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O Guarany: romance brazileiro, Vol. 1 (of 2) cover

O Guarany: romance brazileiro, Vol. 1 (of 2)

Chapter 35: XIV A CHACARA
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About This Book

An adventurous romantic narrative set on a wild colonial frontier traces fraught encounters and alliances between native communities and European settlers. The plot centers on a courageous indigenous protector whose devotion to a settler household and to an intense cross-cultural attachment drives daring rescues, confrontations, and personal sacrifice. Vivid natural description alternates with action, domestic scenes, and reflective passages, and recurring concerns include honor, loyalty, cultural difference, and the influence of landscape on human conduct.

XIV
A CHACARA

Pery viu passar pouco depois Loredano e Ruy Soeiro.

Era a terceira vez que os aventureiros depois de estarem na sua mão lhe escapavão por uma especie de fatalidade.

O indio reflectio alguns momentos, e tomou uma resolução definitiva; modificou inteiramente o seu plano. A principio decidira não atacar os tres inimigos de frente, não porque os temesse, mas sim porque receiava que morrendo podessem realisar a salvo o projecto, cujo segredo só elle sabia.

Conheceu porém que não havia remedio senão recorrer a este expediente; o tempo corria; de um momento para outro podia o italiano executara sua trama.

O que precisava era achar um meio para no caso de succumbir prevenir a D. Antonio de Mariz do perigo que o ameaçava; este meio havia já acudido ao pensamento do indio.

Foi ter com Alvaro que o esperava.

O moço já o tinha esquecido; pensava em Cecilia, na sua affeição quebrada, na sua mais doce esperança murcha, e talvez perdida para sempre.

Ás vezes tambem apresentava-se ao seu espirito a imagem melancolica de Isabel; lembrava-se que ella tambem amava, e não era amada. Esta lembrança creava certo laço entre elle e a moça; ambos soffrião pela mesma causa, ambos sentião o mesmo pezar, e curtião igual desengano.

Depois vinha a idéa de que era a elle que Isabel amava; sem querer repassava na memoria as ternas palavras; revia o sorriso triste e os olhares de fogo que se avelludavão com alanguidez do amor.

Parecia-lhe que sentia ainda o halito perfumado da moça, a pressão da cabeça desfallecida em seu hombro, o contacto das mãos tremulas, e o echo das queixas murmuradas pela voz maviosa.

O coração lhe palpitava com violencia; esquecia-se revendo a bella imagem, de um moreno suave, a que o amor dava reflexos e uma aureola esplendida.

Mas de repente estremecia, como se a moça ainda estivesse perto delle; passava a mão pela fronte para arrancar as reminiscencias que o incommodavão; e tornava á indifferença de Cecilia e ao desengano de suas esperanças.

Quando Pery se aproximou, Alvaro estava n'um dos momentos de tedio e desapego da vida, que succedem ás dores profundas.

—Diz-me, Pery. Fallaste de inimigos?

—Sim; respondeu o indio.

—Quero conhecê-los.

—Para que?

—Para ataca-los.

—Mas são tres.

—Melhor.

O indio hesitou:

—Não; Pery quer combater só os inimigos de sua senhora; se elle morrer tu saberás tudo; acaba então o que Pery tiver começado.

—Para que este mysterio? Não podes dizer já quem são esses inimigos?

—Pery póde; mas não quer dizer.

—Porque?

—Porque tu és bom e pensas que os outros tambem são; tu defenderás os máos.

—Oh! que não. Falla!

—Ouve. Se Pery não apparecer amanhã, tu não tornarás a vê-lo: mas a alma de Pery voltará para te dizer os nomes delles.

—Como?

—Tu verás. São tres; querem offender a senhora, matar seu pai, a ti, a todos da casa. Tem outros que os seguem.

—Uma revolta!... exclamou Alvaro.

—O primeiro delles quer fugir e levar Cecy, que tu amas; mas Pery não deixará.

—É impossivel! disse o moço surprendido.

Pery te diz verdade.

—Não creio!...

Com effeito o cavalheiro attribuindo as desconfianças do indio a uma exageração filha da sua dedicação extrema pela filha de D. Antonio, não podia acreditar no horrivel attentado: sua direitura de sentimentos repellia a possibilidade de um crime tal.

O fidalgo era amado e respeitado por todos os aventureiros: nunca durante dez annos que o moço o acompanhava se tinha dado na banda um só acto de insubordinação contra a pessoa do chefe; havia faltas de disciplina, rixas entre os companheiros, tentativas de deserção; mas não passava disto.

O indio sabia que Alvaro duvidaria do que se passava; e por isso se obstinava em guardar parte do segredo, receiando que o moço com o seu cavalheirismo não tomasse o partido dos tres aventureiros.

—Tu duvidas de Pery?

—Quem faz uma accusação tal, precisa prova-la. Tu és um amigo, Pery; mas os outros tambem o são, e têm o direito de se defenderem.

—Quando um homem vai morrer, tu julgas que elle mente? perguntou o indio com firmeza.

—Que queres dizer com isto?

—Pery vai vingar sua senhora; vai se separar de tudo quanto ama; se elle perder a vida dirás ainda que se engana?

Alvaro foi abalado pelas palavras do indio.

—Melhor é que falles a D. Antonio de Mariz.

—Não; elle e tu servem para combater homens que atacão pela frente; Pery sabe caçar o tigre na floresta, e esmagar a cobra que vai lançar o bote.

—Mas então o que queres de mim?

—Que se Pery morrer, acredites no que elle te diz e faças o que elle fez; que salves a senhora!

—Assassinar?... Nunca, Pery; nunca o meu braço brandirá o ferro senão contra o ferro!

O indio lançou ao moço um olhar que brilhou nas trevas.

—Tu não amas Cecy!

Alvaro estremeceu.

—Se tu a amasses, matarias teu irmão para livra-la de um perigo.

—Pery, talvez não comprehendas o que vou dizer-te. Daria a minha vida sem hesitar por Cecilia; mas a minha honra pertence a Deus e á memoria de meu pai.

Os dous homens olhárão-se um momento em silencio; ambos tinhão a mesma grandeza de alma, e a mesma nobreza de sentimento; entretanto as circumstancias da vida havião creado nelles um contraste.

Em Alvaro, a honra e um espirito de lealdade cavalheiresca dominavão todas as suas acções; não havia affeição ou interesse que podesse quebrar a linha invariavel que elle havia traçado, e era a linha do dever.

Em Pery a dedicação sobrepujava tudo; viver para sua senhora, crear em torno della uma especie de providencia humana, era a sua vida; sacrificaria o mundo se possivel fosse, contanto que podesse como o Noé dos indios, salvar uma palmeira onde abrigar Cecilia.

Entretanto essas duas naturezas, uma filha da civilisação, a outra filha da liberdade selvagem, embora separadas por distancia immensa, comprehendião-se: a sorte lhes traçára um caminho differente; mas Deus vasára em suas almas o mesmo germen de heroismo, que nutre os grandes sentimentos.

Pery conheceu que Alvaro não cederia; Alvaro sabia que Pery apezar de sua recusa, cumpriria exactamente o que tinha resolvido.

O indio a principio pareceu impressionado pela obstinação do cavalheiro; porém ergueu a cabeça com um gesto altivo, e batendo com a mão no peito largo e vigoroso, disse em tom de energia:

—Pery só, defenderá sua senhora: não precisa de ninguem. É forte; tem como a andorinha as azas de suas flechas; como a cascavel o veneno das settas; como o tigre a força de seu braço; como a ema a velocidade de sua carreira. Só póde morrer uma vez; mas uma vida lhe basta.

—Pois bem, amigo, respondeu o cavalheiro com nobreza, vais realisar o teu sacrificio; eu cumprirei o meu dever. Tenho uma vida tambem, e a minha espada. Farei de uma a sombra de Cecilia; com a outra traçarei em torno della um circulo de ferro. Podes ficar certo que os inimigos que passarem por cima de teu corpo acharão o meu antes de chegarem á tua senhora.

—Tu és grande; podias ter nascido no deserto, e ser o rei das florestas; Pery te chamaria irmão.

Apertárão as mãos e dirigirão-se á casa; em caminho Alvaro lembrou-se que ainda não conhecia os homens contra os quaes tinha de defender Cecilia; perguntou seus nomes; Pery recusou formalmente e prometteu que o cavalheiro saberia, quando fosse tempo.

O indio tinha a sua idéa.

Chegando á casa os dous separárão-se; Alvaro ganhou o aposento que occupava; Pery encaminhou-se para o jardim de Cecilia.

Erão então oito horas da noite, toda a familia se achava reunida na cêa; o quarto da menina estava ás escuras. Pery examinou os arredores para vêr se tudo estava tranquillo e em socego; e sentou-se n'um banco do jardim.

Meia hora depois uma luz esclareceu a janella do quarto, e a porta abrindo-se deixou vêr o corpinho gracioso de Cecilia que se destacava no vão esclarecido.

A menina avistando o indio correu para elle:

—Meu pobre Pery, disse ella; tu soffreste hoje muito, não é verdade? E achaste tua senhora bem má e bem ingrata, porque te mandou partir! Mas agora, meu pai disse: Ficarás comnosco para sempre.

—Tu és boa senhora: tu choravas quando Pery ia partir; pediste para elle ficar.

—Então não tens queixa de Cecy? disse a menina sorrindo.

—O escravo póde ter queixa de sua senhora? tornou o indio simplesmente.

—Mas tu não és escravo!... respondeu Cecilia com um gesto de contrariedade; tu és um amigo sincero e dedicado. Duas vezes me salvaste a vida; fazes impossiveis para me veres contente e satisfeita; todos os dias te arriscas a morrer por minha causa.

O indio sorrio:

—Que queres que Pery faça de sua vida, senhora?

—Quero que estime sua senhora e lhe obedeça, e aprenda o que ella lhe ensinar, para ser um cavalheiro como meu irmão D. Diogo e o Sr. Alvaro.

Pery abanou a cabeça.

—Olha, continuou a menina; Cecy vai te ensinar a conhecer o Senhor do céo, e a rezar tambem e ler bonitas historias. Quando souberes tudo isto, ella bordará um manto de seda para ti; terás uma espada, e uma cruz no peito. Sim?

—A planta precisa de sol para crescer, a flôr precisa de agua para abrir; Pery precisa de liberdade para viver.

—Mas tu serás livre; e nobre como meu pai!

—Não!... O passaro que vôa nos ares cahe, se lhe quebrão as azas; o peixe que nada no rio morre, se o deitão em terra; Pery será como o passaro e como o peixe, se tu cortares as suas azas e o tirares da vida em que nasceu.

Cecilia bateu com o pé em signal de impaciencia.

—Não te zanga, senhora.

—Não fazes o que Cecy pede?... Pois Cecy não te quer mais bem; nem te chamará mais seu amigo. Vê; já não guardo a flôr que me déste.

E a linda menina, machucando a flôr que arrancou dos cabellos, correu para o seu quarto, e bateu a porta com violencia.

O indio voltou pezaroso á sua cabana.

De repente cortou o silencio da noite voz argentina, que cantava uma antiga chacara portugueza, com sentimento e expressão arrebatadora. Os sons doces de uma guitarra hespanhola fazião o acompanhamento da musica.

A chacara dizia assim:

Foi um dia.—Infanção mouro
Deixou
Alcaçar de prata e ouro.
Montado no seu corcel,
Partio
Sem pagem, sem anadel.
Do castello á barbacã
Chegou
Viu formosa castellã.
Aos pés daquella a quem ama
Jurou
Ser fiel á sua dama.
A gentil dona e senhora
Sorrio;
Ai! que isenta ella não fora
«Tu és mouro; eu sou christã:»
Fallou
A formosa castellã.
«Mouro, tens o meu amor:
Christão,
Serás meu nobre senhor.»
Sua voz era um encanto,
O olhar
Quebrado, pedia tanto!
«Antes de ver-te, senhora,
Fui rei;
Serei teu escravo agora.
«Por ti deixo meu alcaçar
Fiel;
Meus paços d'ouro e de nacar.
«Por ti deixo o paraiso;
Meu céo
É teu mimoso sorriso.»
A dona em um doce enleio
Tirou
Seu lindo collar do seio.
E duas almas christãs,
Na cruz
Um beijo tornou irmãs.

A voz suave e meiga perdeu-se no silencio do ermo; o echo repetio um momento as suas doces modulações.