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O esqueleto: Romance

Chapter 37: CONCLUSÃO
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About This Book

The narrative unfolds in Porto during the 1830s, centering on a beautiful French woman who captivates the local populace. She resides in a villa on the outskirts of the city with a Portuguese nobleman, Nicoláo de Mesquita, who has returned from exile. The story explores themes of beauty, societal norms, and the complexities of relationships within the context of a changing political landscape. As the characters navigate their lives, the work delves into the moral implications of their choices and the societal expectations placed upon them, reflecting on the nature of virtue and vice in a tumultuous era.

CONCLUSÃO

Nicoláo de Mesquita, cortado de desgostos, e inclinado á sepultura com desejos de fechar-se n’ella, saiu de Londres com o filho. A desgraça não lhe dava treguas.

Trouxe de Pariz mestres para Martinho, habeis na sciencia, e prendas de educação esmerada.

Voltou á torre solarenga, e chamou a si duas velhas senhoras, parentas de Martinho Xavier, para lhe regerem a casa e especialmente velarem o bem-estar do filho.

Passou dois annos por tal maneira abatido de espirito, que deu comsigo, quasi aniquilado de raciocinio, nos extremos preconceitos da religião desfigurada por visualidades. Acercou-se de missionarios de todo cégos á luz do Espirito Santo, em quanto ao teor de aligeirar o peso de certas amarguras. Dos missionarios resvalou ás superstições lastimaveis no homem que tivera intelligencia clara, e sciencia pratica. Prestava ouvidos e coração a coisas de agoiro, e sortilegios. De enlevos na contemplação do Supremo Senhor do céu e terra, descia a pactuar com uma boçal velhinha, santa famigerada, o quebramento do seu fadario. Esta escuridade prenunciava as trevas do sepulcro.

A piedade não o forrava aos impetos de um odio á sombra de Beatriz. Nunca mais entrou á capella onde esperavam o ultimo juizo as cinzas da infeliz. Os missionarios não souberam extirpar-lhe da alma o cancro do rancor: davam-lhe amulêtos, e orações prófugas do espirito immundo.

Mandára erigir um santuario na recamara do seu quarto, e ahi se exercitava em soliloquios mentaes, entoando com fervorosos assomos de illuminado as amorosas apostrophes ao divino dos padres Chagas e Bernardes. Se não tivesse descançado no Senhor aquelle Santo parocho, o penitente iria pela mão do velho á estrada recta da divina misericordia.

Uma tarde, Nicoláo de Mesquita, após a sobre-excitação febril de algumas horas, chamou criados com alavancas, e desceu á capella, onde não havia entrado desde a morte de sua mulher.

Mandou levantar a pedra do jazigo e extrair a ossada que estivesse mais á flôr da sepultura. Os criados suando de pavor, curvaram-se a remexer os ossos; mas superstições, ou abalo sobre-natural, não ousou tocar-lhes; e, um após outro, fugiram da capella, ao verem desfigurarem-se medonhamente as feições do fidalgo.

Nicoláo travou da alavanca, e tentou mettel-a ás junturas argamassadas do jazigo da esquerda, onde estavam as solitarias cinzas da unica adultera d’aquella familia. N’este esforço e reluctancia com as difficuldades de abalar a pedra, extenuou-se, perdeu o alento, e caiu de rosto contra o degrau do altar, exclamando vozes inintelligiveis.

As velhas senhoras, o filho, os mestres e os criados acudiram á capella, e tomaram-n’o em braços. Nicoláo revolvia a lingua na abobada palatina, e tirava uns sons roucos, arripiadores, como gritos de ave nocturna.

Chamaram medicos e sacerdotes. A medicina capitulou de paralisia o incuravel ataque. Os padres ungiram-no, que a lingua não podia accusar as angustias da alma.

N’uma lucta de spasmos e ancias se desprendeu, ao fim de vinte e quatro horas, o atormentado espirito de Nicoláo de Mesquita.

Ao cair a pedra sepulcral sobre o cadaver, justaposto aos ossos de Beatriz de Sousa, a piedade impõe-nos silencio. Vimos o que é a justiça de Deus na terra; n’outros mundos é-nos defeso devassal-a.

Martinho de Mesquita foi tutellado de Ricardo de Almeida, um dos seus mais proximos parentes, por parte de sua mãe. É hoje marido da morgada do Pontido, filha de Ricardo e Laura.

Ainda vivem os ditosos que o morgado de Fayões invejára nos seus ultimos dias de vida. N’aquella casa ha um só incentivo a lagrimas: é a memoria de Raphael Garção.

Dizem-nos que o filho de Beatriz, desde que ouviu a historia de sua mãe, tem dias de attribulado recolhimento. Possue o retrato d’ella, pendente da manilha, tirada do esqueleto de Raphael, e conservado na casa do Pontido. Uma vez sua mulher surprehendeu-o absorvido na contemplação do retrato. Poz-lhe a mão na espadua, e elle, voltando a bella imagem de sua mãe aos olhos da esposa, disse, banhado em lagrimas:

—Como não havia de perdel-a o mundo, se ella era tão formosa!

FIM