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O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2) cover

O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2)

Chapter 23: IV REVELAÇÃO
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About This Book

The narrative follows a colonial household facing imminent attack, as elders and heirs debate duty, escape, and the best means of preserving the family; preparations and farewells alternate with growing unrest among hired adventurers. Tension escalates into clashes between settlers and a hostile indigenous force, producing sieges, betrayals, and desperate combats. Captivity, sacrifice, and moral reckonings lead to a catastrophic turning point that forces revelations and punishments. The final episodes resolve through redemption, loss, and an epilogue that ties personal fate to the broader consequences of frontier violence.

IV
REVELAÇÃO

Apenas Alvaro, com a chegada dos seus companheiros, viu-se livre dos inimigos que o atacavão, voltou a Pery, que assistia immovel a toda esta scena.

—Vinde! disse o moço com autoridade.

—Não! respondeu o indio friamente.

—Tua senhora te chama!

Pery abaixou a cabeça com uma profunda tristeza.

—Dize á senhora que Pery deve morrer; que vai morrer por ella. E tu parte, porque senão seria tarde.

Alvaro olhou a physionomia intelligente do indio para ver se descobria nella algum signal de perturbação de espirito: porque o moço não comprehendia, nem podia comprehender a causa desta obstinação insensata.

O rosto de Pery, calmo e sereno, não lhe deixou ver senão uma resolução firme, inabalavel, tanto mais profundo quando se mostrava sob uma apparencia de socego e tranquillidade.

—Assim, tu não obedece á tua senhora?

Pery custou a arrancar a palavra dos labios.

—A ninguem.

Quando pronunciava esta palavra, um grito fraco soou ao lado delle; voltando-se viu a india que lhe havião destinado por esposa cahindo atravessada por uma flecha.

O tiro fôra destinado a Pery por um dos selvagens, e a menina lançando-se para cobrir o corpo daquelle que amára uma hora recebêra a setta no peito.

Seus olhos negros, desmaiados pelas sombras da morte, volvêrão a Pery um ultimo olhar; e cerrando tornárão a abrir-se, já sem vida e sem brilho. Pery sentio um movimento de piedade e sympathia vendo essa victima de sua dedicação, que como elle sacrificava sem hesitar a sua existencia para salvar aquelle a quem amava.

Alvaro nem se apercebeu do que acabava de passar; lançando um olhar para seus homens que batião-se valentemente com os Aymorés fez um aceno a Ayres Gomes.

—Escuta, Pery; tu sabes se costumo cumprir a minha palavra. Jurei a Cecilia levar-te; e ou tu me acompanhas, ou morreremos todos neste lugar.

—Faze o que quizeres! Pery não sahira d'aqui.

—Vês estes homens?... são os unicos defensores que restão á tua senhora; se todos elles morrem, bem sabes que é impossivel que ella se salve.

Pery estremeceu. Ficou um momento pensativo; depois, sem dar tempo a que o seguissem, lançou-se entre as arvores.

D. Antonio de Mariz e sua familia, tendo ouvido os tiros dos arcabuzes, esperavão com anciedade o resultado da expedição.

Dez minutos havião decorrido na maior impaciencia, quando sentirão tocar na porta, e ouvirão a voz de Pery; Cecilia correu, e o indio ajoelhou-se a seus pés pedindo-lhe perdão.

O fidalgo, livre do pezar de perder um amigo, assumira a sua costumada severidade, como sempre que se tratava de uma falta grave.

—Commetteste uma grande imprudencia, disse elle ao indio; fizeste soffrer teus amigos; expozeste a vida daquelles que te amão; não precisas de outra punição além desta.

—Pery ia salvar-te!

—Entregando-te nas mãos do inimigo?

—Sim!

—Fazendo-te matar por elles?

—Matar e...

—Mas qual era o resultado dessa loucura?

O indio calou-se.

—É preciso explicar-te, para que não julguemos que o amigo intelligente e dedicado de outr'ora tornou-se um louco e um rebelde.

A palavra era dura; e o tom em que foi dita ainda aggravava mais a reprehenção severa que ella encerrava.

Pery sentio um lagrima humedecer-lhe as palpebras:

—Obrigas Perry a dizer tudo!

—Deves fazê-lo, se desejas rehabilitar-te na estima que te votava, e que sinto perder.

—Pery vai fallar.

Alvaro entrava nesse momento tendo deixado no alto da esplanada os seus companheiros já livres de perigo, e quites por algumas feridas que não erão felizmente muito graves.

Cecilia apertou as mãos do moço com reconhecimento; Isabel enviou-lhe n'um olhar toda a sua alma.

As pessoas presentes se grupárão ao redor da poltrona de D. Antonio, em face do qual Pery de pé com a cabeça baixa, confuso e envergonhado como um criminoso, ia justificar-se.

Dir-se-hia que confessava uma acção indigna e vil: ninguem adivinhava que sublime heroismo, que concepção gigantesca havia nesse acto, que todos condemnavão como uma loucura.

Elle começou:

«Quando Ararê deitou o seu corpo sobre a terra para não tornar a erguê-lo, chamou Pery e disse:

«Filho de Ararê, teu pai vai morrer; lembra-te que tua carne é a minha carne; que teu sangue é meu sangue. Teu corpo não deve servir ao banquete do inimigo.

«Ararê disse, e tirou suas contas de fructos que deo a seu filho; estavão cheias de veneno; tinhão nellas a morte.

«Quando Pery fosse prisioneiro, bastava quebrar um fructo, e ria do vencedor que não se animaria a tocar no seu corpo.

«Pery viu que a senhora soffria e olhou as suas contas; teve uma idéa; a herança de Ararê podia salvar a todos.

«Se tu deixasses fazer o que queria, quando a noite viesse não acharia um inimigo vivo; os brancos e os indios não te offenderião mais.»

Toda a familia ouvia esta narração com uma surpreza extraordinaria; comprehendião delia que havia em tudo isto uma arma terrivel,—o veneno; mas não podião saber os meios de que o indio se servira ou pretendia servir-se para usar desse agente de destruição.

—Acaba! disse D. Antonio; por que modo contavas então destruir o inimigo?

—Pery envenenou a agua que os brancos bebem, e o seu corpo, que devia servir ao banquete dos Aymorés!

Um grito de horror acolheu essas palavras ditas pelo indio em um tom simples e natural.

O plano que Pery combinára para salvar seus amigos acabava de revelar-se em toda a sua abnegação sublime, e com o cortejo de scenas terriveis e monstruosas que devião acompanhar a sua realisação.

Confiado nesse veneno que os indios conhecião com o nome de curarê, e cuja fabricação era um segredo de algumas tribus, Pery com a sua intelligencia e dedicação descobrira um meio de vencer elle só aos inimigos, apezar do seu numero e da sua força.

Sabia a violencia e o effeito prompto daquella arma que seu pai lhe confiára na hora da morte; sabia que bastava uma pequena parcella desse pó subtil para destruir em algumas horas a organisação a mais forte e a mais robusta. O indio resolveu pois usar desse poder que na sua mão heroica ia tornar-se um instrumento de salvação, e o agente de um sacrificio tremendo feito á amizade.

Dous fructos bastárão; um servio para envenenar a agua e as bebidas dos aventureiros revoltados; o outro acompanhou-o até o momento do supplicio, em que passou de suas mãos aos seus labios.

Quando o cacique vendo-o cobrir o rosto perguntou-lhe se tinha medo, Pery acabava de envenenar o seu corpo, que devia d'ahi a algumas horas ser um germen de morte para todos esses guerreiros bravos e fortes.

O que porém dava a esse plano um cunho de grandeza e de admiração, não era sómente o heroismo do sacrificio; era a belleza horrivel da concepção, era o pensamento superior que ligára tantos acontecimentos, que os submettêra á sua vontade, fazendo-os succeder-se naturalmente e caminhar para um desfecho necessario e infallivel.

Porque, é preciso notar, a menos de um facto extraordinario, desses que a previdencia humana não pode prevenir, Pery quando sahio da casa tinha a certeza de que as cousas se passarião como de facto se passárão.

Atacando os Aymorés a sua intenção era excita-los á vingança; precisava mostrar-se forte, valente, destemido, para merecer que os selvagens o tratassem como um inimigo digno de seu odio. Com a sua destreza e com a precaução que tomára tornando o seu corpo impenetravel, contava evitara morte antes de poder realisar o seu projecto; quando mesmo cahisse ferido, tinha tempo de passar o veneno aos labios.

A sua previsão porém não o illudio; tendo conseguido o que desejava, tendo excitado a raiva dos Aymorés, quebrou a sua arma, e supplicou a vida ao inimigo; foi de todo o sacrificio o que mais lhe custou.

Mas assim era preciso; a vida de Cecilia o exigia; a morte que o havia respeitado até então podia surprendê-lo; e Pery queria ser feito prisioneiro, como foi, e contava ser.

O costume dos selvagens, de não matar na guerra o inimigo e de captiva-lo para servir ao festim da vingança, era para Pery uma garantia e uma condição favoravel á execução do seu projecto.

Quanto á peripecia final, que a intervenção de Alvaro obstára; não fôra esse incidente imprevisto, que seria igualmente infallivel.

Segundo as leis tradicionaes do povo barbaro, toda a tribu devia tomar parte no festim, as mulheres moças tocavão apenas na carne do prisioneiro; mas os guerreiros a saboreavão como um manjar delicado, adubado pelo prazer da vingança: e as velhas com a gula feroz das harpias que se cevão no sangue de suas victimas.

Pery contava pois com toda a segurança que dentro de algumas horas o corpo envenenado da victima levaria a morte ás entranhas do seus algozes, e que elle só destruiria toda uma tribu, grande, forte, poderosa, apenas com auxilio dessa arma silenciosa.

Póde-se agora comprehender qual tinha sido o seu desespero vendo esse plano inutilisado; depois de ter desobedecido á sua senhora, depois de haver tudo realisado, quando só faltava o desfecho, quando o golpe que ia salvar a todos cahia, mudar-se de repente a face das cousas, e ver destruida a sua obra, filha de tanta meditação!

Ainda assim quiz resistir, quiz ficar, esperando que os Aymorés continuarião o sacrificio; mas conheceu que a resolução de Alvaro era inabalavel como a sua; que ia ser causa da morte de todos os defensores fieis de D. Antonio, sem ter já a certeza de sua salvação.

No primeiro momento que succedeu á confissão de Pery, todos os actores dessa scena, pallidos, tomados de espanto e de terror, com os olhos cravados no indio, duvidavão ainda do que tinhão ouvido; o espirito horrorisado não formulava uma idéa; os labios tremulos não achavão uma palavra.

D. Antonio foi o primeiro que recobrou a calma; no meio da admiração que lhe causava aquella acção heroica, e das emoções produzidas por essa idéa ao mesmo tempo sublime e horrivel, uma circumstancia o tinha sobretudo impressionado.

Os aventureiros ião ser victimas do envenenamento; e por maior que fosse o gráo de baixeza e aviltamento a que tinhão descido esses homens pela sua traição, a nobreza do fidalgo não podia soffrer semelhante homicidio.

Elle os puniria a todos com a morte ou com o desprezo, essa outra morte moral; mas o castigo na sua opinião elevava a morte á altura de um exemplo; emquanto que a vingança a fazia descer ao nivel do assassinato.

—Vai, Ayres Gomes, gritou D. Antonio ao seu escudeiro; corre e previne a esses desgraçados, se ainda é tempo!