COMO OS ANJOS SE VINGAM
DRAMA EM UM ACTO.
PERSONAGENS
FRANCISCO DE VALLADARES—30 annos, esposo de
D. ALBERTINA—entre 20 e 25 annos.
D. ANTONIA DE VALLADARES—irmã de Francisco de Valladares, 25 annos.
CONSELHEIRO SOUSA—pae de Albertina.
JOÃO LOBO—medico, entre 30 e 40 annos.
LEONARDO—creado velho.
Uma creada, nova.
{216}
{217}
COMO OS ANJOS SE VINGAM
ACTO UNICO
Ante-camara espaçosa, bem mobilada. Portas ao fundo e lado.
João Lobo vem sahindo do quarto ao fundo. Albertina sáe de pós elle.
SCENA I
JOÃO LOBO E D. ALBERTINA
Albertina (com vehemencia e receio)
O nosso doente continua bem, não é verdade, snr. Lobo?{218}
João Lobo
Seu marido, minha senhora, pareceu-me mais concentrado, mais triste.
Albertina (afflicta)
Sim?! Peorou?
João Lobo
Deixei-o hontem risonho, com excellente pulso, a planear viagens, bailes...
Albertina (sobresaltada)
E tornou a febre, meu Deus?
João Lobo
Sim, ha o quer que seja.... e póde ser que isto não passe d'um accidente... mas... Que está V. Ex.ª cogitando? Suspeita que alguma impressão moral...{219}
Albertina (preoccupada e abstrahida)
Nada... Eu hontem de tarde sahi para vêr minha mãe. Demorei-me uma hora; e quando entrei no quarto achei-o a conversar com minha cunhada. Beijei-o; elle sorriu-se de um modo extranho. Quiz pedir-lhe explicação d'um ar tão desacostumado na nossa vida de cinco annos; mas temi inquietal-o. Perguntei depois a minha cunhada se... Ella ahi vem.
SCENA II
OS MESMOS E D. ANTONIA
João Lobo (comprimentando-a)
V. Ex.ª nos vae dizer se alguma impressão moral póde explicar a tristeza e abatimento em que encontro seu mano.
D. Antonia (desdenhosa)
Já a mana Albertina me fez a mesma pergunta.{220} Acho curiosa a indagação! Eu não sei se meu mano recebeu impressões moraes...
João Lobo (sempre sereno e risonho)
É que eu deixei-o hontem socegado e alegre...
D. Albertina
É verdade. Bem viu a mana Antonia como elle estava bom quando eu sahi; depois, encontrei-o com a mana, e fui recebida com certas maneiras... havia não sei que desconfiança e mysteriosa intelligencia entre meu marido e...
D. Antonia (atalhando-a)
E eu?!
D. Albertina
Sim... pareceu-me...{221}
D. Antonia
Ora esta! Tem coisas esta senhora! Sempre injusta comigo!
D. Albertina
Injusta, não. Sou incapaz de ajuizar mal de ninguem. Não vá o doutor cuidar que eu tenho sido para a mana Antonia o que ella deixa entender... Que mal lhe fiz? que injustiças minhas a offenderam? (Ouve-se o toque de campainha no quarto de Francisco Valladares) O Francisquinho chama. (Corre ao quarto).
SCENA III
JOÃO LOBO E D. ANTONIA
João Lobo
A mim cumpre-me lembrar-lhe, minha senhora, que o estado de seu irmão é melindroso.{222} Olhe que os dois fios quasi quebrados d'aquella vida estão mal soldados. Sacudam-lhe a alma com alguma leve paixão, que os fios partem-se...
D. Antonia (impaciente)
Mas que fiz eu ou que disse?!
João Lobo
Não sei o que V. Ex.ª disse ou que fez. O que sei é que a snr.ª D. Antonia odeia sua cunhada.
D. Antonia
Que calumnia! odeio minha cunhada!
João Lobo (sempre sereno)
E, se puder perdêl-a, perde-a.{223}
D. Antonia
Porquê?.. por que hei de eu querer perdêl-a?..
João Lobo
Não lhe respondo. O meu silencio pede á sua consciencia que responda, minha senhora. E se V. Ex.ª calar a voz da consciencia, verá como ahi na sociedade do Porto se levantam cem vozes a dizer-lhe...
D. Antonia
O quê?..
SCENA IV
OS MESMOS E D. ALBERTINA
D. Albertina (alvoroçada)
Elle está tão inquieto!.. Vamos lá, doutor... (suspende-se) Vá... vá! (O doutor entra na alcôva). {224}
SCENA V
D. ALBERTINA E D. ANTONIA
D. Albertina (com brandura e commovida)
Mana Antonia, se me fez mal, remedeie o mal que fez a seu mano e a mim.
D. Antonia
Eu! que teima! que aleivozia!
D. Albertina (rapida e a meia voz)
Eu accuso-me de ter querido obrigar a mana Antonia a ser honesta, a ser uma digna irmã de meu marido. Accuse-se a senhora de ter tentado vingar-se de mim calumniando-me.
D. Antonia
Que me accuse! É original a ordem! Ahi vem a virtuosa senhora com a deshonestidade{225} da minha vida! Dê-me licença. Retiro-me que não vá ser contagiosa a minha deshonestidade! (Sáe rindo uma rizada nervosa. Albertina encaminha-se para a alcôva guando o doutor vem sahindo).
SCENA VI
JOÃO LOBO E D. ALBERTINA
D. Albertina
Já?! que tem elle?
João Lobo
Mandou-me sahir: quer estar só.
D. Albertina (com espanto)
Mandou-o sahir?!{226}
João Lobo
Terminantemente; mas com delicadeza.
D. Albertina
Então que vem a ser isto, meu Deus? O snr. Lobo suspeita que meu marido possa...
João Lobo
Possa o quê, minha senhora? Enlouquecer? é o que V. Ex.ª quer perguntar? Não ouso dizer-lhe as minhas suspeitas.
D. Albertina
Então é certo? O Francisco póde enlouquecer?!
João Lobo
Podemos todos enlouquecer, minha excellente amiga... Descance. O snr. Francisco Valladares está febril; não está doudo... Aquella febre tem o ardor d'uns infernos que{227} costumam accender-se n'uns corações perversissimos...
D. Albertina (atalhando-o)
O coração de meu marido é bom, snr. Lobo.
João Lobo
Não me entendeu, snr.ª D. Albertina... Seu marido desconfia da minha probidade.
D. Albertina
Como? desconfia?!
João Lobo
E da virtude de V. Ex.ª... desconfia tambem.
D. Albertina (tremula e anciada)
Não póde ser, não póde ser! (Faz menção de correr para a alcôva: o medico sustem-a com um gesto). {228}
João Lobo (a meia voz)
Repito-lhe que a fragil vida do snr. Valladares nos está aconselhando muitas cautelas. Escute-me serenamente. Eu suspeito que sua cunhada começou hontem a obra infame do descredito de V. Ex.ª Era preciso dar-lhe um cumplice: fui eu. Sua cunhada escolheu o homem competente, porque a sociedade me tem calumniado mil vezes para usar largamente do direito que eu lhe dei de me accusar uma vez com justiça. É sempre assim; excepto quando o vicioso ou a viciosa aprenderam as artes da hypocrisia depois que a primeira fragilidade lhes fez resvalar o pé e cahir com estrondo. O grande caso é cahir sem estrondo. Ora seu marido, minha nobre senhora, não me julga melhor nem peor do que sou julgado pelo restante da sociedade. Chamou-me, quando receou morrer; e hoje talvez preferisse a morte á fraqueza de me chamar... Eu, porém...{229}
D. Albertina (interrompendo-o)
Mas então é preciso que eu me defenda já, e na sua presença, snr. Lobo!..
João Lobo
Não, minha senhora. As commoções e luctas que necessariamente acompanhariam tal defeza, abririam a sepultura ao lado do leito do snr. Valladares. É cedo. Seu marido por emquanto apenas vê em V. Ex.ª o anjo, e em mim o tentador. (sorrindo) D'um pobre diabo (desculpe V. Ex.ª a phrase plebea); d'um pobre diabo tem querido a sociedade fazer um sugeito possuido das influencias satanicas dos Tenorios e dos Faustos. Não se impaciente, minha senhora. Olhe que não está sósinha. Quando mais opprimida sentir a sua innocente e nobilissima alma, imagine que vê sempre ao seu lado... a Providencia.
D. Albertina
Mas o meu silencio póde condemnar-me.{230}
João Lobo
Quando a interrogarem responda; mas não provoque altercações. Espere que seu marido se fortaleça; não queira V. Ex.ª curar uma alma enferma como a delle. Qualquer balsamo o irritará. E quando eu lhe disser que se vingue restaurando a sua dignidade, então será tempo de salvar o seu nome... e o meu. Não posso nem devo demorar-me. Adeus, minha senhora.
D. Albertina (apertando-lhe a mão muito affectuosamente)
Adeus, meu bom amigo... Não o desampare... (D. Albertina vae á porta da alcôva, escuta, e hesita; vae levantar o fêcho quando a porta se abre). {231}
SCENA VII
D. ALBERTINA E FRANCISCO VALLADARES
Francisco Valladares extremamente magro e pallido, caminhando a custo. Veste um rob de chambre
D. Albertina (tomando-lhe o braço)
Pois tu levantas-te, meu filho?
Francisco de Valladares
Estou bom... não vês, Albertina? Sinto-me forte. (Senta-se prostrado).
D. Albertina
Ardem-te as mãos... Que imprudencia! O medico consentiu que te levantasses?
Francisco de Valladares (após uma longa pausa, em que conserva o rosto escondido nas mãos)
Quero sahir. O dia está sereno.{232}
D. Albertina
Pois tu queres sahir em convalescença tão arriscada?! Não vês que pódes recahir!
Francisco de Valladares
A recahida é a cura. Onde uma sepultura se fecha, fechou-se a bôcca d'um abysmo. A morte quando se aproxima é bella; só vista ao longe, é horrivel. (Ergue-se) Estou vigoroso. Vou a Cintra. Que tirem a caleche.
D. Albertina
Pela tua vida te rogo que não vás, meu querido filho.
Francisco de Valladares
A minha vida!.. por que me não pedes antes pela minha honra?
D. Albertina
Pois sim, peço-t'o pela tua honra...{233}
Francisco de Valladares
E pela tua...
D. Albertina (com dignidade)
O quê? Que me pedes tu?
Francisco de Valladares
A ti?.. que me deixes morrer...
D. Albertina (muito commovida)
E tu queres morrer?
Francisco de Valladares
Honrado.{234}
SCENA VIII
OS MESMOS, LEONARDO E DEPOIS O CONSELHEIRO SOUSA
Leonardo
Está aqui o snr. conselheiro Sousa. (Sáe. D. Albertina vae ao encontro do pae e beija-lhe a mão).
Conselheiro
Ólá! a pé! Optima convalescença, snr. Valladares! Ainda hontem lhe davam vinte dias de cama!..
Francisco de Valladares
Estou melhor.
Conselheiro
E tu como estás, filha?{235}
D. Albertina
Bem; e a mamã peor?
Conselheiro
Peor, e pediu-me que te viesse buscar, se teu marido podesse dispensar-te. Imagina que morre, e quer todos os filhos á volta da cama. Já lá estão tuas irmãs.
Francisco de Valladares
Póde ir; eu mesmo insto que vá.
Conselheiro
Tenho ahi a sege; não te demores na toilette. (Sáe Albertina). {236}
SCENA IX
O CONSELHEIRO E FRANCISCO VALLADARES
Conselheiro
Não seria perigosa imprudencia sahir da cama, snr. Valladares? Acho-lhe um certo rubor nas faces...
Francisco de Valladares
É signal de bom sangue, quando não seja de nobre vergonha.
Conselheiro
Como?
Francisco de Valladares (inquieto)
Quero sahir de Portugal por algum tempo... Vou para Florença... É um clima restaurador; quem lá não póde viver sente-se morrer mais suavemente. Os grandes infelizes{237} devem pensar em morrer onde as agonias lhes sejam menos crueis. Vou só... quero ir só. Estou intratavel, impertinente, phrenetico. Tudo me enoja, e eu devo enojar a todos.
Conselheiro
Menos a sua esposa que o ama extremosamente e o não deixará ir só.
Francisco de Valladares
Deixa... ha de deixar. Não admitto contradicções que poderiam matar-me...
Conselheiro (com assombro)
Matarem-no!.. quem?
Francisco de Valladares
E para quê?! Eu não embaraço a passagem a ninguem! (Com exaltação de louco) Passem! Praça ao vicio! Rompa triumphante. Eu sou pequeno para me atravessar á{238} bôcca da voragem. Entrem, abysmem-se, esmaguem-me o coração, mas deixem-me a honra salva.
Conselheiro (áparte)
Está perdido!
SCENA X
OS MESMOS E D. ALBERTINA
D. Albertina
Estou prompta, meu pae. (Aproxima-se do marido, beija-lhe a fronte com serena altivez). Até logo, Francisco.
Conselheiro
O doutor Lobo aconselha viagens a teu marido?
D. Albertina
Eu ainda não ouvi fallar em viagens.{339}
Conselheiro (encarando-os alternadamente)
A infelicidade entrou n'esta casa ha poucas horas...
D. Albertina
Entrou, mas ha de sahir. (Com resolução. Aproxima-se do marido tocando-lhe no hombro). Olha que eu tenho Deus por mim. Hei de vencer. Vamos, meu pae. (Sáem).
SCENA XI
FRANCISCO DE VALLADARES E DEPOIS LEONARDO
Francisco de Valladares
Pois esta mulher sabe que me é suspeita a sua lealdade, e não se justifica? Não seria natural que me interrogasse com lagrimas e fizesse ahi grande estrondo com a sua dignidade ferida? (Tange uma campainha com phrenesi. Apparece Leonardo). A snr.ª D. Antonia?{240}
Leonardo (com ar de maliciosa candura)
A snr.ª D. Antonia está a conversar no jardim. V. Ex.ª quer que a chame?
Francisco de Valladares
A conversar... com quem?!
Leonardo
Com o visconde de Espinhal.
Francisco de Valladares
E esse homem está no meu jardim?!
Leonardo
Não, snr.: está no jardim do visinho.
Francisco de Valladares
Chama essa senhora. (Leonardo sáe). {241}
SCENA XII
FRANCISCO DE VALLADARES
N'esta casa consideram-me morto... Ha em tudo isto que me cerca e atormenta o travor da peçonha que está dilacerando uma familia. Assim que a doença me prostrou, a deshonra chegou ao meu leito de moribundo para me abafar. (Inclina a cabeça para o peito; demora-se um instante, senta-se de golpe, mas a custo, e amparando-se) Eu não quero morrer! Fui um homem inutil; mas antes da minha morte, hei de deixar uma lição aos infames, e um exemplo aos que não acceitam de boamente o seu opprobrio. (Reflectindo) É impossivel. O meu coração não podia enganar-se assim. A duvida nunca passou pelo meu espirito, nem sequer o receio... Estará ella innocente?..{242}
SCENA XIII
O MESMO E D. ANTONIA
D. Antonia
O mano chamou?
Francisco de Valladares
Chamei.
D. Antonia
Eu tinha ido ao jardim vêr as suas araucarias. Estão lindissimas.
Francisco de Valladares
Eu recommendei-lhe ha mezes, Antonia, que se não descuidasse um momento dos seus deveres n'umas relações amorosas em que a vi muito arriscada. O visconde do Espinhal é um homem que tem perdido no conceito da sociedade algumas senhoras na posição{243} da mana Antonia. O mundo, que despreza as mulheres que elle diffamou, nobilitou-o ao mesmo tempo com o diploma de conquistador, e o visconde considera-se obrigado a sustentar a sua reputação. Á justiça ou á dignidade dos irmãos e dos maridos responde com o duello; e á moral pacifica das familias com a zombaria. Ora eu, prevendo que o seu descredito, Antonia, me levaria ao extremo de lhe pedir a elle contas do seu honrado nome, pedi á mana que terminasse essa perigosa inclinação. Antonia prometteu terminar. Cumpriu?
D. Antonia (hesitante)
Cumpri, mano Francisco.
Francisco de Valladares
É sempre assim verdadeira? Quando accusa os outros é tão sincera como quando se absolve a si?
D. Antonia
Não percebo...{244}
Francisco de Valladares
Mentiu; mas está perdoada com a condição de desmentir-se das suspeitas que me deixou da fidelidade de Albertina. Repita-me o que sabe de sua cunhada. Chamo a sua consciencia á presença de Deus. Diga, mana Antonia, que viu? em que funda as suas desconfianças?
D. Antonia
As minhas desconfianças?..
Francisco de Valladares
Sim; não me obrigue a repetir o que está bem impresso na sua lembrança.
D. Antonia
Eu já disse que desconfiava... porque... Ha certas coisas... que inspiram suspeitas até certo ponto... sim, eu desconfiei porque...{245}
Francisco de Valladares
Essa hesitação parece um annuncio de arrependimento por haver calumniado a pobre Albertina...
D. Antonia
Calumniado! Tem coisas o mano Francisco! Sou incapaz de calumniar.
Francisco de Valladares
Bem. Diga então lá desembaraçadamente. (Vê-se ao fundo Leonardo que escuta por entre o reposteiro).
D. Antonia
Disse e digo que Albertina faz ostentação de virtudes que não tem.
Francisco de Valladares
Disse mais pelo claro que lhe parecia que ella trazia o coração distrahido...{246}
D. Antonia
Foi isso.
Francisco de Valladares
E que Albertina amava o doutor Lobo.
D. Antonia
Justamente.
Francisco de Valladares
Agora venham as provas que hontem lhe não pude pedir porque Albertina entrou.
D. Antonia
As provas!
Francisco de Valladares
Tem as provas?
D. Antonia
Para que quer o mano saber... São coisas{247} que o affligem, e lhe aggravam os padecimentos.
Francisco de Valladares
Não me dê razões parvas. (Ergue-se convulso) Responda! Mando que responda! As provas?
D. Antonia
Não se exaspere. Eu vou satisfazêl-o... Quando o medico sahiu uma vez do seu quarto, Albertina esperou-o n'esta salêta, e demorou-se algum tempo a conversar com elle, tendo-lhe as mãos apertadas nas d'ella. Outra vez, a creada de sala contou-me que ella estava a chorar de joelhos, e o medico a levantara com muito carinho e palavras meigas. D'outra vez fui eu que a vi abraçada n'elle com ar de grande alegria... Outra pessoa me disse tambem que a vira sahir de casa do medico e entrar n'uma sege...
Francisco de Valladares
Que pessoa?{248}
D. Antonia
Certa pessoa...
Francisco de Valladares (irritado)
O nome?
D. Antonia
O visconde do Espinhal.
Francisco de Valladares
Já o nome de minha mulher cahiu n'essa sentina? (muito agitado) Então está perdido tudo! Embora esteja innocente, Albertina perdeu-se! A deshonra da mulher de Fracisco de Valladares é propalada pelo visconde do Espinhal. (Fita a irmã rancorosamente, travando-lhe do braço) Se ella estiver pura, é preciso que a senhora vá ser infame longe d'esta casa onde morreu sua mãe... (Francisco de Valladares sáe impetuosamente a entrar{249} no quarto, mas encosta-se de fraco ao espaldar d'uma poltrona. Leonardo sáe apressado a dar-lhe o braço).
SCENA XIV
OS MESMOS E LEONARDO
Francisco de Valladares
Onde estavas, Leonardo?
Leonardo
Passava no corredor quando V. Ex.ª ia cahir.
Francisco de Valladares
Eu não cáio. Deixa-me só. (Entra no quarto). {250}
SCENA XV
D. ANTONIA E LEONARDO
Leonardo (com respeito)
Minha senhora, vou-lhe pedir um favor por alma de sua mãe. A menina é christã, e não ha de faltar-me.
D. Antonia (com sobranceria)
Que quer?
Leonardo
Que se arrependa emquanto é tempo, e vá dizer a seu mano que a senhora faltou á verdade na intriga que armou á sua pobre cunhada. Faça-me isto, porque a senhora é catholica.
D. Antonia
Quem lhe permittiu o atrevimento de me fallar assim?{251}
Leonardo
Isto não é atrevimento, senhora; é confiança e amisade de creado antigo.
D. Antonia
Os creados antigos são sempre creados, entendeu? (Menção de sahir).
Leonardo
A menina faz favor de me ouvir aqui baixinho? (Á bôcca da scena).
D. Antonia
Diga.
Leonardo
Lembre-se que sua cunhada desfaz esta meada quando quizer; e se ella a não desfizer, desfaço-a eu, dou-lhe a minha palavra de homem catholico, que me preso de ser.{253}
D. Antonia (alto)
Que meada? que meada?
Leonardo
A menina quer que eu lhe responda tambem a gritar? Veja lá. Seu mano está alli pertinho, e a demanda póde ficar acabada aqui n'esta sancta hora. Torno a pedir-lhe por alma de sua mãesinha que vá dizer a seu irmão que não disse a verdade. A senhora disse a verdade até certas alturas; mas torceu-lhe as voltas para arranjar a mentira; sim, V. Ex.ª bem me percebe, e a consciencia lá lhe está gritando; porque a menina é, foi, e ha de ser sempre catholica.
D. Antonia (afogando os impetos da ira)
Que petulante! que villão!{253}
SCENA XVI
OS MESMOS E UMA CREADA
Creada (a meia voz, e rapidamente)
O snr. visconde mandou saber se havia alguma novidade.
D. Antonia
Elle ainda está no jardim?
Creada
Está, sim, minha senhora.
D. Antonia
Vê se o passas para a sala do meio... Preciso muito fallar-lhe. Quero sahir d'esta casa quanto antes.{254}
Creada
O peor é se Leonardo dá fé... Veja se o entretém cá para dentro... (Sáe).
SCENA XVII
D. ANTONIA E LEONARDO
D. Antonia
Venha cá, Leonardo.
Leonardo
Minha senhora.
D. Antonia
Explique-me essas embrulhadas que esteve atrapalhando. Não o entendi.{255}
Leonardo
Não?! pois então logo lhe explicarei. São horas de dar o lunch ao snr. Francisquinho. (Vae a sahir).
D. Antonia
Espere.
Leonardo
Tenha paciencia que está o doente esperando. (Sáe).
D. Antonia
O maldito desconfiou!..
SCENA XVIII
D. ANTONIA E O CONSELHEIRO SOUSA
Conselheiro (a D. Antonia com severidade)
Seu mano, senhora?{256}
D. Antonia
Está no seu quarto.
Conselheiro
Avise-o de que o estou esperando.
D. Antonia
Elle ahi vem. (Sáe).
SCENA XIX
CONSELHEIRO E FRANCISCO DE VALLADARES
Conselheiro
Snr. Valladares, minha filha descreveu-me com mais lagrimas que palavras a infelicidade com que a Providencia a está castigando porque me desobedeceu. O snr. Valladares soffre tambem porque induziu minha{257} filha a rebellar-se contra a vontade de seu pae. Adivinhei que Albertina seria desgraçada; mas nunca me feriu o coração o receio de que o snr. diffamasse minha filha com affrontosas suspeitas. Albertina tem um defensor; sou eu, é seu pae. Accuse-a na minha presença.
Francisco de Valladares (com enfado)
Estou doente, estou febril, snr.; não venha atormentar-me... Esses ares magestosos de pae irritado não me salvam da ignominia, nem desculpam os desvarios da snr.ª D. Albertina. A accusação, se houver de fazer-se, não tem de ser julgada por juiz tão incompetente, como V. Ex.ª Ora, se eu não me queixo para que ha de queixar-se o snr. conselheiro? Eu, por emquanto, resumo os meus queixumes em dizer-lhe que estou aviltado, que sou escarnecido, que pertenço aos incentivos da zombaria, e contribuo para sustentar á custa da minha dignidade a irrisão nos salões e nas praças onde se applaude o impudor do visconde do Espinhal, e de...{258}
Conselheiro
Basta. Ouvi ahi um nome que é personagem n'este romance torpe que V. Ex.ª está urdindo. O visconde do Espinhal!.. As salas onde este illustre devasso é recebido são as salas de muito homem de bem, incluindo as suas, snr. Valladares.
Francisco de Valladares
As minhas!.. as minhas!..
Conselheiro
As suas.
Francisco de Valladares
Já encontrou em minha casa o visconde?
Conselheiro
Não, snr., por que eu nunca entrei nas suas alcôvas.{259}
Francisco de Valladares
Isso é uma insinuação hedionda, snr. conselheiro!
Conselheiro
Insinuação hedionda e vilissimo affrontamento é o que o snr. está cuspindo na cara de minha filha. Sou pae, snr.; e sou pae de uma mulher virtuosa que outra mulher perdida calumniou. A hora da justiça não tardará. O cumplice de minha filha será interrogado na presença do calumniador.
Francisco de Valladares
Na minha presença! É original o escandalo! Então V. Ex.ª quer fazer justiça, ridiculisando-me? Não o conseguirá, que eu estou em minha casa; bom será lembrar-lh'o.
Conselheiro
Não me esqueci; mas, se a intenção da indelicadeza é mandar-me sahir, declaro-lhe{260} que não sahirei, sem levar d'aqui a minha filha a retratação de V. Ex.ª Provavelmente ella não voltará a esta casa...
SCENA XX
OS MESMOS E D. ALBERTINA
D. Albertina
Volto, aqui estou, por que não hei de voltar?! (serenamente) O pae não me deu tempo a estar com a mamã alguns instantes. Receiei que tivesse vindo para aqui, e magoadamente lhe digo que me arrependi de ser tão expansiva!.. Como estás abatido, meu pobre Francisco! Matam-te, meu filho! Parece incrivel que a Providencia divina não diga á tua alma que eu estou innocente!
Francisco de Valladares (concentrado)
Seria preciso que a Providencia tivesse cegado{261} as que a viram sahir de casa de... (Retrahindo-se com doloroso esforço).
SCENA XXI
OS MESMOS, LEONARDO, E DEPOIS JOÃO LOBO
Leonardo
O snr. doutor Lobo. (Sáe).
Francisco de Valladares (ao conselheiro)
Esta indecente situação preparou-m'a V. Ex.ª!
D. Albertina (afflicta)
Que vem a ser isto, meu pae? Não vê o estado de meu marido?!
Conselheiro
Importa-me a tua dignidade muito mais.{262}
SCENA XXII
OS MESMOS E JOÃO LOBO
João Lobo
Felizmente que eu chegava a casa quando recebi o recado.
Conselheiro
Fui eu, snr. doutor, que pedi a sua vinda.
João Lobo (tomando o pulso de Francisco Valladares)
Isto assim não vae bem, snr. Valladares. Se V. Ex.ª não quer, ou não póde subordinar á rasão e á necessidade o alvoroço em que está o seu espirito, mais doente do que o corpo, não tenho que fazer aqui. Tenha a briosa coragem de ser homem, para viver. (Francisco de Valladares faz um gesto de constrangimento, sorrindo-se com amargura). {263}
Conselheiro
É o que elle faz, snr. Lobo. Vae affastar de si as pessoas que o atormentam, ou mais exactamente são essas pessoas que muito por sua vontade se affastam. Eu sou uma, e minha filha é a outra pessoa importuna que está impeçonhando o máo ár que este doente respira.
João Lobo
Sua filha?! Pois a snr.ª D. Albertina atormenta seu marido?! V. Ex.ª sem duvida proferiu um gracejo ou uma ironia, mas ha n'isso alguma coisa que me punge como principal testemunha do incomparavel amor que esta senhora tem a seu marido, ou tinha ha poucos dias. E como principal testemunha, embora não seja chamada, vou depôr n'este pleito, e hei de ser escutado pela delicadeza de V. Ex.as (Circumvagando a vista pela sala) Falta alguem no meu auditorio. O tribunal não póde funccionar sem a presença da snr.ª D. Antonia. Requeiro que seja chamada S. Ex.ª (O conselheiro tange a campainha). {264}
Francisco de Valladares (erguendo-se com impeto)
Eu é que me nego a pertencer ao seu auditorio, snr. João Lobo. Querem sujeitar-me a uma tutella vergonhosa! (Quer sahir).
Conselheiro (retendo-o)
Não sáia. Prohibe-lh'o a honra de sua mulher. (A Leonardo que entra) Diz á snr.ª D. Antonia que se lhe pede o favor de entrar n'esta sala. (Leonardo sáe).
D. Albertina (a meia voz)
Tu precisas de ouvir a minha justificação, Francisco?
Francisco de Valladares (fixando-a lagrimoso)
Quem podesse tirar-me de sobre a alma este pezo de infelicidade!..{265}
SCENA XXIII
OS MESMOS, D. ANTONIA E LEONARDO QUE FICA AO FUNDO
Silencio d'algum segundos. D. Antonia entra sobresaltada
João Lobo
Ouvi agora dizer, snr.ª D. Antonia, que sua cunhada vae separar-se de seu marido. Esta má nova commoveu-me tão profundamente quanto eu estava convencido de que esposos, como estes eram, amantissimos e felizes, raros se encontrariam, e principalmente nas classes elevadas onde as apparencias de felicidade conjugal são quasi sempre convencionaes, uma especie de hypocrisia que é assim mesmo um tal qual respeito que se presta á virtude. Se V. Ex.ª não sabia isto que me espantou, deve estar admirada pelo menos...
D. Antonia
Decerto.{266}
João Lobo
E a não ser V. Ex.ª, ninguem como eu póde testemunhar quanto a snr.ª D. Albertina amava seu marido, posto que, só ha trez mezes fui chamado para tratar o snr. Valladares; V. Ex.ª porém, que ha cinco annos conhece sua cunhada em familiar intimidade, decerto póde levantar voz mais auctorisada em abono d'esta virtuosa senhora. (Fixam todos D. Albertina que se mostra mortificada pelo interrogatório) Mas, se V. Ex.ª quer ter a bondade de me conceder a mim a satisfação de ser o primeiro a depôr, serei eu testemunha, e será V. Ex.ª o juiz. Quando fui chamado á junta que se fez ao snr. Francisco de Valladares encontrei o seu assistente e mais facultativos conformes em capitular de incuravel a sua doença. Recordo-me que ao sahir com os meus collegas da sala da consulta, encontramos esta senhora na sala immediata com as mãos postas diante de nós, perguntando se não tinhamos esperança de lhe salvar o esposo. Ninguem respondia por compaixão; mas eu quasi convencido disse{267} afoitamente á snr.ª D. Albertina: «seu marido póde restaurar-se, minha senhora.» Proferidas estas palavras, S. Ex.ª quiz beijar-me as mãos; não o conseguiu, mas orvalhou-m'as de lagrimas. Comecei o tratamento do snr. Valladares, por voto do seu assistente. A doença progrediu, desmentindo os meus vaticinios. Já as esperanças me iam tambem abandonando, e eu a compenetrar-me das enormes angustias que atormentam a vida do medico, emquanto elle não sente esfriar-lhe o coração como o dos cadaveres em que vê desapparecer o orgulho da sciencia. Eu considerava o doente perdido, quando lhe sobreveio uma pneumonia em extremos de fraqueza. Um dia, sahi d'aquella alcôva, e encontrei alli de joelhos esta senhora supplicando-me a vida de seu marido, tão abafada por soluços e perdida de côres, que, ao levantal-a quasi desmaiada, a amparei nos meus braços e lhe pedi que suffocasse o chôro para que o doente a não ouvisse. D'esta vez (sorrindo) recordo-me, sem esconder o riso, que S. Ex.ª, com a mais perdoavel das prodigalidades, me disse extremamente anciada:{268} «Eu dou tudo quanto temos a quem salvar meu marido». Vejam como o amor e a paixão fizeram no elevado espirito d'esta senhora um intervalo de insensatez!—angelica e sancta insensatez! S. Ex.ª queria dizer talvez que dava a propria vida pela do esposo; mas o coração antes queria a indigencia para ambos que vida para um só. Acho mais sublime o sacrificio dos bens da fortuna. Eu é que não podia acceitar a proposta sem que o snr. Francisco de Valladares fosse ouvido, por que as senhoras, segundo o codigo civil, não podem dispôr dos bens do casal... (Sorri-se, e vae tomar o pulso ao enfermo) Está muito agitado. Se o estou constrangendo, fecho o depoimento... Dá-me licença que prosiga?.. Mas ainda agora reparo que V. Ex.ª me tem ouvido de pé!.. Eu pedia que... (O conselheiro senta-se. D. Antonia tambem com ar de violentada; D. Albertina permanece em pé, ao lado da poltrona do marido, João Lobo tambem de pé). N'outro dia, tendo-me eu demorado de proposito para dar tempo aos effeitos d'umas sarjas, foi-me annunciada a visita de uma senhora que apeava d'uma sege.{269} Eram 7 horas da manhã. Como eu estivesse ainda recolhido, e minha mãe me dissesse que era a snr.ª D. Albertina que me procurava afflictivamente, pedi a minha mãe que fosse á sala receber S. Ex.ª Quando entrei estava a lagrimosa senhora rogando a minha mãe que me pedisse a mim a salvação de seu marido. O quadro tinha uns traços de magestosa tristeza! Minha mãe respondia-lhe a chorar que pediria a Deus, e não ao medico. N'outra occasião, por volta de uma hora da noute, era eu chamado ao pateo do Club, onde encontrei a esposa do snr. Valladares. D'esta vez não podia eu já dar-lhe esperanças que não tinha. Mas vinte e quatro horas depois a febre remittiu, a anciedade acalmou, o doente sorriu-me, e a esperança renasceu. Mais trez dias depois, disse eu á snr.ª D. Albertina: «seu marido está livre de perigo». S. Ex.ª então mais allucinada pelo jubilo do que estivera pela angustia, abraçou-me, e chamou-me seu querido salvador. Não me chamou salvador de seu marido; que isto seria uma vulgaridade; chamou-me seu salvador, como quem diz: «a vida que salvaste é{270} a minha; eu sentia-me morrer da morte de meu marido». Até aqui o sublime. Agora a loucura da felicidade. S. Ex.ª foi buscar o seu estojo de joias, poz-m'o entre as mãos, e disse: «quando tiver esposa dê-lhe esta lembrança da mais feliz das esposas». Foi-me necessario (sorrindo) convencer aquella senhora de que eu fiz voto de celibato, e não podia sem infracção do voto agenciar esposa a quem dar as joias. S. Ex.ª transigiu, e dispensou-me de quebrantar o proposito. Falta quasi nada á conclusão do meu depoimento. Depois d'estas commoventes manifestações d'um amor de esposa virtuosissima, seu mano, snr.ª D. Antonia, influenciado não sei porque máos espiritos, atira á face sem mancha d'aquella senhora um labeo de muito injuriosa suspeita. Ora diga-me V. Ex.ª se isto não é injustiça para fazer chorar os anjos! (D. Antonia parece quebrantada).
Conselheiro (erguendo-se)
O meu depoimento é mais breve.{271}
D. Albertina (correndo para o pae)
Pela vida de minha mãe... por tudo que ha mais nobre e sancto na sua alma!..
Conselheiro
O que ha mais sancto na minha alma é a tua honra.
D. Albertina
Mas meu marido está seguro da minha innocencia, e não precisa que eu me justifique.
Conselheiro
Eu é que devo e quero justificar a tua sahida d'esta casa.
Francisco de Valladares
E quem diz a V. Ex.ª que minha mulher sae d'esta casa?{272}
Conselheiro
Nenhum direito obriga minha filha a conciliar-se tão de barato com quem a infamou. O marido que desacredita sua mulher innocente é apenas... um baixo calumniador sem direito a impôr-lhe a obrigação de o amar, e muito menos de o soffrer. Não póde a minha filha morar sob o mesmo tecto da snr.ª D. Antonia.
D. Albertina (a D. Antonia a meia voz)
Mana Antonia, é melhor sahir d'esta sala. Eu vou remediar como puder este infortunio.
D. Antonia (erguendo-se animosa)
Como a senhora quizer. (Vae sahir).
Francisco de Valladares (á irmã)
Espere!
Conselheiro
O que deu causa á torpe aleivosia d'esta{273} senhora foi minha filha ter reprehendido brandamente sua cunhada porque as suas tendencias a perder-se doudamente eram de tal força que nem já o escandalo de descer ao jardim alta noite escondia dos seus criados.
D. Antonia
Os creados mentem! Que o digam na minha presença. (O creado que está ao fundo avança dois passos tranquillamente).
D. Albertina (supplicante)
Está bom, meu pae... pelo divino amor de Deus!
Conselheiro
Espero ser desmentido pelos seus criados, snr.ª D. Antonia! (Leonardo dá mais dois passos).
D. Albertina (perpassando pelo creado a meia voz)
Nem uma palavra.{274}
D. Antonia (a Leonardo)
Viu-me alguma vez no jardim depois que as portas se fecham? (Relance d'olhos entre D. Albertina, e Leonardo).
Conselheiro
O calumniador por tanto sou eu, minha filha. É deploravel o papel que me distribues. Menos caridade com os infames, e mais respeito aos meus cabellos brancos e á tua propria dignidade, Albertina!
D. Albertina
Mas que trance este, meu pae! Terminemos isto, peço a todos por piedade que terminemos isto!
Francisco de Valladares
Como é que se defende, Antonia? Calumniou Albertina porque ella reprovava os seus{275} depravados instinctos de mulher que perdeu os brios de senhora?
D. Antonia
Não quiz calumnial-a, nem os conselhos da mana Albertina me eram precisos para eu conservar brios de senhora. As mulheres solteiras que amam não perderam os brios nem são deshonestas.
Francisco de Valladares (irritado)
Calumniou ou não?
D. Antonia
Não a quiz calumniar. Calumniada sou eu, quando me dizem que perdi os brios, e que vou de noute ao jardim, e que...
Conselheiro
E que não vae ao jardim desde que o visconde{276} do Espinhal sóbe facilmente do jardim ás janellas d'esta casa.
D. Antonia
Quem disse tal?
Leonardo
Fui eu; e, se o não disse, o snr. conselheiro advinhou que eu o queria dizer.
D. Antonia
Vossê mente! (Leonardo caminha para uma porta do lado).
D. Albertina (atalhando-o)
Onde vae?
Leonardo (a meia voz)
O visconde está n'esta primeira sala.{277}
D. Albertina (a meia voz)
Por piedade não faça isso, Leonardo! (Alto) Eu comprehendo bem a insistencia da mana Antonia. Ella sabe que eu me ajoelhei aos pés do snr. João Lobo; sabe que o abracei; sabe que eu fui a casa d'elle: tudo isto é verdade. O que ella não sabia é que eu pedia ao doutor a vida de seu irmão quando ajoelhava, e lh'a agradecia cheia de lagrimas quando o abraçava. No mundo julgam-se assim muitos actos e o mundo não é nem responsavel nem condemnado. Deus que assim nos fez é por que quer que assim nos sofframos uns aos outros. A mana Antonia não reflectiu na intenção dos meus actos. Viu-os pelo lado máo, e julgou-me como era justo ao seu modo de vêr. Eu sómente me queixo da imprudencia dos seus juizos.
Francisco de Valladares
Basta. Esta senhora não é imprudente, é infame. Leonardo, dá-me a chave do meu escriptorio que está no meu quarto. (Leonardo sae){278} O seu dote, senhora, é tão opulento que o visconde do Espinhal em troca d'elle vae dar-lhe um optimo esposo e uma corôa de viscondessa. Vou entregar-lhe duas inscripções nominaes de 2:000$000. Valem no mercado uma quantia que sobredoira as suas virtudes. A senhora, recebido o seu dote, retire-se, e vá fazer ao dote o que fez á herança de virtudes de nossa mãe. (Leonardo entrega-lhe a chave. Elle levanta-se convulso).
D. Albertina
Onde vaes, meu filho? Não vás... Logo... ámanhã se fará isso, Francisco. Descança, senta-te.
Francisco de Valladares
Não me afflijas, deixa-me.
D. Albertina
Pois senta-te, e dá-me a chave que eu vou. Eu sei onde estão as inscripções...{279}
Francisco de Valladares
Vae. (Da-lhe a chave).
D. Albertina (perpassando pela cunhada)
Não se afflija, que eu espero salval-a. (Sae).
SCENA XXIV
OS MESMOS EXCEPTO D. ALBERTINA
Francisco de Valladares
Snr. João Lobo, devo-lhe duas vidas; e mais lhe devo pela da alma, por este desafôgo do coração... Perdoou-me já, não é verdade, doutor?
João Lobo
Se o snr. Valladares me pede a mim perdão, em que termos ha de pedir a misericordia de sua senhora?{280}
Francisco de Valladares (apontando para a irmã)
E aquella!.. onde irá dar?.. que vergonhas se preparam para o apellido de minha sancta mãe!..
João Lobo
Eu creio que ella tem um grande e sagrado refugio.
Francisco de Valladares
Qual?
João Lobo
O coração da snr.ª D. Albertina.
SCENA ULTIMA
OS MESMOS, E D. ALBERTINA
D. Albertina
Aqui estão as inscripções.{281}
Francisco de Valladares (a Leonardo)
Entregue isto á snr.ª D. Antonia. (Leonardo demora-se a olhar para o rôlo com hesitação).
D. Albertina (muito carinhosa)
Então ficas sósinho, Francisco? Sahimos ambas?
Francisco de Valladares
Se sahem ambas?! Sahires tu, minha querida Albertina! Deixa-me então ajoelhar a teus pés, e rogar o teu perdão com as mais contrictas lagrimas que a minha alma te póde dar! (Ajoelha).
D. Albertina (erguendo-o)
Meu filho, estás perdoado com uma condição. Se esta fôr penosa, tem paciencia; peço-te que a acceites, em desconto das angustias que me despedaçaram desde o instante em que estive perdida para o teu coração. Acceitas a condição, meu querido amigo?{282}
Francisco de Valladares
Qual condição?!
D. Albertina (tomando a mão da cunhada)
Has de perdoar-lhe... (Sorrindo) ou eu não perdôo.
Francisco de Valladares
Então é certo que és uma sancta, minha filha?
D. Albertina
Não sou sancta; sou apenas uma mulher que se esforça por que tu sejas sempre um anjo de bondade.
FIM.