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O Guarany: romance brazileiro, Vol. 1 (of 2) cover

O Guarany: romance brazileiro, Vol. 1 (of 2)

Chapter 11: VII A PRECE
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About This Book

An adventurous romantic narrative set on a wild colonial frontier traces fraught encounters and alliances between native communities and European settlers. The plot centers on a courageous indigenous protector whose devotion to a settler household and to an intense cross-cultural attachment drives daring rescues, confrontations, and personal sacrifice. Vivid natural description alternates with action, domestic scenes, and reflective passages, and recurring concerns include honor, loyalty, cultural difference, and the influence of landscape on human conduct.

VII
A PRECE

A tarde ia morrendo.

O sol declinava no horizonte e deitava-se sobre as grandes florestas, que illuminava com os seus ultimos raios.

A luz frouxa e suave do occaso, deslisando pela verde alcatifa, enrolava-se como ondas de ouro e de purpura sobre a folhagem das arvores.

Os espinheiros silvestres desatavão as flores alvas e delicadas; e o ouricory abria as suas palmas mais novas, para receber no seu calice o orvalho da noite. Os animaes retardados procuravão a pousada; emquanto a jurity, chamando a companheira, soltava os arrulhos doces e saudosos com que se despede do dia.

Um concerto de notas graves saudava o pôr do sol, e confundia-se com o rumor da cascata, que parecia quebrara aspereza de sua quéda, e ceder á doce influencia da tarde.

Era Ave-Maria.

Como é solemne e grave no meio das nossas mattas a hora mysteriosa do crepusculo, em que a natureza se ajoelha aos pés do Creador para murmurar a prece da noite!

Essas grandes sombras das arvores que se estendem pela planicie; essas gradações infinitas da luz pelas quebradas da montanha; esses raios perdidos, que, esvasando-se pelo rendado da folhagem, vão brincar um momento sobre a arêa; tudo respira uma poesia immensa que enche a alma.

O urutão no fundo da matta sólta as suas notas graves e sonoras, que, reboando pelas longas crastas de verdura, vão echoar ao longe como o toque lento e pausado do angelus.

A brisa, roçando as grimpas da floresta, traz um debil susurro, que parece o ultimo echo dos rumores do dia, ou o derradeiro suspiro da tarde que morre.

Todas as pessoas reunidas na esplanada sentião mais ou menos a impressão poderosa desta hora solemne, e cedião involuntariamente a esse sentimento vago, que não é bem tristeza, mas respeito misturado de um certo temor.

De repente, os sons melancolicos de um clarim prolongárão-se pelo ar quebrando o concerto da tarde; era um dos aventureiros que tocava Ave-Maria.

Todos se descobrirão.

D. Antonio de Mariz, adiantando-se até á beira da esplanada para o lado do occaso, tirou o chapéo e ajoelhou.

Ao redor delle vierão grupar-se sua mulher, as duas moças, Alvaro e D. Diogo; os aventureiros, formando um grande arco de circulo, ajoelharáo-se a alguns passos de distancia.

O sol com o seu ultimo reflexo esclarecia a barba e os cabellos brancos do velho fidalgo, e realçava a belleza daquelle busto de antigo cavalheiro.

Era uma scena ao mesmo tempo simples e magestosa a que apresentava essa prece meio christã, meio selvagem; em todos aquelles rostos, illuminados pelos raios de occaso, respirava um santo respeito.

Loredano foi o unico que conservou o seu sorriso desdenhoso, e seguia como mesmo olhar torvo os menores movimentos de Alvaro, ajoelhado perto de Cecilia e embebido em contempla-la, como se ella fosse a divindade a quem dirigia a sua prece.

Durante o momento em que o rei da luz, suspenso no horizonte, lançava ainda um olhar sobre a terra, todos se concentra vão em um fundo recolhimento, e dizião uma oração muda, que apenas agitava imperceptivelmente os labios.

Por fim o sol escondeu-se; Ayres Gomes estendeu o mosquete sobre o precipio, e um tiro saudou o occaso.

Era noite.

Todos se erguêrão; os aventureiros cortejárão e forão-se retirando a pouco e pouco.

Cecilia offereceu a fronte ao beijo de seu pai e de sua mãi, e fez uma graciosa mesura a seu irmão e a Alvaro.

Isabel tocou com os labios a mão de seu tio, e curvou-se em face de D. Lauriana para receber uma benção lançada com a dignidade e altivez de um abbade.

Depois, a familia chegando-se para junto da porta, dispoz-se a passar um desses curtos serões que outr'ora precedião á simples mas succulenta ceia.

Alvaro, em attenção a ser o seu primeiro dia de chegada, fôra emprazado pelo velho fidalgo para tomar parte nessa collação da familia, o que havia recebido como um favor immenso.

O que explicava esse apreço e grande valor dado por elle a um tão simples convite, era o regimen caseiro que D. Lauriana havia estabelecido na sua habitação.

Os aventureiros e seus chefes vivião n'um lado da casa inteiramente separados da familia; durante o dia corrião os mattos e occupavão-se com a caça ou com diversos trabalhos de cordoagem e marcenaria.

Era unicamente na hora da prece que se reunião um momento na esplanada, onde, quando o tempo estava bom, as damas vinhão tambem fazer a sua oração da tarde.

Quanto á familia, esta conservava-se sempre retirada no interior da casa durante a semana: o domingo era consagrado ao repouso, á distracção e á alegria; então dava-se ás vezes um acontecimento extraordinario como um passeio, uma caçada, ou uma volta em canoa pelo rio.

Já se vê pois a razão por que Alvaro tinha tantos desejos, como dizia o italiano, de chegar ao Paquequer em um sabbado, e antes das seis horas; o moço sonhava com a ventura desses curtos instantes de contemplação e com a liberdade do domingo, que lhe offereceria talvez occasião de arriscar uma palavra.

Formado o grupo da familia, a conversa travou-se entre D. Antonio de Mariz, Alvaro e D. Lauriana; Diogo ficara um pouco retirado; as moças, timidas, escutavão, e quasi nunca se animavão a dizer uma palavra sem que se dirigissem directamente á ellas, o que rara vez succedia.

Alvaro, desejoso de ouvir a voz doce e argentina de Cecilia, da qual elle tinha saudade pelo muito tempo que não a escutava, procurou um pretexto que a chamasse á conversa.

—Esquecia-me contar-vos, Sr. D. Antonio, disse elle aproveitando-se de uma pausa, um dos incidentes da nossa viagem.

—Qual? Vejamos; respondeo o fidalgo.

—Á cousa de quatro leguas d'aqui, encontrámos Pery.

—Inda bem! disse Cecilia: ha dous dias que não sabemos noticias delle.

—Nada mais simples, replicou o fidalgo; elle corre todo este sertão.

—Sim! tornou Alvaro, mas o modo por que o encontrámos é que não vos parecerá tão simples.

—O que fazia então?

—Brincava com uma onça como vós com o vosso veadinho, D. Cecilia.

—Meu Deus! exclamou a moça soltando um grito.

—Que tens, menina? perguntou D. Lauriana.

—É que elle deve estar morto á esta hora, minha mãi.

—Não se perde grande cousa, respondeo a senhora.

—Mas eu serei a causa de sua morte!

—Como assim, minha filha? disse D. Antonio.

—Vede-vos, meu pai, respondeo Cecilia enxugando as lagrimas que lhe saltavão dos olhos; conversava quinta feira com Isabel, que tem grande medo de onças, e brincando, disse-lhe que desejava vêr uma viva!...

—E Pery a foi buscar para satisfazer o teu desejo; replicou o fidalgo rindo. Não ha que admirar. Outras tem elle feito.

—Porém, meu pai, isto é cousa que se faça! A onça deve têl-o morto.

—Não vos assusteis, D. Cecilia; elle saberá defender-se.

—E vós, Sr. Alvaro, porque não o ajudastes a defender-se? disse a moça sentida.

—Oh! se visseis a raiva com que ficou por queremos atirar sobre o animal!

E o moço contou parte da scena passada na floresta.

—Não ha duvida, disse D. Antonio de Mariz, na sua cega dedicação por Cecilia quiz fazer-lhe a vontade com risco de sua vida. É para mim uma das cousas mais admiraveis que tenho visto nesta terra, o caracter desse indio. Desde o primeiro dia que aqui entrou, salvando minha filha, a sua vida tem sido um só acto de abnegação e heroismo. Crêde-me, Alvaro, é um cavalheiro portuguez no corpo de um selvagem!

A conversa continuou; mas Cecilia tinha ficado triste, e não tomou mais parte nella.

D. Lauriana retirou-se para dar as suas ordens; o velho fidalgo e o moço conversárão até oito horas, em que o toque de uma campa no terreiro da casa veio annunciar a ceia.

Emquanto os outros subião os degráos da porta e entravão na habitação, Alvaro achou occasião de trocar algumas palavras com Cecilia.

—Não me perguntais pelo que me ordenastes, D. Cecilia? disse elle á meia voz.

—Ah! sim! trouxestes todas as cousas que vos pedi?

—Todas e mais... disse o moço balbuciando.

—E mais o que? perguntou Cecilia.

—E mais uma cousa que não pedistes.

—Esta não quero! respondeu a moça com um ligeiro enfado.

—Nem por vos pertencer já? replicou elle timidamente.

—Não entendo. É uma cousa que já me pertence, dizeis?

—Sim; porque é uma lembrança vossa.

—Nesse caso guardai-a, Sr. Alvaro, disse ella sorrindo, e guardai-a bem.

E fugindo, foi ter com seu pai, que chegava á varanda, e em presença delle recebeo de Alvaro um pequeno cofre, que o moço fez conduzir, e que continha as suas encommendas. Estas consistião em joias, sedas, espiguilhas de linho, fitas, galacês, hollandas, e um lindo par de pistolas primorosamente embutidas.

Vendo essas armas, a moça saltou um suspiro abafado e murmurou comsigo:

—Meu pobre Pery! Talvez já não te sirvão nem para te defenderes.

A ceia foi longa e pausada, como costumava ser naquelles tempos em que a refeição era uma occupação seria, e a mesa um altar que se respeitava.

Durante a collação, Alvaro esteve descontente pela recusa que a moça fizera do modesto presente que elle havia acariciado com tanto amor e tanta esperança.

Logo que seu pai ergueu-se, Cecilia recolheu ao seu quarto, e ajoelhando diante do crucifixo, fez a sua oração. Depois, erguendo-se, foi levantar um canto da cortina da janella e olhar a cabana que se erguia na ponta do rochedo, e meu estava deserta e solitaria.

Sentia apertar-se o coração com a idéa de que, por um gracejo, tivesse sido a causa da morte desse amigo dedicado que lhe salvára a vida, e arriscava todos os dias a sua sómente para faze-la sorrir.

Tudo nesta recamara lhe fallava delle: suas aves, seus dous amiguinhos que dormião, um no seu ninho e outro sobre o tapete, as pennas que servião de ornato ao aposento, as pelles dos animaes que seus pés roçavão, o perfume suave de beijoim que ella respirava; tudo tinha vindo do indio que, como um poeta ou um artista, parecia crear em torno della um pequeno templo dos primores da natureza brasileira.

Ficou assim a olhar pela janella muito tempo; nessa occasião nem se lembrava de Alvaro, o joven cavalheiro elegante, tão delicado, tão timido, que córava diante della, como ella diante delle.

De repente a moça estremeceo.

Tinha visto á luz das estrellas passar um vulto que ella reconheceu pela alvura de sua tunica de algodão, e pelas formas esbeltas e flexiveis; quando o vulto entrou na cabana, não lhe restou a menor duvida.

Era Pery.

Sentio-se alliviada de um grande peso: e pode então entregar-se ao prazer de examinar um por um, com toda a attenção, os lindos objectos que recebera, e que lhe causavão um vivo prazer.

Nisto gastou seguramente meia hora; depois deitou-se, e como já não tinha inquietação nem tristeza, adormeceu sorrindo á imagem de Alvaro, e pensando na magoa que lhe fizera, recusando o seu mimo.