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O Mysterio da Estrada de Cintra. Cartas ao Diário de Noticias

Chapter 11: VII
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About This Book

The physician narrator recounts an extraordinary case he encounters on a suburban road: a masked figure, an enigmatic corpse and circumstances that suggest foul play. The story is presented as letters and reports that alternate suspenseful, gothic set-pieces with forensic observation and wry social commentary. Episodes mix nocturnal discovery, suspicious characters and sensational touches while probing the limits of imagination and the demands of methodical analysis. Framed as a youthful collaborative experiment, the account balances melodramatic incident with reflective aside on narrative invention, artistic audacity and the tension between romantic excess and critical scrutiny.

—E não se lembra tambem que não lhe encontrámos gravata?

O mascarado calou-se succumbido.

—No fim de contas eu não sou aqui juiz, nem parte, exclamei eu. Deploro vivamente esta morte, e fallo n'isto unicamente pelo pezar e pelo horror que ella me inspira. Que este moço se matasse ou que fosse morto, que caisse ás mãos de uma mulher ou ás mãos de um homem, importa-me pouco. O que devo dizer-lhe é que o cadáver não póde ficar por muito mais tempo insepulto: é preciso que o enterrem hoje. Mais nada. É dia. O que desejo é sair.

—Tem razão, vae sair já, cortou o mascarado.

E em seguida, tomando M. C. pelo braço, disse-me:

—Um momento! Eu volto já!

E sairam ambos pela porta que communicava com o interior da casa, fechando-a á chave pelo outro lado.

Fiquei só, passeando agitadamente.

A luz do dia tinha feito surgir no meu espírito uma multidão de pensamentos inteiramente novos e diversos d'aqueles que me haviam occupado durante a noite. Ha pensamentos que não vivem senão no silencio e na sombra, pensamentos que o dia desvanece e apaga; ha outros que só surgem ao clarão do sol.

Eu sentia no cerebro uma multidão de idéas extremunhadas, que á luz repentina da madrugada voejavam em turbilhão como um bando de pombas amedrontadas pelo estridor de um tiro.

Machinalmente entrei na alcova, sentei-me na cama, encostei um braço no travesseiro.

Então, não sei como, olhei, reparei, vi, com extranha commoção, sobre a alvura do travesseiro, preso n'um botão de madreperola, um longo cabello louro, um cabello de mulher.

Não me atrevi logo a tocar-lhe. Puz-me a contemplal-o, avida e longamente.

—Era então certo! ahi estás pois! encontro-te finalmente!… Pobre cabello! apieda-me a simplicidade innocente com que te ficaste ahi, patente, descuidado, preguiçoso, languido! Pódes ter maldade, pódes ter malvadez, mas não tens malicia, não tens astucia. Tenho-te nas mãos, fito-te com os meus olhos; não foges, não estremeces, não córas; dás-te, consentes-te, facilitas-te, meiga, doce, confiadamente… E, no emtanto, tenue, exigua, quasi microscopica, és uma parte da mulher que eu adivinhava, que eu antevia, que eu procuro! É ella auctora do crime? é inteiramente innocente? é apenas cumplice? Não sei, nem tu m'o poderás dizer?

De repente, tendo continuado a considerar o cabello, por um processo de espírito inexplicavel, pareceu-me reconhecer de subito aquelle fio louro, reconhecel-o em tudo: na sua côr, na sua nuance especial, no seu aspecto! Lembrou-me, appareceu-me então a mulher a quem aquelle cabello pertencia! Mas quando o nome d'ella me veio insensivelmente aos labios,disse commigo:

—Ora! por um cabello! que loucura!

E não pude deixar de rir.

Esta carta vae já demasiadamente longa. Continuarei ámanhã.

VII

Contei-lhe hontem como inesperadamente havia encontrado á cabeceira da cama um cabello louro.

Prolongou-se a minha dolorosa surpreza. Aquelle cabello luminoso, languidamente enrolado, quasi casto, era o indicio d'um assassinato, d'uma cumplicidade pelo menos! Esqueci-me em longas conjecturas, olhando, immovel, aquelle cabello perdido.

A pessoa a quem elle pertencia era loura, clara de certo, pequena, mignonne, porque o fio de cabello era delgadissimo, extraordinariamente puro, e a sua raiz branca parecia prender-se aos tegumentos craneanos por uma ligação tenue, delicadamente organisada.

O caracter d'essa pessoa devia ser doce, humilde, dedicado e amante, porque o cabello não tinha ao contacto aquella aspereza cortante que offerecem os cabellos pertencentes a pessoas de temperamento violento, altivo e egoista.

Devia ter gostos simples, elegantemente modestos a dona de tal cabello, já pelo imperceptivel perfume d'elle, já porque não tinha vestigios de ter sido frisado, ou caprichosamente enrolado, domado em penteados phantasiosos.

Teria sido talvez educada em Inglaterra ou na Allemanha, porque o cabello denotava na sua extremidade ter sido espontado, habito das mulheres do norte, completamente extranho ás meridionaes, que abandonam os seus cabelos á abundante espessura natural.

Isto eram apenas conjecturas, deducções da phantasia, que nem constituem uma verdade scientifica, nem uma prova judicial.

Esta mulher, que eu reconstruia assim pelo exame d'um cabello, e que me apparecia doce, simples, distincta, finamente educada, como poderia ter sido o protagonista cheio de astucia d'aquella occulta tragedia? Mas conhecemos nós porventura a secreta logica das paixões?

Do que eu estava perfeitamente convencido é que havia uma mulher como cumplice. Aquelle homem não se tinha suicidado. Não estava decerto só, no momento em que bebera o opio. O narcotico tinha-lhe sido dado, sem violencia evidentemente, por ardil ou engano, n'um copo d'agua. A ausencia do lenço, o desapparecimento da gravata, a collocação do fato, aquelle cabello louro, uma cova recentemente feita no travesseiro pela pressão de uma cabeça, tudo indicava a presença d'alguem n'aquella casa durante a noite da catastrophe. Por consequencia: impossibilidade de suicidio, verosimilhança de crime.

O lenço achado, o cabello, a disposição da casa, (evidentemente destinada a entrevistas intimas) aquelle luxo da sala, aquella escada velha, devastada, coberta com um tapete, a corda de seda que eu tinha sentido… tudo isto indicava a presença, a cumplicidade de uma mulher. Qual era a parte d'ella n'aquella aventura? Não sei. Qual era a parte de A. M. C.? Era o assassino, o cumplice, o occultador do cadaver? Não sei. M. C. não podia ser extranho a essa mulher. Não era de certo um cumplice tomado exclusivamente para o crime. Para dar opio n'um copo de agua não é necessario chamar um assassino assalariado. Tinham por consequencia um interesse commum. Eram amantes? Eram casados? Eram ladrões? E accudia-me á memoria aquella inesperada referencia a 2:300 libras que de repente me tinha apparecido como um novo mysterio. Tudo isto eram conjecturas fugitivas. Para que hei de repetir eu todas as idéas que se formavam e que se desmanchavam no meu cerebro, como nuvens n'um ceu varrido pelo vento?

Há de certo na minha hypothese ambiguidades, contradicções e fraquezas, ha nos indicios que colhi lacunas e incoherencias: muitas cousas significativas me escaparam por certo, ao passo que muitos pormenores inexpressivos se me gravaram na memoria, mas eu estava n'um estado morbido de perturbação, inteiramente desorganisado por aquella aventura, que inesperadamente, com o seu cortejo de sustos e mysterios, se installara na minha vida.

O senhor redactor, que julga de animo frio, os leitores, que socegadamente, em sua casa, lêem esta carta, poderão melhor combinar, estabelecer deducções mais certas, e melhor approximar-se pela inducção e pela logica da verdade occulta.

Eu achava-me só havia uma hora, quando o mascarado alto entrou, trazendo o chapeu na cabeça e no braço uma capa de casimira alvadia.

—Vamos, disse elle.

Tomei calado o meu chapéu.

—Uma palavra antes, disse elle. Em primeiro logar dê-me a sua palavra de honra que ao subir agora á carruagem não terá um gesto, um grito, um movimento que me denuncie.

Dei a minha palavra.

—Bem! continuou, agora quero dizer-lhe mais: aprecio a dignidade do seu caracter, a sua delicadeza. Ser-me-hia doloroso que entre nós houvesse em qualquer tempo motivos de desdem, ou necessidades de vingança. Por isso affirmo-lhe: sou perfeitamente extranho a este successo. Mais tarde talvez entregue este caso á policia. Por ora sou eu policia, juiz e talvez carrasco. Esta casa é um tribunal e um carcere. Vejo que o doutor leva d'aqui a desconfiança de que uma mulher se envolveu n'este crime: não o supponha, não podia ser. No emtanto, se alguma vez lá fóra fallar, a respeito d'este caso, em alguma pessoa determinada e conhecida, dou-lhe a minha palavra de honra, doutor, que o mato, sem remorso, sem repugnancia, naturalmente, como corto as unhas. Dê-me agora o seu braço. Ah! esquecia-me, meu caro, que os seus olhos estão destinados a ter estas lunetas de cambraia.

E, rindo, apertou-me o lenço nos olhos.

Descemos a escada, entrámos na carruagem, que tinha os stores fechados. Não pude vêr quem guiava os cavallos porque só dentro do coupé achei a vista livre. O mascarado sentou-se ao pé de mim. Via-lhe uma pequena parte da face tocada da luz. A pelle era fina, pallida, o cabello castanho, levemente annelado.

A carruagem seguiu um caminho, que pelos accidentes da estrada, pela differença de velocidade indicando acclives e declives, pelas alternativas de macadam e de calçada, me parecia o mesmo que tinhamos seguido na vespera, no começo da aventura. Rodámos finalmente na estrada larga.

—Ah, doutor!, dizia o mascarado com desenfado, sabe o que me afflige? É que o vou deixar na estrada, só, a pé! Não se póde remediar isto. Mas não se assuste. O Cacem fica a dois passos, e ahi encontra facilmente conducção para Lisboa.

E offereceu-me charutos.

Depois de algum tempo, em que fomos na maior velocidade, a carruagem parou.

—Chegámos, disse o mascarado. Adeus, doutor.

E abriu por dentro a portinhola.

—Obrigado! accrescentou. Creia que o estimo. Mais tarde saberá quem sou. Permitta Deus que ambos tenhamos no applauso das nossas consciencias e no prazer que dá o cumprimento de um grande dever o derradeiro desenlace da scena a que assistiu. Restituo-lhe a mais completa liberdade. Adeus!

Apertámo-nos a mão, eu saltei. Elle fechou a portinhola, abriu os stores e estendendo-me para fóra um pequeno cartão:

—Guarde essa lembrança, disse, é o meu retrato.

Eu, de pé, na estrada, junto das rodas, tomei a photographia avidamente, olhei. O retrato estava tambem mascarado!

—É um capricho do anno passado, depois de um baile de mascaras! gritou elle, estendendo a cabeça pela portinhola da carruagem que começava a rodar a trote.

Via-a affastando-se na estrada. O cocheiro tinha o chapeu derrubado, uma capa traçada sobre o rosto.

Quer que lhe diga tudo? Olhei para a carruagem com melancolia! Aquelle trem levava comsigo um segredo inexplicavel. Nunca mais veria aquelle homem. A aventura desvanecia-se, tinha findado tudo.

O pobre morto, esse lá ficava, estendido no sophá, que lhe servia de sarcophago!

Achei-me só, na estrada. A manhã estava nevoada, serena, melancolica. Ao longe distinguia ainda o trem. Um camponez appareceu vindo do lado opposto áquelle por onde elle desapparecia.

—Onde fica o Cacem?

—De lá venho eu, senhor. Sempre pela estrada, a meio quarto de legua.

A carruagem, pois, tinha-se dirigido para Cintra.

Cheguei ao Cacem fatigado. Mandei um homem a Cintra, á quinta de F., saber se tinham chegado os cavallos; pedi para Lisboa uma carruagem, e esperei-a a uma janella, por dentro dos vidros, olhando tristemente para as arvores e para os campos. Havia meia hora que estava ali, quando vi passar a toda a brida um fogoso cavallo. Pude apenas distinguir entre uma nuvem de pó o vulto quasi indistincto do cavalleiro. Ia para Lisboa embuçado em uma capa alvadia.

Tomei informações a respeito da carruagem que passara na vespera comnosco.
Havia contradicções sobre a côr dos cavallos.

Voltou de Cintra o homem que eu ali mandára, dizendo que na quinta de F. tinham sido entregues os cavallos por um criado do campo, o qual dissera que os senhores ao pé do Cacem, tinham encontrado um amigo que os levara comsigo em uma caleche para Lisboa. D'ahi a momentos chegou a minha carruagem. Voltei a Lisboa, corri a casa de F. O criado tinha recebido este bilhete a lapis: Não esperem por mim estes dias. Estou bom. A quem me procurar, que fui para Madrid.

Procurei-o debalde por toda a Lisboa. Comecei a inquietar-me. F. estava evidentemente retido. Receei por mim. Lembraram-me as ameaças do mascarado, vagas mas resolutas. Na noite seguinte, ao recolher para casa, notei que era seguido.

Entregar á policia este negocio, tão vago e tão incompleto como elle é, seria tornar-me o denunciante de uma chimera. Sei que, em resultado das primeiras noticias que lhe dei, o governador civil de Lisboa officiou ao administrador de Cintra convidando-o a metter o esforço da sua policia no descobrimento d'este crime. Foram inuteis estas providencias. Assim devia ser. O successo que constitue o assumpto d'estas cartas está por sua natureza fóra da alçada das pesquizas policiaes. Nunca me dirigi ás authoridades, quiz simplesmente valer-me do publico, escolhendo para isso as columnas populares do seu periodico. Resolvi homiziar-me, receando ser victima de uma emboscada.

São obvias, depois d'isto, as rasões por que lhe occulto o meu nome: assignar estas linhas seria patentear-me; não seria esconder-me, como quero.

Do meu impenetravel retiro lhe dirijo esta carta. É manhã. Vejo a luz do sol nascente atravez das minhas jelozias. Oiço os pregões dos vendedores matinaes, os chocalhos das vaccas, o rodar das carruagens, o murmurio alegre da povoação que se levanta depois de um somno despreoccupado e feliz… Invejo aquelles que não tendo a fatalidade de secretas aventuras passeiam, conversam, moirejam na rua. Eu—pobre de mim!—estou encarcerado por um mysterio, guardado por um segredo!

P. S. Acabo de receber uma longa carta de F. Esta carta, escripta ha dias, só hoje me veiu á mão. Sendo-me enviada pelo correio, e tendo-me eu ausentado da casa em que vivia sem dizer para onde me mudava, só agora pude haver essa interessante missiva. Ahi tem, senhor redactor, copiada por mim, a primeira parte d'essa carta, da qual depois de ámanhã lhe enviarei o resto. Publique-a, se quiser. É mais do que um importante esclarecimento n'este obscuro successo; é um vestigio luminoso e profundo. F… é um escriptor publico, e descobrir pelo estylo um homem é muito mais facil do que reconstruir sobre um cabello a figura de uma mulher. É gravissima a situação do meu amigo. Eu, afflicto, cuidadoso, hesitante, perplexo, não sabendo o que faça, não podendo deliberar pela reflexão, rendo-me á decisão do acaso, e elimino, juntamente com a letra do autographo, as duas palavras que constituem o nome que firma essa longa carta. Não posso, não devo, não me atrevo, não ouso dizer mais. Poupem-me a uma derradeira declaração, que me repugna. Adivinhem… se poderem. Adeus!

+INTERVENÇÃO DE Z.+

Nota do Diario de Noticias.—No original da carta publicada hontem havia algumas palavras a lapis, nas quaes só fizemos reparo depois de impresso o jornal. Essas palavras continham esta observação: A photographia do mascarado foi feita em casa de Henrique Nunes, rua das Chagas, Lisboa. Talvez ahi possa haver noticia do sujeito photographado.

Antes de darmos á estampa a longa carta de F…, cuja primeira parte nos foi hontem enviada pelo medico, é dever nosso tornar conhecida uma outra importantissima que recebemos pela posta interna, assignada com a inicial Z., e que temos em nosso poder ha já tres dias. Esta carta, que tão estreitamente vem prender-se na historia dos successos que constituem o assumpto d'esta narrativa, é a seguinte:

Senhor redactor do Diario de Noticias.—Lisboa, 30 de julho de 1870.—Escrevo-lhe profundamente indignado. Principiei a ler, como quasi toda a gente em Lisboa, as cartas publicadas na sua folha, em que o doutor anonymo conta o caso que essa redacção intitulou O mysterio da Estrada de Cintra. Interessava-me essa narrativa e segui-a com a curiosidade despreoccupada que se liga a um canard fabricado com engenho, a um romance á similhança dos Thugs e de alguns outros do mesmo genero com que a veia imaginosa dos phantasistas francezes e americanos vem de quando em quando acordar a attenção da Europa para um successo estupendo. A narração do seu periodico tinha sobre as demais que tenho lido o merito original de se passarem os successos ao tempo que se vão lendo, de serem anonymas as personagens e de estar tão secretamente encoberta a mola principal do enredo, que nenhum leitor poderia contestar com provas a veracidade do caso portentosamente romanesco, que o auctor da narrativa se lembrara de lançar de repente ao meio da sociedade prosaica, ramerraneira, simples e honesta em que vivemos. Ia-me parecendo ter diante de mim o ideal mais perfeito, o typo mais acabado do roman feuilleton, quando inesperadamente encontro no folhetim publicado hoje as iniciaes de um nome de homem—A. M. C.—accrescentando-se que a pessoa designada por estas lettras é estudante de medicina e natural de Vizeu. Eu tenho um amigo querido com aquellas iniciaes no seu nome. É justamente estudante de medicina e natural de Vizeu! O acaso não podia reunir tudo isto. Havia por tanto o intuito de fazer cobardemente uma insinuação infamissima. Isto não é licito a romancista nenhum.

A primeira impressão que senti foi a da repulsão e do tedio. Saindo de casa pouco depois da leitura do seu periodico, procurei o meu amigo para lhe ler a passagem que lhe dizia respeito, e pôr-me á sua disposição no caso que precisasse de mim para pedir quanto antes á redacção do Diario de Noticias a satisfação de honra, que homens de educação e de brio não poderiam de certo recusar a semelhante aggravo.

Em casa do meu amigo acabo porém de saber, cheio de confusão e de surpresa, que elle desappareceu e que é ignorado o seu destino!

Este desapparecimento e a coincidencia achada na carta do doutor levam-me desgraçadamente a acreditar que por extranhas fatalidades o meu infeliz amigo se acha involuntariamente envolvido n'este tenebroso negocio. A data do desapparecimento d'elle condiz perfeitamente com a que encontro na carta do seu correspondente. É claro que ha pois em volta da pessoa de A. M. C., uma intriga real, uma emboscada talvez, uma traição.

Serei tristemente obrigado a ter por veridica, no todo ou em parte, a noticia que leio na sua folha?

Julgo do meu dever assegurar o seguinte:

Não sei o que o meu amigo A. M. C. ia fazer alta noite a essa casa desconhecida, tendo uma chave d'ella, martello e pregos. Não sei porque se declarou auctor do assassinato, negando-o depois. Ignoro a intima verdade d'estas contradicções.

Mas o que sei, aquillo de que posso já dar testemunho, e não só eu, mas amigos, mas numerosas pessoas, é que na noite que se mostra ter sido a do assassinato elle esteve, até quasi de madrugada, em minha casa, conversando, rindo, bebendo cerveja.

Saiu talvez ás tres horas da noite.

Declaro tambem, e isto póde ser egualmente apoiado por seguras testemunhas: que ás nove horas da manhã do dia seguinte estive no quarto d'elle. Ainda dormia, acordou sobresaltado á minha voz, e tornou a adormecer em quanto eu procurava entre os seus livros um volume de Taine.

As donas da casa que o hospedam disseram-me que elle entrara pela madrugada.

—Ali pela volta das tres e meia, conjecturavam ellas.

Ora da minha casa, d'onde saiu ás tres, até casa d'elle, onde entrou ás tres e meia, o caminho que é longo, occupa justamente este espaço de tempo.

Por consequencia, respondam: quando commetteu elle o crime? O emprego do seu tempo está todo justificado: das nove da noite até á madrugada em minha casa, n'uma conversa jovial e intima; da madrugada até ás nove, n'um somno pacifico em sua propria casa.

Resta unicamente a meia hora do caminho, da qual não ha testemunhas. É crivel que em meia hora podesse ir alguem a essa casa, preparar opio, fazel-o beber a um homem, falsificar uma declaração e vir socegadamente dormir? Tem isto logica?

Demais o crime foi commettido n'uma casa, o opio foi deitado n'um copo d'agua, dado traiçoeiramente. O cadaver estava meio despido. Tudo isto indica que entre o assassino e o desgraçado houve uma entrevista, tinham conversado intimamente, tinham rido decerto; o que depois morreu tinha talvez calor, poz-se livremente, tirou o casaco, contaram porventura anedoctas, e n'um momento de sede, o opio foi dado n'um copo d'agua. E tudo isto se faz em meia hora! em meia hora! Devendo, meus senhores, descontar-se d'esta meia hora o tempo que vae de minha casa á casa do crime, e d'ahi a casa de A. M. C.! Póde isto ser?

Agora outro argumento: Eu conheço A. M. C.: o seu caracter é digno, impeccavel; o seu coração é compassivo e simples; a sua vida é laboriosa e isolada; não existe n'ella nem mysterio, nem aventura, nem pathetico: estava para casar, sem romance, trivialmente.

Eu sabia de todos os seus passos, conhecia as suas relações. Estou certo que nunca viu o assassinado, o qual, no dizer do doutor, parecia extrangeiro, sem relações aqui, e domiciliado ha pouco tempo em Portugal!

Poderia ser um encontro casual, uma rixa inesperada? Impossivel. Se o homem foi encontrado estendido n'um sophá, morto com opio!

Poderia M. C. ter sido assalariado para commetter este crime? Que loucura! Um homem da sua intelligencia, do seu caracter, da sua elevação de espírito! Além de que, hoje o emprego de homicida, regular e devidamente retribuido como uma funcção publica, não existe nos costumes.

Póde-se conceber que um homem que premedita um crime esteja até ao momento decisivo distrahido, espirituoso, desabotoando os seus paradoxos, bebendo cerveja? E que depois vá socegadamente dormir, e que um amigo que o visite na manhã seguinte encontre sobre a sua banca de cabeceira, uma chavena de chá e um livro de historia?

E dê-se isto com um homem de caracter timido, de habitos modestos, homem de estudo, sem energia de acção, e de uma notavel franqueza de impressões!

Se me perguntarem, porém, porque apparece M. C. de noite n'aquella casa com um martello, com pregos, e se declara assassino,—isso não o sei explicar.

Suspeito que haja uma grande influencia que peza sobre elle, alguem que com promessas extraordinarias, com seducções indisiveis, o obriga a apresentar-se como auctor do crime. M. C. evidentemente sacrifica-se. Por quem, ignoro-o. Mas sacrifica-se, e na ignorancia de que estas dedicações são sempre desapreciadas perante o trabalho da policia, quer expiar o crime de outro; perde-se para salvar alguem.

Com que interesse? por que seducções? Não sei explicar. Elle, tão indifferente ao dinheiro! tão rigido de costumes e de sensações!

Pois bem! M. C. póde sacrificar-se; póde-o fazer. Nós, seus amigos, é que não podemos consentil-o. O seu corpo, que lhe pertence exclusivamente, póde dal-o á infecção d'um carcere, ou ao peso d'uma grilheta. Mas o seu caracter, a sua honra, a sua reputação, a sua alma, essa pertence tambem aos seus amigos, e a parte que nos pertence havemos de defendel-a corajosamente.

Não! M. C. não foi o assassino. Dil-o a evidencia, a fatal logica dos factos, a terrivel mathematica do tempo, o conhecimento do seu caracter, e a coherencia dos temperamentos, que é uma verdade nas sciencias physiologicas. Não, não é o assassino. Se o diz, está louco, mente. Digo-lh'o claramente, em frente, diante dos seus proprios olhos fitos sobre os meus:—Se te declaras o auctor d'esse crime, mentes!

Elle tem de certo o senso moral transviado. Se me deixassem fallar-lhe!… Esclareçam-lhe, pelo amor de Deus, aquella rasão cheia de escuras nuvens da paixão e da dôr! Isto é afflictivo! Honra, amor, familia, esperança, tudo esqueceu esse homem! Que se lembre, o desgraçado, que não é só n'este mundo. Que se lembre que talvez a estas horas, no fundo da provincia, sua mãe, suas irmãs, sabem já que elle está aqui apontado como assassino! Que se lembre da terrivel deshonra, do seu futuro perdido, das horas solitarias da prisão, da atroz vergonha de um interrogatorio publico, e do echo profundo que faz na alma humana o ruido sinistro dos ferros da grilheta.

Não ponho no fim d'esta carta o meu nome, porque presinto vagamente n'este grupo de successos, confusamente conglobados perante a minha apreciação, a passagem mysteriosa e fatal de um crime que vae poderosamente na direcção do seu fito, esmagando e despedaçando os estorvos que o impecem. Ora eu não quero que a publicidade do meu nome leve os cumplices no attentado de que se trata, ou porventura a policia, a aniquillar ou a embaraçar de qualquer modo a intervenção expontanea que eu proprio vou ter no descobrimento dos reus. Conto com os meus recursos, mas preciso para os pôr em pratica de toda a minha liberdade.

Creia-me, senhor redactor, etc—Z.

+DE F… AO MEDICO+

I

Julho 21 à 1 hora da noite.

—Meu querido amigo.

—Ignoro se estás em tua casa, para onde te dirijo esta carta, ou se continuas, como eu, permanecendo aqui em carcere privado. Em qualquer dos casos, recebidas agora ou encontradas mais tarde, estas letras ficarão encerrando para aquelle de nós que houver de as ler a lembrança proveitosa das horas mais extraordinarias da nossa vida.

Escrevo mais para coordenar e fixar na memoria estes momentos do que para empregar n'outro destino puramente hypothetico esta carta. Será uma pagina das minhas confidencias que entregarei á discrição ou ao acaso da posta, reservando-me o direito de lhe pedir que m'as restitua a seu tempo.

Não tornei a ter noticias tuas desde que nos separámos hontem á noite, pouco tempo depois de termos entrado na sala em que estava o cadaver. O mascarado que se encarregára de me conduzir ao quarto onde me acho deu-me o seu braço e disse-me ao ouvido um nome de mulher, a indicação de uma rua e o numero de uma porta. Era o nome da pessoa que sabes e a designação da casa em que ella mora! Creio que involuntariamente estremeci, mas consegui dizer serenamente:

—Não o comprehendo.

Este individuo era o mesmo que na carruagem se conservára sempre calado, o mesmo que na sala me observava com attenção e desconfiança.

Aquella estatura, aquella falla, aquella voz, posto que apenas perceptivel ao meu ouvido, não eram novas para mim.

Elle respondeu fallando-me ainda mais baixo:

—Não poderá sair d'aqui antes de dois ou tres dias. Veja se precisa de escrever uma carta ou de mandar um recado.

Passou-me pela mente uma idéa a respeito d'aquelle homem… Se fosse…

Occorreu-me que teria um meio de desenganar-me se era effectivamente ou se não era um amigo intimo que eu tinha ao meu lado: arrancar-lhe o relogio; bastar-me-hia apalpal-o, ainda vendado como eu estava, para reconhecer o dono. A ser o individuo que eu suppunha, a caixa do relogio teria a lisura do esmalte e no centro a saliencia de um brasão.

—Escreverei duas linhas, disse eu; quererá dar-me um lapis?

Tinhamos chegado ao quarto que me era destinado e eu desvendei-me ao tempo em que elle saia promettendo trazer-me o necessario para escrever. O individuo que voltou com papel e pennas não era o mesmo que acabara de sair. Assim tinha eu perdido a occasião de confirmar uma suspeita ou de desvanecer uma duvida.

Em todo o caso escrevi duas linhas ao meu creado serenando-o com relação ao meu desapparecimento.

—Mais nada? interrogou o desconhecido tomando o meu bilhete.

—Nada mais.

Um sentimento de delicadeza e uma sombra de desconfiança impediam-me de escrever directamente á pessoa a quem o mascarado se referira.

Fecharam a porta e fiquei só.

Achei-me n'um quarto de interior, bastante espaçoso, mas sem janella. A um lado havia um lavatorio; sobrepostas a um canto tres malas de viagem, de coiro de Varsovia com pregos d'aço, estrelladas com senhas de caminhos de ferro, d'hoteis e de paquetes; a que estava por cima das outras tinha em grandes lettras pretas sobre uma tira de papel este distico: Grand-Hotel-Paris; uma das senhas era dos paquetes inglezes da carreira da India. Para outro lado do quarto havia uma cama. Completava a simples guarnição d'este aposento um sophá forrado de marroquim verde, collocado no meio da casa defronte de uma ampla mesa em que estava posta a minha ceia á luz fulgurante de um grande candeeiro com largo abat-jour.

Queres que te confesse a verdade? Agradou-me aquelle recolhimento, aquelle socego, aquella solidão, depois da grande sobreexcitação em que me tinha achado!

Estirei-me no sophá, puz-me a olhar machinalmente para o circulo da luz trepidante projectada pelo candeeiro e contornada no tecto pela abertura do abat-jour, e começaram a desafogar-se-me os comprimidos spasmos do coração em bocejos longos acompanhados de estremecimentos nervosos, que me convidavam suavemente ao repouso. A minha imaginação occupada n'um trabalho inconsciente, similhante ao dos sonhos, ia tirando no emtanto do caso que eu presenceára as ramificações mais illogicas e mais phantasticas. Os successos por que passámos desde a estrada de Cintra até á minha entrada n'este quarto appareciam-me redemoinhando convulsamente no ar como um enorme enigma figurado, cujos objectos tumultuavam impellidos pelos pontapés de diabinhos sarcasticos, que se riam para mim e me deitavam de fóra as linguasinhas em braza.

Fui caindo mollemente n'um despego languido, fecharam-se-me os olhos, adormeci.

Ao acordar, depois de um somno breve mas socegado e reparador, encarei na ceia que reluzia aos meus olhos.

Havia sobre a mesa um pão, uma caixa de lata com sardinhas de Nantes, uma terrinasinha de foie gras, uma perdiz, uma fatia de queijo e tres garrafas de vinho de Bourgogne, lacradas de verde; junto d'estas, quatro garrafas de soda. Na argola de prata do guardanapo estava passado o sacarolhas. Sobre uma bandeja de metal erguia-se um feixe de charutos côr de chocolate, luzidios, gordos, apertados nas extremidades com duas fitas de seda carmesim. Em cima da caixa das sardinhas achava-se collocado o instrumento destinado a abril-a. O copo era de cristal finissimo, o garfo de prata dourada, a faca de cabo de madreperola, os pratos de porcellana brancos, cercados de um estreito filete dourado e verde. Atirei rapidamente com os pés para o chão. Sentei-me no sophá, senti a fome encavallar-se-me no dorso, carregar-me na cabeça para cima da ceia, cingir-me a cinta com as suas pernas esgalgadas e cravar-me no estomago vasio os acicates da gula.

Ao mesmo tempo ergueu-se-me do outro lado da mesa a abantesma do susto, cravando os olhos em mim e espalmando por cima das iguarias a sua mão descarnada e tremula com um gesto prohibitivo e solemne. Atarantado, perplexo, escutei então dentro de mim um breve dialogo similhante áquelles que Xavier de Maistre travava de quando em quando com a besta, na sua viagem á volta do quarto.

Havia uma voz pausada e grave que dizia:

—Attenta no que fazes, temerario! abre teus olhos, inconsiderado mortal! Essa perdiz, cujo peito insidioso e perfido está lourejando a teus olhos, foi apimentada com arsenico. Aquelle Chambertin, que te espera como uma onda da lagoa Stigia, embuscada por detraz d'aquelle lettreiro envernizado, apparentemente simples, elegante, convidativo, mas em verdade tenebroso e fatal como o distico do festim de Balthazar, aquelle vinho, que te offerece um beijo refalsado e fementido, está destemperado com acido prussico. As truffas, lubricas, venaes, devassas, envoltas n'esses figados de pato, estão empapadas nos temperos lethaes da cosinha dos Borgias!

A outra voz, insinuante e meiga, dizia n'uma vaga melodia de sereia:

—Come, se tens fome, estupido! Estás com medo do papão, maluco?… Põe os olhos n'esse lacre: não será um penhor seguro da pureza do liquido que elle tapa a marca d'esse abonado sinete? Não vês hermeticamente fechada, chumbada e garantida com os mais especiaes lavores a lata d'essas sardinhas pescadas nas costas de França e cosinhadas ha seis mezes em Marselha? Não vês religiosamente grudada e sellada com as etiquetas insuspeitas e sagradas da acreditada casa Chevet essa terrina de foie gras? Suppões acaso, ó parlapatão, que meio mundo se conjurasse para te arrancar essa vida inutil? Come, bebe e dorme; aproveita nos braços da sabedoria as horas gostosas da solidão com que te brinda o acaso. Deleita-te conversando depois comtigo e repousando-te no seio tepido da melancolia, d'essa deliciosa fada que só apparece evocada pelos namorados e pelos solitarios, e que é na terra a irmã mais nova da tristeza, a irmã gatée, a irmã feliz!

Eu no entanto havia cortado a caixa de sardinhas, desgrudado a tampa da terrina e desarrolhado uma garrafa de vinho e uma garrafa de soda que misturára n'um copo.

Puz-me por fim a comer com apetite, com valor, com delicia, com uma especie de bestialidade voluptuosa, sentindo vagamente adejarem em volta de mim os espiritos beneficos do carcere que bafejaram as prisões de Silvio Pellico.

É singular isto: achava-me bem!

Depois da ceia accendi um charuto e comecei a passear no quarto, dizendo comigo:

—Visitemos o paiz!

Na parede que ficava ao lado da porta por onde se entrava havia uma outra porta. Examinei-a. Estava apenas segura com um ferrolho exterior. Afastei a cama encostada á parede em que se achava esta porta e abri-a.

Era uma armario na espessura do muro, largo, profundo, dividido a meia altura por um prateleiro espaçoso e solido.

Occorreu-me que ao fundo do armario haveria talvez um tabique delgado atravez do qual me seria possivel escutar o que se passasse na casa contigua.

Penetrei no armario, estendi-me no prateleiro, escutei. Do outro lado havia um ruido volumoso e macisso. Parecia que se estava arrastando um movel pesado e grande.

O fundo do armario era effectivamente formado por um tapamento franzino. Era possivel que tivesse havido primitivamente uma porta no logar em que se fizera o armario. Havia um ponto em que a argamassa caíra, e eu via deante de mim um pedaço de ripa atravessada diagonalmente e descarnada da cal.

Peguei no saccarolhas, e no logar indicado fui esburacando devagarinho e progressivamente o cimento do muro, até operar um orificio imperceptivel, pelo qual me era dado vêr a luz e ouvir distinctamente o que se dizia do outro lado.

Eis-aqui o que ás onze horas e meia da noite se estava passando no quarto contiguo áquelle que me serve de prisão:

II

Havia dois homens que arrastavam um grande leito de madeira do logar em que elle estava para ao pé da parede que divide a casa em que me acho d'aquella em que se passava a scena que descrevo, e exactamente para junto do logar em que eu acabava de abrir o buraco que me servia de olho e de orelha.

Um d'esses homens dizia assim:

—Será o que muito bem quizer, mas eu é que não torno a vir cá a andar aos trambulhões com os moveis á hora da meia noite.

—Ha de ter muita razão de queixa! tornava o outro. Dou-lhe uma libra para me ajudar, quero saber se não é melhor isto que estar lá em baixo estendido ao pé da mangedoura, á espera que chegue o trem para ir tratar dos cavallos, a enfastiar-se sem ganhar vintem.

Aquelle que dizia estas palavras, comquanto se expressasse claramente, tinha todos os defeitos de pronuncia que distinguem os extrangeiro que falla portuguez. Pela aspiração especial de certas vogaes e pela contracção habil com que pronunciava os aa, era por certo allemão.

O que primeiramente fallára, proseguiu:

—É bom lucro… Parece que é bom lucro, mas eu para mim não o quero. E olhe que não encontra seis homens aqui na rua que entrem cá de noite, a estas horas, ainda que os pese a oiro!

—Para mudar uma cama!

—Não é pela cama, é por ser a casa que é!

—Ora adeus! que tem a casa?!…

—Não tem nada! É uma graça! Ella é de tal casta que o senhorio teve-a quatro annos por alugar, foi sempre baixando na renda e por fim dava-a já de graça e não tinha alma viva que lhe pegasse! A ultima gente que cá morou esteve só duas noites, e foi-se d'aqui tolhida com as coisas que lhe appareceram e com as trapalhadas que ouvia… Cruzes demonio! cruzes diabo!

—Petas! historias da vida!

—O senhor! não me diga que são petas! Pois eu não vi a familia!?… não estive com elles!? Fugiram de noite, fugiram á segunda noite que dormiram cá, estarrecidos de medo.

—Então que viram elles?

—Elles não viram nada.

—Então ahi tem!

—Não viram, mas ouviram.

—Haviam de ouvir boas coisas!

—Ouviram, sim senhor, ouviram. E não foi só a elles que succedeu isso, foi a todos quantos cá moraram. E era gente de bem, que não mentia, que não tinha precisão de mentir, que tinham pago a sua renda e que ficaram com ella perdida!

—Então que ouviam elles?

—O senhor bem o sabe!… O que elles ouviam? Ouviam pancadas nas portas, quando ninguem batia, nem lhes tocava! Ouviam espirrar o lume e estalarem os carvões exactamente como se estivessem abanando á fogueira, quando estava a cozinha só e o fogão apagado! Sentiam o bater das asas de um passaro que principiava a voar pelas casas apenas se apagavam as luzes; ouviam-o arquejar e bufar approximando-se cada vez mais dos que estavam deitados, pairando tão rente das camas que se lhe sentia o estremecer das pennas, o calor de lume que elle deitava do bico e ao mesmo tempo o frio de neve que fazia a mover as azas!

—Ora adeus! tinham ouvido fallar n'isso e pareceu-lhes que sentiam o tal passaro, de que já fallavam os inquilinos anteriores, os quaes tambem tinham ouvido fallar n'elle, não havendo ao fim de contas ninguem que verdadeiramente o tivesse ouvido.

—Então o senhor não sabe porque foi que elles fugiram, os ultimos que estiveram cá, faz agora quatro annos?

—Ouvi fallar n'isso, mas por alto, não me deram pormenores.

—Eis ahi está porque o senhor não acredita! A coisa foi esta: Elles eram gente pobre mas honrada: marido, mulher e uma filha de seis annos. Para o que désse e viesse dormiam todos juntos na mesma sala. A pequenita a quem elles não contavam nada por causa do medo, estava n'uma caminha a um lado. Dormiam com luz na lamparina, e como trabalhavam muito de dia e estavam cansadissimos á noite, lá pegavam no somno apesar do barulho das faúlas do fogareiro e das argoladas nas portas. Vae senão quando, á segunda noite que passavam cá, accordam aos gritos da creança. Tinha-se apagado a luz. Accenderam-na a toda a pressa. A porta do quarto estava fechada por dentro. Os fechos das janellas achavam-se corridos. No quarto não havia mais ninguem. Mas a roupa da cama da creança estava cahida a dois ou tres passos de distancia do berço em que ella dormia, e a pequenita, nua, tranzida de medo, branca como o travesseiro e tremendo como varas verdes, disse, quando lhe chegou a falla que teve perdida por um bocado, que sentira umas cousas como os pés de uma gallinha muito grande que se lhe pousavam na cama; que se achara depois descoberta e ouvira umas coisas suspiradas envoltas em soluços e beijos, mimos que mettiam medo e que ella não entendia, emquanto um peito coberto de pennas se lhe roçava pelo seio nu. A mãe então vestiu-lhe á pressa uns fatinhos, embrulhou-a n'um chale, estreitou-a nos braços, poz-se a dar-lhe beijos e acalental-a com o bafo, e saiu para a rua aterrada e como doida. O homem, que era valente e destemido, correu a casa toda com luz e sem luz, mettendo-se por todos os cantos e recantos, rangendo os dentes e picando as paredes enfurecido com uma faca de ponta que levava em punho. Não appareceu ninguem! Ninguem podia ter saido! Ninguem podia ter entrado! No dia seguinte foi levar a chave do predio ao senhorio, dizendo-lhe que se algum dia tivesse dinheiro lhe compraria esta casa para elle mesmo a deitar abaixo com um picão e a machado, para lançar o fogo a quanto podesse arder, e calcar depois aos pés e salgar o monte de cinzas que ficasse no chão.

—Pois senhor, eu nenhuma d'essas cousas tenho ouvido, e é esta a segunda noite que durmo aqui.

—Gabo-lhe o gosto! E não tem medo?

—Nenhum.

—Por isso por ahi dizem do senhor o que dizem!

—Então que dizem por ahi de mim?

—Dizem, com o devido respeito, que o senhor é um allemão da Moirama e que tem partes com o demonio.

—Mais um bocadinho para traz, que eu o ajudo! exclamou o estrangeiro, mudando de tom.

—Isto assim?

—Ainda mais… um quasi nada… até ficar a cabeceira unida á hombreira da porta… Basta!

—Não quer mais nada?

—Mais nada. Aqui tem a sua libra e leve d'ali uma d'aquellas velas para que o avejão lhe não appareça na escada ao apanhal-o ás escuras.

—Não o diga a rir, que eu pela minha parte não me rio! o senhor gosta…

—A fallar-lhe a verdade gosto!

—Seu proveito! Olhe lá: quando se aborrecer com as almas que andam cá, veja se passa ahi para a casa que fica ao lado!

—Bem me queria a mim parecer que a casa do lado tambem tem…

—Se tem! Essa então é o diabo, é o proprio diabo que lá mora!

O homem que viera ajudar á mudança da cama accendeu a luz e desceu a escada. O allemão ficou só, fechou a porta e principiou a despir-se para se deitar.

O dialogo que eu acabava de ouvir tinha-me impressionado singularmente e despertado em mim o mais curioso interesse.

Sem procurar directamente indagar cousa alguma, começava a entrar pelo modo mais extranho no conhecimento de factos que, posto que deturpados pela superstição ou pela ignorancia, explicariam de certo o desfecho a que viemos assistir e a presença do cadaver na sala em que o fomos encontrar.

Agora nós, meu interessante e precioso visinho.

III

A cama do allemão tinha ficado, como disse, por baixo do meu buraco de observação. O meu visinho deitou-se e soprou a vela. O quarto ficou ás escuras, e eu senti os colchões que rangiam com o peso do corpo que se ageitava para dormir.

—Ah! tua amas o murmurio dos espiritos invisiveis?… exclamei eu, dirigindo-me mentalmente ao philosopho que me ficava do outro lado do muro. Aprazem-te as ondulações sonoras das moleculas da vida animal que vagueiam dispersas no espaço, procurando o sopro mysterioso que as condense para entrarem na corrente dos seres vivos? Queres encadear ao teu espírito esses elos informes e incoerciveis, que ligam o mundo das cousas conhecidas ao mundo dos seres ignotos? Ora vamos lá a ver como tu empregas as tuas faculdades de medium

E pensando isto, bati-lhe com os nós dos dedos na parede tres pancadinhas seccas, methodicamente espaçadas, como as dos signaes maçonicos.

Senti roçar a mão d'elle pelo papel que forrava o muro, como quem procurasse apalpar algum signal do rumor que ouvira.

Entrei então a repetir com successiva frequencia o rebate que lhe dera percorrendo differentes pontos da parede que servia de fundo ao armario.

Percebi que elle se sentava na cama. Ouvi estalar um phosphoro. Accendeu-se a luz. Parei. Houve uma pausa, durante a qual me conservei silencioso e immovel. O meu visinho apagou finalmente a luz ao cabo de alguns minutos, e eu recomecei a bater devagarinho e repetidamente como primeiro fizera. Elle, tendo escutado por algum tempo ás escuras, accendeu outra vez a vela e começou a examinar o espaço da parede, junto da qual lhe ficava a cama.

No momento em que a chamma da vela perpassava na mão d'elle por defronte do meu buraco, soprei-lhe de repente e apaguei a luz.

O allemão, que se achava de joelhos em cima da cama a revistar a parede, expediu um pequeno grito, que me pareceu mais de surpresa que de terror, com quanto o acompanhasse um estrondo pesado e extremamente significativo. O que produzira esse estrondo fôra o baque do corpo d'elle, cahindo da cama abaixo.

Logo depois ouvi a voz do visinho perguntando com decisão e firmeza:

—Quem está ahi?

Respondi-lhe:

—Sou eu.

—Quem és tu?

—E tu quem és?

—Frederico Friedlann, cidadão prussiano.

—Ah! disse eu.

—Viajo por conta da primeira fabrica de productos chimicos de Buda Pesth, os quaes sou encarregado de tornar conhecidos dos grandes industriaes da Europa.

—Bem! observei.

Elle continuou impassivelmente:

—Contou-me um judeu meu amigo que havia em Lisboa tres predios de que elle tinha noticia, os quaes se achavam abandonados depois de algum tempo de terem ganhado fama de serem habitados por almas do outro mundo. Resolvi morar successivamente nas casas que elle me indicou e é esta a primeira que habito. Componho um livro com investigações a respeito do espiritismo. Poderei saber agora a quem me dirijo?

—Pois não! tornei-lhe eu. Chamo-me fulano, e vivo dos rendimentos das minhas propriedades, ora viajando, ora residindo em Lisboa, e occupando-me de quando em quando com a politica ou com a litteratura, quando não tenho outra cousa menos insipida e menos inutil em que agitar a minha ociosidade e o meu tedio. Não sou espiritista.

—Pois faz mal! O espiritismo é um systema e póde bem succeder que venha ainda a ser uma religião.

—Puff! exclamei eu rindo.

—O quê! continuou elle. O materialismo, guiado de um lado pelas conquistas das sciencias physicas e naturaes e de outro lado pelo relaxamento dos costumes contemporaneos, e pela depressão successiva e assustadora da moral, vae comendo no campo da philosophia o espaço não já muito vasto em que residia a fé. Novas crenças e novas doutrinas virão successivamente sustituir as crenças e as doutrinas mortas por que se regulava o sobrenatural. O homem, que, segundo todas as probabilidades, não poderá nunca prescindir do maravilhoso, d'esse attractivo supremo da sua imaginação, irá então naturalmente buscar ao espiritismo, modificado e aperfeiçoado pela sciencia futura, a theoria de uma tal ou qual sobrevivencia que o lisongeie, e a base de correlações ainda não estudadas dos seres que existem com aquelles que os precederam e com os que se lhes hão de seguir. Os espiritistas de hoje serão de entre todos os philosophos contemporaneos que não querem acceitar em absoluto o dogma esteril e desconsolador da materia omnipotente, os unicos que hão de collaborar na philosophia do futuro.

—Ora ha de me dar licença que lhe pergunte uma cousa…

—Tem-me ás suas ordens.

—Sem com isto querer fazer aggravo ao seu juizo!

—Estimarei muito satisfazer a sua curiosidade, qualquer que seja a natureza d'ella.

—Acredita em alguma das cousas em que esteve ahi fallando o homem que veiu ajudal-o a mudar a cama?

Esta pergunta era capciosa. Eu queria desenganar-me se estava fallando com um doido, com um visionario, com um monomaniaco, ou simplesmente com um homem de espírito extravagante, com um excentrico.

—Eu não creio nem tambem descreio de cousa alguma que ouço, responde-me elle. É meu systema admittir tudo quanto esteja para se provar e duvidar de tudo aquillo que me apresentem como cousa positiva. É o unico meio prudente de nunca nos affastarmos muito da verdade. Se escutou a conversa de ha pouco, tem uma parte da historia d'esta casa. Neguei quanto me disse o homem que esteve aqui porque me obriguei com o senhorio do predio a desvanecer com as minhas informações o anathema que pesa sobre a sua propriedade. A verdade é que tenho ouvido distinctamente ha duas noites consecutivas um rumor insistente e prolongado similhante aos estalidos que produz ao ateiar-se uma fogueira de carvão, e tenho aqui sobre uma banca um busto de Allan Kardec que, sem eu poder explicar como nem porquê, se move, sem que ninguem lhe toque, do centro da mesa em que o colloquei para uma das extremidades d'ella. O pó agglomerado em volta da base do busto, e que eu tenho o mais escrupuloso cuidado em não espanar nunca, vae deixando successivamente sobre a superficie da mesa o vestigio d'esse movimento vagaroso, lento, quasi imperceptivel, mas progressivo e constante. N'esta porta ao pé da qual colloquei hoje a cama, ouço em cada noite, ora por duas, ora por tres vezes, uma argolada perfeitamente clara e distincta. Abro imediatamente a porta (mudei a cama para este ponto a fim de poder fazel-o do modo mais rapido), fica sempre inexplicavel para mim a razão porque se levanta a argola do ferrolho e bate de per si mesma na porta!

Todas estas cousas eram asseveradas pelo prussiano com a emphase da sinceridade e da convicção mais profunda!

—E d'esta casa de cá, observei-lhe eu, que tem ouvido? o que sabe? que lhe consta?

—Eu lhe digo…

—Sinceramente!

—Por mim pessoalmente nada tenho ouvido. O inquilino que me precedeu conta que ouvia no silencio da noite um rumor confuso de vozes, o estalar de risadas e o telintar de dinheiro. Alguns visinhos têem visto entrar vultos mysteriosos. Tudo isto porém se explica do modo mais natural d'este mundo.

—Qual é então o seu juizo, vejamos?

—É evidentemente…

—Diga! diga!

—Presumo eu, pelo menos…

—Vamos! sem rodeios, francamente!

—De duas uma: ou uma loja maçonica, ou uma casa de jogo.

IV

As palavras do allemão acabavam de lançar no meu espírito a luz subita de uma revelação que me obrigava a meditar.

O que se passava por mim, o mysterio que me cercava, o cadaver que vira, a presumpção—ainda que vaga—da concorrencia de um ou mais amigos meus envolvidos n'este acontecimento, tudo isto era tão extraordinario e tão grave que eu não ousava referil-o ao homem desconhecido que o acaso me deparava por visinho.

Era já positivo para mim que me achava em Lisboa. Desejava naturalmente saber qual era a rua e a casa em que estava; não me occorria porém um pretexto plausivel para levar o allemão a dizer-m'o, sem que eu o interrogasse de um modo ambiguo, que poderia levantar sobre a situação em que me acho suspeitas talvez perigosas para a segurança das pessoas compromettidas n'este negocio. Contentei-me pois em allegar o incommodo a que me obrigava a posição em que estava, e dei as bôas noites ao meu visinho. Elle despediu-se batendo no muro tres pancadas espaçadas por pausas eguaes ás d'aquellas com que eu primeiro lhe despertára a attenção. Lembrou-me que poderia ser mação aquelle homem, e que nas circumstancias em que eu estava me serviria a protecção que lhe pedisse em nome de juramentos reciprocos e de compromissos communs. Dei-lhe então uma letra, elle respondeu-me com outra e assim construimos successivamente a palavra da senha.

Salut, mon frêre! exclamou elle.

—Segredo! disse-lhe eu baixinho, respondendo com os nós dos dedos no muro ao sinal que me déra.

Fechei em seguida o armario, cheguei a cama para o logar d'onde a tinha removido, e deitei-me vestido.

Não podia dormir. Principiei a pensar e a entristecer.

N'esta casa, debaixo d'estes mesmos tectos, está morto um homem, moço, elegante e bello, que entrára aqui, cheio talvez de esperanças, d'alegrias, de projectos no futuro, e que de repente caiu para todo o sempre, envenenado por mão mysteriosa, ignorado, desconhecido, só, longe de uma mulher amada que o espera talvez a esta hora, longe da familia que o acarinhou em pequeno, longe dos logares saudosos que o viram nascer, da mãe lacrimosa que lhe cerrasse os olhos, do pae angustiado que em nome da humanidade lhe lançasse a derradeira benção.

Desventurado rapaz! quem sabe as torturas por que passou o teu espírito para se desprender violentamente da terra, deixando na sociedade o seu corpo inerte, impassivel, mudo como a interrogação de um enigma posto anonymamente no meio de uma pagina branca? quem sabe os pensamentos que a morte immobilisou no teu cerebro? quem sabe os affectos que ella enregelou no teu coração, onde ha pouco tempo ainda golphava abundantemente a fecunda seiva d'essa mocidade esterilisada e extincta agora para sempre?

Pobre moço! tão digno de lastima como és, merecedor talvez de profundas saudades, ahi estás adormecido no teu somno eterno, vestido de baile, coberto com uma manta de viagem, estirado n'um sophá, insensivel para sempre ás alegrias e ás amarguras d'esta vida miseravel; e não haverá por ventura uma só lagrima que commemore, na historia breve da tua passagem na terra, este praso tão pungentemente melancolico em que os mortos estão esperando dos vivos o derradeiro e supremo favor que a humanidade póde dispensar áquelles que mais présa e que mais ama: a doação da cova em que reside o esquecimento!

Os olhos d'aquelles que te amam ainda não choram por ti. Estão fechados talvez pelo somno tranquillo e doce, atravessado em sonhos pela tua imagem querida; estão por ventura fitos no conhecido caminho por onde esperam sentir-te chegar, conhecer-te o passo retardado, ouvir-te a voz cantarolando a ultima valsa que o baile te deixou no ouvido, vêr-te finalmente apparecer, descuidado, risonho e feliz.

Coitados!… Os passos d'aquelle que ainda hoje talvez se despediu da vós contando voltar a encontrar-vos poucas horas depois, não tornarão a medir o caminho da casa em que o esperam; a sua voz não responderá mais á voz que o chame; os seus olhos nunca mais se embeberão nos olhos que o fitavam; os seus labios não voltarão outra vez a approximar-se dos labios que se collavam nos d'elle!

Eu não choro a tua memoria, porque não te conheço, porque nunca nos encontrámos, porque não sei quem és. Mas não quero insultar a dôr que adeja sobre a tua morte, deixando-me dormir na mesma casa em que jazes insepulto, em quanto alguem te espera vivo no mundo.

Foi impelido por estes sentimentos, meu querido amigo, que eu me levantei da cama em que me estendera e vim para a mesa em que ceei, passar a noite escrevendo-te estas longas paginas, que de certo estimaremos ler um dia, em disposição de espírito bem differente d'aquella em que ambos nos achamos hoje.

Tinha em pouco mais de meio a narração que te estou fazendo, quando o silencio que me envolvia, cortado apenas pelo fremito da minha penna no papel, foi interrompido pelas vozes dos mascarados fallando baixo no aposento que atravessei antes de entrar n'aquelle em que estou. Tinha terminado o paragrapho anterior a este quando o mesmo rumor se repetiu, e tive então curiosidade de escutar o que se dizia. Approximei-me da porta e collei o ouvido ao buraco da fechadura, pelo qual nada via. Não sendo natural que os nossos aprisionadores estejam ás escuras, é provavel que haja um corredor, uma passagem ou um pequeno quarto entre aquelle em que eu me acho e o quarto proximo em que elles fallam. Não podia perceber o que diziam. Apenas de quando em quando alguma palavra solta e destacada me chegava ao ouvido. Dispunha-me a vir continuar a escrever ou a terminar esta carta, quando um levantou mais a voz e eu ouvi distinctamente estas palavras:

—Mas as notas de banco, 2:300 libras em notas! Não as trazia elle?

—Sei que as trazia, dizia outra voz.

—É atroz então!

Estas palavras, unicas que ouvi, fizeram-me a impressão que podes calcular!

É provado para mim que a casa a que fomos trazidos não é um simples ninho consagrado a entrevistas d'amor, como eu primeiro suppuz. Das hypotheses do prussiano é absolutamente necessario acceitar uma: isto ou é uma casa de jogo ou uma loja maçonica. Assim o provam convincentemente os ruidos que se ouviam na morada contigua. N'um retiro de paixões ternas não se escancaram risadas a horas mortas ao som do dinheiro que telinta nas mezas. A referencia dos vultos mysteriosos feita pela visinhança permitte a suspeita de reuniões secretas. O tinir do ouro, as risadas, o mesmo aspecto do boudoir em que estivemos não consentem duvidar-se que esta casa é uma caverna de jogo e de orgia.

As palavras que ha pouco ouvi suggerem-me sobre estas supposições a mais tenebrosa suspeita.

O desgraçado que jaz ahi dentro podia ter sido victima de um homicidio, premeditado com o intuito de roubar-lhe a quantia que elle trazia comsigo.

Occorre uma contradicção: na suggerida hypothese para que foram buscar um medico? Explicam-n'o as palavras que ouvi. Os criminosos, que tinham propinado opio á sua victima com o intuito de a roubarem, encontram illudido este projecto com o desapparecimento das notas que lhe suppunham na algibeira. N'esta conjectura sobrevem-lhes um recurso extremo: procurar um medico que não possa denunciar o crime, mostrar-lhe o opio, e quererem por esta prova de zelo, de solicitude, de confiança na sua innocencia, affastar de si a presumpção do crime, e crear as difficuldades de um mysterio! É possivel que eu não attinja exactamente a verdade do que se passou. O indubitavel porém é que o desapparecimento já constatado da somma que o assassinado trazia comsigo não póde adunar-se dentro d'esta casa com a probidade e com a honra.

Depois d'isto é quasi escusado dizer-te qual é a determinação que vou tomar. O meu visinho prussiano é um homem um tanto phantastico, mas parece-me sincero e honrado. Vou fechar esta carta, subscriptal-a e pedir-lhe que a lance no correio. Acharei facilmente meio de a passar para o quarto d'elle. Se conseguir arrombar completamente, sem que me presintam, o tapamento que serve de fundo ao armario, passarei eu em vez de expedir a carta. No caso contrario, apenas se abrir aquella porta, precipito-me sobre a pessoa ou pessoas que me embargarem o passo, e abrirei o meu caminho como todo o homem de bem que em sua consciencia delibera passar por cima de meia duzia de miseraveis.

Se te achas aqui, encarcerado como eu, por Deus juro-te que nos veremos ámanhã. Se estás solto, se receberes esta carta, e vinte e quatro horas depois não souberes de mim, escreve a Frederico Friedlann, posta restante, Lisboa. Elle te procurará no logar que indicares e te dirá onde estou.—Adeus.—F

* * * * *

Nota.—Juntamente com a carta publicada achavam-se as seguintes folhas de papel escriptas pela mesma lettra das cartas do medico, anteriormente publicadas n'esta folha:

F… não appareceu. No mesmo dia, dois dias e tres dias depois de haver recebido a extensa carta que elle me dirigiu e de que enviei logo a primeira parte, depois as seguintes, a essa redacção, procurei por todos os meios ter noticias d'elle. Foram inuteis todos os esforços que empreguei. Escrevi a Frederico Friedlann. Não houve resposta. Mandei ao correio e soube que ainda ali se achava a carta que lhe dirigi e na qual lhe aprasava uma entrevista.

Estou vivamente inquieto, sobresaltado, cuidadoso.

F… é um homem arrebatado, irascivel, pundonoroso até o delirio. Receio do seu caracter e da violencia das suas determinações uma explosão que teria podido talvez ser-lhe fatal.

Apresso-me porém a declarar-lhe, senhor redactor, que discordo completamente da opinião d'elle emquanto á qualidade moral das pessoas com quem estivemos reunidos na casa onde encontrámos o cadaver.

O mascarado alto, com quem tive occasião de fallar por mais tempo, não póde ser uma assassino cobarde. F… demorou-se pouco tempo comnosco, não pôde attentar nos individuos que o rodeavam. Ouviu apenas uma phrase, que para mim proprio é ainda inexplicavel e terrivel, e baseou n'ella a sua indignação e o seu odio.

Eu tratei apenas com um d'esses homens—o mais alto—mas com este fallei incessantemente durante todo o espaço de uma noite. Não podia estudar-lhe os movimentos da physionomia, mas via-lhe os olhos grandes, luminosos, scintillantes. Ouvia-lhe a voz metallica, pura, clara, vibrante, obedecendo naturalmente, na modulação das inflexões, ao fluxo e ao refluxo dos sentimentos.

Nas discussões que tivemos, na conversação que travámos, nos diversos incidentes que acompanharam o inquerito de A. M. C., escutei-lhe sempre com interesse, com sympathia, algumas vezes com admiração, a palavra sincera, facil, despresumida, espontanea, original, pittoresca sem litteratismo, eloquente sem propositos oratorios,—limpido espelho de uma alma energica, integra, perspicaz e sensivel. Tinha arrebatamentos enthusiasticos, indignações convictas, concentrações melancolicas, que se via provirem d'esse fundo de lagrimas, que todas as naturezas priveligiadamente boas e honestas têem no intimo da sua essencia. Pareceu-me finalmente um coração leal e honrado, e não é facil enganar-se por este modo, depois de uma provação suprema e definitiva como aquella em que nos achámos, um homem com a minha experiencia do mundo e a minha pratica dos fingimentos humanos. Estas são, senhor redactor, as principaes considerações que do principio logo me impediram de tornar publico o nome do meu amigo violentamente retido em carcere privado. F… é um homem conhecido, é quasi um homem celebre; em Lisboa ninguem ha que não conheça o seu nome entre os escriptores mais applaudidos, ninguem que não distinga a sua figura altiva, esmerada, picante, entre os vultos extremamente uniformes dos passeios, das salas e dos theatros.

Se eu communicasse á policia o desapparecimento do meu amigo, é quasi seguro que ella encontraria meio de o descobrir. Mas não equivaleria isto a denunciar simultaneamente como criminosos o mascarado alto e os seus companheiros que eu todavia considero innocentes?

A carta de F…, apesar da revelação que encerra sobre o desapparecimento das 2:300 libras, confirma por outro lado a convicção em que eu me acho.

Na carta de F… encontra-se o seguinte periodo:

* * * * *

«Occorreu-me que teria um meio de desenganar-me se era effectivamente ou se não era um amigo intimo que eu tinha ao meu lado: arrancar-lhe o relogio: bastar-me-hia apalpal-o, ainda vendado como eu estava, para reconhecer o dono. A ser o individuo que eu suppunha, a caixa do relogio teria a lisura do esmalte e no centro a saliencia de um brasão.»

Ora o relogio a que n'estas linhas se allude, se bem lembrado está, é exactamente o mesmo que descrevi na segunda carta que enviei a esse periodico, o mesmo que usava o mascarado que ia sentado defronte de mim na carruagem, e que eu lhe vi por algum tempo fóra da algibeira do collete, suspenso na corrente. Logo, o mascarado que conduziu F… ao quarto em que elle se acha preso, é effectivamente um amigo d'elle, intimo e particular.

Posso eu, sem semear remorsos que mais tarde entenebrecerão talvez a minha vida com uma sombra eterna, denunciar á policia uma particularidade, um nome, uma circumstancia positiva, que a ponha no encalço d'este crime e no descobrimento das pessoas, innocentes ou culpadas, que circulam fatalmente em torno d'elle?

As mesmas noticias que lhe tenho dado, as cartas que precipitadamente comecei a escrever-lhe, e que hoje, posto que acobertado pelo anonymo, me vejo na obrigação moral de concluir e desenlaçar, não serão já perante a severidade incorruptivel, despreocupada e fria dos homens de bem, uma traição aos imprescriptiveis deveres da amisade, um aggravo á inviolabilidade do sigillo, uma offensa a esse culto intimo que se baseia na delicadeza, no melindre, no primor,—culto que para as almas honradas constitue uma parte dos principios supremos da primeira das religiões—a religião do caracter?

Mas podia tambem calar-me? ficar mudo, impassivel, inerte, neutro, diante d'este successo obscuro mas tremendo? Podia acaso acceitar na impassibilidade e no silencio a responsabilidade terrivel de um homicidio tenebroso, do qual sou eu a unica testemunha com iniciativa, com liberdade, com faculdade de acção?…

Decidam-no as pessoas que por um momento quizerem imaginar-se nas circumstancias excepcionaes e unicas em que eu estou.

Na onda de conjecturas, de planos, de determinações, de obstaculos em que me achei envolvido, assoberbado, só, escondido, inquieto, nervoso, sem um unico momento que perder, uma só cousa me occorreu, possivel, clara, solvente: publicar anonymamente o que me succedera, entregar por este modo á sociedade a historia da minha situação e esperar dos outros, do publico, a solução do problema que eu não sabia resolver por mim.

Nem uma palavra de conselho, de analyse, de critica!

Estou profundamente triste, abatido, doente. Preciso de liberdade. Não posso ficar eternamente immovel, como um condemnado, com o pesado fuzil de um segredo soldado a um pé.

Dois dias depois de receber esta minha carta, senhor redactor, terei partido para fóra do paiz. As ambulancias do exercito francez precisam de cirurgiões. Vou alistar-me como facultativo. O meu paiz dispensa-me, e eu, como todo o homem na presença dos infortunios irremediaveis, sinto a doce necessidade de ser util. Fica sabendo o meu destino. Um dia saberá o meu nome.

Despedindo-me—seguramente para sempre—dos seus leitores, cuja attenção tenho largamente prendido com a narrativa d'este caso lugubre, seja-me permittido acrescentar uma derradeira palavra:

A. M. C., cujo nome não ouso delatar escrevendo-o por extenso n'esta pagina, A. M. C., que eu não incriminei nem denunciei, apesar de tudo quanto em contrario quiz allegar o amigo d'elle que sob a letra Z. veiu defendel-o n'este mesmo logar, A. M. C., quaesquer que sejam as causas que o levaram a intervir nas circumstancias que rodeiam o crime, conhece-o interiormente, tem o fio do trama que eu debalde procurei achar.

Se estas linhas chegarem aos olhos d'esse moço, uma coisa lhe peço em nome da sua honra e da sua dignidade, em nome da honra e da dignidade das pessoas envolvidas em tão extranho successo. Procure no correio uma carta que lhe dirijo n'esta mesma data. N'essa carta verá quem eu sou, onde poderá enviar as suas cartas ou vêr-me e fallar-me pessoalmente. Se a sua idade, se as condições da sua posição na sociedade, se os interesses da sua carreira, a tranquillidade da sua familia, a incompetencia da sua auctoridade, ou outra qualquer razão o impedirem de acompanhar este acontecimento até á ultima das suas consequencias, arrancando a um tal mysterio a secreta verdade que elle envolve, dirija-se a mim, collaboraremos juntos n'essa obra, que tenho por meritoria e honrada. Eu acceitarei clara e abertamente para todas as consequencias e para todos os effeitos a responsabilidade que d'ahi provenha, e terei meio de salvar o seu nome, a sua pessoa e a sua honra de qualquer suspeita que o ensombre ou o macule.