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O esqueleto: Romance

Chapter 6: PREFACIO
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About This Book

The narrative unfolds in Porto during the 1830s, centering on a beautiful French woman who captivates the local populace. She resides in a villa on the outskirts of the city with a Portuguese nobleman, Nicoláo de Mesquita, who has returned from exile. The story explores themes of beauty, societal norms, and the complexities of relationships within the context of a changing political landscape. As the characters navigate their lives, the work delves into the moral implications of their choices and the societal expectations placed upon them, reflecting on the nature of virtue and vice in a tumultuous era.

LISBOA
Typographia da Parceria Antonio Maria Pereira
Rua dos Correeiros, 70 72

PREFACIO

Em quanto á influencia do romance nos costumes, estou mais que muito desconfiado de que o romance não morigera nem desmoralisa.

Porém, admittida a ponderação que lhe alvidram os exhortadores dos pais de familia, não sei decidir como se ha de escrever o romance fautor da sã moral. São dois os expedientes: levar os personagens viciosos ao despenhadeiro; ou crear anjos n’um paraiso sem serpente.

Na primeira especie, mostra-se a lucta de virtude e crime: natural e concludentemente triumpha a virtude. É o costume com sacrificio, ás vezes, da verosimilhança.

Na segunda fórma de romancear, a virtude recebe as ovações sem batalha. O romancista põe peito á reformação das obras de Deus, e corrige-as. Quando os seus personagens se avisinham de algum sujo aguaçal, em que é uso a gente commum salpicar as botas, atam-lhe asas de serafins, e largam-lhe trella por esse azul dos ceus dentro, até lhes vir a geito poisal-os em alegretes de flores.

São estes os romances que moralisam, ou os outros? É a minha duvida.

Convém mostrar as repulsões do crime lá em baixo, onde a providencia social lhes cavou a paragem; ou é melhor conduzir, por entre hortos amenissimos, os nossos personagens engrinaldados, e mettel-os no ceu finalmente?

Um homem de bem, proprietario de um dos primeiros jornaes d’este paiz, costuma editar os meus romances, com a previa clausula de não serem historias de crimes, que toquem directa ou indirectamente com a probidade da vida conjugal, ou revelem desdouros da honra domestica.

Ha poucos dias, tivémos esta pratica:

—Querem os pais de familias que suas filhas ignorem a corrupção, que lavra nos pantanos da sociedade—observou-me o meu amigo.

—Os pais de familia, contestei, não conseguem isso, em quanto não acharem o caminho da lua, onde presumo que não ha costumes, nem romances. E será preciso que se mudem para lá com as filhas, menores de dez annos, e não levem as mães, porque as mães, maximamente virtuosas, sempre teem que contar ás filhas a historia escandalosa das mães culpadas.

—Mas não se ganha moralisação para os espiritos brandos e virginaes das leitoras, em dar-lhes novellas de adulterios—redarguiu o cavalheiro.

—Ganha, quando se lhes mostram os infortunios acapellados em volta da mulher que se deshonra. Ganha, porque as filhas do pai acautellado sabem que as ha, conhecem-nas, e apertam a mão das deshonradas; concorrem aos salões com ellas; sabem o nome e a culpa do homem que as requesta; observam-lhes uns exteriores de felicidade; e espantam-se de as verem ostensivamente satisfeitas, e, de mais a mais, acatadas com uma urbanidade, que as não estrema das honestas. Então é que o romance ganha muito, levando ao conhecimento das donzellas, até certo ponto innocentes, que o desdouro, cujo horror não as apavorou nos salões, tem angustias secretas, e infamias estrondosas. Parece-me isto, meu amigo.

—Acho-lhe rasão—obtemporou o honrado e illustrado editor dos meus livros—mas que quer, se os pais de familia intendem que suas filhas desconhecem a existencia de certos crimes? E desadoram romances que revolvam essas sentinas hediondas?

Aqui ficou a contenda amigavel. Não procurei pai de familias nenhum para argumentarmos. Fiquei-me a scismar se devia queimar este volume que estava escripto, no intuito de mostrar o squalor de uma chaga social, sem a minima pretenção de lhe pôr o cauterio. Não queimei; mas protesto extrahil-o da circulação, se um dia me persuadir de todo em todo que esta coisa de romances, escriptos assim, peoram a humanidade, e alvorotam a quietação dos pais de familia.