Accedendo ao nosso convite, aprouve a Fernando Lozano, alma de santo e espirito de apostolo, honrar-nos e confundir-nos, n'uma eterna gratidão, vindo expressamente de Madrid a Lisboa, afim de assistir á nossa conferencia. Foi um verdadeiro acontecimento que celebrámos nas seguintes palavras, cobertas com o applauso geral e uma ovação enthusiastica:
«Esta conferencia assume as proporções de um congresso. É uma verdadeira solemnidade. Está presente Fernando Lozano, o valente Demofilo das Dominicales, o chefe do livre-pensamento na peninsula, que, só por si, pelo seu cerebro poderoso, pela sua vontade indomavel, pelo seu espirito sugestivo e pela sua auctoridade incontestada, vale por todo um partido.
Saudemol-o calorosamente, e, n'elle, os bravos legionarios, seus compatriotas, que o acompanharam a Roma. É o Pedro, o Eremita, da nova cruzada do livre pensamento, destinada a vingar a memoria de todos os martyres da sciencia, que a Egreja, o clericalismo e a Inquisição condemnaram á pena ultima, entre os quaes figuram Miguel Servet, em Hespanha e Antonio Jose, o Judeu, em Portugal.
Saudemol-o e acclamemol-o, cobrindo-o de flôres, e beijando-o como ao nosso maior e ao nosso melhor evangelista.
Homenagem a Combes
Como complemento e digna coroação d'esta noite memoravel, proponho que seja enviado a Combes o seguinte telegramma:
«Ao valente e denodado defensor dos Direitos do homem, encarnação viva do principio republicano, a Combes, chefe do governo francez, saúdam os livres-pensadores portuguezes, pela sua gloriosa campanha em favor da Razão, da Sociedade Civil e da Republica, fazendo votos por que complete a obra de saneamento moral, tão brilhantemente encetada, como lição, exemplo e ensinamento aos povos que gemem ainda escravisados sob o jugo do despotismo clerical.»
A assembleia manifestou-se n'este sentido e a sessão terminou aos gritos de Viva Combes! Viva a democracia! Viva o livre-pensamento! Viva Fernando Lozano!
A lei de 13 de fevereiro
Alludindo á saudação, dirigida pelo congresso, a todas as victimas do despotismo e da oppressão, exhortámos todos os que nos escutavam a adherir á nobre campanha, campanha de justiça e de solidariedade humana, levantada contra a monstruosa e barbara lei de 13 de fevereiro, que representa uma mancha para um paiz que pretende passar por civilisado, pedindo que o nome de Bartholomeu Constantino fosse acclamado como protesto contra o abominavel decreto.
Torna-se indispensavel uma propaganda tenaz e persistente, afim de provar ao estrangeiro que a democracia não é uma palavra vã em Portugal. A lei de 13 de fevereiro não é só uma monstruosidade; é tambem uma deshonra que deve ser eliminada, por dignidade de todos e até do proprio governo.
O proximo congresso
O proximo congresso do livre-pensamento, deve realisar-se em Paris, no dia 4 de setembro de 1905. Será uma nova e imponentissima manifestação da solidariedade internacional e a consagração da gloriosa obra de Combes.
Convêm que os livres-pensadores portuguezes se preparem para tomar parte n'essa assembleia, com uma representação digna das nossas tradições democraticas, não só pelo numero como tambem pela qualidade.
É por isso e para isso, que se torna instante e urgente a immediata organisação do livre-pensamento em Portugal.
Do mesmo auctor:
- MINIATURAS ROMANTICAS.
- A SENHORA VISCONDESSA (romance).
- COSTUMES MADRILENOS.
- A QUESTÃO DO BANCO NACIONAL ULTRAMARINO.
- A ACTUALIDADE (Estado ecconomico social).
- PADRES E REIS.
- O PAPA PERANTE O SECULO.
- OS ESTADOS UNIDOS DA EUROPA (trad.).
- A REVOLTA (1.ª parte).
- A REVOLTA (2.ª parte).
- PELA PATRIA E PELA REPUBLICA.
- O SOCIALISMO NA EUROPA.
- O LIVRO DA PAZ.
- O PRIMEIRO DE MAIO.
- A FEDERAÇÃO IBERICA (edição franceza).
- PAZ E ARBITRAGEM.
- O FEDERALISMO.
- O CENTENARIO NO ESTRANGEIRO (conferencia)
- A GUERRA E A PAZ (conferencia).
- A OBRA INTERNACIONAL (edição portug. e franceza)