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O Napoleão de Notting Hill cover

O Napoleão de Notting Hill

Chapter 13: O Experimento do Sr. Buck
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About This Book

A satirical narrative depicts a modern city where ceremonial offices and indifferent bureaucracy create absurd pageantry that unexpectedly kindles intense local loyalties. A seemingly trivial civic act is taken seriously by an imaginative official, prompting inhabitants to revive archaic symbols and assert territorial pride. What begins as playful medievalism escalates into an earnest confrontation between romantic idealism and administrative practicality, with symbolic rituals becoming catalysts for real conflict. The work explores tensions between imagination and rational governance, the potency of civic identity, and how small, deliberate fictions can produce unforeseen political consequences.

"O ÚLTIMO COMBATE.
SUBMISSÃO DA CIDADE DERVIXE CENTRAL.
NOTÁVEL, ETC."

No outro lado, leu:

"ÚLTIMA PEQUENA REPÚBLICA ANEXADA.
CAPITAL NICARAGÜENSE SE RENDE APÓS A LUTA DE UM MÊS.
GRANDE MATANÇA".

Wayne inclinou-se sobre eles novamente, evidentemente confuso, então olhou para as datas. Eles eram ambos de agosto, 15 anos antes.

— Por que mantém essas coisas antigas? — disse ele assustado, inteiramente fora de seu absurdo tato de misticismo. — Por que as pendura do lado de fora de sua loja?

— Porque — disse o outro, simplesmente — são registros da última guerra. Você mencionou guerra agora. Acontece ser o meu hobby.

Wayne ergueu os grandes olhos azuis com uma admiração infantil.

— Venha comigo — disse Turnbull, bruscamente, e levou-o para uma sala na parte de trás da loja. No centro da sala havia uma grande mesa. Nela foram estabelecidas linhas e linhas de soldadinhos de chumbo e estanho que faziam parte do estoque do lojista. O visitante não teria reparado nisso se não houvesse um certo agrupamento estranho deles, que não parecia nem inteiramente comercial ou totalmente casual.

— Você está familiarizado, sem dúvida — disse Turnbull, virando os olhos grandes em cima de Wayne —, com a disposição das tropas americanas e da Nicarágua na última batalha — e acenou com a mão para a mesa.

— Receio que não — disse Wayne. — Eu...

— Ah! Estava ocupado demais na época, talvez, com o caso Dervixe. Vai encontrá-lo neste canto — apontou para uma parte do chão onde havia um outro arranjo de soldados de criança agrupados aqui e ali.

— Parece — disse Wayne — estar interessado em assuntos militares.

— Não estou interessado em nada mais — respondeu o mantenedor da loja de brinquedos, simplesmente.

Wayne pareceu convulsionado com uma singular, suprimida emoção:

— Nesse caso, posso me aproximar com um grau incomum de confiança. Sobre a questão da defesa de Notting Hill, eu...

— Defesa de Notting Hill? Sim, senhor. Aqui, senhor — disse Turnbull, com grande perturbação. — Basta entrar neste quarto ao lado — e levou Wayne a outro quarto, onde a mesa estava totalmente coberta com um arranjo de tijolos de crianças. Um segundo olhar mostrou a Wayne que os tijolos foram dispostos na forma de um plano preciso e perfeito de Notting Hill. — Senhor — disse Turnbull, impressionantemente —, por um tipo de acidente, descobriu o segredo da minha vida. Como um menino, cresci entre as últimas guerras do mundo, quando a Nicarágua foi tomada e os dervixes exterminados. E a adotei como um hobby, senhor, como pode adotar a astronomia ou a taxidermia. Não tinha má vontade contra qualquer um, mas estava interessado na guerra como uma ciência, como um jogo. E de repente estava excluído. As grandes potências do mundo, depois de ter engolido todos as pequenas, chegaram a esse acordo confuso, e não houve mais guerra. Não havia nada mais para fazer, exceto o que faço agora, ler sobre as antigas campanhas em velhos jornais sujos, e recriá-las com soldadinhos de chumbo. Uma outra coisa me ocorreu. Pensei que seria uma fantasia divertida fazer um plano de como nosso distrito poderia ser defendido se fosse atacado. Isto parece interessá-lo também.

— Se fosse atacado — repetiu Wayne, admirado com uma enunciação quase mecânica. — Turnbull, ele será atacado. Graças a Deus, estou trazendo a pelo menos um ser humano, a notícia que é no fundo a única boa notícia para qualquer filho de Adão. Sua vida não tem sido inútil. Seu trabalho não tem sido um jogo. Agora, quando o cabelo já está grisalho, Turnbull, você terá a sua juventude. Deus não a destruiu, ele apenas a adiou. Vamos nos sentar aqui, e você deve explicar-me este mapa militar de Notting Hill. Pois eu e você temos que defender Notting Hill juntos.

Turnbull olhou para o outro por um momento, hesitou, e depois sentou-se ao lado dos tijolos e do desconhecido. Não levantou por sete horas, quando amanheceu.




A sede do superintendente Adam Wayne e seu comandante-em-chefe consistia de uma pequena leiteria sem muito sucesso na esquina de Pump Street. A manhã branca havia apenas começado a romper sobre os edifícios brancos de Londres quando Wayne e Turnbull estavam sentados na suja e sombria loja. Wayne tinha algo feminino em seu caráter, pertencia a essa categoria de pessoas que esquecem suas refeições quando estão fazendo algo interessante. Não tinha comido nada por 16 horas, exceto copos apressados ​​de leite, e, com um copo vazio ao lado dele, estava escrevendo, desenhando, pontilhando e cruzando com inconcebível rapidez um lápis em um pedaço de papel. Turnbull era do tipo mais masculino, no sentido que a responsabilidade aumentava seu apetite, e com o seu mapa esboçado ao lado dele estava lidando vigorosamente com uma pilha de sanduíches de um pacote de papel, e uma caneca de cerveja da taberna do lado oposto, cuja persianas tinham acabado de serem fechadas. Nenhum deles falou, e não havia nenhum som no silêncio vivo, exceto o riscar do lápis de Wayne e o guinchar de um gato sem rumo. Finalmente Wayne quebrou o silêncio, dizendo:

— Dezessete libras, oito xelins e nove pences.

Turnbull assentiu e levou a caneca à cabeça.

— Isso — disse Wayne — não conta as cinco libras de ontem. O que fez com elas?

— Ah, isso é muito interessante! — respondeu Turnbull, com a boca cheia. — Usei essas cinco libras num ato gentil e filantrópico.

Wayne estava olhando com mistificação em seus olhos estranhos e inocentes.

— Usei estas cinco libras — continuou o outro — para dar a para não menos do que quarenta menininhos passeios em táxis londrinos.

— Está louco? — perguntou o superintendente

— É apenas o meu leve toque — respondeu Turnbull. — Esses passeios de táxi vão elevar o tom (elevar o tom, meu querido companheiro) dos nossos jovens de Londres, ampliar seus horizontes, preparar seus sistemas nervosos, torná-los familiarizados com os vários monumentos públicos de nossa grande cidade. Educação, Wayne, educação. Quantos excelentes pensadores apontam que a reforma política é inútil até que tenhamos uma população culta. Assim daqui a vinte anos, quando esses meninos estiverem crescidos...

— Louco! — disse Wayne soltando o lápis. — E com menos cinco libras!

— Está errado — explicou Turnbull. — Criaturas graves como você nunca entendem o quão mais rápido o trabalho realmente se passa com a ajuda de boas refeições e o absurdo. Despojada de belezas decorativas, a minha declaração era estritamente precisa. Ontem à noite dei 40 meias-coroas a 40 meninos, e os enviei por toda a Londres para tomar cabriolés. Disse-lhes, a cada um para dizer ao taxista para levá-los a este lugar. Em meia hora a partir de agora a declaração de guerra será afixada. Ao mesmo tempo que os táxis vão começaram a entrar, você vai ordenar a guarda, os meninos vão chegar em bloco, vamos mandar os cavalos para a cavalaria, usar os táxis de barricada, e dar aos homens a escolha entre servir em nossas fileiras e a detenção em nossas cavas e adegas. Os meninos podemos usar como batedores. O principal é que vamos começar a guerra com uma vantagem desconhecida aos outros exércitos: cavalos. E agora — disse terminando sua cerveja — vou inspecionar as tropas.

E ele saiu da leiteria, deixando o superintendente olhando.

Um ou dois minutos depois, o superintendente riu. Ele só riu uma ou duas vezes em sua vida, e o fez de uma forma estranha, como se fosse uma arte que não tinha dominado. Mesmo ele viu algo engraçado no golpe absurdo das meias-coroas e os pequenos meninos. Ele não viu o absurdo monstruoso de toda a política e toda a guerra. Ele apreciou isso a sério como uma cruzada, isto é, bem mais do que qualquer piada pode ser apreciada. Turnbull gostou em parte como uma piada, mais ainda, talvez, como uma reversão das coisas que ele odiava — a modernidade, a monotonia e a civilização. Para quebrar o vasto maquinário da vida moderna e usar os fragmentos como máquinas de guerra, usar ônibus como barricadas e chaminés como pontos de observação, era para ele um jogo que valia risco e problemas infinitos. Ele teve aquela preferência racional e deliberada que será sempre problemas para a paz do mundo, a preferência racional e deliberada por uma vida curta e alegre.

O Experimento do Sr. Buck

Um pedido sincero e eloquente foi enviado para o rei assinado com os nomes de Wilson, Barker, Buck, Swindon e outros. O pedido era que na próxima conferência a ser realizada na presença de Sua Majestade sobre a disposição final das propriedades em Pump Street, com todo o decoro político e com o respeito indizível que mantinham por sua Majestade, que eles pudessem vir vestidos normalmente, sem o traje designado para eles como superintendentes. Assim aconteceu que a companhia apareceu no conselho em casacos e que o próprio rei limitou seu amor a cerimônia ao aparecer (depois de sua forma usual), de vestido de noite com uma insígnia de uma ordem — neste caso não da Ordem da Jarreteira1, mas o botão do Clube de melhores amigos do velho Clipper, uma decoração obtida (com dificuldade) a partir de uma publicação infantil de meio penny. Assim também aconteceu que o único toque de cor na sala era Adam Wayne, que entrou com grande dignidade usando grandes vestes vermelhas e uma grande espada.

— Nós nos encontramos — disse Auberon — para decidir o mais árduo dos problemas modernos. Que possamos ser bem sucedidos — e sentou-se gravemente.

Buck virou a cadeira levemente, e cruzou as pernas.

— Sua Majestade — disse ele, muito bem-humorado — só há uma coisa que eu não consigo entender: por que este assunto não pode ser resolvido rapidamente? Aqui está uma pequena propriedade que vale mil para nós e não vale cem para qualquer outra pessoa. Nós oferecemos mil. Não é um bom negócio, pois deveríamos conseguir por menos, não é razoável e não é justo para nós, mas não vejo qual é a dificuldade.

— A dificuldade pode ser explicada facilmente — disse Wayne. — Podem oferecer um milhão e ainda não terão Pump Street.

— Mas escute, Sr. Wayne — gritou Barker, golpeando com fria emoção. — Escute bem. Não tem o direito de assumir uma posição como essa. Pode barganhar por um preço maior, mas não está fazendo isso. Está recusando o que você, e qualquer homem são, sabe ser uma oferta esplêndida simplesmente por malícia ou rancor - deve ser malícia ou rancor. E isso é realmente criminoso, é contra o interesse público. O Governo do Rei poderia justificadamente forçá-lo.

Com os dedos magros espalhados sobre a mesa, olhava ansiosamente para o rosto de Wayne, que não se mexeu.

— Poderia forçá-lo… — repetiu.

— E o fará — disse Buck, breve, voltando-se para a mesa. — Fizemos o melhor para ser decentes.

Wayne levantou os grandes olhos lentamente:

— Foi o Lorde Buck, quem disse que o rei da Inglaterra ‘fará’ algo?

Buck corou e disse, irritado:

— Quero dizer que deveria. Como disse, fizemos o nosso melhor para ser generosos. Desafio qualquer um a negar. Sr. Wayne, não quero ser grosseiro, mas permita-me dizer que você deveria estar na prisão. É criminoso parar obras públicas por um capricho. Senão, com o mesmo direito que você almeja, um homem poderia também queimar dez mil cebolas em seu jardim da frente ou fazer suas crianças correr nuas na rua. Pessoas foram obrigadas a vender antes. O rei pode obrigá-lo, e espero que o faça.

— Até que o faça — disse Wayne, calmamente —, o poder e o governo desta grande nação está do meu lado e não do seu, e desafio você a desafiá-los.

—Em que sentido — gritou Barker, com os olhos e as mãos febris —, o Governo está do seu lado?

Com um movimento, Wayne desenrolou um grande pergaminho sobre a mesa. Ele foi decorado nas laterais com esboços de aquarela de sacristões em coroas e grinaldas.

— A Carta das Cidades... — começou.

Buck lançou uma imprecação brutal e riu:

— Essa tola piada. Já não tínhamos o suficiente...

— E aí você fica — gritou Wayne, erguendo-se com uma voz como de trombeta — sem argumentos, insultando o rei diante do seu rosto.

Buck ergueu-se também com os olhos ardentes:

— Sou difícil de intimidar... — começou. Mas as palavras lentas do rei soaram com incomparável gravidade:

— Lorde Buck, devo lembrar-lhe que seu rei está presente. Não é sempre que ele precisa se proteger de seus súditos.

Barker se virou para ele com gestos frenéticos:

— Pelo amor de Deus não apoie o louco agora — implorou. — Deixe sua piada para outra hora. Oh, pelo amor do céus...

— Lorde Superintendente de South Kensington — disse o rei Auberon, firmemente —, não entendo suas observações, que são proferidas com uma velocidade incomum na corte. Nem seus bem-intencionados esforços para transmitir o resto com os dedos me ajuda materialmente. Digo que o Lorde Superintendente de North Kensington, a quem falava, não deve, na presença de seu soberano, falar desrespeitosamente de ordenanças de seu soberano. Discorda?

Barker se moveu inquieto na cadeira, e Buck amaldiçoou sem falar. O rei prosseguiu em um tom de voz satisfeito:

— Lorde Superintendente de Notting Hill, prossiga.

Wayne voltou seus olhos azuis para o Rei, e para a surpresa de todos, não aparecia neles triunfo, mas uma certa angústia infantil:

— Sinto muito, vossa majestade, temo que eu seja mais que igualmente culpado que o Lorde Superintendente de North Kensington. Estávamos debatendo um pouco ansiosos, e ambos nos excedemos. Fiz isso primeiro, tenho vergonha de dizer. O Superintendente de North Kensington é, portanto, relativamente inocente. Rogo a Vossa Majestade para direcionar a sua repreensão principalmente a mim. O Sr. Buck não é inocente, pois ele falou, sem dúvida, no calor do momento, de maneira desrespeitosa. Mas no resto da discussão, ele pareceu-me ter conduzido com ótimo temperamento.

Buck parecia genuinamente satisfeito, pois homens de negócio são todos sérios e focados, e, portanto, têm certo grau de comunhão com fanáticos. O Rei, por alguma razão, parecia, pela primeira vez em sua vida, envergonhado.

— Este gentil discurso do Superintendente de Notting Hill — começou Buck, agradavelmente —, parece-me mostrar que temos pelo menos uma relação amistosa. Agora veja, Sr. Wayne. Quinhentas libras lhe foram oferecidas por um imóvel que admite não valer cem. Bem, sou um homem rico e ainda sou generoso. Digamos mil e quinhentas libras, fechamos negócio e apertamos as mãos — e levantou-se, brilhando e rindo.

— Mil e quinhentas libras — sussurrou o Sr. Wilson de Bayswater —, podemos oferecer mil e quinhentas libras?

— Mantenho a oferta — disse Buck, com vontade. — O Sr. Wayne é um cavalheiro e me defendeu. Então suponho que as negociações estão encerradas.

Wayne fez uma reverência:

— Estão realmente encerradas. Sinto muito. Não posso vender a propriedade.

— O que? — gritou o Sr. Barker, levantando-se

— O senhor Buck falou corretamente — disse o rei.

— Sim, falei — gritou Buck, levantando-se também. — Eu disse...

— O senhor Buck falou corretamente — disse o Rei —, as negociações estão encerradas.

Todos os homens da mesa levantaram-se; Wayne sozinho levantou-se sem emoção.

— Então, tenho a permissão de Vossa Majestade para partir? Dei minha última resposta. — Você a tem — disse Auberon, sorrindo, mas sem levantar os olhos da mesa. E em meio a um silêncio mortal, o Superintendente de Notting Hill saiu da sala.

— Bem... — Wilson disse, voltando-se para Barker. — E agora?

Barker balançou a cabeça desesperadamente:

— O homem devia estar em um asilo. Mas uma coisa é clara: não precisamos nos preocupar mais com ele. O homem pode ser tratado como louco.

— É claro — disse Buck, virando-se para ele com uma decisão sombria. — Está completamente certo, Barker. Ele é um bom companheiro, mas deve ser tratado como louco. Vamos colocar de forma simples. Fale com qualquer homem em qualquer cidade, a qualquer médico em qualquer cidade, que há um homem a que ofereceram mil e quinhentas libras por uma coisa que ele poderia vender normalmente por quatrocentos, e que, quando perguntado por um motivo para não aceitar, clama pela santidade inviolável de Notting Hill e a chama de Montanha Sagrada. O que diriam eles? O que mais podemos ter do nosso lado além do senso comum de todos? Sobre o que mais se baseiam as leis? Vou te dizer, Barker, o que é melhor do que qualquer discussão. Vamos enviar operários no local para derrubar Pump Street. E se o velho Wayne disser uma palavra, o prenderemos como um lunático. Isso é tudo.

Os olhos Barker se acenderam:

— Sempre considerei você, Buck, se você não se importa que eu diga, como um homem muito forte. Conte comigo.

— E comigo, é claro — disse Wilson.

Buck se levantou de novo impulsivamente.

— Vossa Majestade — disse ele, brilhando com popularidade —, peço a Vossa Majestade que considere favoravelmente a proposta a que nos comprometemos. A clemência de Vossa Majestade e as nossas próprias ofertas foram em vão para aquele homem extraordinário. Ele pode estar certo. Ele pode ser Deus. Ele pode ser o diabo. Mas achamos que, para fins práticos, o mais provável é que ele está fora de si. A menos que essa suposição seja considerada na prática, todos os assuntos humanos vão ser despedaçados. Nós agimos sobre ela, e propomos o inicio das operações em Notting Hill de uma vez.

O Rei recostou-se na cadeira:

— A Carta das Cidades … — disse ele de forma eloquente.

Mas Buck, recuperando a seriedade, também foi cauteloso, e não mais cometeu o erro do desrespeito.

— Vossa Majestade — disse ele, curvando-se, não estou aqui para dizer uma palavra contra qualquer coisa que vossa Majestade tenha dito ou feito. É um homem muito melhor educado do que eu, e sem dúvida havia razões, com fundamentos intelectuais, para tais processos. Mas posso perguntar-lhe e apelar à sua boa natureza por uma resposta sincera? Quando elaborou a Carta das Cidades, contemplou a ascensão de um homem como Adam Wayne? Esperava que a Carta — seja uma experiência, um esquema de decoração, ou uma piada – - poderia realmente levar a isto? Parar um vasto plano de negócios, fechar uma estrada, estragar as chances de táxis, ônibus, estações de trem, desorganizar metade da cidade, arriscar uma espécie de guerra civil? Quais eram seus objetivos, eram estes?

Barker e Wilson olharam para ele com admiração, o Rei mais admirado ainda.

— Superintendente Buck — disse Auberon —, fala em público incomumente bem. Reconheço isso com a magnanimidade de um artista. Meu esquema não incluía o aparecimento do Sr. Wayne. Ai! Gostaria que minha força poética fosse grande o suficiente.

— Agradeço a Vossa Majestade — disse Buck, com cortesia, mas rapidamente. — As declarações de Vossa Majestade sempre são claras e estudadas, por isso pude deduzir. Como o esquema pretendido, qualquer que fosse, não incluía o aparecimento do Sr. Wayne, irá sobreviver a sua remoção. Por que não nos deixa limpar Pump Street em particular, que interfere com os nossos planos, e que, por declaração própria de Vossa Majestade, não interfere com os vossos.

— Pego! — disse o Rei, com entusiasmo e de forma bastante impessoal, como se estivesse assistindo a uma partida de críquete.

— Este homem, Wayne — continuou Buck —, seria internado por qualquer médico da Inglaterra. Mas só pedimos para que ele seja colocado diante deles. Enquanto isso os interesses de ninguém, nem mesmo com toda a probabilidade os dele, serão realmente prejudicados continuando com as melhorias em Notting Hill. Não nossos interesses, é claro, pois foi um trabalho árduo e calmo de dez anos. Não os interesses de Notting Hill, pois quase todos os seus habitantes educados desejam a mudança. Nem os interesses de vossa Majestade, pois disse, com seu senso característico, que nunca contemplou a ascensão do lunático. Nem mesmo os próprios interesses dele, pois o homem tem um bom coração e muitos talentos, e um par de bons médicos provavelmente seriam melhor para ele do que todas as cidades livres e montanhas sagradas na criação. Por isso, assumo, se posso usar uma palavra tão ousada, que vossa Majestade não vai oferecer nenhum obstáculo para o nosso processo de melhorias.

E o Sr. Buck sentou-se em meio a aplausos suaves mas animados de seus aliados.

— Sr. Buck — disse o Rei —, perdoe-me por diversos pensamentos belos e sagrados, onde você era geralmente classificado como um tolo. Mas há outra coisa a ser considerada. Suponha que envie seus trabalhadores e o Sr. Wayne faça uma ação lamentável, mas que, lamento dizer, acho que ele seja bem capaz — de quebrar-lhes os dentes?

— Pensei nisso, vossa Majestade — disse Buck, tranquilo —, e acho que é simples de se precaver. Vamos enviar uma forte guarda de, digamos, uma centena de homens, uma centena de alabardeiros de North Kensington — sorriu sobriamente — que vossa Majestade aprecia tanto. Ou cento e cinquenta. Imagino que toda a população de Pump Street é de apenas uma centena.

— Ainda assim eles podem juntar-se e dar-lhes uma surra — disse o Rei, em dúvida.

— Então digamos duzentos — disse Buck, alegremente.

— Pode acontecer — disse o Rei, inquieto — que um de Notting Hill lute melhor do que dois de North Kensington.

— Pode — disse Buck, friamente —, então digamos duzentos e cinquenta.

O Rei mordeu o lábio.

— E se ainda forem espancados? — disse violentamente.

— Vossa Majestade — disse Buck recostando-se em sua cadeira —, suponha que consigam. É claro que todas as questões de combate são meras questões de aritmética. Por exemplo, aqui temos cento e cinquenta soldados de Notting Hill. Ou, digamos duzentos. Se um deles pode lutar contra dois, podemos enviar, não quatrocentos, mas seiscentos, e acabamos com eles. Isso é tudo. Está fora de toda probabilidade que qualquer um deles possa lutar contra quatro de nós. Então, o que digo é que não corramos riscos. Acabemos com isso de uma só vez. Enviemos oitocentos homens e esmagamos ele - esmagamos ele quase sem sequer vê-lo. E continuamos com as melhorias.

E o Sr. Buck tirou um lenço e assoou o nariz.

— Sabe sr. Buck — disse o rei, olhando melancolicamente para a mesa —, a clareza admirável de sua razão produz em minha mente um sentimento, espero não ofendê-lo ao descrever como uma aspiração de socar sua cabeça. Irrita-me sublimemente. Que pode ser isto? A relíquia de um senso moral?

— Mas, Majestade — disse Barker, ansiosamente e com suavidade —, não recusa as nossas propostas?

— Meu querido Barker, suas propostas são tão condenáveis como suas maneiras. Não quero ter nada a ver com elas. Suponha que as pare completamente. O que iria acontecer?

Barker respondeu numa voz muito baixa:

— Revolução.

O Rei olhou rapidamente para os homens à volta da mesa. Eles estavam todos olhando para baixo em silêncio: suas sobrancelhas estavam vermelhas.

Levantou-se com uma rapidez surpreendente, e uma palidez incomum:

— Senhores, vocês me venceram. Portanto, posso falar abertamente. Acho que Adam Wayne, que é tão louco como um chapeleiro, vale mais que um milhão de vocês. Mas vocês têm a força, e, admito, o senso comum, e ele está perdido. Levem seus oitocentos alabardeiros e o esmaguem. Embora fosse mais esportivo levar duzentos.

— Mais esportivo — disse Buck, severamente —, mas muito menos humano. Nós não somos artistas, e ruas manchadas de sangue não são uma boa visão.

— É lamentável — disse Auberon. — Com cinco a seis vezes o seu número, não haverá nenhuma luta.

— Espero que não — disse Buck, levantando-se e ajustando suas luvas. — Não desejamos nenhuma luta, Majestade. Somos pacíficos homens de negócios.

— Bem — disse o rei, cansado —, a conferência finalmente terminou.

E saiu da sala antes que qualquer outra pessoa se mexesse.


Quarenta operários, uma centena de alabardeiros de Bayswater, duzentos de South Kensington e trezentos de North Kensington se reuniram ao pé de Holland Walk e marcharam sob a direção geral de Barker, que parecia corado e feliz em traje completo. No final da procissão uma figura pequena e mal-humorado permaneceu como um moleque. Era o rei.

— Barker — disse por fim, apelativo —, você é um velho amigo meu, entende meus passatempos como entendo os seus. Por que não pode deixá-lo sozinho? Tinha esperanças da diversão que pudesse vir deste negócio do Wayne. Por que não pode deixá-lo sozinho? Realmente não importa muito – o que é uma estrada para você? Para mim, é a piada que pode me salvar de pessimismo. Leve menos homens e me divirta por uma hora. Realmente e verdadeiramente, James, se você colecionasse moedas ou colibris, e eu pudesse comprar um com o preço de sua estrada, iria comprá-lo. Coleciono incidentes, aqueles raros, essas coisas preciosas. Deixe-me ter um. Pago algumas libras por ele. Dê a estes habitantes de Notting Hill uma chance. Deixe-os em paz.

— Auberon – disse Barker, gentilmente, esquecendo todos os títulos reais em um raro momento de sinceridade —, compreendo o que você quer dizer. Tive momentos em que esses passatempos me atingiram. Tive momentos em que simpatizava com seus humores. Tive momentos, pode não acreditar facilmente, em que simpatizava com a loucura de Adam Wayne. Mas o mundo, Auberon, o mundo real, não funciona como esses passatempos. Funciona sobre grandes rodas brutais de fatos – rodas em que você é a borboleta, e Wayne é a mosca na roda.

Os olhos de Auberon se fixaram francamente nos de Baker:

— Obrigado, James. O que diz é verdade. É só um consolo entre parênteses para eu comparar a inteligência de moscas favoravelmente com a inteligência das rodas, mas é da natureza das moscas morrer logo, e da natureza de rodas andar para sempre. Vá em frente com a roda. Adeus, meu velho.

E James Barker continuou, rindo, com a tez corada, batendo o bambu em sua perna.

O rei viu a cauda do regimento recuando com um olhar genuíno de depressão, o que o fazia parecer mais um bebê do que nunca. Então, girou e juntou as mãos.

— Em um mundo sem humor, o único a fazer é comer. E quão perfeita exceção! Como podem ter estas atitudes as pessoas dignas, e fingir que algo importa, quando o ridículo total da vida é provado pelo próprio método pelo qual é suportada? Um homem atinge a lira, e diz: "A vida é real, a vida é séria", e depois entra em um quarto e se estufa com substâncias estranhas por um buraco em sua cabeça. Acho que a Natureza era de fato um pouco maior em seu humor nesses assuntos. Mas todos nós voltamos a pantomina, como voltei neste caso municipal. A natureza tem suas farsas, como o ato de comer ou a forma do canguru, para o apetite mais brutal. E mantém estrelas e montanhas para aqueles que apreciam coisas ridículas mais sutis. — Ele voltou-se para o seu escudeiro. — Mas, como eu disse ’comer’, vamos fazer um piquenique como duas boas crianças. Basta correr e trazer-me uma mesa e uma dúzia de pratos, e muita champanhe, e sob estes galhos balançando, Bowler, vamos voltar para a natureza.

Levou cerca de uma hora para erguer em Holland Lane a refeição simples do monarca, durante o qual ele andava para cima e para baixo assobiando, mas ainda com um ar afetado de tristeza. Realmente tinha abandonado um prazer que tinha prometido a si mesmo, e tinha aquele sentimento de vazio e desgosto de uma criança quando se decepciona com uma pantomima. Quando ele e o escudeiro se sentaram, no entanto, e consumiram uma quantidade considerável de champanhe seco, seu animo começou a reviver lentamente:

— As coisas levam muito tempo neste mundo. Detesto todo este negócio Barkeriano sobre evolução e modificação gradual das coisas. Queria que o mundo tivesse sido feito em seis dias, e feito em pedaços de novo em mais seis. E gostaria de ter feito isso. A piada é boa no geral, o sol, a lua, à imagem de Deus, e tudo mais, mas é terrivelmente longa. Já desejou um milagre, Bowler?

— Não, senhor — disse Bowler, que era um evolucionista, e que tinha sido criado cuidadosamente.

— Então, eu desejo — respondeu o rei. — Tenho andado ao longo de uma rua com o melhor charuto no cosmos na minha boca, e mais Borgonha dentro de mim do que você já viu em sua vida, e desejo que o poste se transforme num elefante para me salvar do inferno da existência vazia. Acredite na minha palavra, meu evolucionista Bowler, não acredite quando lhe dizem que as pessoas procuraram um sinal, e que acreditavam em milagres porque eram ignorantes. As pessoas faziam isso porque eram sábias, imundamente, vilmente sábias - sábias demais para comer, dormir ou se colocar em seu lugar com paciência. Isto parece deliciosamente como uma nova teoria sobre a origem do cristianismo, o que por si só, é uma coisa de não mero absurdo. Beba mais vinho.

O vento soprava em volta deles enquanto se sentaram à pequena mesa, com seu pano branco e brilhantes copos de vinho, e jogava as copas das árvores de Holland Park umas contra as outras, mas o sol estava naquele temperamento forte, que torna o verde em ouro. O rei afastou seu prato, acendeu um charuto lentamente, e continuou:

— Ontem pensei que estava próximo de presenciar um milagre realmente divertido antes de virar comida para os vermes. Ver aquele maníaco ruivo acenando com uma grande espada, e fazendo discursos para seus seguidores incomparáveis​​, seria um vislumbre da Terra da Juventude de onde formos expulsos pelas Parcas. Tinha planejado algumas coisas deliciosas. Um Congresso em Knightsbridge com um tratado, eu na cadeira, talvez um triunfo romano, com o velho alegre Barker levado em correntes. E agora esses miseráveis ​​pedantes vão acabar completamente com o requintado sr. Wayne. Suponho que vão colocá-lo em algum asilo privado de acordo com seus malditos preceitos humanistas. Pense nos tesouros que serão diariamente derramados ao seu guarda insatisfeito! Gostaria de saber se eles iriam me deixar ser seu guarda. Mas a vida é um vale. Nunca se esqueça, em qualquer momento de sua existência a considerá-la à luz de um vale. Este hábito gracioso, se não for adquirido na juventude...

O Rei parou, com seu charuto levantado, pois tinha deslizado seus olhos para o olhar assustado de um homem que escutava. Não se moveu por alguns momentos, então virou a cabeça bruscamente para a paliçada alta, magra, e como ripa que isolava amplos jardins e espaços similares da faixa de rodagem. De trás vinha um barulho curioso de escalada e raspagem, como algo desesperado preso em uma caixa de madeira fina. O Rei jogou fora seu charuto, e saltou para cima da mesa. A partir dessa posição, ele viu um par de mãos penduradas agarradas em cima do muro. Em seguida, as mãos tremeram com um esforço convulsivo, e entre elas surgiu uma cabeça – o chefe de uma as cidades do Conselho de Bayswater, seus olhos e bigodes com medo selvagem. Ele se impulsionou, e caiu do outro lado de bruços, gemendo sem parar. No momento seguinte, a madeira fina e esticada da cerca foi atingida por uma bala, reverberando como um tambor, e sobre ela vieram empurrando e xingando, com roupas rasgadas, unhas quebradas e rostos vermelhos, vinte homens correndo de uma vez. O Rei saltou os cinco pés da mesa para o chão. No momento seguinte a mesa foi arremessada, garrafas e copos voaram, e os detritos foram literalmente arrastados no chão pelo fluxo de homens que passaram, e Bowler foi levado junto com eles, como o Rei disse em seu famoso artigo de jornal, “como uma noiva raptada”. A cerca balançou e rachou sob a carga de alpinistas que ainda escalavam. Brechas enormes se abriam pela artilharia viva, e através delas o rei pode ver mais rostos frenéticos, como em um sonho, e mais homens correndo. Eram tão diversos como se alguém tivesse tirado a tampa de uma lata de lixo humano. Alguns estavam intocados, alguns estavam cortados, golpeados e sangrando, alguns estavam esplendidamente vestidos, alguns esfarrapados seminus, alguns estavam com o traje fantástico das cidades burlescas, alguns em monótonos trajes modernos. O Rei olhou para todos eles, mas nenhum deles olhou para o rei. De repente, se adiantou:

— Barker, o que é tudo isso?

— Vencido... — disse o político. — Vencido completamente... Inferno! — E lançou-se com as narinas trêmulas como a de um cavalo, e mais homens foram atrás dele.

Quase enquanto falava, a última tira da cerca em pé inclinou-se e quebrou, atirando, como uma catapulta, uma nova figura na estrada. Ele usava o vermelho flamejante dos alabardeiros de Notting Hill, e em sua arma havia sangue, e em sua face vitória. Em seguida, massas em vermelho brilhavam através dos vãos da cerca, e os perseguidores, com suas alabardas, vieram enchendo a pista. Perseguidos e perseguidores, igualmente, passavam pela pequena figura com olhos de coruja, que não tirava as mãos dos bolsos.

O rei sentiu pouco além da confusão de um homem preso numa torrente – o sentimento de homens procurando por bordas. Então aconteceu algo que nunca foi capaz depois de descrever, e que não podemos descrever por ele. De repente, na entrada escura, entre os portões quebrados de um jardim, apareceu enquadrado uma figura flamejante.

Adam Wayne, o conquistador, com o rosto atirado para trás, sua juba como um leão, estava com sua grande espada apontando para o alto, a vestimenta vermelha de seu trabalho batendo ao seu redor como as asas vermelhas de um arcanjo. E o Rei viu, não sabia como, algo novo e irresistível. As grandes árvores verdes e as túnicas vermelhas balançavam juntas com o vento. A espada parecia feita para a luz do sol. As máscaras absurdas, nascidas de seu próprio escárnio, se elevavam e abraçavam o mundo. Este era o normal, isto era sanidade, esta era a natureza, e ele mesmo, com sua racionalidade e seu desprendimento e sua sobrecasaca preta, ele era a exceção e o acidente, uma mancha preta sobre um mundo vermelho e dourado.


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tradicional ordem de cavalaria britânica

Livro IV

A Batalha das Lâmpadas

O sr. Buck que, apesar de aposentado, frequentemente descia para suas grandes lojas de roupas em Kensington High Street, estava fechando as instalações, sendo o último a sair. Era um anoitecer maravilhoso de verde e ouro, mas isso não o incomodou muito. Se você tivesse chamado sua atenção, ele teria concordado com seriedade, pois os ricos sempre desejam ser artísticos.

Ele saiu para o ar frio, abotoando o casaco leve amarelo, e soltando grandes nuvens de seu charuto, quando uma figura correu até ele em outro casaco amarelo, mas desabotoado e com a parte de trás levantada pelo vento.

— Olá, Barker! — disse que o comerciante. — Algum de nossos artigos de verão? Está muito atrasado. Leis fabris, Barker. Humanidade e progresso, meu garoto.

— Oh, não começa — gritou Barker, batendo os pés no chão. — Fomos derrotados.

— Derrotados... Por quê? — perguntou Buck, mistificado.

— Por Wayne.

Buck olhou para o rosto branco feroz de Barker pela primeira vez, que brilhava à luz do lampião.

— Venha tomar uma bebida — disse ele.

Foram para um buffet almofadado deslumbrante, e Buck sentou-se de forma lenta e preguiçosa em um banco, e puxou sua cigarreira.

— Como isso aconteceu? — perguntou Buck, encarando-o com seus grandes olhos ousados.

— Como diabos vou saber? — gritou Barker. — Aconteceu assim, como um sonho. Como podem duzentos homens derrotar seiscentos? Como podem?

— Bem — disse Buck, friamente —, como é que o fizeram? Você deve saber.

— Não sei, não posso descrever — disse o outro, tamborilando na mesa. — Foi mais ou menos assim. Eramos seiscentos, marchávamos com essas malditas poleaxes de Auberon – as únicas armas que temos. Marchamos em dupla, lado a lado. Subimos por Holland Walk, entre as estacas altas que pareciam ir direto como flechas para a Pump Street. Estava perto do final da fila, e era uma longa fila. Quando o final dela ainda estava entre as altas estacas, a cabeça da fila já estava atravessando Holland Park Avenue. Então a cabeça mergulhou na rede de ruas estreitas do outro lado, enquanto eu e o resto da cauda chegamos na grande travessa. Quando também chegamos ao lado norte e surgiu uma pequena rua que apontava, de forma torta, para Pump Street, tudo parecia diferente. As ruas se torciam e se inclinavam tanto que a cabeça da nossa fila parecia completamente perdida: poderia muito bem estar na América do Norte. E todo esse tempo não vimos ninguém...


Mapa do campo de batalha.

Buck, que estava preguiçosamente batendo a cinza do cigarro no cinzeiro, começou a espalhar as cinzas deliberadamente sobre a mesa, fazendo linhas cinzentas emplumadas, uma espécie de mapa.

— Mas, embora as pequenas ruas estivessem desertas (o que me dava nos nervos), enquanto nos aprofundávamos, algo começou a acontecer que eu não conseguia entender. Às vezes, com um longo caminho pela frente – como se fosse três voltas ou cantos à frente – de lá partia de repente uma espécie de ruído, barulhos e gritos confusos, e depois parava. Então aconteceu, algo que não posso descrever, uma espécie de tremor ou cambaleio que veio para a parte de baixo da fila, como se a fila fosse uma coisa viva, cuja cabeça tinha sido atingida, ou fosse um cabo elétrico. Nenhum de nós sabia por que estávamos nos movendo, mas nos movemos e empurramos. Então, nos recuperamos, e fomos pelas ruazinhas sujas, de cantos arredondados, e formas retorcidas. As pequenas ruas tortuosas começaram a me dar um sentimento que não posso explicar, como se fosse um sonho. Eu me senti como se as coisas tivessem perdido a razão, e nunca sairia do labirinto. Estranho ouvir-me falar assim, não é? As ruas eram bem conhecidas, todas no mapa. Mas o fato permanece. Eu não estava com medo de algo acontecer. Eu tinha medo de nada acontecer, de nada acontecer por toda a eternidade de Deus.

Ele esvaziou o copo e pediu mais uísque. Bebeu, e prosseguiu:

— E então algo aconteceu. Buck, é a verdade solene, que nada nunca aconteceu com você em toda a sua vida. Nada me aconteceu em toda minha vida.

— Nada aconteceu! — disse Buck, olhando. — O que você quer dizer?

— Nada jamais aconteceu — repetiu Barker, com uma obstinação mórbida. — Você não sabe o que algo acontecer significa. Senta-se em seu escritório esperando clientes, e os clientes vêm; anda na rua esperando os amigos, e os amigos te encontram; quer um drinque, e o obtém; sente-se inclinado a uma aposta, e a faz. Espera ganhar ou perder, e ganha ou perde. Mas coisas acontecendo... —, e ele estremeceu incontrolavelmente.

— Vá em frente — disse Buck, brevemente. — Continue.

— À medida que caminhava cansado pelos cantos, algo aconteceu. Quando algo acontece, acontece primeiro, e você vê depois. Acontece por si só, e você não tem nada a ver com isso. Isso prova uma coisa terrível, que existem outras coisas além de si mesmo. Só posso colocar desta forma. Demos uma volta, duas voltas, três voltas, quatro voltas, cinco. Então levantei-me lentamente da sarjeta de onde tinha caído meio sem sentidos, e foi abatido novamente por homens batendo em cima de mim, e o mundo estava cheio de rugir, e grandes homens caindo como pinos de boliche.

Buck olhou para o mapa com a testa enrugada.

— Isso foi em Portobello Road? —, perguntou ele.

— Sim — disse Barker —, em Portobello Road. Vi depois; mas, meu Deus, que lugar era! Buck, já foi pisoteado na cabeça por homens com sapatos de ponta de aço? Porque, quando tem essa experiência, como diz Walt Whitman, “você reexamina as filosofias e religiões”.

— Não duvido — disse Buck. — Se isso foi Portobello Road, não viu o que aconteceu?

— Sei o que aconteceu bem demais. Fui derrubado quatro vezes; uma experiência que, como disse, tem um efeito sobre sua atitude mental. E outra coisa aconteceu, também. Derrubei dois homens. Após a quarta queda (não havia muito derramamento de sangue, mais brutais empurrões e coisas atiradas, pois ninguém conseguia usar suas armas), após a quarta queda, me levantei como um demônio, e tomei um poleaxe da mão de um homem e golpeou onde vi o escarlate dos companheiros de Wayne, golpei de novo e de novo. Dois deles caíram, sangrando nas pedras, graças a Deus, e eu ri e me achei estatelado na sarjeta de novo, e me levantei novamente, e golpei de novo, e quebrei minha alabarda em pedaços. Machuquei a cabeça de um homem, no entanto.

Buck pousou o copo num estrondo, e cuspiu maldições pelo seu bigode espesso.

— Qual é o problema? — perguntou Barker, parando, pois o homem estava calmo até o momento, mas agora sua agitação era muito mais violenta do que a sua própria.

— O problema? — disse Buck, amargamente. — Não vê como esses maníacos nos pegaram. Por que dois idiotas, um palhaço e o outro um louco gritando, alteraram tanto homens sãos? Olhe aqui, Barker, vou dar-lhe um panorama. Um jovem muito bem-educado deste século está dançando em uma sobrecasaca. Ele tem em suas mãos uma alabarda do século XVII sem sentido, com a qual ele está tentando matar homens em uma rua de Notting Hill. Droga! Não vê como eles nos pegaram? Não importa como você se sentiu, é assim que pareceu. O rei iria colocar a maldita cabeça de lado e chamar isso de requintado. O superintendente de Notting Hill iria levantar seu maldito nariz e chamar de heroico. Mas em nome de Deus o que você teria chamado isso – dois dias atrás?

Barker mordeu o lábio:

— Não passou por isso, Buck. Não entende de combate – a atmosfera.

— Não nego a atmosfera — disse Buck, batendo na mesa. — Só digo que é a atmosfera dele. É atmosfera de Adam Wayne. É a atmosfera que você e eu pensamos já tinha desaparecido de um mundo educado para sempre.

— Bem, não desapareceu — disse Barker —, e se tiver quaisquer dúvidas, empresta-me um poleaxe, e vou lhe mostrar.

Houve um longo silêncio, e então Buck virou-se para seu vizinho e falou em um tom bem-humorado que vem de um poder de encarar fatos de frente – com que ele concluiu grandes barganhas.

— Barker, você está certo. Esta coisa velha – esta luta, voltou. Voltou de repente e nos pegou de surpresa. Por isso, a primeira batalha é de Adam Wayne. Mas, a menos que a razão, a aritmética e tudo mais tenham enlouquecido, a próxima e última deve ser nossa. Quando um problema surge, há apenas uma coisa a fazer – estudar essa questão e ganhar. Barker, uma vez que é luta, temos de compreender a luta. Preciso entender de lutas tão friamente e completamente como entendo de roupas, você deve entender a luta tão friamente e completamente como entende de política. Agora, olhe para os fatos. Continuo sem hesitação com a minha fórmula original. Luta, quando temos a força mais forte, é só uma questão de aritmética. Deve ser. Você me pergunta agora como duzentos homens podem derrotar seiscentos. Posso lhe dizer. Duzentos homens podem derrotar seiscentos quando os seiscentos se comportam como tolos. Quando eles esquecem as próprias condições em que estão lutando, quando lutam em um pântano como estivessem em uma montanha, quando lutam em uma floresta como se estivessem em uma planície, quando lutam nas ruas sem lembrar do objetivo das ruas.

— Qual é o objetivo das ruas? — perguntou Barker.

— Qual é o objetivo do jantar? — gritou Buck, furiosamente. — Não é óbvio. Esta ciência militar é mero senso comum. O objetivo de uma rua é levar de um lugar para outro; portanto, todas as ruas se juntam, por isso luta de rua é muito peculiar. Você avançou em uma colmeia de ruas como se estivesse avançando em uma planície aberta onde pode ver tudo. Em vez disso, estava avançando nas entranhas de uma fortaleza, com ruas apontando, ruas virando, ruas pulando em você, e todas nas mãos do inimigo. Sabe o que é Portobello Road? É o único ponto em sua jornada onde duas ruas laterais encontram-se frente a frente. Wayne concentrou seus homens nos dois lados, e quando deixou o suficiente de sua fila passar, a cortou em duas como um verme. Não vê o que teria salvado você?

Barker balançou a cabeça.

— A “atmosfera” não pode ajudá-lo? — perguntou Buck, amargamente. — Devo tentar explicações de forma romântica? Suponha que enquanto estava lutando cegamente com os habitantes vermelhos de Notting Hill que prenderam vocês por ambos os lados, ouvissem um grito atrás deles. Suponha, oh, romântico Barker, que por trás das túnicas vermelhas estivessem o azul e dourado de South Kensington, pegando-os pela traseira, envolvendo-os, e jogando-os nas suas alabardas.

— Se isso tivesse sido possível — começou Barker, xingando.

— Isso teria sido possível — disse Buck, simplesmente —, tão simples como a aritmética. Há um certo número de ruas que levam para Pump Street. Não há novecentos; não há nove milhões. Elas não crescem durante a noite. Não aumentam como cogumelos. Deve ser possível, com uma força tão esmagadora como temos, avançar por todas ao mesmo tempo. Em cada uma das artérias, ou caminhos, podemos colocar quase tantos homens como Wayne pode colocar no campo todo. Uma vez que façamos isso, nós o temos para a demonstração. É como uma proposição de Euclides.

– Acha que é certo? — Barker disse, ansioso, mas dominado pelo deleite.

— Vou dizer o que penso — disse Buck, levantando-se jovialmente. — Acho que Adam Wayne teve uma pequena luta espiritualmente incomum, e acho que estou confusamente com pena dele.

— Buck, você é um grande homem! — gritou Barker, levantando também. — Você me fez recuperar a sensatez novamente. Tenho vergonha de dizer isso, mas estava ficando romântico. Naturalmente, o que diz faz sentido adamantino. Luta, sendo física, deve ser matemática. Fomos espancados porque não fomos nem matemáticos, nem físicos, nem nada – porque merecíamos ser espancados. Mantenhamos todos os caminhos, e com a nossa força, devemos vencer. Quando vamos começar a próxima campanha?

— Agora — disse Buck, e saiu do bar.

— Agora! — gritou Barker, seguindo-o ansiosamente. — Quer dizer agora? É tão tarde.

Buck voltou-se para ele, batendo no chão.

— Acha que a luta está sujeita a leis trabalhistas? — disse, e chamou um táxi. — Para o portão da estação de Notting Hill — disse, e os dois foram embora.