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O Guarany: romance brazileiro, Vol. 1 (of 2) cover

O Guarany: romance brazileiro, Vol. 1 (of 2)

Chapter 28: VII NO PRECIPICIO
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About This Book

An adventurous romantic narrative set on a wild colonial frontier traces fraught encounters and alliances between native communities and European settlers. The plot centers on a courageous indigenous protector whose devotion to a settler household and to an intense cross-cultural attachment drives daring rescues, confrontations, and personal sacrifice. Vivid natural description alternates with action, domestic scenes, and reflective passages, and recurring concerns include honor, loyalty, cultural difference, and the influence of landscape on human conduct.

VII
NO PRECIPICIO

Pery tinha parado para ver Cecilia de longe.

Ayres Gomes ergueu-se, correu para o indio, e deitou-lhe a mão ao braço.

—Afinal pilhei-o, dom caboclo! Safa!... Deo-me agua pela barba?... disse o escudeiro resfolgando.

—Deixa! respondeu o indio sem se mover.

—Deixar-te! Uma figa! Depois de ter batido esta mattaria á tua procura! Tinha que ver!

Com effeito D. Lauriana desejando ver o indio fóra de casa quanto antes, havia expedido o escudeiro em busca de Pery para trazê-lo á presença de D. Antonio de Mariz.

Ayres Gomes, fiel executor das ordens de seus amos corria o matto havia boas duas horas; todos os incidentes comicos, possiveis ou imaginaveis, tinhão-se como que de proposito collocado em seu caminho.

Aqui era uma casa de maribondos, que elle assanhava com o chapéo, e o fazião baterem retirada honrosa, correndo a todo o estirão das pernas; ali era um desses lagartos de longa cauda que pilhado de improviso se enrolára pelas pernas do escudeiro com uma formidavel chicotada.

Isto sem fallar das ortigas, e das unhas de gato, cabeçadas e quedas, que fazião o digno escudeiro arrenegar-se, e maldizer da selvajaria de semelhante terra! Ah! quem o dera nos tojos e charnecas de sua patria!

Tinha pois Ayres Gomes razão de sobra para não querer largar o indio, causa de todas as tribulações por que passara; infelizmente Pery não estava de accordo.

—Larga, já te disse! exclamou o indio começando a irritar-se.

—Tem santa paciencia, caboclinho de minha alma! Fé de Ayres Gomes, não é possivel; e tu sabes! Quando eu digo que não é possivel, é como se a nossa madre Igreja... Que diabo ia rezar-lhe?... Ai! que chamei sem querer a madre Igreja do diabo! Forte heresia! Quem se mette a tagarellar dos santos!... Virgem Santissima! Estou incapaz! Cala-te, boca! não me pies mais!

Emquanto o escudeiro desfiava esse discurso, meio soliloquio, no qual havia ao menos o merito da franqueza, Pery não o ouvia, embebido como estava em olhar para a janella; depois, desprendendo-se da mão que segurava-lhe o braço, continuou o seu caminho.

Ayres acompanhou-o pisada sobre pisada, com a impassibilidade de um auto mato.

—Que vens fazer? perguntou-lhe o indio.

—E esta! Seguir-te e levar-te á casa; é a ordem.

—Pery vai longe!

—Ainda que vás ao fim do mundo, é o mesmo, filho.

O indio voltou-se para elle com um gesto decidido.

—Pery não quer que tu o sigas.

—Lá quanto a isto, mestre bugre, perdes o teu tempo; por força ainda ninguem levou o filho de meu pai, que bom é que, saibas foi homem de faca e calhão.

—Pery não manda duas vezes!

—Nem Ayres Gomes olha atrás quando executa uma ordem.

Pery, o homem da cega dedicação, reconheceu no escudeiro o homem da obediência passiva; sentio que não havia meio de convencer este executor fiel: assim, resolveu livrar-se delle por meio decisivo.

—Quem te deo a ordem?

D. Lauriana.

—Para que?

—Para te levar á casa.

—Pery vai só.

—Veremos!

O indio tirou a sua faca.

—Heim!... gritou o escudeiro. A conversa vai agora nesse tom? Se o Sr. D. Antonio não me tivesse prohibido expressamente, eu te mostraria! Mas... Podes matar-me, que eu não arredo pé.

—Pery só mata o seu inimigo, e tu não és; tu teimas, Pery te amarra.

—Como?... Como é lá isso?

O indio começou a cortar com a maior calma um longo cipó que se engrasava pelos galhos das arvores, o escudeiro meio espantado sentia a mostarda subir-lhe ao nariz, e esteve quasi não quasi, atirando-se ao selvagem.

Mas a ordem de D. Antonio era formal; via-se pois obrigado a respeitar o indio; ornais que o digno escudeiro podia fazer era defender-se valentemente.

Quando Pery cortou umas dez braças do cipó que ia enrolando ao pescoço, embainhou a faca, e voltou-se para o escudeiro sorrindo. Ayres Gomes sem trepidar puxou da espada, e pôz-se em guarda, segundo as regras da nobre e liberal arte do jogo de espadão, que professava desde a mais tenra idade.

Era um duello original e curioso, como talvez não tenha havido segundo, combate em que as armas lutavão contra a agilidade, e o ferro contra um vime delgado.

—Mestre Cacique, disse o escudeiro rugando o sobr'olho; deixa-te de partes: porque, palavra de Ayres Gomes, se te encostas, espeto-te na durindana!

Pery estendeu o labio inferior, em signal de pouco caso; e começou a voltear rapidamente em torno do escudeiro, n'um circulo de seis passos de diametro que o punha fora do alcance da espada: a sua tenção era assaltar o adversario pelas costas.

Ayres Gomes apoiado a um tronco, e obrigado a gyrar sobre si mesmo, para defender as costas, sentio a cabeça tontear e vacillou. O indio aproveitou o momento, atirou-se a elle, pilhou-o de costas, agarrou-o pelos dous braços, e passou a amarra-lo ao mesmo tronco da arvore em que estava encostado.

Quando o escudeiro voltou a si da vertigem, uma rodilho de cipós ligava-o ao tronco desde o joelho até os hombros; o indio seguira seu caminho placidamente.

—Bugre de um demo! Perro infernal! gritava o digno escudeiro, tu me pagarás com lingua de palmo!...

Sem prestar a menor attenção á ladainha de nomes injuriosos com que o mimoseava Ayres Gomes, Pery aproximou-se da casa.

Via Cecilia, com a face apoiada na mão, a olhar tristemente o fosso profundo que passava em baixo de sua janella.

A menina, depois do primeiro momento de sorpreza em que adivinhou o ciume de Isabel e o seu amor por Alvaro, conseguio dominar-se. Tinha a nobre altivez da castidade; não quiz deixar ver a sua prima o que sentia nesse momento; era boa tambem, amava Isabel, e não desejava magoa-la.

Não lhe disse pois uma só palavra de exprobração nem de queixa; ao contrario ergueu-a, beijou-a com carinho, e pedio-lhe que a deixasse só.

—Pobre Isabel! murmurou ella; com deve ter soffrido!

Esquecia-se de si para pensar em sua prima; mas as lagrimas que saltárão de seus olhos, e o soluço que fez arfar os seios ruinosos a chamarão ao seu proprio soffrimento.

Ella, a menina alegre e feticeira que só aprendera a sorrir, ella, o anginho do prazer que bafejava tudo quando a rodeava, achou um gozo ineffavel em chorar. Quando enxugou as lagrimas, soffria menos; sentio-se alliviada; pôde então reflectir sobre o que havia passado.

O amor revelava-se para ella sob uma nova forma; até aquelle dia a affeição que sentia por Alvaro era apenas um enleio que a fazia corar, e um prazer que a fazia sorrir.

Nunca se lembrára que esta affeição podesse passar daquillo que era, e produzir outras emoções que não fossem o rubor e o sorriso; o exclusivismo do amor, a ambição de tornar seu e unicamente seu o objecto da paixão, acabava de ser-lhe revelado por sua prima.

Ficou por muito tempo pensativa; consultou o seu coração, e conheceu que não amava assim; nunca a affeição que tinha a Alvaro podia obriga-la a odiar sua prima, a quem queria como irmã.

Cecilia não comprehendia essa luta do amor com os outros sentimentos do coração, luta terrivel em que quasi sempre a paixão victoriosa subjuga o dever, e a razão. Na sua ingenua simplicidade acreditava que podia ligar perfeitamente a veneração que tinha por seu pai, o respeito que votava a sua mãi, o affecto que sentia por Alvaro, o amor fraternal que consagrava a seu irmão e a Isabel, e a amizade que tinha a Pery.

Estes sentimentos erão toda a sua vida; no meio delles sentia-se feliz: nada lhe faltava: tambem nada mais ambicionava. Emquanto podesse beijar a mão de seu pai e de sua mãi, receber uma caricia de seu irmão e de sua prima, sorrir a seu cavalheiro e brincar com o seu escravo, a existencia para ella seria de flôres.

Assustou-se pois com a necessidade de quebrar um dos fios de ouro que tecião os seus dias innocentes e felizes; soffreu com a idéa de ver em luta duas das affeições calmas e serenas de sua alma.

Teria menos um encanto na sua vida, menos uma imagem nos seus sonhos menos uma flor na sua alma; porém não faria a ninguem desgraçado, e sobretudo a sua prima Isabel, que ás vezes se mostrava tão melancolica.

Restavão-lhe suas outras affeições; com ellas pensava Cecilia que a existencia ainda podia sorrir-lhe; não devia tornar-se egoista.

Para assim pensar era preciso ser uma menina pura e isenta como ella; era preciso ter o coração como recente botão, que ainda não começou a desatar-se com o primeiro raio do sol.

Estes pensamentos adejavão ainda na mente de Cecilia emquanto ella olhava pensativa o fosso, onde tinha cahido o objecto que viera modificar a sua existencia.

—Se eu podesse obter essa prenda? dizia comsigo. Mostraria a Isabel como eu a amo e quanto a desejo feliz.

Vendo sua senhora olhar tristemente o fundo do precipicio, Pery comprehendeu parte do que passava no seu espirito; sem poder adivinhar como Cecilia soubera que o objecto tinha cahido alli, percebeu que a moça sentia por isso um pezar.

Nem tanto bastava para que o indio fizesse tudo afim de trazer a alegria ao rostinho de Cecilia: além de que já tinha promettido a Alvaro endireitar isto, como elle dizia na sua linguagem simples.

Chegou-se ao fosso.

Uma cortina de musgos e trepadeiras lastrando pelos bordas do profundo precipicio cobria as fendas da pedra: por cima era um topete de verde risonho sobre o qual adejavão as borboletas de côres vivas; em baixo uma cava cheia de limo onde a luz não penetrava.

Ás vezes ouvião-se partir do fundo do balseiro os silvos das serpentes, os pios tristes de algum passaro, que magnetisado ia entregar-se á morte; ou o tanger de um pequeno chocalho sobre a pedra.

Quando o sol estava a pino, como então, via-se entre a relva, sobre o calice das campanulas roxas, os olhos verdes de alguma serpente ou uma linda fita de escamas pretas e vermelhas enlaçando a baste de um arbusto.

Pery pouco se importava com estes habitantes do fosso e com o acolhimento que lhe farião na sua morada; o que o inquietava era o receio de que não tivesse luz bastante no fundo para descobrir o objecto que ia procurar.

Cortou o galho de uma arvore, que pela sua propriedade, os colonisadores chamárão candêa; tirou fogo, e começou a descer com o facho acceso. Foi só nessa occasião que Cecilia, embebida nos seus pensamentos, viu defronte de sua janella o indio a descer pela encosta.

A menina assustou-se; porque a presença de Pery lembrou-lhe de repente o que se passára pela manhã; era mais uma affeição perdida.

Dous laços quebrados ao mesmo tempo, dous habitos rompidos um sobre o outro, era muito; duas lagrimas correrão pelas suas faces, como se cada uma fosse vertida pelas cordas do coração que acabavão de ser vibradas.

—Pery!...

O indio levantou os olhos para ella.

—Tu choras, senhora? disse elle estremecendo.

A menina sorrio-lhe; mas com um sorriso tão triste que partia a alma.

—Não chores, senhora; disse o indio supplicante; Pery vai te dar o que desejas.

—O que eu desejo?...

—Sim; Pery sabe.

A moça abanou a cabeça.

—Está alli; e apontou para o fundo do precipicio.

—Quem te disse? perguntou a menina admirada.

—Os olhos de Pery.

—Tu viste?

—Sim.

O indio continuou a descer.

—Que vais fazer? exclamou Cecilia assustada.

—Buscar o que é teu.

—Meu!... murmurou melancolicamente.

—Elle te deo.

—Elle quem?

—Alvaro.

A moça córou; mas o susto reprimio o pejo; abaixando os olhos sobre o precipicio, tinha visto um reptil deslisando pela folhagem e ouvido o murmurio confuso e sinistro que vinha do fundo do abysmo.

—Pery, disse empallidecendo, não desças, volta!

—Não; Pery não volta sem trazer o que te fez chorar.

—Mas tu vais morrer!...

—Não tem medo.

—Pery, disse Cecilia com severidade, tua senhora manda que não desças.

O indio parou indeciso; uma ordem de sua senhora era uma fatalidade para elle: cumpria-se irremissivelmente.

Fitou na moça um olhar timido: nesse momento Cecilia, vendo Alvaro na ponta da esplanada junto da cabana do selvagem, retirava-se para dentro da janella córando.

O indio sorrio.

—Pery desobedece á tua voz, senhora, para obedecer ao teu coração.

E o indio desappareceu sob as trepadeiras que cobrião o precipicio.

Cecilia soltou um grito, e debruçou-se no parapeito da janella.