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O Napoleão de Notting Hill

Chapter 11: Livro III
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About This Book

A satirical narrative depicts a modern city where ceremonial offices and indifferent bureaucracy create absurd pageantry that unexpectedly kindles intense local loyalties. A seemingly trivial civic act is taken seriously by an imaginative official, prompting inhabitants to revive archaic symbols and assert territorial pride. What begins as playful medievalism escalates into an earnest confrontation between romantic idealism and administrative practicality, with symbolic rituals becoming catalysts for real conflict. The work explores tensions between imagination and rational governance, the potency of civic identity, and how small, deliberate fictions can produce unforeseen political consequences.

Entra um Lunático

O Rei das Fadas, que foi, presumidamente, o padrinho do rei Auberon, deve ter favorecido muito o seu fantástico afilhado neste dia em particular, pois com a entrada da guarda do superintendente de Notting Hill havia uma certa adição mais ou menos inexplicável para o seu deleite. Os trabalhadores braçais miseráveis ​​e homens-sanduíche que levavam as cores de Bayswater ou South Kensington, contratados apenas para o dia para satisfazer o passatempo real, ficavam na sala com um ar comparativamente compungido, e uma grande parte do prazer intelectual do rei consistia no contraste entre a arrogância de suas espadas e penas e a mansa miséria de seus rostos. Mas esses alabardeiros de Notting Hill, em suas túnicas vermelhas com cinto de ouro, tinham o ar de uma gravidade absurda. Eles pareciam, por assim dizer, tomar parte da brincadeira. Eles marcharam e desfilavam em suas posições com uma quase surpreendente dignidade e disciplina.

Eles carregavam uma bandeira amarela com um grande leão vermelho, nomeado pelo Rei como o emblema de Notting Hill, por causa de uma taverna no bairro que costumava frequentar.

Entre as duas linhas de seguidores avançou em direção ao rei um homem alto, de cabelos vermelhos jovem, de alta categoria e ousados olhos azuis. Ele teria sido chamado de bonito, mas que um certo ar indefinível causado pelo seu nariz ser grande demais para seu rosto, e seus pés para as pernas, dava-lhe uma aparência de estranheza e extrema juventude. Suas vestes eram vermelhas, de acordo com a heráldica do rei, e, sozinho entre os superintendentes, ele estava cingido com uma grande espada. Este era Adam Wayne, o superintendente intratável de Notting Hill.

O rei atirou-se para trás na cadeira, e esfregou as mãos.

— Que dia, que dia! — disse para si mesmo. Agora vai haver barulho. Não sabia que seria tão divertido. Estes superintendentes são tão indignados, tão razoáveis, tão certinhos. Este homem, pelo olhar em seus olhos, é ainda mais indignado do que o resto. Nenhum sinal em seus grandes olhos azuis, de ter ouvido falar de uma brincadeira. Ele vai reclamar dos outros, e eles vão reclamar dele, e todos vão ficar suntuosamente felizes em reclamar comigo.

— Bem-vindo, meu Lorde — disse ele em voz alta. — Quais são as novidades do Morro das Cem Lendas? O que tem para o ouvido de vosso Rei? Sei que problemas surgiram entre você e estes outros, nossos primos, mas estes problemas devem ser o nosso orgulho de se resolver. E não duvido, e não se pode duvidar, que o seu amor por mim não é menos sensível, nem menos ardente, que o deles.

O sr. Buck fez uma amarga careta e as narinas de James Barker se curvaram; Wilson começou a rir baixinho, e o superintendente de West Kensington fez o mesmo de uma forma discreta. Mas os grandes olhos azuis de Adam Wayne nunca mudaram, e ele gritou pelo corredor com sua voz singular e infantil:

— Trago a minha homenagem ao rei. Trago-lhe a única coisa que tenho: a minha espada.

E, com um grande gesto, a colocou no chão, e ajoelhou-se em um dos joelhos.

Houve um silêncio de morte.

— Como disse? — disse o Rei, sem expressão.

— Fala bem, senhor — disse Adam Wayne —, como sempre fala, quando diz que meu amor não é menor do que o amor deles. Pequeno seria se não fosse maior. Porque sou o herdeiro de seu projeto, a criança da grande Carta. Estou aqui pelos direitos que a Carta me deu, e juro, por sua coroa sagrada, que onde permaneço, permaneço firme.


Trago a minha homenagem ao rei.

Os olhos dos cinco homens se arregalaram.

Em seguida, Buck disse, com sua voz extremamente forte:

— Todo o mundo ficou louco?

O rei levantou-se, e seus olhos brilharam:

— Sim — gritou, numa voz de júbilo —, todo o mundo é louco, exceto Adam Wayne e eu. É certo como a morte o que lhe disse há muito tempo, James Barker. A seriedade envia os homens a loucura. Você é louco, porque se importa com política, tão louco como um homem que coleciona passagens de bonde. Buck é louco, porque ele se importa com o dinheiro, tão louco como um homem viciado em ópio. Wilson é louco, porque ele acha-se correto, tão louco como um homem que pensa que é o Deus Todo Poderoso. O superintendente de West Kensington é louco, porque acha que é respeitável, tão louco como um homem que pensa que é uma galinha. Todos os homens são loucos, exceto o humorista, que não se preocupa com nada e possui tudo. Pensava que só havia um humorista na Inglaterra. Tolos! Abram seus olhos bovinos; há dois! Em Notting Hill, naquela pouca promissora elevação, nasceu um artista! Tentaram estragar a minha piada, e me intimidar, tornando-se mais modernos, mais práticos, mais agitados e racionais. Oh, que festivo foi para eu responder, tornando-me mais augusto, mais gracioso, mais antiquado e maduro! Mas este rapaz viu como me mover. Ele me respondeu de volta, vanglória por vanglória, retórica por retórica. Ele levantou o escudo que eu não posso quebrar, o escudo da impenetrável pomposidade. Ouçam. Veio, meu Lorde, por Pump Street?

— Pela cidade de Notting Hill — respondeu Wayne, com orgulho —, do qual Pump Street é uma parte viva e alegre.

— Não é uma parte muito grande — disse Barker, com desprezo.

— Aquilo que é grande o suficiente para os ricos cobiçar — disse Wayne, elevando sua cabeça — é grande o suficiente para os pobres defender.

O Rei deu um tapa nas suas pernas, e agitou seus pés no ar por um segundo.

— Toda pessoa respeitável em Notting Hill — cortou Buck, com sua voz grossa e fria — apoia-nos e é contra ti. Tenho muitos amigos em Notting Hill.

— Seus amigos são aqueles que aceitaram o seu ouro para comprar outros lares, meu Lorde Buck — disse o superintendente Wayne. — Posso muito bem acreditar que são seus amigos.

— Eles nunca venderam brinquedos sujos, de qualquer maneira — disse Buck, rindo brevemente.

— Eles venderam coisas mais sujas — disse Wayne, calmamente. — Eles se venderam.

— Isso não é bom, meu Buckito — disse o Rei, rolando sobre a cadeira. — Não consegue lidar com essa eloquência cavalheiresca. Não pode lidar com um artista. Não pode lidar com o humorista de Notting Hill. Oh, nunc dimittis, pois vivi para ver este dia! Superintendente Wayne, permanece firme?

— Deixe-os esperar e ver — disse Wayne. — Se permanecia firme antes, acha que enfraquecerei agora que vi o rosto do Rei? Pois luto por algo maior, se pode haver algo maior que os lares do meu povo e o Senhorio do Leão. Luto por sua visão real, por seu grande sonho da Liga das Cidades Livres. Você mesmo me deu essa liberdade. Se eu fosse um mendigo e tivesse me atirado uma moeda, ou se eu fosse um camponês numa dança e tivesse me arremessado um presente, acha que teria deixado sua oferta ser levada por qualquer bandido na estrada?

— É demais, é demais — disse o rei. — A natureza é fraca. Preciso falar com você, irmão artista, sem mais disfarce. Deixe-me lhe fazer uma pergunta solene. Adam Wayne, alto lorde superintendente de Notting Hill, não acha isso esplêndido?

— Esplêndido — gritou Adam Wayne! Tem o esplendor de Deus.

— Desviou novamente — disse o rei. — Vai manter a pose. Engraçado, é claro, é sério. Mas, seriamente, não é engraçado?

— O quê? — perguntou Wayne, com os olhos de um bebê.

— Pare tudo, não jogo mais. O negócio todo da Carta das Cidades. Não é imenso?

— Imenso não é uma palavra indigna para o glorioso projeto.

— Oh, pare! Mas, é claro, entendo. Você quer que eu limpe o quarto destes bobos razoáveis. Quer os dois humoristas juntos sozinhos. Deixe-nos, senhores.

Buck lançou um olhar azedo em Barker, e com um sinal mal-humorado, saíram da sala como um desfile todo de azul e verde, de vermelho, ouro, púrpura, deixando apenas os dois no grande salão, o rei sentado em seu assento tablado, e a figura avermelhada ainda ajoelhado no chão ante a sua espada caída.

O Rei limitou-se a descer os degraus e bateu nas costas do superintendente Wayne.

— Antes das estrelas serem feitas — gritou ele — fomos feitos um para o outro. É muito bonito. Pensar na valente independência de Pump Street. Isso é real. É a deificação do ridículo.

A figura ajoelhada levantou-se ferozmente:

— Ridículo?! — gritou ele, com um rosto em fogo.

— Oh, pare, pare — disse o rei, impaciente —, não precisa manter isso comigo. Os áugures devem piscar algumas vezes por pura fadiga das pálpebras. Vamos aproveitar por meia hora, e não como atores, mas como os críticos dramáticos. Não é uma piada?

Adam Wayne olhou para baixo como um menino, e respondeu em uma voz constrangido:

— Não entendo a sua Majestade. Não posso acreditar que, enquanto luto por sua carta régia, sua majestade me abandona para estes cães caçadores de ouro.

— Oh, droga... Mas o que é isso? Que diabo é isso

O rei olhou para o rosto do jovem superintendente, e na penumbra da sala começou a ver que seu rosto estava muito branco e os lábios tremendo.

— Em nome de Deus, qual é o problema? — gritou Auberon, segurando seu pulso.

Wayne virou seu rosto, e as lágrimas brilhavam sobre ele.

— Sou apenas um menino, mas é verdade. Pintaria o Leão Vermelho em meu escudo mesmo que tivesse só o meu sangue.

Rei Auberon soltou a mão e ficou sem mexer, atordoado.

— Meu Deus do Céu! Será possível que alguém dentro dos quatro mares da Grã-Bretanha realmente leva Notting Hill a sério?

— Meu Deus do Céu! — Wayne disse apaixonadamente. — É possível que haja, dentro dos quatro mares da Grã-Bretanha um homem que não a leve a sério?

O rei não disse nada, mas apenas voltou a subir os degraus da tribuna, como um homem atordoado. Caiu novamente para trás em sua cadeira e chutou seus calcanhares.

— Se esse tipo de coisa continuar... — disse fracamente — Vou começar a duvidar da superioridade da arte à vida. Em nome dos Céus, não brinque comigo. Você realmente quer dizer que você (Deus me ajude!) um patriota de Notting Hill? Você é…

Wayne fez um gesto violento, e o Rei o acalmava freneticamente.

— Tudo bem, tudo bem, vejo que você é; mas deixe-me continuar. Você realmente propõe lutar contra estes renovadores modernos, com seus conselhos, inspetores e agrimensores e todo o resto?

— Eles são tão terríveis? — perguntou Wayne, com desdém.

O rei continuou a olhar como se ele fosse uma curiosidade humana.

— E suponho que você acha que os dentistas, pequenos comerciantes e senhoras solteiras que habitam Notting Hill, vão se reunir com hinos de guerra seguindo seu estandarte.

— Se eles têm sangue, irão — disse o superintendente.

— E acho — disse o Rei, com a cabeça para trás entre as almofadas — que nunca passou pela sua mente que... — sua voz parecia perder-se exuberantemente — nunca passou pela sua cabeça que qualquer um pensou que a ideia de um idealismo por Notting Hill é.. er.. um pouco.. pouco ridícula?

— Claro que pensam assim — disse Wayne.

— Qual era o significado de zombar dos profetas?

— De onde — perguntou o rei, inclinando-se para frente —, de onde em nome do Céu tirou essa ideia milagrosamente fútil?

— Você foi meu tutor, Senhor — disse o superintendente —, em tudo que é alto e honroso.

— Eh? — disse o rei.

— Foi Sua Majestade quem primeiro colocou meu patriotismo em chamas. Dez anos atrás, quando eu era um menino (tenho apenas 19), estava brincando na encosta de Pump Street, com uma espada de madeira e um capacete de papel, sonhando em grandes guerras. Num transe de raiva batia com a minha espada, e fiquei petrificado, pois vi que tinha te batido, Senhor, meu Rei, enquanto vagava em nobre segredo, cuidando do bem-estar das pessoas. Mas não precisava ter medo. Pois me ensinou a entender a realeza. Você nem se encolheu ou franziu a testa. Nem convocou nenhum guarda. Nem impôs punições. Mas, em palavras ardentes e augustas, que estão escritas na minha alma, para nunca mais serem apagadas, disse-me para sempre virar a minha espada contra os inimigos da minha cidade inviolada. Como um sacerdote apontando para o altar, me apontou para o monte de Notting. "Enquanto estiver pronto para morrer pela montanha sagrada, mesmo que seja cercado por todos os exércitos de Bayswater.” Não me esqueci das palavras, e tenho razão agora para me lembrar delas, pois é chegada a hora para coroar sua profecia. A colina sagrada está cercada pelos exércitos de Bayswater, e estou pronto para morrer.

O rei estava deitado para trás na cadeira, uma espécie de ruína.

— Oh, Senhor, Senhor, Senhor — ele murmurou. — Que vida! Oh vida! Tudo meu trabalho! Parece que fiz tudo isso. Então você é o menino de cabelos vermelhos que me bateu no colete. O que fiz? Deus, o que fiz? Pensei que tinha feito uma piada, e criei uma paixão. Tentei compor uma paródia, e parece estar no meio da transformação num épico. O que é feito com um mundo assim? Em nome do Senhor, a piada não era grande e ousada o suficiente? Abandonei meu humor sutil para diverti-lo, e parece-me que trouxe lágrimas aos seus olhos. O que deve ser feito para as pessoas entenderem que você escreve uma pantomima? Chamar as salsichas de festões clássicos, e fazer o policial cortar uma tragédia em duas por dever público? Mas por que estou falando? Por que estou fazendo perguntas a um cavalheiro jovem e bonito que é totalmente louco? Qual é o propósito? Qual é o propósito de qualquer coisa? Oh, Senhor! Oh, Senhor!

De repente, ele levantou-se.

— Acha mesmo que a sagrada Notting Hill não é absurda?

— Absurda? — perguntou Wayne, sem expressão. — Por que deveria?

O rei olhou para trás igualmente sem expressão:

— Como?

— Notting Hill — disse o superintendente, simplesmente — é um terreno elevado de terra comum, em que homens construíram casas para viver, onde eles nascem, se apaixonam, rezam, casam e morrerem. Por que devo achar absurdo?

O rei sorriu.

— Porque, meu Leônidas — começou, então, de repente, não sabia, sua mente era um branco total. Afinal, por que era um absurdo? Por que era um absurdo? Ele sentiu-se como se o chão de sua mente tivesse sumido. Ele sentiu o que todos os homens sentem quando seus principais fundamentos são duramente atingidos por uma pergunta. Barker sempre se sentia assim quando o rei dizia: "Por que se preocupar com política?"

Os pensamentos do rei estavam em uma espécie de debandada, não podia recolhê-los.

— A percepção geral é de ser um pouco engraçado — disse vagamente.

— Suponho — disse Adam virando-se com rapidez — que considera a crucificação como algo sério?

— Bem — começou Auberon —, admito que, em geral, achei que tinha um lado mais grave.

— Então está errado — disse Wayne, com incrível violência. — A crucificação é cômica. É primorosamente divertida. Era um tipo absurdo e obsceno de empalação reservado para as pessoas que foram feitas para serem ridicularizadas, para escravos e provinciais, para dentistas e pequenos comerciantes, como você diria. Vi a grotesca forca, que os garotos de rua romanos rabiscaram como uma piada vulgar, em chamas sobre os pináculos dos templos do mundo. E devo continuar?

O rei não respondeu.

Adam continuou, a sua voz ressoando no telhado.

— Esse riso com que os homens tiranizam não é o grande poder que acredita. Pedro foi crucificado, e crucificado de cabeça para baixo. O que poderia ser mais engraçado do que a ideia de um Apóstolo de idade respeitável de cabeça para baixo? O que poderia ser mais ao estilo de seu humor moderno? Mas qual foi o fim dele? De cabeça para baixo ou do lado certo, Pedro era Pedro para a humanidade. De cabeça para baixo ele paira sobre a Europa, e milhões se movem e respiram na vida da sua Igreja.

Rei Auberon levantou-se distraído:

— Há algo no que você diz. Parece que esteve pensando, jovem.

— Apenas sentindo, senhor — respondeu o superintendente. — Nasci, como os outros homens, num ponto da terra que amei, porque brinquei jogos de meninos lá, e me apaixonei, e conversei com os meus amigos em noites que eram noites dos deuses. E sinto o mistério. Estes pequenos jardins onde dissemos nossos amores. Essas ruas onde nós colocamos nossos mortos. Por que deveriam ser comuns? Por que deveriam ser absurdos? Por que deveria ser grotesco dizer que uma caixa de correio é poética quando, por um ano não podia ver uma caixa de correio vermelha contra o amarelo do anoitecer numa determinada rua sem ser sacudido por algo que Deus guarda em segredo, mas que é mais forte do que a alegria ou a tristeza? Por que alguém deveria levantar uma risada, ao dizer a “causa de Notting Hill”? Notting Hill, onde milhares de espíritos imortais brilham ora com esperança, ora com medo.

Auberon estava sacudindo a poeira de sua luva com uma nova seriedade em seu rosto, distinta da solenidade de coruja que era a pose de seu humor.

— É muito difícil — disse finalmente. — É uma dificuldade maldita. Vejo o que você quer dizer. Até concordo com você em certo ponto ou gostaria de concordar, se eu fosse jovem o suficiente para ser um profeta ou poeta. Sinto uma verdade em tudo que diz, até chegar às palavras ’Notting Hill’. E então lamento dizer que o velho Adão acorda morrendo de rir e acaba com o novo Adão, cujo nome é Wayne.

Pela primeira vez o superintendente Wayne ficou em silêncio, e ficou olhando sonhadoramente para o chão. A noite se aproximava, e o quarto tinha ficado mais escuro.

— Eu sei — disse ele, numa voz estranha, quase sonolenta. — Também há verdade no que diz. É difícil não rir com nomes comuns, digo apenas que não se devia. Tenho pensado num remédio, mas tais pensamentos são bastante terríveis.

— Que pensamentos? — perguntou Auberon.

O superintendente de Notting Hill parece ter caído em uma espécie de transe, nos seus olhos havia uma luz élfica.

— Sei de uma varinha mágica, mas é uma varinha que apenas um ou dois podem usar corretamente, e só raramente. É uma varinha de grande medo, mais forte do que aqueles que a usam, muitas vezes assustadora, muitas vezes perversa. Mas o que é tocado com ela nunca mais é totalmente comum, o que é tocado recebe uma magia fora do mundo. Se eu tocar, com esta varinha, as ferrovias e as estradas de Notting Hill, os homens irão amá-las, e terão medo delas para sempre.

— Do que diabo você está falando? — perguntou o rei.

— Ela fez paisagens medianas serem magníficas, e casebres durarem mais do que catedrais — continuou o louco. — Por que não poderia fazer de postes de luz mais mágicos do que as lâmpadas gregas? E um passeio de ônibus, como de um navio pintado. O toque dela é o dedo de uma estranha perfeição.

— O que é a sua varinha? — gritou o rei, impaciente.

— Aí está — disse Wayne, e apontou para o chão, onde a sua espada estava lisa e brilhante.

— A espada! — gritou o rei, e levantou-se em frente do estrado.

— Sim, sim — gritou Wayne, com voz rouca. — As coisas tocadas por ela não são vulgares, as coisas tocadas por ela...

O rei Auberon fez um gesto de horror.

— Vai derramar sangue por isso! — gritou. — Por um maldiçoado ponto de vista...

— Oh, vocês reis! — gritou Adam, em uma explosão de desprezo. — Quão humano são vocês, quão carinhosos, quão atenciosos! Fazem a guerra por uma fronteira, ou pelas importações de um porto estrangeiro! Derramam sangue pelos direitos de impostos, ou como a saudação de um almirante. Mas para as coisas que tornam a vida digna ou miserável, quão humanos são! Digo aqui, e sei bem o que eu falo, nunca houve guerras necessárias, mas as guerras religiosas. Nunca houve guerras justas, mas as guerras religiosas. Havia nunca nenhuma guerra humana, mas as guerras religiosas. Pois estes homens estavam lutando por algo que afirmava, pelo menos, ser para a felicidade do homem, a virtude do homem. Um cruzado pensou, pelo menos, que o Islã feria a alma de cada homem, rei ou funileiro, tudo o que poderia cair em seu domínio. Acho que Buck, Barker e estes abutres ricos ferem a alma de cada homem, ferem cada centímetro do chão, ferem cada tijolo das casas, tudo o que cai em seus domínios. Acha que não tenho o direito de lutar por Notting Hill, quando seu governo inglês tantas vezes lutou por tolices? Se, ​​como dizem seus amigos ricos, não há deuses, e acima de nós há somente os céus escuros, para o que deve lutar o homem, mas pelo lugar onde teve o Éden da infância e o curto céu do primeiro amor? Se não houver templos e não são sagradas as escrituras, o que é sagrado, senão a própria juventude do homem?

O rei andou um pouco inquieto para cima e para baixo no estrado.

— É difícil — disse ele, mordendo os lábios — ser favorável a uma visão tão desesperada, tão responsável

Enquanto falava, a porta da sala de audiência abriu entreaberta, e pela abertura veio, como um súbito trino de um pássaro, a voz alta, nasal, mas bem-educada de Barker:

— Eu disse a ele de forma muito clara, o interesse público...

Auberon se voltou para Wayne com violência:

— Que diabos é isso? O que estou dizendo? O que você está dizendo? Você me hipnotizou? Malditos sejam seus misteriosos olhos azuis! Deixe-me ir. Devolva-me o meu senso de humor. Devolva-me, eu digo!

— Eu lhe asseguro solenemente — disse Wayne, inquieto, com um gesto, como sentindo sobre si — que não o tenho.

O rei caiu para trás em sua cadeira, e com uma gargalhada rabelaisiana:

— Não acho que tenha — exclamou.

Livro III

A condição mental de Adam Wayne

Um pouco depois da ascensão do Rei apareceu um pequeno livro de poemas, chamado “Hinos no Monte”. Não eram bons poemas, nem um livro de sucesso, mas que atraiu uma certa atenção de uma particular escola de críticos. O próprio Rei, que era um membro desta escola, o avaliou na qualidade de crítico literário para “Direto dos Estábulos”, um jornal esportivo. Eles eram conhecidos como a Escola da Rede, porque um inimigo havia calculado malignamente que não menos do que 13 de suas delicadas críticas tinham começado com as palavras: “Li este livro deitado em uma rede: meio adormecido na sonolenta luz solar, Sob estas condições, gostavam de tudo, mas especialmente bobagens. “Depois de um livro autentico bom (e que, infelizmente, nunca encontramos), queremos um ricamente ruim.” Assim aconteceu que o seu louvor (como indicando a presença de uma riqueza ruim) não era universalmente procurado, e os autores se tornavam um pouco inquietos quando encontravam o olhar favorável da Escola da Rede.

A peculiaridade de “Hinos no Monte” foi a celebração da poesia de Londres como distinta da poesia do campo. Este sentimento ou afetação, naturalmente, não é incomum no século XX, e, embora às vezes exagerada, às vezes artificial, apresenta uma grande verdade na sua raiz, pois há um aspecto em que uma cidade deve ser mais poética do que o campo, uma vez que é mais próxima do espírito do homem, pois Londres, se não é uma das obras-primas do homem, pelo menos é um de seus pecados. A rua é muito mais poética do que um prado, porque a rua tem um segredo. A rua está indo para algum lugar, e um prado a lugar nenhum. Mas, no caso do livro chamado “Hinos no Monte” havia outra particularidade, que o rei apontou com grande perspicácia em seu comentário. Ele era naturalmente interessado no assunto, pois ele próprio tinha publicado um volume de letras sobre Londres sob o pseudônimo de “Margarida Sonhadora”.

Esta diferença, como o Rei apontou, consistiu no fato de que, enquanto artífices como “Margarida Sonhadora” (a cujo elaborado estilo, o Rei, com a assinatura de "Thunderbolt", foi talvez demasiado severo) pensavam em elogiar Londres comparando-a com a natureza do campo, ou seja, como um fundo a partir do qual todas as imagens poéticas devem acontecer, o robusto autor de “Hinos no Monte” elogiou a natureza do campo comparando-a com a cidade, e utilizado a própria cidade como um fundo. — Pegue — disse o crítico — as linhas tipicamente femininas de ‘Para o inventor do cabriolé’: “Poeta, cuja astúcia esculpiu esta concha amorosa,
Onde dois habitam.” — Certamente — escreveu o rei —, ninguém, mas uma mulher poderia ter escrito essas linhas. Uma mulher tem sempre uma fraqueza por natureza, sua arte é apenas bela como um eco ou sombra desta. Ela está louvando o cabriolé por tema e teoria, mas sua alma ainda é de uma criança à beira-mar, pegando conchas. Ela nunca pode ser totalmente da cidade, como um homem pode; na verdade, não falamos (com sagrada propriedade) de ‘um homem da cidade’? Quem já falou de uma mulher da cidade? Por mais que, fisicamente, uma mulher possa estar na cidade, ela ainda se modela pela natureza, ela tenta levar a natureza com ela, ela imagina grama crescendo em sua cabeça, e... animais peludos para mordê-la na garganta. No coração de uma cidade escura, ela modela o chapéu como um flamejante jardim de flores de uma cabana. Nós, com o nosso sentimento cívico nobre, modelamos o nosso como um pote de chaminé, o estandarte da civilização. Para não ficar sem pássaros, ela prefere cometer um massacre, para que ela possa transformar a cabeça numa árvore, com aves mortas cantando para ela.

Esse tipo de coisa continuou por várias páginas, e depois o crítico se lembrou de seu assunto, e voltou para ele. “Poeta, cuja astúcia esculpiu esta concha amorosa,
Onde dois habitam.” — A peculiaridade dessas boas embora femininas linhas — continuou “Thunderbolt” — é, como já disse, que elogiam o cabriolé, comparando a uma concha, a uma coisa natural. Agora, ouça o autor de ‘Hinos no Monte’, e como ele lida com o mesmo assunto. Em seu belo noturno, intitulado ‘O Último Ônibus’, ele alivia a melancolia rica e comovente do tema através de uma súbita sensação de pressa ao fim: “O vento em volta na esquina da velha rua
Balança súbito e rápido como um táxi.” — Aqui a distinção é óbvia. ‘Margarida Sonhadora’ pensa que é um grande elogio a um cabriolé ser comparado a uma das câmaras em espiral do mar. E o autor de ‘Hinos no Monte’ pensa que é um grande elogio para o imortal turbilhão ser comparado a um carro de praça. Ele certamente é o real admirador de Londres. Não temos espaço para falar de todas as suas aplicações perfeitas da ideia; do poema em que, por exemplo, os olhos de uma senhora são comparados, não às estrelas, mas a duas perfeitas lâmpadas de rua que orientam os andarilhos. Não temos espaço para falar da fina letra, recordando o espírito elisabetano, em que o poeta, em vez de dizer que a rosa e o lírio lutam em sua pele, diz Quão perfeita é a imagem de dois ônibus em disputa!

Aqui, um pouco abruptamente, a revisão concluiu, provavelmente porque o rei teve de enviar a sua cópia, naquele momento, já que estava com alguma falta de dinheiro. Mas o Rei era um crítico muito bom, mesmo que não fosse como Rei, e tinha, em grande medida, acertado na mosca. “Hinos no Monte” não era nada como os poemas publicados originalmente em louvor da poesia de Londres. E a razão é que foi realmente escrito por um homem que não tinha visto nada além de Londres, e que ele a considerava, portanto, como o universo. Ele foi escrito por um bruto rapaz ruivo de 17, chamado Adam Wayne, que tinha nascido em Notting Hill. Um acidente em seu sétimo ano o impediu de ser levado para o litoral, assim, toda a sua vida se passou em Pump Street e na sua vizinhança. E a consequência foi que ele via as lâmpadas de rua como tão eternas quanto as estrelas, os dois fogos misturados. Ele via as casas resistindo como as montanhas, e assim escreveu sobre elas, como se escreveria sobre montanhas. A natureza coloca um disfarce quando fala a todo homem, e para este homem vestiu o disfarce de Notting Hill. A natureza significaria para um poeta nascido nas colinas Cumberland, um céu tempestuoso e rochas abruptas. A natureza significaria a um poeta nascido nos planos de Essex, um desperdício de esplêndidas águas e esplêndidos pores do sol. Portanto, a natureza significava para este homem Wayne uma linha de telhados violetas e lâmpadas cor de limão, o claro-escuro da cidade. Ele não acha inteligente ou engraçado elogiar as sombras e as cores da cidade, ele não tinha visto outras sombras ou cores, e assim as elogiou, porque eram sombras e cores. Ele viu tudo isso, porque era um poeta, embora na prática, um mau poeta. Muitos esquecem que, assim como um homem mau é ainda um homem, um mau poeta é ainda um poeta.

O pequeno volume de versos do sr. Wayne foi um fracasso completo, e ele se submeteu à decisão do destino com uma humildade muito racional, voltou para o seu trabalho, que era o de assistente numa loja de roupas, e não escreveu mais. Ele ainda manteve o seu sentimento sobre a cidade de Notting Hill, porque ele não poderia ter qualquer outro sentimento, porque era a parte de trás e a base de seu cérebro. Mas ele não parece ter feito mais nenhuma tentativa particular de expressá-lo ou insistir nisso.

Ele era um verdadeiro místico natural, um dos que vivem na fronteira do país das fadas. Mas ele foi talvez o primeiro a perceber o quão frequentemente os limites do país das fadas atravessam uma cidade lotada. Vinte metros dele (pois era muito míope) os sóis vermelhos, brancos e amarelos dos postes de luz se aglomeravam e se derretiam um nos outros como um pomar de árvores de fogo, o início do bosque da terra dos elfos.

Mas, curiosamente, foi porque ele era um pequeno poeta que teve o seu triunfo estranho e isolado. Foi porque foi um fracasso na literatura que ele se tornou um portento na história inglesa. Ele era um daqueles a quem a natureza havia dado o desejo sem o poder da expressão artística. Ele havia sido um poeta mudo desde do seu berço. Ele poderia ter sido tal até o seu túmulo, e levar na escuridão um tesouro não expresso de música nova e sensacional. Mas nasceu sob a estrela da sorte de uma coincidência única. Passou a ser a cabeça de seu município encardido num momento de brincadeira do Rei, no momento em que todos os municípios foram ordenados subitamente a irromper em bandeiras e flores. Fora da longa procissão dos poetas silenciosos, que passa desde o início do mundo, este homem se viu no meio de uma visão heráldica, onde ele poderia agir, falar e viver liricamente. Enquanto o autor e as vítimas igualmente tratavam a questão toda como uma farsa pública tola, este homem, por levá-la a sério, surgiu de repente num trono de onipotência artística. Armadura, música, estandartes, fogo da guarda, barulho dos tambores, todas as propriedades teatrais foram jogados na sua frente. Este pobre rimador, tendo queimado as suas próprias rimas, começou a viver essa vida de ar livre e poesia em ação que todos os poetas da terra sonharam em vão, a vida para qual a Ilíada é apenas um substituto barato.

Desde sua abstraída infância, Adam Wayne tinha desenvolvido fortemente e silenciosamente uma determinada qualidade ou capacidade, que nas cidades modernas é quase inteiramente artificial, mas que pode ser natural, e era primeiramente quase brutalmente natural nele, a qualidade ou capacidade do patriotismo. Ela existe, assim como as outras virtudes e vícios, em uma certa realidade não diluída. Ela não se confunde com outros tipos de coisas. Uma criança falando de seu país ou a sua aldeia pode cometer cada erro de Mandeville ou dizer cada mentira de Munchausen, mas em sua declaração não haverá mais mentiras psicológicas do que pode haver em uma boa música. Adam Wayne, como um menino, tinha por suas ruas sem graça em Notting Hill o mesmo sentimento antigo e último que veio de Atenas ou Jerusalém. Ele sabia o segredo da paixão, os segredos que tornam reais as antigas canções nacionais que soam tão estranhas para a nossa civilização. Ele sabia que o real patriotismo tende a cantar sobre as dores e esperanças desamparados muito mais do que a vitória. Sabia que nos nomes próprios está metade da poesia de todos os poemas nacionais. E acima de tudo, sabia o fato psicológico supremo sobre patriotismo, tão certamente conectado com este como a timidez que acomete todos os amantes, o fato de que o patriota nunca em nenhuma circunstância se orgulha da grandeza de seu país, mas sempre, e por necessidade, se orgulha da pequenez dele.

Tudo isso ele sabia, não porque ele era um filósofo ou um gênio, mas porque ele era uma criança. Qualquer um que queira subir num cortiço como Pump Street, pode ver um pequeno Adão alegando ser rei de um pavimento de pedra. E sempre vai estar mais orgulhoso se ​​a pedra é quase demasiado estreita para manter os pés dentro dela.

Foi enquanto estava num sonho de batalha defensiva, marcando alguma faixa de rua ou uma fortaleza de passos como o limite do seu clamor arrogante, que o rei o tinha encontrado, e, com algumas palavras atiradas em zombaria, ratificaria por sempre os limites estranhos de sua alma. Daí em diante a ideia fantasiosa da defesa de Notting Hill em guerra tornou-se para ele uma coisa tão sólida como comer, beber ou acender um cachimbo. Ele eliminou suas refeições por isso, alterou seus planos por isso, ficou acordado no meio de várias noites. Duas ou três lojas eram para ele um arsenal, uma área era um fosso; cantos de varandas e voltas de degraus de pedra eram pontos para a localização de uma colubrina ou um arqueiro. É quase impossível transmitir a qualquer imaginação comum o grau em que ele havia transformado a paisagem de chumbo de Londres em ouro romântico. O processo começou quase na primeira infância, e tornou-se habitual como uma loucura literal. Sentiu mais intensamente à noite, quando Londres é realmente ela mesma, quando suas luzes brilham no escuro como os olhos de gatos inumeráveis, e o contorno das casas escuras tem a ousada simplicidade de colinas azuis. Mas para ele a noite revelou, em vez de esconder, e ele leu todas as horas em branco da manhã e à tarde, em uma frase contraditória, à luz da escuridão. Para este homem, de qualquer forma, o inconcebível havia acontecido. A cidade artificial tinha se tornado para ele a natureza, e sentiu as pedras do meio-fio e as lâmpadas de gás como coisas tão antigas quanto o céu.

Um exemplo pode ser suficiente. Caminhando ao longo de Pump Street com um amigo, ele disse, enquanto olhava sonhadoramente para a grade de ferro de um jardim pouco a frente:

— Como aquelas cercas agitam o sangue de uma pessoa!

Seu amigo, que também era um grande admirador intelectual, olhou diligentemente, mas sem qualquer emoção particular. Ficou tão preocupado com isso que voltou um grande número de vezes em noites calmas e olhou para a cerca, esperando que algo acontecesse com o seu sangue, mas sem sucesso. Por fim, perguntou a Wayne. Ele descobriu que o êxtase estava num ponto que nunca tinha notado a respeito da cerca, mesmo depois de suas seis visitas, o fato de que eram, como a grande maioria em Londres, afiadas no topo, à maneira de uma lança. Quando uma criança, Wayne tinha inconscientemente as comparada com as lanças nas imagens de Lancelot e St. George, e cresceu sob a sombra desta associação gráfica. Agora, sempre que olhava para elas, eram simplesmente as armas cerradas que faziam uma cobertura de aço em volta das casas sagradas de Notting Hill. Ele não podia limpar a sua mente deste significado mesmo que tentasse. Não era uma comparação fantasiosa, ou algo assim. Não é que as familiares cercas lembravam lanças, seria muito mais verdadeiro dizer que as familiares lanças ocasionalmente lembravam cercas.

Alguns dias depois de sua entrevista com o Rei, Adam Wayne andava como um leão enjaulado na frente de cinco lojas que ocupavam a extremidade superior da disputada rua. Eram uma mercearia, uma farmácia, uma barbearia, uma loja de velhas curiosidades e uma loja de brinquedos, que também vendia jornais. Foram estas cinco lojas que sua meticulosidade infantil selecionou pela primeira vez como os pontos essenciais da campanha de Notting Hill, a cidadela da cidade. Se Notting Hill era o coração do universo, e Pump Street era o coração de Notting Hill, este era o coração de Pump Street. O fato delas serem todas pequenas e uma ao das outras realizava o sentimento de conforto formidável e compacto que, como já dissemos, era o coração do seu patriotismo, e de todo o patriotismo. O merceeiro (que tinha licença para vinho e aguardentes) foi incluído porque podia fornecer provisões à guarnição; a loja de velhas curiosidades porque continha espadas suficientes, pistolas, alabardas, bestas e bacamartes para armar um regimento irregular inteiro; a loja de brinquedos e jornais porque Wayne considerava uma imprensa livre um centro essencial para a alma de Pump Street; a farmácia para lidar com surtos de doenças entre os sitiados; e o barbeiro porque estava no meio de todo o resto, e filho do barbeiro era um amigo íntimo com afinidade espiritual.

Era uma noite sem nuvens de outubro passando do púrpura até a pura prata ao redor dos telhados e chaminés da rua pouco íngreme, que parecia preta, afiada e dramática. Nas sombras profundas as frentes iluminadas a gás as lojas brilhavam como cinco fogos em uma fileira e, antes deles, obscuramente esboçado como um fantasma contra fornos do purgatório, passava de lá para cá a alta figura, como um pássaro com nariz de águia, de Adam Wayne.

Ele balançava seu bastão inquieto e parecia intermitentemente falar sozinho:

— Há, afinal, enigmas, mesmo para o homem que tem fé. Há dúvidas que permanecem mesmo depois que a verdadeira filosofia é concluída em cada degrau e rebite. E este é um deles. Será que a necessidade do ser humano normal, a condição humana normal, é maior ou menor do que os estados especiais da alma que clamam por uma glória duvidosa e perigosa? Esses poderes especiais do conhecimento ou do sacrifício que são possíveis apenas pela existência do mal? Qual deve vir primeiro para a nossas afeições, as sanidades duradouras da paz ou as virtudes meio maníacas de batalha? O que deve vir em primeiro lugar, o grande homem no cotidiano ou o grande homem na emergência? O que deve vir em primeiro lugar, para voltar ao enigma diante de mim, o dono da mercearia ou da farmácia? O que é mais certamente a estadia da cidade, o rápido cavalheiresco farmacêutico ou o benigno provedor merceeiro? Nessas últimas dúvidas espirituais, só é possível escolher um lado pelos instintos mais elevados, e para terminar a questão. Em qualquer caso, fiz a minha escolha. Que seja perdoado se escolho errado, mas escolho o merceeiro.

— Bom dia, senhor — disse o merceeiro, que era um homem de meia-idade, parcialmente calvo, com duros bigodes vermelhos e barba, a testa alinhada com todos os cuidados de um pequeno comerciante. — O que eu posso fazer por você, senhor?

Wayne tirou o chapéu ao entrar na loja, com um gesto cerimonioso, que, embora ligeiro, fez o comerciante olhá-lo com um pouco de espanto.

— Venho, Senhor — disse ele sobriamente —, apelar ao seu patriotismo.

— Por que, senhor — disse o dono da mercearia —? Isto soa como os tempos em que era um menino e estávamos habituados a ter eleições.

— Vamos tê-las novamente — disse Wayne, com firmeza — e coisas muito maiores. Escute, Sr. Mead. Sei as tentações decorrentes da filosofia muito cosmopolita de um merceeiro. Posso imaginar o que é sentar todos os dias cercado com mercadorias de todos os confins da terra, dos mares estranhos que nunca navegamos e florestas estranhas que não poderia mesmo visualizar. Nenhum rei Oriental já teve tais navios ou tais cargas provenientes do nascer e do pôr do sol, e Salomão, em toda a sua glória, não era rico como um de vocês. A Índia está em seu cotovelo — gritou ele, levantando a voz e apontando seu bastão para uma gaveta de arroz, enquanto o dono da mercearia fazia um movimento de algum alarme —, a China está diante de você, Demerara atrás de você, a América acima de sua cabeça e, neste momento, como um velho almirante espanhol, tem Túnis em suas mãos.

O sr. Mead deixou cair a caixa de tâmaras que estava levantando, e depois pegou-a novamente vagamente.

Wayne continuou com uma cor intensa, mas voz baixa:

— Digo, sei das tentações da visão de uma riqueza tão internacional, tão universal. Sei que não periga cair na estreiteza mecânica e empoeirada, como muitos comerciantes, mas sim ser muito amplo, ser muito geral, muito liberal. Se um nacionalismo estreito é o perigo do pasteleiro, que faz suas próprias mercadorias sob seus próprios céus, não menos é o cosmopolitismo o perigo do merceeiro. Mas venho a ti em nome do patriotismo que nem andanças ou iluminações nunca devem extinguir completamente, e peço que se lembre de Notting Hill. Pois, afinal, nesta magnificência cosmopolita, ela tem desempenhado um papel importante. As tâmaras podem vir das palmeiras da Berberia, o açúcar das ilhas estranhas dos trópicos, o seu chá das aldeias secretas do Império do Dragão. Para que este quarto fosse mobiliado, florestas podem ter sido devastadas sob o Cruzeiro do Sul, e leviatãs trespassados sob a Estrela Polar. Mas você mesmo, certamente não desprezível tesouro, o cérebro que maneja estes vastos interesses, ganhou pelo menos força e sabedoria entre essas casas cinzentas e sob este céu chuvoso. Esta cidade que lhe fez e, assim, que fez sua fortuna, está ameaçada de guerra. Venha e diga para os confins da terra esta lição. O petróleo é do Norte e frutos do Sul; o arroz da Índia e especiarias do Ceilão; ovelhas da Nova Zelândia e os homens de Notting Hill.

O merceeiro sentou-se por alguns momentos, com olhos fracos e boca aberta, parecendo um pouco um peixe. Em seguida, coçou a parte de trás de sua cabeça, e não disse nada. Então disse:

— Algo da loja, senhor?

Wayne olhou em volta de uma maneira confusa. Vendo uma pilha de latas de pedaços de abacaxi, apontou com o bastão em direção a elas.

— Sim — ele disse. — Vou levar estes.

— Todos estes, senhor? — disse o dono da mercearia, com interesse muito maior.

— Sim, sim, todos estes — respondeu Wayne, ainda um pouco confuso, como um homem que recebeu um banho de água fria.

— Muito bem, senhor, muito obrigado, senhor — disse o dono da mercearia com animação. — Pode contar com o meu patriotismo, senhor.

— Já conto com ele — disse Wayne, e saiu para se encontrar com a noite.

O merceeiro colocou a caixa de tâmaras de volta no seu lugar.

— Que pessoa agradável! É estranho como muitas vezes eles são agradáveis. Muito mais agradáveis do que aqueles que estão bem.

Enquanto isso, Adam Wayne ficou de fora na farmácia brilhante, vacilando de forma inconfundível.

— Que fraqueza! — murmurou. — Nunca me livrei dela desde a infância - o medo desta loja mágica. O merceeiro é rico, romântico, poético, no verdadeiro sentido, mas não é sobrenatural. Mas o farmacêutico! Todas as outras lojas estão em Notting Hill, mas esta está na terra dos elfos. Olhe para essas grandes taças coloridas queimando. Deve ser com elas que Deus pinta o pôr do sol. Ele é sobre-humano e o sobre-humano é tanto mais estranho quando é beneficente. Essa é a raiz do medo de Deus. Estou com medo. Mas devo ser um homem e entrar.

Ele era um homem, e entrou. Um rapaz baixo e moreno estava atrás do balcão com os óculos, e o cumprimentou com um sorriso brilhante mas inteiramente comercial.

— Uma boa noite, senhor — disse ele.

— Boa realmente, estranho pai — disse Adam, esticando suas mãos um pouco para a frente. — É nessas noites claras e suaves que sua loja se sobressai. Pois aparecem mais perfeitas, essas luas de verde, dourado e vermelho, que guiam de longe o peregrino da dor e da doença a esta casa de feitiçaria misericordiosa.

— Posso arranjar-lhe algo? — perguntou o farmacêutico.

— Deixe-me ver — disse Wayne, de forma amigável, mas vago. — Algum sal volátil.

— Uma garrafa de oito, dez ou dezesseis pences? — disse o jovem, jovialmente.

— Dezesseis, dezesseis — respondeu Wayne, com uma submissão selvagem. — Eu vim para perguntar-lhe, Sr. Bowles, uma pergunta terrível.

Ele parou e se recompôs.

— É necessário — ele murmurou —, é necessário ser diplomático, e de acordo com o apelo de cada profissão.

— Eu vim — retomou em voz alta — para fazer uma pergunta que vai de encontro com as raízes de suas labutas milagrosas, Sr. Bowles. Deve toda essa magia cessar? — E acenou com o bastão em torno da loja.

Não encontrando nenhuma resposta, continuou com animação:

— Em Notting Hill sentimos até no amago o mistério élfico de sua profissão. E agora Notting Hill está ameaçada.

— Algo mais, senhor? — perguntou o farmacêutico.

— Oh — disse Wayne, um pouco perturbado. Oh, o que é que os farmacêuticos vendem? — Quinino, acho. Obrigado. Deseja ser destruído? Conheci esses homens de Bayswater e North Kensington, sr. Bowles, eles são materialistas. Eles não veem nenhuma bruxaria no seu trabalho, mesmo quando é feito dentro de suas próprias fronteiras. Acham que o farmacêutico é comum. Eles pensam que ele é humano.

O farmacêutico pareceu fazer uma pausa, só um momento, recebeu o insulto, e imediatamente disse:

— E o próximo artigo, por favor?

— Alúmen — disse o superintendente, descontroladamente. — Recomeçando... É apenas nesta cidade sagrada que seu sacerdócio é reverenciado. Portanto, quando luta por nós não luta apenas para si, mas por tudo o que simboliza. Luta, não só por Notting Hill, mas pela terra das fadas, pois tão certo como Buck, Barker e tais homens se fortalecem, o sentido da terra das fadas, de alguma maneira estranha, diminui.

— Algo mais, senhor? — perguntou o Sr. Bowles, com alegria ininterrupta.

— Ah, sim, jujubas, purgante, magnésia. O perigo é iminente. Em todo este assunto senti que lutei não apenas pela minha própria cidade (apesar de que devo a ela todo o meu sangue), mas por todos os lugares em que estas grandes ideias poderiam prevalecer. Estou lutando não apenas por Notting Hill, mas por Bayswater, por North Kensington. Pois, se os caçadores de ouro prevalecerem, estes também perderão todos os seus antigos sentimentos e todo o mistério de sua alma nacional. Sei que posso contar com você.

— Ah, sim, senhor — disse o farmacêutico, com grande animação —, estamos sempre contentes de ajudar um bom cliente.

Adam Wayne saiu da loja com um profundo senso de realização na alma.

— É muita sorte — disse ele —, ter tato, para ser capaz de contar com os talentos peculiares e especialidades, do cosmopolitismo da mercearia e da necromancia do velho mundo do farmacêutico. Onde estaria sem tato?

Capítulo II - O Notável sr. Turnbull

Após mais duas entrevistas com homens das lojas, no entanto, a confiança do patriota em sua própria diplomacia psicológica começou a minguar vagamente. Apesar do cuidado com que considerava a lógica peculiar e a glória peculiar de cada loja separadamente, parecia haver algo que não respondia nos homens das lojas. Se era um ressentimento obscuro contra o não-iniciado bisbilhotando sua magnificência maçônica, ele não conseguia conjecturar.

Sua conversa com o homem que mantinha a loja de curiosidades começou encorajadora. O homem que mantinha a loja de curiosidades tinha, de fato, o encantado com uma frase. Ele estava de pé tristemente à porta de sua loja, um homem enrugado com uma barba grisalha pontuda, evidentemente, um cavalheiro que tinha descido no mundo.

— E como é que vai o seu comércio, estranho guardião do passado? — disse Wayne, afavelmente.

— Bem, senhor, não muito bem — respondeu o homem, com a voz paciente de sua classe, que é uma das coisas mais comoventes do mundo. — As coisas estão terrivelmente quietas.

Os olhos de Wayne brilharam de repente.

— Um grande provérbio, digno de um homem cuja mercadoria é a história humana: Terrivelmente quieto. Estas duas palavras são o espírito desta época, como senti desde meu berço. Às vezes, perguntei-me quantas outras pessoas sentiam a opressão dessa união entre quietude e terror. Vejo bem ordenadas ruas brancas e homens de preto que se deslocam nelas inofensivos e mal-humorados. Isso continua dia após dia, dia após dia, e não acontece nada, mas para mim é como um sonho do qual poderia acordar gritando. Para mim, a retidão de nossa vida é a retidão de um cordão esticado. Seu silêncio é terrível. Pode estalar com um barulho de um trovão. E você que se senta no meio dos escombros das grandes guerras, você que se senta , por assim dizer, em cima de um campo de batalha, sabe que a guerra era menos terrível do que esta paz maligna, sabe que os rapazes ociosos que portavam espadas sob Francis ou Elizabeth, o rude fidalgo ou barão, que balançavam aquela maça nas batalhas de Picardy ou Northumberland, podem ter sido terrivelmente barulhentos, mas não eram como nós, terrivelmente quietos.

Seja por um fraco embaraço de consciência quanto à fonte original e data das referidas armas, ou simplesmente uma enraizada depressão, o guardião do passado olhou um pouco mais preocupado.

— Mas não acho — continuou Wayne — que este silêncio horrível da modernidade vai durar, embora acho que por enquanto vai aumentar. Que farsa é essa liberalidade moderno! Liberdade de expressão significa, na prática, em nossa civilização moderna, que devemos falar apenas sobre coisas sem importância. Não devemos falar sobre religião, porque é antiliberal; não devemos falar de pão e queijo, porque estamos falando de compras; não devemos falar sobre a morte, porque é deprimente; é preciso não falar sobre o nascimento, porque é indelicado. Não pode continuar. Algo deve quebrar essa indiferença estranha, este estranho egoísmo sonhador, esta solidão estranha de milhões de pessoas em uma multidão. Algo deve quebrá-lo. Por que não você e eu? Não pode fazer nada além de guardar relíquias?

O lojista mostrou uma expressão clareando gradualmente, o que teria levado os antipáticos à causa do Leão Vermelho a pensar que a última frase foi a única frase para a qual ele havia anexado qualquer significado.

— Eu sou um pouco velho para entrar em um novo negócio — disse ele — e não sei bem o que seria de qualquer forma.

— Por que não... — disse Wayne, gentilmente tendo atingido o cume de sua delicada persuasão — Por que não um coronel?

Foi neste momento, com toda a probabilidade, que a entrevista começou a produzir resultados mais decepcionantes. O homem parecia inclinado a considerar a sugestão de se tornar um coronel como fora da esfera de discussão imediata e relevante. A longa exposição da inevitável guerra da independência, juntamente com a compra de uma duvidosa espada do século XVI por um preço exagerado, pareceu reassentar os assuntos. No entanto, Wayne saiu da loja um pouco infectado com a melancolia de seu proprietário.

A melancolia foi completada no barbeiro.

— Barba, senhor? — perguntou o artista de dentro de sua loja.

— Guerra! — respondeu Wayne, em pé na soleira.

— Como? — disse o outro, bruscamente.

— Guerra! — disse Wayne, calorosamente. — Mas não para algo incompatível com a beleza e as artes civilizadas. Guerra pela beleza. Guerra pela sociedade. Guerra pela paz. Uma grande oportunidade é oferecida para repelir a calúnia que, em desafio a vida de tantos artistas, atribui poltronaria para aqueles que embelezam e pulem a superfície de nossas vidas. Por que não podem cabeleireiros ser heróis? Por que não...

— Agora, saia! — disse o barbeiro, irascível. — Não queremos alguém do seu tipo aqui. Saia!

E avançou com a contrariedade desesperada de uma pessoa suave quando enfurecida.

Adam Wayne colocou a mão por um momento sobre a espada, então a soltou.

— Notting Hill — disse ele — precisará de seus filhos mais ousados — e virou-se tristemente para a loja de brinquedos.

Era uma daquelas pequenas lojas estranhas tão constantemente vistas nas ruas de Londres, que só devem ser chamados de lojas de brinquedos só porque brinquedos predominam sobre o todo, pois o restante das mercadorias parecem consistir de quase tudo no mundo. De tabaco, livros de exercício, doces, novelas, clipes de papel, apontadores baratos, cordões de botas e fogos de artifício baratos. Também vendia jornais, e uma fileira de cartazes de aparência suja pendurada ao longo da frente.

— Estou com medo — disse Wayne, quando entrou — que não estou lidando com esses comerciantes como deveria. Será que negligenciei o pleno significado do trabalho deles? Existe algum segredo enterrado em cada uma dessas lojas que nenhum mero poeta pode descobrir?

Ele deu um passo para o balcão com uma depressão que rapidamente dominou quando abordou o homem no outro lado — um homem de baixa estatura e cabelo prematuramente branco, e a aparência de um grande bebê.

— Senhor — disse Wayne —, estou indo de casa em casa nesta nossa rua, buscando despertar algum senso do perigo que ameaça agora a nossa cidade. Em nenhum lugar senti meu dever tão difícil quanto aqui. Pois o lojista da loja de brinquedo tem tudo o que nos resta do Éden antes das primeiras guerras começar. Senta aqui meditando continuamente sobre os desejos do tempo maravilhoso em que toda escada levava para as estrelas, e todos os jardins eram caminhos para a outra extremidade da Terra do Nunca. Acha que é impensado que eu bata o velho e escuro tambor do perigo no paraíso das crianças? Mas considere um momento, não me condene às pressas. Mesmo o próprio paraíso contém o rumor ou início desse perigo. Assim como o Éden que foi feito perfeito continha a terrível árvore. Para julgar a infância, mesmo pelo seu próprio arsenal de prazeres, você mantém tijolos; sem dúvida para o testemunho do instinto construtivo mais velho do que o destrutivo. Você mantém bonecas, você torna-se o sacerdote dessa a idolatria divina. Você mantém Arcas de Noé; perpetua a memória da salvação de toda a vida como um bem precioso, uma coisa insubstituível. Mas, senhor, mantém apenas os símbolos desta sanidade pré-histórica, esta racionalidade infantil da terra? Não mantém as mais terríveis? Que são essas caixas, aparentemente de soldados de chumbo, que vejo nessa caixa de vidro? Não são testemunhas de que o terror e a beleza, que o desejo de uma morte linda, não pode ser excluídos até mesmo da imortalidade do Éden? Não despreze os soldadinhos de chumbo, Sr. Turnbull.

— Não desprezo — disse Turnbull, da loja de brinquedos, brevemente, mas com grande ênfase.

— Estou feliz em ouvir isso — respondeu Wayne. — Confesso que temi por meus planos militares a inocência terrível de sua profissão. O que, pensei comigo mesmo, será que este homem habituado apenas com espadas de madeira que dão prazer, pensará sobre as espadas de aço que dão dor? Mas estou pelo menos em parte tranquilizado. Seu tom sugere-me que tenho pelo menos a entrada de um portão da terra das fadas — o portão através do qual os soldados entram, isso não se pode negar — devo, senhor, não mais negar, que é de soldados que vim falar. Permita que o seu emprego suave o faça misericordioso para com os problemas do mundo. Permita que a sua própria experiência prateada diminua as nossas tristezas sanguíneas. Pois há guerra em Notting Hill.

O mantenedor da loja de brinquedo pulou de repente, batendo as mãos gordas sobre o balcão.

— Guerra? — ele gritou. —Verdade, senhor? É verdade? Oh, que piada! Oh, que vista para os olhos cansados!

Wayne foi surpreso por essa explosão.

— Estou muito contente — gaguejou. — Não tinha noção.

Ele se pôs para fora do caminho a tempo de evitar Turnbull, que deu um salto sobre o balcão e correu para a frente da loja.

— Olhe aqui, senhor — disse ele —, olhe aqui.

Voltou com dois dos cartazes rasgados que estavam do lado de fora de sua loja na mão.

— Olhe para eles, senhor — disse ele, e atirou-os no balcão.

Wayne inclinou-se sobre eles, e leu sobre um