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O Guarany: romance brazileiro, Vol. 1 (of 2) cover

O Guarany: romance brazileiro, Vol. 1 (of 2)

Chapter 34: XIII TRAMA
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About This Book

An adventurous romantic narrative set on a wild colonial frontier traces fraught encounters and alliances between native communities and European settlers. The plot centers on a courageous indigenous protector whose devotion to a settler household and to an intense cross-cultural attachment drives daring rescues, confrontations, and personal sacrifice. Vivid natural description alternates with action, domestic scenes, and reflective passages, and recurring concerns include honor, loyalty, cultural difference, and the influence of landscape on human conduct.

XIII
TRAMA

Tornemos ao lugar onde deixámos Loredano e seus dois companheiros.

O italiano, depois que Alvaro e Pery se afastárão, levantou-se; passada a primeira emoção, sentira um accesso de raiva e desespero por lhe escaparem os seus inimigos.

Um instante lembrou-se de chamar os complices para atacar o cavalheiro e o indio; mas essa idéa desvaneceu-se logo; o aventureiro conhecia os homens que o seguião; sabia que podia fazer delles assassinos, mas nunca homens de energia e resolução.

Ora, os dous inimigos que tinha a combater, erão respeitaveis; e Loredano temeu comprometter ainda mais a sua causa, já muito mal parada. Devorou pois em silencio a sua raiva, e começou a reflectir nos meios de sahir da posição difficil em que se achava.

Neste meio tempo Ruy Soeiro e Bento Simões vinhão se aproximando receiosos do que tinhão visto, e temendo o menor incidente que complicasse a situação.

Loredano e seus companheiros olhárão-se em silencio um momento; havia nos olhos desses ultimos uma interrogação muda e inquieta, a que respondia perfeitamente o rosto pallido e contrahido do italiano.

—Não era elle!... murmurou o aventureiro com a voz surda.

—Como sabeis?

—Se fosse, acreditais que me deixasse a vida?

—É verdade; mas quem foi então?

—Não sei; porém agora pouco importa. Quem quer que fosse, é um homem que sabe o nosso segredo, e pode denuncia-lo, se já não o fez.

Um homem?... murmurou Bento Simões que até então se conservara silencioso.

—Sim; um homem. Quereis que fosse uma sombra?

—Uma sombra não, mas um espirito! acudío o aventureiro.

O italiano sorrio de escarneo.

—Os espiritos têm mais que fazer para se occuparem com o que vai por este mundo; guardai as vossas abusões, e pensemos seriamente no partido que devemos tomar.

—Lá quanto a isto, Loredano, é escusado; ninguem me tira que anda em tudo isto uma cousa sobrenatural.

—Quereis calar-vos, estúpido carola! replicou o italiano com impaciencia.

—Estupido!... Estupido sois vós que não vistes que não ha ouvido de creatura que podesse ouvir as nossas palavras, nem voz humana que saia da terra. Vinde! E vou mostrar-vos se o que digo é ou não a verdade.

Os dous acompanhárão Bento Simões e voltárão á touça de cardos, onde tivera lugar a sua entrevista.

—Ide, Ruy, e fallai á guela despregada para vêr se Loredano ouve uma palavra sequer.

Com effeito a experiencia mostrou-lhes o que Pery tinha conhecido; que o som da voz entaipado dentro daquella especie de tubo, se elevava e perdia no ar, sem que dos lados se podesse perceber a menor phrase. Se porém o italiano se tivesse collocado sobre o formigueiro que penetrava até ao chão onde ha pouco estavão sentados, teria tido a explicação da scena anterior.

—Agora, disse Bento Simões, entrai; eu gritarei e vereis que a palavra vos passará pela cabeça e não sahirá da terra.

—Quanto a isto pouco se me dá, respondeu o italiano. A outra observação, sim, tranquillisa-me. O homem que nos ameaçou não ouvio; desconfia apenas.

—Ainda insistis em que fosse um homem?

—Escutai, amigo Bento Simões; ha uma cousa de que tenho mais medo do que de uma cobra; é de um homem visionario.

—Visionario! dizei crente!

—Um vale outro. Visionario ou crente, se me fallais outra vez em espiritos e milagres, prometto-vos que ficareis neste lugar onde servireis de carniça aos urubús.

O aventureiro tornou-se esverdinhado; não era a idéa da morte e sim da pena eterna que segundo uma crença religiosa, soffrem as almas cujos corpos ficão insepultos, o que mais o horrorisava.

—Pensastes?

—Sim.

—Admittis que fosse um homem?

—Admitto tudo.

—Jurais?

—Juro.

—Sobre...

—Sobre minha salvação.

O italiano soltou o braço do miseravel, que cahio de joelhos pedindo ao Deus que offendia perdão para o perjurio que acabava de commetter.

Ruy Soeiro voltou: os tres seguirão calados o caminho que tinhão feito; Loredano pensativo, seus companheiros cabisbaixos.

Sentárão-se á sombra de uma arvore; ahi permanecêrão quasi uma hora, sem saber o que devião fazer, nem o que podião esperar. A posição era critica; reconhecião que se achavão n'um desses lances da vida, em que um passo, um movimento, precipita o homem no fundo do abysmo, ou o salva da morte que vai cahir sobre elle.

Loredano media a situação com a audacia e energia que nunca o abandonava nas occasiões extremas; uma luta violenta se travára neste homem, só tinha agora um sentimento, uma fibra; era a sêde ardente do gozo, sensualidade exacerbada pelo ascetismo do claustro e o isolamento do deserto. Comprimida desde a infancia, a sua organisação se expandira com vehemencia no meio desse paiz vigoroso, aos raios do sol ardente que fazia borbulhar o sangue.

Então, no delirio dos instinctos materiaes, surgirão duas paixões violentas.

Uma era a paixão do ouro; a esperança de poder um dia deleitar-se na contemplação do thesouro fabuloso que como Tantalo elle ia tocar e fugia-lhe.

A outra era a paixão do amor; a febre que lhe requeimava o sangue quando via aquella menina innocente e candida, que parecia não dever inspirar senão affeições castas.

A luta que naquelle momento o agitava dava-se entre essas duas paixões. Devia fugir e salvar o seu thesouro, perdendo Cecilia? Devia ficar e arriscar a vida para saciar o seu desejo infrene?

Ás vezes dizia comsigo que bastava-lhe a riqueza para poder escolher no mundo uma mulher que amasse; outras parecia-lhe que o universo inteiro sem Cecilia ficaria deserto, e inutil lhe seria todo o ouro que ia conquistar.

Por fim ergueu a cabeça. Seus companheiros esperavão uma palavra sua como o oraculo do seu destino; preparárão-se para ouvi-lo.

—Só ha duas cousas a fazer; ou entrarmos na casa, ou fugirmos daqui mesmo; é preciso resolver. Que pensais vós?

—Eu penso, disse Bento Simões tremulo ainda, que devemos fugir quanto antes, e andar dia e noite sem parar.

—E vós, Ruy, sois do mesmo aviso?

—Não; fugir é nos denunciar e perder. Tres homens sós neste sertão, obrigados a evitar o povoado, não podem viver; temos inimigos por toda a parte.

—Que propondes então?

—Que entremos em casa como se nada se tivesse passado; ou estamos descobertos, e neste caso ainda faltão as provas para nos condemnarem; ou ignorão tudo e não corremos o menor risco.

—Tendes razão, disse o italiano, devemos voltar; nessa casa está a nossa fortuna, ou a nossa ruina. Achamo-nos n'uma posição em que devemos ganhar tudo ou perder tudo.

Houve longa pausa durante que o italiano reflectia.

—Com quantos homens contais, Ruy? perguntou elle.

—Com oito.

—E vós, Bento?

—Sete.

—Decididos?

—Promptos ao menor signal.

—Bem, disse o italiano com o desempenho de um chefe dispondo o plano da batalha; trazei cada um os vossos homens amanhã a esta hora; é preciso que á noite tudo esteja concluido.

—E agora o que vamos fazer? perguntou Bento Simões.

—Vamos esperar que escureça; á bocca da noite nos achegaremos da casa. Um de nós á sorte entrará primeiro; se nada houver, dará signal aos outros. Assim, quando um se perca, dois ao menos terão ainda esperança de salvar-se.

Os aventureiros resolverão passar o dia no matto; uma caça, algumas fructas silvestres derão-lhes simples mas abundante refeição.

Por volta de cinco horas da tarde se encaminhárão á casa, afim de sondarem o que passava, e realisarem o seu projecto.

Antes de partirem, Loredano carregou a clavina, mandou seus companheiros carregar as suas, e disse-lhes:

—Assentai bem nisto. Na posição difficil em que estamos, quem não é nosso amigo é nosso inimigo. Póde ser um espião, um denunciante; em todo o caso será depois menos um que teremos contra nós.

Os dous comprehendêrão a justeza dessa observação, e seguirão com as armas engatilhadas, olho vivo e ouvido alerta.

Apezar porém da sua attenção, não vîrão agitar-se as folhas a dous passos delles, e estender-se pelos arbustos uma oudulação que parecia produzida pela correnteza do vento.

Era Pery; havia um quarto d'hora que elle acompanhava os aventureiros como a sua sombra; o indio deixando D. Antonio dera pela sua ausencia, e conjecturando que elles tramavão alguma cousa, lançou-se em sua procura.

O italiano e seus companheiros caminhavão já havia pedaço, quando Bento Simões parou:

—Quem entrará primeiro?

—A sorte decidirá, respondeu Ruy.

—Como?

—Desta maneira, disse o italiano. Vêdes aquella arvore? O que primeiro chegar a ella será o ultimo a entrar; o ultimo será o primeiro.

—Está dito!

Os tres mettêrão as armas á cinta, e preparárão-se para a corrida.

Pery ouvindo-os teve uma inspiração: os aventureiros ião separar-se; como Loredano, elle tambem disse, comsigo:

—O ultimo será o primeiro.

E tomando tres flechas, esticou a corda do arco; mataria os aventureiros sem que um percebesse a morte dos outros.

Os tres partirão; mas não tinhão feito uma braça de caminho quando Bento Simões tropeçando, foi de encontro a Loredano, e estendeu-se no chão ao fio comprido do lombo.

Loredano soltou uma blasphemia, Bento gritou misericordia; Ruy que já ia adiante, voltou julgando que alguma cousa succedia.

O plano de Pery tinha gorado.

—Sabeis, disse Loredano, que no pareo perde aquelle que se deixou cahir. Sereis o primeiro, amigo Bento.

O aventureiro não replicou.

Pery não perdêra a esperança de lhe deparar a fortuna outra occasião favoravel para realisar o seu projecto; seguio-os. Foi então que de longe por baixo das arvores avistou Alvaro na mesma direcção em que ião os aventureiros; despedindo uma setta por elevação dera ao cavalheiro o primero signal, e os outros que o fizerão afastar-se.

Deixando Alvaro, a intenção do indio era atalhar os aventureiros, espera-los junto á cerca; e quando elles se separassem para entrar a um e um, mata-los.

Mas uma fatalidade parecia perseguir o indio, e proteger os inimigos.

Quando Bento Simões, destacando-se dos companheiros entrou na cerca, Pery ouvio naquella direcção a voz de Cecilia que voltava do passeio com seu pai e sua prima.

A mão do indio, que nunca tremêra no meio do combate, cahio inerte; escapou-lhe o arco, só com a idéa de que a setta que ia atirar podesse assustar a menina, quanto mais offendê-la.

Bento Simões passou incolume.