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O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2) cover

O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2)

Chapter 22: III SORTIDA
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About This Book

The narrative follows a colonial household facing imminent attack, as elders and heirs debate duty, escape, and the best means of preserving the family; preparations and farewells alternate with growing unrest among hired adventurers. Tension escalates into clashes between settlers and a hostile indigenous force, producing sieges, betrayals, and desperate combats. Captivity, sacrifice, and moral reckonings lead to a catastrophic turning point that forces revelations and punishments. The final episodes resolve through redemption, loss, and an epilogue that ties personal fate to the broader consequences of frontier violence.

III
SORTIDA

O estrondo que se ouvio, fôra causado por um tiro que partio d'entre as arvores.

O velho Aymoré vacillou; seu braço que vibrava o tacape com uma força herculea, cahio inerte; o corpo abateu-se como o ipê da floresta cortado pelo raio.

A morte tinha sido quasi instantanea; apenas um estertor de agonia resoou no seu peito largo e ainda ha pouco vigoroso: cahira já cadaver.

Emquanto os selvagens permanecião estaticos diante do que se passava, Alvaro com a espada na mão e a clavina ainda fumegante precipitava-se no meio do campo. De dous talhos rapidos cortou os laços de Pery, e com as evoluções de sua espada conteve os selvagens, que voltando a si cahião sobre elle bramindo de furor.

Immediatamente ouvio-se uma descarga de arcabuzes; dez homens destemidos tendo á sua frente Ayres Gomes saltárão por sua vez com a arma em punho, e começárão a talhar de alto a baixo a grandes golpes de espada.

Não parecião homens, e sim dez demonios, dez machinas de guerra vomitando a morte de todos os lados; emquanto a sua mão direita imprima á lamina da espada mil voltas, que erão outros tantos golpes terriveis, a esquerda jogava a adaga com destreza e segurança admiravel.

O escudeiro e seus homens tinhão feito um semi-circulo em roda de Alvaro e de Pery, e apresentavão uma barreira de ferro e fogo ás ondas de inimigos que bramião, recuavão, e lançavão-se de novo quebrando-se de encontro a esse dique.

No curto instante que mediou entre a morte do cacique e o ataque dos aventureiros, Pery de braços cruzados olhava impassivel para tudo o que se passava em torno d'elle. Comprehendia então o gesto que sua senhora ha pouco lhe fizera do alto da esplanada, e o raio de esperança e de alegria que elle julgára ver brilhar no seu semblante.

Com effeito no primeiro momento de afflicção Cecilia se lançára para ver o indio, chama-lo ainda, e supplicar-lhe mesmo que não expozesse a sua vida inutilmente.

Não tendo mais visto Pery, a menina sentio um desespero cruel; voltou-se para seu pai, e com as faces orvalhadas de lagrimas, com o seio anhelante, com a voz cheia de angustia, pedio-lhe que salvasse Pery.

D. Antonio de Mariz, antes que sua filha lhe fizesse esse pedido, já tinha-se lembrado de chamar os seus companheiros fieis, e seguido por elles correr contra o inimigo, e livrar o indio da morte certa e inevitavel que procurava.

Mas o fidalgo era um homem de uma lealdade e de uma generosidade a toda a prova; sabia que aquella empreza era de um risco immenso, e não queria obrigar os seus companheiros a partilhar um sacrificio que elle só faria de bom grado á amizade que votava a Pery.

Os aventureiros que se havião dedicado com tanta constancia á salvação de sua familia, não tinhão as mesmas razões para se arriscarem por causa de um homem que não pertencia á sua religião, e que não tinha com elles o menor laço de communidade.

D. Antonio de Mariz perplexo, irresoluto entre a amizade e o seu escrupulo generoso, não soube o que responder a sua filha; procurou consola-la, afflicto por não poder satisfazer immediatamente a sua vontade.

Alvaro, que contemplava esta scena pungente a alguma distancia, no meio dos aventureiros fieis e dedicados que tinha sob suas ordens, tomou repentinamente uma resolução.

Seu coração partia-se vendo Cecilia soffrer; e embora amasse Isabel, a sua alma nobre sentia ainda pela mulher a quem votára os seus primeiros sonhos, uma affeição pura, respeitosa, uma especie de culto.

Era uma cousa singular na vida dessa menina; todas as paixões, todos os sentimentos que a envolvião soffrião a influencia de sua innocencia, e ião a pouco e pouco depurando-se e tomando um quer que seja de ideal, um cunho de adoração.

O mesmo amor ardente e sensual de Loredano, quando se tinha visto em face della, adormecida na sua casta isenção, emmudecêra e hesitara um momento se devia manchar a santidade do seu pudor.

Alvaro trocou com os aventureiros algumas palavras; e dirigio-se para o grupo que formavão D. Antonio de Mariz e sua filha.

—Consolai-vos, D. Cecilia; disse o moço, e esperai!

A menina fitou nelle os seus olhos azues cheios de reconhecimento; aquella palavra era ao menos uma esperança.

—Que contais fazer! perguntou D. Antonio ao cavalheiro.

—Tirar Pery das mãos do inimigo!

—Vós!... exclamou Cecilia.

—Sim, D. Cecilia, disse o moço; aquelles homens dedicados vendo a vossa afflicção sentirão-se commovidos e desejão poupar-vos uma justa mágoa.

Alvaro attribuia a generosa iniciativa aos seus companheiros, quando elles não tinhão feito senão aceita-la com enthusiasmo.

Quanto a D. Antonio de Mariz, sentira uma intima satisfação ouvindo as palavras do moço: seus escrupulos cessavão desde que seus homens espontaneamente se offerecião para realisar aquella difficil empreza.

—Cedereis-me uma parte dos nossos homens; quatro ou cinco me bastão; continuou o moço dirigindo-se ao fidalgo; ficareis com o resto para defender-vos no caso de algum ataque imprevisto.

—Não; respondeu D. Antonio; levai-os todos, já que se prestão a essa tão nobre acção, que não me animava a exigir de sua coragem. Para defender a minha filha, basto eu, apezar de velho.

—Desculpai-me, Sr. D. Antonio, replicou Alvaro; mas é uma imprudencia a que me opponho; pensai que a dous passos de vós existem homens perdidos, que nada respeitão, e que espião o momento de fazer-vos mal.

—Sabeis se prezo e estimo esse thesouro cuja guarda me foi confiada por Deus. Julgais que haja neste mundo alguma cousa que me faça expo-lo a um novo perigo? Acreditai-me: D. Antonio de Mariz, só, defenderá sua familia, emquanto vós salvareis um bom e nobre amigo.

—Confiais demasiado em vossas forças!...

—Confio em Deus, e no poder que elle collocou em minha mão: poder terrivel, quando chegar o momento fulminará todos os nossos inimigos com a rapidez do raio.

A voz do velho fidalgo pronunciando estas palavras tinha-se revestido de uma solemnidade imponente; o seu rosto illuminou-se com uma expressão de heroismo e de magestade que realçou a belleza severa do seu busto veneravel.

Alvaro olhou com uma admiração respeitosa o velho cavalheiro emquanto Cecilia, pallida e palpitante das emoções que sentira, esperava com anciedade a decisão que ião tomar.

O moço não insistio e sujeitou-se á vontade de D. Antonio de Mariz;

—Obedeço-vos; iremos todos e voltaremos mais promptos.

O fidalgo apertou-lhe a mão:

—Salvai-o!

—Oh! sim, exclamou Cecilia, salvai-o, Sr. Alvaro.

—Juro-vos, D. Cecilia, que só a vontade do céo fará que eu não cumpra a vossa ordem.

A menina não achou uma palavra para agradecer essa generosa promessa; toda a sua alma partio-se n'um sorriso divino.

Alvaro inclinou-se diante della; foi juntar-se aos aventureiros, e deo-lhes ordem de se prepararem para partir. Quando o moço entrou na sala então deserta para tomar a suas armas, Isabel, que já sabia do seu projecto, correu a elle pallida e assustada.

—Ides bater-vos? disse ella coma voz tremula.

Em que isto vos admira? Não nos batemos todos os dias com o inimigo!

—De longe!... Defendidos pela posição! Mas agora é differente!

—Não vos assusteis. Isabel! Daqui a uma hora estarei de volta.

O moço passou a clavina á tiracollo e quiz sahir.

Isabel tomou-lhe as mãos com um movimento arrebatado; seus olhos scintillavão com um fogo estranho; suas faces estavão incendiadas de vivo rubor.

O moço procurou tirar as mãos daquella pressão ardente e apaixonada:

—Isabel, disse elle com uma doce exprobação; quereis que falte á minha palavra, que recue diante de um perigo?

—Não! Nunca eu vos pediria semelhante cousa! Era preciso que não vos conhecesse, e que não... vos amasse!...

—Mas então dexai-me partir.

—Tenho uma graça a supplicar-vos?

—De mim?... Neste momento?

—Sim! Neste momento!... Apezar do que me dizieis ha pouco, apezar do vosso heroismo, sei que caminhais a uma morte certa, inevitavel.

A voz de Isabel tornou-se balbuciante:

—Quem sabe... se nos veremos mais neste mundo?!

—Isabel!... disse o moço querendo fugir para evitar a commoção que se apoderava delle.

—Promettestes fazer-me a graça que vos pedi.

—Qual?

—Antes de partir, antes de me dizer adeus para sempre...

A moça fitou no cavalheiro um olhar que fascinava.

—Fallai!... fallai!...

—Antes de nos separarmos, eu vos supplico, deixai-me uma lembrança vossa!... Mas uma lembrança que fique dentro de minha alma!

E a menina cahio de joelhos aos pés de Alvaro, occultando seu rosto que o pudor revoltado em luta com a paixão cobria de um brillante carmim.

Alvaro ergueu-a confusa e vergonhosa do que tinha feito, e chegando os seus labios ao ouvido proferio, ou antes murmurou uma phrase.

O semblante de Isabel expandio-se; uma aureola de ventura cingio a sua fronte; seu seio dilatou-se, e respirou com a embriaguez do coração feliz.

—Eu te amo!

Era a phrase que Alvaro deixára cahir na sua alma, e que a enchia toda como um effluvio celeste, como um canto divino que resoava nos seus ouvidos e fazia palpitar todas as suas fibras.

Quando ella sahio desse extasi, o moço tinha sahido da sala, e unia-se aos seus companheiros promptos a marchar.

Foi nessa occasião que Cecilia, chegando imprudentemente á palissada, fez a Pery un aceno que lhe dizia esperasse.

A pequena columna partio commandada por Alvaro e por Ayres Gomes, que depois de tres dias não deixava o seu posto dentro do gabinete do fidalgo.

Quando os bravos combatentes desapparecêrão na floresta, D. Antonio de Mariz recolheu-se com sua familia para a sala, e sentando-se na sua poltrona esperou tranquillamente. Não mostrava o menor temor de ser atacado pelos aventureiros revoltados, que estavão a alguns passos de distancia apenas, e que não deixarião de aproveitar um ensejo tão favoravel.

D. Antonio tinha a este respeito uma completa segurança; tendo fechada as portas e examinado a escorva de suas pistolas, recommendou silencio, afim de que nem um rumor lhe escapasse.

Vigilante e attento, o fidalgo reflectia ao mesmo tempo sobre o facto que se acabava de passar, e que o tinha profundamente impressionado.

Conhecia Pery e não podia comprehender como o indio, sempre tão intelligente e tão perspicaz, se deixára levar por uma louca esperança a ponte de ir elle só atacar os selvagens.

A extrema dedicação do indio por sua senhora, o desespero da posição em que se achavão, podia explicar essa hallucinação, se o fidalgo não soubesse quanto Pery tinha a calma, a força e o sangue-frio que tornão o homem superior a todos os perigos. O resultado de suas reflexões foi que havia no procedimento de Pery alguma cousa que não estava clara e que devia explicar-se mais tarde.

Ao passo que elle se entregava a esses pensamentos, Alvaro tinha feito uma volta, e favorecido pela festa dos selvagens se aproximara sem ser percebido.

Quando avistou Pery a algumas braças de distancia, o velho cacique levantava a tagapema sobre a sua cabeça.

O moço levou a clavina ao rosto; e a bala sibilando foi atravessar o craneo do selvagem.