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O esqueleto: Romance

Chapter 13: VI
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About This Book

The narrative unfolds in Porto during the 1830s, centering on a beautiful French woman who captivates the local populace. She resides in a villa on the outskirts of the city with a Portuguese nobleman, Nicoláo de Mesquita, who has returned from exile. The story explores themes of beauty, societal norms, and the complexities of relationships within the context of a changing political landscape. As the characters navigate their lives, the work delves into the moral implications of their choices and the societal expectations placed upon them, reflecting on the nature of virtue and vice in a tumultuous era.

VI

Acabaram-se os festejos no Vidago.

Principia a vida serena, que Nicoláo de Mesquita anhelára.

Está a casa de Palmeira sósinha, em meio da sua muralha de cedros e alamos. Rodeiam-n’a por mais longe extensos almargeaes, relvas amenissimas, montados crespos de sovereiros. A estrada passa arredada. Nenhuns rumores do mundo alli vão quebrar os scismadores silencios. Este é o éden, qual preluzira ao morgado nos entresonhos, que lhe adoçavam os aborrimentos do seu viver com a franceza nos arrabaldes do Porto.

Anciára elle então um enlace honesto, uma virgem transferida do resguardo da pureza á adoração da vida conjugal, uma companheira para todas as horas da vida pacifica, doirada de alegrias innocentes, honrada na consciencia propria e no conceito do mundo.

Parece que a Providencia déra tudo, e mais ainda, ao homem que não esperava o minimo das suas modestas, mas tardias ambições.

Para os quarenta annos, uma menina com dezeseis.

Para o coração escalavrado, um coração em flôr apenas desabrochado ao inculpavel beijo de um primo.

Para uma fortuna desfalcada por grandes desbarates, um grande patrimonio de filha unica.

Nicoláo subjugára a mais liberal das fadas, ou pactuára com o anjo das trevas a felicidade d’este mundo a troco da eterna perdição da alma? Nada d’isto. Era a natural absurdeza das coisas sub-lunares, como ellas se nos figuram quando as encaramos superficialmente e pela rama.

Em harmonia com o seu ideal de felicidade domestica, o morgado restringiu ao minimo a sua convivencia, não pagando as visitas, e faltando aos convites. Apenas Martinho Xavier ás temporadas vinha de Chaves ver a filha, ou algum velho parente, que se retirava anojado da insipida existencia dos senhores do Vidago.

Martinho Xavier encarava na filha, e perguntava-lhe, a occultas do marido:

—Tu és feliz?

E ella, com os olhos assaltados de lagrimas, respondia, n’um tom de amarga ironia de si mesma:

—Sou...

O pae contristava-se; mas dissimulava. Se a occasião lhe dava uma aberta dizia ao genro:

—Vocês vem a enfastiar-se d’este modo de viver!... Por que não vens estar com tua mulher em Chaves alguns dias, primo Nicoláo?

—Porque nos sentimos completamente felizes no nosso paraizo terreal—respondia o morgado.

—E receiaes ser desgraçados lá?

—Não, primo Xavier; porém, a nossa casa é aqui; e o entrarmos nos vãos prazeres da sociedade corre perigo de acharmos depois monótona a solidão. Deixa-nos assim estar, que Beatriz sente como eu; affeiçoou-se á quietação d’este viver, que te parece melancolico, e, se me não engano, prefere-o aos bailes da tua Chaves.

—Não sei... murmurou Martinho.

—Por que dizes que não sabes?

—Porque ella tem dezesete annos, e foi creada com as inoffensivas regalias da sociedade culta.

—Bem sei; mas uma senhora, que toma este sério e melindroso estado, renuncía ás regalias frivolas e chimericas de um baile, e de um conciliabulo de murmurações com as outras mulheres.

—Não me pareces o homem que viveu em França, na Belgica, na Inglaterra...

—É por lá ter vivido que penso assim, primo Xavier.

—Não é isso...

—Então que é?

—É o estares gasto, primo.

—Estarei para as impressões stultas e prejudiciaes, mas para amar tua filha tenho a energia d’alma dos vinte annos. Desmente-me Beatriz?

—Não: pelo contrario, diz que tu a adoras.

—Pois bem: que outro galardão querias tu como pae?

—Nenhum outro, primo Mesquita. O que eu receio, repito, é que esta serenidade desfeche em fastio...

—Não receies, meu amigo. Eu sinto-me ditoso n’este sequestro da sociedade, e encho do meu contentamento o coração de minha mulher. Temos horas de passeio, de conversação e de leitura. E depois, ajuntou Nicoláo sorrindo, possuimos bons estomagos, e dormimos muitas horas, e accordamos alegres. Esta é que é a verdadeira, a legitima, a sadia, a patriarchal existencia de nossos avós, primo Martinho Xavier.

—Está bom...—murmurou o pae de Beatriz, concluindo com erguer os hombros, fechando as palpebras.

Passaram seis mezes. Voltou Martinho Xavier, e attentou no rosto desbotado da filha.

—Tu padeces, Beatriz? perguntou o pae fagueiramente.

—Não, senhor: vivo triste. Que oito mezes tão vagarosos! Parece que estou ha oito annos a olhar para estas arvores. Passam-se dias e semanas que eu não saio de casa! Onde hei de eu ir? Ver correr a agua do Tamega? Estou farta de ver o Tamega. D’antes ia á missa aos domingos, mas o primo Nicoláo está a dormir até tarde, e nem á missa vae. Eu deito-me ao escurecer, e elle fica a jogar o voltarete com o reitor e com o administrador do concelho até ás onze. Depois vae cear, e obriga-me a cear tambem. Que vida, meu pae!... Eu sou realmente muito amiga de meu primo, mas não sei de que nos serve a riqueza aqui mettidos n’este ermo, sem ver ninguem! Tenho tantas saudades do papá, e da nossa casa, e das minhas amigas! A Therezinha Pizarro fala de mim! Que mais feliz foi a Laura Canavarro, que me escreveu de Lessa da Palmeira, onde está a banhos, e já foi a dois bailes no Porto! E a Francisquinha de Villalva casa com o primo Raphael?

—Ora, menina! o primo Raphael está cada vez mais azougado d’aquella cabeça! Chegou de Hespanha ha dois mezes, esteve em casa uns quinze dias a recompôr a saude, pediu a Francisca de Villalva, e lá foi levado para Basto porque viu nas aguas de Verim uma menina da casa de Viade, e de Basto irá atraz de outra menina de qualquer casa. É um doido desmarcado!

—Elle falou-lhe de mim?

—Falou; perguntou-me se estavas contente.

—E o pae que lhe disse?

—Que havia de eu dizer-lhe?! que estavas contentissima.

—Fez bem. Não quero que elle se vingue.

—Vingar-se de quê? Pois tu deste-lhe motivo de odio?

—Não... mas...

—Explica-te.

—O pae bem sabia que elle me fazia a côrte.

—Uma brincadeira...

—Pois sim, mas, se eu fosse constante... vinha a casar com elle.

—Deus te livre, filha! Aquelle homem hade ser o flagello da mulher com quem casar...

—Quem sabe!...

—Sei-o eu. Antes infeliz com teu primo. Este, ao menos, é um esposo leal, inseparavel de ti, bom administrador de casa, e respeitado de todos. O outro vem a dar cabo do que tem, e está-se deshonrando todos os dias com toda a casta de extravagancia. O que lhe vale é ter pae, que vae tendo mão na manta, e a grande herança que teve de uma tia; senão a grande casa de Fayões estava espatifada. Minha filha, dá louvores a Deus por teres casado com um homem, que te livra de casares com Raphael. Quando mais não seja, só por isto fizeste um optimo casamento.

Beatriz calou-se. Vinha entrando o marido com uma enorme pêra de sete cotovellos.

—Veja que prodigiosa pêra, primo Xavier! disse elle.

—É admiravel!

—Tenho magnificas fructas! Mandei fazer enxertos de pereiras francezas. D’aqui a dois annos o pomar mais rico de Traz-os-Montes ha de ser o nosso. Tu verás, Beatriz! Em França ha, no genero pêra, duzentas e tantas variedades.

—Porque não vaes mostrar Paris a tua prima? atalhou Martinho.

—Ora essa!—acudiu Nicoláo.—Se deixavamos a nossa casa para ir ver as paredes das casas dos outros!... Beatriz está farta de ver Paris nas estampas, que eu lhe explico perfeitamente. Pois toda a terra é mais para se ver na copia que no original!

—Ao menos vae até Lisboa ver a parentella que lá temos—replicou o fidalgo flaviense.

—Peior! redarguiu o genro. Minha mulher dispensa ver o D. José, da memoria do Terreiro do Paço, e as parentas contemporaneas da memoria. Quando cheguei de Bruxellas em 1834, fui procurar os numerosos Mesquitas que por lá estão em Lisboa, e achei uma gente exquisita, que me perguntava se nós cá na provincia tomamos chá. As mulheres pareciam girafas empalhadas. Pelos modos e edade, creio que desde minha bisavó as nossas parentas de Lisboa embalsamaram-se em vida, e ficaram repimpadas nas suas poltronas, á espera da trombeta do juizo final. Querias tu que eu fôsse mostrar essa parentella gothica a minha mulher? Deus a livre, que a pobresinha havia de cuidar que a mettiam n’um salão subterraneo de Pompeia a conversar com as mumias de alguma familia, surprehendida, em oração mental aos deuses, pela onda do betume.

—Está decidido que não saes de Vidago—retorquiu Martinho.

—Isso não sei; mas por emquanto a necessidade não obriga, salvo se Beatriz o exigir.

—Eu queria, ao menos, ir estar em casa do pae algum tempo...—disse a senhora.

Nicoláo involuntariamente franziu o sobr’olho, e disse:

—Já se vê que não estás o melhor possivel com teu marido...

—Falsa interpretação, acudiu o pae. A menina não dizia isso, primo. Saudades da casa paterna implicam o bem-estar com o marido?

—É conforme...—atalhou Nicoláo.—Pois sim, iremos a Chaves.

—Não vamos, não, primo, atalhou Beatriz despeitada, simulando conformidade.

—Então vamos ou não vamos? perguntou o marido, entre risonho e contrariado.

—O que fôr da tua vontade—respondeu ella affavelmente, sopesando o despeito, como quem, apezar do melindre maguado, queria ir.

De feito, ao outro dia partiram para Chaves.

Beatriz cobrou as côres e a alegria dos olhos, assim que viu a janella do seu quarto, e os craveiros em flor, que ella cultivára. Parecia-lhe a ella que amava mais seu marido alli. Appareceram-lhe as amigas da infancia, alegres, buliçosas, esplendidas de vida, contando-lhe os seus amores, as suas esperanças, as venturas de outras amigas. E Beatriz escutava a chilreada d’estas avesinhas com os olhos aguados, e o coração cerrado. Por supremo esforço, desprendia um sorriso, e então era peior, que as lagrimas rebentavam para afogar a falsa expressão do seio angustiado.

Correu logo a noticia da vida desventurosa de Beatriz. Os tios d’ella afoitamente invectivaram Nicoláo pela reclusão e estiolamento em que tinha os dezoito annos da pobre menina; accrescentando que para escura sorte a havia creado o pae com tanto mimo.

Isto agastou grandemente o morgado. A resposta foi asperrima, e contraditada com assomos de ira e excessos de palavras. O resultado foi Nicoláo, ao fim de quatro dias, ordenar a sua mulher que se despedisse, para no dia seguinte voltar a Palmeira.

Beatriz obedeceu silenciosamente. Desde este momento, a casa dos Vahias parecia de lucto. Nicoláo deixou ir sua esposa despedir-se em companhia do pae, pretextando impedimento de saude.

Estava Beatriz em casa de suas primas Canavarros, quando Raphael Garção entrou, vindo de Basto.

Viu Beatriz, fez pé atraz, e não teve mão de si, exclamando:

—Como está mudada, prima!

Beatriz abaixou os olhos com immensa dôr.

—E eu que a considerava tão afortunada!—tornou Raphael.

—E quem te disse a ti que ella o não é?!—interveiu Martinho Xavier, de má sombra.

—Diz-m’o aquelle rosto, que era formoso e ridente como o do anjo da alegria!—respondeu impavidamente o leitor de Richardson e Byron.

—Pode-se padecer do corpo, e ser-se feliz da alma...—contrariou Martinho.

—Isso não sei—contraveio o morgado de Fayões.

—Sei eu.

—Pois muito estimo que a mudança de rosto de minha prima seja uma leve doença, tornou Raphael.

Martinho Xavier levantou-se, dando signal de saida á filha, que abraçou tristemente as primas, e estendeu a mão a Raphael, sem o fitar no rosto.

Ao outro dia, partiram para o Vidago aquellas duas almas que providencialmente se tinham unido por occultos designios, que me não edificam, nem provam o bom regimento e ordenação d’este globo. Seja perdoada esta mingua de admiração ao mal afiado acume do meu espirito. O ver successivamente a desgraça propria e as alheias dispara afinal n’uma cegueira de entendimento. É o que eu penso de mim, sem com isto me querer ingerir n’um cantinho d’este romance.

Nicoláo de Mesquita sentia-se mudado. Via-se interiormente. Ha uma visão interior, intuspecção dolorosa em que a gente vê estar-se-lhe a alma enrugando, apanhando e envelhecendo. Queria desabafal-a em caricias á mulher; mas faltava-lhe o ar expansivo, aquelle dilatar-se o coração para receber as lagrimas refrigerantes da mulher que nos ama, e perdôa as faltas, o desamor e as iniquidades.

Concentrou-se.

Póde ser que ella o divertisse da sua introversão, se o acariciasse, mas Beatriz soffria mais que o marido, e começava a detestal-o. A precisada de caricias era ella, que duas angustias apertavam: a saudade, e o terror do porvir: o passado amor, renascido com a presença de Raphael: e o supplicio adveniente com o rancor, que ella sentia empeçonhar-lhe o intimo d’alma e a consciencia de sua irremediavel desgraça.

Sem embargo d’isto, os dois esposos viam-se a todas as horas, e trocavam expressões vãs.

—Porque soffres, prima?—perguntava elle.

—Eu não soffro.

—Mas que tristeza é essa?

—Sinto-me adoentada. E tu que tens, Nicoláo?

—Nada, Beatriz.

—Mas estás tão pensativo!...

—Medito na nossa sorte, e vejo que nos enganámos. Esta vida solitaria não quadra ao teu genio. Tu querias os brinquedos de solteira; e eu casei tarde para lhes achar prazer.

O silencio de Beatriz irritava-o; mas a delicadeza continha-o.

E, por este theor, travavam curtos dialogos, que rematavam em raiva suffocada.

Um dia, Beatriz não saiu do leito para a mesa do almoço. Nicoláo mandou-lhe a bandeja ao quarto pela criada. D’ahi a pouco foi elle, e viu intacto o almoço.

—Porque não comes?—perguntou elle.

—Não posso—respondeu seccamente a senhora.

—Queres que chame um cirurgião?

—A minha doença não a curam cirurgiões: ha de curar-m’a... bem cedo a morte.

Nicoláo riu-se sarcasticamente.

Sentou-se Beatriz no leito, e escondeu entre as mãos o rosto, para abafar soluços.

O marido contemplou-a com azedume, affastou-se.

Saiu; foi emboscar-se no arvoredo da quinta; e meditou meia hora.

Quando cessou de meditar, sentia saudades de Margarida Froment!