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O Mysterio da Estrada de Cintra. Cartas ao Diário de Noticias

Chapter 20: II
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About This Book

The physician narrator recounts an extraordinary case he encounters on a suburban road: a masked figure, an enigmatic corpse and circumstances that suggest foul play. The story is presented as letters and reports that alternate suspenseful, gothic set-pieces with forensic observation and wry social commentary. Episodes mix nocturnal discovery, suspicious characters and sensational touches while probing the limits of imagination and the demands of methodical analysis. Framed as a youthful collaborative experiment, the account balances melodramatic incident with reflective aside on narrative invention, artistic audacity and the tension between romantic excess and critical scrutiny.

Emquanto a ti, meu querido e meu honrado F…, não creio que sejas victima de uma emboscada traiçoeira e indigna! O teu unico perigo está, a meu vêr, no teu impaciente melindre, nos teus delicados escrupulos, no teu valor, finalmente, e no teu brio.

Que te matassem cobardemente no carcere clandestino que ha pouco tempo ainda tu illuminavas com a tua pachorra e a tua alegria, não póde ser. Que a esta hora tenhas sido obrigado a jogar a tua vida trocando em desaggravo de honra uma estocada ou um tiro com algum dos teus mysteriosos commensaes, isso acho logico, e é possivel.

Punge-me não sei que vago e triste presentimento… Meu pobre F…! Se estará destinado que não nos tornemos a vêr! Se o dia fatal em que regressámos ambos de Cintra, descuidados, contentes, suspirando com as nossas alegrias, sorrindo com os nossos infortunios, terá acaso de ser o ultimo d'essa doce convivencia que por tanto tempo nos juntou!…

E são as amarguras alheias, são as desgraças dos outros que nos arrastam envolvidos no turbilhão implacavel e terrivel da crua solidariedade humana!

Que remedio?!

Se a vida é isto, aceitemol-a corajosamente como ella é, e ávante! aprenda-se a ser desgraçado, visto que é essa a mais segura maneira de se ser feliz!

+Segunda carta de Z+

Senhor redactor.—Acabo de vêr publicada na sua folha de hoje uma carta em que o doutor…, com uma insistencia malevola, torna a inculcar, como cumplice no attentado de que elle se fez o historiador voluntario, o meu pobre amigo A. M. C.

Disse-lhe na minha primeira carta, senhor redactor, que eu ia com o auxílio unico da minha coragem e da minha astucia, pôr-me ao serviço da curiosidade de todos, procurando penetrar e desfiar a tenebrosa historia que ha mais d'uma semana, vem todos os dias successivamente, no folhetim do seu jornal, apresentar deante d'um publico attonito um quadro mysterioso e lugubre.

Não pude, porém, descobrir nada: indagações, interrogatorios, visitas aos logares, tudo foi inutil. A historia perde-se cada vez mais n'uma nevoa que a afoga: e o meu pobre M. C. lá está ainda—não sei se n'um retiro voluntario, se n'uma sequestração forçada.

Na impossibilidade de descobrir, physicamente, por essas ruas, a verdade, resolvi ir buscal-a ás mesmas cartas do doutor. Analysei-as, decompul-as palavra por palavra. E sem contar os processos, apresento os resultados.

O Mysterio da estrada de Cintra é uma invenção: não uma invenção litteraria, como ao principio suppuz, mas uma invenção criminosa, com um fim determinado. Eis aqui o que pude deduzir sobre os motivos d'esta invenção:

Ha um crime; é indubitavel; é claro. Um dos cumplices d'este crime é o doutor ***. Elle está envolvido no anonymo: não tenho por isso duvida em apresentar esta accusação formal. Se o seu nome fosse conhecido, se as suas cartas estivessem assignadas, eu, só com provas judiciarias, me atreveria a escrever esta grave affirmativa.

Sim, o doutor *** é o cumplice d'um crime: o meu pobre amigo M. C. é um desgraçado incauto, sobre quem se querem fazer recahir as suspeitas que se possam ter já, e as provas que mais tarde venham a juntar-se. Este crime, que existe, apparece-nos envolvido nas roupas litterarias d'um mysterio de theatro. As cartas do doutor *** são um romance pueril. Vejamos.

É possivel que n'uma cidade pequena como Lisboa, em que todos são visinhos, amigos de tu, e parentes, o doutor *** que parece ser um homem notado na sociedade, vivendo n'ella, frequentando as suas salas e os seus theatros, não conhecesse nenhum d'estes quatro mascarados, que pelas suas indicações pertencem a essa mesma sociedade, se sentam nos mesmos sofás, escutam a mesma musica nos mesmos salões e nos mesmos theatros?

Uma mascara de velludo preto não basta para disfarçar um conhecido. O seu cabello, o seu andar, a sua estatura, a sua figura, a sua voz, as suas mãos, a sua toillete, são bastantes para revelar, trahir o individuo. O doutor *** pois nunca os tinha visto? O quê? Pois eram tão galantes, tão distinctos, governam tão bem as suas parelhas, fallam tão bem as suas linguas, pareciam tão ricos, e o doutor *** um medico, um homem relacionado, um velho dilletante de S. Carlos, nunca os viu, nunca os percebeu, n'esta terra, em que toda a vida se concentra nos doze palmos de lama do Chiado! E F… tem um amigo intimo entre os mascarados, diante de si, na carruagem, joelho com joelho, e não o reconhece, pelas mãos, pelos olhos, pelo corpo, pelo silencio até! Comedia!

E o menos conhecido, o menos celebre dos rapazes de Lisboa, mascara-se no carnaval de Turco, enche-se de barbas, cobre-se de plumas, veste-se de Mephistopheles, de Ci-devant, ou de Melão, e não ha ninguem que no salão de S. Carlos, não diga ao passar por elle: lá vae fulano! E é de noite, ás luzes, e as mulheres olham-nos, e estamos distrahidos, e não estamos n'uma estrada, de dia, surprehendidos e violentados! Tanto nos conhecemos todos! Comedia! Comedia!

E aquelles mascarados, são tão innocentes, tão ingenuos, que vão procurar, n'um momento tão perigoso, o homem que pelas suas relações, pela sua posição, pela sua intelligente penetração, mais facilmente os poderia reconhecer.

Se lhes era repugnante serem descobertos, para que procuraram aquelle homem? Se lhes era indifferente, para que se mascararam?

E depois, para que era um medico? Era para verificar a morte? Para acudir? Para salvar? N'esse caso então que homens são esses, que em logar d'ir á botica mais proxima, a casa do primeiro medico rapidamente, logo, logo,—vão em socego mascarar-se nos seus quartos, para irem ao crepusculo, para uma charneca, a duas legoas de distancia, representar os velhos episodios de floresta dos dramas de Soulié?

Suppunham por ventura que elle estava morto? Para que era então um medico, uma testemunha? E se não receavam as testemunhas para que punham nos seus rostos uma mascara, e nos olhos dos surprehendidos um lenço de cambraia? Comedia! Comedia sempre!

Veja-se o doutor *** diante do cadaver: não ha ali uma palavra que seja scientifica: desde a serenidade das feições até á dilatação das pupillas, tudo é falso n'aquella descripção symptomatica.

E que homens são, o doutor *** e o seu amigo F… que na rua d'uma cidade, dentro d'uma casa, com os braços livres, não deitam a mão àquelles mascaras? Como é que, sendo generosos e altivos supportam certas violencias humilhantes? Como é que, sendo honestos e dignos, acceitam pela sua attitude condescendente uma parte da cumplicidade?

E A. M. C.! Como o representam ali, pueril, nervoso, timido, imbecil e coacto! Elle d'uma tão grande força de temperamento! d'uma tão energica coragem! d'um tão altivo sangue frio! Como se póde acreditar n'aquella astucia infantil, com que o doutor *** o envolve?

—O que admira é que não deixasse vestigios o arsenico!

—Mas foi o opio! responde M. C., segundo conta o doutor ***.

Qual é a imbecil ingenuidade do homem que possa descer a esta simplicidade lôrpa?

E emfim, que mulher é aquella, que ahi se entrevê? Porque a quer o mascarado salvar? Que roubo é aquelle de 2:300 libras? Sejamos logicos: dado o typo do mascarado, cavalheiroso e nobre, como é que elle, vendo que o crime teve por origem o roubo, procura salvar e tem considerações por uma mulher que mata para roubar?

Se elle suspeita que o crime commetido por essa mulher teve por mobil a paixão, como explica o roubo?

Demais, se desconfiava que ella estivesse envolvida n'aquelle facto, se estava tão ligado com ella que a queria salvar, por que a não procurou logo, por que a não interrogou, em logar de ir surprehender gente para as estradas, e vir fazer tableau em volta d'um cadaver?

Ah! como toda esta historia é artificial, postiça, pobremente inventada! aquellas carruagens como galopam mysteriosamente pelas ruas de Lisboa! aquelles mascarados, fumando n'um caminho, ao crepusculo, aquellas estradas de romance, onde as carruagens passam sem parar nas barreiras, e onde galopam, ao escurecer, cavalleiros com capas alvadias! Parece um romance do tempo do ministerio Villele. Não fallo nas cartas de F… que não explicam nada, nada revelam, nada significam—a não ser a necessidade que tem um assassino e um ladrão de espalmar a sua prosa ôca, nas columnas d'um jornal honesto.

Deducção: o doutor *** foi cumplice d'um crime; sabe que ha alguem que possue esse segredo, presente que tudo se vae espalhar, receia a policia, houve alguma indiscrição; por isso quer fazer poeira, desviar as pesquisas, transviar as indagações, confundir, obscurecer, rebuçar, enlear, e em quanto lança a perturbação no publico, faz as suas malas, vae ser cobarde para França, depois de ter sido assassino aqui!

O que faz no meio de tudo isto o meu amigo M. C. ignoro-o.

Senhor redactor, peço-lhe, varra depressa do folhetim do seu jornal essas inverosimeis invenções.—Z.

NARRATIVA DO +MASCARADO ALTO+

I

Senhor redactor.—A pessoa que lhe escreve esta carta é a mesma que n'essa aventura da estrada de Cintra, popularisada pela carta do doutor ***, guiou a carruagem para Lisboa. Sou já conhecido, com a minha mascara de setim preto e a minha estatura, por todas as pessoas que tenham seguido com interesse a successiva apparição d'estes segredos singulares; eu era nas cartas do doutor *** designado pelo—mascarado mais alto.—Sou eu. Nunca suppuz que me veria na necessidade lamentavel de vir ao seu jornal trazer tambem a minha parte de revelações! Mas desde que vi as accusações improvisadas, sem analyse e sem logica, contra o doutor*** e contra mim, eu devia ao respeito da minha personalidade e á consideração que me merece a impeccavel probidade do doutor *** o vir affastar todas as contradicções hypotheticas e todas as improvisações gratuitas, e mostrar a verdade real, implacavel, indiscutivel. Detinha-me o mais forte escrupulo que póde dominar um caracter altivo: era necessario fallar n'uma mulher, e arrastar pelas paginas de um jornal, o que ha no ser feminino de mais verdadeiro e de mais profundo: a historia do coração. Hoje não me retêem essas considerações; tenho aqui, diante da pagina branca em que escrevo, sobre a minha mesa, este bilhete simples e nobre:—«Vi as accusações contra si e os seus amigos, e contra aquelle dedicado doutor ***. Escreva a verdade, imprima-a nos jornaes. Esconda o meu nome com uma inicial falsa apenas. Eu já não pertenço ao mundo, nem ás suas analyses, nem aos seus juizos. Se não fizer isto, denuncio-me á policia.»

Apesar porém d'estas grandes e sinceras palavras, eu resolvi nada revelar do crime, e contar apenas os factos anteriores que me tinham ligado com aquelle infeliz moço, tão fatalmente morto, motivado a sua presença em Lisboa, e determinado esse desenlace passado n'uma alcova solitaria, n'uma casa casual, ao desmaiado clarão de uma vela, ao pé de um ramo de flores murchas. Outros, os que o sabem, que contem os transes d'essa noite. Eu não. Não quero ouvir apregoar pelos vendedores de periodicos a historia das dores mais profundas d'um coração que estimo.

Senhor redactor, ha tres annos a casa onde eu mais vivia em Lisboa, aquella em que tinha sempre o meu talher, e a minha carta de whist, onde ria as minhas alegrias, e fazia confidencias das minhas tristezas, era a casa do conde de W. A condessa era minha prima.

Era uma mulher singularmente attrahente: não era linda, era peior: tinha a graça. Eram admiraveis os seus cabellos loiros e espessos; quando estavam entrelaçados e enrolados, com reflexos d'uma infinita doçura de ouro, parecia serem um ninho de luz. Um só cabello que se tomasse, que se estendesse, como a corda n'um instrumento, de encontro á claridade, reluzia com uma vida tão vibrante que parecia ter-se nas mãos uma fibra tirada ao coração do sol.

Os seus olhos eram d'um azul profundo como o da agua do Mediterraneo. Havia n'elles bastante imperio para poder domar o peito mais rebelde; e havia bastante meiguice e mysterio, para que a alma fizesse o extranho sonho de se affogar n'aquelles olhos.

Era alta bastante para ser altiva; não tão alta que não podesse encostar a cabeça sobre o coração que a amasse. Os seus movimentos tinham aquella ondulação musical, que se imagina do nadar das sereias.

De resto, simples e espirituosa.

Dizer-lhe que os meus olhos nunca se demoraram amorosamente na pureza infinita da sua testa, e na curva do seu seio seria d'um extranho orgulho. Tive sim, nos primeiros tempos em que fui àquella casa, um amor indefinido, uma phantasia delicada, um desejo transcendente por aquella doce creatura. Disse-lh'o até; ella riu, eu ri tambem; apertámo-nos gravemente a mão; jogámos n'essa noite o écarté; e ella terminou por fazer n'uma folha de papel a minha caricatura. Desde então fomos amigos; nunca mais reparei que ella fosse linda; achava-a um digno rapaz, e estava contente. Contava-lhe os meus amores, as minhas dividas, as minhas tristezas: ella sabia ouvir tudo, tinha sempre a palavra precisa e definitiva, o encanto consolador. Depois, tambem, ella contava-me os seus estados de espírito nervosos, ou melancolicos.

—Estou hoje com os meus blue decils, dizia ella.

Faziamos então chá, fallavamos baixo ao fogão. Ella não era feliz com o marido. Era um homem frio, trivial e libertino; o seu pensamento era estreito, a sua coragem preguiçosa, a sua dignidade desabotoada. Tinha amantes vulgares e grosseiras, fumava impiedosamente cachimbo, cuspia o seu tanto no chão, tinha pouca orthographia. Mas os seus defeitos não eram excepcionaes, nem destacavam. Lord Grenley dizia d'elle admirado:

—Que homem! não tem espírito, não tem mão de redea, não tem ar, não tem grammatica, não tem toilette, e todavia não é desagradavel.

Mas a natureza fina, aristocratica, da condessa, tinha occultas repugnancias, com a presença d'esta pessoa trivial e monotona. Elle no emtanto estimava-a, dava-lhe joias, trazia-lhe ás vezes um ramo de flores, mas tudo isso fazia indifferentemente, como guiava o seu dog-cart.

O conde tinha por mim um enthusiasmo singular: achava-me o mais sympathico, o mais intelligente, o mais bravo; pendurava-se orgulhosamente do meu braço, citava-me, contava as minhas audacias, imitava as minhas gravatas.

Em tempo a condessa começou a descorar e a emagrecer. Os medicos aconselhavam uma viagem a Nice, a Cadix, a Napoles, a uma cidade do Mediterraneo. Um amigo da casa que voltava da India, onde tinha sido secretario geral, fallou com grande admiração de Malta. O paquete da India havia soffrido um transtorno; elle tinha estado retido cinco dias em Malta, e adorava as suas ruas, a belleza da pequena enseada, o aspecto heroico dos palacios, e a animação petulante das maltezas de grandes olhos arabes…

—Queres tu ir a Malta? disse uma noite o conde a sua mulher.

—Vou a toda a parte; mas, não sei porquê, sympathiso com Malta. Vamos a
Malta. Venha tambem, primo.

—Está claro que vem! gritou o conde.

E declarou que não fazia a viagem sem mim, que eu era a sua alegria, o seu parceiro de Xadrez e o inventor das suas gravatas, que me roubava n'um navio, e que me deixava seu herdeiro.

Cedi. A condessa estava encantada com a viagem; queria ter uma tempestade, queria ir depois a Alexandria, á Grecia, e beber agua do Nilo; haviamos de caçar os chacaes, ir a Meca disfarçados—mil planos incoherentes que nos faziam rir…

Partimos n'um vapor francez para Gibraltar, onde deviamos tomar o paquete da India.

Passámos no cabo de S. Vicente com um luar admiravel, que se erguia por traz do cabo, dava uma dureza saliente e negra aos asperos angulos d'aquella ponta de terra e vinha estender-se sobre a vasta agua como uma malha de rede luminosa. O mar ali é sempre mais agitado. A condessa estava na tolda, sentada n'uma cadeira de braços, de vime, a cabeça adormecida, os olhos descançados, as mãos immoveis, uma sensação tão feliz na attitude e no rosto.

—Sabe, disse-me ella de repente, baixo, com a voz lenta;—estou com uma sensação tão feliz de plenitude, de desejos satisfeitos…

E mais baixo:

— … e de vago amor … Sabe explicar-me isto?

Estavamos sós, no alto mar, sob um luar calmo, o conde dormia; a longa ondulação da agua arfava como um seio, sob a luz; sentia-se já o magnetico calor d'Africa. Eu tomei-lhe as mãos e disse-lhe n'um segredo:

—Sabe que está linda!

—Oh! primo! interrompeu ella rindo. Mas nós somos amigos velhos! Está doido! O que é fallar de noite, sós, ao luar, em amor! Ah! meu amigo, creia que o que senti, inexplicavel como é, não foi por si, graças a Deus, foi por alguem que eu não conheço, que vou encontrar talvez, que não vi ainda. Sabe? Foi um pressentimento… Ahi está! Como o luar é traiçoeiro, meu Deus! E eu que estou velha!

Eu ia responder, rir. Uma luz brilhou a distancia na bruma nocturna: o capitão approximou-se:

—Conhecem aquella luz?

—Nunca viajei n'este mar, capitão—respondi.

—São portuguezes, não?… Aquella luz é o pharol de Ceuta.

Era uma luz melancolica, e humilde. Nenhum de nós se importava com Ceuta. D'ahi a momentos descemos á camara. Eu estava surprehendido, nunca tinha ouvido á condessa palavras que caracterisassem tanto o estado do seu coração. Achava-se n'aquelle periodo em que um amor pode apoderar-se para sempre d'uma existencia.

Que succederia se lhe apparecesse um homem bello, nobre, forte, que lhe dissesse de joelhos, uma noite, sob o luar como ha pouco, as coisas infinitas da paixão?

Na manhã seguinte avistámos o môrro de Gibraltar. Desembarcámos. N'uma praça, á entrada, um regimento inglez, de uniformes vermelhos, manobrava ao som da canção do general Boum.

—Detesto os inglezes, disse a condessa.

—O quê?! gritou o conde com uma voz indignada. Os inglezes! Detestas os inglezes?

E voltando-se para mim, com uma attitude profundamente pasmada e abatida:

—Detesta os inglezes, menino!

II

Sr. Redactor.—Em Gibraltar fomos para Club House-Hotel. Os quartos abriam sobre a muralha do mar; viamos defronte, afogada n'uma luz admiravel, uma linha de montanhas, e mais longe, do lado do estreito, nas brumas esbatidas, a terra de Africa.

Fomos passeiar logo n'um d'aquelles carros de Gibraltar que são dois bancos parallelos, costas com costas, assentes sobre duas rodas enormes, puchados por um cavallo inglez robusto, rapido, e tendo já adquirido nas convivencias hispanholas um espirito teimoso.

O bello passeio de Gibraltar é uma estrada, que, a meia vertente por cima da cidade, contorna a montanha, e é orlada de cottages, de jardins, de pomares, cheios já das extranhas e poderosas vegetações do Oriente, aloes, nopaes, cactus e palmeiras; e vê-se sempre, atravez da folhagem, lá no fundo, a azul immobilidade luminosa do Mediterraneo.

A condessa estava encantada: aquella luz ampla e magnifica, a agua pesada pelo sol, o silencio religioso do espaço azul, as brumas vaporosas e róxas das montanhas, a vigorosa força das vegetações, tudo dava áquella pobre alma contraida uma expressão inesperada. Ria, queria correr, tinha verve, e uma luz bailava-lhe nos olhos.

Fomos sentar-nos no jardim de Gibraltar. Os senhores inglezes artilharam-no talvez um pouco de mais. Não ha fontes, mas ha estatuas de generaes; as pyramides de balas estão encobertas pelas moitas de rosas, e a estupida impassibilidade dos canhões assenta sob arbustos de magnolias. Mas que serenidade! Que silencio abstracto e divino! Que ar immortal! Parece que as cousas, os seres vegetaes, a terra, a luz, tudo está parado, absorto n'uma contemplação, suspenso, escutando, respirando sem rumor! Em baixo está o Mediterraneo, liso como um setim, delicado, coberto de luz. Mais longe vaporisadas, docemente esbatidas nas nevoas azues, as duras fórmas do monte Atlas. Nada se move: apenas ás vezes uma pomba passa, voando com uma serenidade ineffavel. Um momento veiu-nos de baixo, onde passava um regimento de Highlanders, o som das cornemuses que tocavam as arias melancolicas das montanhas da Escocia. E os sons chegavam-nos doces, ethereos, como se fossem habitantes sonoros do ar.

A condessa tinha ficado sentada, e immovel, calada, penetrada d'aquella admiravel serenidade das cousas, da beleza da luz, do somno da agua, dos vivos aromas.

—Não é verdade, disse, que dá vontade de morrer aqui, brandamente, só…

—Só? perguntei eu.

Ella sorriu, com os olhos perdidos na bella decoração do horisonte luminoso.

—Só… disse ella, não!

—Ah! minha rica prima, cuidado! cuidado! observei eu. Começa-se scismando assim vagamente, vem um pequeno sonho bem innocente, acampa no nosso coração, começa, a caval-o, e depois, querida prima, e depois…

—E depois vae-se jantar, disse o conde que tinha chegado ao pé de nós, radiante por ter apertado a mão de um coronel inglez, e colhido um cacto vermelho.

Descemos ao hotel. Á noite passeavamos no Martillo. Era a hora de recolher; uma fanfarra ingleza tocava uma melopéa melancolica. Ouviu-se no mar um tiro de peça.

—Chegou o paquete da India, disse o nosso guia. E no alto do morro um canhão respondeu com um echo cheio e poderoso.

—Desembarcam, no dia em que chegam, os passageiros? perguntei.

—Os militares quasi sempre, senhor. Vão desembarcar lá em baixo, com licença do governador.

Quando pelas 10 horas entrámos, depois de termos passeiado ao luar nas esplanadas, sentimos na sala de Club-House, ruido, vozes alegres, estalar de rolhas, toda a feição de uma ceia de homens. A condessa subiu para o seu quarto. Eu entrei na sala, com o conde. Officiaes inglezes que vinham de Southampton, e que iam para a estação de Malta, tinham desembarcado, e ceavam.

Nós tinhamo-nos sentado, bebendo cerveja, quando tive occasião de approximar d'um dos officiaes inglezes que estava proximo de mim o frasco de mostarda. O frasco caiu, sujou-me, elle sorriu com polidez, eu ri alegremente, conversámos, e ao fim da noite passeiavamos ambos pelo braço, na esplanada que ficava defonte das janellas do hotel e que está sobre o mar. Havia um amplo e calado luar que espiritualisava a decoração admiravel das montanhas, a vasta agua immovel.

Eu tinha sympathisado com aquelle official, já pelo seu perfil altivo e delicado, já pela feição original do seu pensamento, já por uma gravidade triste que havia na sua attitude. Era moço, capitão de artilheria, e batera-se na India. Era loiro e branco; mas o sol do Indostão tinha amadurecido aquella carnação fresca e clara, aprofundado a luz dos olhos, e dado aos cabellos uma côr fulva e ardente.

Passeiavamos, conversando na esplanada, quando, repentinamente, abriu-se uma janella, e uma mulher com um penteador branco, apoiou-se levemente na varanda, e ficou olhando o horisonte luminoso, a melancolia da agua. Era a condessa.

O luar envolvia-a, empallidecia-lhe o rosto, adelgaçava-lhe o corpo, dava á sua forma toda a espiritualisação de uma figura de antiga legenda: o seu penteador caia largamente ao redor d'ella, em grandes pregas quebradas.

—Que linda! disse o official parando, com um olhar admirado, e profundo.
Quem será?

—Somos um pouco primos, disse eu rindo. É casada. É a condessa de W. Parte para Malta ámanhã no paquete. A bordo levar-lhe-hei o meu amigo para a entreter contando-lhe historias da India. Adora o romanesco aquella pobre condessa! Em Portugal, nem nos romances o ha. Caçou o tigre, capitão?

—Um pouco. Falla o inglez sua prima?

—Como uma portugueza, mal; mas ouve com os olhos, e adivinha sempre.

Separámo-nos.

—Arranjei-lhe um romance, um lindo romance, prima—disse eu entrando na sala, onde o conde escrevia cartas, cachimbando;—um romance onde se caçam tigres com rajahs, onde ha bayaderas, florestas de palmeiras, guerras inglezas, e elephantes…

—Ah! como se chama?

—Chama-se Captain Rytmel, official de artilheria, 28 annos, em viagem para Malta, bigode loiro, um pouco da India nos olhos, muito da Inglaterra na excentricidade, um perfeito gentleman.

—Um bebedor de cerveja! disse ella, desfolhando a flôr de cactus.

—Um bebedor de cerveja! gritou o conde erguendo a cabeça com uma indignação comica. Minha querida, diante de mim, pelo menos, não digas isso se não queres fazer-me cabellos brancos! Estimo os inglezes e respeito a cerveja. Um bebedor de cerveja! Um moço d'aquella perfeição!… murmurava elle, fazendo ranger a penna.

Ao outro dia subiamos para bordo do paquete da India, o Ceylão. Eram 7 horas da manhã. O morro de Gibraltar mal acordada tinha ainda o seu barrete de dormir feito de nevoeiro. Havia já viajantes e officiaes sobre a tolda. O chão estava humido, havia uma confusão violenta de bagagens, de cestos de fructa, de gaiolas de aves; a escada de serviço via-se cheia de vendedores de Gibraltar. A condessa recolheu-se á cabine, para dormir um pouco. Ás 9 horas quasi todos os passageiros que tinham entrado de Gibraltar e os que vinham de Southampton estavam em cima; o vapor fumegava, os escaleres affastavam-se, o nevoeiro estava desfeito, o sol dava uma côr rosada ás casa brancas de Algesiras e de S. Roque, e ouvia-se em terra o rufar dos tambores.

A condessa, sentada n'uma cadeira indiana, olhava para as pequenas povoações hispanholas que assentam na bahia.

O official inglez, Captain Rytmel, conversava a distancia com o conde, que adorava já a sua figura captivante e altiva, as suas aventuras da India, e a excentrica fórma do seu chapeu, que elle trazia com uma graça distincta e audaz. O capitão tinha na mão um album e um lapis.

—Captain, disse-lhe eu tomando-lhe o braço, vou leval-o a minha prima, a senhora condessa. Esconda os seus desenhos, ella é implacavel e faz caricaturas.

A condessa estendeu ao inglez uma pequena mão, magra, nervosa, macia, com umas unhas polidas como o marfim de Dieppe.

—Meu primo disse-me, Captain Rytmel, que tinha mil historias da India para me contar. Já lhe digo que lhe não perdôo nem um tigre, nem uma paisagem. Quero tudo! adoro a India, a dos Indios, já se vê, não a dos senhores inglezes. Já esteve em Malta? é bonita?

—Malta, condessa, é um pouco de Italia e um pouco de Oriente. Surprehende por isso. Tem um encanto extranho, singular. De resto é um rochedo.

—Demora-se em Malta? perguntou a condessa.

—Uma semana.

A condessa estava torcendo a sua luva; ergueu os olhos, pousou-os no official, tossiu brandamente, e com um movimento rapido:

—Ah! vae deixar-me ver o seu album.

—Mas, condessa, está branco, quasi branco; tem apenas desenhos lineares, apontamentos topographicos.

—Não creio; deve ter paisagens da India, ha de haver ahi um tigre, pelo menos, a não ser que haja uma bayadera!

E com um gesto de graça victoriosa, tomou o album da mão do official.

O capitão fez-se todo vermelho. Ella folheou o livro e de repente deu um pequeno grito, córou, e ficou com o album aberto, os olhos humidos, risonhos, os labios entreabertos. Olhei: na pagina estava desenhada uma mulher com um penteador branco, debruçada a uma janella, tendo defronte um horisonte com montanhas e o mar. Era o retrato perfeito da condessa. Elle tinha-a visto assim na vespera, ao luar, á janella do Club-House.

O conde tinha-se approximado.

—Como! como! És tu, Luiza! Mas que talento! É um homem adoravel, capitão.
Que desenho! Que verdade!

—Oh! não! não! disse o capitão. Hontem estava no meu quarto, em Club-House; instinctivamente tinha o album aberto, e o lapis, sem eu querer, sem intenção minha, espontaneamente, fez este retrato. É um lapis que deve ser castigado.

—O quê! gritou o conde, é um lapis encantado. Capitão, está decidido que vae jantar commigo, logo que cheguemos a Malta. Já o não largo, meu caro! Ha de ser o nosso cicerone em Malta. Mas que talento! Que verdade!

E fallando em portuguez para a condessa:

—E um bebedor de cerveja, hein?

N'esse momento uma sineta tocou: era o almoço.

III

Talvez extranhe, senhor redactor, a escrupulosa minuciosidade com que eu conto estes factos, conservando-lhes a paizagem, o dialogo, o gesto, toda a vida palpavel do momento. Não se admire. Nem tenho uma memoria excepcional, nem faço uma invenção phantasista. Tenho por costume todas as noites, quando fico só, apontar n'um livro branco os factos, as idéas, as imaginações, os dialogos, tudo aquillo que no dia o meu cerebro cria ou a minha vida encontra. São essas notas que eu copio aqui.

Á mesa do almoço estavam já sentados os passageiros. O nosso logar era ao pé do capitão. O commandante do Ceilão era um homem magro, esguio, com uma pelle muito vermelha, d'onde sahiam com a hostil aspereza com que as urzes saem da terra, duas duras suissas brancas.

Ao seu lado sentavam-se duas excentricas personalidades de bordo: o Purser, que é o commissario que vela pela installação dos viajantes e pelos regulamentos de serviço, e mr. Colney, empregado do correio de Londres. O Purser era tão gordo que fazia lembrar um grupo de homens robustos mettidos e apertados n'uma farda de marinha mercante. Mr. Colney era alto e secco, com um immenso nariz agudo e enristado, em cuja ponta repousava pedagogicamente o aro de ouro dos seus oculos burocraticos. O Purser tinha uma fraqueza que o dominava—era o desejo de fallar bem brazileiro. Tinha viajado no Brazil, admirava o Maranhão, o Pará, os grandes recursos do imperio. A todo o momento se approximava de mim para me perguntar certas subtilezas de pronuncia brazileira. Mister Colney, esse, era gago e tinha a mania de cantar cançonetas comicas. Os outros passageiros eram officiaes, que iam tomar serviço na India, algumas misses alegres e loiras, um clergiman com doze filhos, e duas velhas philantropicas, pertencentes á Sociedade educadora dos pequenos patagonios.

Logo que Captain Rytmel entrou na sala, seguindo a condessa, um homem que se debatia gulosamente no prato com a anatomia de uma ave fria, encarou-o, ergueu-se, e com uma alegria ruidosa gritou:

Viva Dios! É Captain Rytmel! Eh! querido! mil abraços! Está gordo, hombre, está mais gordo!

Envolvia-o nos braços robustos, olhava-o ternamente com dois grandes olhos negros. Captain Rytmel depois do primeiro instante de surpreza, em que se fez pallido, apressou-se a ir apertar a mão a uma senhora, extremamente bella, que estava sentada ao pé d'aquelle homem guloso e expansivo, o qual era um hispanhol, negociante de sedas, e se chamava D. Nicazio Puebla.

A senhora, que se chamava Carmen, era cubana, e segunda mulher de D. Nicazio; era alta, de fórmas magnificas, com uma carnação que fazia lembrar um marmore pallido, uns olhos pretos que pareciam setim negro coberto de agua, e cabellos annelados, abundantes, d'esses a que Beaudelaire chamava tenebrosos. Vestia de seda preta e com mantilha.

—Estavam em Gibraltar? perguntou Captain Rytmel.

—Em Cadix, meu caro, disse D. Nicazio. Viemos hontem. Vamos a Malta. Volta para a India? Ah! Captain Rytmel, que saudade de Calcuttá! Lembra-se hein?

—Captain Rytmel—disse sorrindo friamente Carmen—esquece depressa, e bem!

No emtanto nós olhámos curiosamente para Carmen Puebla. O conde achava-a sublime. Eu admirado tambem, disse á condessa:

—Que formosa creatura!

—Sim! Tem ares d'uma estatua malcreada, respondeu ella seccamente.

Olhei para a condessa, ri:

—Oh prima! É uma mulher adoravel, que devia ser em miniatura para se poder trazer nos berloques do relogio; uma mulher que de certo vou roubar, aqui no alto mar, n'um escaler; uma mulher cujos movimentos parecem musica condensada! Oh prima! confesse que é perfeita… Menino! accrescentei para o conde, passa-me depressa a soda, preciso calmantes…

No emtanto Captain Rytmel, sentado junto de Carmen, fallava da India, de velhos amigos de Calcuttá, de recordações de viagens. A condessa não comia, parecia nervosa.

—Vou para cima, disse ella de repente, mandem-me chá.

Quando a viu subir, Rytmel ergueu-se, perguntando ao conde:

—Está incommodada a condessa?

—Levemente. Precisa de ar. Vá-lhe fazer um pouco de companhia, falle-lhe da India. Eu, não posso deixar este carril

Eu tinha interesse em ficar á mesa defronte da luminosa Carmen, concentrei-me sobre o meu prato. O capitão tinha tomado logo o seu excentrico chapeu indio, orlado de veus brancos.

Ao vel-o seguir a condessa, a hispanhola empallideceu. Momentos depois ergueu-se tambem, tomou uma larga capa de seda á maneira arabe de um bournous, enrolou-a em roda do corpo, e subiu para a tolda, apoiada n'uma alta bengala de castão de marfim.

O almoço tinha acabado. Fallava-se da India, do theatro de Malta, de lord Derby, dos Fenians; eu enfastiava-me, fui apertar a mão ao commandante, e fumar para cima um bom charuto, sentindo a brisa fresca do mar.

A condessa estava sentada n'um banco á pôpa; ao pé d'ella o capitão
Rytmel, n'um pliant de vime.

Carmen passeava rapidamente ao comprido da tolda; ás vezes, firmando-se nas cordagens, subia o degrau que contorna interiormente a amurada, e ficava olhando para o mar, emquanto a sua mantilha e a sua capa se enchiam de vento, e lhe davam uma apparencia ondeada e balançada, que a assimilhava áquellas divindades que os esculptores antigos enroscavam no flanco dos galeões!

IV

D. Nicazio Puebla, que o Purser me apresentara já, viera fumar para o pé de mim.

—Esteve na India, Caballero? perguntei-lhe eu.

—Dois annos, em Calcuttá. Foi lá que conheci o capitão Rytmel.
Conviviamos muito. Jantavamos sempre juntos. Fui á caça do tigre com elle.
Cacei o tigre. Deve ir a Calcuttá! Que palacios! Que fabricas!

—O capitão é um valente official.

—É alegre. O que nós riamos! E bravo, então! Se lhe parece! Salvou-me a vida.

—N'alguma caçada.

—Eu lhe conto.

Tinhamo-nos approximado da pôpa, fallando. N'este momento vi eu a hispanhola encaminhar-se para o logar em que a condessa fallava com Rytmel, e com uma resolução atrevida, a voz altiva, dizer-lhe:

—Capitão, tem a bondade, dá-me uma palavra?

A condessa fez-se muito pallida. O capitão teve um movimento colerico, mas ergueu-se e seguiu a hispanhola.

Eu approximei-me da condessa.

—Quem é esta mulher? Que quer?… disse-me ella toda tremula.

Eu soceguei-a e dirigi-me a D. Nicazio.

—Viu aquelle movimento de sua mulher?

—Vi.

—É inconveniente: e o cavalheiro responde de certo pelas phantasias ou pelos habitos d'aquella senhora…

—Eu! gritou o hispanhol, eu não respondo por coisa alguma. O senhor que quer? É um monstro essa mulher! Livre-me d'ella, se póde! Olhe: quel-a o senhor? Guarde-a. Está sempre a fazer d'estas scenas! E não lhe posso fazer uma observação! É uma furia, usa punhal!

—Esta mulher, fui eu dizer á condessa, é uma creatura sem consideração e parece que sem dignidade. Não a olhe, não a escute, não a perceba, não a presinta. Se houver outra inconveniencia eu dirijo-me ao commandante, como se ella fosse um grumete insolente. É pena… é terrivelmente linda!

A hispanhola no entanto, junto da amurada, fallava violentamente ao capitão Rytmel que a escutava frio, impassivel, com os olhos no chão.

O conde subiu n'este momento. Outras senhoras vieram, os grupos formavam-se, começavam as leituras, as obras de costura, o jogo do boi

Eu approximei-me de D. Nicazio e disse-lhe sem lhe dar mais importancia:

—Então esta sua senhora dá-lhe desgostos?

—É sempre aquillo com o capitão. Foi desde a tal caçada ao tigre… Quer que lhe conte?…

—Diga lá.

Sentei-me na tenda onde se fuma, accendi um charuto, cruzei as pernas, recostei a cabeça e, emballado pelo lento mover do navio, cerrei os olhos.

—Um dia em Calcuttá, começou o hispanhol, dia de grande calor…

Mas não, senhor redactor. Eu quero que esta historia a saiba do proprio capitão. Ahi tem a tradução fiel de uma das mais vivas paginas de um dos seus albuns de impressões de viagem.

* * * * *

…«Sabes, escrevia elle a um amigo, que o sonho de todo o negociante que chega á India é caçar o tigre.

D. Nicazio Puebla quiz caçar o tigre. Sua mulher Carmen decidiu acompanhal-o. Essa, sim, que tinha a coragem, a violencia, a necessidade de perigos de um velho explorador Hundodo! Eu estimava aquella familia. Combinámos uma caçada com alguns officiaes meus amigos, então em Calcuttá. A duas leguas da cidade sabiam os exploradores que fora visto um tigre. Tinha mesmo saltado, havia duas noites, uma palliçada de bambus, na propriedade d'um doutor inglez, antigo colono, e tinha devorado a filha de um malaio. Dizia-se que era um tigre enorme, e formosamente listrado.

Partimos de madrugada, a cavallo. Um elephante, com um palanquim, levava Carmen. Um boi conduzia agua em bilhas encanastradas de vime. Iam alguns officiaes de artilheria, cipaios, tres malaios e um velho caçador experimentado, antigo brahmane, degenerado e devasso, que vivia em Calcuttá das esmolas dos nababos e dos officiaes inglezes. Era destemido, meio louco, cantava extranhas melodias do Indostão, adorava o Ganges, e dormia sempre em cima de uma palmeira.

Nós levavamos espingardas excelentes, punhaes recurvados, espadas de dois gumes, curtas, á maneira dos gladios romanos, e o terrivel tridente de ferro que é a melhor arma para a lucta com o tigre. Ia uma matilha de cães, forte e dextra, da confiança dos malaios.

Ás 11 horas do dia penetravamos em plena floresta. O tigre devia ser encontrado n'uma clareira conhecida. Iamos calados, vergando ao peso implacavel do sol, entre palmeiras, tamarindos, espessuras profundas, n'um ar suffocado, cheio d'aromas acres. Toda aquella natureza estava entorpecida pela calma: os passaros, silenciosos, tinham um vôo pesado; as suas pennas coloridas, vermelhas, negras, roxas, doiradas, resplandeciam, sobre o verde negro da folhagem. O ceu mostrava uma côr de cobre ardente; os cavallos marchavam com o pescoço pendente; os cães arquejavam; o boi que levava a agua mugia lamentavelmente; só o elephante caminhava na sua pompa impassivel, em quanto os malaios para esquecer a fadiga, diziam, com a voz monotona e lenta, cantigas de Bombaim.

Estavamos ainda distantes do tigre: nem os cavallos tinham rinchado, nem o elephante soltara o seu grito melancolico e doce. Todavia achavamo-nos proximo da clareira.

Eu cheguei ao palanquim de Carmen e bati nas cortinas. Carmen entreabriu-as: estava pallida da fadiga do sol e do prazer do perigo; os olhos reluziam-lhe extraordinariamente. Anciava pela lucta, pelos tiros, pelo encontro da fera. Pediu-me uma cigarrette e um pouco de cognac e agua…

Eu desde que a conhecia tinha muitas vezes olhado Carmen com insistencia, e tinha visto sempre o seu olhar negro e acariciador envolver-me respondendo ao meu.

Tinha-lhe algumas vezes dado flores, e uma noite que n'um terrasso em Calcuttá, olhavamos as poderosas constellações da India, o ceu pulverisado de luz, ella tinha um momento esquecido as suas mãos entre as minhas. A sua belleza perturbava-me como um vinho muito forte. E alli, n'aquella floresta, sob um céo affogueado, entre os aromas das magnolias, Carmen apparecia-me com uma belleza prestigiosa, cheia de tentações, a que se não foge.

—Ah Carmen, disse eu, quem sabe os que voltarão a Calcuttá!

—Está rindo, capitão…

—Na caçada do tigre póde-se pensar n'isto: o tigre é astuto; tem o instincto do inimigo mais bravo e do que é mais lamentado.

—Ninguem hoje seria mais lamentado que o capitão.

—Só hoje?

—Sempre, e bem sabe por quê.

De repente o meu cavallo estacou.

—O tigre! o tigre! gritaram os malaios.

Os cavallos da frente recuaram; os cipaios entraram nas fileiras da caravana. Os cães latiam, os malaios soltavam gritos guturaes, e o elephante estendia a tromba, silencioso. De repente, houve como uma pausa solemne e triste, e um vento muito quente passou nas folhagens.

Estavamos defronte de uma clareira coberta de um sol faiscante. Do outro lado havia um bosque de tamarindos: era ali decerto que a fera dormia. Voltei-me para D. Nicazio: vi-o pallido e inquieto.

—D. Nicazio! dê o primeiro tiro, o signal d'alarma!

D. Nicazio picou rapidamente o cavallo para mim, murmurou com uma voz suffocada:

—Quero subir para o elephante. Carmen não deve estar só; póde haver perigo…

Fallei aos malaios, que desdobraram a estreita escada de bambu, por onde se sobe ao dorso dos elephantes. O Carnak dormia encruzado no vasto pescoço do animal. D. Nicazio subiu com avidez, arremeçou-se para dentro do palanquim, e de lá, pela fenda das cortinas, espreitava com o olho faiscante e medroso.

Mas estão foi Carmen que não quiz ficar dentro do palanquim, pediu, gritou, queria montar a cavallo, sentir o cheiro á fera.

—Tirem-me d'aqui, tirem-me d'aqui! Não fiz esta jornada toda para ficar dentro d'uma gaiola…

Não havia sella em que mulher montasse, nem cavallo bastante fiel; não se podia consentir que Carmen descesse. Mas eu tive uma idéa extranha, perigosa, tentadora, imprevista: era pôl-a á garupa do meu cavallo. Disse-lh'o.

Ella teve um gesto de alegria, quasi se deixou escorregar, agarrando-se ás cordas do palanquim, pelo ventre do elephante; correu, pôz o pé no meu estribo, enlaçou-me a cintura, e com um lindo pulo, sentou-se á garupa. Os officiaes exclamavam que era uma imprudencia. Ella queria, instava e apertava-me contra a curva do seu peito, rindo, jurando que nem as garras do tigre a arrancariam d'alli…

Os malaios preparavam os tridentes, dispunham a matilha. Eu, como levava Carmen á garupa, tinha-me collocado atraz do grupo, cerrado, com os pés firmes nos estribos, attento, os olhos fitos na espessura dos tamarindos.

Mas nem se ouviam rugidos, nem um estremecimento de folhagem.

Carmen apertava-me exaltada.

—Vá! Vá! pediu-me ella baixo. O tigre, o tigre! Dê o signal.

Ergui um rewolver e disparei. O echo foi cheio e poderoso. E logo ouviu-se um rugido surdo, lugubre, rouco, que era a resposta do tigre. Estava perto, entre os primeiros tamarindos. A matilha rompeu a ladrar…

—Que ninguem se alargue! disse o velho brahmane, que tinha trepado a uma palmeira, e de lá olhava, farejava, ordenava!

Todos conservavam a espada ou tridente inclinado em riste, esperando o salto do tigre. Eu déra uma cuchilla a Carmen, tinha na mão da redea um forte rewolver e na outra um punhal curvo…

De repente os arbustos estremeceram, as altas hervas curvaram-se, sentiu-se um bafo quente, um cheiro de sangue, e o tigre veiu cair, com um rugido, diante dos caçadores, no meio da clareira, estacado, e immovel.

Era muito comprido, de pernas curtas e espessas, a cabeça ossea, os olhos fulvos, ferozes, n'um movimento perpetuo e convulsivo; e a lingua vermelha como sangue coalhado, pendia-lhe fóra da bocca.

Um momento o tigre arrastou-se, batendo os ilhaes com a cauda. Depois com um gemido profundo, saltou. Mas os cães, arremessando-se, tinham-no prendido no ar, pelas orelhas, pela pelle espessa do pescoço, pelas pernas, vestindo-o de mordeduras, rasgando-o, rugindo, cobrindo-o todo. Alguns ficaram logo despedaçados.

E no instante em que a fera tendo cuspido todos os cães, ficou só, magnifico, e de cabeça alta o brahmane fez um signal. Duas balas partiram. O tigre rugiu, rolou-se freneticamente no chão. Estava ferido. Immediatamente ergueu-se, arremessou-se sobre os homens. Todos tinham o tridente e os punhaes enristados, o ventre da fera veio rasgar-se nas laminas agudas. Prendera porém um malaio entre as garras, e rasgava-lhe o peito. Á uma todos enterravam as facas no corpo do animal, e elle, succumbindo sob o peso, sob as feridas, varado por uma bala, debatia-se ainda ferozmente, esmigalhando na agonia os membros do pobre malaio.

—Nada de bala! nada de bala! gritava o brahmane.

Eu estava fascinado. Carmen convulsivamente apertada a mim, com os olhos chammejantes, vibrando por todo o corpo, dava gritos surdos d'excitação. O tigre ficara estendido, escorrendo sangue. Eu devorava-o com a vista, seguia-lhe a mais pequena contracção dos musculos. Vi-o arquear-se de repente, e com um pulo vertiginoso arremessar-se sobre mim e sobre Carmen. Com uma determinação subita, disparei um tiro do meu rewolver no ouvido do cavallo que montavamos. O animal caiu sobre os joelhos, nós rolámos no chão. O tigre levava um pulo elevado, roçou pelas nossas cabeças, foi cair a distancia, revolvendo-se na terra. Ergui-me, arrojei-me a elle, cravando-lhe o punhal entre as patas dianteiras com um movimento rapido, que lhe foi ao coração. O tigre ficou morto. Abaixei-me, e com uma faca malaia em fórma de serra cortei-lhe uma pata, e apresentei-a a Carmen.

—Hurrah! gritaram todos, e o echo d'este grito estendeu-se pela floresta.

Carmen tinha-se approximado do tigre morto, acariciava-lhe a pelle aveludada, tocava-lhe com as pontas dos dedos no sangue que escorria.

—Hurrah! hurrah! continuavam gritando os caçadores.

Carmen, então, arremessando-se aos meus braços, beijou-me na testa com enthusiasmo, dizendo alto:

—Salvou-me a vida! Devo-lhe a vida!…

E mais baixo, murmurou-me ao ouvido:

—Amo-te.

A tarde cahia. Sentiamos os braços fracos, e grande sede. Começámos a dirigir-nos para Calcuttá. Descançámos n'uma plantação de indigo. E ao começar da noite, com archotes accesos e cantando, partimos alegremente para a cidade, pela floresta, n'um caminho conhecido e seguro. As luzes davam á ramagem attitudes phantasticas; passaros acordando esvoaçavam; e sentia-se o fugir dos chacaes. Era como a volta d'uma caçada barbara, das velhas legendas da India. Carmen tinha aberto as cortinas do palanquim. Eu montava, ao lado d'ella, o cavallo do malaio morto. Ella inclinou-se para mim e com a voz abafada:

—Juro-te, disse-me, que te amo, como só no nosso paiz se ama. Juro-te que em todas as circumstancias, sempre darei a minha vida pela tua, quererei os teus perigos, serei a tua creatura, e só te peço uma cousa.

—O quê?

—É que de vez em quando, quando não tiveres melhor que fazer, te lembres um pouco de mim.

O momento, o sitio, os perfumes acres, as phantasticas sombras da floresta, a luz dos archotes, a belleza maravilhosa e fatal de Carmen, os tiros, os sons das trompas, os relinchos dos cavallos, os gritos dos chacaes, tudo me tinha perturbado, exaltado, e esquecendo o senso e a logica, disse-lhe:

—Juro-te que te amo, que sempre te serei leal, e que no dia em que vires que te esqueço, quero que me mates!

Ella segurou a mão que lhe estendi, e com uma caricia humilde, com um gesto de fera que rasteja, curvou-se toda na grade do palanquim, e beijou-me os dedos.

A noite, no entanto, enchia-se de enormes estrellas scintillantes…»

V

Ao terceiro dia de viagem do Ceylão, um dia antes de avistarmos Malta, um official inglez, ao almoço, lembrou que n'aquelle dia fazia 28 annos o principe de Galles. Quasi todos os officiaes que estavam a bordo conheciam o principe, estimavam o seu caracter, o seu temperamento eminentemente byroneano. Resolveram, com accedencia do commandante, celebrar a data e valsar á noite, na tolda, á luz d'um punch collossal.

O jantar foi já ruidoso; o Champagne resplandeceu como opala liquida nas taças facetadas; a pesada pale ale espumou; o Xerez ferveu na soda water. Carmen, pela sua belleza e pela extranha verve da sua agitação, foi a alegria d'aquelle pesado e longo banquete de annos reaes.

Houve toasts, á rainha e aos principes inglezes, ao lord-almirante, á companhia P. and O.; e um inglez rico fez um speech aos estrangeiros: The count and countess of W.

—Peço um toast, disse Carmen, de repente.

Os copos tiniram, estalaram as rolhas.

—Á caçada do tigre! aos palanquins de cortinas brancas! aos caçadores que salvam as damas que têem á garupa!

A maior parte não comprehendeu, alguns riram, mas como o toast era excentrico, foi escoltado d'applausos.

Oh! shocking! disse ao meu lado uma velha irlandesa, que tinha pelo amplo ventre do Purser uma fascinação concentrada.

Not at all, Madam! disse eu, é apenas o sangue meridional. Aquella viveza, aquelles olhos luzentes, é o sangue meridional: se ella agora quebrasse todas as garrafas de encontro ao tecto da sala, era o sangue meridional…

A ingleza escutava, como quem se instrue.

— … Se ella tomasse de repente a roda do leme e arremessasse o paquete contra um rochedo, era o sangue meridional; se ella ousasse arrancar com mãos impias os seus oculos, milady…

—Ouh! gritou ella.

— … era ainda o sangue meridional!

Oh! very shocking the sangue meridional.

Os officiaes inglezes, esses, estavam enthusiasmados com Carmen.

No emtanto, as senhoras tinham-se erguido; e em volta do conde juntára-se um grupo de bebedores convictos e serios. Serviu-se o cognac e os alcools. Carmen ficára entre os homens, bebendo licôr, rindo e fumando cigarrettes.

A condessa subira pelo braço de Captain Rytmel.

D. Nicazio, esse, comia impassivelmente o seu queijo adornado de mostarda, de salada, de vinagre, de sal, de rabanos e d'um leve pó apimentado de Ceylão.

Não sei como, fallou-se de mulheres, e de caracteres femininos.

—Eu, disse logo Carmen, comprehendo a gravidade devota das misses: como senhoras inglezas é sua educação; nasceram para serem hirtas, loiras, frias e leitoras da Revista d'Edimburgo. Estão na verdade do seu caracter: um pouco menos vivas seriam de biscuit, um pouco mais seriam shockings. Mas o que eu detesto, são as canduras allemãs, os modos virginaes de creaturas que, pelo seu clima, pelo sol do seu paiz, pertencem ao que a vivacidade tem de mais petulante. Uma hispanhola, uma italiana, uma portugueza, caindo no missismo, e dando-se ares vaporosos, hypocritas e beatos, serve sempre para esconder um amante, quando não serve para esconder dois.

Aquellas palavras eram evidentemente uma allusão sanguinolenta ás maneiras reservadas da condessa, que, sendo loira, discreta, suave, contrastava poderosamente com aquella trigueira e ruidosa hispanhola.

—Perdão, señora, disse-lhe eu em hispanhol: hoje as verdadeiras maneiras não são o salero, são a gravidade. O salero póde ser bom no theatro, na zarzuella, nos corpos de baile, nas gravuras de uma viagem á Hispanha, mas é de todo o ponto inconveniente n'uma sala.

Ella empallideceu levemente, e fitou-me:

Caballero, perguntou, es usted pedante de rhetorica?

Eu ri-me, estendi-lhe a mão, e tudo acabou com um novo toast.

Mr. Cokney, que escutava a hispanhola, tinha attendido ás nossas palavras, tinha achado um som pittoresco e extranho n'aquelle dizer—pedante de rhetorica, e exclamava para os outros inglezes, rindo:

Oh yes, Pedantt de Rhetoric, it is very phantastic!

Entretanto, a noite caia. Eu senti-me pesado, recolhi á cabine, adormeci ligeiramente. Pelas nove horas subi á tolda. Fiquei surprehendido.

Não havia luar, nem estrellas, nem vento. Ao fim da tolda ardia o punch. Era enorme, a sua chamma larga, azulada, phantastica, subia, palpitava, fazia sobre o navio toda a sorte de reflexos e de sombras. Dos logares escuros saiam risadas de flirtations. Havia uma flauta, e uma rebeca. E já um ou outro par valsava em roda da clara-boia da tolda.

A mastreação do navio, tocada em grandes linhas azuladas pela luz do punch, fazia lembrar um galeão de legenda, o paquete de Satan.

Algumas senhoras estavam vestidas de branco, e quando nos circulos da valsa passavam sob a zona da luz, e eram envolvidas n'uma claridade phosphorica, os vestidos brancos tomavam tons espectraes, os cabellos louros luziam com um encanto morto, havia em tudo aquillo como uns longes de dança macabra…

Carmen estava possuida da mesma agitação da chamma do punch, travava do braço a um, valsava com outro, escarnecia, tinha replicas, batia o leque. D. Nicazio, esse resonava perto da amurada. De vez em quando entornavam-lhe punch pela bocca: elle abria uma frestado olho:

Thank you, caballeros! e adormecia.

—Onde está captain Rytmel? disse de repente Carmen. Tragam-n'o… Quero valsar com elle.

Rytmel conversava com a condessa socegadamente, longe da luz.

—Rytmel! Rytmel! chamaram varias vozes.

Vimol-o approximar-se contrariado, mas rindo.

—Uma valsa, gritou-lhe a hispanhola.

A flauta começou: ella tomou os hombros do capitão, e despediram em grandes circulos; os vestidos de Carmen enchiam-se d'ar, os seus cabellos desmanchavam-se; a luz do punch tremia; ao compasso rapido, os giros vertiginosos, enlaçados, pareciam vôos, lembravam a valsa do diabo cantada por Byron. Ella vergava nos braços de Rytmel, com a cabeça errante, os olhos cerrados, os beiços entreabertos e humidos.

—Bravo! Bravo! gritavam os inglezes em roda.

A luz do punch erguia-se, balançava-se, valsava tambem. Carmen e Rytmel passavam como sombras, levados por um vento leve, cheios dos reflexos idealisadores da chamma azul. O som frenetico da flauta perseguia-os; parecia que elles iam voar, desapparecer entre as cordagens, dissipar-se na noite. Os inglezes gritavam, erguendo os chapeus:

—Hip! hip! hip!

Eu notava na condessa, entretanto, uma vaga sobre-excitação: estava observando de longe com os olhos resplandecentes, o seio arquejante. Apenas a valsa findou, ella tomou o braço do capitão, e ouvi-lhe dizer n'uma voz grave e reprehensiva:

—Não dance mais.

Fiquei surprehendido. Que havia? Um segredo? Pois a condessa, tão altiva, tão casta, tão timida!…

Approximei-me d'ella.

—Prima, é tarde. Não quer descer?…

Ella olhou-me serenamente, sorrindo.

—Não. Porquê?

E affastou-se com o capitão Rytmel para ao pé da tenda onde de dia se fumava, e agora deserta e quasi escura.

Eu machinalmente fui-os seguindo, cheguei-me imperceptivelmente pelo lado opposto, e quasi sem querer ouvi.

O capitão dizia-lhe:

—Mas porque duvida? Eu desprezo aquella mulher. A nossa amisade nada perde, e nada soffre. Ella foi para mim um capricho, e historia de um momento. Agora nem uma recordação é…

Continuaram fallando baixo, e melancolicamente. Eu fui encostar-me um momento á amurada. Erguera-se vento, e o vapor começava a jogar…

Quando me approximei de novo dos grupos ruidosos, ouvi casualmente Carmen que dizia:

—Onde se some aquelle capitão Rytmel? Desappareceu outra vez com a condessa, não viram? Vamos procural-os.

Comprehendi a traição. Corri rapidamente, sem ser percebido, á tenda fumoir, entrei, sentei-me n'um banco, conversando alto, ao acaso. A tenda estava apenas allumiada por uma lanterna. A condessa ao ver-me apparecer assim tão bruscamente, fizera-se pallida de colera.

Mas n'este momento chegavam alguns officiaes, gritando:

—Rytmel! Rytmel!

Eu adiantei-me, dizendo:

—Que é? Estamos aqui; não queremos dançar mais…

Os officiaes affastaram-se. A condessa percebeu que eu a tinha salvado de uma situação penosamente equivoca, e o seu olhar agradeceu-me, profundamente.

—Desça, condessa, desça, segredei-lhe eu.

Ella disse com um sorriso melancolico a Rytmel:

—Está frio, adeus!

Rytmel e eu voltámos para o grupo dos officiaes.

Eu queria-me vingar-me de Carmen; lembrou-me o tornal-a o centro de ruido, e d'orgia.

—Señorita! disse-lhe eu, cante-nos uma seguidilla ou uma habanera! Faz um bello effeito no alto mar. Estão aqui gentlemen que nunca ouviram a musica dos nossos paizes.

—Sim, sim, gritaram todos. Uma seguidilla!

Ella queria recusar-se, descer ao beliche.

—Não, não, cante, mylady, cante!

Os pedidos eram instantes, e ruidosos. Ella cedeu, ergueu a voz, no meio do silencio, acompanhada pelo monotono ruido do vapôr e pelo vento crescente, e cantou com uma voz forte e languida:

    Á la puerta de mi casa
    Hay una piedra mui larga…

Os inglezes estavam extaticos. No fim os applausos estalaram como foguetes, encheram-se os copos, um gritou:

—Pela señorita Carmen! hip! hip! Hurrah!

Os applausos echoaram no mar.

Ella estava extremamente embaraçada, comprehendia que só, no meio d'aquellas acclamações de homens, a sua posição era equivoca e ousada.

—Ora vejam! disse eu então, com uma bonhomia mephistophelica, é pena que as senhoras não ouvissem, e que estejamos aqui sós, entre rapazes, na pandiga.

Carmen deitou-me um vivo olhar de odio: eu estava vingado.

Um dos inglezes, no entanto, Mr. Reder, continuava, erguendo o copo, cheio de punch:

—A Carmen Puebla! Hip! hip! hip!

—Hurrah! responderam os outros enthusiasmados.

E o echo triste do mar, repetiu:

—Hurra!

Tocou uma sineta. Eram onze horas. Apagaram se as luzes. Quasi todos desceram rapidamente. Havia um forte vento de noroeste. O balanço do navio crescia. Navegavamos então á vista da terra d'Africa. Quando a tolda ficou deserta, sentiu-se mais vivamente o vento uivar nas cordagens, e bater a grande pancada do mar.

De espaço a espaço a sineta marcava os quartos: e a voz melancolica do marinheiro de vigia, dizia, pausadamente:

All is well.

Havia duas horas que eu tinha descido ao beliche. Estava n'aquella confusa penumbra que não é o somno, nem a vigilia, mas um vago sonho vivo que se sente e que se domina: via a condessa passar n'uma nuvem com Rytmel, alegre, bebendo cerveja; via Carmen vestida de monge, dançando sobre a corda bamba; e estas visões confundiam-se com o balanço e com o bater do helice.

De repente senti uma pancada pavorosa. O navio estremeceu, parou, ressoou um grande grito.

VI

Dei um salto, corri á porta do beliche:

Stewart! Stewart!

Stewart,(Criado dos quartos.) apareceu esguedelhado, quasi nú.

—Que é? Estamos perdidos? Batemos n'um rochedo?

—Não sei. Não ha de ser nada, o navio é seguro.

Ouvia em cima marinheiros correndo, o movimento que se faz n'um perigo.

—Estamos perdidos, pensei eu, vestindo-me com uma precipitação angustiada.

A cada momento esperava ver o navio descer, afundar-se, e uma enorme onda pesada entrar, alagar a cabine.

Corri á tolda. Giravam lanternas. Quasi todos tinham subido: os vestidos brancos, os penteadores das mulheres, davam aos grupos um vago mais lugubre. A officialidade estava impassivel.

—Que foi? que foi? perguntei a alguem.

—Não se sabe, quebrou-se a machina. Mas temos sobre nós um terrivel vendaval…

—Estamos perdidos!

—O navio é seguro, respondeu o outro.

Ao lado diziam:

—O capitão devia deitar as lanchas ao mar.

O ceu estava limpo: luziam estrellas. O vento assobiava mais forte. O navio tinha aquella oscillação lugubre de bombordo a estibordo, que têem os grandes peixes mortos quando boiam ao cimo d'agua. Olhei os astros, o ceu impassivel, a agua negra,—e senti um immenso despreso pela vida.

Em roda de mim a cada instante ouvia-se versões contradictorias. Uns diziam que ficariamos á capa, esperando firmemente o mau tempo; outros que o navio estava perdido… Um official disse ao passar:

—Oh, senhores! isto não vale nada: concerta-se; já me aconteceu duas vezes d'Aden a Bombaim.

Não havia a menor confusão ; tudo continuava tão sereno e regular, como se caminhassemos n'um largo rio, á clara luz do sol. O commandante, emfim, appareceu:

—Meus senhores, disse elle, é apenas um contratempo. Houve um desarranjo grave na machina. Não sei se poderei navegar. Com calmaria, talvez. Mas com o vento que vem sobre nós, é caso para um atrazo de quatro ou cinco dias.

No emtanto, o vento crescia. Havia por todo o mar flocos de espuma.
Ouvia-se no horisonte um ruido surdo, como o marchar de mil batalhões.

A maior parte dos inglezes, pesados de somno e de vinho, tinham voltado para as cabines, indifferentes ao perigo. Algumas ladies, tranzidas, mas graves, ficaram no convez.

Em baixo, os engenheiros e os machinistas trabalhavam poderosamente, e sem cessar.

Captain Rytmel approximou-se de mim.

—É um perigo, e é um perigo sem lucta. Este imbecil d'este commandante navegou de mais para sul. Estamos perto da costa d'Africa. Se o vendaval nos apanha agora atira-nos para lá… Todavia o nosso engenheiro de bordo, Pernester, é um homem de genio. Onde está a condessa?

Descemos á sala commum. A condessa lá estava, encostada á mesa, serena e pallida.

—Suba, prima, suba, disse eu. Ao menos em cima vê-se o ceu, a agua e o perigo!

Viemos encostar-nos á amurada, agarrados ás cordagens. As estrellas davam uma claridade nebulosa. As ondas profundamente cavadas, orladas de espuma, reluziam sob aquella luz vaga. O vento era terrivel.