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O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2) cover

O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2)

Chapter 5: II PREPARATIVOS
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About This Book

The narrative follows a colonial household facing imminent attack, as elders and heirs debate duty, escape, and the best means of preserving the family; preparations and farewells alternate with growing unrest among hired adventurers. Tension escalates into clashes between settlers and a hostile indigenous force, producing sieges, betrayals, and desperate combats. Captivity, sacrifice, and moral reckonings lead to a catastrophic turning point that forces revelations and punishments. The final episodes resolve through redemption, loss, and an epilogue that ties personal fate to the broader consequences of frontier violence.

II
PREPARATIVOS

Ao tempo que D. Antonio de Mariz e seu filho conversavão no gabinete, Pery examinava as suas armas, carregava as pistolas que sua senhora lhe havia dado na vespera, e sahia da cabana.

A physionomia do selvagem tinha uma expressão de energia e ardimento, que revelava resolução violenta, talvez desesperada.

O que ia fazer, nem elle mesmo sabia. Certo de que o italiano e seus companheiros se reunirião naquella manhã, contava antes que a reunião se effectuasse ter mudado inteiramente a face das cousas.

Só tinha uma vida como dissera; mas essa com a sua agilidade e a sua força e coragem valia por muitas; tranquillo sobre o futuro pela promessa de Alvaro, não lhe importava o numero dos inimigos: podia morrer mas esperava deixar pouco ou talvez nada que fazer ao cavalheiro.

Sahindo de sua cabana, Pery entrou no jardim: Cecilia estava sentada n'um tapete de pelles sobre a relva, e amimava ao seio a sua rolinha predilecta, offerecendo os labios de carmim ás caricias que a ave lhe fazia com o bico delicado.

A menina estava pensativa; doce melancolia desvanecia a vivacidade natural de seu semblante.

—Tu estás agastada com Pery, senhora?

—Não, respondeu a menina fitando nelle os grandes olhos azues. Não quizeste fazer o que eu pedi; tua senhora ficou triste.

Ella dizia a verdade com a ingénua franqueza da innocencia. Na vespera, quando se tinha recolhido enfadada pela recusa de Pery, ficara contrariada.

Educada no fervor religioso de sua mãi, embora sem os prejuizos que a razão de D. Antonio corrigira no espirito de sua filha, Cecilia tinha a fé christã em toda a pureza e santidade. Por isso se affligia com a idéa de que Pery, a quem votava uma amizade profunda, não salvasse a sua alma, e não conhecesse o Deus bom e compassivo a quem ella dirigia suas preces.

Conhecia que a razão por que sua mãi e os outros desprezavão o indio era o seu gentilismo; e a menina no seu reconhecimento queria elevar o amigo e torna-lo digno da estima de todos.

Eis a razão por que ficara triste; era gratidão por Pery, que defendera sua vida de tantos perigos, e a quem ella queria retribuir salvando a sua alma.

Nesta disposição de espirito, seus olhos cahirão sobre a guitarra hespanhola que estava em cima da commoda e veio-lhe vontade de cantar. É cousa singular como a melancolia inspira! Seja por uma necessidade de expansão, seja porque a musica e a poesia suavisem a dôr, toda a creatura triste acha no canto um supremo consolo.

A menina tirou ligeiros preludios do instrumento emquanto repassava na memoria as letras de alguns soláos e cantigas que sua mãi lhe havia ensinado. A que lhe acudio mais naturalmente foi a chacara que ouvimos; havia nessa composição uns longes, um quer que seja que ella não sabia explicar, mas ia com seus pensamentos.

Quando acabou de cantar levantou-se, apanhou a flôr de Pery que tinha atirado ao chão, deitou-a nos cabellos, e fazendo a sua oração da noite, adormeceu tranquillamente. O ultimo pensamento que roçou a sua fronte alva foi um voto de gratidão pelo amigo que lhe salvára a vida naquella manhã. Depois um sorriso adejou sobre seu rosto gracioso, como se a alma durante o somno dos olhos viesse brincar nos labios entreabertos.

O indio, ouvindo as palavras que acabava de proferir Cecilia, sentio que pela primeira vez tinha causado uma mágoa real á sua senhora.

—Tu não entendestes Pery, senhora; Pery te pedio que o deixasses na vida em que nasceu, porque precisa desta vida para servir-te.

—Como?... Não te entendo!

—Pery, selvagem, é o primeiro dos seus; só tem uma lei, uma religião, é sua senhora; Pery, christão, será o ultimo dos teus; será um escravo, e não poderá defender-te.

—Um escravo!... Não! serás um amigo. Eu te juro! exclamou a menina com vivacidade.

O indio sorrio:

—Se Pery fosse christão, e um homem quizesse te offender, elle não poderia mata-lo, porque o teu Deus manda que um homem não mate outro. Pery selvagem não respeita ninguem; quem offende sua senhora é seu inimigo, e morre!

Cecilia, pallida de emoção, olhou o indio, admirada não tanto da sublime dedicação, como do raciocinio; ella ignorava a conversa que o indio tivera na vespera com o cavalheiro.

—Pery te desobedeceu por ti sómente; quando já não correres perigo, elle virá ajoelhar a teus pés, e beijar a cruz que tu lhe déste. Não fique zangada!

—Meu Deus!... murmurou Cecilia pondo os olhos no céo. É possivel que uma dedicação tamanha não seja inspirada por vossa santa religião!...

A alegria serena e doce de sua alma irradiava na physionomia encantadora:

—Eu sabia que tu não me negarias o que te pedi; assim não exijo mais; espero. Lembra-te sómente que no dia em que tu fôres christão, tua senhora te estimará ainda mais.

—Não ficas triste?

—Não; agora estou satisfeita, contente, muito contente!

—Pery quer pedir-te uma cousa.

—Dize, o que é?

—Pery quer que tu risques um papel para elle.

—Riscar um papel?...

—Como este que teu pai deo hoje a Pery.

—Ah! queres que eu escreva?

—Sim.

—O que?

—Pery vai dizer.

—Espera.

Ligeira e graciosa, a menina correu á banquinha, e tomando uma folha de papel e uma pena, fez signal a Pery que se aproximasse.

Não devia ella satisfazer os desejos do indio, como este satisfazia ás suas menores fantasias?

—Vamos: falla, que eu escrevo.

—Pery a Alvaro, disse o indio.

—É uma carta ao Sr. Alvaro? perguntou a menina corando.

—Sim: é para elle.

—Que vais tu dizer-lhe?

—Escreve.

A menina traçou a primeira linha, e depois, por pedido de Pery, o nome de Loredano e dos seus dous complices.

—Agora, disse o indio, fecha.

Cecilia sellou a carta.

—Entrega á tarde; antes não.

—Mas que quer isto dizer? perguntou Cecilia sem comprehender.

—Elle te dirá.

—Não que eu...

A menina balbuciou corando estas palavras: ia dizer que não fallaria ao cavalheiro e arrependeu-se; não queria revelar a Pery o que se tinha passado. Sabia que se o indio suspeitasse a scena da vespera, odiaria Isabel e Alvaro, só por lhe terem causado um pezar involuntario.

Emquanto Cecilia confusa procurava disfarçar o enleio, Pery fitava nella o seu olhar brilhante; mal pensava a menina que aquelle olhar era o adeos extremo que o indio lhe dizia.

Mas para isto fora preciso que adivinhasse o plano desesperado que elle havia concebido de exterminar naquelle dia todos os inimigos da casa.

D. Diogo entrou neste momento no quarto de sua irmã: vinha despedir-se della.

Quanto a Pery, deixando Cecilia dirigio-se á escada, e achou as mesmas vigias, que depois embargárão a passagem de Ruy Soeiro.

—Não se passa, disserão os aventureiros cruzando as espadas.

O indio levantou os hombros desdenhosamente; e antes que as sentinellas voltassem a si da sorpreza, tinha mergulhado sob as espadas, e descido a escada. Então ganhou a matta, examinou de novo as suas armas e esperou; já estava cansado quando viu passar a pequena calvagata.

Pery não comprehendeu o que succedia; mas conheceu que o seu plano tinha abortado.

Foi ter com Alvaro.

O cavalheiro explicou-lhe como se aproveitára da ida de D. Diogo ao Rio de Janeiro para expulsar o italiano sem rumor e sem escandalo. Então o indio por sua vez contou ao moço o que tinha ouvido na touça de cardos; o projecto que formára de matar os tres aventureiros naquelle manhã; e finalmente a carta que lhe escrevêra por intermedio de Cecilia, para, no caso de succumbir elle, saber o cavalheiro quem erão os inimigos.

Alvaro duvidava ainda acreditar em tanta perfidia do italiano.

—Agora, concluio Pery, é preciso que os dous tambem saião; se ficarem, o outro póde voltar.

—Não se animará! disse o cavalheiro.

—Pery não se engana! Manda sahir os dous.

—Fica descansado. Fallarei com D. Antonio de Mariz.

O resto do dia passou tranquillamente; mas a tristeza tinha entrado nesta casa ainda na vespera tão alegre e feliz; a partida de D. Diogo, o temor vago que produz o perigo quando se aproxima, e o receio de um ataque dos selvagens, preoccupavão os moradores do Paquequer.

Os aventureiros dirigidos por D. Antonio, executavão trabalhos de defesa tornando ainda mais inaccessivel o rochedo em que estava situada a casa.

Uns construião palissadas em roda da esplanada; outros arrastavão para a frente da casa uma colubrina que o fidalgo por excesso de cautela mandára vir de S. Sebastião havia dous annos. Toda a casa emfim apresentava um aspecto martial, que indicava a vespera de um combate; D. Antonio preparava-se para receber dignamente o inimigo.

Apenas em toda esta casa uma pessoa se conservava alheia ao que se passava; era Isabel, que só pensava no seu amor.

Depois de sua confissão, arrancada violentamente ao seu coração por uma força irresistivel, por um impulso que ella não sabia explicar, a pobre menina quando se vira só, no seu quarto, á noite, quasi morreu de vergonha.

Lembrava-se de suas palavras, e perguntava a si mesma como tivera a coragem de dizer aquillo, que antes nem mesmo os seus olhos se animavão a exprimir silenciosamente. Parecia-lhe que era impossivel tornar a ver Alvaro sem que cada um dos olhares do moço queimasse suas faces e a obrigasse a esconder o rosto de pejo.

Entretanto nem por isso seu amor era menos ardente; ao contrario agora é que a paixão, por muito tempo reprimida, se exacerbava com as lutas e contrariedades.

As poucas palavras doces que o moço lhe dirigira, a pressão das mãos, e o aperto rapido sobre o coração de Alvaro n'um momento de hallucinação, passavão e repassavão na sua memoria a lodo o momento.

Seu espirito, como uma borboleta em torno da flor, esvoaçava constantemente em torno das reminiscencias ainda vivas, como para libar todo o mel que encerravão aquellas sensações, as primeiras de seu infeliz amor.

Nesse mesmo dia de segunda-feira, á tarde, Alvaro encontrou-se um momento com Isabel na esplanada.

Ambos ficárão mudos, e corárão. Alvaro ia retirar-se.

—Sr. Alvaro... balbuciou a moça tremula.

—Que quereis de mim, D. Isabel? perguntou o moço perturbado.

—Esqueci-me restituir-vos hontem o que não me pertence.

—É ainda este malfadada bracelete?

—Sim, respondeu a moça docemente, é este malfadado bracelete: Cecilia teima que é elle vosso.

—Se meu é, vos peço que o aceiteis.

—Não, Sr. Alvaro, não tenho direito.

—Uma irmã não tem direito de aceitar a prenda que lhe offerece seu irmão?

—Tendes razão, respondeu a moça suspirando, eu o guardarei como lembrança vossa; não será adorno para mim, senão reliquia.

O moço não respondeu; retirou-se para cortar a conversa.

Desde a vespera Alvaro não podia eximir-se á impressão poderosa que causara nelle a paixão de Isabel; era preciso que não fosse homem para não se sentir profundamente commovido pelo amor ardente de uma mulher bella, e pelas palavras de fogo que corrião dos labios de Isabel impregnadas de perfume e sentimento.

Mas a razão direita do cavalheiro recalcava essa impressão no fundo do coração; elle não se pertencia; tinha aceitado o legado de D. Antonio de Mariz e jurado dar a sua mão a Cecilia.

Embora não esperasse mais realisar o seu sonho dourado, entendia que estava rigorosamente obrigado a sujeitar-se á vontade do fidalgo, a proteger sua filha, a dedicar-lhe sua existência. Quando Cecilia o repellisse abertamente, e D. Antonio o desobrigasse de sua promessa, então seu coração seria livre, se não estivesse morto pelo desengano.

O unico facto notavel que se deu nesse dia foi a chegada de seis aventureiros das vizinhanças, que prevenidos por D. Diogo vinhão offerecer seus serviços a D. Antonio.

Chegarão ao lusco-fusco; á frente delles vinha o nosso conhecido mestre Nunes, que um anno antes dera hospitalidade no seu pouso a frei Angelo di Lucca.