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O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2) cover

O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2)

Chapter 27: VIII NOIVA
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About This Book

The narrative follows a colonial household facing imminent attack, as elders and heirs debate duty, escape, and the best means of preserving the family; preparations and farewells alternate with growing unrest among hired adventurers. Tension escalates into clashes between settlers and a hostile indigenous force, producing sieges, betrayals, and desperate combats. Captivity, sacrifice, and moral reckonings lead to a catastrophic turning point that forces revelations and punishments. The final episodes resolve through redemption, loss, and an epilogue that ties personal fate to the broader consequences of frontier violence.

VIII
NOIVA

Uma hora depois dos acontecimentos que acabamos de narrar, Pery, recostado á janella do quarto que tinha pertencido á sua senhora, olhava com uma grande attenção para uma arvore que se elevava a algumas braças de distancia.

Seu olhar parecia estudar as curvas dos galhos retorcidos, medinho-lhe a distancia, a altura e o tamanho, como se disso dependesse a solução de uma grande difficuldade com que lutava o seu espirito. No momento em que estava de todo entregue a esse exame minucioso, o indio sentio uma mão timida e delicada tocar-lhe de leve no hombro.

Voltou-se; era Isabel que estava junto delle, e que se havia aproximado como uma sombra, sem fazer o menor rumor. Uma pallidez mortal cobria as feições da moça, que apenas sahia do seu desmaio; mas o rosto tinha uma calma ou antes uma immobilidade que assustava.

Voltando a si, Isabel correu um olhar pelo aposento, como para certificar-se de que não era um sonho o que havia passado.

A sala estava deserta; D. Antonio de Mariz tinha sahido para dar as suas ordens; sua mulher, ajoelhada no oratorio sobre um montão de ruinas, rezava ao pé de uma cruz que ficára junto ao altar. No fundo do aposento, sobre o sofá, destacava-se o vulto immovel do cavalheiro, aos pés do qual ardia uma vela de cêra, lançando pallidos clarões.

Cecilia é que estava perto della, e apertava no seio a sua cabeça desfallecida, procurando reanima-la.

Quando o olhar de Isabel cahio sobre o corpo de seu amante, ella ergueu-se como impellida por uma força sobrenatural, atravessou rapidamente a sala, e foi por sua vez ajoelhar-se em face desse leito mortuario. Mas não era para fazer uma prece que ajoelhava, era para embeber-se na contemplação desse rosto livido e gelado, desses labios frios, desses olhos extinctos, que ella amava apezar da morte.

Cecilia respeitou a dôr de sua prima, e por um instincto de delicadeza que só possuem as mulheres, comprehendeu que o amor, mesmo em face de um cadaver, tem o seu pudor e a sua castidade; sahio para deixar que Isabel chorasse livremente.

Passado algum tempo depois da sahida de Cecilia, a moça ergueu-se, percorreu automaticamente a casa, e vendo Pery de longe aproximou-se delle o tocou-lhe no hombro.

O indio e a moça se odiavão desde o primeiro dia em que se tinhão visto; em Isabel era o odio de uma raça que a rebaixava a seus proprios olhos; em Pery era essa repugnancia natural que sente o homem por aquelles em quem reconhece um inimigo.

Por isso Pery, vendo Isabel junto delle, ficou extremamente admirado, sobretudo quando reparou no gesto supplicante que a moça lhe dirigia, como se esperasse delle uma graça.

—Pery!...

O indio sentio-se commovido ao aspecto daquelle soffrimento, e pela primeira vez na sua vida dirigio a palavra a Isabel.

—Precisas de Pery? disse elle.

—Vinha pedir-te um serviço. Não m'o negarás, sim? balbuciou a moça.

—Falla; se fôr cousa que Pery possa fazer, elle não te negará.

—Promettes então? exclamou Isabel, cujos olhos brilhárão com uma expressão de alegria.

—Sim, Pery te promette.

—Vem!

Dizendo essa palavra, a moça fez um gesto ao indio e dirigio-se acompanhada por elle á sala que ainda estava deserta como tinha deixado. Parou junto do sofá, e apontando para o corpo inanimado de seu amante, acenou a Pery que o tomasse nos seus braços.

O indio obedeceu, e acompanhou Isabel até um gabinete retirado a um lado da casa; ahi deitou o seu fardo sobre um leito, cujas cortinas a moça entreabrio, corando como uma noiva.

Corava porque o gabinete onde tinha entrado era o quarto em que habitára e encontrava ainda povoado de todos os sonhos de seu amor; porque o leito, que recebia seu amante, era o seu leito de virgem casta e pura; porque ella era realmente uma noiva do tumulo.

Pery, tendo satisfeito o desejo da moça, retirou-se e voltou ao seu trabalho, que elle proseguia com uma constancia infatigavel.

Apenas ficou só, Isabel sorrio; mas o seu sorriso tinha um quer que seja do extasi da dôr, da voluptuosidade do soffrimento, que faz sorrir na sua ultima hora os martyres e os desgraçados.

Tirou do seio a redoma de vidro onde guardava os cabellos de sua mãi e fitou nella um olhar ardente; mas abanou a cabeça com um gesto de expressão indefinivel. Tinha mudado de resolução; o segredo que encerrava essa joia, o pó subtil que empanava a face interior do crystal, a morte que sua mãi lhe confiára não a satisfazia; era muito rapida, quasi instantanea.

Sahio então furtivamente e acendeu uma vela de cêra, que havia sobre a commoda ao lado de um crucifixo de marfim; depois fechou a porta, cerrou as janellas e interceptou as frestas por onde a luz do dia podia penetrar. O gabinete ficou ás escuras; apenas em torno do cirio que ardia, uma aureola pallida se destacava no meio das trevas e illuminava a imagem de Christo.

A moça ajoelhou e fez uma oração breve; pedia a Deus uma ultima graça; pedia a eternidade e a ventura do seu amor, que tinha passado tão rapido pela terra.

Acabando a prece, tomou a luz, deitou-a na cabeceira do leito, afastou o cortinado e começou a contemplar o seu amante com enlevo.

Alvaro parecia adormecido apenas; sua bella physionomia não tinha a menor alteração; a morte imprimindo nos seus traços o descoramento da cêra e do marmore, havia unicamente immobilisado a expressão e feito do gentil cavalheiro um bella estatua.

Isabel interrompeu o enlevo de sua contemplação para chegar-se de novo á commoda, onde se vião algumas conchas de mariscos tintas de nacar que se apanhão nas nossas praias, e uma cesta de palha matizada.

Esta cesta continha todas as resinas aromaticas, todos os perfumes que dão as arvores de nossa terra; o anime da aroeira, as perolas do beijoim, as lagrimas crystallisadas da embaiba, e gotas do balsamo, esse sandalo do Brazil.

A moça deitou na concha a maior parte dos perfumes, e acendeu algumas bagas de beijoim; o oleo de que estavão impregnadas, alimentando a chamma, communicou-a ás outras resinas.

Frocos de fumo alvadio impregnado de perfumes embriagadores se elevarão da caçoula em grossas espiraes, e enchêrão o gabinete de nuvens transparentes que oscillavão á luz pallida do cirio.

Isabel, sentada á beira do leito, com as mãos do seu amante nas suas e com os olhos embebidos naquella imagem querida, balbuciava phrases entrecortadas, confidencias intimas, sons inarticulados, que são a linguagem verdadeira do coração.

Ás vezes sonhava que Alvaro ainda vivia, que lhe murmurava ao ouvido a confissão do seu amor; e ella fallava-lhe como se seu amante a ouvisse, contava-lhe os segredos de sua paixão, vertia toda a sua alma nas palavras que cahião dos labios. Sua mão, delicada afastava os cabellos do moço, descobria a sua fronte, animava a sua face gelada, e roçava aquelles labios frios e mudos como pedindo-lhe um sorriso.

—Porque não me fallas? murmurava ella docemente: Não conheces tua Isabel?... Dize outra vez que me amas! Dize sempre essa palavra, para que minha alma não duvide da felicidade! Eu te supplico!...

E com o ouvido attento, com os labios entreabertos, o seio palpitante, ella esperava o som dessa voz querida e o echo dessa primeira e ultima palavra de seu triste amor.

Mas o silencio só lhe respondia; seu peito aspirava apenas as ondas dos perfumes inebriantes, que fazião circular nas suas veias uma chamma ardente.

O aposento apresentava então um aspecto fantastico: no fundo escuro desenhava-se um circulo esclarecido, envolto por uma nevoa espessa.

Nessa esphera luminosa como no meio de uma visão surgião Alvaro deitado no leito e Isabel reclinada sobre o rosto de seu amante, a quem continuava a fallar, como se elle a escutasse. A menina começava a sentir a respiração faltar-lhe; seu seio oppresso suffocava-a, e entretanto uma voluptuosidade inexprimivel a embriagava: um gozo immenso havia nessa asphyxia de perfumes que se condensavão e rarefazião o ar.

Louca, perdida, hallucinada, ella ergueu-se, seu seio dilatou-se, e sua bocca, entreabrindo-se, collou-se aos labios frios e gelados de seu amante; era o seu primeiro e ultimo beijo; o seu beijo de noiva.

Foi uma agonia lenta, um pesadelo horrivel em que a dôr lutava com o gozo, em que as sensações tinhão um requinte de prazer e de soffrimento ao mesmo tempo; em que a morte, torturando o corpo, vertia na alma effluvios celestes.

De repente pareceu a Isabel que os labios de Alvaro se agitavão, que um tenue suspiro se exhalava de seu peito, ainda ha pouco insensivel como o marmore.

Julgou que se illudia, mais não; Alvaro estava vivo, realmente vivo, suas mãos apertavão as della convulsamente; seus olhos, brilhando com um fogo estranho, se tinhão fitado no rosto da moça: um sopro reanimou seus labios, que exhalárão uma palavra quasi imperceptivel.

—Isabel!...

A moça soltou um grito debil de alegria, de espanto, de medo; entre as idéas confusas que se agitavão na sua cabeça desvairada, lembrou-se com horror que era ella quem matava seu amante, quem o ia sacrificar por causa de um engano fatal. Fazendo um esforço extraordinario, conseguio erguer a cabeça e ia precipitar-se para janella, abri-la e dar entrada ao ar livre; sabia que a morte era inevitavel; mas salvaria Alvaro.

No momento, porém, em que se levantava, sentio as mãos do moço que apertavão as suas, e a obrigárão a reclinar-se sobre o leito; seus olhos encontrárão de novo os olhos de seu amante.

Isabel não tinha mais forças para resistir e realisar seu heroico sacrificio; deixou cahir a cabeça desfallecida, e seus labios se unirão outra vez n'um longo beijo, em que essas duas almas irmãs, confundindo-se n'uma só, voárão ao céo, e forão abrigar-se no seio do Creador.

As nuvens de fumaça e de perfume se condensavão cada vez mais e envolvião como um lençol aquelle grupo original, impossivel de descrever.

Por volta de duas horas da tarde, a porta da gabinete, impellida por um choque violento, abrio-se; e um turbilhão de fumo lançou-se por essa aberta, e quasi suffocou as pessoas que ahi estavão.

Erão Cecilia e Pery.

A menina, inquieta pela longa ausencia de sua prima, soube de Pery que ella estava no seu quarto; mas o indio occultou parte da verdade, e não disse onde deitára o corpo de Alvaro.

Duas vezes Cecilia viera até á porta, escutára e nada ouvira; por fim resolveu-se a bater, a fallar a Isabel, e não teve a menor resposta. Chamou Pery e contou-lhe o que se passava; o indio, tomado de um presentimento metteu o hombro á porta e abrio-a.

Quando a corrente de ar expellio a fumaça do aposento, Cecilia pôde entrar e ver a scena que descrevêmos.

A menina recuou, e respeitando esse mysterio de um amor profundo, fez um gesto a Pery e retirou-se.

O indio fechou de novo a porta e acompanhou sua senhora.

—Ella morreu feliz! disse Pery.

Cecilia fitou nelle os seus grandes olhos azues, e córou.