SCENA XII
OS MESMOS, VISCONDESSA, PEDRO ARANHA COM OUTROS GRUPOS QUE SE CRUZAM AO FUNDO
Viscondessa
Ai! alli está o visconde! (aproxima-se inclinando-se) Visconde!
Visconde
Minha senhora... (levantando-se a custo). {148}
Viscondessa
Soubemos agora que V. Ex.ª tinha chegado, e procuramol-o em todas as salas. Reanime-se!
Visconde
Estou bem, snr.ª viscondessa.. E V. Ex.ª tem-se enfastiado?
Viscondessa
Não me enfastio; gelo-me de horror, quando penso que a luz do sol nos ha de mandar sahir d'este paraizo.
Pedro
Onde todos os pomos são prohibidos.
José de Sá
E os maduros tambem? (tregeitando como allusão á viscondessa). {149}
Viscondessa
Os verdes principalmente é que são prohibidos pela mesma razão que o eram as uvas á rapoza; não acha, snr. Pedro Aranha?
Pedro
Eu acho que V. Ex.ª sabe tudo, adivinha tudo, é a arvore da sciencia d'este paraizo. Descubriu ultimamente que eu vinha depôr o meu inveterado scepticismo ás plantas de uma menina portuense.
José de Sá
E eu não admiro; que n'estas salas tenho eu visto explendidas bellezas, ás quaes seria facil empreza dobrar o orgulho d'esta moderna seita de scepticos, e de jovens cançados d'amor que se deploram em Portugal por versos mais ou menos errados, e morrem quasi sempre desconhecidos na sua rua.{150}
Viscondessa (ao visconde)
Que abstracção! que melancholia! Distraia-se!.. Ó visconde (indigitando um par) quem é aquella menina que parece ir adormecida sobre o hombro do menino respectivo?
Visconde
Não sei, minha snr.ª Eu conheço n'esta sala V. Ex.ª e a mulher de meu filho. Onde está Eugenia?
Viscondessa
É uma pergunta que eu ia fazer. Ha coisa d'um quarto de hora que a vi passar pelo braço de Jorge de Mendanha.
Visconde
Não tive o prazer de vêr esse cavalheiro, e provavelmente já o não verei por que vou sahir.{151}
José de Sá
Tu não estás hospedado em casa de teu filho?
Visconde
Não, José de Sá. Eu amo bastante meu filho e minha nora para os não mortificar com a presença continuada d'uma velhice repellente...
Viscondessa
Ahi vem lamentação do profeta... Se vem, deixo cahir a fronte com o pezo da mortificação!.. Ah! aqui vem a snr.ª D. Eugenia com Jorge Mendanha.{152}
SCENA ULTIMA
OS MESMOS, JORGE, RODRIGO, EUGENIA, E CONVIDADOS QUE VÃO PASSANDO
Do lado fronteiro, por onde entrou Mendanha, vem Rodrigo que se avisinha do pae no intento de o apresentar. Jorge de Mendanha pára, em frente do visconde, largando o braço de Eugenia e deixando pender os braços. O visconde encara Mendanha com penetrante frieza e spasmo.
Rodrigo (a Mendanha)
Tenho a honra de apresentar a V. Ex.ª meu pae. (O visconde está fitando convulsamente Jorge. Este mantem-se immovel, com a fronte alta e o olhar fixo e sinistro. O visconde recua, erguendo as mãos em attitude de quem repelle uma visão, e cahe nos braços de Eugenia e de José de Sá).
Rodrigo (avisinhando-se com altivez de Jorge)
Quem é o senhor?
Jorge (apontando para o visconde)
Pergunte-lh'o. (Desce o pano vagarosamente).
FIM DO SEGUNDO ACTO.
{153}
ACTO TERCEIRO
(1.º QUADRO)
Sala do hotel de Francfort.—Vêem-se gallegos atravessar carregados de malas.
SCENA I
VISCONDESSA, E UM CREADO, POUCO DEPOIS
Viscondessa (em trajes de viagem)
A carroagem ainda não chegou?
Creado
Foi-se chamar, snr.ª viscondessa.
Viscondessa (irritada)
Parece que as carroagens no Porto não se{154} mandam buscar, mandam-se fazer. A velocidade aqui é impossivel, fóra do carroção! Ai! Lisboa, Lisboa! Olé! (ao creado).
Creado
Minha senhora.
Viscondessa
O snr. Mendanha já se levantou?
Creado
Parece-me que ainda se não deitou. Desde que chegou do baile tem passeado sempre no quarto.
Viscondessa (ao creado que está sacudindo o pano da jardineira)
Ó sôr homem!
Creado
Minha senhora.{155}
Viscondessa
O snr. conselheiro José de Sá está com o snr. Mendanha?
Creado
Está no quarto d'elle.
Viscondessa
Está mais alguem de Lisboa n'este hotel?
Creado
Mais ninguem, snr.ª viscondessa.
Viscondessa (tirando dois bilhetes d'uma carteira)
Pegue lá: dê estes bilhetes aos snrs...
Creado
Ahi vem o snr. conselheiro. (sáe). {156}
SCENA II
JOSÉ DE SÁ E VISCONDESSA
José de Sá
Que madrugada é esta! V. Ex.ª, á uma hora da tarde, já radiosa, em trem de viagem!
Viscondessa
Não dormi nada, tenho os nervos em convulsões, estou doente, e vou para Lisboa no Lusitania que sáe ás duas horas felizmente. Que me diz á scena melodramatica do baile?
José de Sá
Pareceu-me mais tragica do que melodramatica.
Viscondessa
Mas quem anda a fazer tragedias pelos bailes hoje em dia! Aquillo é d'um anachronismo{157} e máo gosto revoltantes! Se os maridos atraiçoados começam a dar-se ares de fantasmas tragicos nos bailes, os salões hão de tornar-se medonhos, e cada marido ha de dar-se o tom e o feitio d'um bravo de Veneza em veteranos.
José da Sá
Não se graceja assim com o infortunio, snr.ª viscondessa.
Viscondessa
Ora pelo divino amôr de Deus, snr. Sá! A gente não ha de vestir-se de lucto por que o senso commum vae morrendo hydropico de ridicularias! Eu acho natural e perdoavel que o seu amigo Jacome da Silveira despisse os ares carregados e funebres da vendetta, e esmurraçasse na Praça Nova ou no jardim de S. Lazaro o visconde; mas isto de enroupar-se n'uma toilette mysteriosa, coriscando dos olhos uns fulgores fulminantes, para afinal de contas ajuntar o escandalo á irrisão,{158} sinto dizer-lhe, conselheiro, que é um soberano disparate, e que o seculo vae muito luminoso para podermos receber a sério estas excrecencias da idade media. Que diz?
José de Sá
Eu não disse nada. Estou ouvindo e admirando a snr.ª viscondessa de Pimentel.
Viscondessa
Eu não armo á admiração, meu presado conselheiro; quero apenas que me vejam protestar contra tudo que tem vislumbres de tolice. Ora queira dizer-me: não estava ha muito tempo esquecida a desventura de Martha? O visconde não fugiu da sociedade para que ninguem se lembrasse d'ella e d'elle? Isto é verdade: que diz?
José de Sá
Ainda não disse nada, minha senhora.{159}
Viscondessa
Bem sei que não disse nada. O snr. Sá ensaia-se para estadista n'esta diplomacia de boudoir? Parece-me que desperdiça a sua infinita sagacidade n'esses ares meditativos com que trata coisas insignificantissimas.
José de Sá (sorrindo)
Estou quasi resolvido a irritar-me contra V. Ex.ª Se continua a injuriar-me, ai da viscondessa e de mim!
Viscondessa
Mas rebata isto, snr. Sá. Que lucrou o seu amigo bulindo nas cinzas de Martha? Reviver miserias...
José de Sá
Minha senhora, não bula V. Ex.ª n'ellas, que a memoria de Martha é sacratissima desde que expiou acerbamente a sua culpa.{160}
Viscondessa
Concordo; e por isso mesmo reprovo que Silveira... Ah! uma nota curiosa... O conselheiro, reparou n'aquelle pendor sentimental da cabeça de Eugenia sobre o hombro de Silveira, quando passeavam nas salas menos concorridas?
José de Sá (ironico)
Não reparei n'esse escandalo!
Viscondessa
Não? foi coisa que deu nos olhos de muita gente. Que infinita graça e que profundo mysterio não teria o apaixonar-se Eugenia... (rindo).
José de Sá
Ora, minha senhora... V. Ex.ª traz a sua formosa cabeça repleta de máos romances... Bem se vê que os seus nervos andam destemperados pelo terror das tragedias... (ouve-se o rodar da sege). {161}
Viscondessa
Ahi está a sege... Adeus. (apertando-lhe a mão) Vou por casa de Eugenia deixar-lhe um bilhete, se a não poder vêr de relance.
José de Sá
Vae auscultar-lhe o coração a vêr se effectivamente está apaixonada pelo meu amigo?
Viscondessa
Quem sabe?... quem sabe...
José de Sá
Ah! viscondessa, viscondessa... Receio que seu benemerito esposo esteja mais arriscado que o de Eugenia...
Viscondessa (fazendo-lhe uma mezura á antiga)
Ça n'est pas gentil, mon cher. Au revoir. {162}
José de Sá (cortejando-a profundamente)
Sempre admirador e sempre admirado. (A viscondessa sáe).
SCENA III
JOSÉ DE SÁ E UM CREADO
Creado
O snr. Mendanha mandou-me saber se V. Ex.ª já estava a pé.
José de Sá
Diga-lhe que estou aqui.{163}
SCENA IV
JOSÉ DE SÁ E DEPOIS JORGE
José de Sá
É necessario revelar a este infeliz as minhas esperanças de ainda podermos encontrar a filha de Martha, fazendo-lhe chegar ao coração a certeza de que é sua filha. (Examinando a carteira) Felizmente que tenho comigo a carta. Se não alcanço nortear-lhe o espirito para outro destino, receio que uma terrivel fatalidade venha recomeçar as desventuras d'este malfadado homem. (A Jorge que entra). Descançaste?
Jorge
Nem levemente: começo a vêr novos abysmos.
José de Sá
Tambem eu, Jacome.{164}
Jorge
Esta minha vinda a Portugal...
José de Sá
Eu não t'a aprovei. Se o teu intento era completar um plano de vingança, fizeste bem não me consultar. Eu te responderia que uma grande calamidade não justifica planos sanguinarios, por melhor mascarados que venham em requintes de pundonor. Se me consultasses, dir-te-hia que a honra que ensanguenta as mãos só póde a allucinação desculpal-a, e que um assassinio premeditado vinte annos é um acto de selvageria, se a demencia o não desculpar. Quando me avisaste da tua chegada ao Porto com um pseudonimo, comecei a duvidar da sanidade do teu juizo. A mudança de nome não podia dissimular um plano incompativel com a honra que te perdeu.{165}
Jorge (interrompendo-o e levantando-se com impeto)
A honra que me perdeu!.. excellente palavra. A honra devia nobilitar-me, se era honra. O que perde e avilta deveria ser o despejo, o cynismo, o impudor, o desvergonhamento que petrefica na cara do infame a lama que lhe atiram. Comigo não foi assim. A honra quiz desafrontar-se; sacudi de mim a vibora que me crivava o coração de infernaes farpas; mas a sociedade e a sua justiça vieram e bradaram-me: «Vae, condemnado; vai-te sem alma, sem dignidade, sem amigos, sem a misericordia de ninguem! Vae-te n'essa leva de ladrões e facinoras; vae contar na Africa as horas de 7300 dias e noites. Vae, por que tiveste a audacia de condemnar pelo teu desforço os centenares de despejados que não consentem que tu sejas mais brioso do que elles. Se querias gozar os teus direitos de cidadão, se querias a liberdade dos homens de bem, se querias a consideração dos honestos, recebesses a affronta em silencio, embora a sociedade te visse o{166} ferrete na testa; ostentasses ignorancia da tua deshonra; apertasses em publico a mão que estrangulara na garganta de tua mulher os sagrados juramentos da sua lealdade. Se da tua casa haviam feito um prostibulo, e dos teus carinhos de esposo um incentivo para irritar os prazeres do crime, bebesses o teu calix como tantos para quem o fel de uma deshonra de mera convenção chega a perder o seu travo. Quem te disse a ti, assassino, que a vida humana não era inviolavel? Eras marido amantissimo? Estremecias tua mulher com ternura de pae? Durante trez annos de idolatria não imaginaste sequer que o teu amor podesse ser assim galardoado? E foste trahido? E foste apunhalado pela mão que beijavas? E viste a mulher adorada roxeada nas faces pelos beijos d'outro homem? viste-a bem perdida, bem na lama, bem no abysmo? Não importa. A vida humana é inviolavel! Soffresses, miseravel! Acceitasses a ignominia que deixou de o ser desde que os infames a partilhal-a são tantos que não se podem escarnecer. E, se tinhas necessidade de sacudir o dardo do coração,{167} bebesses tu o veneno, e morresses, e deixasses tua mulher viuva e formosa viver, a sua inviolavel vida e gozar-se na inviolabilidade da sua devassidão...» É assim que a sociedade falla aos desgraçados como eu, José de Sá?
José de Sá
Desafoga, Jacome; mas em nome das tuas infinitas amarguras te peço que vejas em mim o unico homem que te quiz enxugar as lagrimas. Eu louvo os moralistas, que escrevem excellencias sobre a inviolabilidade da vida humana, e invejo-lhes o socego, a placidez, o solido raciocinio com que legislam para as paixões no conforto do seu gabinete. Esses taes nos darão exemplos de cordura quando a sorte funesta os collocar entre a deshonra e a theoria; mas, meu querido amigo, não me perguntes se a tua vingança está cumprida, e se a tua desaffronta requer a vida d'esse esmagado homem que hontem á noute viste cahir nos meus braços. Que queres tu fazer d'aquella preza de remorsos? Não o vês tão dobrado pela mão da Providencia?{168} Não lhe vias na face a escuridão profunda d'aquella alma?
Jorge
E quem te disse que eu vim a Portugal procurar esse homem para o matar?
José de Sá
Suspeitou-o o receio que tenho de que o prazo dos teus infortunios ainda não esteja fechado.
Jorge
Essa suspeita vinda de outro que não fosses tu seria ultrajante. Se nos meus designios entrasse a morte de tal homem, eu não praticaria o abjecto ardil de entrar disfarçado em sua casa. Hontem te disse no baile o que alli fôra fazer. Encarei o reprobo que tremia debaixo do fardo da sua ignominia. Não tenho mais que vêr. A vida é o patibulo d'aquelle condemnado. A Providencia sentenciou-o. Para que não falte nada ao seu supplicio até a coragem do suicidio o desamparou.{169} Creio em ti, Deus! Não se é perverso impunemente. Os que morrem afogados nas lagrimas que fazem chorar não são os que mais dolorosamente expiam. Incomportavel inferno deve ser-lhes o recordar-se!.. A minha vingança, José de Sá, completa-se com a vida do algoz da minha felicidade. Quero que elle viva. Não tenho mais que fazer em Portugal.
José de Sá
Tens. O teu coração póde reflorecer ainda. Penso poder vaticinar-te um resto de vida com luz, com alegria, com amor. Eu suspeito que Leonor existe.
Jorge
A filha de Martha?
José de Sá
A tua filha.
Jorge
Minha!.. Não me afflijas. Olha que ainda{170} se faz noite na minha alma, se vejo a imagem d'essa creança. Minha! que absurda nova! onde foste saber que ella era minha filha?
José de Sá
Se viste nas rugas do visconde de Vasconcellos assignalada a mão da Providencia, por que duvidas crêr que a Providencia premeie as tuas agonias, tamanhas e com tanta paciencia soffridas, mostrando-te a creança que se acalentou em um seio sem macula, a filha do teu sangue, do teu coração e da tua alma?
Jorge (com vehemencia)
Queres tu enlouquecer-me? queres que eu vá d'essa esperança á tristeza mortal do desengano? Como sabes tu que ella vive... e é minha filha?
José de Sá
Escuta.{171}
SCENA V
OS MESMOS E UM CREADO, O CREADO COM UM BILHETE DE VISITA N'UMA BANDEJA
Jorge (lendo)
Rodrigo de Vasconcellos (Declamando:) Que vem aqui fazer este homem? Não lhe fallo... Em que occasião!..
José de Sá
Ha de sobrar-nos tempo. Falla-lhe; mas não deixes apagar pela rajada da colera a ideia luminosa de que tens uma filha. (Ao creado) Que entre. (O creado sáe).
Vou para o meu quarto. Quando elle tiver sahido voltarei. (Sáe). {172}
SCENA VI
RODRIGO E JORGE
Rodrigo (com altivez sarcastica)
Não sei a quem tenho a honra de me dirigir.
Jorge
Já tive a honra de lhe dizer que o perguntasse a seu pae.
Rodrigo (com solemnidade e tristeza)
Meu pae não me responde. Soffre em silencio, e eu receio que elle morra. Quem é o snr. que entrou nas minhas salas, e introduziu no seio da minha familia o escandalo e a desgraça em presença de centenares de testemunhas?
Jorge
Entrei nas suas salas, tencionando sahir{173} d'ellas dignamente como seu pae não costumava sahir. Não dei escandalo. Os seus convidados viram um homem estremecer e desmaiar diante de mim sem que eu lhe chamasse sequer infame.
Rodrigo
Lembro-lhe que está fallando com um filho do visconde de Vasconcellos.
Jorge
Sei isso. Tome nota do conhecimento que tenho de V. Ex.ª, para todos os effeitos. Quer por tanto saber quem sou? A minha biographia diz-se depressa. Fui amigo de seu pae, desde a infancia que ambos passamos no collegio dos Nobres. Cazei. Era suprema a felicidade de marido, quando convidei seu pae a vêr nas doçuras da minha vida intima o soberano bem d'este mundo. Disse-me seu pae que via em minha mulher a belleza do anjo e o coração da sancta. D'este anjo e d'esta sancta fez seu pae uma adultera. Deshonrou-me.{174} Matei-a. Seu pae fugiu. Eu encarcerei-me; esperei a sentença, e fui condemnado a degredo. Ha seis mezes que sahi de Africa. Vim vêr seu pae. Vêl-o e mais nada. Vi. Achei-o miseravel até ao asco. Repelle e enoja. A Providencia fêl-o asqueroso. Deixei-o á Providencia, que sabe a rasão mysteriosa porque taes creaturas se fazem. Resta-me dizer-lhe o meu nome. Sou Jacome da Silveira.
Rodrigo
Ouvi dizer ahi que meu pae fugiu. Não creio.
Jorge
Informe-se.
Rodrigo
Meu pae é um cavalheiro.
Jorge
Em relação a mim, seu pae é um villão.{175} Desejo que V. Ex.ª não torne irrisoria esta nossa já longa, primeira e ultima pratica. Parece-me irracional, senão insensata a noticia que me dá do cavalheirismo de seu pae, quando eu lhe conto uma historia...
Rodrigo (com desdem)
Vulgar.
Jorge
São vulgares na sua familia estas historias? Semelhante cynismo vae mal e indecorosamente a um marido! Bom será que sua senhora não se familiarise com historias assim vulgares, principalmente se aos infamissimos personagens se dá o nome de cavalheiros.
Rodrigo
Minha mulher não tem que vêr com a nossa entrevista, snr.{176}
Jorge
De accôrdo. Respeito-a muito. Nunca vi lagrimas mais dignas da virtude. É pena que ella chore n'este tremedal...
Rodrigo
Insisto em affirmar que meu pae é cavalheiro. Não ouso condemnar as fragilidades d'elle. Limito-me a lastimal-as, tanto mais que nenhum homem, virtuoso ou vicioso, educou um filho com tão elevados conselhos e exemplos.
Jorge (sorrindo)
Exemplos!
Rodrigo
Nunca deslizei da linha da honra que meu pae me traçou. Adivinhei que elle havia soffrido uma cruel catastrophe em sua mocidade, por que no vigor da vida o conheci triste, apartado da sociedade, sombrio, e só. Ha trez dias soube a causa da sua longa expiação—expiação{177} emfim acabada, porque sei que meu pae chegou ao termo de sua funesta carreira, e estende os braços para a bemaventurança da sepultura. No entanto, se elle podesse desafogar-se das dores mortaes que o abafam, V. Ex.ª encontraria deante da sua mal empregada bravura o homem que lhe não fugiu; mas fugiu á horrenda contingencia de matar o homem que tinha offendido. Permitta Deus que meu tão honrado quanto infeliz pae restaure, pouco que seja, de suas forças, e V. Ex.ª conte com um peito bem a descoberto do seu ferro, se á sua vingança se fazem necessarias algumas gottas de sangue.
Jorge
Regeito. Eu quero que seu pae viva.
Rodrigo
Sem embargo d'essa sarcastica concessão de vida, cumpre-me dizer ao snr. Silveira: primeiro, que tenho um só nome, e que o não mudarei quando houver de insultar o mais{178} valente, ou o mais covarde; segundo, que, morto meu pae da angustia que o abateu, hei de obrigar o seu indirecto assassino a retirar de sobre a sua campa as injurias cuspidas sobre as cans d'um velho, cujo crime, longamente expiado, o havia posto na posição alta onde os vituperios de V. Ex.ª não deviam chegar; terceira, que sinto um verdadeiro prazer na hypothese de que o snr. Silveira terá a coragem que inculca.
Jorge
Eu tenho apenas inculcado desprêso; e d'hora em diante não poderei senão inculcar o tedio que o snr. Vasconcellos me está fazendo. (Aponta-lhe a sahida da sala).
Rodrigo
Concluiremos n'outra parte. (Sáe). {179}
SCENA VII
JORGE E JOSÉ DE SÁ
José de Sá
Ouvi tudo. Mal vae isto, Jacome! Bem pressagiava eu que se estão encadeando outros elos á corrente das tuas fatalidades!.. Como evitarás o duelo?
Jorge (serenamente)
Em meio de tudo isto, o rapaz teve momentos em que me abalou profundamente. Via-se ali um filho, nobre coração de filho. D'uma vez divisei-lhe lagrimas. Se elle, n'esse lance, me diz que seu pae era um desgraçado digno de compaixão, eu creio que lhe diria: «Peça a Deus que quebre ao penitente os espinhos do remorso; que eu deixal-o-hei a sós com o fantasma que o arrasta á sepultura...» E, depois, que immensa piedade me fez a mulher d'este moço, aquella doce alma{180} que se desfazia em prantos pedindo-me commiseração...
José de Sá
Calculemos o progresso d'esta nova calamidade. O visconde, fulminado pela tua presença, provavelmente succumbe. Se elle morre, o filho desafia-te. Irás ao campo. Se o matas, matarás um homem que quiz, com ou sem razão, defender a memoria de seu pae. Imagina o restante da tua vida, da tua velhice, com mais um fantasma para as tuas noites de insomnia. Se elle te mata, fechaste lastimavelmente o cyclo das tuas desventuras. Morres sem que os teus amigos de ti possam dizer que tinhas precisão de morrer legitimamente; quero dizer, que acabaste consoante as leis da honra; por que eu considero trez vezes scelerado o homem que vae n'um duelo apontar uma pistola ao peito d'outro que não odeia. Que rancor podes ter ao filho do visconde? ao marido d'aquella meiga creatura que hontem chorava diante de ti com a uncção do anjo que pede commiseração para a perversidade humana? Não{181} te disse ella que, se tivesses uma filha, os odios entranhados em teu coração sahiriam nas primeiras lagrimas de contentamento? Pois bem. Tratemos de procurar essa, filha de cujo amor depende a tua regeneração. Vejamos se ainda ha n'esta vida algum contentamento para ti. Se estas esperanças fallecerem, joga a tua vida nos desafios, ou para te entreteres matando, ou para morrer entretido.
Jorge
Vamos... conta-me o teu sonho.
José de Sá
O meu sonho, se sonho é, começa na deploravel noite em que D. Martha sentindo aproximar-se a morte...
Jorge
Depressa.
José de Sá
Antes de expirar escreveu uma carta.{182}
Jorge
A quem?
José de Sá (tirando a carta da carteira)
Á irmã que tinha no convento da Encarnação. Lê.
Jorge (examina a lettra com grande commoção)
Lê tu... Não posso.
José de Sá (lendo)
«Minha irmã, escrevo-te nas ancias de uma terrivel morte. Morro envenenada por Jacome. Invoco o sancto nome de Deus para jurar que Leonor é filha de meu marido. Elle disse que não era seu pae quando eu lhe pedi que a não desamparasse. Mostra-lhe este meu juramento, feito ao ir d'esta vida á presença de Deus. Se elle a desamparar, dá-lhe tu metade do teu pão. Adeus. Chora-me e pede ao Senhor pela tua pobre Martha.»
D. Maria da Gloria recebeu esta carta, sahiu{183} do convento, e entrou em tua casa, quando a irmã era morta. Eu dirigi o enterro da defuncta, e na volta do cemiterio soube que D. Maria da Gloria tinha levado a sobrinha. Indaguei na Encarnação; ninguem me soube dizer a paragem de tua cunhada.
Jorge
E soubeste depois?..
José de Sá
Quem o sabia era um teu creado velho que já o havia sido do pae de Martha; mas esse disse-me que jurára a D. Maria da Gloria nunca divulgar a residencia da filha de sua irmã.
Jorge
Porque?
José de Sá
Porque não queria atirar aos desprêsos do mundo a filha d'uma senhora assassinada...{184}
Jorge
Nada me disseste...
José de Sá
Que importava dizer-t'o para Loanda? Sobejavam-te lá mortificações. Além de que a delicadeza impunha-me o dever de te não fallar da creança que tu não julgavas tua filha.
Jorge
Mas esta carta...
José de Sá
Esta carta está em meu poder ha dois annos.
Jorge
Quem t'a deu? Maria da Gloria? Então onde está Maria da Gloria? onde está minha filha?{185}
José de Sá
Quando ha dois annos voltei da Exposição de Pariz, encontrei no meu escriptorio uma carta escripta vinte dias antes e assignada por um empregado do hospital de S. José, pedindo-me que chegasse lá para negocio urgente. O empregado chamou um enfermeiro, o qual me apresentou uma carta ditada pelo teu creado, nos ultimos momentos de vida, em que declarava que D. Maria da Gloria o mandara chamar, cinco annos antes, em perigo de morte, e lhe entregara uma carta para te ser entregue se voltasses a Portugal. E no ponto em que ia proferir o nome do convento onde tua filha estava, expirou golfando sangue.
Jorge
E afinal? onde está minha filha?
José de Sá
Até hoje tem sido frustradas as minhas dilligencias{186} nos conventos de Lisboa; mas tu vaes lançar mão de recursos em que tenho toda a confiança.
Jorge
Quaes? Que esperanças me dás, José de Sá?
SCENA VIII
OS MESMOS E UM CREADO
Creado
Procura V. Ex.ª o snr. Pedro Gavião Aranha.
Jorge (a José de Sá)
Já será o cartel? (ao creado) Que entre. (O creado sáe). {187}
José de Sá (sorrindo)
Jacome, olha que temos de procurar tua filha.
Jorge
Na eternidade?
SCENA IX
OS MESMOS E PEDRO ARANHA
Pedro (cortejando-os)
Snr. Silveira, snr. conselheiro. A minha missão é triste...
Jorge (risonho)
Eu havia adivinhado a sua missão triste.
Pedro
Que tinha V. Ex.ª adivinhado? Isso é extraordinario!{188}
Jorge
Vem representar o pundonor agastado do snr. Rodrigo de Vasconcellos?
Pedro
Não, snr. Rodrigo de Vasconcellos, d'aqui a poucas horas, se verter sangue, será o de suas lagrimas. V. Ex.ª entrando n'aquella casa, fulminou a felicidade de dois esposos que se adoravam, e o futuro d'uma creancinha que me parece condemnada a não poder dizer o nome de seus paes.
Jorge
Que lhes fiz eu?
Pedro
Creio bem que V. Ex.ª, trasido na onda da fatalidade, senão antes pela mão da Providencia, o mal que fez, as tempestades que levantou, não as promoveu voluntariamente.{189} O snr. Jacome da Silveira quando entrou em casa de Rodrigo de Vasconcellos, e viu os sobresaltos e anciedades de D. Eugenia, decerto não podia prever que ia separar os dois esposos dilacerando-os pelo coração.
Jorge
Não o entendo, snr. Aranha!.. Que é? Eu separei e dilacerei os corações dos dois esposos! Que tenho eu que vêr com um ou outro? A snr.ª D. Eugenia fallou-me de outra que morreu, e disse-me que ouvira contar a sua historia, e chorou, não sei se compadecida de mim se d'ella... Tinha uma pulseira com um retrato, que denunciava a impudencia de quem o possuira e lh'o dera...
Pedro
O retrato que D. Eugenia tinha na pulseira era o retrato de sua mãe.{190}
Jorge
Isso é falso, snr.! O retrato era d'uma mulher que se chamou Martha, e foi amante de... (sustendo o impeto de colera).
Pedro
Sem duvida nenhuma. O retrato da snr.ª D. Martha é o que a snr.ª D. Eugenia tem na pulseira.
Jorge
Não me diga pois que o retrato é da mãe d'essa senhora.
Pedro
Affirmo a V. Ex.ª que a esposa de Rodrigo de Vasconcellos é filha de D. Martha de Villasboas, e que a pulseira não a houve do sogro, mas sim de D. Maria da Gloria, irmã de sua mãe.{191}
Jorge (rapido)
Entendi eu bem? Repita... Comprehendes tu, José de Sá? Repita o snr...
Pedro
Que o filho do visconde está casado com uma senhora cuja filiação ainda hontem ignorava. Sabe D. Eugenia que V. Ex.ª foi o marido de sua mãe, e tambem suspeitava desde muito, e desde hontem principalmente soube que V. Ex.ª, desconfiado da lealdade de sua senhora, repulsára uma menina chamada Leonor, a qual viveu em um Recolhimento, chamando-se Eugenia, e d'esse Recolhimento sahiu com uma prima do honrado rapaz com quem casou. Esta deploravel senhora está hoje apertada na cruelissima angustia de se vêr apontada por V. Ex.ª como filha do pae de seu marido. Este conflicto é pungentissimo para uma alma, cuja sensibilidade está exaltada por sentimentos religiosos. Eu acabo de presenciar a destruição rapida que a paixão e a vergonha estão fazendo n'aquella desoladissima{192} senhora—vergonha de ser apontada como filha da adultera morta a veneno, e como suspeita filha do cumplice de sua mãe, e esposa de seu proprio irmão! Fui chamado a confidenciar n'este inferno, e aconselhei-a que occultasse o mysterio do seu nascimento. «Não posso, bradou ella, sinto-me morrer esmagada pelo opprobrio da minha situação. Se o visconde é meu pae, receio vêl-o morrer ás mãos do matador de minha mãe; se meu pae é Jacome da Silveira, eu não posso deixar de me abraçar n'aquelle grande desgraçado, e dizer-lhe que sou sua filha!»
Jorge (interrompendo-o com as mãos fincadas nos braços d'elle)
Ouça, snr... Ella chamou-se Leonor? É filha de Martha? Foi ella mesma que lhe disse: «eu sou filha de Martha?»
Pedro
Quem poderia dizer-m'o senão a snr.ª D. Eugenia?{193}
Jorge
José, como comprehendes tu isto?
José de Sá
Que tens a tua filha. A Providencia collocou o anjo á borda d'um abysmo em que tarde ou cedo cahirias.
Jorge
Vá dizer-lhe que está aqui seu pae... Diga-lhe que eu lhe inundei o rosto de lagrimas quando a deixei no berço aos trez annos. Diga-lhe que ajoelhei com ella nos braços, e dei brados a Deus pedindo-lhe um abalo no coração que se despedaçou quando a infernal duvida m'a desentranhou do peito, e eu a repulsei, exclamando: «não és minha filha». Nas primeiras noites de carcere, eu via um spectro, e uma sombra compadecida, como a de um anjo lagrimoso. O anjo quando eu cahia de rosto contra as lages, e adormecia atrophiado pelo frio da madrugada, punha-me{194} na face a mão e aquecia-m'a; collava os labios nos meus ouvidos aturdidos de um gritar estridente, e dizia-me: «pae». Eu despertava, e cria que a febre cerebral ia matar-me... Fui para o desterro. Por entre o bramir, das ondas ouvia o vagir da creancinha; e de noite, buscando-a no céo, parecia-me vêl-a envolta em mortalha branca, entre as nuvens que passavam, e as estrellas que pareciam contemplar em mim o homem que reuniu em si quantas agonias Deus pôde crear n'um dia de cruel omnipotencia. Eu não podia então chorar como hoje. Deus não me deu a esmola das lagrimas para que o reconhecesse e confessasse na hora em que viesse a encontrar a face do anjo que nas infinitas noutes de degredo ainda me apparecia e dizia: «Espera» Chegaram. Sinto as lagrimas. Sinto-as no coração, que renasce; mas aqui dentro ha um anciar que me suffoca... Onde foi Deus levar minha filha?.. (sorrindo) Deus!.. Onde hei de eu ir procural-a?.. Alli... alli onde a desgraça, um acaso, um accidente estupido a levou! Hei de eu ir buscal-a, pedil-a... a quem? ao marido? ao filho do meu{195} algoz? Meus amigos, este apparecimento de minha filha não é um bem com que Deus me premeia... É uma nova esponja de fel, que me dão para eu matar a minha sêde d'amor e de felicidade. Não existe... Leonor está morta para mim... para sempre morta... meu Deus!.. Deixai-me choral-a segunda vez. (Esconde o rosto soluçante entre as mãos).
FIM DO PRIMEIRO QUADRO
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{197}
2.º QUADRO
Ante-camara luxuosa. D. Eugenia ajoelhada á beira de um berço com armação de cortinados, contemplando um filho de poucos mezes. Rodrigo, com o aspeito quebrantado, vem entrando vagarosamente.
SCENA I
D. EUGENIA E RODRIGO
Rodrigo (com muita brandura)
Eugenia...
D. Eugenia (levantando-se)
Meu bom anjo, estavas aqui?{198}
Rodrigo
O sorriso da creancinha alumiou a escuridão da tua alma?
D. Eugenia
Adormeceu, e suspira de sorte que parece lhe está gemendo o coração... (beijando o rosto da creança) Eu não posso com tantas agonias, Rodrigo! (abraçando-o impetuosamente) Espedaça-me o arrependimento de não te haver dito o nome de minha mãe... Eu sei que teu pae me daria o pão da subsistencia ainda que não fosse causa da morte d'ella; mas minha tia disse-me que eu seria desprezada e repellida, se declarasse o nome de minha mãe; que as mais deshonestas senhoras teriam vergonha de se compadecerem de mim; e que eu, sobre tantas desventuras, tinha a da pobreza, a mais repugnante de todas. Isto me dizia a minha sancta tia, lavando-me o rosto com lagrimas, como se quizesse purificar-m'o das manchas do opprobrio da minha infeliz mãe. Mas o que ella me não disse foi{199} que eu não poderia proferir sem receio o nome de meu pae. Ella não quiz aviltar aos meus olhos a sua pobre irmã assassinada. Nem me revelou quem foi o homem que a tentou e perdeu, nem sequer me deixou entrever a duvida de que eu fosse filha d'esse, que hontem cobriu de eterno lucto a nossa familia. Se elle não é meu pae, Rodrigo, que me és tu a mim? Não vês que o marido de minha mãe dirá que eu sou tua irmã, e que o nosso filho herda a deshonra d'esta nossa união impossivel... impossivel, meu Deus!
Rodrigo
Que queres tu pois fazer da tua vida, da minha, e d'esta creança?!
D. Eugenia
Não m'o perguntes a mim, que morro de afflicção! Ensina-me a ter animo... Dize-me, Rodrigo, como ha de chegar um raio de luz a esta nossa situação tão negra! Que te diz o coração, filho?{200}
Rodrigo
Que esperemos, Eugenia. Quando meu pae estiver menos febril, perguntar-lhe-hei com dolorosa franqueza o segredo do teu nascimento, e...
D. Eugenia (interrompendo-o anciada)
Não perguntes que pódes matal-o. Se elle tem de morrer, que vá sem a terrivel surpreza de saber quem sou. Poupa-o, que eu tenho tanta pena d'elle como de ti. Não lhe digas quem sou. Ha nada mais afflictivo? Ó Rodrigo, que horrenda angustia a d'elle se eu sou... sua filha! (Esconde o rosto nas mãos).
Rodrigo
Ahi vem o pae...{201}
SCENA II
OS MESMOS E O VISCONDE
O visconde vem amparado por dois creados
Rodrigo (adiantando-se a recebel-o com apparente alegria)
Óptimo! bella surpreza! N'esta cadeira, meu pae. (Rodrigo e Eugenia vão recebel-o dos braços dos creados, e conduzem-o á cadeira).
D. Eugenia
Está muito melhor...
Visconde
Estou, filha.
Rodrigo
Que sente agora?{202}
Visconde
Ancia de repouso, e a nuvem da eternidade a toldar-me os olhos. Eis que chega a noite da morte. (Fitando Eugenia) Como está desfeita a sua formosura, Eugenia! Onde as lagrimas chegam, começa a morte a sua obra de destruição... Comprehendo bem a sua piedade, menina. Como não conheceu mãe nem pae, o grande amor filial que tinha no seu coração, deu-o ao pae do seu Rodrigo. Deus lh'o recompense no amor de meu neto... Cheguem para aqui o berço. Quero vêr o meu Álvaro... (Approxima Eugenia o berço) Adeus. Adeus. Tu entras, e eu vou sahir. Guardai-o, filhos. Conta-lhe tu, Rodrigo, a minha vida e morte... Eu queria beijal-o. (A Eugenia que faz menção de o tirar do berço) Não, não. Deixal-o dormir... Que serenidade! Tambem eu hei de têl-a. Para os grandes desgraçados o sepulchro é suave e socegado como o berço das creanças. Eugenia, venha aqui... Não chore d'esse modo, filha! Lamente-me, se eu viver.{203}
D. Eugenia
Eu não choro... o pae ha de restabelecer-se. (Rodrigo gesticula a Eugenia para que ella se esconda de modo que o pae a não veja).
Rodrigo
Meu pae. (Espera instantes que o pae levante a cabeça).
Visconde
Eugenia?
Rodrigo
Foi lá dentro. Na ausencia d'ella, faço uma pergunta a meu pae, e da ousadia lhe peço perdão.
Visconde
Pergunta.
Rodrigo
Essa infeliz senhora que meu pae amou... a mulher de Jacome da Silveira, tinha filhos?{204}
Visconde
Uma filha.
Rodrigo
Que se chamava...
Visconde
Leonor. Uma creança entre trez e quatro annos, muito formosa. Sabes alguma coisa d'essa menina?
Rodrigo
Meu pae soube que destino lhe deram?
Visconde
Não. Alguns amigos meus de Lisboa a procuraram sem resultado. Se ella tivesse apparecido, eu adoptal-a-hia, sabendo que o pae a renegára de filha aleivosamente, mas digno de desculpa...{205}
Rodrigo
Mas meu pae tem a certeza de que Leonor era filha de Jacome da Silveira?
Visconde
Como tu tens a certeza de que este filho é teu: jural-o-hei com os olhos na sepultura, e o coração na misericordia de Deus. Quando comecei a... cavar o abysmo da minha victima... Leonor já tinha dois annos e meio, e fitava-me com os seus grandes olhos d'um modo mui triste que parecia dizer-me: «Eu por amor de ti, ficarei sem pae e sem mãe» E ficou. (Eugenia, que tem ouvido muito alvoroçada este dialogo, n'este lance corre em grande transporte aos braços de Rodrigo).
D. Eugenia
Graças, graças, meu Deus! Fizestes o milagre, virgem do céo! Agora sim, que toda a minha alma respira desopprimida! És meu{206} Rodrigo! (Ajoelhando aos pés do visconde) Bem haja, bem haja que me tirou a morte de sobre o coração, e de sobre esta creança um affrontoso opprobrio!
Visconde (enleado)
Que é?! que diz, Eugenia?
D. Eugenia
Chame-me Leonor, que eu sou Leonor... Sou a filha da peccadora que morreu... Sou a orfã que a mãe de Deus guiou até ao coração de seu filho.
Visconde (agitadissimo)
É isto febre, meus filhos? é o delirio dos ultimos arrancos? Não me está esta senhora dizendo que é filha de Martha?!
D. Eugenia
Sou... sou...{207}
Visconde
Ajudai-me... erguei-me... Forças, vida, um dia de vida, meu Deus! Um dia para chorar comtigo, Leonor... Olha que tinhas a mais amoravel e extremosa das mães... o coração mais sancto do amor maternal. Formosa como tu... da tua edade... respeitada e adorada; contente, feliz, virtuosa, boa... Mas... matei-a... Não foi teu pae que a matou, Leonor... Fui eu!... O veneno que lhe fazia espumar sangue, e ranger os dentes convulsos, e rojar-se no chão, e atirar-se a gritar para o teu berço, esse veneno fui eu que lh'o vasei no peito... Eu fui quem a despenhei dos respeitos publicos para a deshonra irrevogavel, da mais rica e florida existencia para um torrão desconhecido do cemiterio, para a valla dos pobres... e levantei-lhe como monumento uma memoria infame! Fui eu... eu fui o algoz... (Resvala á cadeira, soluça e prosegue:) Meus filhos, ide, ide... Pede-vol-o com as mãos erguidas o penitente na agonia... Ide pedir a Jacome da Silveira... Vae, filha, vae pedir a teu pae que me perdôe. Dize-lhe{208} que é um agonisante que lh'o pede... Um homem que até esta hora invocou a morte, e a morte, a enviada de Deus, não quiz derrubar-me sem este grande trance. Vae, Leonor, vae dizer a teu pae que eu morro. Apaga-lhe o fogo da ira com as tuas lagrimas... Chora-lhe no coração, que a piedade renascerá, e o perdão virá a tempo de eu poder acabar sem estas angustias de remorso que me...
SCENA III
OS MESMOS, E PEDRO ARANHA
Pedro (a D. Eugenia)
Se V. Ex.ª quizesse sahir á primeira salla, encontraria seu pae.
D. Eugenia
Jesus! Que hei de eu fazer, Rodrigo!{209}
Visconde
Vae... cumpre o meu pedido, Leonor. Dize a teu pae que Heitor de Vasconcellos lhe pede perdão.
SCENA ULTIMA
OS MESMOS, JOSÉ DE SA E JORGE DE MENDANHA
Jorge (com as costas voltadas para o visconde)
Aqui estou, Leonor. (Leonor inclina-se como quem vae ajoelhar). Não ajoelhes. Se algum de nós deve ajoelhar, sou eu diante de ti. Vingada estás do meu desamparo, filha. Perdi as tuas caricias por espaço de vinte e um annos. Agora, o que pódes dar-me é lagrimas. Eu t'as recebo como signaes da misericordia divina. Snr. Rodrigo. (Rodrigo approxima-se) Vou expatriar-me outra vez. Deixo-lhe o bom e nobre coração de minha filha. Quem a aceitou e amou pobre, nada lhe importa{210} saber que ella é rica. Filha, privei-te do amor de pae; mas os bens de fortuna, como não podiam dar-me um instante de paz, não se perderam. Poderás enxugar com elles muitas lagrimas, se ellas não forem de angustias tamanhas como a minha.
D. Eugenia (ajoelhando)
O perdão, meu pae!
Jorge
Que tenho eu que perdoar-te, anjo?!
D. Eugenia
O perdão... para o pae de meu marido. (O visconde está erguido e amparado nos braços de Pedro Aranha e José de Sá).
Jorge (sem olhar para o visconde)
A misericordia dos homens não póde ser mais indulgente que a de Deus. Quando esse{211} homem não sentir sobre a consciencia o pezo da justiça divina, o meu perdão ser-lhe-ha inutil. Eu não posso perdoar-lhe a elle, por que Deus ainda me não perdoou a mim. Leonor, eu ainda choro tua mãe. Elle... que morra a choral-a. (Aponta-o sem o vêr).
FIM.