico.
—É alli, disse-lhe o regedor, apontando para a porta da tia Marianna.
—Siga me, disse o doutor, voltando-se para a autoridade.
O lance era fatal, não havia que hesitar. Amaldiçoando n'esse momento a má estrella, que o conduzira áquella posição, com as faces lividas de susto e de terror, o sr. Venancio seguiu o medico.
Junto ao leito de Marianna, fazendo lhe uma fricção nos joelhos, Martha, a filha do operario, debalde tentava chamar á vida essa que, n'um olhar turvo e desvairado, parecia contemplar lhe a angelica formosura.
Balbina, com um pequeno frasco chegado ao labio superior da enferma tentava fazel a aspirar o conteùdo do vidro. De pé, contemplando este doloroso quadro, Jeronymo pedia a Deus se compadecesse de sua familia.
Approximando-se da enferma, o medico tomou-lhe brandamente o pulso, e voltando-se em seguida para Martha, pediu-lhe uma véla, afim de melhor analysar a vista da moribunda.
—Encontro-a muito debil, disse o esculapio em voz baixa; é de suppôr que não a possamos salvar; comtudo, far-se-ha a diligencia, ajuntou elle cravando os olhos no rosto pallido e abatido de Martha.
Abrindo em seguida a caixa dos medicamentos, começou de applicar lhe os que o seu estado exigia.
—Esta senhora pertence á sua familia? ajuntou o medico voltando se para Jeronymo.
—Não, senhor; comtudo minha filha interessa se muito por esta desgraçada; e se não fosse Martha, talvez a tivessem mandado para o hospital.
—Se a teem removido d'este leito, ao chegar lá seria um cadaver, retorquiu o doutor, palpando a fronte da enferma.
—Parece lhe que poderemos ter esperanças? perguntou Martha, approximando se do leito.
—Veremos á noite. Sendo sete horas, se poder, voltarei; e, despedindo-se dos circumstantes, saiu d'aquella casa, levando impressa na memoria a imagem candida e celeste da filha do operario.
Os moveis da tia Marianna reduziam se ao pequeno leito de espinheiro onde jazia, uma enorme papelleira, um bahu, e quatro cadeiras de palhinha, completamente estragadas nos assentos.
Roupas, se as havia, estavam fechadas; e nem ella lh'o podera responder, nem era dado a Balbina o perguntar-lh'o n'esse momento. Dirigindo se a casa, trouxe d'alli quanto necessario lhe pareceu afim de alliviar no que podesse os incommodos da enferma.
—Sempre lhe gabo a pachorra, disse a sr.ª Margarida, ao ver os lençoes alvos como a neve, que a mulher do operario levava no braço. Estar estragando assim as suas roupas brancas com quem pouco póde viver! Não era eu, que Deus me livrasse! E demais, sr.ª Balbina, uma pobre de Christo como a tia Marianna, mais lhe valera o ir para o hospital. Supponha a senhora que fica para ahi entrevada, quem ha de sustental-a?
—Deus nunca faltou a pessoa alguma, sr.ª Margarida; e demais, cada qual que se metta com a sua vida, que eu pela minha parte nunca me intrometto com as alheias, respondeu Balbina, cortando pelo fio as palavras da capellista, e dirigindo-se para casa da tia Marianna, onde a esperavam Martha e seu marido.
A velha havia recobrado a razão, e sorria-se brandamente para a filha do operario, como se n'aquelle olhar significativo estivesse agradecendo a Deus o anjo que a Providencia lhe havia deparado n'esse momento de suprema angustia.
Jeronymo e Balbina, assentados n'um bahu, olhavam para aquelle quadro enternecedor, pedindo ao mesmo tempo nas suas preces silenciosas que lhe livrassem sua pobre filha.
Meia hora depois de arranjada a cama, a velha sentiu-se mais alliviada. As horriveis dôres por que passara, iam-lhe diminuindo a pouco e pouco, e á face, de pallidez mortal, subira-lhe de novo o calor e a vida.
Nem uma só das visinhas, approximando se á sua porta, foram pelo menos indagar o estado da sua doença.
Ás sete horas, como o havia promettido, voltou o doutor. A enferma estava livre de perigo.
IV
Oito dias depois, com grave assombro da visinhança, a tia Marianna, envolta n'um capotezinho azul, apparecia de novo á janela da sua casa.
Os effeitos da febre amarella haviam-lhe passado desapercebidos pela sua organização de ferro. Ao vel-a, ninguem poderia acreditar que essa mulher, aos sessenta e seis annos, podesse haver resistido aos golpes d'uma doença, que tanta gente nova e robusta ceifára n'aquellas immediações.
Todos viam na sua convalescença, começando pela beata, um favor da Providencia; e nem uma só bocca se abriu para dizer, quanto a dedicação da pobre Martha ajudára aquelle verdadeiro milagre.
Almas vis e denegridas que não comprehendeis o bem, como poderieis soltar a voz para elogiardes a virtude, se nos vossos corações não existe mais do que a inveja e a podridão!
Sem valor de praticardes o bem, fere-vos o goso que experimenta o coração, que se entrega aos deleites da caridade.
A apotheose do proximista, echoando nos ouvidos do misanthropo, deve produzir-lhe um effeito atroador, como o som do ouro espalhado pela pobresa, no tympano do avarento.
Ninguem da visinhança se atrevera a soccorrer a pobre doente, ninguem repartira o seu jantar com a infeliz; porém, quando a viram de pé, salva, proclamando por toda a parte o quanto era devedora á familia do operario, todas as visinhas, consumindo-se de inveja, lhe voltavam as costas para não ouvirem os elogios que a velha do coração lhe prodigalizava.
Desde esse momento, a pouca affeição que todos consagravam á familia de Jeronymo, tornára-se em decidida aversão. Começando pelo sr. regedor, e acabando na sr.ª Margarida da Silva, ninguem podia supportar aquella pobre gente, que, fechada quasi sempre em sua casa, de mais coisa alguma se importava a não ser dos seus arranjos domesticos.
Quanto mais a tia Marianna proclamava em alto e bom som as virtudes de Martha, maiores antipathias ia inspirando a filha do operario. Quando, acompanhada por sua mãe, saía aos domingos para ir á missa da Lapa, as visinhas zombavam sempre ao vel-a passar. Hoje, porque o seu lenço estava mal engommado, ámanhã porque o seu capote de panno azul já começava a mostrar o fio. A pobre victima fazia que nada percebia dos continuos gracejos que contra ella dirigiam. Chegou a pedir a sua mãe, por tudo quanto havia, que não a obrigasse a ir á missa das onze.
—Que te importa o que diz toda essa gente? exclamava ás vezes o sr. Jeronymo. O que elles têem é inveja do teu comportamento. Não tardará muito, se Deus quizer, que tenha ahi uns ganchosinhos que me devem render um par de moedas, verás então como lhes hei de fazer estalar a castanha na bocca, quando te virem o bom capote aos hombros, e o bom cordão de seis moedas ao pescoço.
—Pouco me importa com o que elles dizem, respondia lhe Martha. Não tenham de abocanhar no meu credito, o mais, tanto se me dá como se me deu. O que eu queria era ajudar a pobre velhinha.
—Pois tambem não tardará muito que lhe façamos algum bem, respondeu o mestre Jeronymo, como se um pensamento lhe acudisse ao espirito. Ámanhã tenciono ir a casa de tua madrinha, para que ella lhe possa obter alguma esmola da senhora Condessa. Que te parece, Martha? Continuou o mestre de obras, cravando os olhos no rosto candido de sua filha, e revelando no gesto o prazer que lhe ia n'alma, ao comparal-a com todas as raparigas suas visinhas.
—Muito estimarei que isso não fique no rol dos esquecimentos, respondeu a criança sorrindo-se ternamente para seu pae. Salvamos a pobresinha da morte, é mister não a desampararmos, nem deixal a morrer de frio ou de fome.
—De frio não morrerá ella por certo, acudiu Balbina, collocando o ferro de engommar sobre o descanço. Ainda esta manhã lhe dei o capote que punhamos no leito.
—Quer dizer, interrompeu Jeronymo, que de hoje em deante... se tivermos frio...
—Que nos havemos de contentar com os cobertores, respondeu a caridosa Balbina, tornando a pegar no ferro, e approximando-o da face para lhe calcular o calor.
—Seja o que vossês quizerem, que eu, pela minha parte nunca as reprehenderei por qualquer acção boa que praticarem; e já que tivemos a felicidade de salvar a vida d'essa infeliz, é justo não a deixarmos agora morrer ao desamparo. Estou da opinião da Martha.
—Ou eu me engano muito, ou a tia Marianna já teve melhores dias, disse Martha. Ha na sua vida algum mysterio que ella nos encobre, mas que, apezar de tudo, adivinhamos, respondeu Martha, com aquella intuição particular que tantas vezes se encontra no coração da mulher.
—O mesmo penso eu, ajuntou mestre Jeronymo. Nunca fui homem que frequentasse estas casas, porém reconheço ás vezes um não sei quê nas maneiras da tia Marianna, que me levam a crer que os seus principios não foram como os nossos; e tenho cá na mente, que mais dia menos dia tudo se ha de descobrir. Quando vossês hontem foram levar aquellas camisas a casa da fregueza, e que fiquei aqui em sua companhia, ainda mais me convenci das minhas suspeitas. «Sr. Jeronymo, disse me a tia Marianna, quem sabe se um dia a Providencia, lembrando se de uma desgraçada que abandonou sobre a terra, a tomará de novo debaixo da sua protecção. Se tal acontecer, lembre-se do que lhe digo hoje, nunca serei ingrata para uma familia a quem tanto devo.» Ora, além d'estas palavras serem proferidas, sim... assim como o outro que diz, com uns certos modos finos e delicados, levam-me a pensar que a tia Marianna não é, nem nunca foi o que parece. Em todo o caso, seja ella quem fôr, tem precisão, é necessario soccorrel-a, e hoje mais do que nunca, quando a inveja a começa a perseguir. Vejam lá a capellista! Até essa mesma, que eu suppunha tão virtuosa, como se uniu a todas as visinhas para lhe cortarem na pelle, mais a ti, minha filha! Valha nos Deus, que mundo este! ajuntou o mestre de obras, dirigindo-se para a cosinha, em cuja chaminé Balbina lhe havia posto a ceia a aquecer.
N'este momento bateram apressadamente ao postigo.
—Que teremos? disse Balbina.
Martha levantou-se, e ao reconhecer a voz que da rua lhe falava, abriu immediatamente a porta.
Era a tia Monica.
—Deus seja comvosco n'esta casa, e que o Senhor lançando sobre nós a sua divina benção, queira proteger a mais santa e a mais virtuosa de todas as familias, disse a beata. Acaba de ser atacada pela febre amarella a nossa visinha Margarida, ajuntou ella. No momento em que me estava vendendo um vintem de meio grosso, a colera de Deus desceu sobre a peccadora e alli jaz sem protecção nem abrigo, porquanto todas as visinhas receiam que tambem o Senhor as castigue pelos actos que teem praticado sobre a terra. Venho pedir a vossemecê, sr.ª Balbina, que se compadeça d'essa desgraçada, e que me empreste esse milagroso frasquinho com que tornou á vida a tia Marianna.
—Não foi o remedio que lhe deu minha mulher que fez com que a tia Marianna melhorasse, acudiu o mestre Jeronymo, que da porta da cosinha ouvira as exclamações da beata. Façam o mesmo que fez minha filha. Vão chamar o sr. regedor e peçam-lhe que mande immediatamente buscar-lhe os soccorros, ajuntou o mestre de obras com modo aspero e descontente. Quanto ao frasco, continuou elle, voltando-se para sua mulher, podes emprestar-lh'o se é da tua vontade, porém servir-lhe de enfermeira, maletas me dêem se em tal consinto. Bem basta o que basta, sr.ª Monica. Para outra qualquer pessoa talvez que nem fosse preciso que me pedisse por duas vezes, mas para a sr.ª Margarida! Nem que me pezassem a ouro, ou que santo me fizesse o sr. padre prior. Estou farto e mais que farto da ingratidão, sr.ª Monica. Não foi a sr.ª Margarida a primeira a cortar na pelle de minha filha, por ella ter ido acudir á tia Marianna? E não foi só ella como tambem as outras visinhas! Pois agora que se aguentem como melhor lhes parecer. Que se ajudem umas ás outras, que eu pela minha parte, não consinto que lá ponham o pé, nem minha mulher nem minha filha.
—Cruzes! Credo! Mãe Santissima! Que modos, sr. Jeronymo! E eu que julgando-o um Santo, me atrevi a vir a sua casa. Que a ira de Deus descendo sobre esta morada castigue o maior de todos os peccadores, resmungou a tia Monica á medida que se approximava da porta por onde momentos depois saía apressadamente, olhando ao mesmo tempo para Jeronymo, cujo olhar, incendiado pelo desespero que a praga lhe havia produzido, incutia certos receios no animo da corretora de orações.
—Que lhes pareceu o traste? perguntou o mestre Jeronymo depois de alguns momentos de profunda reflexão.
—Se meu pae me deixasse ao menos ver o estado em que se encontra essa pobre mulher?... perguntou ingenuamente a caridosa Martha.
—Nem por sombras, respondeu o operario. Vamos pedir a Deus pela saude, e depois descançarmos o corpo para o trabalho de ámanhã.
Momentos depois, ouvia-se apenas em casa do operario o ciciar d'esta curta, mas eloquente oração:
Bom Jesus, todo Poderoso,
Filho da Virgem Maria,
Soccorrei-nos esta noite
E ámanhã por todo o dia.
Se na terra não coubermos,
Levae-nos Senhor aos céos,
Rogae por nós peccadores,
Virgem Santa, Mãe de Deus.
V
Havia dias que tinha chegado a Lisboa, vindo do Rio Grande do Sul, um abastado capitalista por nome Tristão de Almeida, segundo rezava o seu passaporte. Acompanhavam-n'o sua mulher e duas filhas.
Trazia apenas tres cartas de recommendação, uma para o visconde de Coruche, outra para o commendador Lopes de Miranda, e a terceira para a casa bancaria de Vaz Mendes e C.ª, extraordinariamente acreditada n'esta capital, não só pela notavel amabilidade dos seus gerentes, como pelo facto de já ter fallido tres vezes.
O visconde, o commendador e o banqueiro abraçaram gostosamente o seu recommendado. Como bons farejadores reflectiram que a caça era rara de mais para se abandonar por essas mattas de Lisboa, onde o genero tanto escasseia.
Disputada calorosamente entre todos tres a preza que promettia dar para succulenta refeição, transigiram, promettendo, como quaesquer jogadores da vermelhinha, que dividiriam entre todos os despojos da caçada.
Deixando-se de vogar na torrente de eternas adulações, Tristão de Almeida olhava para as facecias dos seus aduladores com aquelle olhar de experimentada velhacaria com que todo o homem do mundo se deixa levar, quando, porventura, no amago das lisonjas que lhe disparam, antolha, ou pelo menos fareja o mais leve indicio de estremado calculo.
Sem patentear a sua intelligencia ou, ainda mais, deixando-se passar por zote, Tristão ia cercando de lisongeiras esperanças o filão d'essa inexgotavel mina que os tres inseparaveis amigos julgavam descobrir na sua aurifera individualidade.
Mulher e filhas ainda não haviam entrado em scena. Constava porém que uma das meninas era de formosura extrema, e d'uma superior intelligencia. Não tardou uma semana que esse homem, ou para melhor dizer esse mysterio fosse discutido em todos os circulos.
Quem era? Qual o seu passado, ninguem o sabia; ao passo que elle conhecia a todos, e de todos sabia as chronicas. Se este, antes de ser visconde de tal era apenas Manuel Pinto com barracas de fressureiro, se aquelle, antes de barão, empregava a casca de polvo para tirar em baixo relevo a vera effigie de qualquer monarcha, ensaiando por esta forma a sua industria até conseguir a tiragem por meio do balancé; se aquell'outro, profundo amador do sexo fragil, tivera casa de alcouce no Brazil com o unico fim de matar o tempo.
Tristão de Almeida sabia o passado de todos, e todos ignoravam o seu preterito.
«É forçoso votar uma quantia para estes tres individuos, pensava elle, passeiando pela varanda do hotel e contemplando as aguas do Tejo que pareciam conhecel-o e sorrir-lhe. Se com vinte ou trinta contos de réis se contentam, satisfarei os seus desejos e poderei conseguir os meus fins. Graças a sir Francis Strolopp, tornei-me desconhecido.[1] Hoje pessoa alguma poderá descobrir que antes de ser Tristão de Almeida fui Felix Justino de Araujo como antes de ser Felix Justino de Araujo fôra Domingos de Andrade.
«É forçoso que me arranjem um titulo pelo menos de visconde. Quero ver minha mulher viscondessa, tenho n'isso o maior de todos os meus caprichos. Não que me seja preciso, para casar minhas filhas é-lhes sufficiente o seu dote de duzentos contos de réis. Brevemente encontrarão algum fidalgo arruinado, que tenha por unicos restos de grandeza o seu titulo, e isso... é genero que abunda muito em Portugal. Está decidido, quero um titulo. Começarei por ser apresentado em casa de alguma senhora protectora d'essas escolas de caridade, e dar-lhe-hei uma avultada esmola, afim de a applicar aos seus protegidos. Mas agora me recordo, ajuntava elle, desencostando-se do parapeito da varanda; o ensejo é favoravel. A febre amarella, levando a desgraça a centenares de familias, enlucta-lhes as suas habitações. Vou fundar um hospital. Serei o anjo dos tristes! Beatifica-te, Domingos de Andrade. Eleva-te aos olhos de Deus, Felix de Araujo. Derrama esse ouro que tanto te custou a adquirir, Tristão de Almeida, e serás um dia aquillo que te aprouver.»
N'este momento, bateram á porta da sala. Tristão mandou que abrissem, e entrou um criado annunciando o visconde de Coruche.
—Que entre, disse lhe Tristão de Almeida retirando-se da varanda e dirigindo-se para o salão.
O visconde era um homem de cincoenta annos, mas que parecia ter quarenta quando muito.
Dotado d'uma inteligencia regular, já pelos dotes physicos de que Deus fôra prodigo para com ele, já pela riqueza de que por duas vezes havia disposto, era ainda, apezar da sua decadencia, o primeiro rapaz d'esta terra, onde se não envelhece antes dos setenta e seis a setenta e sete annos, graças á temperatura do seu clima.
Quando entrava no Marrare de Polimento, toda a moderna geração se curvava deante d'aquelle que havia sido o chefe da velha guarda.
Não havia rapaz que não escutasse avido de curiosidade as mil aventuras que se haviam dado n'aquella existencia tumultuosa. Havia sido o terror da banca portugueza no salão do theatro de S. Carlos, como na caixa do mesmo theatro fôra o invejado emulo de todos os seus contemporaneos, em resultado das innumeras conquistas que em cada epocha se permitia. Ninguem montava como o visconde! Os seus cavallos eram os primeiros de Lisboa. Tivera por sotas da sua magnifica sege o Feliciano e o Bem Bom!
Aos vinte anos, casara-se com uma prima, a filha do conde de ***. Quinze dias depois, n'um camarote de primeira ordem da Rua dos Condes, estava a viscondessa e defronte dela, noutro camarote da mesma ordem, miss Ellen Barkshead, voltando de vez em quando o rosto para a rectaguarda para melhor falar com o marido da viscondessa.
Como se vê, era um homem completo.
Dois anos depois entregou a viscondessa a sua meia alma a Deus deixando sobre a terra a outra metade, para ser previamente repartida por uma multidão de mulheres que disputavam entre si o voluvel coração do visconde.
Extravagante mais por indole do que por ostentação, o fidalgo deliciava-se nos encantos dos seus desvarios, saboreando as commoções que d'elles lhe resultavam, com o mesmo deleite com que o gastronomo delicia o palladar nos prazeres d'uma variada mastigação. Era o verdadeiro sybarita da estroinice.
Senhor d'uma casa de vinte contos de renda, não tardou muito que a visse desbaratada em custosas viagens.
Aos trinta annos estava pobre! Tinha por unico recurso a morte de um tio de quem era herdeiro forçado, porém a pertinaz saude do velho fazia com que o pobre visconde estivesse quasi a esmorecer no caminho da vida, onde se assentava desanimado, como o peregrino, a quem o desalento feriu no começo da sua jornada.
Um dia, finalmente, o velho aristocrata, mais talvez para acceder aos ardentes desejos do seu arruinado sobrinho do que para descer aos abysmos do inferno, que por direito de conquista lhe pertencia, cerrou brandamente as palpebras, e partiu d'esta para peior, segundo a opinião das suas victimas, deixando por seu universal herdeiro o visconde de Coruche.
As privações porque este passára foram completamente esquecidas desde que se encontrou novamente possuidor d'um vinculo cujo rendimento excedia seis contos de réis, e esquecidos tambem se julgaram os seus crédores, porquanto lhes foi necessario lançarem mão de meios pouco brandos para adquirirem, senão a totalidade do devido, pelo menos o capital confiado ao visconde, com juro modico e rasoavel. O fogo d'aquella eterna juventude, amortecido durante cinco annos de amargura, reanimou-se então com todo o esplendor do seu brilho! O visconde tornou a entregar-se a todos os prazeres, com o ardente desejo de quem apenas se recordava d'elles.
A sua vida era um mysterio. Todos os dias se dizia que estava arruinado, porém tanto a casa como o trem conservavam-se como no tempo do apogeu da sua riqueza.
D'onde lhe viria o dinheiro para tanto? Eis o misterio que a pessoa alguma era dado descortinar.
Ao cabo de alguns annos, o vinculo que herdára teve o mesmo resultado que havia tido o que seus pais lhe deixaram, porém desta vez a situação era mais difficil, não tinha parente algum para quem apellar.
Não podendo recorrer aos mortos, decidiu-se a explorar os vivos. Escudado pela prestigiosa fama que o acompanhava, fez do seu nome uma industria.
Os rapazes que entravam na sociedade desejavam todos ser-lhe apresentados. O visconde conhecia isto, e, esquivando-se a principio, anuia finalmente, não sem mostrar quanta honra ele lhes dispensava colocando-os no rol de seus intimos.
Todos á uma dariam metade do que possuiam para se tratarem por tu com o visconde, no que ele era assaz difficil; a sua intimidade era um genero de superior qualidade para que muitos se podessem ufanar de o possuir.
Ainda que as suas gentilezas eram por todos conhecidas, todos ou quasi todos lhas desculpavam. Estimado nos principais circulos onde aparecia, nem uma só pessoa se atrevia a dar-lhe a mais pequena mostra de desconsideração.
Foi pois o visconde um dos tres individuos a quem Domingos de Andrade, ou o commendador Felix de Araujo, ou Tristão de Almeida, para maior exactidão desta veridica historia, foi apresentado.
—Quanto estranhei não o ter encontrado hontem no theatro, meu caro amigo, disse o visconde, reclinando-se commodamente n'uma poltrona. Ha muito tempo que não vejo S. Carlos tão brilhante. O tenor, como sempre, cantou admiravelmente. E no que diz respeito ás toilettes, não póde calcular, e impossivel seria descrever-lh'as. Felizmente não se tem espalhado muito o panico em Lisboa. O cholera de 1833, de que eu tenho uma vaga reminiscencia, aterrorizou muito mais os habitantes do que esta innocente epidemia. Ha um tempo a esta parte, tudo aqui em Lisboa é pobre e acanhado. Da febre amarella, diz-se: tem morrido muita gente; do cholera, dizia-se com espanto: assim mesmo tem escapado alguem. Isso é que foi uma epidemia, meu amigo.
—Assim ouvi dizer. N'essa epocha estava eu em Buenos Ayres, respondeu o commendador, notando ao mesmo tempo a estudada desenvoltura com que o visconde o tentava seduzir. Pois eu hontem não fui a S. Carlos, ajuntou elle, por ter tido minha filha alguma coisa indisposta.
—N'esse caso fez muito bem, sr. Tristão. O tempo não está para brincadeiras. Eu mesmo, que tenho uma saude de ferro, se n'este momento sentisse a mais leve indisposição, começava por me tractar como estando realmente ameaçado pela epidemia. Em primeiro logar está a nossa saude. Prefiro-a a tudo, até á riqueza.
—Porêm quando se reunem essas duas venturas... acudiu Tristão de Almeida, simulando um gesto de pueril ingenuidade.
—Então o mundo é um verdadeiro paraiso, pelo menos assim o julgo. Muitos rapazes que por ahi conheço possuem, como eu, saude e dinheiro. Encontro-os sempre curvados ao pezo de uma terrivel fatalidade. Nunca se consideram felizes! Fazem da melancolia a sua companheira inseparavel, e dando-se ares de Antonys, arranjam um farnel de desventuras, e vão com elle por essas ruas da capital armando á compaixão das suas Lesbias. Eu sou o contrario; a minha alegria é chronica. Se eu não tenho coisa alguma que me entristeça, para que demonio hei de dizer mal do mundo que tantos deleites me faz experimentar?
—Sou da sua opinião, sr. visconde. O mundo é apenas mau para os tolos, ainda que ha muita gente que diz o contrario. Quem dispozer de boa saude e tiver alguns meios, deve pedir a Deus que o conserve largos annos sobre a terra. Mas voltando agora a outro assumpto, ajuntou Tristão de Almeida, que já começava a impacientar-se, como o leitor, do estirado dialogo do visconde; quanto estimo que me tenha dado a honra d'esta visitasinha, não só pelo prazer da sua companhia, como pela necessidade que tenho de lhe falar. Preciso um conselho seu.
—Um conselho meu! exclamou o visconde profundamente admirado. É a primeira pessoa que m'o pede! Todos me chamam um rapaz extravagante, continuou elle, olhando ao mesmo tempo para um espelho que lhe ficava fronteiro; vossa excellencia quer guiar-se pela minha opinião? Provavelmente trata-se da compra d'algum palacio, e alguem houve que teve o mau senso de lhe dizer que eu era um homem de gosto.
—Nada, não se trata d'isso.
—Então, provavelmente, quer me consultar ácerca da mobilia, ou das carruagens, ou dos cavallos?
—Tão pouco, respondeu serenamente Tristão de Almeida. Isso ficará para mais tarde. Por agora trata-se apenas de uma obra de misericordia;—fazer bem aos desgraçados.
—Se tal fôr, acho muito justo, e desde já me offereço a ajudal-o em tudo quanto me seja possivel.
—Sentemo nos, disse Tristão apontando lhe para o sophá. Minha esposa, que tem o habito de empregar na pobreza a mezada que lhe dou para os seus alfinetes, lembrou-se ha dias de gastar uns contos de réis n'um asylo de creanças desvalidas. Que lhe parece a idéa?
—Não a póde haver melhor, respondeu o visconde, e se vossa excellencia m'o permitte, desde já me comprometto a fazer com que minha tia, a sr.ª condessa de Villa Velha, venha immediatamente procural-o afim de o iniciar n'essas associações. Recordo me d'ella, porquanto é uma das mais assiduas obreiras do grande monumento da caridade. Não ha asylo para que não seja consultada e é sempre a sua opinião a que prevalece sobre todas as outras. Se vossa excellencia quer, o meio é muito simples, e torno a repetir-lhe, hoje mesmo me encarrego de tudo.
—Pois meu caro amigo, acudiu fleugmaticamente Tristão de Almeida, não me associo á opinião de minha mulher nem á sua. Tenho outra idéa, e creio que será muito mais razoavel.
—Sim?...
—É verdade. Lembrava-me de fundar um hospital para os enfermos atacados de febre amarella. Isso em primeiro logar; depois, quando este terrivel flagello tiver abandonado Lisboa, então sim, então adoptarei a idéa que teve minha mulher.
—Approvo, e desde já devo confessar que tanto eu como sua excellentissima esposa ficamos completamente vencidos.
—Approva?
—Applaudo.
—E dispensa-me a sua protecção n'esta pequena obra de caridade?
—Conte commigo, respondeu o visconde puxando pela charuteira e offerecendo um magnifico havano ao seu interlocutor.
—Poderemos hoje mesmo começar os nossos trabalhos? perguntou Tristão de Almeida, acceitando o charuto que lhe fôra offerecido.
—Quando queira, respondeu o visconde de Coruche, tirando da algibeira do collete uma caixa de phosphoros magnificamente cinzelada.
—Vamos então procurar o commendador e seguiremos d'alli para casa de Vaz Mendes. Tanto um como o outro é de suppôr que nos possam ajudar em muito.
—Assim o creio, murmurou o visconde, accendendo o charuto e passando-o a Tristão de Almeida.
Momentos depois entrava este para dentro do trem do visconde. Quando a carruagem saia o portão e voltava para a rua do Ferregial, espantou-se o cavallo da sella, e esbarrando no passeio, atropellou um individuo, deixando-o sem sentidos. Sairam ambos e levantaram o desgraçado.
Pegando elles mesmos no corpo inerte da victima, transportaram n'a para o hotel de Bragança.
Tristão de Almeida expediu logo dois creados em procura de medico. Por excepção, o doutor não tardou meia hora!... Das feridas que o atropellado recebera na cabeça nenhuma era de gravidade, comtudo não havia tornado a si.
Tristão de Almeida, com a mão do enfermo entre as suas, parecia com profundo interesse procurar-lhe a vida nas pulsações. Seria calculo ou verdadeira caridade? Sabia o Deus!
Terminado o curativo, o homem descerrou as palpebras, fitando o que havia em torno de si com olhar turvo e desvairado.
É melhor deital-o immediatamente, não lhe sobrevenha alguma congestão, disse o doutor tomando o pulso do enfermo.
Depois de ordenarem ao criado de mesa que arranjasse um quarto, Tristão de Almeida e o visconde levaram em braços o ferido e deitaram-n'o sobre um leito, pedindo ambos ao medico que voltasse antes da noite.
—Começa hoje a espalhar as joias da sua caridade, disse-lhe o visconde com falsa ingenuidade.
—Quizera antes ter perdido dez ou doze contos de réis do que ter sido causa de similhante desgraça, respondeu-lhe Tristão. Agora, sr. visconde, ajuntou elle, emquanto vamos tratar dos nossos negocios, será bom recommendar a minha mulher e a minhas filhas que venham para a cabeceira do ferido.
—Será uma grande alma, pensava o visconde.
—Foi um magnifico prologo, dizia comsigo Tristão.
Meia hora depois dirigiam-se ambos para casa do commendador.
FOOTNOTES:
[1] Tristão de Almeida lera a preclarissima obra de sir Francis Strolopp, e procurando um celebre chimico allemão, conseguira que este lhe transformasse a physionomia a ponto de se tornar desconhecido de si mesmo.
VI
—E já lá vão as cinco, as seis, e as sete, e Jeronymo sem chegar! Virgem Santissima que lhe terá acontecido?
Isto dizia a infeliz Balbina, olhando ora para o relogio, ora para uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição, defronte da qual ardia a luz frouxa e melancholica de uma lamparina de azeite.
—Ha dezoito annos que somos casados, continuou ella voltando se para a tia Marianna, e nunca tal me aconteceu! E sobretudo n'este tempo! Quem nos diz que elle foi atacado pela febre, e que o levaram; morto talvez; morto, o meu querido Jeronymo? Deus permitta que Martha se não demore. Ella já tinha tempo e mais do que tempo para voltar.
—Não se apoquente, sr.ª Balbina. D'aqui á rua de S. Francisco não é tão perto como julga, e demais ainda não ha uma hora que foi. Coitadinha! Desacostumada como está de andar por essas ruas! Porque não havia de me ter deixado ir em sua companhia? Valha-nos Deus! Não ha senão desgostos para os que são bons como vossemecê.
—Isso é coisa sabida, tia Marianna; parece que quanto mais a gente quer—como o outro que diz—estar nas graças de Deus, mais o demo que as tece está puxando pelo fio da felicidade! Eu estou como doida! Se Martha se demora mais algum quarto de hora, sou eu quem os vae procurar a ambos e dois. Vossemecê fica aqui para o que der e vier, ajuntou a pobre Balbina, passeiando desassocegadamente de um para o outro lado do quarto.
—Ainda não tem razão para estar dizendo mal á sua vida. Quem sabe se ambos se encontraram?...
—Tenho na mente que não, sr.ª Marianna; e demais, não sei o que me diz o coração. Parece que tudo se está preparando para que haja n'esta casa uma grande desgraça. Se a minha amiga visse a maneira por que hoje nos olhou a tia Monica! Não lhe bastou ter-nos rogado a praga que nos rogou...
—Ora deixe-se d'isso, sr.ª Balbina! Não creia em bruxarias. Deus é bom de mais para conceder similhante poder aos mortaes.
—Se ouvisse como hoje esteve a ouviar a minha cadella! Diga-o ella! Por mais que pozesse as cadeiras de pernas para o ar, e que voltasse um sapato de solla para cima, não houve meios de fazer com que se calasse o pobre animal! Eu bem sei que tudo isto são coisas, como o outro que diz, que não vem nada ao caso, mas a gente cá tem os seus enguiços, e desgraçadamente a maior parte das vezes saem certos como dois e dois serem quatro.
—Pois sim, pois sim, socegue a minha boa amiga, e verá que não tarda muito que os veja entrar por essa porta. É preciso que a gente não seja tão desanimada. De que nos serviria a religião se nos não desse conformidade? Estar agora duvidando da graça de Deus, porque seu marido se demora mais duas ou tres horas!
—E como explica vossemecê o elle não ter vindo jantar?
—Quem sabe lá se encontrou o seu ganchosinho com que podesse ganhar algum vintem? Ignora vossemecê o seu genio? Aquillo é uma formiga para a familia. Parece-me que se o dia tivesse quarenta e oito horas, quarenta e oito horas seria capaz de trabalhar por dia.
N'este momento bateram á porta e a voz de Martha soou melancholicamente atravez das fendas do postigo.
Balbina ergueu-se rapidamente para lhe abrir a porta.
Martha vinha desfigurada.
—O pae, disse ella entre soluços, saíu da obra ao meio dia para vir jantar a casa. Ninguem me pôde dar noticias d'elle. Pedi a um pedreiro para me ajudar a procural-o, mas o pobre sentia-se muito incommodado e esquivou-se a acompanhar-me. Outro que lá encontrei começou a sorrir-se para mim de tal forma que não tive valor de lhe dizer quanto soffria, ajuntou Martha tornando-se vermelha como o lenço que lhe occultava os seus magnificos cabellos.
—Infame! exclamou Balbina approximando-se cada vez mais da filha.
—Fugi desorientada, continuou Martha suffocada pelas lagrimas, e quando vinha pelo Chiado, encostei-me a uma esquina quasi sem saber de mim. Então senti que me tocavam brandamente no hombro. Despertei como de um sonho, e vi um senhor muito bem vestido, perguntando me o que tinha. Disse-lhe que ia em busca de meu pae, pois receiava que tivesse sido atacado pela febre. O tal individuo compadeceu-se da minha sorte. Aquelle sim; nem siquer reparou se eu era bonita ou se era feia. Teve apenas tempo de me ver as lagrimas e não a côr dos olhos. «Não me atrevo a dizer-lhe que entre commigo n'uma sege, disse-me elle; seria offendel-a; mas espere, que vou chamar dois trens.»
Esperei, chegaram duas traquitanas.
—Entre, disse-me elle pegando-me na mão esquerda. Do coração lhe affianço, que póde estar tão segura como se fosse ao lado de seu pae, que espero em Deus encontrará com vida, acrescentou o individuo mettendo-me no trem.
Entrei sem saber como. Senti bater o guarda lama e os cavallos seguirem a trote.
De repente, a sua traquitana tomou a deanteira á minha.
Andámos, andámos até que chegou a um sitio onde havia um hospital. Os cavallos pararam. Elle então apeiou-se e perguntou-me os signaes do pae. Dei-lh'os. Entrou para dentro do edificio onde se demorou por alguns minutos, e voltou dizendo-me que não tinha entrado n'aquella casa.
Os trens partiram a galope. Fomos a dois hospitaes; o mesmo resultado.
Faltava apenas o da rua do Sol. Esse, já eu conhecia de nome quando a tia Marianna adoeceu. Ninguem alli tinha entrado desde as nove horas da manhã.
—Vá tranquilla para sua casa, e diga-me onde mora.
Dei-lhe o nome da rua e o numero da porta.
Pagou ao bolieiro dizendo-lhe que me viesse pôr em casa, o que não acceitei por causa da visinhança.
—E quem será esse individuo, para que lhe possamos beijar as mãos? exclamou Balbina, n'um transporte de profundo reconhecimento.
—Deus sabe! Oh! mas elle não me mentiu! respondeu Martha. Tenho tanta fé nas suas palavras! Se a mãe visse como elle me disse: «vá para casa, que ainda hoje hei de descobrir onde está seu pae.»
—E é muito novo esse homem? interrompeu Marianna.
—Uns trinta annos.
—Felizmente, ainda se pode dizer que a mocidade não está perdida de todo.
N'este momento, Balbina approximava-se da porta, preparando-se para sair.
—Mas onde vae? exclamou Martha. Pelo amor de Deus, minha mãe... Tenha prudencia! Onde pretende encontral-o? Na rua? Já vê que se lhe tivesse acontecido alguma desgraça, estaria infallivelmente em algum dos hospitaes, e graças a Deus, tal não succede.
—Embora! hei de encontral o, respondeu a pobre mulher tentando dar volta á chave para sair.
Marianna e Martha, ajoelhadas deante da pobre esposa, tentavam impedir-lhe a passagem.
E ella então, comprehendendo a inutilidade da sua saida, caiu de joelhos deante da imagem de Nossa Senhora. Imitando-a, Martha e Marianna acompanharam-n'a na sua oração.
E o relogio, seguindo n'um rumor compassado, continuava na sua material indifferença marcando os segundos e os minutos, ao som da chuva que, batendo de encontro aos vidros, ainda mais sombrio tornava aquelle quadro de amargura.
VII
Mudando de rumo, o visconde e Tristão de Almeida dirigiram-se primeiramente a casa de Vaz Mendes.
Depois de os escutar, o banqueiro annuiu gostosamente aos desejos do seu recommendado, promettendo-lhe desde logo fazer tudo quanto estivesse ao seu alcance para animar uma idéa tão philantropica.
D'alli partiram todos tres para casa do commendador Lopes de Miranda.
Egual acolhimento, como era de esperar, acrescentando que a mesma idéa exposta por Tristão de Almeida havia sido formulada por elle tres dias antes.
Tristão sorriu-se com a velhacaria que lhe era habitual, agradecendo á Providencia que os seus pensamentos se houvessem encontrado com os do excellentissimo commendador.
Historiando o atropellamento e matizando a historia dos mais lisongeiros epithetos para Tristão, o visconde de Coruche contou ao commendador o que se havia passado com o operario.
—Se vossa excellencia não deu a morte a esse desgraçado, estou certissimo que fará a sua felicidade, disse o commendador, piscando ao mesmo tempo o olho para o visconde.
—Ha males que vem por bens, acudiu este fazendo uma careta para Lopes de Miranda.
—Mysterios de Deus, respondeu Tristão em voz alta. Fortes nescios, ajuntou elle de si para comsigo. Mal sabem que lhes percebo os signaes.
Momentos depois, entravam todos quatro no hotel de Bragança e dirigiam-se ao quarto do ferido.
O operario encontrava-se no mesmo estado de anemia. Pessoa alguma havia podido arrancar-lhe uma só palavra.
A sr.ª D. Maria Egypciaca, segundo o havia ordenado o seu philanthropico esposo, não tinha abandonado o leito do enfermo. Magdalena e Olympia, de vez em quando approximavam se do quarto.
Depois de cumprimentarem a esposa de Tristão, os tres amigos chegaram-se ao enfermo.
—Faz pena! disse o commendador, Deus sabe ajuntou elle, se este pobre homem terá alguma pessoa a quem esteja dando sérios cuidados. É uma lastima que se lhe não possa saber o nome. Se descobrissemos quem é a familia, mandar lhe-iamos dizer que estava sob a protecção de vossa excellencia. N'estas epochas de epidemia, a mais pequena demora faz com que todos estejam em cuidados.
—Vejamos se é possivel fazel o falar, disse Vaz Mendes, debruçando se sobre o leito do operario.
O enfermo continuava no mesmo lethargo.
Eram perto de seis horas. Como não houvesse meios de lhe arrancar uma palavra, D. Maria Egypciaca lembrou que seria mais prudente irem jantar emquanto durasse aquelle estado morbido, e deixando o doente entregue a um creado, convidou as visitas a dirigirem-se á casa de jantar.
Ao chegarem alli, já Olympia, a filha mais nova de Tristão de Almeida, aguardava que seus paes tivessem dado treguas á caridade para desfructarem o unico gozo da vida, o comer. Minutos depois, appareceu Magdalena, a irmã mais velha.
O jantar correu animadissimo! Formosas eram ambas as filhas de Tristão de Almeida; juntando-se á formosura e juventude um dote de duzentos contos de reis, que lhes poderia faltar?
Ventilado pela vigessima vez o caso do atropellamento, bem como o valor do visconde de Coruche, que fizera convencer Tristão de Almeida do risco que havia corrido a sua existencia em se ter approximado, do cavallo da sella, discutiu-se a fundação do hospital.
D. Maria Egypciaca, que de antemão havia sido prevenida por seu esposo, falou eloquentemente sobre este assumpto, deixando assombrados os hospedes tanto pela sua verbosidade como pelas idéas philantropicas que defendia.
Olympia contentava se de atacar com vigor extraordinario cada prato de cosinha que o servente lhe apresentava pelo lado do coração, viscera que apenas lhe estremecia consoante o apimentado dos molhos onde o guizado se mergulhava!
Fitando o olhar na comida, Olympia manejava o talher com mais desembaraço do que qualquer malabar de feira, pegando depois n'um oitavo de pão de meio arratel para limpar o prato com o artistico intuito de admirar o bom gosto do estampador.
Olympia tinha duas paixões: a cosinha e a ceramica. Se lhe dissessem que morrendo de uma indigestão de ninhos de andorinhas seria depositada n'um sarcophago de Sévres, a filha de Tristão de Almeida apanharia a indigestão de bom grado.
Debalde o visconde de Coruche se desfazia em melifluas olhaduras, tudo era inutil; o estomago de Olympia concedía-lhe apenas que as suas vistas se dirigissem ora para o prato que limpava, ora para a porta por onde entrava o criado com o seguimento do menu.
E, apezar de tudo, essa creatura que tão desenvoltamente usava e abusava dos orgãos da mastigação, perguntando ao criado durante o jantar o que tencionava guardar-lhe para a ceia, tinha o poetico nome de Olympia, como o leitor não ignora, e era formosa, formosa a fazer enraivar de inveja todas as do seu sexo, menos a amavel leitora que sobre estas paginas se debruça.
Olympia era uma pomba. Dizia sua mãe que até aos dezoito annos, o unico desgosto que lhe havia dado fôra ter atirado com uma travessa ao rosto pallido de Magdalena, por esta lhe ter comido duas queijadas de Reinholas, resto de tres duzias que seu pae lhe havia trazido de Cintra.
Magdalena era a sua antithese. Afôra aquelles dois pasteis, poder-se-ia julgar impolluta no que dizia respeito ao quinto peccado.
De uma formosura menos provocadora do que sua irmã, Magdalena sabia insinuar-se no coração de todos os que tinham a felicidade de lhe merecer sympathia.
Tinha na tristeza vaga e scismadora do seu olhar uns longes de melancolia que prendiam quem a contemplasse.
Sobretudo, o que mais espantava em Magdalena era a harmonia da voz. Assombrava! Os anjos deviam aprendel-a, para espalharem nos seus canticos a musica da palavra.
Falava pouco, porém a phrase era sempre correcta. Reservada mais por calculo do que por organização, a irmã de Olympia atravessava a sociedade com a consciencia segura e mathematica dos mil escolhos de que ella se compõe!
Ferira-a a aza negra da tormenta? A ave da desgraça esvoaçára-lhe sobre os seus louros cabellos? Desfizera-se-lhe algum sonho luminoso? Sentira o seu coração immenso, golpeado pelo punhal do desengano?
Todos o ignoravam, ou para melhor dizer, pessoa alguma se havia demorado a estudar aquella peregrina organização.
Magdalena nunca havia amado, porém o seu coração tinha necessidade de amar como os pulmões do ar que respiram.
Creando um dia na sua phantasiosa imaginação o typo que ambicionara, quiz-lhe dar vida, formas e animação. Quando mais tarde se lhe sumiu o vago, o impalpavel, o ideal que concebêra e que tombára na tristissima realidade, esmoreceu e curvou-se resignada para chorar a sós as suas lagrimas.
Prophetisa da amargura, como veremos na continuação d'esta singela historia, Magdalena parecia adivinhar as supremas angustias que mais tarde lhe haviam de escruciar a pobre alma!
Debalde, repetimos, se esforçava o visconde para merecer um olhar de Olympia.
Era invulneravel!
—Se o homem já terá dado accordo de si, disse o visconde para não estar calado.
—Deus sabe! murmurou o amphitrião defendendo uma perna de perdiz da insaciavel voracidade da filha!
—Daria tudo para que esse infeliz tornasse á vida, disse D. Maria Egypciaca dirigindo-se ao commendador. Como estará a sua pobre familia! ajuntou ella despejando um copo de vinho do Rheno.
—Feliz d'elle, tartamudeou o visconde, se podesse abrir os olhos no momento em que vossa excellencia estivesse á cabeceira do seu leito. Pela minha parte, abençoaria fosse que circumstancia fosse que me trouxesse tal ventura, ajuntou elle, dirigindo-se a Olympia.
—Passa me aquelle prato de carne de porco assada, disse Olympia tocando no hombro de sua irmã e sem se atrever a olhar para o visconde.
—Não ouves o que te diz aquelle cavalheiro? perguntou D. Maria Egypciaca, voltando-se com modo agastado para sua filha.
—Não repare, meu caro amigo, acudiu Tristão, Olympia é muito envergonhada, e demais está pouco acostumada á sociedade. Não ouves o que te diz o sr. visconde? acrescentou elle dirigindo-se á gastronoma.
—Ouço, sim senhor, mas não sei o que hei de responder.
Magdalena estremeceu de pejo ao ouvir a resposta de Olympia.
N'este comenos, o criado que ficara junto do ferido entrou na casa de jantar para participar que elle havia tornado a si, dizendo poucos instantes depois o seu nome e a rua onde morava. Ajuntou em seguida o criado que um sujeito muito bem vestido pedira ao guarda portão para vir reconhecer o doente.
—E esse individuo... ainda lá está? perguntou Tristão.
—Não senhor. Saiu logo que lhe soube o nome. Disse que ia dar parte á familia que estava com muito cuidado julgando que tinha sido atacado pela febre.
—E quem é o doente e como se chama? perguntou vivamente o visconde.
—Chama-se Jeronymo e é mestre de obras.
—E onde mora? interrompeu Vaz Mendes.
—Na rua do Meio á Lapa, respondeu o criado.
—Quanto estimo! quanto estimo! exclamou D. Maria Egypciaca. Provavelmente foram chamar-lhe a familia. Que venha, que venha. Pobre gente! Talvez ainda abençõem a fatalidade que lhes aconteceu! Pódes retirar-te, Manuel, ajuntou ella, dirigindo-se ao criado.
—Agora, disse Vaz Mendes, já temos por onde começar a nossa obra de caridade. Principiaremos por esse pobre Jeronymo.
—Apoiado! bradou o commendador despejando o decimo copo de vinho do Porto, e olhando de soslaio para Olympia, cujos olhos pardos se fitavam ardentemente n'uma torta de maçã.
—Se m'o permittem, vou ver o meu protegido disse Tristão, levantando se ao mesmo tempo da cadeira.
—E se tambem m'o permittem?... accrescentou o visconde, imitando o movimento do seu amigo.
—Mas com o maior prazer, respondeu D. Maria Egypciaca. E não tardará muito que lá vamos, eu e minhas filhas.
—Querem vel o? perguntou o visconde voltando-se para o banqueiro e para o commendador.
—Da melhor vontade, responderam os dois a um tempo.
Levantando se rapidamente seguiram o seu amphitrião.
—Ora ahi tem a mamã porque eu não gosto de comer á mesa quando temos visitas. Levanto-me sempre com fome. Só eu á minha parte seria capaz de comer toda aquella carne assada, disse Olympia entristecidamente voltando se para sua mãe.
—Pois é possivel que ainda tivesses mais vontade? perguntou Magdalena.
—Abençoado estomago! disse D. Maria Egypciaca levantando-se da mesa.