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O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2) cover

O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2)

Chapter 15: XII DESOBEDIENCIA
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About This Book

The narrative follows a colonial household facing imminent attack, as elders and heirs debate duty, escape, and the best means of preserving the family; preparations and farewells alternate with growing unrest among hired adventurers. Tension escalates into clashes between settlers and a hostile indigenous force, producing sieges, betrayals, and desperate combats. Captivity, sacrifice, and moral reckonings lead to a catastrophic turning point that forces revelations and punishments. The final episodes resolve through redemption, loss, and an epilogue that ties personal fate to the broader consequences of frontier violence.

XII
DESOBEDIENCIA

Alvaro, recostado da parte de fora a uma das janellas da casa, pensava em Isabel.

Sua alma lutava ainda, mas já sem força, contra o amor ardente e profundo que o dominava; procurava illudir-se, mas a sua razão não o permittia.

Conhecia que amava Isabel, e que a amava como nunca tinha amado Cecilia; a affeição calma e serena de outr'ora fôra substituida pela paixão abrasadora.

Seu nobre coração revoltava-se contra essa verdade; mas a vontade era impotente contra o amor; não podia mais arranca-lo do seu seio; não o desejava mesmo.

Alvaro soffria; o que dissera na vespera a Isabel era realmente o que sentia; não se exagerára; no dia em que deixasse de amar Cecilia e fosse infiel á promessa feita a D. Antonio, se condemnaria como um homem sem honra e sem lealdade.

Consolava-o a idéa de que a situação em que se achavão não podia durar muito; pouco tardava que exhaustos, enfraquecidos, succumbissem á força dos inimigos que os atacavão.

Então nos momentos extremos, á bordado tumulo, quando a morte o tivesse já desligado da terra, poderia com o ultimo suspiro balbuciar a primeira palavra do seu amor! poderia confessar a Isabel que a amava.

Até então lutaria.

Nisto Pery chegou-se e tocou-lhe no hombro:

—Pery parte.

—Para onde?

—Para longe.

—Que vais fazer?

O indio hesitou:

—Procurar soccorro.

Alvaro sorrio-se com incredulidade.

—Tu duvidas?

—De ti não; mas do soccorro.

—Escuta; se Pery não voltar, tu farás enterrar as suas armas.

—Podes ir tranquillo? eu te prometto.

—Outra cousa.

—O que é?

O indio hesitou de novo:

—Se tu vires a cabeça de Pery desligada do corpo, enterra-a com as suas armas.

—Porque este pedido? A que vem semelhante lembrança?

—Pery vai passar pelo meio dos selvagens, e pode morrer. Tu és guerreiro; e sabes que a vida é como a palmeira: murcha quando tudo reverdece.

—Tens razão. Farei tudo quanto pedes; mas espero ver-te ainda.

O indio sorrio.

—Ama a senhora, disse elle estendendo a mão ao moço.

O seu adeus era uma ultima prece pela felicidade de Cecilia.

Pery entrou na sala onde se achava reunida a familia.

Todos dormião; só D. Antonio de Mariz velava sempre, apezar da velhice; sua vontade poderosa cobrava novas forças, e reanimava o corpo gasto pelos annos. Não lhe restava senão uma esperança; a de morrer rodeado dos entes que amava, cercado de sua familia, como um fidalgo portuguez devia morrer; com honra e coragem.

O indio atravessou a sala, e collocando-se junto do sofa em que Cecilia adormecida repousava, contemplou-a um instante com um sentimento de profunda melancolia.

Dir-se-hia que nesse olhar ardente fazia uma ultima e solemne despedida; que partindo-se, o escravo fiel e dedicado queria deixar a sua alma enleiada naquella imagem, que representava a sua divindade na terra.

Que sublime linguagem não fallavão aquelles olhos intelligentes, animados por um brilhante reflexo de amor e de fidelidade? Que epopéa de sentimento e de abnegação não havia naquella muda e respeitosa contemplação?

Por fim Pery fez um esforço supremo, e a custo conseguio quebrar o encanto que o prendia, e o conservava immovel, como uma estatua, diante da linda menina adormecida. Reclinou sobre o sofá, e beijou respeitosamente a fimbria do vestido de Cecilia; quando ergueu-se, uma lagrima triste e silenciosa que deslisava pela sua face cahio sobre a mão da menina.

Cecilia, sentindo aquella gota ardente, entreabrio os olhos; mas Pery não viu este movimento, porque já se tinha voltado e aproximava-se de D. Antonio de Mariz.

O fidalgo, sentado na sua poltrona, recebeu-o com um sorriso pungente:

—Tu soffres? perguntou o indio.

—Por elles, por ella especialmente, por minha Cecilia.

—Por ti não? disse Pery com intenção.

— Por mim? Daria a minha vida para salva-la: e morreria feliz!

—Ainda que ella te pedisse que vivesse?

—Embora me supplicasse de joelhos.

O indio sentio-se alliviado como de um remorso.

—Pery te pede uma cousa?

—Falla!

—Pery quer beijar a tua mão.

D. Antonio de Mariz tirou o seu guante, e sem comprehender a razão do pedido do indio, estendeu-lhe a mão.

—Tu dirás a Cecilia que Pery partio; que foi longe; não deves contar-lhe a verdade: ella soffrerá. Adeus; Pery sente te deixar; mas é preciso.

Emquanto o indio proferia estas palavras em voz baixa e inclinado ao ouvido do fidalgo, este surprehendido procurava ligar-lhes um sentido que lhe parecia vago e confuso:

—Que pretendes tu fazer Pery? perguntou D. Antonio.

—O mesmo que tu querias fazer para salvar a senhora.

—Morrer!... exclamou o fidalgo.

—Pery levou o dedo aos labios recommendando silencio; mas era tarde; um grito partido do canto da sala fê-lo estremecer.

Voltando-se viu Cecilia, que ao ouvir a ultima palavra de seu pai quizera correr para elle, e cahira de joelhos, sem forças para dar um passo. A menina com as mãos estendidas e supplicantes parecia pedir a seu pai que evitasse aquelle sacrificio heroico, e salvasse a Pery de uma morte voluntaria.

O fidalgo a comprehendeu:

—Não, Pery; eu, D. Antonio de Mariz, não consentirei nunca em semelhante cousa. Se a morte de alguem podesse trazer a salvação de minha Cecilia e de minha familia, era a mim que competia o sacrificio. E por Deus e pela minha honra o juro, que a ninguem o cederia; quem quizesse roubar-me esse direito me faria um insulto cruel.

Pery volvia os olhos de sua senhora afflicta e supplicante para o fidalgo severo erigido no cumprimento de seu dever; temia aquellas duas opposições differentes, mas que tinhão ambas um grande poder sobre a sua alma.

Podia o escravo resistir a uma supplica de sua senhora, e causar-lhe uma mágoa, quando toda a sua vida fôra destinada a fazê-la alegre e feliz? Podia o amigo offender a D. Antonio de Mariz, a quem respeitava, praticando uma acção que o fidalgo considerava como uma injuria feita á sua honra?

Pery teve um momento de hallucinação, em que pareceu-lhe que o coração lhe estacava no peito, a vida lhe fugia, e a cabeça se despedaçava com a pressão violenta das idéas que tumultuavão no cerebro.

No rapido instante que durou a vertigem, elle viu gyrarem rapidamente em torno de si as figuras sinistras dos Aymorés, que ameaçavão a vida preciosa daquelles a quem mais amava no mundo. Vio Cecilia supplicando, não a elle, mas ao inimigo feroz e sanguinario, prestes a mancha-la com as mãos impuras; viu a bella e nobre cabeça do velho fidalgo rojar mutilada com os alvos cabellos tintos de sangue.

O indio horrorisado com estas imagens lugubres que lhe desenhava a sua imaginação em delirio, apertou a cabeça entre as mãos, com para arranca-la daquella febre.

—Pery balbuciava Cecilia; tua senhora te pede!...

—Morreremos todos juntos, amigo, quando chegar o momento, dizia D. Antonio de Mariz.

Pery levantou a cabeça, e lançou sobre a menina e o fidalgo um olhar hallucinado:

—Não!... exclamou elle.

Cecilia ergueu-se com um movimento instantaneo, de pé e pallida, soberba de cólera e indignação, a gentil e graciosa menina de outr'ora se tinha de repente transformado n'uma rainha imperiosa.

Sua bella fronte alva resplandecia com um assomo de orgulho; seus olhos azues tinhão desses reflexos fulvos que illuminão as nuvens no meio da tormenta; seus labios tremulos e ligeiramente arqueados parecião reter a palavra para deixa-la cahir com toda a força.

Atirando a cabecinha loura sobre o hombre esquerdo commum gesto de energia, ella estendeu a mão para Pery:

—Prohibo-te que saias desta casa

O indio julgou que ia enlouquecer; quiz lançar-se aos pés de sua senhora, mas recuou anhelante, oppresso e suffocado. Um canto; ou antes uma celeuma dos selvagens soava ao longe.

Pery deo um passo para a porta; D. Antonio o reteve:

—Tua senhora, disse o fidalgo friamente, acaba de te dar uma ordem; tu a cumprirás. Tranquillisa-te, minha filha; Pery é meu prisioneiro.

Ouvindo esta palavra que destruia todas as suas esperanças, que o impossibilitava de salvar sua senhora, o indio retrahindo-se deo um salto, e cahio no meio da sala.

—Pery é livre!... gritou elle fora de si; Pery não obedece a ninguem mais; fará o que lhe manda o coração!

Emquanto D. Antonio de Mariz e Cecilia, admirados desse primeiro acto de desobediencia, olhavão espantados o indio de pé no meio do vasto aposento, elle lançou-se a um cabide de armas, e empunhando um pesado montante, como se fôra uma ligeira espada, correu á janella e saltou.

—Perdoa a Pery, senhora!

Cecilia soltou um grito, e precipitou-se para a janella.

Não viu mais Pery.

Alvaro e os aventureiros, de pé sobre a esplanada, tinhão os olhos fitos sobre a arvore que se elevava a um lado da casa, na encosta opposta, e cuja folhagem ainda se agitava.

Longe descortinava-se o campo dos Aymorés; a brisa que passava trazia o rumor confuso das vozes e gritos dos selvagens.