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O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2) cover

O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2)

Chapter 12: IX ESPERANÇA
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About This Book

The narrative follows a colonial household facing imminent attack, as elders and heirs debate duty, escape, and the best means of preserving the family; preparations and farewells alternate with growing unrest among hired adventurers. Tension escalates into clashes between settlers and a hostile indigenous force, producing sieges, betrayals, and desperate combats. Captivity, sacrifice, and moral reckonings lead to a catastrophic turning point that forces revelations and punishments. The final episodes resolve through redemption, loss, and an epilogue that ties personal fate to the broader consequences of frontier violence.

IX
ESPERANÇA

Sentando-se junto da moça, Alvaro sentio a sua coragem vacillar.

—Que me quereis, Isabel? perguntou elle com a voz um pouco tremula.

A menina não respondeu; estava embebida a contemplar o moço; saciava-se de olha-lo, de senti-lo junto de si, depois de ter soffrido a angustia de ver a morte roçando a sua cabeça, e ameaçando a sua vida.

É preciso amar para comprehender essa voluptuosidade do olhar que se repousa sobre o objecto amado, que não se cansa de ver aquillo que está impresso na imaginação, mas que tem sempre um novo encanto.

—Deixai-me olhar-vos! respondeu Isabel supplicando. Quem sabe! Talvez seja pela ultima vez!

—Porque essas idéas tristes? disse Alvaro com brandura. A esperança ainda não está de todo perdida.

—Que importa?... exclamou a moça. Ainda ha pouco vos vi de longe que passeáveis sobre a esplanada, e a cada momento me parecia que uma setta vos tocava, vos feria e...

—Como!... Tivestes a imprudencia de abrir a janella?...

O moço voltou-se, e estremeceu vendo a janella entreaberta, crivada da parte exterior pelas settas dos selvagens.

—Meu Deus!... exclamou elle, porque expondes assim a vossa vida, Isabel?...

—Que vale a minha vida, para que a conserve? disse a moça animando-se. Tem ella algum prazer, alguma ventura, que me prenda? De que serviria a existencia se não fosse para satisfazer um impulso de nossa alma? A minha felicidade é acompanhar-vos com os olhos e com o pensamento. Se esta felicidade me deve custar a vida, embora!...

—Não falleis assim, Isabel, que me partis a alma.

—E como quereis que falle? Mentir-vos é impossivel; depois daquelle dia, em que trahi o meu segredo, de escravo que elle era, tornou-se senhor, senhor despotico e absoluto. Sei que vos faço soffrer...

—Nunca disse semelhante cousa!

—Sois bastante generoso para dizê-lo, mas sentis. Eu conheço, eu leio nos vossos menores movimentos. Vós me estimais talvez como irmão, mas fugis de mim, e tendes receio que Cecilia pense que me amais; não é verdade?

—Não, exclamou Alvaro insensivelmente; tenho receio, tendo medo... mas é de amar-vos!

Isabel sentio uma commoção tão violenta, ouvindo as palavras rapidas do moço, que ficou como extatica sem fazer um movimento; as palpitações fortes do seu coração a suffocavão.

Alvaro não estava menos commovido; subjugado por aquelle amor ardente, impressionado pela abnegação da menina que expunha sua vida só para acompanha-lo de longe com um olhar e protegê-lo com a sua solicitude, tinha deixado escapar o segredo da luta que se passava em sua alma.

Mas apenas pronunciara aquellas palavras imprudentes, conseguio dominar-se, e tornando-se frio e reservado, fallou a Isabel em um tom grave.

—Sabeis que amo Cecilia; mas ignorais que prometti a seu pai ser seu marido. Emquanto elle por sua livre vontade não me desligar de minha promessa, estou obrigado a cumpri-la. Quanto ao meu amor, este me pertence, e só a morte me pode desligar delle. No dia em que eu amasse outra mulher, que não ella, me condemnaria a mim mesmo como um homem desleal.

O moço voltou-se para Isabel com um triste sorriso:

—E comprehendeis o que faz um homem desleal que tem ainda a consciencia precisa para se julgar a si?

Os olhos da moça brilhárão com um fogo sinistro:

—Oh! comprehendo!... É o mesmo que faz a mulher que ama sem esperança, e cujo amor é um insulto ou um soffrimento para aquelle a quem ama!

—Isabel!... exclamou Alvaro estremecendo.

—Tendes razão! Só a morte póde desligar de um primeiro e santo amor aos corações como os nossos!

—Deixai-vos dessas idéas, Isabel! Crede-me; uma unica razão póde justificar semelhante loucura.

—Qual? perguntou Isabel.

—A deshonra.

—Ha ainda outra, respondeu a moça com exaltação; outra menos egoista, mas tão nobre como esta; a felicidade daquelles que se ama.

—Não vos comprehendo.

—Quando se sabe que se pôde ser uma causa de desgraça para aquelles que se estima, melhor é desatar o unico laço que nos prende á vida do que vê-lo despedaçar-se. Não dizieis que tendes medo de amar-me? Pois bem, agora sou eu que tenho medo de ser amada.

Alvaro não soube o que responder: estava n'uma terrivel agitação: conhecia Isabel, e sabia que força tinhão aquellas palavras ardentes que soltavão os labios da moça.

—Isabel! disse elle tomando-lhe as mãos. Se me tendes alguma affeição, não me recuseis a graça que vou pedir-vos. Repelli esses pensamentos! Eu vos supplico!

A moça sorrio-se melancolicamente:

—Vós me supplicais?... Me pedis que conserve esta vida que recusastes!... Não é ella vossa? Aceitai-a; e já não tereis que supplicar!

O olhar ardente de Isabel fascinava; Alvaro não se pôde mais conter; ergueu-se; e reclinando-se ao ouvido da moça balbuciou:

—Aceito!...

Emquanto Isabel, pallida de emoção e felicidade, duvidava ainda da voz que resoava no seu ouvido, o moço tinha sahido da sala.

Durante que Alvaro e Isabel conversavão á meia voz, Pery continuava a contemplar sua senhora.

O indio estava pensativo: e via-se que uma idéa o preoccupava, e absorvia toda a sua attenção.

Por fim levantou-se, e lançando um ultimo olhar repassado de tristeza a Cecilia, encaminhou-se lentamente para a porta da sala.

A menina fez um ligeiro movimento e levantou a cabeça:

—Pery!...

Elle estremeceu, e voltando foi de novo ajoelhar-se junto do sofá.

—Tu me promette não deixar tua senhora! disse Cecilia com uma doce exprobação.

—Pery quer te salvar.

—Como?

—Tu saberás. Deixa Pery fazer o que tem no pensamento.

—Mas não correrás nem um perigo?

—Porque perguntas isto, senhora? disse o indio timidamente.

—Porque?... exclamou Cecilia levantando-se com vivacidade. Porque se para nos salvar é preciso que tu morras, eu rejeito o teu sacrificio, rejeito-o em meu nome e no de meu pai.

—Socega, senhora; Pery não teme o inimigo; sabe o modo de vencê-lo.

A menina abanou a cabeça com ar incredulo.

—Elles são tantos!...

O indio sorrio com orgulho.

—Sejão mil; Pery vencerá a todos; aos indios e aos brancos.

Elle pronunciou estas palavras com a expressão de naturalidade e ao mesmo tempo de firmeza que dá a consciencia da força e do poder.

Comtudo Cecilia não podia acreditar o que ouvia; parecia-lhe inconcebivel que um homem só, embora tivesse a dedicação e o heroismo do indio, podesse vencer não só os aventureiros revoltados, como os duzentos guerreiros Aymorés que assaltavão a casa.

Mas ella não contava com os recursos immensos de que dispunha essa intelligencia vigorosa, que tinha ao seu serviço um braço forte, um corpo agil, e uma destreza admiravel; não sabia que o pensamento é a arma mais poderosa que Deus deo ao homem, e que com ella se abatem os inimigos, se quebra o ferro, se doma o fogo, e se vence por essa força irresistivel e providencial que manda ao espirito dominar a materia.

—Não te illudas; vais fazer um sacrificio inutil. Não é possivel que um homem só vença tantos inimigos ainda mesmo que este homem seja Pery.

—Tu verás! respondeu o indio com segurança.

—E quem te dará força para lutar contra um poder tão grande?...

—Quem?... Tu senhora, tu só, respondeu o indio fitando nella o seu olhar brilhante.

Cecilia sorrio, como devem sorrir os anjos.

—Vai, disse ella, vai salvar-nos. Mas lembra-te que se tu morreres, Cecilia não aceitará a vida que lhe deres.

Pery ergueu-se.

—O sol que se levantar amanhã será o ultimo para todos os teus inimigos; Ceci poderá sorrir como dantes, e ficar alegre e contente.

A voz do indio tornou-se tremula; sentindo que não podia vencer a emoção atravessou rapidamente a sala e sahio.

Chegando á esplanada Pery olhou as estrellas que começavão a apagar-se, e viu que o dia pouco tardaria a raiar: não tinha tempo a perder.

Qual era o projecto que havia concebido, e que lhe dava uma certeza e uma convicção profunda a respeito do seu resultado? Que meio ousado tinha ella para contar com a destruição dos inimigos, e salvação de sua senhora?

Fôra difficil adivinhar; Pery guardava no fundo do coração esse segredo impenetravel, e nem a si mesmo o dizia com receio de trahir-se, e de annullar o effeito, que esperava com uma confiança inabalavel.

Tinha todos os inimigos na sua mão; e bastava-lhe um pouco de prudencia para fulmina-los a todos como a colera celeste, como o fogo de raio.

Pery dirigio-se ao jardim e entrou no quarto de Cecilia, então abandonado por sua senhora, por causa da proximidade em que ficava do fundo da casa occupado pelos aventureiros revoltados.

O quarto estava ás escuras: mas a tenue claridade que entrava pela janella bastava ao indio para distinguir os objectos perfeitamente; a perfeição dos sentidos é um dom que os selvagens possuem no mais alto gráo.

Elle tomou suas armas uma a uma, beijou as pistolas que Cecilia lhe havia dado e deitou-as no chão no meio do aposento, tirou os seus ornatos de pennas, sua faxa de guerreiro, a pluma brilhante do seu cocar e lançou-os como um tropheo sobre as suas armas.

Depois agarrou o seu grande arco de guerra, apertou-o ao seio e curvando-o de encontro ao joelho quebrou-o em duas metades, que forão juntar-se ás armas e aos ornatos.

Por algum tempo Pery contemplou com um sentimento de dôr profunda esses despojos de sua vida selvagem; esses emblemas de sua dedicação sublime por Cecilia, e de seu heroismo admiravel.

Em luta com essa emoção poderosa, insensivelmente murmurou na sua lingua algumas destas palavras que a alma manda aos labios nos momentos supremos:

—Arma de Pery, companheira e amiga, adeus! Teu senhor te abandona e te deixa: comtigo elle venceria; comtigo ninguem poderia vencê-lo. E elle quer ser vencido...

O indio levou a mão ao coração:

—Sim!... Pery, filho de Ararê, primeiro de sua tribu, forte entre os fortes, guerreiro goytacaz, nunca vencido, vai succumbir na guerra. A arma de Pery não pode ver seu senhor pedir a vida ao inimigo; o arco de Ararê, já quebrado, não salvará o filho.

Sua cabeça altiva e sobranceira emquanto pronunciava estas palavras cahio-lhe sobre o seio; por fim venceu a sua emoção, e cingindo nos seus braços esse tropheo de suas armas e de suas insignias de guerra, estreitou-as ao peito em um ultimo abraço de despedida.

Um aroma agreste das plantas que começavão a se abrir com a aproximação do dia, avisou-lhe que a noite estava a acabar.

Quebrou a axorca de fructos que trazia na perna sobre a artelho, como todos os selvagens: este ornato era feito de pequenos cocos ligados por um fio, e tingidos de amarello.

Pery tomou dous destes fructos, e partio-os com a faca, sem comtudo separar as cascas; fechando-os então na sua mão, levantou o braço como fazendo um desafio ou uma ameaça terrivel e lançou-se fora do aposento.