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O condemnado, drama em tres actos e quatro quadros; / Seguido do drama em um acto, Como os anjos se vingam cover

O condemnado, drama em tres actos e quatro quadros; / Seguido do drama em um acto, Como os anjos se vingam

Chapter 160: D. EUGENIA E JORGE
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About This Book

This work presents a dramatic exploration of profound themes such as suffering, loss, and the human condition. It unfolds through a series of acts and scenes that delve into the emotional turmoil of its characters, particularly focusing on the anguish and despair experienced by individuals facing insurmountable challenges. The narrative reflects on the weight of past glories and the inevitability of decline, portraying a poignant contrast between hope and despair. Through its rich language and evocative imagery, the text invites readers to contemplate the depths of human sorrow and the search for redemption amidst tragedy.

SCENA XV

O VISCONDE E DEPOIS JOÃO

Visconde

Ha muito quem ainda sinta o coração desopprimido sob o pezo da consciencia, disse ella. Bem sei, bem sei onde apontavas a frecha... Estas allusões moraes e penetrantes resaltam ás vezes das consciencias mais diluidas. Receio que esta mulher conte a Eugenia o meu passado...

João (entrando com o «Commercio do Porto»; e, como não vê o visconde, que o espaldar da poltrona encobre, olha em redor)

Não enxergo ninguem. (Começa a lêr, e vae sentar-se n'outra poltrona, que tem as costas voltadas para a do visconde) Deixa-me vêr se ainda leio por cima. Acho que é inglez, isto. Será? Não me parece. Quem sabe lêr n'estes coisos é cá o meu primo Joaquim que já foi entregador{80} ou redactor ou não sei quê d'uma trapalhada d'estas. (Lendo no alto da primeira pagina) Po, lí, po, lí tí, ca, in, ter, na. Politega eterna. Isto acho que é a respeito da religião, ou lá da eternidade do outro mundo. Vamos vêr o que diz dos governos: (Lendo na quarta pagina) Rolhas e palitos, rua da Ferraria, 46. (Soletrando) Não é aqui. Ha-de ser mais abaixo, (lendo) Linguas de bacalhau, em Cima do Muro. Linguas de bacalhau! Isto é chalaça aos deputados... (O visconde tosse. João levanta-se atrapalhado, deixa o jornal sobre a cadeira, e sáe da sala derreando-se para não ser visto. Ao mesmo tempo vem entrando D. Eugenia por outra porta).

SCENA XVI

VISCONDE E D. EUGENIA

D. Eugenia (aproximando-se da cadeira e inclinando-se com meiguice)

Como está triste! que tem, meu pae?{81}

Visconde (erguendo-se)

Grande pezar de já ter sido alguma hora alegre, minha filha.

D. Eugenia

Parece qué a visita da viscondessa o contrariou.

Visconde (pegando do «Commercio», e lendo mentalmente ao mesmo tempo que conversa)

O conhecimento d'esta senhora não lhe convem, Eugenia. Estas mulheres, emancipadas da opinião publica aos vinte annos, não costumam ser as mais uteis amigas na velhice.

D. Eugenia

Amiga! Eu apenas a conheço, e não sinto a menor inclinação para ser amiga de tal senhora.{82}

Visconde (lendo sempre. Declamação vagarosa)

Quando a viscondessa quizer contar-lhe as muitas historias que ella deve saber da vida de Lisboa, mostre-se a minha filha inteiramente descuriosa de as saber. Esteja de prevenção. Eugenia, acautele-se das mulheres que não tem outra virtude sabida senão a de murmurar dos vicios alheios. A viscondessa creio eu que não murmura. Hypocrita nunca ella foi. Mas conta, folga de contar: tira dos bastantes annos que tem o partido possivel, como quem se preza de conhecer o romance dos ultimos 30 annos de Lisboa. Além d'isto, ha de a minha filha observar que certas damas contam historias de pessima moral acontecidas com muitas das suas amigas. O seu industrioso plano é dar a perceber que o vicio está por tal forma naturalisado que já não ha razão para espantos nem sequer para censuras. Ora eu muito queria que minha filha soubesse de mim sómente que na sociedade habitual da viscondessa de Pimentel as theses de moral são assim todas pouco mais ou menos. (Suspende-se subitamente. Vivamente{83} agitado, fixa attentamente o que está lendo, emquanto Eugenia se intretem tocando em qualquer adorno das mezas. O visconde serena-se com grande exforço e disfarce. Depõe o jornal, e toma o chapeu. D. Eugenia tem reparado na commoção do visconde). Até já, Eugenia.

D. Eugenia

O pae está tão pallido!

Visconde

Pallido! Não sei o que seja!..

D. Eugenia

Sente-se doente?

Visconde

Não, minha filha... Isto são accessos de hypocondria... Vou tomar ar ao jardim. Volto já. (Sáe).{84}

SCENA XVII

D. Eugenia, (só)

Elle ía tão mudado e sobresaltado! E estava a lêr com tanta inquietação! Que seria? que viu elle n'este jornal?! (Pega do jornal e corre os olhos pela primeira pagina). Que é isto? (estremecendo) Este nome... Jacome da Silveira! (Faz menção de lêr agitadamente, e lê alto): Cego pela paixão feroz do ciume matou... Pois elle vive, meu Deus! Que commoção tão funda eu sinto! Que ancia! que susto de que esta noticia me traga desventuras! (Lendo) Jacome da Silveira... D. Martha de Villasboas! São estes os nomes!.. O desgraçado vive!.. Ainda o verei? E poderia amal-o, se o visse? Oh! não... Eu vejo sempre o cadaver d'ella... (Senta-se a soluçar).{85}

SCENA XVIII

D. EUGENIA E RODRIGO DE VASCONCELLOS

(Eugenia forceja por limpar as lagrimas)

Rodrigo (reparando)

Estavas chorando, filha?

D. Eugenia

Estava.

Rodrigo

Porque? São as primeiras lagrimas que te vejo.

D. Eugenia

É verdade...

Rodrigo

Mas porque choras, Eugenia? Tu estavas lendo n'este jornal...{86}

D. Eugenia

Sim, estava... Vem ahi uma historia muito triste.

Rodrigo (procurando no fundo do jornal)

No folhetim? Pois os romances fazem-te chorar, creança?

D. Eugenia

Não é romance; é aqui. (Indicando-lhe o alto da primeira columna).

Rodrigo

Aqui na Correspondencia de Pariz? (Ella faz um gesto affirmativo) Pois que é? (Correndo com os olhos alguns periodos, balbucia inintelligiveis palavras, e depois lê): «Contar-lhe-hei um successo digno de attenção, e d'algum modo romantico, se bem que procede d'um lance de tragedia.» É aqui?{87}

D. Eugenia

É.

Rodrigo (lendo)

«Um cavalheiro portuguez, que hontem encontrei no Bois de Bologne, me mostrou um sujeito que ia passando sósinho, triste e vagaroso. E depois me contou o seguinte caso que teceria o enredo de um bom romance, se cahisse na officina de Alexandre Dumas. Ha duas duzias de annos, pouco mais ou menos, um homem de consideração, residente em Lisboa, de nome Jacome da Silveira, casado com uma distincta e formosa senhora, chamada Martha de Villasboas, cego pela paixão feroz do ciume, matou a espoza. Poucas horas depois, apresentou-se ao governador civil declarando que matára sua mulher. Interrogado sobre os motivos do crime, respondeu que não tinha obrigação, vontade, ou necessidade de declarar o crime da senhora morta, porquanto já estava castigada, e a memoria d'ella não esperava da sociedade estigma nem rehabilitação. Perguntado{88} como é que se apresentava, respondeu: «Como homem que matou». Na qualidade pois de homicida voluntario com premeditação foi Jacome da Silveira encarcerado, julgado e sentenciado em 20 annos de degredo para Africa, em attenção não sabemos a que circumstancias attenuantes. A sociedade de Lisboa, o jury, e o juiz que o julgaram e sentenciaram sabiam de sobejo que D. Martha de Villas-boas morrêra criminosa. O cumplice da adultera éra conhecido. Constava que o réo encontrára superabundantes provas do crime, as quaes valeriam tanto na consciencia do jury como o flagrante delicto. Todavia como Silveira teimou pertinaz e loucamente em não declarar o crime de sua mulher, a condemnação éra inevitavel, a não estar o jury, como não estava, á altura da tão infeliz quanto generosa alma do réo. Jacome da Silveira era rico. Todos suppozeram que elle se transferisse d'Africa para onde bem quizesse, sobrando-lhe recursos com que armar navio que o transportasse á Europa ou America do norte, a não querer antes levantar-se{89} com o senhorio de Angola e proclamar-se rei d'áquem e d'alem mar em Africa, etc. Estas conjecturas eram indignas do nobre e excentrico animo do condemnado. Jacome cumpriu a sentença; completou 20 annos de degredo; e, cobrando alvará de soltura, passou ao coração da Europa, e nomeadamente ao Bois de Bologne, onde hontem o vi. Tanto quanto de relance o pude vêr, deixou-me uma impressão melancolica. «N'aquelle rosto de bronze, transluzia d'esta historia a pagina que escreveram lagrimas choradas por espaço de 24 annos. Na historia ha duas victimas, e um infame. D'este personagem não lhe sei dizer o nome. Esse talvez tenha envelhecido socegadamente em Portugal, e esteja lendo com olhos enxutos esta noticia». (Declama): Mais nada. Saibamos agora porque choraste, Eugenia?

D. Eugenia

Porque chorei!? não foi tão infeliz e triste a sorte d'esta senhora?!{90}

Rodrigo

Triste? decerto foi; mas não era justo que fosse alegre. Esta mulher deshonrou o marido: foi punida. Ella matou um coração honrado; elle matou um corrupto. Não ha comparação racional entre os dous delictos. Se tu chorasses por elle que soffreu primeiro a deshonra, e depois a condemnação a degredo de vinte annos!... As tuas lagrimas poderiam revelar a piedade abraçada á justiça; mas chorar pela criminosa que...

D. Eugenia (atalhando-o)

Tens razão... Perdôa ás minhas lagrimas... Em poucas palavras me fizeste comprehender a desgraça d'esse infeliz.

Rodrigo (pausadamente)

Pois não é assim, filha?.. Primeiro, a affronta recebida no coração; depois o aviltamento do amor-proprio e os risos insultadores do mundo; depois o horrendo trance da morte{91} com as angustias infernaes que deviam lacerar-lhe a alma; depois o carcere e a sentença; depois vinte annos sem patria; e finalmente...

SCENA XIX

OS MESMOS E O VISCONDE

Visconde

Que estavas tu dizendo tão commovido, Rodrigo?

Rodrigo

Conversavamos a respeito d'esta noticia, meu pae. (Mostra-lh'a no Jornal).

Visconde

Já vi.

D. Eugenia

Parece-me que o pae tambem a leu com amargura.{92}

Visconde

Li... Na sala de espera, Eugenia, estava alguem agora a procural-a.

D. Eugenia

Sim? eu vou. (Sáe).

SCENA ULTIMA

RODRIGO E O VISCONDE

Visconde

Pungiu-te essa noticia, Rodrigo?

Rodrigo

Eugenia é que estava chorando de compaixão da mulher que o marido matou.{93}

Visconde

Deixasse-l'a chorar, coitada! Essa mulher, que morreu, foi uma virtuosa espoza como Eugenia.

Rodrigo

Então morreu innocente?

Visconde

Não.

Rodrigo

N'esse caso, o confronto não lisongêa minha mulher...

Visconde

Eu ia dizer-te que D. Martha entrou innocente n'um baile; e, quando sahiu, sentia a febre da paixão que antecede a morte do brio e do pundonor. Estava n'esse baile um homem de preversidade contagiosa. Lê as ultimas linhas d'essa correspondencia, ahi onde começa: Na historia ha duas victimas e... {94}

Rodrigo (lendo)

«Na historia ha duas victimas e um infame. D'este personagem não lhe sei dizer o nome. Esse talvez tenha socegadamente envelhecido em Portugal, e esteja lendo com olhos enxutos esta noticia.»

Visconde (commovido até ás lagrimas)

Vês os meus olhos enxutos? Repára, filho, que eu estou chorando...

Rodrigo

Está; mas que querem dizer as suas lagrimas?!

Visconde

Querem dizer que o infame, de que falla essa noticia, é... teu pae. (Rodrigo estremece. Corre o panno).

 

FIM DO PRIMEIRO ACTO.

{95}

ACTO SEGUNDO.

A sala do primeiro acto. Ouve-se musica que vem soando das salas, onde se dança. Damas e cavalheiros cruzam n'esta sala, mas no segundo plano.

SCENA I

VISCONDESSA DE PIMENTEL E O CONSELHEIRO JOSÉ DE

Viscondessa

Surpreza assim! José de Sá n'um baile do Porto! Encontrar-me ha quinze dias no Chiado, e não me diz que vem ao Porto. Creatura mais mysteriosa, com vislumbres de romantica, nunca vi! E estar no Francfort, meu companheiro d'hotel, sem eu saber! Há quantos annos o não encontro em bailes,{96} conselheiro? Deixe-me vêr se me lembro... Foi, foi, foi ha...

José de Sá

Ha 22 annos, minha senhora.

Viscondessa

Mas que maravilhosa conversão foi esta? como é que V. Ex.ª depois de duas duzias d'annos d'um anachoretismo selvagem, volta aos bailes, a estes pedaços modernos da Babilonia antiga?

José de Sá (sorrindo)

Milagres d'amôr, snr.ª viscondessa, acho eu. Ha amôres que rebentam no inverno da vida como os tortulhos com as primeiras chuvas; e, como não achem coração onde se hospedem dignamente, recolhem-se á cabeça, e tamanhos estragos lá fazem que não é raro vêr em bailes muitos doudos que trazem nos{97} miolos um cupido mais destruidor que um rato em queijo de cabeça de preto.

Viscondessa

Vejo que fez conserva da linguagem pittoresca d'outro tempo!

José de Sá

Pois está claro; nas nossas idades... quero dizer, na minha idade, são tudo sequeiros e conservas... O coração, como eu o sinto, é verdadeiramente uma betarraba já curtida...

Viscondessa

Pois sim mas não zombe do amor, que não perdôa sarcasmos... Olhe que a occasião é de grande perigo... Veja, veja, o que ahi vai de bellezas... (apontando para as senhoras que vão passando).{98}

José de Sá (mirando-as com a luneta)

É verdade. Bem vejo. Ó minha querida snr.ª viscondessa, defenda-me com o seu bom conselho. Diga-me de que Circes devo acautelar-me.

Viscondessa

De todas.

José de Sá

De todas? pois tambem V. Ex.ª terá a crueldade de não poupar uma antiga victima dos seus desdens? Constituamos o dialogo em pleno reinado d'el-rei nosso senhor Dom João V.

Viscondessa (ironica)

E quem tem um espirito d'este tamanho andou 22 annos por fóra dos bailes!

José de Sá (rapido)

Para o não perder, minha snr.ª.{99}

Viscondessa

Diz bem. O espirito aqui perde-se. Esta gente nova parece que sáe bronca dos collegios. Aprendem linguas estrangeiras para fallarem com espirito, e guardam o portuguez para dizerem semsaborias. Vae vêr. Entre por essas salas; encontra cincoenta galantes meninas de uma enxabidez monumental. Espirito! Foi tempo. Não ha hoje em dia quem saiba conversar cinco minutos sem justificar o mais sincero abrimento de bôcca.

José de Sá

Espirito de papoulas, não, minha snr.ª? Excellente coisa! Eu durmo ha muito tempo ajudado pelos artigos de fundo das gazetas. Se eu podesse adormecer acalentado pelas semsaborias dos anjos, trocaria a insipidez dos anjos pelo sal dos politicos.

Viscondessa

Ai! politicos! não me falle em politica que{100} me estorce os nervos! Pois não sabe que o visconde por causa da candidatura de meu cunhado me fez ir a Setubal dirigir as eleições contra o governo?

José de Sá

V. Ex.ª fez as eleições em Setubal? Isso tem graça; acho-lhe um sal, mais sal do que Setubal exporta! V. Ex.ª fez eleições?

Viscondessa

Fiz.

José de Sá

E venceu?

Viscondessa

Venci.

José de Sá

Está claro. Venceu. O amôr vence tudo, inclusive as eleições. Um ou dois raios d'amor despedido por olhos ardentes sobre a{101} urna, fariam o prodigio de converter em ministerial o deputado opposicionista. Mas, ó querida viscondessa, V. Ex.ª não receou que os irritados manes de Bocage a satyrizassem em Setubal?

Viscondessa

Satyrizar-me, porquê?

José de Sá

Pois uma snr.ª toda poesia, toda flôres, toda céo, a combinar com as facções o arranjo d'um deputado, ha ahi cousa que deva recear-se mais da satyra bocagiana?.. Uma dama politica! Uns dedos finos e côr de rosa, affeitos a volver as paginas do livro do coração, a profanarem-se na entrega das listas de costaneira! Ó muito illustre e muito presada minha amiga, posto que V. Ex.ª qual outra Judith venceu o Holofernes administrativo de Setubal, não posso deixar de lhe dizer que se V. Ex.ª e as suas correligionarias começam a fazer politica, eu e os meus correligionarios{102} teremos de fazer meia. Este paiz é muito pequeno, e a custo dará politica para o sexo feio.

Viscondessa

Já vejo que o snr. conselheiro continua a considerar a mulher uma incapacidade para os actos do espirito.

José de Sá

Não minha snr.ª Eu sou obrigado a confessar que ha senhoras intelligentissimas e com grande capacidade.

Viscondessa

Mas com intelligencia sómente honorifica. Concedem-nos a honra da intelligencia; mas sem exercicio... Obrigadissimas, rei da creação, obrigadissimas... (Reparando) Ah! ahi vem o Jorge de Mendanha, conhece?{103}

José de Sá (intencionalmente)

Não conheço Jorge de Mendanha.

Viscondessa

E não se lembra de ter conhecido este nome?

José de Sá

Não conheci.

Viscondessa

Eu apresento-o!

José de Sá (áparte)

Tem graça a apresentação...{104}

SCENA II

VISCONDESSA, JOSÉ DE SA, D. EUGENIA, JORGE DE MENDANHA

Viscondessa (a Jorge)

Apresento o snr. conselheiro José de Sá, cavalheiro pertencente á mais selecta sociedade de Lisboa. Talvez conhecesse V. Ex.ª (Indicando Jorge) O snr. Jorge de Mendanha. É natural que já se hajam visto... (Os apresentados apertam-se as mãos, fixando-se de um modo que deixa entrever disfarce).

José de Sá

Certamente.

Viscondessa

Em Lisboa? (Signal de começar-se uma polka. Rodrigo offerece o braço á viscondessa, e Aranha a D. Eugenia. Movimento de pares que atravessam rapidamente).{105}

Rodrigo (offerecendo o braço)

É a terceira polka, minha snr.ª

Viscondessa

Ah! sim? vamos...

D. Eugenia (com distracção a Pedro Aranha)

Sou seu par, snr. Aranha?

Aranha

Sim, minha snr.ª; mas, se V. Ex.ª...

D. Eugenia (desprendendo-se do braço de Jorge)

Desculpe, cuidei que... (Sáem os dois pares). {106}

SCENA III

JORGE E JOSÉ DE SA

José de Sã

Que vieste, afinal, fazer aqui?

Jorge

Ver como se houve a Providencia n'este pleito que eu terminei com a sociedade. Fui condemnado. Apellei da iniquidade da terra para a justiça do céo. Agora, vim vêr como a justiça do céo sentenciou. Quero vêr, face a face, e sem que me conheçam, o homem que matou a alma da mulher que a sociedade disse que morreu ás minhas mãos. Morta estava ella. Matou-a quem a cobriu de opprobrio: matou-a o infame que eu venho procurar n'estas salas, 20 annos depois que offereci a minha sentença de desterro á suprema alçada de Deus. Vejamos, pois, o que Deus fez d'elle. Por ora, o que presenceamos, meu{107} amigo, faz-me desconfiar que a justiça celestial não desce a sujar as suas balanças n'este lamaçal da terra. (sorrindo) Suspeito que o meu recurso de revista foi lá em cima julgado por desembargadores que fazem obra pela jurisprudencia que levaram de cá. (Triste e concentrado) Ainda o não vi; mas sei que estou nas suas opulentas salas. Aqui de certo não mora a desgraça. Os infelizes não accendem tantas serpentinas para se mostrarem. O homem que depravou Martha, e atirou ás mãos da minha vingança esse cadaver, Heitor de Vasconcellos vive! nobilitaram-no com uma corôa de visconde, saborea-se nas dôces chimeras que esmaltam o ouro da vida; e, de mais d'isso, tem um filho que lhe regala a velhice com estas musicas e danças. (Ouve-se a orchestra, por um breve espaço, durante o qual Jorge medita concentrado. Depois a musica descahe para uma toada triste e como remota acompanhando a declamação) E o condemnado fui eu. Abri-lhe as portas de minha casa, leveio-o ao intimo do meu lár, puz na sua mão a de uma mulher que eu adorava, dizendo a ambos que se dessem os parabens da{108} minha felicidade. E elle empestou-lhe a alma, insinuou-lhe no coração o despejo, e a infernal coragem de me trahir e matar. Matou-me. Quem foi dos trez o desgraçado? E ella jaz onde a infamia lhe não peza. Eu venho de arrastar meia existencia debaixo de um céo maldito. Heitor de Vasconcellos envelheceu: placidamente lhe corre a vida debaixo d'estes tectos explendidos e por sobre estas alcatifas aveludadas. A sociedade respeita-o. Nos seus salões estão os sabios, os virtuosos, os ricos, e tambem o pae de familias com suas filhas, e os maridos com as espozas sem macula. O condemnado fui eu. Perdi a mulher que amei, perdi a honra que amava mais, lavei o sangue de minhas mãos com lagrimas em vinte mezes de carcere, e vinte annos sem patria. Aqui estou. Venho vêr o que a divina Providencia me diz d'este homem que voltou as costas á sepultura da mulher que ambos matamos... ao infame que envelheceu feliz. Respondi, José de Sá. Não me perguntes mais o que vim aqui fazer.{109}

SCENA IV

OS MESMOS E A VISCONDESSA PELO BRAÇO DE RODRIGO

Viscondessa (descendo para o proscenio)

Mas o visconde não vem, snr. Vasconcellos?

Rodrigo

Meu pae prometteu vir, se bem que ainda ao anoitecer estava na cama bastante incommodado, e com tenções de ir esta madrugada para a provincia.

Viscondessa

Incommodado de que? Ainda hontem o vi com bastante animação; mas, em verdade, muitissimo abatido de espirito está elle! O snr. conselheiro, não viu ha muito o visconde de Vasconcellos?{110}

José de Sá

Ha vinte e trez annos, minha snr.ª

Viscondessa

Então não o reconhece, sem que lh'o mostrem.

Rodrigo (á viscondessa)

V. Ex.ª quer aqui ficar? (sorrindo) Eu não posso deixar de ir ser testemunha das incommodidades que V. Ex.as soffrem n'esta casa. Snr. Jorge de Mendanha, eu folgaria que um baile no Porto não intédiasse antes da meia noute o cavalheiro que vem dos salões de Pariz.

Jorge

Dos areaes da Africa, snr. Vasconcellos.

Rodrigo

Mas tambem viajou na Europa...{111}

Jorge

Na volta d'Africa, passei por algumas cidades da Europa: mas não frequentei bailes; e, quando os visse, quer-me parecer que as salas de V. Ex.ª não poderiam temer-se da confrontação.

Rodrigo

Ó snr. Mendanha... (Rodrigo fica gesticulando com Jorge).

Viscondessa (que tem estado a conversar com José de Sá)

Nada, polkas não quero mais. Bate-me o coração espantosamente. Olhe este pulso, snr. Sá.

José de Sá (apalpando-lhe o pulso)

Valentissimo! É o palpitar dos 18 annos, é vida, é sangue que pula, que polka n'um coração ainda rijo. Eu iria jurar que V. Ex.ª tem um aneurisma...{112}

Viscondessa

O quê?

José de Sá

Um aneurisma d'amor, não se assuste. A viscondessa já sabe que não se morre de taes aneurismas.

Viscondessa

Acha? Este Sá é o contraste de seu pae, snr. Rodrigo. O visconde é a elegia, este é o madrigal. Olhe o que faz viver no Chiado em Lisboa ou nas Mattas de Traz-os-montes! Veja o espirito folgazão d'este rapaz...

José de Sá

Ó cruel! Póde caber tamanha vingança em alma tão dôce? Chegamos a um tempo em que até os favos de mel se azedam! Não me disse ainda ha pouco, minha muito contraditoria senhora, que eu tinha vivido duas duzias de annos como anachoreta selvagem?{113}

Viscondessa

Fóra dos bailes; mas dentro de Lisboa, onde os espiritos remoçam e esvoaçam como...

José de Sá

Como morcegos nas torres da Conceição velha.

Viscondessa (a Rodrigo)

Olhe, olhe esta fecundidade! o que eu queria era vêr seu pae assim galhofeiro, snr. Vasconcellos.

Rodrigo (sorrindo, a retirar-se)

Pois eu logo que o veja, snr.ª viscondessa... Póde ser que o duelo de espirito em que V. Ex.as tão destramente se batem, produza no meu velho e melancholico pae uma inveja salutar. (Sáe). {114}

SCENA V

JORGE, VISCONDESSA E JOSÉ DE

Viscondessa (acautelando-se de que a ouçam os que atravessam a sala)

Ó conselheiro, lembra-se perfeitamente da parte que teve o Vasconcellos n'aquella tragedia do Largo do Intendente?.. Ora se lembra!..

José de Sá

N'aquella tragedia... ah! sim,.. Não recordemos, não recordemos...

Jorge

Recordemos... Eu gosto de ouvir tragedias.

Viscondessa

Se V. Ex.ª esteve em Lisboa ha 20 e tantos{115} annos ha de lembrar-se de uma senhora que o marido matou por ciumes...

Jorge

Injustos?

Viscondessa

Isso não. Ella amava sem duvida nenhuma este visconde de Vasconcellos. Não se recorda?

Jorge

Tenho uma vaga lembrança.

Viscondessa

Como se chamava elle? o marido? Lembra-se, José de Sá? Espere... era Silveira não era?

Jorge

Conheceu-o V. Ex.ª?{116}

Viscondessa

Não. Quem conheci muito foi ella. Estivemos ambas no collegio de M.elle Duchateaux, no Rato. Era lindissima a pobre Martha de Villasboas! Nunca vi o marido, porque nunca a visitei depois que casou, visto que não recebi parte do casamento. Offereceu-se-me ensejo de o conhecer em alguns bailes onde concorremos, mas nem o vi nem desejei conhecel-o desde que me asseveraram que elle fizera uma rigorosa selecção das amigas de sua mulher, receando que as amigas mais desempoadas a despenhassem no abysmo. (Rindo) Ha assim muitos maridos que rodeam as mulheres de anjos; mas Satanaz que é indisputavelmente mais esperto que os anjos, e gosta de luctar com as difficuldades, consegue ás vezes pregar logros verdadeiramente infernaes aos maridos, deixando os anjos tristes e até certo ponto compromettidos. É o que aconteceu ás irreprehensiveis amigas da pobre Martha—umas creaturas que andaram pelas egrejas a orar por alma d'ella, como se precizassem introduzil-a no céo, para{117} poderem alegar um exemplo em seu favor no dia do juizo...

José de Sá

Intrepida lingua, snr.ª viscondessa! Espada de dois gumes!

Viscondessa

A minha lingua não é intrepida, é portugueza.

José de Sá

Seja; mas os mortos que durmam em paz.

Jorge

Mas eu pediria á snr.ª viscondessa que me relacionasse com todos os mortos que deixaram na terra memorias tragicas. Terá V. Ex.ª a bondade de satisfazer a curiosidade de um homem, cuja attenção só póde ser captiva de grandes desgraças? (José de Sá com ar de enfado vae ao fundo e torna). {118}

Viscondessa

Sim, eu resumo a historia em duas palavras para não ferir a sensibilidade do snr. conselheiro. Martha apaixonou-se por este Heitor de Vasconcellos, homem perigoso que o Silveira recebeu na sua intimidade. Não sei bem como o marido suspeitou a perfidia, ou interceptou a correspondencia. O que penso é que Martha não soube esconder a culpa na mascara d'aquella santa hypocrisia que costuma escrever nas sepulturas os epitaphios d'algumas excellentes esposas, que eu conheço, e o conselheiro tambem conhece, não acha?

José de Sá

Eu conheço muitas esposas excellentes.

Viscondessa

Mascaradas?{119}

José de Sá (apontando para D. Eugenia que vem entrando pelo braço de Pedro Aranha)

Ahi tem um modelo de esposos.

Viscondessa

Cazou ha anno e meio.

SCENA VI

OS MESMOS, D. EUGENIA E PEDRO ARANHA

D. Eugenia

Eu andava procurando V. Ex.as Fogem do bulicio? tomára eu tambem fugir.

Pedro (a D. Eugenia)

A snr.ª viscondessa é hoje muito generosa com V. Ex.ª{120}

D. Eugenia

Sim? pois quando deixou de ser generosa a snr.ª viscondessa?

Pedro

Se V. Ex.ª quizer, despovoa-lhe as salas onde se dança. Basta annunciar-se que a snr.ª viscondessa está aqui derramando as perolas do seu espirito.

Viscondessa

Cuida que está lisongeando uma femme savante de Moliere este Trissotin em formato pequeno! este snr. Aranha que tem mais peçonha que o appellido quando quer ter um espirito de ventosa.

Pedro

Eu sou das aranhas que não tecem a sua teia em todas as ruinas.{121}

José de Sá (áparte)

Bravo! estão bonitos!

D. Eugenia (ouve-se a orchestra)

Vai dançar-se, snr.ª viscondessa.

Viscondessa

Eu não vou dançar, minha querida. Fico por aqui a reconstruir o passado com o auxilio das reminiscencias do snr. conselheiro Sá. Estou a imaginar-me com vinte e dois annos. Isto é bom e innocente recreio. Se a gente retrocede alguns annos, acha-se em sociedade de menos parvos.

D. Eugenia (a Jorge)

E V. Ex.ª está triste?

Jorge

Ó minha senhora, não...{122}

D. Eugenia

Está; pois eu não vejo? Parece-me que ama tanto os bailes como o pae de Rodrigo e como eu...

Pedro (ao novo signal da mazurka)

Vamos, minha snr.ª? (Sahem. Movimento dos pares atravessando no corredor).

SCENA VII

VISCONDESSA, SÁ E JORGE

Viscondessa

Já viram uma sinceridade mais infantil? A dona do baile a dizer-nos que não gosta de bailes? Tanto importa como declarar-nos que a nossa companhia lhe é mediocremente agradavel; não acham?..{123}

Jorge

Esta senhora parece-me boa, triste, mas realmente pouco habituada ás salas. É do Porto?

Viscondessa

Nada, não é; mas eu tambem não sei d'onde seja. Este casamento de Rodrigo dá dois capitulos para um romance semsabor como se escrevem em Portugal.

Jorge

Os romances portuguezes póde ser que sejam semsabores; mas as tragedias tem um não sei que de irritante, um acre de sangue... Vamos á tragedia, snr.ª viscondessa, á tragedia interrompida.

Viscondessa

Pois eu não conclui?{124}

Jorge

Não minha snr.ª V. Ex.ª chegou ao ponto em que...

Viscondessa

Em que o marido a matou. Ella morreu envenenada, e elle entregou-se á justiça. Ajude-me a recordar, snr. José de Sá? Que explicações deu o Silveira matando a mulher e deixando viver o Vasconcellos?

José de Sá

Silveira não deu explicação alguma, snr.ª viscondessa.

Viscondessa (com impeto)

Ai! ai! ai! a quem eu estou contando a historia... Ainda agora me lembro! ora esta! pois V. ex.ª não era o amigo intimo de Silveira? Não passava os dias com elle no Limoeiro?{125}

José de Sá

Passava, minha snr.ª

Viscondessa

Então aqui tem o melhor informador que V. Ex.ª podia encontrar. Conte o que sabe, conselheiro. É verdade, queira dizer-me: a filha de Martha de que tomou conta a Maria da Gloria Villasboas, que é feito d'ella, sabe?

José de Sá

Não sei.

Viscondessa

Então que sabe? Esta ignorancia é singular, por não dizer irrizoria! Querem vêr que a candura d'este varão se está insurgindo contra uma historia de corrupção social.

José de Sá (sorrindo)

Isto não é candura, minha snr.ª Eu estou corrompido bastantemente para não ser tolo.{126} Na nossa sociedade, minha viscondessa, as canduras apodreciam antes de florir innocencias tamanhas. Declaro a V. Ex.ª que não sei o que é feito da filha de D. Martha de Villasboas. Mas que insistencia, senhora! Tendo V. Ex.ª tantas flôres e tantas coisas cheias de vida e de luz no seu espirito; para que ha de estar enluctando a sua gentil conversação com umas memorias em que ha lagrimas a respeitar e infamias a perdoar?

Jorge (severamente)

A perdoar!

Viscondessa

E eu accuso alguem! O snr. está exquisito! Eu não sei se a Humanitaria dá medalhas aos sentimentalistas como V. Ex.ª Este snr. se vir representar o Othello de Shaskspeare sáe do theatro para não vêr historiada a infelicidade de Desdemona e a colera barbara do marido. É capaz de os ir accusar á policia!{127}

José de Sá

Eu não me retirava do theatro, nem iria accusar á policia as adulteras mortas visto que não accuso as vivas; não sahiria do theatro; mas em vez de olhar para o palco, olharia para as snr.as que contemplam sem impallidecer o horrendo trance da morte de Desdemona; e, na seguinte noite, irão vêr no mesmo palco representar uma comedia em que se zombe d'um marido deshonrado, e se mova a piedade das plateias a favor da adultera e do seu cumplice.

Viscondessa

Optimo! Isso é bom, bonito e eloquente. Mas eu, se não desmaio quando vejo as agonias fantasticas das peccadoras no theatro, tambem me não rio dos maridos escarnecidos, nem me commovo pela desventura d'aquellas que fizeram do seu coração um filtro de peçonha e de infames lagrimas. Quando Martha de Villasboas foi morta, eu não fui das que se vestiram de lucto e andaram pelas egrejas{128} a fazer-lhe uns baratos suffragios pela alma, e formavam grupos nos adros execrando a ferocidade do homem que não pôde dispôr da pacifica tolerancia dos maridos que acompanharam ás egrejas as devotas esposas. Se eu tivesse a fé que ensina a rezar pela salvação das almas, rezava em caza. Não indo á egreja, nem saindo a irritar odios contra o infeliz marido de Martha, cuido que respeitei bastantemente a desgraça de ambos. E, se as minhas orações valessem perante Deus, eu pediria perdão para ella, e misericordia para elle.

Jorge

Esse grande desgraçado, se ouvisse a snr.ª viscondessa, cuidaria que houve no mundo duas pessoas que choraram por elle...

Viscondessa

Eu que tinha sido excluida das relações de Martha, fiz mais, snr. Mendanha. Sabia que existia uma menina de tres annos, quando a{129} minha amiga de infancia morreu. Fiz inuteis exforços para descobrir a paragem da menina. Se tivesse encontrado em desamparo a filha de Martha, leval-a-ia para minha caza... (Momentos antes Eugenia e Pedro Aranha tem entrado na sala que vão atravessando, e Eugenia applica o ouvido ao que se está dizendo: e solta com sobresalto uma exclamação quando a viscondessa termina).

SCENA VIII

OS MESMOS, PEDRO, D. EUGENIA

D. Eugenia

Ah!

Pedro

Que tem V. Ex.ª?

D. Eugenia (aproximando-se do grupo com dissimulado socego)

V. Ex.as estavam conversando a respeito de...{130}

Viscondessa

De frivolidades, minha snr.ª

D. Eugenia (com muito embaraço)

Cuidei que ouvi proferir um nome que... V. Ex.as diziam coisa que eu não devo ouvir... A minha chegada perturbou a snr.ª viscondessa.

Viscondessa

Não minha snr.ª Estava-se conversando e recordando coisas antigas... a sociedade de Lisboa de ha vinte annos.

D. Eugenia

Pois sim; mas V. Ex.ª não fallou de uma senhora chamada Martha de Villasboas?..

Jorge

Fallou, snr.ª D. Eugenia. E que sabe V. Ex.ª da pessoa que teve esse nome?..{131}

D. Eugenia (encarando-o com susto)

Nada...

Jorge (á parte a José de Sá)

Sabe a historia do sogro.

José de Sá (o mesmo)

É natural.

Viscondessa

O senhor Aranha, diz-me onde está a prima Travaços...

Pedro

Eu conduzo V. Ex.ª (dá-lhe o braço.. Sahem). {132}

SCENA IX

D. EUGENIA, JORGE, SÁ

Jorge (aproximando a cadeira)

De Martha de Villasboas estavamos nós effectivamente conversando, minha snr.ª Quando a mulher que teve esse nome sahiu d'este mundo, V. Ex.ª teria apenas nascido.

D. Eugenia

V. Ex.ª conheceu-a?

Jorge

Vi-a. Quer V. Ex.ª provavelmente que se lhe conte um episodio da historia de seu sogro...

D. Eugenia (erguendo-se de impeto)

De meu sogro? Não intendo... que tem que vêr meu sogro com essa senhora?{133}

José de Sá (á parte a Jorge)

Descrição. (Sáe).

SCENA X

D. EUGENIA E JORGE

Jorge

No semblante angelico de V. Ex.ª reluz sinceridade. Não posso crêr que a snr.ª D. Eugenia finja ignorancia; mas tambem não posso perceber o ar de interesse com que me pergunta se eu conheci Martha de Villasboas.

D. Eugenia

Fui creada n'um recolhimento, onde muitas vezes ouvi contar a desventurada sorte d'essa snr.ª

Jorge

Ah! ficou-lhe na memoria o nome, e no coração{134} o dó da mulher que teve a infelicidade de ser amada do marido até ao extremo de ser morta por elle...

D. Eugenia

E elle amava-a!?

Jorge

Que pergunta! Pois não vê que elle a matou por ciumes?

D. Eugenia (como aterrada)

Matar! que horror, meu Deus!

Jorge

O horror não é matar; é sobreviver a esse cadaver que deixa uma herança de deshonra eterna. O horror é viver com o pozo d'esse cadaver, não sobre a consciencia, mas sobre o coração esmagado para nunca mais ressurgir. Para que V. Ex.ª possa sem espavorir-se,{135} pôr os olhos de sua alma no homem que matou Martha, imagine-o esposo, amante e apaixonado, ao quarto anno ainda noivo, cuidando que sua mulher a cada novo dia que vem sempre de caricias, sente a precisão de redobrar de ternura e gratidão. Veja-o de joelhos, ao pé de um berço onde lhe brincava com os beijos uma creança que elle chamava filha...

D. Eugenia (com impeto)

Então V. Ex.ª conheceu-o?

Jorge

Se conheci!.. Considere-o de repente sem a esposa, sem a filha, com a alma varada pela morte das duas vidas que viviam n'elle. A mãe descaroada vae ao berço onde está a creança, grava-lhe no rosto o labéo da sua infamia, involve-a na sua mesma mortalha, sepulta-se com ella. O marido e pae é de repente arrancado a impuxões de opprobrio dos braços de uma esposa querida. Quando{136} lhe elle agradecia as alegrias de seu amor, e a creança sorrindo parecia entender os jubilos do pae, Martha punha um pé sobre o coração do marido, outro, sobre o seio da filha, e repartia entre os dois a deshonra que lhe subejava. Do homem que por espaço de quatro annos lhe beijára os pés, fez um desgraçado sem nome; mas a sociedade precizando dar um nome a esse desamparado, chamou-lhe assassino. Elle matou-a, snr.ª D. Eugenia; foi a si proprio que elle se matou. Era forçoso espedaçar a alma que se identificára ao corpo contaminado da mulher perdida. As convulsões do veneno dilaceraram-lhe duas robustas vidas, a do coração e a do pundonor. O anjo que esse homem chamava filha cahiu dos braços da mãe, e elle repulsou-a dos seus, porque... não sei onde estão torturas comparaveis ás da incerteza entre um berço onde sorri um innocente e a sepultura onde os vermes completam a podridão de uma coisa infame como é a mulher que deixou seus filhos envergonhados se lhe proferirem o nome. Peço perdão, se estou magoando a sua sensibilidade, minha snr.ª V. Ex.ª está soffrendo, e eu disse{137} palavras acerbas como se as estivesse dizendo em frente dos juizes que condemnaram Jacome da Silveira. Chora! V. Ex.ª chora?! porque?

D. Eugenia

E porque não pediria essa criancinha a vida de sua mãe? Ella choraria o seu remorso ao pé do berço da filha... O desgraçado que praticou um tão duro castigo devia deixal-a viver, abandonal-a, para que a orfã não ficasse tão sem abrigo, á caridade de estranhos... Não se mata uma mãe que tem nos braços uma criancinha de tres annos.

Jorge (severo)

Essa mulher que morreu tinha o amante que primeiro lhe matou os brios; a criança podia ser filha do amante; e, se elle fosse menos infame do que cobarde, deveria retribuir a deshonra da mãe, repartindo com a orfã as pompas d'esta casa.{138}

D. Eugenia (vivamente agitada)

Não entendo, snr.! Porque diz V. Ex.ª que a filha de Martha devia ter parte nas pompas d'esta casa? Responda... diga... diga que segredo é este de que vae estalar uma grande desgraça... Olhe que é atroz a minha desconfiança... é horrivel... e eu receio morrer...

Jorge

É incomprehensivel o susto de V. Ex.ª! Receia morrer... porquê? A snr.ª D. Eugenia está formando espantosas tragedias na sua fantasia! Olhe que não ha nada extraordinario que deva atemorisal-a... Contou-se aqui a historia d'um homem atraiçoado, e d'uma mulher morta...

D. Eugenia

Mas meu sogro teve parte n'esse terrivel acontecimento?{139}

Jorge

E quando tivesse, minha snr.ª? Ha ahi nada mais vulgar, que um homem deshonrado por outro? E acaso viu V. Ex.ª incapellarem-se grandes tormentas á volta das pessoas como seu sogro?

D. Eugenia

Mas... só duas palavras... depressa, antes que venha gente. Meu sogro foi quem perdeu Martha.... foi? (Agitando os braços, desprende-se-lhe uma pulseira, que Jorge levanta; mas, ao acolchetar-lh'a, repara e estremece).

Jorge (rancoroso)

Quem lhe deu esta pulseira? quem lhe deu este retrato, senhora?

D. Eugenia

Retrato! isto não é retrato... Esta pulseira deu-m'a...{140}

Jorge (interrompendo-a com mal reprimido arrebatamento)

Seu sogro? Esse ignobil costuma dar ás esposas dos filhos os retratos das amantes?

D. Eugenia

Jesus! Ouça-me...

Jorge

Sabe a snr.ª que este retrato é o de uma adultera que se chamou Martha? uma adultera que deu a seu sogro o retrato que o marido lhe dera n'esta pulseira entre as joias do noivado? (Arroja a pulseira ao chão, e vae pizal-a quando Eugenia a levanta impetuosamente).

D. Eugenia

Pois este retrato é o d'ella? (beijando-o e soluçando){141} Oh! eu não sabia... Vem gente... não quero que me vejam chorar... siga-me... eu tenho muito que lhe dizer... siga-me a outra sala. (Toma-lhe o braço e sahem rapidos).

SCENA XI

VISCONDE DE VASCONCELLOS E JOSÉ DE

Visconde

Quando me disseram que estavas aqui esperava eu que as forças me deixassem preparar para a jornada...

José de Sá

Para onde vaes, visconde?

Visconde

Para Traz-os-montes, para uma torre onde estaria bem apartado da sociedade o Leproso{142} de Xavier de Maistre... Ha muitos annos que te não vejo, José de Sá. Eramos rapazes a derradeira vez que nos vimos! Estás ainda robusto, e com o colorido da mocidade nos gestos e nos olhos. Vê-se que não inclinaste a cabeça para o peito a chorar. Não afogaste em lagrimas, quando eras moço, os embriões d'onde te floriram as alegrias da velhice. Não fui eu assim, José de Sá. Sabes que formidavel trance me envelheceu quando eu principiava a viver. A Providencia ainda não levantou a mão inexoravel. Não pódes imaginar o que ha sido a minha vida.

José de Sá

Basta-me vêr-te para crêr que tens soffrido; porém, não o imaginava eu assim. Depois que sahiste de Lisboa, poucos annos passados soube que tinhas um filho. Ha dias chegando ao Porto, soube que teu filho dava um baile, e que tu vivias quasi sempre na provincia. Estas noticias, a fallar verdade; não me parecem bastantemente significativas{143} da vida dolorosa que tens passado. Eu julgava-te feliz como o vulgar dos homens.

Visconde

José de Sá, o mundo quando vê padecer os grandes criminosos, recusa acreditar que elles soffrem, para os ter sempre debaixo do peso do seu odio. Se um supplicio secreto os mata lentamente, o mundo, embora lhes veja lagrimas nas rugas do rosto, não tem compaixão d'elles. A sociedade crê pouco nos castigos occultos da justiça divina, porque não conhece justiça efficaz e exemplar senão a dos carceres, dos degredos e das forcas. Desde aquella hora funesta em que eu me vi ao mesmo tempo o mais miseravel e despresivel homem... quando me foi forçoso esconder no meu antro as lagrimas por aquella... cuja sepultura eu abri... desde aquella hora accendeu-se em minh'alma um inferno inextinguivel.

José de Sá

Os teus amigos cuidaram que terias então{144} a louvavel e virtuoza coragem do suicidio.

Visconde

A virtuoza coragem do suicidio! depois que se atropellaram em frente de mim desgraças tamanhas, o matar-me então seria coragem? O partir a corrente que me prende ha vinte e dois annos a um incessante supplicio seria coragem? Eu n'aquelle tempo não tinha o menor vislumbre de religião, o matar-me sem pavor da eternidade seria, nas minhas circumstancias, o complemento de uma vida proterva. Fechar olhos para não vêr a sombra de Martha, nem Jacome no degredo, seria um acto de valor? Não. Valor é ter ainda hoje lagrimas para ambos... E no dia em que eu não poder chorar, descrerei de Deus e então... matar-me-hei, por intender que expiei acerbamente, e não fugi ao castigo...

José de Sá

Mas parece que fugiste do duelo.{145}

Visconde

Eu não podia affrontar-me com o homem que eu deshonrara. Criminosos como eu aceitam uma bala, não aceitam um contendor no campo da honra. Matam-se, não se desaffiam taes homens. A sociedade quereria que eu apontasse um florete ao coração do marido de Martha? Se eu o matasse atenuaria a minha baixeza com esse acto de deshumanidade?.

José de Sá

Mas a sociedade, quando vê os delinquentes na tua condição, pergunta como é que expiam.

Visconde

Essa pergunta me fazes tu em nome da sociedade?

José de Sá

Não: se eu te interrogasse, visconde, seria por minha conta. A sociedade creio eu que não te pergunta nada. Dá-lhe bailes; que a sociedade{146} troca por isso o prazer de te diffamar. A sociedade em quanto dança não dilacera reputações. Evita, quanto puderes, ser desgraçado e pobre. Isso é que se não perdôa. Ainda que os remorsos te cortem o coração, sê tu rico, e verás que a sociedade conspira em te distrahir com o espectaculo da farça humana em que os truões sacodem os cascaveis para que não ouças os gemidos da tua consciencia.

Visconde

Eu não dou bailes; dá-os meu filho que é moço, e não se priva dos gozos da mocidade porque me vê chorar. José de Sá, tens sido duramente severo comigo. Não me queixo. Generosamente me apertaste a mão; e eu não merecia tanto. Se alguem houvesse compaixão de mim, não serias tu por certo, que foste amigo de Silveira e o confidente de afflicções superiores ao entendimento de desgraçados maiores do que eu. Chorei-os ambos, porque os matei ambos. Peguei d'aquelles trez entes cheios das alegrias da honra e do amôr...{147} e atirei-os á voragem do opprobrio e da morte... Despreza-me tu, desprezem-me todos, que eu não tenho rehabilitação... não posso arrancar-me das prezas implacaveis do meu remorso. (Cahe extenuado numa cadeira).

José de Sá (comtemplando-o, e entre si)

Não te erguerás não, infeliz! Péza-te na consciencia o cadaver de Martha...