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O esqueleto: Romance

Chapter 33: XXIV
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About This Book

The narrative unfolds in Porto during the 1830s, centering on a beautiful French woman who captivates the local populace. She resides in a villa on the outskirts of the city with a Portuguese nobleman, Nicoláo de Mesquita, who has returned from exile. The story explores themes of beauty, societal norms, and the complexities of relationships within the context of a changing political landscape. As the characters navigate their lives, the work delves into the moral implications of their choices and the societal expectations placed upon them, reflecting on the nature of virtue and vice in a tumultuous era.

XXIV

A interrogação do morgado não fez mais abalo no tribunal da Providencia que os insultos de Julião e as provocações de Luthero ao Homem-Deus.

Confessou-se castigado, conheceu que expiava: a Providencia que mais queria do verme? Deixou-o a revolver-se nos espinhos, e voltou a face do guzano, que se pascia em sua podridão.

Desde aquella hora, Nicoláo, olhando-se no baço espelho da sua consciencia, viu-se hediondo; e aos vidros, em que poucos dias antes se gosava e narcisava nos seus frescos e garbosos quarenta e quatro annos, via-se agora encanecendo, da noite ao dia, com rapidez de condemnado nas ultimas setenta horas do oratorio.

«Eu posso ainda levantar-me d’este abatimento!—dizia comsigo elle.—Irei longe d’aqui, irei a França, a Italia, a toda a parte onde a riqueza inventa delicias, irei gosar, esquecer-me, viver!»

Este desafogo acalentava-lhe o exaspero breves instantes. Lá no recesso da sua alma havia uma elaboração de veneno, que se lhe coava na chaga, assim que o linimento da esperança começava a cicatrizal-a.

Duas vezes tivera as malas feitas para sair de Portugal: porém, á hora de partir, senhoreava-o a cachexia com desalento anniquilador, que o forçava a desistir, exclamando:

—Onde vou eu? Em que parte do mundo se acabam os limites ao meu inferno?

E então, commovia a lagrimas vel-o chorar a elle com saudades do filho; mas nem a consolação amarga d’estes prantos lhe era concedida! Sobresaltava-o a duvida de ser elle o pae d’aquella creança. Calculava épocas, via attentamente a data gravada na manilha de oiro, que encontrára na caixa da ama: agora, inferia d’aquella data provas concludentes da legitimidade do filho de Beatriz; logo, convencia-se da fallivel significancia das lettras gravadas, podendo ellas meramente commemorar o dia em que fôra dada a prenda. Execrava então o filho, emquanto a soledade e a insulação de toda a convivencia, lh’o não mostrava como esteio unico á vida.

Vagando de quinta em quinta, afinal deixou-se ficar em Palmeira, encerrado, em pouquissimo da casa, estranho ao governo d’ella, inaccessivel a foreiros, a criados, a raros amigos que o procuravam. Um só homem conseguira entrar no quarto de Nicoláo de Mesquita: era o octogenario reitor, varão de preclaras virtudes, que adivinhara o essencial da angustia do fidalgo, que elle baptisara e beijara nos braços de sua mãe, quando assistiu ás estrondosas festas do baptisado. Quantos esforços fez o santo homem para o tirar á luz e ás distracções do campo todos se mallograram. Chamava-lhe o pensamento a coisas de lavoira, obras começadas, melhoramentos que fazer, a reconstrucção da torre de menagem meio arruinada.

Nicoláo respondia:

—O meu tumulo está edificado ha duzentos annos: não tenho outras obras que faça, padre reitor.

Ainda receioso de impaciental-o, o ancião teimava em fallar-lhe de obras.

Um dia, trez mezes depois da morte de Beatriz, dizia o clerigo:

—Quando vi abrir-se o aqueducto da agua que vae dar ao jardim, e andarem lá trabalhadores, cuidei que vossa excellencia resolvera, como seus paes haviam tencionado, formar um grande tanque no terreiro para beberem os cavallos. Esteve a mina aberta uns dias, e depois, logo depois que sua excellencia a senhora D. Beatriz que Deus tem, falleceu, fechou-se o aqueducto.

—É que eu mandei suspender todas as obras—respondeu Nicoláo—e o feitor mandou logo empedrar a bocca da mina.

—E por que não hade vossa excellencia entretêr as suas horas n’uma obra tão util para a casa e para o povo?

—Que me importa o povo e a casa? replicou o fidalgo.

—O povo creio eu que importa a vossa excellencia, meu bom fidalgo, porque paes e avós d’este povo foram sempre como filhos dos ricos homens da Palmeira do Vidago. O povo lucraria muito se vossa excellencia lhe desse para as suas necessidades a agua que superabunda nos hortos e quinta. Esta pobre gente, quando os calores seccam as fontes, vae buscar, a grande custo e perda de tempo, a agua á freguezia proxima. Aqui tem vossa excellencia que está em sua mão, com pequenissimo dispendio, soccorrer este povo, que tão alegre ficou, assim que eu lhes disse a intenção abençoada de vossa excellencia. Parece que tem praga de inveja aquella obra! Seu excellentissimo avô abriu a mina, o paesinho de vossa excellencia continuou-a, o senhor morgado fez lavrar quinze braças; e, quando esta mina ia por pouco encontrar-se com o aqueducto, que desce da serra, vejo eu os jornaleiros a tapal-a de cantaria grossa!

Nicoláo ergueu-se com semblante enfastiado, e o reitor calou-se, como sempre, assim que a expressão do tedio assomava no rosto do morgado como preparação para um grosseiro: «Queira deixar-me sósinho, padre reitor.»

D’este dialogo fica inteirado o leitor de que a mina ficou sendo a sepultura de Raphael Garção, e que o apodrecimento do cadaver não chegou a ser presentido pelo fetido das exhalações.