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O Guarany: romance brazileiro, Vol. 1 (of 2) cover

O Guarany: romance brazileiro, Vol. 1 (of 2)

Chapter 31: X DESPEDIDA
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About This Book

An adventurous romantic narrative set on a wild colonial frontier traces fraught encounters and alliances between native communities and European settlers. The plot centers on a courageous indigenous protector whose devotion to a settler household and to an intense cross-cultural attachment drives daring rescues, confrontations, and personal sacrifice. Vivid natural description alternates with action, domestic scenes, and reflective passages, and recurring concerns include honor, loyalty, cultural difference, and the influence of landscape on human conduct.

X
DESPEDIDA

D. Antonio aproximou-se de Pery e apertou-lhe a mão:

—O que eu te devo, Pery, não se paga; mas sei o que devo a mim mesmo. Tu voltas á tua tribu: apezar da tua coragem e esforço, pode a sorte da guerra não te ser favoravel, e cahires em poder de algum dos nossos. Este papel te salvará a vida e a liberdade; acceita-o em nome e de tua senhora e no meu.

O fidalgo entregou ao indio o pergaminho que ha pouco tinha escripto e voltou-se para seu filho:

—Este papel, D. Diogo, assegura a qualquer Portuguez de quem Pery possa ser prisioneiro, que D. Antonio de Mariz e seus herdeiros respondem por elle e pelo seu resgate, qualquer que fôr. É mais um legado que vos deixo a cumprir, meu filho.

—Ficai certo, meu pai, replicou o moço, que saberei responder á essa divida de honra, não só em respeito á vossa memoria, como em satisfação dos meus proprios sentimentos.

—Toda a minha familia aqui presente, disse o fidalgo dirigindo-se ao indio, te agradece ainda uma vez o que fizeste por ella; reunimo-nos todos para te desejarmos a boa volta ao seio dos teus irmãos e ao campo onde nasceste.

Pery fitou o olhar brilhante no rosto de cada uma das pessoas presentes, como para dizer-lhes o adeus que seus labios naquella occasião não podião exprimir.

Apenas seus olhos se fitarão em Cecilia, impellido por uma força invencivel atravessou o aposento e foi ajoelhar-se aos pés de sua senhora.

A menina tirou do peito uma pequena cruz de ouro presa a uma fita preta, e deitou-a no pescoço do indio:

—Quando tu souberes o que diz esta cruz, volta, Pery.

—Não, senhora; de onde Pery vai, ninguem voltou.

Cecilia estremeceu.

O selvagem ergueu-se, e caminhou para D. Antonio de Mariz, que não podia dominar a sua emoção.

—Pery vai partir; tu mandas, elle obedece; antes que o sol deixe a terra, Pery deixará tua casa; o sol voltará amanhã, Pery não voltará nunca. Leva a morte no seio porque parte hoje; levaria a alegria se partisse no fim da lua.

—Por que razão? perguntou D. Antonio; desde que é necessario que nos separemos, tanto deves sentir hoje, como d'aqui a tres dias.

—Não, replicou o indio; tu vais ser atacado amanhã talvez, e Pery estaria comtigo para defender-te.

—Vou ser atacado? exclamou D. Antonio pensativo.

—Sim: podes contar.

E por quem?

—Pelo Aymoré.

—E como sabes isto? perguntou D. Antonio fitando nelle um olhar desconfiado.

O indio hesitou durante um momento; estudava a resposta.

—Pery sabe porque viu o pai e o irmão da india, que teu filho matou sem querer, olharem tua casa de longe, soltarem o grito da vingança, e caminharem para sua tribu.

—E tu o que fizeste?

—Pery viu-os passar; e vem te avisar para que te prepares.

O fidalgo fez com a cabeça um movimento de incredulidade.

—É preciso não te conhecer, Pery, para acreditar no que dizes; tu não podias olhar com indifferença para os inimigos de tua senhora e meus.

O indio sorrio tristemente.

—Erão mais fortes; Pery deixou que passassem.

D. Antonio começou a reflectir; parecia evocar as suas reminiscencias, e combinar certas circumstancias que tinha impressas na memoria.

Seu olhar abaixando-se do rosto de Pery, cahira sobre os hombros; a principio vago e distrahido como o de um homem que medita, começou a fixar-se e a distinguir um ponto vermelho quasi imperceptivel, que apparecia no saio de algodão do indio.

Á proporção que a vista se firmava, e que o objecto se desenhava mais distincto, o semblante do fidalgo se esclarecia, como se tivesse achado a solução de um difficil problema.

—Estás ferido? exclamou o fidalgo de repente.

Pery recuou um passo; mas D. Antonio lançando-se para elle entreabrio o talho de sua camisa, e tirou-lhe as duas pistolas da cinta; examinou-as, e viu que estavão descarregadas.

O cavalheiro depois deste exame cruzou os braços, e contemplou o indio com admiração profunda.

—Pery, disse elle, o que fizeste é digno de ti; o que fazes agora é de um fidalgo. Teu nobre coração pode bater sem envergonhar-se sobre o coração de um cavalheiro portuguez. Tomo-vos a todos por testemunhas, que vistes um dia D. Antonio de Mariz apertar ao seu peito um inimigo de sua raça e de sua religião como a seu igual em nobreza e sentimentos.

O fidalgo abrio os braços e deo em Pery o abraço fraternal consagrado pelos estylos da antiga cavallaria, da qual já naquelle tempo apenas restavão vagas tradições. O indio, de olhos baixos, commovido e confuso, parecia um criminoso em face do juiz.

—Vamos, Pery, disse D. Antonio, um homem não deve mentir, nem mesmo para esconder as suas boas acções. Responde-me a verdade.

—Falla.

—Quem disparou dous tiros junto ao rio, quando tua senhora estava no banho?

—Foi Pery.

—Quem atirou uma flexa que cahio junto de Cecilia?

Um Aymoré, respondeu o indio estremecendo.

—Porque a outra flexa ficou sobre o lugar onde estão os corpos dos selvagens?

Pery não respondeu.

—É escusado negares; tua ferida o diz. Para salvar tua senhora, te offereceste aos tiros dos inimigos; depois os mataste.

—Tu sabes tudo; Pery não é mais preciso: volta á sua tribu.

O indio lançou um ultimo olhar a sua senhora, e caminhou para a porta.

—Pery! exclamou Cecilia, fica; tua senhora manda.

Depois correndo para seu pai, e sorrindo-lhe entre as lagrimas, disse com um tom supplicante:

—Não é verdade? Elle não deve partir mais. Vós não podeis manda-lo embora, depois do que fez por mim?

—Sim! A casa onde habita um amigo dedicado como este, tem um anjo da guarda que vela sobre a salvação de todos. Elle ficará comnosco, e para sempre.

Pery, tremulo e palpitando de alegria e esperança, estava suspenso aos labios de D. Antonio.

—Minha mulher, disse o fidalgo dirigindo-se a D. Lauriana com uma expressão solemne, julgais que um homem que acaba de salvar pela segunda vez vossa filha pondo em risco a sua vida, que, despedido por nós, apezar da nossa ingratidão, a sua ultima palavra é uma dedicação por aquelles que o desconhecem, julgais que este homem deva sahir da casa onde tantas vezes a desgraça teria entrado, se elle ahi não estivera?

D. Lauriana, tirados os seus prejuizos, era uma boa senhora, e quando o seu coração se commovia sabia comprehender os sentimentos generosos. As palavras de seu marido achárão écho em sua alma.

—Não, disse ella levantando-se e dando alguns passos; Pery deve ficar, sou eu que vos peço agora esta graça, Sr. D. Antonio de Mariz; tenho tambem a minha divida a pagar.

O indio beijou com respeito a mão que a mulher do fidalgo lhe estendêra.

Cecilia batia as mãos de contente; os dous cavalheiros sorrião um para o outro, e comprehendião-se. O filho sentia um certo orgulho, vendo seu pai nobre, grande e generoso. O pai conhecia que seu filho o approvava, e seguiria o exemplo que lhe dava.

Neste momento Ayres Gomes appareceu no vão da porta e ficou estupefacto.

O que se passava era para elle uma cousa incomprehensivel, um enigma indecifravel para quem ignorava o que succedêra anteriormente.

Pela manhã, depois do almoço, D. Antonio de Mariz, chegando a uma janella da sala, vira uma grande nuvem negra abater-se sobre a margem do Paquequer. A quantidade dos abutres que formavão essa nuvem, indicava que o pasto era abundante; devia ser um ou muitos animaes de grande corpulencia.

Levado pela curiosidade natural em uma existencia sempre igual e monotona, o fidalgo desceu ao rio; encontrou junto da latada de jasmineiros que servia de casa de banho á Cecilia, uma pequena canôa em que atravessou para a margem opposta.

Ahi descobrio os corpos dos dous selvagens que immediatamente reconheceu pertencerem á raça dos Aymorés; viu que tinhão sido mortos com arma de fogo. Nesse momento não se lembrou de cousa alguma senão de que os selvagens ião talvez atacar a sua casa, e um terrivel presentimento cerrou-lhe o coração.

D. Antonio não era supersticioso; mas não podéra eximir-se de um receio vago quando soube da morte que D. Diogo tinha feito involuntariamente e por falta de prudencia; fôra este o motivo por que se tinha mostrado tão severo com seu filho.

Vendo agora o começo da realisação de suas sinistras previsões, aquelle receio vago que a principio sentira, redobrou; auxiliado pela disposição de espirito em que se achava, tornou-se em forte presentimento.

Uma voz interior parecia dizer-lhe que uma grande desgraça pesava sobre sua casa, e a existencia tranquilla e feliz que até então vivêra naquelle ermo ia transformar-se n'uma afflicção que elle não sabia definir. Sob a influencia desse movimento involuntario d'alma, que ás vezes sem motivo nos mostra a esperança ou a dôr, o fidalgo voltou á casa.

Perto viu dous aventureiros a quem ordenou que fossem immediatamente enterrar os selvagens, e guardassem o maior silencio sobre isto; não queria assustar sua mulher.

O mais já sabemos.

Pensou que podia a desgraça, que elle temia, recahir sobre sua pessoa, e quiz dispor a sua ultima vontade, assegurando o socego de sua familia.

Depois, o aviso de Pery lembrou-lhe de repente o que tinha visto; recordou-se das menores circumstancias, combinou-as com o que Isabel havia contado a sua tia, e conheceu o que se tinha passado como se o houvesse presenciado.

A ferida do indio que se abrira com as emoções por que passou durante o momento cruel em que sua senhora o mandava partir, tinha manchado o saio de algodão com um ponto quasi imperceptivel; este ponto foi um raio de luz para D. Antonio.

O escudeiro, o digno Ayres Gomes, que depois de esforços inauditos conseguira arrastar com o pé a sua espada, levanta-la e com ella cortar os laços que o prendião, tinha pois razão de ficar pasmado diante do que se passava.

Pery, beijando a mão de D. Lauriana, Cecilia contente e risonha, D. Antonio de Mariz e D. Diogo contemplando o indio com um olhar de gratidão; tudo isto ao mesmo tempo, era para fazer enlouquecer ao escudeiro.

Sobretudo para quem souber que apenas livre correra á casa unicamente com o fim de contar o occorrido e pedir a D. Antonio de Mariz licença para esquartejar o indio; resolvido se o fidalgo lh'a negasse despedir-se do seu serviço, no qual se conservava havia trinta annos; mas tinha uma injuria a vingar, e bem que lhe custasse deixar a casa, Ayres Gomes não hesitava.

D. Antonio vendo a figura espantada do escudeiro, rio-se; sabia que elle não gostava do indio, e quiz neste dia reconciliar todos com Pery.

—Vem cá, meu velho Ayres, meu companheiro de trinta annos. Estou certo que tu, a fidelidade em pessoa, estimarás apertar a mão de um amigo dedicado de toda a minha familia.

Ayres Gomes não ficou pasmado só; ficou uma estatua. Como desobedecer a D. Antonio que lhe fallava com tanta amizade? Mas como apertar a mão que o havia injuriado?

Se já se tivesse despedido do serviço, seria livre; mas a ordem o pilhára de sorpreza; não podia sophisma-la.

—Vamos, Ayres!

O escudeiro estendeu o braço hirto; o indio apertou-lhe a mão sorrindo.

—Tu és amigo; Pery não te amarrará outra vez.

Por estas palavras todos adivinhárão confusamente o que se tinha passado, e ninguem pôde deixar de rir-se.

—Maldito bugre! murmurava o escudeiro entre dentes; has de sempre mostrar o que és.

Era hora do jantar: o toque soou.