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O Mysterio da Estrada de Cintra. Cartas ao Diário de Noticias

Chapter 29: XI
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About This Book

The physician narrator recounts an extraordinary case he encounters on a suburban road: a masked figure, an enigmatic corpse and circumstances that suggest foul play. The story is presented as letters and reports that alternate suspenseful, gothic set-pieces with forensic observation and wry social commentary. Episodes mix nocturnal discovery, suspicious characters and sensational touches while probing the limits of imagination and the demands of methodical analysis. Framed as a youthful collaborative experiment, the account balances melodramatic incident with reflective aside on narrative invention, artistic audacity and the tension between romantic excess and critical scrutiny.

—Porque não deitam lanchas ao mar? dizia a condessa. Ao menos luctava-se, havia a coragem. Mas ser arremessado o paquete para a Africa como uma baleia morta!…

Ella quis passear, mas o movimento do navio era muito violento; era necessario encostar-se ao braço de Captain Rytmel. Eu difficilmente me equilibrava. A pancada da onda contra o costado tinha um som lugubre. A sineta de bordo tocava com uma voz desconsolada as horas e os quartos. Tinham-se accendido mais pharoes no alto dos mastros. O ruido do vento de temeroso, parecia uma passagem violenta de almas condemnadas.

Desci á camara para beber cognac, porque o frio era agudo. Carmen, sentada no sophá, no alto da sala, estava ali immovel, com os olhos vagos, as mãos crusadas.

—Morremos, hein? perguntou ella.

—Tem medo? disse eu.

—Um pouco, de morrer affogada. D'uma bala ou d'uma facada, não me custava. Mas aqui, estupidamente, n'este antipathico elemento, é cruel! Ao menos não morro só! Lá se vae a sua linda prima!…

—Porque odeia a pobre condessa? disse-lhe eu, sorrindo.

—Eu! de modo algum. Acho-a piegas, detesto aquelles ares sentimentaes, deshonra a Peninsula. Ahi está.

—Não é isso: é porque suppõe que Captain Rytmel se interessa de mais por ella.

—E que me importa a mim esse cavalheiro?

E deu uma curta risada.

No emtanto o ar abafado da sala, o movimento do navio perturbava-me. Subi á tolda. A condessa e Rytmel não passeavam. Tinham-se sentado, segundo deprehendi, debaixo da tenda. Eu, de pé, atravez da lona podia escutar, apesar do ruido do vento.

Uma curiosidade indomavel, a necessidade de comprehender a situação do espirito da condessa, a certeza de que estavamos na afflição d'um perigo,—e as acções humanas n'esses momentos não se podem sujeitar ao criterio da vida trivial,—tudo me levou a ir escutar, apesar das repugnancias do meu caracter. Acerquei-me, fiz ouvido d'espião:

—E custa-lhe morrer?

—Muito e nada, respondia a condessa. Muito porque morre commigo o primeiro interesse que tenho na vida, que é a sua amisade; nada, porque, francamente, sou eu feliz?

—Se a minha amisade é para si um interesse profundo…

A condessa calou-se.

—Oh! comprehendo-a bem, disse Rytmel. Sabe por que não é feliz, apesar da minha amisade? É porque não é a minha amisade o que o seu coração precisa. Oh! deixe-me fallar! É o amor profundo, inalteravel, omnipotente, que esteja em todos os momentos da sua vida e em todas as idéas do seu espirito; que viva do prazer e viva do sacrificio; que seja a ultima rasão da vida, a consolação, a esperança, o ideal absoluto; que pelo que ha de mais ardente prenda os seus olhos, e pelo que ha de mais elevado prenda a sua alma…

—Cale-se, cale-se, dizia a condessa. É uma loucura fallar assim… Vamos passear, vamos ver o mar.

O vento agora era terrivel. O mar estava como agua de sabão a perder de vista. O navio oscilava perdidamente, e sem rumo. No emtanto, na machina trabalhava-se sempre.

Rytmel continuava fallando á condessa.

—Cale-se, cale-se, dizia ella, baixo, e como vencida.

—Não; devo dizer-lh'o: esta palavra «amisade» é falsa. D'aqui a duas horas talvez, estamos perdidos. Ao pé da morte a sinceridade é uma justiça. Digo-lh'o. Amo-a. Não se erga. O vento levará comsigo esta confissão. Amo-a. Se estamos culpados depois d'estas palavras, o mar é um bom tumulo e o mar lava tudo. Amo-a…

—Não diga isso. É um engano; é apenas sympathia. Demais o amor a que nos levaria? ou ao despreso ou á tortura…

Eu ouvia mal. Elles fallavam baixo. A tormenta chegava. O navio gemia lamentavelmente. As cordagens, que o vento quebrava de repente, assobiavam como cobras. Os marinheiros corriam. Sentiam-se a voz do commando, os martellos, os trabalhos na machina. Uma vaga entrou, alagou o convez.

De repente senti um movimento dentro da tenda: a condessa ergueu-se; a sua voz era alta e vibrante:

—Captain Rytmel, pensa em sua honra que vamos morrer?

—Penso, condessa.

—Pois bem, quero dizer-lh'o então: amo-o!

E depois de um momento:

—Oh! amo-o, repetiu ella com uma explosão de paixão. Já que tenho a certeza de que morro pura, quero morrer sincera. Adoro-o.

N'este momento um ruido extranho tomou o navio.

Percebi uma forte dominação de oscillação, uma resistencia contra a vaga. Os movimentos da embarcação já não pareciam inertes. Via-se que ella tinha retomado a sua vitalidade… Então senti o helice… o helice! O navio movia-se. Via-se a onda esmigalhada pela prôa. Caminhavamos! Eu saltei para a abertura que desce á machina.

—Que é? perguntei a um official que subia.

—Um milagre de Pernester!

Todos tinham corrido. Era uma anciedade.

O capitão trepou rapidamente pela escada de ferro polida que do interior da machina sobe ao pavimento do navio.

Estava radiante.

—Imaginem que Pernester…

—Sim, sim, interrompi, mas então?

—Vamos a caminho. Agora sopra, tormenta, sopra! Ámanhã estamos em Malta.

—Bravo, Pernester! bravo! gritavam todos.

O grande homem subiu a escada da machina, offegante, impassivel, vermelho, grave, ainda com a gravata branca do jantar. Esponjou a calva, e disse n'um tom suave:

Now, I should enjoy a nice glass of beer…

VII

No dia seguinte chegámos a Malta. Era de noite, não havia estrellas. A agua da bahia estava immovel e negra. Via-se defronte La Valette, elevada como uma collina, altiva como um castello, pespontada de luzes. Em redor do paquete as gondolas corriam silenciosamente tendo á popa, esguia e alta, uma lanterna pendente. Havia um grande silencio, uma suavidade ineffavel. Os gondoleiros remavam calados. Aquillo era doce e regular. Sentia-se o mysterio italiano e a policia ingleza.

Desembarcámos: fomos para Clarence Hotel, na Strada-Reale, defronte da celebre igreja de S. João. Rytmel hospedou-se em casa dos officiaes inglezes. D. Nicazio e Carmen vieram para Clarence-Hotel, tambem. Os tres primeiros dias em Malta foram occupados em percorrer os monumentos: o palacio dos grã-mestres, os palacios chamados Estalagens, e que eram pertencentes ás differentes nacionalidades da ordem, as grandes ruas brancas, com elevadas e altivas casas no gosto da Renascença, e os arredores de Malta, Citta-Vechia, Bengama, Boschetto, e a ilha de Calypso, que tem tantos encantos em Homero e que é um rochedo humido, cheio de cavernas tenebrosas. Desde o primeiro dia, Rytmel e alguns officiaes iam jantar a Clarence-Hotel. A condessa comia sempre nos seus quartos. O ruido, a petulancia da mesa, era Carmen. Deixara-se logo seguir sempre por um rapaz francez, espirituoso e ligeiro, louro e ardente, um Mr. Perny, viajante por tedio, dizia elle.

Carmen não se approximava de Rytmel. Havia entre elles como uma separação combinada e discreta. Rytmel, pelo contrario, não se affastava de nós em todas as excursões ao campo, ás fortificações, á bahia; todas as noites nos acompanhava ao theatro. O conde tinha ficado logo captivado das grandes tranças louras d'uma rapariga que nós viamos sempre na 1.^a ordem do theatro, com a tez ingleza e os olhos malteses, d'uma frescura de miss e movimentos de andaluza, e que era uma radiosa Mademoiselle Rize, dançarina em disponibilidade. De resto, o conde não podia separar-se de Rytmel.

Ali, em Malta, os movimentos da condessa e do official não estavam tanto sob o dominio da minha vista. Eu, ás vezes, não via a condessa um dia, dois dias, absorto na companhia de alguns officiaes inglezes, em passeios no mar, no campo, em ceias e no jogo. Comprehendia porém que aquella paixão da condessa a dominava absolutamente. Rytmel parecia-me tambem perdidamente namorado.

Não lhe quero dizer, senhor redactor, os raciocinios interiores, que me determinaram a ser indifferente áquella situação. Comprehenderá claramente os motivos por que resolvi não saber, não olhar, não perceber, isolar-me n'uma discripção completa e delicada.

Pouco tempo depois de chegarmos a Malta, tinhamo-nos relacionado com lord Grenley, que estava ali passando o inverno e curando os seus blue devils. Tinha vindo de Inglaterra n'um lindo yacht, chamado The Romantic, que nós viamos todos os dias na bahia bordejar, fazendo reluzir ao sol os seus cobres polidos e o seu esvelto costado branco. Lord Grenley ligára-se muito com o conde. Era tambem o Intimo de Rytmel.

Carmen tinha-se encontrado pouco com a condessa, a não ser no theatro, onde a crivava de olhares impertinentes, em plena e altiva indifferença da condessa. Carmen, irritada, não vivendo nas relações de ladies, não a encontrando, como nos sete metros do tombadilho do paquete, sob a acção dos seus largos gestos e das suas asperas ironias, desforrava-se á mesa de Clarence-Hotel, envolvendo indirectamente Rytmel em toda a sorte de allusões e de palavras causticas. A sua ultima tactica era instigar sempre Mr. Perny contra o official, arremessal-o contra todas as idéas, todas as opiniões de Rytmel; não sei se com a esperança perversa de um duello, se apenas pelo gosto de o vêr contrariado…

Um dia fallava-se da India. Rytmel dizia a transformação fecunda que a
Inglaterra lhe tinha feito. Uma grande risada interrompeu-o. Era Perny.

—Ri-se? disse Rytmel, levemente pallido.

—Rio-me? Estalo de riso, tenho apoplexias de riso. Que transformação fecunda fez a Inglaterra á India? A transformação da poesia, da imaginação, do sol, n'uma coisa chata, trivial e cheia de carvão. Eu estive na India, meus senhores. Sabem o que fizeram os transformadores inglezes? A traducção da India, poema mysterioso, na prosa mercantil do Morning Post. Na sombra dos pagodes põem fardos de pimenta; tratam a grande raça india, mãe do ideal, como cães irlandezes; fazem navegar no divino Ganges paquetes a tres schellings por cabeça; fazem beber ás bayaderas, pale ale, e ensinam-lhes o jogo do criket; abrem squares a gaz na floresta sagrada; e, sobre tudo isto, meus senhores, desthronam antigos reis, mysteriosos, e quasi de marfim, e substituem-n'os por sujeitos de suissas, crivados de dividas, rubros de porter, que quando não vão ser forçados em Botany-Bay, vão ser governadores da India! E quem faz tudo isto? Uma ilha feita metade de gelo e metade de rosbeef, habitada por piratas de collarinhos altos, odres de cerveja!

Captain Rytmel ergueu-se risonho, approximou-se de mim, e disse:

—Peço-lhe que no fim do jantar pergunte áquelle engraçado doido o seu logar, a sua hora e as suas armas.

E foi sentar-se serenamente. Eu, á sobremesa, affastei-me com Perny, e transmitti-lhe as palavras do meu amigo.

Perny riu, disse que estimava os inglezes, que apreciava os seus serviços na India, que tinha sido instigado por Carmen a contrariar Rytmel, que o achava um adoravel gentleman, que pedia das suas palavras as mais humildes desculpas, que o seu logar era por toda a parte, as suas armas quaesquer…

—Mas, dadas essas explicações, disse eu, nada temos que vêr com as armas…

—Ah! perdão; disse o francez, ha ainda uma pequena cousa: é que eu acho que o penteado de Captain Rytmel é profundamente offensivo do meu caracter e da dignidade da França. Isto é que exige reparação.

Nomearam-se padrinhos n'essa noite. Combinou-se que o duello não fosse em Malta: Rytmel era official, e os duellos nas praças d'armas têem as mais severas penalidades. Era difficil, porém, estando n'uma ilha ingleza, não se baterem em territorio inglez. Resolveu-se então que o duello fosse no alto mar, a um tiro de canhão da costa ingleza. Lord Grenley emprestou o seu yacht e partimos de madrugada com um vento fresco e um sol alegre. As cousas foram rapidas. Puzemo-nos á capa a 5 milhas de Malta, arriámos o pavilhão inglez, a marinhagem subiu ás vergas, e como havia egualdade de nivel, um dos adversarios foi collocado á pôpa e outro á prôa. O sol davanos de estibordo. Éram 7 horas, pequenas nuvens brancas esbatiam-se no ar. O duello era ao primeiro tiro, havendo ferimento grave. Lord Grenley deu o signal, os dois adversarios fizeram fogo. Perny deixou cahir a pistola, e abateu-se sobre os joelhos. Estava gravemente ferido com a clavicula partida. Foi deitado n'uma cabine preparada. Levantou-se o pavilhão inglez e navegámos para Malta. Vinha cahindo a tarde.

Eu dirigi-me logo aos quartos de D. Nicazio. Carmen estava só.

—Sabe o que fez? disse-lhe eu. Perny está ferido.

—Isso cura-se, eu mesma o curarei… agora o que é sério, é o que se está tramando aqui dentro d'este hotel… Eu não sei bem o que é, desconfio apenas… Diga ao conde que vigie a condessa!

Eu encolhi os hombros, dirigi-me ao quarto da condessa: estava o conde, Rytmel, e Lord Grenley. O ferimento de Perny fôra declarado sem perigo, o capitão estava tranquillo. Conversava-se alegremente. Combinava-se uma visita á ilha de Gozzo, a oito kilometros de Malta. Grenley tinha proposto a excursão, e offerecia o seu yacht. O conde esquivava-se, dizendo que o mar o incommodava, no estado nervoso em que estava.

—Menino, é aquella maldita Rize! veio-me elle dizer em voz baixa, tenho-lhe para amanhã promettido um passeio a Bengama.

—Mas, então?

—Acompanha tu a condessa. Vae Grenley e Rytmel. Faze-me isto. Bem vês!
Mademoiselle Rize é exigente, mas pobresinha d'ella, tem o sangue maltez!

Mais tarde, quando eu atravessava para o meu quarto, um vulto veiu a mim no corredor e tomou-me pela mão.

—Escute, disse-me uma voz subtil como um sopro.

Era Carmen.

—Se é um homem de honra, cautella amanhã com o passeio a Gozzo.

E desappareceu.

VIII

No outro dia ás seis da manhã fui a casa de Rytmel. A condessa havia estado durante a noite sob o dominio d'uma extrema agitação nervosa, mas não queria renunciar ao passeio de Gozzo. Encontrei Lord Grenley com Rytmel, tomando chá.

Pareceu-me pela fadiga das suas physionomias, que se não tinham deitado: lord Grenley decerto que não, porque estava de casaca, como na vespera, e tinha ainda na boutonniêre um jasmim do Cabo, murcho e amarellado.

—Bonita madrugada! disse Rytmel.

Tinham aberto a janella, o ar fresco entrava; nas arvores do jardim cantavam os passaros.

—Adoravel! disse eu. A condessa esteve toda a noite doente, mas não se transtorna o passeio… Outra cousa: tem um rewolver, Rytmel?

—Para quê?

—Disseram-me que era muito curioso atirar aos passaros que se escondem nas cavernas, em Gozzo. Ha um echo excentrico. Precisamos de uma arma.

Rytmel deu-me um pequeno rewolver marchetado.

—Leve-o: eu tenho as algibeiras cheias da albuns e de canetas para tirar desenhos… Ah! Sabe que este Grenley não vae?

—Porque? como assim, mylord?

—Um jantar official com o governador disse Lord Grenley, é horrivel.
Tenho uma pena immensa…

Ás sete horas fomos buscar a condessa. O marido acompanhou-nos até o caes
Marsa-Muscheto.

Notei ao entrar no yacht que a equipagem estava augmentada e havia um piloto arabe.

Largámos com um vento fresco, ás oito horas da manhã; as gaivotas voavam em roda das velas, as casas brancas de La Valette tinham uma côr rosada, ouviam-se as musicas militares, o ceu estava d'uma pureza encantadora.

A condessa, um pouco excitada, olhava com uma alegria avida, para o vasto mar azul, livre, infinito, coberto de luz.

—O que são as mulheres! pensava eu. Esta, tão altiva e tão discreta, está encantada por se vêr só, com rapazes, n'um yacht, no alto mar. É para ella quasi uma aventura!

Eu, confesso, estava embaraçado. A minha situação era um pouco pedante. Representar eu alli o marido, a familia, o dever, diante de duas creaturas moças, bellas, namoradas, e ser eu, aos vinte e quatro annos, ardente e apaixonado, o encarregado de fazer a policia d'aquelle romance sympathico! Á la grace de Dieu! O mar é largo, o ceu profundo, a honra existe, daqui a duas horas estamos em Gozzo, passeamos, rimos, jantamos, e ao anoitecer, quando Deus espalhar o seu rebanho de estrellas, voltaremos na viração e na phosphorescencia, calados, ouvindo o piloto arabe cantar as doces melopeas da Syria, ao ruido languido da maresia…

Rytmel tinha descido a dar as ordens para o almoço. A condessa ficara de pé, á prôa, com um vestido curto de xadrez, botinas altas, envolta n'uma manta escoceza, de largas pregas. Nunca eu a vira tão linda.

Costeavamos Malta com vento oeste.

Approximamo-nos da ilha de Cumino. Rytmel veio-nos dizer que deveriamos almoçar, e que ao fim de meia hora desembarcavamos em Gozzo, na Calle Maggiara; iriamos vêr as curiosidades da ilha, tornariamos a embarcar para tornear Gozzo, e vêr as terriveis cavernas, onde o mar se abysma e se perde, e ao anoitecer tocariamos o caes de La Valette.

O almoço foi muito alegre. Havia Champagne, um Rheno adoravel, um guizado arabe e um piano na camara. Captain Rytmel, cujo aspecto me parecia ter uma preoccupação inexplicavel, fez ao piano depois do almoço interminaveis improvisações. Caminhavamos sempre. Casualmente, tirei o relogio, e tive um sobresalto! Havia duas horas e meia que tinhamos descido! Ora quando o almoço começára, faltava-nos meia hora para desembarcar em Maggiara! Porque seguiamos então? Subi rapidamente á tolda. O piloto arabe estava ao leme. Não se via quasi a terra: iamos no mar alto, navegando com uma extraordinaria velocidade sob o vento.

—Onde está Gozzo? gritei ao arabe em inglez, depois em francez, depois em italiano.

O arabe nem sequer se dignou olhar-me. N'este momento Rytmel e a condessa subiam.

—Onde está Gozzo? perguntei eu a Rytmel.

—Ha talvez uma bruma, respondeu elle vagamente e voltando o rosto.

O horisonte porém estava limpo, puro, sem mysterio, a perder de vista. Ao longe via-se uma sombra indefinida que denunciava a terra: e nós affastavamo-nos d'ella!

Corri á bussola. Navegavamos para Oeste.

—Navegamos para Oeste, Captain Rytmel! affastámo-nos de Malta! Que é isto? Para onde vamos?

Rytmel olhou longamente a condessa, depois a mim e disse:

—Vamos para Alexandria.

Num relance comprehendi tudo. Rytmel fugia com a Condessa!…

Eu fitei Rytmel, e disse-lhe tremendo todo:

—Isso é uma infamia!

Elle empallideceu terrivelmente; mas a condessa, interpondo-se, com uma voz vibrante:

—Não! sou eu! Sou eu que vou para Alexandria.

—N'esse caso sou eu o infame, prima.

Houve um silencio. Os olhos da condessa estavam humidos. Correu para mim, tomou-me uma das mãos, murmurou entre soluços:

—Que quer? Ninguem tem culpa. Amo este homem, fujo com elle.

Rytmel tomara-me a outra mão.

—Agora, dizia, é impossivel voltar. É um passo dado, irreparavel…

Eu estava succumbido: aquella situação imprevista, deixava-me sem raciocinio, sem voz, sem vontade.

Eu, amigo do conde!… Eu, cumplice d'aquella fuga! Além d'isso, alli, no meio d'aquelles dois amantes encantadores, que me supplicavam apertando-me as mãos, eu sentia-me ridiculo—e isto augmentava o meu desespero. A condessa, no entanto, continuava:

—Primo, disse ella, que importa? Estou deshonrada, bem sei. Mas que queria? que eu ficasse ao lado de meu marido, amando este, n'uma mentira perpetua, vivendo alegremente instalada na infamia? Essa situação nunca! É suja! Ao menos isto é franco. Rompo com o mundo, sou uma aventureira, fico sendo uma mulher perdida, mas conservo-me para um só e sendo pura para elle.

—Captain Rytmel, disse eu, então mande deitar uma lancha ao mar.

—Que quer fazer? gritou a condessa.

—Eu? ganhar a terra. Acha que tambem não é uma infamia installar-me n'este navio?

—Está louco, disse Rytmel, ha só um escaler a bordo. O vento cresce, o mar incha. O escaler não se aguentará dez minutos.

—Melhor! Um escaler ao mar! gritei eu.

—Ninguem se mecha! bradou Rytmel.

E voltando-se para a condessa:

—Mas diga-lhe que é a morte! Que cumplicidade tem elle? Foi forçado, foi levado. Não responde por nada.

—Um escaler ao mar! gritava eu.

Mas, de repente, Rytmel tomando um machado correu ao bordo d'onde pendia o escaler, cortou as correias de suspensão; o barco cahiu na agua com um ruido surdo, ficou jogando sobre as ondas meio voltado, sobrenadando como um corpo morto.

Eu bati o pé, desesperado.

—Ah que infamia! capitão Rytmel! Que infamia!

E por uma inspiração absurda, querendo desabafar, fazendo alguma cousa de violento, gritei para alguns marinheiros que estavam á prôa:

—Ha algum inglez ahi que preze a sua bandeira?

Todos se voltaram admirados, mas sem comprehender.

—Pois bem! gritei eu, declaro que esta bandeira cobre uma torpeza, tem a cumplicidade da deshonra, e que é sobre toda a face ingleza que eu cuspo, cuspindo no pavilhão inglez.

E correndo á popa cuspi, ou fiz o gesto de cuspir sobre a larga bandeira ingleza. Um dos marujos então de certo comprehendeu porque teve um movimento de ameaça.

—Ninguem se mova! gritou Rytmel. Eu sou o offendido. Meu amigo, disse elle com a voz suffocada, tem razão: desde que abandonei Malta, deixei de ser official inglez. Sou um aventureiro. Esta bandeira, com effeito, não tem que fazer aqui!

Adeantou-se, arreou o pavilhão de tope da popa.

E n'uma exaltação tão insensata como a minha, arremessou o pavilhão ao mar; as ondas envolveram-n'o, e por um estranho acaso, no encontro das aguas, a bandeira desdobrou-se, e ficou estendida sem movimento, serena, immovel, á superficie do mar, até que se afundou.

Rytmel, então, por um impulso romanesco e apaixonado, tomou um lenço das mãos da condessa, amarrou-o á corda da bandeira, e içando-o rapidamente, gritou:

—De ora em diante o nosso pavilhão é este!

Eu achava-me no meio de todas aquellas scenas violentas, como entre as incoherencias d'um sonho.

N'um movimento que fiz, senti no bolso o rewolver: não sei que desvairadas ideias de honra me hallucinaram, tirei-o, engatilhei-o, brandi-o, gritei:

—Boa viagem!

—Jesus! bradou a condessa.

IX

Rytmel precipitou-se sobre mim e arrancou-me o rewolver.

Eu murmurei simplesmente:

—Bem! Será no primeiro porto a que chegarmos.

A condessa então adiantou-se, livida como a cal e disse (nunca me esqueceu o som da sua voz):

—Rytmel, voltemos para Malta.

—Voltar para Malta! Voltar para Malta! Para quê, santo Deus!

Eu interpuz-me, disse as cousas mais loucas:

—Rytmel, dê-me esse rewolver, sejamos homens. Que as nossas acções tenham a altura dos nossos caracteres. Nada mais simples. Nem a paixão póde retroceder, nem a honra condescender. A solução é a morte. Eu mato-me, fugi vós para bem longe…

Mas a condessa, que era a unica que parecia ter ainda uma luz de razão dentro de si, repetiu, com a mesma firmeza, onde se sentia a dôr oculta:

—Rytmel, voltemos para Malta.

Elle olhou-a um momento: a consciencia da nossa odiosa situação pareceu então invadil-o, subjugal-o; vergou os hombros, obedeceu, foi dizer algumas palavras ao capitão do yacht.

D'ahi a um instante corriamos sobre Malta.

Houve um grande silencio, como o cançasso d'aquella lucta da paixão. Rytmel passeava rapidamente pelo convez, e sob a serenidade do seu rosto, sentia-se a tormenta que lhe ia dentro.

—Aqui está! disse elle de repente, parando e cruzando os braços, com um extranho fogo nos olhos. Acabou tudo! Voltamos para Malta. Que mais querem? Que nos resta agora? Dizer-nos adeus para sempre, para sempre! Iamos a Alexandria; estavamos salvos, sós, novos, felizes! E agora? Felicidade, amor, paixão, esperança, alegria, acabou tudo. Ah, pobre ingenuo! Fallam-te na honra! Que honra a que me vae matar todos os dias, a que me arranca do meu paraiso, a que me torna o ultimo desditoso! Honra! Que me resta a mim? Uma bala na India. Morrer para ali, só, como um cão.

A condessa não dizia nada, com os olhos perdidos no mar.

E Rytmel vindo para mim, tomando-me o braço, com um gesto desesperado:

—Vês tu! Vês isto? Eu soffria tudo por ella; a deshonra, a infamia, o desprezo; abandonava o mundo, renegava a minha farda, queria a pobreza, o escarneo, tudo por ella. Diz-se a um homem—amo-te, vae-se fugir com elle, está-se n'um navio, e de repente, a meia hora da felicidade e do paraiso, quando já se não vê terra, vem um escrupulo, uma mágoa, uma saudade do marido talvez, uma lembrança d'um baile, ou d'uma flôr que ficava bem—e adeus para sempre! e quer-se voltar; e tu, miseravel, soffre, chora, arrepella-te, e morre para ahi como um cão. Meu amigo, eu não tenho voz, nem força: previna o piloto: a senhora condessa tem pressa de chegar a terra!…

—William! William! gritou a condessa, precipitando-se, tomando-lhe as mãos. Mas tu não percebes nada? Em Malta, como em Alexandria, eu sou tua, só tua… tua deante de Deus, tua deante dos homens…

N'este momento ouviu-se a voz distante de um sino!

Eram os sinos de Malta. A terra ficava defronte.

A suavidade da hora era extrema; o ar estava ineffavelmente limpido. Viam-se já as aldeias brancas, o altivo perfil de la Valette. O sol descia. Os seus ultimos raios obliquos faziam scintilar os miradouros. Distinguiam-se no caes os vendedores de flores. Duas gondolas corriam para nós. Houve um grande ruido nas velas, assobios de manobras, o navio parou, e a ancora caiu na agua! Tinhamos chegado. Os sinos de Malta continuavam repicando.

X

Quando desembarcámos corri ao hotel. O conde ainda não tinha vindo do seu passeio a Bengama com Mademoiselle Rize. Rytmel foi encerrar-se em casa, n'um triste estado de exaltação e de paixão.

Carmen veio logo procurar-me ao meu quarto. Entrou rapidamente, perguntou-me:

—Voltaram? como foi?

—Sabia então alguma cousa? interroguei admirado.

—Tudo. Por um acaso. Sabia que queriam fugir. Durante toda a noite Rytmel andou fazendo preparativos. Era uma combinação de ha trez dias. Lord Grenley sabia. E agora?

—Agora, disse eu, tudo terminou. A condessa naturalmente parte no primeiro paquete.

—Duvido. Mas se não partem, ha uma desgraça. É uma fatalidade, bem o sei, mas que quer? Amo aquelle homem, amo Rytmel. Demais é uma obrigação, salvou-me a vida. É sobretudo uma paixão estupida que me roe, que me mata. E ainda me não mata tão depressa como eu queria. Faço tudo para me matar. Ponho-me a suar, levanto-me e vou apanhar o orvalho para o terraço. Para que vivo eu? Vivia d'esta paixão. Cresceu desde que o vi agora. E diga-me quem o não ha de adorar? Ás vezes lembra-me matal-o!…

Conversámos algum tempo. A pobre creatura tinha nos olhos um fulgor febril, na face uma pallidez de marmore. Eu procurei calmal-a. Começava a sympathizar com ella…

A condessa não sahiu do seu quarto dois dias. Eu contei ao conde que ella tivera em Gozzo um susto terrivel, porque tinhamos estado em perigo, na visita ás cavernas da costa, onde a navegação é cheia de desastres. Estive quasi sempre, depois, com Rytmel. Lentamente a esperança renascia no seu espirito. Accommodava-se, ainda que com certas repugnancias, a uma situação mais racional, ainda que menos pura. Era um convalescente da paixão. E, ao fim de cinco dias, senhor redactor (tanto a natureza humana é cheia de conciliações!) ao fim de cinco dias a condessa appareceu no theatro, fresca, radiante, e ao lado da brancura dos seus hombros reluziam as dragonas de ouro de Captain Rytmel!

Entrámos então n'uma vida serena, sem romance e sem lucta. Os corações tinham calmado, e fallavam baixo. O conde passeava no campo com mademoiselle Rize; lord Grenley fumava, cheio de tédio, o seu cachimbo de opio; eu jogava as armas com os officiaes inglezes; D. Nicazio negociava; Rytmel tinha um ar feliz e mysterioso; a condessa recebia, guiava os seus poneys, e todas as noites, no theatro, fazia reluzir ao gaz o louro esplendor dos seus cabellos e a pallidez preciosa das suas perolas. Santa paz!

O tempo estava adoravel. Malta resplandecia, a bahia reluzia ao sol, os jardins floresciam, os olhos das maltezas suspiravam. Era o tempo das flôres da laranjeira. Só Carmen emmagrecia e vivia retirada.

Mr. Perny entrava em convalescença: passava o tempo deitado n'um sophá, de dia compondo uma opera comica, á noite jogando com alguns officiaes, e salpicando a gravidade britannica de calembourgs bonapartistas.

Uma occasião, ao sair de casa d'elle, onde tinha perdido algumas duzias de libras, recolhia eu a Clarence-Hotel levemente irritado, e sentindo um prazer excentrico em cantar o fado pela ruas de Malta, a mil legoas do Bairro Alto. O pavilhão que nós habitavamos em Clarence-Hotel dava sobre um jardim todo escuro d'arvores e de moitas de flôres.

Ordinariamente o conde e eu entravamos pelo jardim. Tinhamos uma pequena chave que abria a portinha verde no muro, todo coberto de musgo e de copas d'arbustos orientaes. N'essa noite, ao abrir a porta, cantando em voz alta, senti sumir-se rapidamente na espessura das folhagens um vulto. O ar estava sereno, accendi um phosphoro, e áquella luz trémula, entrei na sombra, para descobrir o vulto, entre as ramagens. Mas a pessoa, vendo-se seguida, e sentindo a impossibilidade de se esquivar rapidamente, retrocedeu, com uma naturalidade visivelmente artificial, e proferiu o meu nome. Era Carmen.

—Que faz aqui? disse eu.

—Mato-me. Não lhe disse que sempre que suava de noite, me erguia e vinha apanhar o orvalho?

Mas ella estava completamente vestida de seda preta, e tinha sobre os hombros uma larga capa escura, de fórma arabe, com grande capuz!

—Ah! minha cara, disse eu, mata-se mas é d'amores. A esta hora, com essa toillette, n'este jardim, com este aroma de laranjeiras!… Que historia me vem contar d'orvalhos e de suor?

—Digo-lhe a verdade. Imagina que eu não preferiria aqui n'esta sombra encontrar alguem?…

—E D. Nicazio? Peça a D. Nicazio que lhe faça a côrte. Que lhe dê uma serenada, que suba por uma escada de corda, que a seduza n'este jardim…

Emquanto eu fallava, davam horas na Igreja de S. João, e Carmen mostrava uma agitação impaciente. A todo o momento olhava para a porta do jardim, torcendo freneticamente uma luva descalçada.

Eu comprehendi que ella esperava alguem. Alguem, isto é, el querido, el precioso, el saleroso, el niño de toda a legitima andaluza. Affastei-me discretamente, como um confidente, e no momento que pisava a rua areada que levava ao pavilhão, senti a porta do jardim ranger com uma ternura plangente.

—É elle, pensei eu. É o niño. Pobre Carmen! Bebe vinagre, apanha os orvalhos por causa de Rytmel, e mal chega a noite, não póde ser superior a vir receber debaixo das laranjeiras algum cabelleireiro francez com voz de tenor, ou algum tenor maltez com bigodes de cabelleireiro.

Subi ao meu quarto, mas não tinha somno; a noite era suave e languida, mordia-me uma aspera curiosidade, e com a astucia d'um ladrão napolitano, desci as escadas, costeei o muro do jardim, debrucei-me, espreitei, e vi Carmen. Estava só! Extrema surpreza!

—E el querido? perguntei-lhe eu rindo.

Ella voltou-se em sobresalto e perguntou-me com a voz agitada:

—Qual querido?

—O que entrou agora?

—Não entrou ninguem.

—Eu vi.

—Conheceu?

—Não, onde está?

—Abriu as asas, voou! disse ella rindo-se e affastando-se em direcção aos seus quartos.

—Diabo! pensei eu. É uma segunda edição da Torre de Nesle. Recebe-os, parte-os aos bocadinhos e enterra-os na areia!

No emtanto, tinha a curiosidade excitada. Alguem tinha entrado mysteriosamente, com uma chave falsa de certo, porque só o conde e eu tinhamos a chave d'aquella porta do jardim. Mas onde estava esse alguem? Teria entrado, e saído logo? N'esse caso não era uma entrevista d'amor! Mas se não era um segredo de coração, para que era o mysterio, a hora escura, o silencio, a chave falsa?

Alguem teria ficado escondido no jardim? Corri-o todo, arbusto por arbusto, jasmim por jasmim. Estava deserto.

Deitei-me preoccupado com aquella aventura. No outro dia, ao almoço, um criado em voz alta declarou que se tinha achado no jardim um pequeno punhal e que o hospede a quem elle pertencesse o reclamasse em baixo, no office. Era um punhal, de fórma curva como se usa no Hindustão. Tinha sido encontrado n'uma moita de buxo, de tal sorte que não parecia perdido, mas voluntariamente arremessado. Ninguem reclamou o punhal.

Tudo isto me causava uma singular curiosidade.

—Diabo! dizia eu commigo, estamos em terra italiana, apesar da policia ingleza, e é provavel que apesar da muita cerveja que habita Malta, ainda por ahi haja alguma agua tufana. Sejamos prudentes.

Na noite seguinte, pela uma hora, eu, sentado á minha secretaria, escrevia para Portugal, quando senti no corredor passos rapidos, e a porta abriu-se violentamente.

Abafei um grito de terror. De pé, á entrada do quarto, livida, com os cabellos desmanchados, um penteador branco cheio de sangue, estava a condessa.

—Que foi? bradei.

Ella tinha caido n'um sophá, muda, com os olhos fixos, meio loucos, os dentes trémulos.

Eu borrifava-a d'agua, tomava-lhe as mãos, fallava-lhe baixo, e perguntava-lhe, aterrado, dando-lhe os nomes mais doces para a serenar:

—Que foi, minha querida, que foi?

Via-lhe os vestidos cheios de sangue.

—Feriram-n'a?

Ella fez um gesto negativo.

—Então? então? disse eu.

A pobre senhora queria fallar, erguia-se, suffocava, anciava, parecia n'uma agonia.

De repente atirou-se aos meus braços e desatou a chorar.

—Fale, diga, insistia eu.

—Mataram-n'o, disse ella.

—Mataram quem?

—Rytmel.

—Como? Onde?

—No jardim… Vá!

XI

Corri ao jardim. Os meus passos instinctivamente, apressaram-me para o lado da pequena porta verde aberta no muro.

Estava aberta. Ao lado, junto de uma moita de baunilhas, estendido no chão, levemente apoiado no cotovello, vi Rytmel.

—Então? gritei-lhe, abaixando-me anciosamente para elle.

—Só ferido…

—Como? onde?

Não respondeu, os olhos cerraram-se e desfalleceu sobre a relva.

Corri ao tanque, trouxe um lenço ensopado em agua, molhei-lhe as faces e as mãos: a ferida era na parte superior do peito, do lado direito, por baixo da clavicula. Vi que não era mortal.

Eu estava n'uma extrema hesitação. Para onde levar aquelle homem?

O mais racional era conduzil-o a um quarto do hotel; mas isso era dar ao facto uma publicidade ruidosa, fazel-o cair sob o dominio da policia, arrastar até á acção dos tribunaes inglezes o nome da condessa. Porque eu tinha comprehendido tudo. Sabia agora, bem, quem na vespera entrára rapidamente pela porta verde com uma chave falsa. Sabia bem a quem pertencia o punhal indio achado nas moitas de buxo. Comprehendia a commoção de Carmen, quando eu a surprehendera ali, no jardim, embuçada n'um burnous, esperando. E comprehendia desgraçadamente a que quarto se dirigiam os passos de Rytmel dentro do jardim de Clarence-Hotel.

Era, pois, necessario encobrir aquella aventura. E Rytmel, apesar dos obscurecimentos do desmaio e da dôr, tinha-o pensado tambem, porque me disse com uma voz expirante:

—Escondam-me em qualquer parte!

Sahi logo á rua. Passava um daquelles carros ligeiros, d'um só cavallo, que percorrem, com extrema velocidade, e com immensa doçura, as ruas inclinadas de La Valette. O vatturino era italiano. Fallei-lhe vagamente n'um duello, dei-lhe um punhado de shellings, ameacei-o com os policemen, e pul-o absolutamente ao serviço do meu segredo.

Collocámos Rytmel no carro; com mantas fizemos-lhe uma especie de ninho, commodo e molle, e o cavallo trotou rapidamente, pela rua de S. Marcos, para casa de Rytmel. Ahi grande rumor entre os officiaes inglezes. Eu contei uma incoherente historia d'assalto ao florete, em que a minha arma subitamente se tinha desembolado. A historia era inacceitavel; mas era facil comprehender que havia por traz d'ella um segredo delicado, e isto era o bastante para a altiva reserva de gentlemen.

Rytmel, aos primeiros curativos, serenou e adormeceu.

Tudo tinha sido feito em silencio, desapercebidamente. Fui tranquilizar a condessa. Eram tres horas da noite. Havia temporal, e eu sentia quebrar o mar nas rochas da bahia. Tudo dormia em Clarence-Hotel.

—Agora nós! disse eu. E dirigi-me ao quarto de Carmen.

Havia luz. Abri a porta, corri o reposteiro, entrei. A luz era frouxa, desmaiada. Ao principio não distingui ninguem e ouvi apenas soluçar. Emfim sobre um sophá, deitada, enroscada, sepultada, vi Carmen, com a cabeça escondida, o penteado solto, coberta de sangue e abraçada a um crucifixo. Ao pé, sobre uma mesa, havia uma garrafa de cognac e um pequeno frasco azul facetado. Quando sentiu os meus passos no tapete, Carmen levantou-se um pouco no sophá. N'aquelle momento a sua belleza era prodigiosa.

Tinha os cabellos soltos: os olhos reluziam como aço negro, e o penteador, aberto sobre o peito, deixava vêr a belleza maravilhosa do seio.

Confesso que não foi a idéa da vingança e do castigo que me tomou o espirito diante d'aquella mulher tão terrivelmente possuida da paixão. Lembraram-me as figuras tragicas da arte, lady Macbeth e Clithemnestre, e tanta belleza, tanto esplendor, fizeram-me subir ao cerebro um vapor de amores pagãos.

Ella tinha-se erguido e, com uma voz secca:

—Que quer?

Eu fiquei calado.

—Bem sei. Vem buscar-me. Fui eu que o matei. Está ahi a policia, não?
Estou prompta. É pôr um chale.

—Ninguem o sabe, disse-lhe eu baixo, e, sem saber por quê, commovido.

—Que me importa? Não o occulto. Matei o meu amante. Fui eu. Ah! pois quê? nós outras damos a nossa vida, a nossa alma, entregamos todo o nosso ser, pomos n'isto toda a nossa existencia, a nossa honra, a nossa salvação na outra vida, e lá porque vem outra que tem os cabellos mais loiros ou a cinta mais fina, adeus tu, para sempre! olá creatura! despreso-te, tu foste para mim o momento, o capricho, a futilidade. Ah! sim? Então que morra. Que quer mais? Vá buscar os policemen.

Eu disse-lhe então, em voz baixa:

—Fui encontral-o banhado em sangue.

Ella olhou-me desvairadamente um momento, e de repente, arremessando-se sobre o sophá, abraçou-se ao crucifixo e com grandes lagrimas, com um delirio de soluços:

—Ah, meu Deus, perdoae-me! Perdoae-me, Jesus! Perdoae-me! Fui eu que o matei! Estou doida de certo. Pobre Rytmel! Rytmel da minha alma! Não o torno a vêr, não lhe torno a fallar! Acabou-se para sempre!… Jesus, o que eu sinto na cabeça!… Em Calcuttá adorou-me, aquelle homem. Ajoelhava aos meus pés, eu queria morrer por elle. Diga-me,escute: enterraram-n'o? Está muito ferido? Eu não o feri no rosto? não, isso não! Vá depressa. Vá buscar a policia!… Mas porque me não prendem? Ah meu pobre Rytmel! eu morro, eu morro, eu morro! D'aqui a pouco começam a tocar os sinos!..

Ergueu-se com gestos de louca, foi ao espelho, compoz o cabello com ar desvairado, e de repente voltou a abraçar, apaixonadamente, o crucifixo negro.

—Escute, disse-lhe eu. Rytmel não morreu.

—Não morreu? gritou ella.

De repente, arrojou-se aos meus braços que a ampararam, tomou-me a cabeça entre as mãos, e fitando-me com uma grande angustia:

—Dize-me: não morreu? Está salvo?

—Está, disse eu.

—Juras?

—Juro.

—Quero vêl-o, quero vêl-o já! gritou ella. O meu chale, o meu chale!
Procure-me ahi o meu chale. Aposto que não lhe fizeram bem o curativo…
Positivamente não lh'o fizeram! Se não lhe acudo! Que diz elle? Chora?
Pobresinho! Adormeceu? Onde é a ferida? Maldita seja eu! maldita seja eu!

Com uma exaltação delirante procurava abrir as gavetas, derrubava os moveis, arremessava as roupas, fallando, gesticulando, e ás vezes cantando.

—Meu Deus, faz-se tarde! Que ando eu a procurar? Que horas são? Elle falou no meu nome?

Veio tomar-me o braço:

—Vamos.

—Onde?

—Vêl-o. Quero vêl-o. Quero! não me diga que não. Quero pedir-lhe perdão, amal-o, servil-o, ser a sua criada, a sua enfermeira…

Parou, e desprendendo-se do meu braço:

—E a outra? Não a quero vêr lá! Ella está lá? Não quero que ella o trate. Mato-a, se a vejo. A outra, não, não, não! Não a deixe chegar ao pé d'elle. Peço-lhe a si. Não, não a deixe chegar. Eu só, só eu basto.

Subitamente cerrou os olhos, estremeceu, deu um grande suspiro, e caiu no chão immovel.

Levantei-a, deitei-a no sophá, borrifei-a d'agua; e ella com uma voz expirante:

—Eu morro! eu morro… chame um padre. Não lhe tinha dito…
Envenenei-me.

—Envenenou-se? gritei aterrado.

—N'aquelle frasco, alli!

XII

O medico, apressadamente chammado, declarou que não havia perigo. Carmen tinha tomado o veneno n'um preparado fraco, e n'uma porção diminuta. Podia porém receiar-se que a sua extrema susceptibilidade nervosa, a exaltação dos seus espiritos, provocassem uma febre cerebral. Mas, ao despontar do dia, adormeceu, vencida por uma prostração absoluta, em que a vida só se fazia sentir pelos ais soluçados que se lhe desprendiam do peito.

Fui então vêr a condessa. Não se tinha deitado. Ficára embrulhada n'um chale, sentada aos pés da cama, n'uma attitude absorta de dôr e de inercia que me encheu de piedade. Era dia. Mas as janellas conservavam-se fechadas, e as luzes ardiam melancolicamente. As jarras estavam cheias de flôres.

Sobre uma pequena mesa havia um serviço de chocolate, de porcelana azul, para duas pessoas. O chocolate tinha arrefecido, as flôres murchavam.

—Então? disse ella quando me viu.

—Então! elle está curado, e bom n'um mez. A condessa deve partir dentro de quinze dias.

—Ao menos quero dizer-lhe adeus… um momento, um instante que seja! Não me póde impedir isto: não m'o impeça, não?

—De modo algum, prima. Eu mesmo lh'o facilito.

—E ella?

—Ella, minha prima? Entrei no quarto d'ella para a arrastar ao primeiro policeman que passasse. Sahi jurando que em toda a parte aquella mulher me havia de achar a seu lado para a defender e, se ella o quizesse, para a amar.

—Tem talvez rasão. É uma verdadeira mulher.

—É mais do que isso, minha prima… Se alguma vez a paixão se encarnou n'este mundo n'um aspecto divino foi n'aquella mulher. É a deusa da paixão. De resto tem a grande qualidade:—a logica.

Eu, na realidade, tomara por Carmen uma grande admiração! Eu, que na sua saude e na sua belleza nunca lhe dissera uma palavra galante, era agora nas suas horas de dôr e doença, o seu fiel cavalliere serviente. Vi-a convalescer sob os meus cuidados: D. Nicazio tinha ido para Sicilia. Sustentei os primeiros passos que ella deu no seu quarto, extremamente magra, com o olhar quebrado, uma transparencia morbida na physionomia, e a imaginação doente.

Começou logo a entregar-se a longas orações, a leituras piedosas. O seu intento era entrar n'um convento em Hespanha, e ali, matar o seu corpo na penitencia e na dôr. Passava agora os dias nas egrejas. Estava mudada nos seus habitos e nas suas maneiras. A sua belleza mesmo tomava uma expressão ascetica. Tinha-se verdadeiramente desligado do mundo. Ás vezes olhava-me, e dizia de repente, lembrando o convento:

—É triste! Aos vinte e oito annos!

Mas a exaltação religiosa retomava-a, e então perdia-se em esperanças, idéas de uma redempção pela oração, pelo jejum, pelo silencio e pela contemplação. N'aquelle espirito visitado por todas as paixões, e sempre n'uma vibração exaltada, entrava por seu turno o sombrio catholicismo hispanhol, e vendo o logar deserto das outras idéas do mundo, acampava lá serenamente.

Um dia pediu-me para ir vêr Rytmel antes de partir para Hispanha.

—É como irmã da caridade que o quero vêr!

Levei-a a casa de Rytmel, uma noite. O quarto estava mal alumiado pela desmaiada luz de velas de stearina. A pallidez de Rytmel era dolorosa sobre a brancura do seu travesseiro. Carmen entrou, arremessou-se de joelhos ao pé da cama d'elle, tomou-lhe uma das mãos e ficou ali soluçando longo tempo. Rytmel chorava tambem.

Eu tinha-me encostado á parede, e sentia invadir-me uma tristeza, profunda e insondavel como a noite. Um visinho, cuja janella abria para o estreito pateo, para onde dava tambem uma janella de Rytmel, tocava n'esse momento na sua rebeca, com uma melancholia plangente, a walsa do Baile de mascaras, que, sendo doce e tenebrosa, desperta não sei que idéas de festa e de morte, de amor e de claustro.

Rytmel queria levantar Carmen, fallar-lhe. Mas ella estava prostrada, com o rosto escondido na beira de leito, soluçando; e apenas a espaços dizia:

—Perdôe-me, perdôe-me!

Rytmel por fim, com uma ternura insistente, ergueu-a, tomou-a nos braços, disse-lhe as coisas mais elevadas e mais doces; e com uma meiguice e um encanto infinito beijou-a nos olhos.

A pobre creatura córou, eu senti renascerem-se as lagrimas. Querido e pobre Rytmel! como elle teve n'aquelle momento a ternura ideal, e o divino encanto do perdão!

Ella com uma simplicidade, em que já se sentia a immensa força interior que lhe dava a fé, fallou a Rytmel de Deus, do convento em que queria entrar, da ordem que preferia, com palavras naturaes e tocantes, que nos enchiam de magoa. Por fim beijou a mão do seu amante.

—Adeus, disse ella. Para sempre! Resarei por si.

E ia sahir, de vagar, succumbida, quando de repente, á porta do quarto, parou, voltou-se, olhou-o longamente; os olhos encheram-se-lhe de uma luz sombria e terrivelmente apaixonada; o peito arquejou-lhe; empallideceu, e com os braços abertos, os labios cheios de beijos, n'um impeto da sua antiga natureza, correu para se atirar aos braços d'elle com o phrenesi das velhas paixões. Mas quando tocou no leito, estacou, cahiu de joelhos, e n'um grande silencio e n'um grande recolhimento beijou-lhe castamente os dedos! Depois tomou-me o braço, e sahimos.

Ao outro dia chamou as criadas e repartiu por ellas todos os seus vestidos, rendas e toilettes. Deu as suas joias a um padre inglez para as distribuir pelos pobres. Frascos, bijouterias, essencias, tudo destruiu. Confessou-se, esteve todo o dia resando na egreja de S. João e preparou-se para partir. Todos os que a conheciam choravam.

Á noite, quando fazia a sua pequena mala, mandou-me chamar, fechou a porta
do quarto e entregou-me o seu testamento, para eu o deixar depositado em
Malta, de sorte que D. Nicazio o recebesse á sua volta da Sicilia.
Deixava-lhe tudo.

Depois foi silenciosamente ao espelho, tirou uma rede da cabeça e o seu immenso cabello caíu, quasi até ao chão, em grossos anneis, esplendido, forte, immenso, e d'uma poesia sensual.

Tomou uma thesoura, e febrilmente, a grandes golpes, abateu aquellas tranças admiraveis, que teriam sido uma gloria publica no tempo da Grecia.

Eu estava absorto pela belleza, magoado com o desastre. Parecia-me já aquillo o começo do claustro.

Carmen apanhou o cabello caído, embrulhou-o n'um lenço, e, entregando-m'o, disse:

—Guarde essa lembrança. É a verdadeira Carmen, a outra que eu lhe deixo ahi. Agora peço-lhe uma derradeira cousa. Prepare tudo e leve-me a Cadiz. Ámanhã… é possivel?

—Ámanhã não; mas dentro d'uma semana, juro-lh'o, teremos visto do mar as montanhas de Valencia.

Ella no entanto passava rapidamente as mãos pelos cabellos, dando-lhes uma feição masculina. Era encantadora assim. A sua belleza tomava uma expressão ingenua de um extraordinario mimo. Ella sorria ao espelho, eu olhava-a, e via, entre as duas luzes, a sua imagem, como n'um leve vapor azulado e luminoso. Ella, lentamente, esquecida, tinha tomado o pente e compunha o geito do cabello. Eu por traz d'ella sorria. Ella, no enlevo do espelho, na surpreza de se achar linda com o cabello cortado, sorria tambem. Parecia-me ver-lhe as faces tomarem a côr da vida e o seio a ondulação das paixões. Ia dizer-lhe alguma cousa doce, chamal-a ao mundo… De repente arremessou o pente, e curvando a cabeça, foi silenciosamente ajoelhar diante de uma cruz grande, que havia junto do seu leito, e sobre a qual agonisava um Christo com a cabeça pendente, a testa gottejante, os braços distendidos, o peito constellado de chagas!

XIII

D'ahi a doze dias, a condessa e o conde voltavam no paquete da India a Gibraltar. O conde partia triste: Mademoiselle Rize ficava, e o Chiado esperava-o! De mais, o estar só com a condessa embaraçava-o: as melancholias d'ella, as suas lagrimas inexplicaveis, a sua pallidez apaixonada, toda a incoherencia do seu caracter, que aquelle excelente libertino explicava pelo nervoso e pelo histerismo, davam-lhe uma certa fadiga enfastiada, e, como elle dizia, embirrava com romantismos. A condessa, essa, partia resignada: Rytmel depois da sua convalescença iria para a Italia, para aquecer as forças ao sol de Napoles, e mais tarde em Paris, e depois em Lisboa, teriam alguns mezes livres, para, como diziam os antigos poetas, os tecerem d'ouro, seda e beijos.

Foi com saudade que os vi embarcar. Eu ali ficava para cumprir um dever melancholico: acompanhar a Cadiz aquella infeliz Carmen, ainda ha pouco de uma belleza tão radiante, e agora vencida pelas amargas penitencias.

Lord Grenley, que ia para Cadiz dentro de quatro dias, tinha-nos offerecido, a Carmen e a mim, o seu yacht. Aceitei com alegria. Era um transporte commodo e livre, e lord Grenley uma companhia symphatica, porque me assustava a idéa de ver durante uma longa viagem no mar, a debilidade de Carmen estiolar-se ao meu lado. Emfim uma tarde partimos.

Era ao escurecer, o ceu estava nublado, quasi chuvoso. Carmen ia profundamente doente. Magra, transparente, livida, sem poder suster-se, sem dormir, alimentando-se quasi só de chá, a sua vida parecia estar a todo o momento a passar os limites humanos. Não erguia os olhos dos seus livros de orações. Aquella exaltação a que faltava a terra procurava febrilmente todos os caminhos do ceu.

Foi com uma grande tristeza que vi Malta sumir-se nas brumas da noite. Nunca mais tornaria a ver aquella branca cidade. Não fôra ali feliz. Mas amamos todos aquelles logares em que por qualquer sentimento ou por qualquer idéa a nossa natureza palpitou fortemente. E ali tinham ficado lagrimas minhas.

Logo no primeiro dia de viagem, Carmen esteve expirante. Havia um forte balanço. O mar era grosso, e nós receavamos mau tempo quando nos avisinhassemos das correntes do golpho de Lião.

Carmen quasi sempre queria estar na tolda, ao ar, ao sol, vendo o mar. Arranjava-se-lhe uma cama, e ali ficava, olhando, scismando, soffrendo, e conversando com o capellão de lord Grenley, velho cheio d'uncção, que tinha um encanto singular fallando das cousas do ceu. Aquella scena era profundamente triste, sobretudo de tarde; o sol cahia, a immensa sombra começava a cobrir o mar: Carmen fallava baixo: nós, em redor, escutavamol-a, ou, calados, seguiamos o correr da maresia, olhavamos o fim da luz. Um marinheiro escossez vinha ás vezes cantar as arias das suas montanhas, cantos de uma tristeza suave e larga como a vista de um lago.

Ao terceiro dia de viagem, Carmen, subitamente, teve um grande accesso de febre e quiz confessar-se. O medico disse-nos que ella não chegaria a ver as montanhas da Hispanha. Que horas dolorosas! Não imagina, senhor redactor, que intensidade têem, na vasta extensão das aguas, as dôres humanas! Junta-se-lhes o sentimento da immensidade, e não sei que terrivel instincto do irreparavel.

A confissão de Carmen foi longa. Quando terminou quiz fallar-me.

—Adeus! disse-me ella, vou morrer.

Disse-lhe que não, quiz dar-lhe esperanças ephemeras.

—Não, não, respondeu ella, nada de enganos. Tenho coragem. Quem a não tem para ser feliz? Chame lord Grenley.

Começou então diante de nós a fallar da sua vida. Disse-nos qual fôra a sua mocidade, os desvarios do seu coração, a exigencia das suas paixões, e fallou-nos da sua ligação com Rytmel, com elevação, como de um sentimento quasi legitimo. Não teve uma queixa, uma saudade, um desdem. As ultimas palavras da sua vida eram dignas. Depois tirou um rozario do seio.

—Veiu de Jerusalem, disse-me, dê-lh'o a ella.

Eu tinha os olhos humedecidos, Carmen, entretanto, empallidecia terrivelmente.

—Levem-me para cima, quero vêr o mar, quero vêr a luz.

Era uma manhã nebulosa e triste. O mar estava mais sereno. Collocámos Carmen cuidadosamente sobre almofadas e mantas, voltada para Malta. Lá tinha ficado a sua vida. Esteve muito tempo calada, com as mãos cruzadas.

—Que terra é aquella? perguntou mostrando com a mão tremula, uma linha escura no horisonte.

—A Africa, respondeu lord Grenley.

Ella ficou olhando vagamente:

—Fui uma vez a Tanger, disse com uma voz lenta, era nova então! Era feliz! Estava um dia lindo… Era em maio…

Calou-se. E voltando-se para mim:

—Faz agora mezes que passámos n'esta altura, lembra-se? E aquelle punch a bordo do Ceylão? Quando eu cantei uma habanera! Eu cantava então… O que é ser alegre! Tudo acabou, nunca mais! nunca mais!

E como fallando comsigo mesma:

—Tanta paixão, tanta inquietação! E aqui está: venho morrer só, no meio d'este mar. Pobre de mim! E no fim, se eu em nova, em solteira, o tivesse encontrado, a elle… Eu pedia pouco então: um coração leal. Tive gostos simples sempre. As loucuras vieram depois… O marinheiro que canta as arias escocezas, onde está? Chamem-n'o. Não, não o chamem que me vae fazer chorar.

Nós escutavamol-a; a sua alma fallava como um passaro canta ao morrer. As nuvens desfaziam-se, o azul aclarava, ia apparecer o sol.

—Vejam isto, continuou ella. Em nova diziam-me és bonita, amo-te! E agora que morro aqui, quem se lembra de mim? Os que me conheceram onde estão? Uns mortos, todos esquecidos. Estão agora alegres, amam outras, vão para os theatros. E eu estou aqui a morrer. E elle? lembrar-se-ha de mim? Tambem não. Choro, choro, quando penso que o não vejo, que não está aqui, que morro e que elle se não lembra de mim!

E soluçava, com a cabeça escondida no travesseiro.

—Rytmel é uma alma nobre. Estima-a, creia…

—Mas esquece-me! dizia ella suspirando e limpando os olhos. De resto, de mim ninguem se lembra. Eu não sou uma mulher de quem se seja enfermeiro. «Estás boa? estás alegre? amo-te». «Estás a morrer? Vae-te fazer enterrar para outro sitio!» É bem triste este mundo!

Lord Grenley, com os olhos rasos d'agua, mordia convulsamente o seu cachimbo.

—Guarde bem os meus cabellos, sim? dizia-me ella. Diziam que eram bonitos. Se eu por acaso não morresse, haviamos de ir todos a Sevilha. Que lindo que é Sevilha. Á tarde, nas Delicias, todo o mundo traz um ramo de flores.

De repente abriu demasiadamente os olhos como deante d'uma cousa pavorosa; levou as mãos á face, gritou:

—Meu padre, meu padre, tenho medo. Não é já o castigo, não? Se cáio no inferno, meu Deus!

—O inferno é uma visão, minha pobre senhora! dizia o capellão. Os castigos de Deus não são feitos com o fogo.

—Tem razão, tem razão. Sinto-me morrer, venham todos. Lembrem-se de mim, sim?

Alguns marinheiros tinham-se approximado. O capellão ajoelhou: todos tiraram os barretes, resavam baixo. Lord Grenley ficara de pé, descoberto, immovel. Grossas nuvens escuras corriam outra vez no ceu. O vento começava a assobiar.

—Adeus, disse-me ella. Dê-me a sua mão. Bem. Fui uma boa rapariga, por fim… Um pouco estroina, talvez… Lord Grenley, obrigada. Que tristeza, ter morrido alguem no seu yacht!… Que é aquillo, além, ao longe? É a terra? São nuvens. Ah! meu querido Rytmel! ah! meu amor, ouve-me, onde estás tu?

Duas grandes, tristes lagrimas, correram-lhe na face: teve ainda força para as enchugar. Depois sorrindo:

—Olhem, não pensem em mim com tristeza. Sómente ás vezes, quando estiverem juntos, e elle estiver tambem, lembrem-se d'esta pobre rapariga que para aqui morreu no mar… E digam: pobre Carmen! ahi está uma que sabia amar devéras!

E dizendo isto, estremeceu, fallou desvairadamente em Malta, em Sevilha, em Rytmel, e, dando um gemido profundo, morreu.

O sino de bordo começou a tocar lentamente, Lord Grenley curvou-se, beijou-lhe a testa, e cerrou-lhe os olhos. Eu chorava.

Então um velho marinheiro approximou-se, e sobre aquelle corpo, que fôra
Carmen, estendeu a bandeira ingleza.

XIV

Imagine, senhor redactor, em que lamentavel estado de espirito nós ficámos. Lord Grenley encerrou-se no seu camarote, eu e o capellão ficámos velando junto do cadaver. A tarde descia. Uma nevoa extensa cobria o mar. O rugido do vento era lugubre. Todos estavam profundamente apiedados. A velhos marinheiros, que tinham naufragado no mar da India e dobrado o Cabo, eu vi saltarem as lagrimas…

—Pobre creança! diziam elles.

Para aquellas rudes naturezas simples, essa mulher nova, vestida de branco, pallidamente linda, era a miss, a virgem, a creança! Um arranjou-lhe uma corôa d'algas seccas, e foi piedosamente pôr-lh'a sobre o peito. Era o ramo de flôres do mar.

Eu pensei algum tempo em conduzir o corpo de Carmen até Hispanha, mas o piloto observou-me que teriamos ainda 4 ou 5 dias de viagem, e o corpo não podia esperar na sua pureza durante esta longa demora. Por isso resolvemos deital-o ao mar, quando viesse a noite. Assim, ficámos o capellão e eu, durante a tarde, junto do cadaver, lembrando as suas bellezas e as suas desgraças.

A noite caiu; cobriu as aguas. O capellão desceu. Fiquei só. Havia sobre o cadaver, pendente d'uma corda, uma lampada. Descobri-lhe o rosto, afaguei-lhe os cabellos. A sua belleza tinha-se fixado n'uma immobilidade angelica, como se a morte lhe tivesse restituido a virgindade. A curva adoravel do seu seio apparecia em relevo na bandeira que a cobria: nunca tanta força tinha produzido tanta graça! Olhei-a durante muito tempo, enlevado na sua contemplação. As lagrimas cahiam-lhe dos olhos.

—Pobre creatura! dizia eu na solidão dos meus pensamentos, pobre creatura! vaes para a mais profunda das covas, para a sepultura errante das aguas. Uma febre d'amor consumiu-te na vida, uma tempestade eterna te agitará na morte! Condiz o tumulo com a existencia! Como o mar tu foste bella, orgulhosa e ruidosa. Como o mar tu tiveste as tuas tormentas, as tuas calmarias occultas, as tuas grutas, os teus monstros secretos, a tua elevação religiosa, a tua espuma immunda. Como sobre o mar, sobre o teu cerebro correram as doces idéas geniaes e puras como vélas de pescadores: as pesadas ambições modernas, rápidas e incisivas como rodas de paquetes; as brutaes exigencias do temperamento, estupidas e victoriosas como monitores armados. Despedaçaste-te de encontro á fria reserva d'um amor que se extingue, como elle se esmigalha contra a escura insensibilidade das rochas. Como elle tem o vento que é o seu tyranno, tu tiveste a paixão. Vae, pobrezinha, repousar em paz, no fundo das algas verde-negras! Triste destino! Quem mais do que tu, sentiu, amou, estremeceu, córou, quiz, venceu? Quantas lagrimas causaste! Quantas loucas palpitações! Quantos desejos para ti voaram como bandos de pombas! Quantas vozes perdidas te chamaram! Quanta fé fizeste renegar! Quanta altivez fizeste succumbir! E tanta vida, tanta acção, tanta vontade, um tão grande centro vital como tu foste, um grumete amarra-lhe duas balas aos pés e atira com elle ao mar! E aqui jaz o ruido do vento, e aqui jaz a espuma da onda!

De que te serviu o ser, o que fizeste ao sangue, á vontade, aos nervos, ao pensamento, que trouxeste do seio da materia? Que idéa deixaste, que memoria, que piedade? Que foste tu mais do que um corpo bello, desejado e photographado? Fizeste parte, durante a vida, d'aquellas insensiveis bellezas naturaes, que o homem usa e arremessa. Foste como uma camelia, ou como a penna d'um pavão. Foste um adorno, não foste um caracter. Nunca tiveste um logar definido na vida, como não terás um tumulo certo na morte! Adeus pois para sempre, oh doce ephemera! o teu destino é a dispersão!

Por isso aqui estás só! Os que te amaram onde estão? onde estão os que tu amaste? Aqui estás só, vestida com o teu penteador branco, na tua manta de xadrez, sobre o convez d'um navio, só, sempre no meio de homens, como na vida! Não ha uma flôr aqui que se te deite em cima, nem uma renda em que se te envolva a face morta. Morres entre cordagens, no meio de rudes marinheiros, que veem agora da sua ração d'aguardente. Nem um padre catholico tens que te falle dos anjos, doces camaradas da tua mocidade. Nem um parente, sequer, te comporá a dobra do teu lençol! Não se cantará nenhum responso em volta do teu caixão. Não farás scismar as noivas que te vissem passar no teu enterro. As mãos alcatroadas de velhos marinheiros te arremessarão ao mar!