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O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2) cover

O Guarany: romance brazileiro, Vol. 2 (of 2)

Chapter 6: III VERME E FLOR
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About This Book

The narrative follows a colonial household facing imminent attack, as elders and heirs debate duty, escape, and the best means of preserving the family; preparations and farewells alternate with growing unrest among hired adventurers. Tension escalates into clashes between settlers and a hostile indigenous force, producing sieges, betrayals, and desperate combats. Captivity, sacrifice, and moral reckonings lead to a catastrophic turning point that forces revelations and punishments. The final episodes resolve through redemption, loss, and an epilogue that ties personal fate to the broader consequences of frontier violence.

III
VERME E FLOR

Erão onze horas da noite.

O silencio reinava na habitação e seus arredores, tudo estava tranquillo e sereno. Algumas estrellas brilhavão no céo; os sopros escassos da viração susurravão na folhagem.

Os dous homens de vigia, apoiados ao arcabuz e reclinados sobre o alcantil, sondavão a sombra espessa que se estendia pela aba do rochedo.

O vulto magestoso de D. Antonio de Mariz passou lentamente pela esplanada, e desappareceu no canto da casa. O fidalgo fazia a sua ronda nocturna, como um general na vespera de uma batalha.

Passados alguns momentos ouvio-se cantar uma coruja no valle, junto da escada de pedra; uma das vigias abaixou-se, e tomando dous pequenos seixos deixou-os cahir um depois do outro.

O som fraco que produzio a quedadas pedras sobre o arvoredo da varzea foi quasi imperceptivel; seria difficil distingui-lo do rumor do vento nas folhas.

Um instante depois um vulto subio ligeiramente a escada, e reunio-se aos dous homens que fazião a guarda nocturna:

—Tudo está preparado?

—Só esperamos por vós.

—Vamos! não ha tempo a perder.

Trocadas estas palavras rapidamente entre o que chegava e uma das vigias, os tres encaminhárão-se com todas as precauções para a alpendrada em que habitava a banda dos aventureiros.

Ahi, como no resto da casa, tudo estava calmo e tranquillo; apenas via-se luzir na soleira da porta do aposento de Ayres Gomes a claridade de uma luz.

Um dos tres chegou-se á entrada do alpendre, e esgueirando-se pela parede perdeu-se na escuridão que havia no interior.

Os outros dous se dirigirão ao fim da casa, e ahi occultos pela sombra e pelo angulo que formava um largo pilar do edificio, começárão um dialogo breve e rapido.

—Quantos são? perguntou o homem que chegára.

—Vinte ao todo.

—Restão-nos?

—Dezenoze.

—Bem. A senha?

—Prata.

—E o fogo?

—Prompto.

—Aonde?

—Nos quatro cantos.

—Quantos sobrão?

—Dous apenas.

—Seremos nós.

—Precisais de mim?

—Sim.

Houve uma pequena pausa, em que um dos aventureiros parecia reflectir profundamente emquanto o outro esperava; por fim o primeiro ergueu a cabeça:

—Ruy, vós me sois dedicado?

—Dei-vos a prova.

—Preciso de um amigo fiel.

—Contai comigo.

—Obrigado.

O desconhecido apertou a mão de seu companheiro.

—Sabeis que amo uma mulher?

—Vós m'o dissestes.

—Sabeis que é mais por essa mulher do que por esse thesouro fabuloso que concebi este plano horrivel?

—Não; não o sabia.

—Pois é a verdade; pouco me importa a riqueza; sêde meu amigo; servi-me lealmente, e tereis a maior parte do meu thesouro.

—Fallai; que quereis que eu faça?

—Um juramento; mas um juramento sagrado, terrivel.

—Qual dizei!

—Hoje esta mulher me pertencerá; entretanto se por qualquer acaso eu vier a morrer, quero que...

O desconhecido hesitou:

—Quero que nenhum homem possa ama-la, que nenhum homem possa gozar a felicidade suprema que ella pode dar.

—Mas como?

—Matando-a!

Ruy sentio um calafrio.

—Matando-a, para que a mesma cova receba nossos dous corpos; não sei porque, mas parece-me que ainda cadaver, o contacto desta mulher deve ser para mim um gozo immenso.

—Loredano!... exclamou seu companheiro horrorisado.

—Sois meu amigo e sereis meu herdeiro! disse o italiano agarrando-lhe convulsivamente no braço. É a minha condição; se recusais, outro aceitará o thesouro que rejetais!

O aventureiro estava em luta com dous sentimentos oppostos; mas a ambição violenta, cega, esvairada, abafou o grito fraco da consciencia.

—Jurais? perguntou Loredano.

—Juro!... respondeu Ruy com a voz estrangulada.

—Avante então!

Loredano abrio a porta do seu cubiculo, e voltou algum tempo depois trazendo uma taboa longa e estreita que collocou sobre o despenhadeiro como uma especie de ponte suspensa.

—Ides segurar esta taboa, Ruy. Entrego em vossas mãos a minha vida, e nisto dou-vos a maior prova de confiança. Basta que deixeis esta prancha mover-se para que eu me precipite sobre os rochedos.

O italiano achava-se então no mesmo lugar que na noite da chegada, algumas braças distante da janella de Cecilia, onde não podia chegar por causa do angulo que formava o rochedo e o edificio.

A taboa foi collocada na direcção da janella; a primeira vez tinha-lhe bastado o seu punhal; agora porém necessitava de um apoio seguro, e do livre movimento de seus braços. Ruy collocou-se sobre a ponta da taboa, e segurando-se a um frechai do alpendre manteve immovel sobre o precipicio essa ponte pensil em que o italiano ia arriscar-se.

Quanto a este, sem hesitar, tirou as suas armas para ficar mais leve, descalçou-se, segurou a longa faca entre os dentes, e pôz o pé sobre a prancha.

—Esperar-me-heis do outro lado, disse o italiano.

—Sim, respondeu Ruy com a voz tremula.

A razão por que a voz de Ruy tremia, era um pensamento diabolico que começava a fermentar no seu espirito. Lembrou-lhe que tinha na mão Loredano e o seu segredo; que para vêr-se livre de um e senhor do outro, bastava afastar o pé e deixar a taboa inclinar sobre o abysmo.

Entretanto hesitava; não que o remorso anticipado lhe exprobasse o crime que ia commetter; já tinha-se afundado muito no vicio e na depravação para recuar. Mas o italiano exercia sobre seus complices tal prestigio e influencia tão poderosa, que Ruy não podia mesmo nesse momento esquivar-se a elles.

Loredano estava suspenso sobre o abysmo pela sua mão; podia salva-lo ou precipital-o no despenhadeiro; e comtudo dessa posição ainda elle impunha respeito ao aventureiro.

Ruy tinha medo: não comprehendia o motivo desse terror irresistivel; mas o sentia como uma obsessão e um pesadelo.

No emtanto a imagem da riqueza esplendida, brilhante, radiando galas e luzimentos, passava diante de seus olhos e o deslumbrava; um pouco de coragem, e seria o unico senhor do thesouro fabuloso, de cujo segredo era o italiano depositario.

Mas coragem é o que lhe faltava; por duas ou tres vezes o aventureiro teve um impeto de suspender-se ao frechai, e deixar a taboa rolar no abysmo; não passou de um desejo.

Venceu a final a tentação.

Teve um momento de desvario: os joelhos acurvárão-se; a taboa soffreu uma oscillação tão forte, que Ruy admirou-se como o italiano se tinha podido suster.

Então o medo desappareceu; foi substituido por uma especie de raiva e frenesi que se apoderou do aventureiro; o primeiro esforço lhe dera a ousadia, como a vista do sangue excita a féra.

Um segundo abalo mais forte agitou a taboa, que oscillou á borda do rochedo; porém não se ouvio o baque de um corpo; não se ouvio mais que o choque da madeira sobre a pedra. Ruy, desesperado, ia soltar a prancha, quando chegou-lhe ao ouvido, abafada e sumida, a voz do italiano, que apenas se percebia no silencio profundo da noite.

—Estais cansado, Ruy?... Podeis tirar a taboa: não preciso mais della.

O aventureiro ficou espavorido; decididamente esse homem era um espirito infernal que plainava sobre o abysmo, e escarnecia do perigo; um ente superiora quem a morte não podia tocar.

Elle ignorava que Loredano, com a sua previdencia ordinaria, quando entrara no seu cubiculo para tirar a prancha, tivera o cuidado de passar por um caibro do alpendre, que era de telhavan, a ponta de uma longa corda que cahio sobre a parte de fóra da parede uma braça distante da janella de Cecilia.

Assim, apenas deo o primeiro passo sobre a ponte improvisada, o italiano mio se descuidou de estender o braço e agarrar a ponta da corda, que logo atou á cintura: então se o apoio lhe faltasse ficaria suspenso no ar, e, embora com mais difficuldade, realisaria o seu intento.

Foi por isso que os dous abalos produzidos pelo seu complice não tiverão o resultado que elle esperava; logo de primeiro, Loredano adivinhou o que se passava n'alma de Ruy, mas não querendo dar-lhe a perceber que conhecia a sua traição, servio-se de um meio indirecto para dizer-lhe que estava em segurança, e que era inutil a tentativa de precipita-lo.

A taboa não fez mais um só movimento; conservou-se immovel como se estivera solidamente pregada ao rochedo.

Loredano adiantou-se, tocou a janella da moça, e com a ponta da faca conseguio levantar a aldraba; as gelosias abrindo-se afastárão as cortinas de cassa que vendavão o asylo do pudor e da innocencia.

Cecilia dormia envolta nas alvas roupas de seu leito; sua cabecinha loura apparecia entra as rendas finissimas sobre as quaes se desenrolavão os lindos anneis dourados de seus cabellos. O doce amortecimento de um somno calmo e sereno vendava seu rosto gracioso, como a sombra esvaecida que desmaia o semblante das virgens de Murillo; seu sorriso era apenas enlevo.

O talho de sua anagoa abrindo-se deixava entrever um collo de linhas puras, mais alvo do que a cambraia; e com a ondulação que a respiração branda imprimia ao seu peito, desenhavão-se sob a lençaria diaphana os seios mimosos.

Tudo isto resaltava como um quadro d'entre as ondas de uma colcha de damasco azul que nas suas largas dobras moldava sobre a alvura transparente do linho os contornos harmoniosos e puros.

Havia porém nessa belleza adormecida uma expressão indefinivel, um quer que seja de tão casto e innocente, que envolvia essa menina no seu somno tranquillo e parecia afugentar della um pensamento profano.

Chegando-se á beira daquelle leito, um homem ajoelharia antes como ao pé de uma santa, do que se animaria a tocar na ponta dessas roupagens brancas que protegião a innocencia.

Loredano aproximou-se tremendo, pallido e offegante; toda a força de sua vigorosa organisação, toda a sua vontade poderosa e irresistivel, estava ahi vencida, subjugada, diante de uma menina adormecida. O que sentio quando seu olhar ardente cahio sobre o leito, é difficil dizer, é talvez mesmo difficil de comprehender. Foi a um tempo suprema ventura e horrivel supplicio.

A paixão brutal o devorava escaldando-lhe o sangue nas veias e fazendo saltar-lhe o coração; entretanto o aspecto dessa menina que não tinha para sua defesa senão a sua castidade, o encadeava.

Sentia que o fogo queimava-lhe o seio; sentia que seus labios tinhão sêde de prazer; e a mão gelada e inerte não se podia erguer, e o corpo estava paralysado: apenas o olhar scintillava, e as narinas dilatadas aspiravão as emanações voluptuosas de que estava impregnada a sua atmosphera.

E a menina sorria no seu placido somno, enleiando-se talvez n'algum sonho gracioso, n'algum dos sonhos azues que Deus esparge como folhas de rosas sobre o leito das virgens.

Era o anjo em face do demonio; era a mulher em face da serpente; a virtude em face do vicio.

O italiano fez um esforço supremo, e passando a mão pelos olhos como para arrancar uma visão importuna, encaminhou-se a um bofete e acendeu uma vela de cera côr de rosa.

O aposento, até então esclarecido apenas por uma lamparina collocada sobre uma cantoneira, illuminou-se; e a imagem graciosa de Cecilia appareceu cercada de uma aureola.

Sentindo a impressão da luz sobre os olhos, a menina fez um movimento, e voltando um pouco o rosto para o lado opposto continuou o somno, que nem fôra interrompido.

Loredano passou entre o leito e a parede, e pôde então admira-la em toda a sua belleza; não se lembrava de nada mais, esquecêra o mundo e seu thesouro: nem pensava no rapto que ia praticar.

A rolinha que dormia sobre a commoda no seu ninho de algodão ergueu-se e agitou as azas; o italiano, despertado por este rumor, conheceu que já era tarde e que não tinha tempo a perder.