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O Guarany: romance brazileiro, Vol. 1 (of 2) cover

O Guarany: romance brazileiro, Vol. 1 (of 2)

Chapter 26: V VILANIA
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About This Book

An adventurous romantic narrative set on a wild colonial frontier traces fraught encounters and alliances between native communities and European settlers. The plot centers on a courageous indigenous protector whose devotion to a settler household and to an intense cross-cultural attachment drives daring rescues, confrontations, and personal sacrifice. Vivid natural description alternates with action, domestic scenes, and reflective passages, and recurring concerns include honor, loyalty, cultural difference, and the influence of landscape on human conduct.

V
VILANIA

É tempo de continuar esta narração interrompida pela necessidade de contar alguns factos anteriores.

Voltemos pois ao lugar em que se achava Loredano e seus companheiros tomados de medo pela exclamação inesperada que soára no meio delles.

Os dous complices, supersticiosos, como erão as pessoas de baixa classe naquelle tempo, attribuião o facto a uma causa sobrenatural, e vião nelle um aviso do céo. Loredano porém não era homem que cedesse a semelhante fraqueza; tinha ouvido uma voz; e essa voz embora surda e cava devia ser de um homem.

Quem elle era? Seria D. Antonio de Mariz? Seria algum dos aventureiros? Não podia saber; o seu espirito perdia-se n'um cahos de duvidas e incertezas.

Fez um gesto a Ruy Soeiro e a Bento Simões para que o seguissem; e apertando ao seio o fatal pergaminho, causa de tantos crimes, lançou-se pelo campo. Terião feito umas cincoenta braças de caminho, quando virão cortar pela vereda que elles seguião um cavalheiro que o italiano reconheceu immediatamente; era Alvaro.

O moço procurava a solidão para pensar em Cecilia, mas sobretudo para reflectir n'um facto que se tinha dado essa manhã e que elle não podia comprehender.

Vira de longe a janella de Cecilia abrir-se, as duas moças apparecerem, trocarem um olhar; depois Isabel cahir de joelhos aos pés de sua prima. Se elle tivesse ouvido o que já sabemos, teria perfeitamente comprehendido, mas longe como estava, apenas podia ver sem ser visto das duas moças.

Loredano, vendo o cavalheiro passar, voltou-se para os seus companheiros:

—Ei-lo!... disse com um olhar que brilhou de alegria. Imbeceis! que attribuis ao céo aquillo que não sabeis explicar!...

E acompanhou estas palavras com um sorriso de profundo desprezo.

—Esperai-me aqui.

—O que ides fazer? perguntou Ruy Soeiro.

O italiano se voltou sorprezo: depois levantou os hombros, como se a pergunta do seu companheiro não merecesse reposta.

Ruy Soeiro, que conhecia o caracter desse homem, entendeu o gesto; um resquicio de generosidade que ainda havia no seu coração corrompido, o fez segurar o braço do seu companheiro para rete-lo.

—Quereis que falle?... disse Loredano.

—É mais um crime inutil! acudio Bento Simões.

O italiano fitou nelle os olhos frios como o contacto do aço polido:

—Ha um mais util, amigo Simões; cuidaremos delle a seu tempo.

E sem esperar a replica, metteu-se pelas moitas que cobrião o campo nesse lugar, e seguio Alvaro que continuava lentamente o seu caminho.

O moço, apezar de preoccupado, tinha o habito da vida arriscada dos nossos caçadores do interior, obrigados a romper as mattas virgens.

Ahi o homem vê-se cercado de perigos por todos os lados; da frente, das costas, á esquerda, á direita, do ar, da terra, póde surgir de repente um inimigo occulto pela folhagem, que se aproxima sem ser visto.

A unica defeza é a subtileza do ouvido que sabe distinguir entre os rumores vagos da floresta aquelle que é produzido por uma acção mais forte do que a do vento; assim como a rapidez e certeza da vista que vai perscrutar as sombras das moitas, e devassar a folhagem espessa das arvores.

Alvaro tinha esse dom dos caçadores habeis; apenas o vento lhe trouxe um estalido de folhas seccas pisadas levantou a cabeça, e circulou o campo com os olhos: depois por prudencia encostou-se ao grosso tronco de uma arvore isolada, e cruzando os braços sobre a clavina esperou.

Nessa posição o inimigo, qualquer que elle fosse, féra, reptil ou homem, não o podia atacar senão de face; elle o veria aproximar-se e o receberia.

Loredano agachado entre as folhas tinha notado este movimento e hesitára; mas o seu segredo estava compromettido; a suspeita que concebêra de que Alvaro fôra quem ha pouco o ameaçára com a palavra traidores, acabava de confirmar-se no seu espirito, vendo a prudencia com que o moço evitava uma sorpreza.

O cavalheiro era um inimigo terrivel, e jogava todas as armas com uma destreza admiravel.

A lamina de sua espada como uma cobra elastica, flexivel, rapida, volteava sibilando e atirava o bote com a velocidade e a certeza do cascavel. O arremesso do seu punhal, vibrado pelo braço ligeiro e auxiliado pela agilidade do corpo, era como raio; listrava no ar uma cruz de fogo, e cahia sobre o peito do inimigo e o fulminava.

A bala de sua clavina era uma mensageira fiel que ia buscar a ave que parava no ar, ou a folha que o vento agitava. Muitas vezes na esplanada da casa, o italiano vira Alvaro, depois de ter feito milagres de pontaria, quebrar no ar as settas que Pery atirava de proposito para lhe servirem de alvo.

Cecilia applaudia batendo as mãos; Pery ficava contente por vêr a senhora alegre; e embora para elle que fazia muito mais, aquillo fosse uma cousa vulgar, deixava que o moço conservasse a superioridade, e fosse por todos admirado.

Mas Alvaro sabia que só um homem podia lutar com elle, elevar-lhe vantagem em qualquer arma, e esse era Pery; porque juntava á arte a superioridade do selvagem habituado desde o berço á guerra constante que é a sua vida.

Loredano tinha pois razão de hesitar em atacar de frente um inimigo desta força; mas a necessidade urgia, e o italiano era corajoso e agil tambem. Endireitou para o cavalheiro, resolvido a morrer ou a salvar a sua vida e a sua fortuna.

Alvaro vendo-o aproximar-se rugou o sobr'olho; depois do que se tinha passado na vespera e nessa manhã, odiava aquelle homem ou antes desprezava-o.

—Aposto que tivestes o mesmo pensamento que eu, Sr. cavalheiro? disse o aventureiro, quando chegou a tres passos de distancia.

—Não sei o que pretendeis dizer, replicou o moço seccamente.

—Pretendo, Sr. cavalheiro, que dous homens que se odeião achão-se melhor n'um lugar solitario, do que no meio dos companheiros.

—Não é odio que me inspirais, é desprezo; é mais do que desprezo, é asco. O reptil que se roja pelo chão causa-me menos repugnancia do que o vosso aspecto.

—Não disputemos sobre palavras, Sr. cavalheiro; tudo vem dar no mesmo; eu vos odeio, vos me desprezais; podia dizer-vos outro tanto.

—Miseravel!... exclamou o cavalheiro levando a mão á guarda da espada.

O movimento foi tão rapido, que a palavra soou ao mesmo tempo que a ponta da lamina de aço batendo na face do italiano.

Loredano quiz evitar o insulto, mas não era tempo: seus olhos injectárão-se de sangue:

Sr. cavalheiro, deveis-me satisfação do insulto que me acabais de fazer.

—É justo, respondeu Alvaro com dignidade; mas não á espada que é a arma do cavalheiro; tirai o vosso punhal de bandido, e defendei-vos.

Proferindo estas palavras, o moço embainhou a espada com toda a calma, segurou-a á cinta para não embaraçar-lhe os movimentos e sacou o seu punhal, excellente folha de Damasco.

Os dous inimigos marchárão um para o outro, e lançárão-se; o italiano era agil e forte, e defendia-se com summa dextreza; por duas vezes já, o punhal de Alvaro, roçando-lhe o pescoço, tinha cortado o talho de seu gibão de belbute.

De repente Loredano, fincando os pés, deo um pulo para tráz, e ergueu a mão esquerda em signal de tregoa.

—Estais satisfeito? perguntou Alvaro.

—Não, Sr. cavalheiro; mas penso que em vez de nos estarmos aqui a fatigar inutilmente, melhor seria tomarmos um meio mais expedito.

—Escolhei o que quizerdes, menos a espada; o mais me é indifferente.

—Outra cousa ainda; se nos batermos aqui, podemos incommodar-nos reciprocamente; porque pretendo matar-vos, e creio que o mesmo desejo tendes a meu respeito. Ora é preciso que desappareça o que ficar, e o outro não leve um vestigio que o possa denunciar.

—Que quereis fazer neste caso?

—O rio está aqui perto, tendes a vossa clavina; collocar-nos-hemos cada um sobre uma ponta de rochedo, aquelle que cahir morto ou simplesmente ferido, pertencerá ao rio e á cachoeira; não incommodará o outro.

—Tendes razão, é melhor assim; eu me envergonharia se D. Antonio de Mariz soubesse que me bati com um homem da vossa qualidade.

—Sigamos, Sr. cavalheiro; nós nos odiamos bastante para não gastarmos tempo em palavras.

Ambos tomárão na direcção do rio, cujo estrepito ouvia-se distinctamente.

Alvaro, valente e corajoso, desprezava muito o seu inimigo para ter o menor receio delle; demais a sua alma nobre e leal, incapaz da mais pequena vilania, não pensava na traição. Nunca podia lembrar-lhe que um homem que o viera provocar e ia medir-se com elle n'um combate franco, levasse a infamia a ponto de querer feri-lo pelas costas.

Assim, continuou a caminhar, quando o italiano, deixando cahir de proposito a cinta da espada, parou um instante para apanha-la e prende-la de novo.

O que se passava então no seu espirito não estava de acordo com as idéas nobres do cavalheiro; vendo o moço adiantar-se, disse comsigo?

—Preciso da vida deste homem, eu a tenho! Seria uma loucura deixa-la escapar, e pôr a minha em risco. Um duello neste deserto, sem testemunhas, é um combate em que a victoria pertence ao mais esperto.

Dizendo isto o italiano ia armando a sua clavina com toda a cautela, e seguia de longe a Alvaro, afim de que o ranger do ferro ou o silencio de suas pisadas não excitassem a attenção do moça.

Alvaro caminhava tranquillamente; seu pensamento estava bem longe d'elle, e esvoaçava em torno da imagem de Cecilia, junto da qual via os grandes olhos negros e avelludados de Isabel embebidos n'uma languidez melancolica: era a primeira vez que aquelle rosto moreno e aquella belleza ardente e voluptuosa se viera confundir em sonhos com o anjo louro de seus amores.

Donde provinha isto? O moço não sabia explicar; mas um quer que seja, como um presentimento, lhe dizia que naquella scena da janella havia entre as duas moças um segredo, uma confidencia, uma revelação, e que esse segredo era elle.

Assim, quando a morte se aproximava, quando já o bafejava e ia toca-lo, elle descuidoso e pensativo repassava no pensamento idéas de amor, e alimentava-se de esperanças. Não se lembrava de morrer; tinha consciencia de si e fé em Deus; mas se por acaso uma fatalidade cahisse sobre elle, consolava-o a idéa de que Cecilia, offendida, lhe perdoaria um resto de resentimento que talvez conservasse.

Nisto metteu a mão no seio do gibão e tirou o jasmim que a moça lhe dera, e que já tinha murchado ao contacto dos seus labios ardentes; ia beija-lo ainda uma vez, quando lembrou-se que o italiano podia vê-lo.

Mas não ouvio os passos do aventureiro; a primeira idéa que lhe veio foi que elle tinha fugido; e como a cobardia para as almas grandes se associa á baixeza, lembrou-se de uma traição.

Quiz voltar-se, e entretanto não o fez. Mostrar que tinha medo daquelle miseravel revoltava os seus brios de cavalheiro; ergueu a cabeça com altivez e seguio.

Mal sabia elle que nesse momento o fecho da clavina movido por um dedo seguro cahia, e que a bala ia partir guiada pelo olhar certeiro do italiano.