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O Napoleão de Notting Hill cover

O Napoleão de Notting Hill

Chapter 20: A Última Batalha
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About This Book

A satirical narrative depicts a modern city where ceremonial offices and indifferent bureaucracy create absurd pageantry that unexpectedly kindles intense local loyalties. A seemingly trivial civic act is taken seriously by an imaginative official, prompting inhabitants to revive archaic symbols and assert territorial pride. What begins as playful medievalism escalates into an earnest confrontation between romantic idealism and administrative practicality, with symbolic rituals becoming catalysts for real conflict. The work explores tensions between imagination and rational governance, the potency of civic identity, and how small, deliberate fictions can produce unforeseen political consequences.




“Simplesmente não posso descrever o que se seguiu. Sinto muito, mas há tal coisa como a fadiga física, como a náusea física, e, devo acrescentar, como terror físico. Basta dizer que o parágrafo acima foi escrito cerca de 11 horas da manhã, e que agora é cerca de duas horas da tarde, e que a batalha ainda não terminou, e não é provável que termine. Basta dizer que além das ruas íngremes que levam desde a Torre de Água para a alta estrada de Notting Hill, sangue esteve correndo, e está correndo, em grandes serpentes vermelhas, que se enrolam na via principal e brilham na lua.”




"Depois: O toque final foi dado a toda esta futilidade terrível. Horas se passaram; amanheceu, os homens ainda estão balançando, lutando ao pé da torre e na esquina de Aubrey Road; a luta não terminou. Mas sei que é uma farsa.

Notícias acabam de chegar para mostrar que a incrível surtida de Wayne, seguida pela resistência incrível por uma noite inteira no muro da torre d’água, foi inútil. Qual era o objetivo desse estranho êxodo provavelmente nunca saberemos, pela simples razão de que todo aquele que sabia provavelmente estará cortado em pedaços no decorrer das próximas dois ou três horas.

Ouvi, cerca de três minutos atrás, que os métodos de Buck ganharam ao final. Ele estava perfeitamente correto, é claro, quando se pensa nisso, ao considerar que era fisicamente impossível para uma rua derrotar uma cidade. Enquanto pensamos que estava patrulhando as portas orientais com seu exército púrpura; enquanto estávamos correndo pelas ruas e acenando alabardas e lanternas, enquanto o pobre Wilson estava planejando como Moltke e combatendo como Aquiles para prender o superintendente selvagem de Notting Hill — o Sr. Buck, comerciante de tecidos aposentado, simplesmente pegou um táxi e fez algo tão simples como manteiga e tão útil e desagradável quanto. Desceu até South Kensington, Brompton, e Fulham, e gastando cerca de quatro mil libras de seus meios privados, levantou um exército de quase tantos homens; isto é, um grande exército suficiente para vencer, não apenas Wayne, mas Wayne e todos os seus inimigos presentes juntos. O exército, entendo, está acampado junto a High Street, Kensington, e preenche da Igreja até Addison Road Bridge. É para avançar por dez caminhos diferentes subindo para o norte.

Não posso suportar ficar aqui. Tudo torna isto pior do que o necessário. O amanhecer, por exemplo, chegou a Campden Hill; espaços esplêndidos de prata, com borda de ouro, rasgam o céu. Pior ainda, Wayne e seus homens sentiram o amanhecer; seus rostos, embora sangrentos e pálidos, são estranhamente esperançosos... insuportavelmente patético. Pior de tudo, no momento estão ganhando. Se não fosse por Buck e do seu novo exército poderiam apenas, e somente apenas, ganhar.

Repito, não aguento. É como assistir a essa velha peça maravilhosa de Maeterlinck (conhecem minha parcialidade para os saudáveis, alegres velhos autores do século XIX), em que se tem que observar a conduta tranquila de pessoas dentro de uma sala de estar, mesmo sabendo que há homens na porta cuja palavra pode explodir tudo com tragédia. E é pior, pois os homens não estão falando, mas se contorcendo e sangrando e caindo mortos por uma coisa que já está resolvida e decidida contra eles. As grandes massas cinzentas de homens ainda trabalham, puxam e balançam lá e para cá em torno da grande torre cinza, e a torre ainda está imóvel, como será sempre imóvel. Esses homens serão esmagados antes de o sol se por, e novos homens irão surgir e ser esmagados, e novos erros serão feitos, e a tirania vai sempre se levantar de novo, como o sol, e a injustiça sempre será tão fresca como as flores da primavera. E a torre de pedra vai sempre olhar para baixo. A matéria, em sua beleza brutal, sempre olha para baixo para aqueles que são loucos o suficiente para consentir em morrer, e ainda mais loucos, uma vez que consentem em viver.”




E assim terminou abruptamente a primeira e última contribuição do Correspondente Especial do Jornal da Corte nesse valorizado periódico.

O correspondente, como já foi dito, estava simplesmente triste e enjoado com a última notícia do triunfo de Buck. Ele desceu desleixado tristemente a íngreme Aubrey Road, que na noite anterior tinha subido em uma excitação tão incomum, e caminhou para a estrada principal vazia iluminada pelo amanhecer, procurando vagamente por um táxi. Não viu nada no espaço aberto, exceto algo reluzente azul e dourado, correndo muito rápido, que parecia à primeira vista algo como um besouro muito alto, mas acabou, para sua grande surpresa, por ser Barker.

— Já ouviu a boa notícia? — perguntou o cavalheiro.

— Sim —, disse Quin, com uma voz calma. — Ouvi as boas novas de grande alegria. Vamos pegar uma carruagem até Kensington? Vejo uma ali.

Eles pegaram o táxi, e foram, em quatro minutos, em frente às fileiras do multitudinário e invencível exército. Quin não tinha falado uma palavra em todo o trajeto, e algo nele tinha impedido o essencialmente impressionável Barker de falar também.

O grande exército, que se movia em Kensington High Street, chamava muitas cabeças para as inúmeras janelas, pois fazia tempo, de fato – mais do que a vida da maioria dos jovens – que um exército destes tinha sido visto em Londres. Em comparação com a vasta organização que agora estava engolindo quilômetros, com Buck na dianteira como líder, e o rei na traseira ​​como jornalista, toda a história do problema era insignificante. Na presença daquele exército, os vermelhos de Notting Hill e os verdes de Bayswater eram igualmente pequenos grupos dispersos. Em sua presença todo o esforço em torno de Pump Street era como um formigueiro sob o casco de um boi. Todo homem que sentiu ou olhou aquela infinidade de homens sabia que era o triunfo da aritmética brutal de Buck. Se Wayne estava certo ou errado, sábio ou tolo, era um assunto muito justo para discussão. Mas era uma questão de história. Ao pé da Church Street, em frente à igreja de Kensington, fizeram uma pausa com um brilhante bom humor.

— Vamos enviar algum tipo de mensageiro ou nos anunciar a eles — disse Buck, virando-se para Barker e do rei. — Vamos enviar e pedir-lhes para se render sem mais confusão.

— O que vamos dizer a eles? — disse Barker, em dúvida.

— Os fatos são suficientes para o caso — respondeu Buck. — São os fatos que convencem uma rendição do exército. Vamos simplesmente dizer que os dois exércitos lutando agora são, no total, cerca de mil homens. Digamos que temos quatro mil. É muito simples. Dos mil combatentes, agora o inimigo tem no máximo trezentos, então com estes trezentos, agora tem de lutar contra quatro mil e setecentos homens. Deixe-os fazê-lo se os divertem.

E o superintendente de North Kensington riu.

O arauto despachado até Church Street em toda a pompa azul e dourada de South Kensington, com os três pássaros em seu tabardo, foi acompanhado por dois trompetistas.

— O que vão fazer quando se renderem? — perguntou Barker, a fim de dizer algo no silêncio repentino do imenso exército.

— Conheço Wayne muito bem — disse Buck, rindo. — Quando se submeter, irá enviar um arauto vermelho flamejante com o Leão de Notting Hill. Mesmo a derrota será agradável para ele, desde que formal e romântica.

O Rei, que caminhou até a cabeça da linha, quebrou o silêncio pela primeira vez:

— Não me espantaria se ele desafiar você, e não enviar o arauto depois de tudo. Não acho que conhece Wayne tão bem quanto pensa.

— Tudo bem, vossa Majestade, — disse Buck, tranquilamente — se não for desrespeitoso, demonstrarei meus cálculos políticos de uma forma muito simples, aposto dez libras por um xelim que o arauto retorna com a rendição.

— Tudo bem — disse Auberon. — Posso estar errado, mas a minha noção de Adam Wayne é que ele vai morrer em sua cidade, e que, até que esteja morto, esta não vai ser uma propriedade segura.

— A aposta está feita, vossa Majestade — disse Buck.

Outro longo silêncio se seguiu, no curso do qual Barker sozinho, em meio ao exército imóvel, caminhou batendo os pés em seu jeito inquieto.

Então, de repente, Buck inclinou-se para a frente:

— Vou tomar o seu dinheiro, vossa Majestade. Eu sabia. Lá vem o arauto de Adam Wayne.

— Não — gritou o rei, olhando a frente também. — Seu bruto, é um ônibus vermelho.

— Não — disse Buck, calmamente, e o rei não respondeu, pois por baixo do centro da espaçosa e silenciosa Church Street estava andando, sem sombra de dúvida, o arauto do Leão Vermelho, com dois trompetistas.

Buck tinha algo nele que lhe ensinou a ser magnânimo. Em sua hora de sucesso, sentiu-se magnânimo para com Wayne, a quem realmente admirava; magnânimo para com o Rei, por quem fora marcado tão publicamente, e, acima de tudo, magnânimo para com Barker, que era o líder titular deste vasto exército de South Kensington, que seu próprio talento tinha evocado.

— General Barker — disse ele, curvando-se —, se propõe a receber a mensagem do sitiado?

Barker também se curvou, e avançou para o arauto.

— Seu mestre, o Sr. Adam Wayne, recebeu nosso pedido para rendição? — perguntou ele.

O arauto transmitiu uma afirmativa solene e respeitosa.

Barker retomou, tossindo um pouco, mas encorajado.

— Qual a resposta que seu mestre enviou?

O arauto novamente inclinou-se submisso, e respondeu com uma espécie de monotonia:

— Minha mensagem é esta. Adam Wayne, alto lorde superintendente de Notting Hill, sob a Carta do Rei Auberon e as leis de Deus e toda a humanidade, livre e de uma cidade livre, cumprimenta James Barker, alto lorde superintendente de South Kensington, pelos mesmos direitos livre e honrado, líder do exército do sul. Com toda a amigável reverência, e com toda a consideração constitucional, deseja que James Barker deponha suas armas, e que todo o exército sob seu comando que deponha as armas também.

Antes que as palavras terminassem o rei correu para o espaço aberto com os olhos brilhando. O resto do pessoal e da vanguarda do exército ficou literalmente sem fôlego. Quando se recuperaram, começaram a rir além da contenção; a revulsão foi muito repentina.

— O alto lorde superintendente de Notting Hill — continuou o arauto —, não propõe, no caso de sua rendição, usar sua vitória para um destes fins repressivos que outros têm entretido contra ele. Permitirá suas leis livres e suas cidades livres, suas bandeiras e seus governos. Ele não vai destruir a religião de South Kensington, ou esmagar os velhos costumes de Bayswater.

Uma explosão de riso incontrolável subiu da vanguarda do grande exército.

— O rei deve ter tido algo a ver com este humor — disse Buck, batendo na coxa. — É muito deliciosamente insolente. Barker, um copo de vinho.

E em sua convivialidade ele realmente enviou um soldado ao restaurante em frente à igreja que trouxe dois copos para um brinde.

Quando o riso tinha morrido, o arauto continuou bastante monótono:

— No caso da rendição de seus exércitos e dispersão sob a superintendência de nossas forças, seus direitos locais serão cuidadosamente observados. No caso de não fazê-lo, o alto lorde superintendente de Notting Hill deseja anunciar que acaba de capturar a Torre de Água, logo acima, em Campden Hill, e que dentro de 10 minutos a partir de agora, isto é, recebendo através de mim a sua recusa, abrirá o grande reservatório e inundará todo o vale onde estão sob trinta metros de água. Deus salve o Rei Auberon!

Buck deixou cair o copo e fez um grande respingo de vinho sobre a estrada.

— Mas-mas... — disse, e em seguida, com um último e esplêndido esforço de sua grande sanidade, observou os fatos a sua frente.

— Temos que nos render — disse ele. — Não se pode fazer nada contra cinquenta mil toneladas de água descendo uma colina íngreme, a dez minutos daqui. Devemos nos render. Nossos quatro mil homens bem poderiam ser quatro. Vicisti Galilæe! Perkins, pode me pegar outro copo de vinho.

Desta forma, o vasto exército de South Kensington foi rendido e Império de Notting Hill começou. Um fato a mais neste contexto que talvez vale a pena mencionar - o fato de que, após a sua vitória, Adam Wayne fez com que a grande torre em Campden Hill fosse revestida com ouro e inscrita com um grande epitáfio, dizendo que era o monumento a Wilfrid de Lambert, o defensor heroico do lugar, e coroada com uma estátua, que não fazia justiça a seu grande nariz.

Livro V

O Império de Notting Hill

Na noite de três de outubro, vinte anos após a grande vitória de Notting Hill, que conseguiu o domínio de Londres, o rei Auberon saiu, como antigamente, do Palácio de Kensington.

Havia mudado muito pouco, exceto por um ou dois traços cinzentos em seu cabelo, pois o seu rosto sempre tinha sido velho, e o seu passo lento, e, por assim dizer, decrépito.

Se parecia velho, não era por causa de algo físico ou mental. Era porque ainda usava, com um conservadorismo pitoresco, o fraque e chapéu alto dos dias de antes da grande guerra. Dizia ele:

— Sobrevivi ao Dilúvio. Sou uma pirâmide, e devo me comportar como tal.

Enquanto ele passava pela rua os habitantes de Kensington, em suas pitorescas batas azuis, o saudavam como rei, e em seguida, olhavam para ele como uma curiosidade. Parecia estranho a eles que os homens tivessem alguma vez usado um traje tão élfico.

O Rei, cultivando a caminhada atribuída ao mais antigo habitante (seus amigos estavam agora confidencialmente o chamando "Velho Auberon"), foi a passos vacilantes para o norte. Ele fez uma pausa, com uma reminiscência em seu olho, no Portão Sul de Notting Hill, um dos nove grandes portões de bronze e aço, forjados com marcas de batalhas antigas, pela mão do mesmo Chiffy.

— Ah! – disse, balançando a cabeça e assumindo um ar desnecessário de idade, e um sotaque provinciano. — Lembro quando não havia nada disso aqui.

Passou pelo portão Ossington, com um grande leão no topo, feito em cobre vermelho e latão amarelo, com o lema: "Notting Ill" (Nada mal). O guarda em vermelho e ouro o saudou com sua alabarda.

O sol estava para se por, e as lâmpadas estavam sendo acesas. Auberon fez uma pausa para olhá-las, pois eram os melhores trabalhos de Chiffy, e seu olhar artístico nunca deixou de festar com elas. Em memória a Grande Batalha das Lâmpadas, sobre cada grande lâmpada de ferro havia uma figura velada, espada na mão, segurando sobre a chama uma capa de ferro ou extintor, como se estivesse pronto para usá-la se os exércitos do sul e do oeste mostrassem de volta suas bandeiras na cidade. Assim, nenhuma criança de Notting Hill poderia brincar nas ruas sem os próprios postes de iluminação lembrando-as da salvação de seu país naquele ano terrível.

— O velho Wayne estava certo de certa forma — comentou o rei. — A espada faz coisas bonitas. Agora tornou o mundo inteiro romântico. E pensar que as pessoas me consideravam um palhaço por sugerir uma Notting Hill romântica. Pobre de mim, pobre de mim! (Acho que é esta a expressão.) Parece outra vida.

Virando a esquina, encontrou-se em Pump Street, em frente das quatro lojas onde Adam Wayne tinha estudado vinte anos antes. Entrou ociosamente na loja do sr. Mead, o dono da mercearia. O sr. Mead estava um pouco mais velho, como o resto do mundo, e sua barba vermelha, que agora usava com um bigode, longa e cheia, estava parcialmente esbranquiçada e descolorida. Ele estava vestido com uma túnica longa e ricamente bordada de azul, marrom e vermelho, entrelaçado com um complexo padrão oriental, e coberta com símbolos obscuros e imagens, representando suas mercadorias que passavam de mão em mão e de nação para nação. Em volta do pescoço estava a corrente com o corte azul carraca em turquesa, que usava como o Grão-Mestre das Mercearias. A loja inteira tinha a aparência sombria e suntuosa de seu proprietário. Os produtos eram exibidos com destaque como nos dias antigos, mas agora estavam misturados e combinados com um sentido de tonalidade e de agrupamento, muitas vezes negligenciado pelas mercearias opacas dos dias esquecidos. Os produtos eram mostrados claramente, mas mostrou não tanto como um velho merceeiro mostraria seu estoque, mas sim como um virtuoso educado mostraria seus tesouros. O chá foi armazenado em grandes vasos azuis e verdes, inscritos com as nove palavras indispensáveis ​​dos sábios da China. Outros vasos de um confuso laranja e roxo, menos rígido e dominante, mais humilde e sonhador, armazenavam simbolicamente o chá da Índia. Uma linha de caixas de um metal prateado continha simples carnes enlatadas. Cada uma tinha uma forma rude, mas rítmica, como uma concha, uma corneta, um peixe, ou uma maçã, para indicar o material que tinha sido enlatados.

— Vossa Majestade — disse o sr. Mead fazendo uma reverência oriental. — É uma honra para mim, mas ainda mais uma honra para a cidade.

Auberon tirou o chapéu:

— Sr. Mead, Notting Hill, seja dando ou tomando, nada faz sem honra. Acaso vende alcaçuz?

— Alcaçuz, senhor — disse Mead —, não é o menos importante dos nossos benefícios do coração escuro da Arábia.

E indo reverentemente em direção a uma caixinha verde e prata, feita sob a forma de uma mesquita árabe, prosseguiu a servir o seu cliente.

— Estava pensando, Sr. Mead — disse o Rei, pensativo. — Não sei por que eu deveria pensar sobre isso agora, mas estava pensando sobre vinte anos atrás. Lembra-se dos tempos de antes da guerra?

O merceeiro, tendo envolvido os palitos de alcaçuz em um pedaço de papel (inscrito com algum sentimento apropriado), levantou os olhos cinzentos grandes sonhadores, e olhou para o céu escuro lá fora:

— Oh sim, sua Majestade. Lembro-me dessas ruas antes do lorde superintendente começar a nos governar. Não me lembro muito bem como nos sentimos; todas as grandes canções e a luta mudam uma pessoa; e não acho que nós podemos realmente avaliar tudo o que devemos ao superintendente, mas me lembro de sua vinda a esta loja vinte e dois anos atrás, e me lembro das coisas que ele disse. O singular é que, tanto quanto me lembro, achei as coisas que ele disse estranhas na época. Agora são as coisas que eu disse, tanto quanto me lembro delas, que me parecem estranhas – tão estranhas quanto as travessuras de um louco.

— Ah! — disse o Rei, e olhou para ele com uma tranquilidade insondável.

— Eu achava que não havia nada demais em ser dono de uma mercearia — disse ele. — Isso não é bastante estranho? Não pensava nada sobre todos os lugares maravilhosos de onde meus bens vieram, e as formas maravilhosas de que são feitas. Não sabia que era para todos os efeitos práticos, um rei com escravos espetando peixes perto de uma piscina secreta, e coletando frutos nas ilhas sob o mundo. Minha mente estava em branco sobre isso. Era tão louco como um chapeleiro.

O rei virou-se também, e olhou para a escuridão, onde as grandes lâmpadas que comemoravam a batalha já estavam em chamas.

— E este é o fim do pobre velho Wayne? – disse, meio para si mesmo. — Inflamar a todos tanto que ele está perdido nas chamas. É essa a vitória que ele, meu incomparável Wayne, é agora apenas um num mundo de Waynes? Que conquistou e tornou-se comum por conquista? Deve o sr. Mead Senhor! Que mundo estranho, em que um homem não pode permanecer único, mesmo tomando o cuidado de enlouquecer!

E foi sonhador para fora da loja.

Parou em frente da próxima quase exatamente como o superintendente havia feito duas décadas antes:


“Boa noite, senhor” disse o químico.

— Como é invulgarmente assustadora, esta loja! Mas ainda de alguma forma encorajadora assustadora, convidativa assustadora. Parece algo de uma alegre velha história infantil onde está apavorado, e ainda assim sabe que as coisas sempre acabam bem. A maneira que aqueles pequenos frontões afiados são esculpidos como grandes asas pretas de morcego dobrados para baixo, e a forma como estas bacias de cor estranha abaixo brilham como gigantescos globos oculares. Parece uma cabana de um bruxo benevolente. Aparentemente, é uma farmácia.

Quase enquanto falava, o Sr. Bowles, o químico, veio a sua porta da loja com uma toga e capuz de veludo preto longo, monástica como era, mas ainda com um toque de diabólica. Seu cabelo ainda era muito preto, e seu rosto ainda mais pálido do que velho. O único ponto colorido que carregava era uma estrela vermelha feita de alguma pedra preciosa de tonalidade forte, pendurada em seu peito. Ele pertencia à Sociedade da Estrela Vermelha da Caridade, fundada sobre as lâmpadas exibidas por médicos e químicos.

— Boa noite, senhor — disse o químico. — Por que, mal posso estar enganado ao supor que seja Vossa Majestade. Entre e partilharemos uma garrafa de sal volátil, ou qualquer coisa que lhe agrade. Acontece que há um velho conhecido de sua Majestade na minha loja farreando (se me é permitido o termo) essa bebida neste momento.

O Rei entrou na loja, que era um jardim de Aladim com tons e matizes, pois o esquema de cor do químico era mais brilhante do que o esquema da mercearia, e isso foi combinado com delicadeza e ainda mais extravagancia. Nunca, se a expressão pode ser empregue, tal ramalhete de medicamentos havia sido apresentado a um olho tão artístico.

Mas mesmo o arco-íris solene da noite interior era rivalizado ou mesmo eclipsado pela figura de pé no centro da loja. Sua forma, que era grande e imponente, estava vestida com um veludo azul brilhante, cortado na forma mais rica renascentista, e cortado de forma a mostrar brilhos e lacunas de um maravilhoso limão ou amarelo pálido. Ele tinha várias correntes ao pescoço, e suas plumas, que eram de várias tonalidades de bronze e de ouro, pendiam para o grande cabo de ouro de sua espada longa. Ele estava bebendo uma dose de sal volátil, e admirando sua tonalidade opala. O rei avançou com uma mistificação ligeira para o vulto alto, cujo rosto estava na sombra, então disse:

— Pelo Grande Senhor da Sorte, Barker!

A figura tirou o chapéu emplumado, mostrando a mesma cabeça escura e face longa, quase equina que o rei tinha tantas vezes visto saindo de gola alta em Bond Street. Com exceção de uma mancha cinza em cada têmpora, estava totalmente inalterado.

— Vossa Majestade — disse Barker —, esta é uma reunião nobremente retrospectiva, uma reunião que tem um certo outubro dourado. Bebo pelos velhos tempos. — E terminou seu sal volátil com um sentimento simples.

— Estou muito contente em vê-lo novamente, Barker — disse o rei. —Faz realmente muito tempo desde que nos encontramos. Com minhas viagens para a Ásia Menor, e meu livro a ser escrito (é claro que deve ter lido “A vida do príncipe Albert para crianças”), dificilmente nos reunimos duas vezes desde a grande Guerra. Isso faz vinte anos.

— Pergunto-me — disse Barker, pensativo — se posso falar livremente a Vossa Majestade?

— Bem — disse Auberon —, é um pouco tarde no dia para começar a falar respeitosamente. Voe longe, meu pássaro da liberdade.

— Bem, vossa Majestade — respondeu Barker, baixando a voz —, não acho que a próxima guerra vá demorar tanto.

— O que quer dizer? — perguntou Auberon.

— Não vamos suportar mais esta insolência — explodiu Barker, ferozmente. — Não somos escravos porque Adam Wayne há vinte anos nos enganou com um cano de água. Notting Hill é Notting Hill; não é o mundo. Nós em South Kensington, também temos memórias – ay, e esperanças. Se eles lutaram por estas lojas de quinquilharias e alguns postes de iluminação, não devemos lutar pela grande High Street e pelo sagrado Museu de História Natural?

— Grande Céus! — disse que o Auberon atônito. — As maravilhas nunca cessarão? Duas grandes maravilhas já foram alcançados? Você virou altruísta, e Wayne virou egoísta? Você é o patriota, e ele o tirano?

— Não é de Wayne completamente a fonte do mal — respondeu Barker. — Ele, na verdade, está agora na maior parte do tempo envolvido em sonhos, e senta-se com a sua velha espada ao lado do fogo. Mas Notting Hill é o tirano, vossa Majestade. Seu Conselho e as multidões foram tão intoxicadas pelos velhos modos e visões de Wayne espalhando-se por toda a cidade, que tentam intrometer-se com todos, e governar a todos, e civilizar a todos, e dizer a todos o que é bom para eles. Não nego o grande impulso que sua velha guerra, tão selvagem como parecia, deu para a vida cívica do nosso tempo. Ela veio quando eu ainda era jovem, e admito ampliou minha carreira. Mas não vamos ver nossas próprias cidades desrespeitadas e frustradas no dia a dia por causa de algo que Wayne fez para nós todos, quase um quarto de século atrás. Aqui estou apenas esperando notícias deste assunto. Há rumores de que Notting Hill vetou a estátua do general Wilson que estavam colocando em frente a Chepstow Place. Se é assim, isto é uma violação descarada preto no branco das condições da nossa rendição a Turnbull após a batalha da Torre. Deveríamos manter nossos próprios costumes e autogoverno. Se é isso...

— É isso — disse uma voz profunda, e os dois homens se viraram.

Uma figura corpulenta de vestes purpuras, com uma águia de prata no pescoço e bigodes quase tão floridos como suas plumas, estava na porta.

— Sim — disse ele, reconhecendo a surpresa do Rei —, sou o superintendente Buck, e a notícia é verdadeira. Estes homens de Hill esqueceram que lutamos na Torre assim como eles, e que às vezes é tolice, como bem como vil, desprezar os conquistados.

— Vamos sair — disse Barker, com uma compostura sombria.

Buck o fez, e ficou rolando os olhos para cima e para baixo na rua iluminada por lâmpadas.

— Gostaria de esmagar tudo isso — murmurou —, embora tenha mais de sessenta. Eu gostaria...

Sua voz terminou em um grito, e recuou um passo, com as mãos aos olhos, como tinha feito nessas ruas vinte anos antes.

— Trevas! — gritou. — Trevas novamente! O que isto significa?

Pois na verdade cada lâmpada na rua tinha apagado, de modo que não se podia ver, mesmo as formas de outro, exceto vagamente. A voz do químico veio com alegria surpreendente para a opacidade.

— Oh, não sabe? Será que nunca te disseram que isso é a Festa das Lâmpadas, o aniversário da grande batalha que quase perdeu e acabou por salvar Notting Hill? Não sabe, vossa majestade, que nesta noite vinte e um anos atrás, vimos os uniformes verdes de Wilson avançando por esta rua, e empurrando Wayne e Turnbull para trás, para a companhia de gás, lutando com seu punhado como demônios do inferno? E que então, naquela grande hora, Wayne saltou por uma janela, e com um golpe de sua mão trouxe escuridão para toda a cidade, e depois com um grito como o de um leão, que foi ouvido por meio de quatro ruas, atacou os homens de Wilson, espada na mão, e os varreu, confusos como estavam, e ignorantes da região, limpando novamente a rua sagrado? E não sabe que nesta noite a cada ano todas as luzes são apagadas por meia hora, enquanto cantamos o hino de Notting Hill, no escuro? Já começa...

Pela noite veio um barulho de tambores, e em seguida uma forte onda de vozes humanas: “Quando o mundo estava na balança, havia noite em Notting Hill,
(havia noite em Notting Hill): mais nobre do que o dia;
Nas cidades onde estão as luzes e os serões brilham,
Dos mares e dos desertos veio algo que não conhecíamos,
Veio a escuridão, veio a escuridão, veio a escuridão sobre o inimigo,
E a velha guarda de Deus virou-se para baía.
Pois a velha guarda de Deus vira-se para baía, vira-se para baía,
E as estrelas caem antes de suas bandeiras no dia:
Pois quando os exércitos estavam ao nosso redor como um uivo e uma horda,
Quando a cidadela estava caída e quebrada foi a espada,
A escuridão veio sobre eles como o Dragão do Senhor,
Quando a velha guarda de Deus virou-se para baía.” As vozes estavam se elevando para um segundo verso, quando foram paradas por um correr e um grito. Barker saltou para a rua com um grito de “South Kensington!” e uma adaga desembainhada. Em menos tempo do que um homem pudesse piscar, a rua inteira estava cheia de maldições e lutando. Barker foi arremessado contra a loja de frente, mas usou um segundo só para desembainhar a sua espada, bem como sua adaga, e gritar: “Esta não é a primeira vez que atravesso o grosso de vocês”, atirando-se de novo para a prensa. Era evidente que finalmente tinha arrancado sangue, pois um protesto mais violento se levantou, e muitas outras facas e espadas eram discerníveis na fraca luz. Barker, depois de ter ferido mais de um homem, parecia a ponto de ser atirado de volta, quando de repente Buck saiu para a rua. Ele não tinha arma, pois gostava bastante da magnificência pacífica do grande burgo, em vez do dandismo combativo que substituiu o velho dandismo sombrio de Barker. Mas com um golpe de seu punho fechado, quebrou o vidro da loja ao lado, que era a Old Curiosity Shop, e, mergulhando sua mão, pegou uma espécie de cimitarra japonesa, e gritando: “Kensington! Kensington!” – apressou-se a assistir Barker.

A espada de Barker foi quebrada, mas ele a posicionou sobre sua adaga. Enquanto Buck corria, um homem de Notting Hill atingiu Barker por baixo, mas Buck atingiu o homem por cima, e Barker ergueu-se novamente, o sangue escorrendo pelo rosto.

De repente, todos esses gritos foram abafados por uma grande voz, que parecia cair do céu. Foi terrível para Buck e Barker e o Rei, pois parecia sair dos céus vazios, mas foi mais terrível porque era uma voz familiar, e que, ao mesmo tempo que não ouvida há muito tempo.

— Acendam as luzes — disse a voz acima deles, e por um momento não houve resposta, mas apenas um tumulto.

— Em nome de Notting Hill e do grande Conselho da Cidade, acedam as luzes.

Houve novamente um tumulto e uma incerteza por um momento, em seguida, a rua toda e todo objeto nela surgiu de repente da escuridão, pois toda lâmpada voltou a vida. E, olhando viram, de pé em cima de uma varanda, perto do telhado de uma das casas mais altas, a figura e o rosto de Adam Wayne, seu cabelo vermelho esvoaçante, com algumas poucas mechas cinzentas.

— O que é isso, meu povo? É completamente impossível fazer uma coisa boa sem que imediatamente insistam em corrompê-la? A glória de Notting Hill, alcançada a sua independência, foi o suficiente para eu sonhar por muitos anos, enquanto estava sentado ao lado do fogo. Realmente não é o suficiente para vocês, que tiveram tantos outros assuntos para excitá-los e distraí-los? Notting Hill é uma nação. Porque deve se rebaixar a ser um mero Império? Desejam derrubar a estátua do general Wilson, que os homens de Bayswater tão justamente ergueram em Westbourne Grove. Tolos! Quem ergueu a estátua? Será que Bayswater a ergueu? Não. Notting Hill a ergueu. Não veem que é a glória de nossas conquistas que infectou as outras cidades com o idealismo de Notting Hill? Nós é que criamos não apenas o nosso lado, mas ambos os lados desta controvérsia. Ó muito humildes néscios, por que querem destruir seus inimigos? Vocês fizeram mais para eles. Vocês criaram seus inimigos. Deseja derrubar o martelo de prata gigantesco, que se levanta, como um obelisco, no centro da Broadway de Hammersmith. Tolos! Antes de Notting Hill se levantar, alguma pessoa passando por Hammersmith Broadway esperava ver um martelo de prata gigante? Desejam abolir a grande figura de bronze de um cavaleiro de pé sobre a ponte artificial em Knightsbridge. Tolos! Quem teria pensado nisso antes de Notting Hill surgir? Tenho ouvido dizer, e com profunda dor que ouvi, que o olho maligno de nossa inveja imperial foi até o horizonte remoto do oeste, e que se opuseram ao grande monumento preto de um corvo coroado, que comemora a batalha de Ravenscourt Park. Quem criou todas estas coisas? Estavam lá antes de virmos? Não pode se contentar com o destino que foi suficiente para Atenas, que foi suficiente para Nazaré? O destino, o propósito humilde, de criar um mundo novo. Os atenienses ficaram com raiva porque os romanos e florentinos adotaram sua fraseologia para expressar seu próprio patriotismo? Nazaré ficou com raiva por que se tornou o exemplo de pequena aldeia de que, como os esnobes dizem, nada de bom pode vir? Os atenienses pediram para que todos vestir a clâmide? Todos os seguidores do Nazareno são obrigados a usar turbantes? Não! Mas a alma de Atenas se espalhou e fez homens beber cicuta, e a alma de Nazaré se espalhou e fez os homens consentirem a serem crucificados. Então, a alma de Notting Hill se espalhou e fez homens perceber o que é viver em uma cidade. Assim como inauguramos nossos símbolos e cerimônias, assim eles inauguraram as deles, e estão tão loucos para de lutar contra eles? Notting Hill está certa, sempre esteve certa. Ela moldou-se pelas suas próprias necessidades, a sua própria condição sine qua non, que aceitou o seu próprio ultimato. Porque é uma nação que criou a si mesma, e porque é uma nação que pode destruir a si mesma. Notting Hill será sempre o juiz. Se for a sua vontade de por causa desta questão da estátua do General Wilson fazer guerra à Bayswater...

Um rugido de aplausos se intrometeu em suas palavras, e falar mais era impossível. Pálido, o grande patriota tentou falar de novo e de novo, mas mesmo a sua autoridade não poderia controlar as massas escuras rugindo na rua abaixo dele. Ele disse algo mais, mas não era audível. Finalmente desceu tristemente do sótão onde vivia, e se misturou com a multidão ao pé das casas. Encontrou o general Turnbull, e colocou a mão em seu ombro com uma estranha afeição e gravidade, e disse:

— Amanhã, meu velho, teremos uma nova experiência, tão fresca como as flores da primavera. Nós seremos derrotados. Você e eu passamos por três batalhas juntos e, de alguma forma ou de outra, perdemos este prazer peculiar. É uma pena que provavelmente não seremos capazes de trocar nossas experiências, porque, irritantemente, provavelmente estaremos os dois mortos.

Turnbull parecia vagamente surpreso:

— Não me importo muito em ser morto, mas por que diz que seremos derrotados?

— A resposta é muito simples — respondeu Wayne, calmamente. — É porque nós devemos ser derrotados. Entramos em buracos mais horríveis antes; mas em todas as vezes estava perfeitamente convencido que as estrelas estavam do nosso lado, e que deveríamos sair. Agora eu sei que nós não devemos sair, e isto tira de mim tudo aquilo que ganhei.

Enquanto Wayne falava ele se assustou um pouco, pois ambos os homens tornaram-se cientes de que uma terceira figura os estava ouvindo – uma pequena figura com os olhos imaginativos.

— É verdade, meu caro Wayne — disse o Rei, interrompendo —, que você acha que vai ser derrotado amanhã?

— Não há nenhuma dúvida sobre isso — respondeu Adam Wayne —, a verdadeira razão é a que acabei de falar mas como uma concessão para o seu materialismo, vou acrescentar que eles têm um exército organizado aliado de cem cidades contra a nossa única. Mas isso em si, no entanto, não teria importância.

Quin, com seus os olhos redondos, parecia estranhamente insistente:

— Está certo que será derrotado?

— Estou com medo — disse Turnbull, melancolicamente — que não pode haver nenhuma dúvida sobre isso.

— Então — gritou o rei, levantando os braços — dê-me uma alabarda! Alguém, dê-me uma alabarda! Desejo que todos os homens testemunhem que eu, Auberon, rei da Inglaterra, abdico agora, e imploro ao superintendente de Notting Hill para que permitir me alistar em seu exército. Dê-me uma alabarda!

Agarrou uma de um guarda de passagem, e, assumindo formação, marchou solenemente depois das colunas de alabardeiros gritando que estavam, por esta altura, desfilando pelas ruas. No entanto, ele nada teve a ver com a destruição da estátua do general Wilson, que ocorreu antes do amanhecer.

A Última Batalha

O dia estava nublado quando Wayne foi para a morte junto com todo o seu exército em Kensington Gardens; estava novamente nublado quando o exército foi engolido pelos vastos exércitos de um novo mundo. Houve um intervalo quase sobrenatural de brilho solar, em que o superintendente de Notting Hill, com toda a placidez de um espectador, olhou os exércitos hostis sobre os grandes espaços de vegetação do lado oposto; as longas tiras de verde, azul e ouro estavam sobre todo o parque em quadrados e retângulos como uma proposição de Euclides forjada em um rico bordado. Mas a luz do sol estava fraca, como se fosse úmida, e foi logo engolida. Wayne falou ao rei, com uma estranha espécie de frieza e apatia, como para operações militares. Era como havia dito na noite anterior, que ao ser privado de seu sentido de impraticável retidão, estava, de fato, sendo privado de tudo. Ele estava fora de lugar, no mar de um mundo apenas de compromisso e competição, de Império contra Império, do razoavelmente certo e do razoavelmente errado. No entanto quando seus olhos caíram sobre o rei, que marchava muito grave com uma cartola e uma alabarda, se animou um pouco.

— Bem, vossa Majestade, pelo menos deve se orgulhar hoje. Se os seus filhos estão lutando entre si, pelo menos os que ganham são vossos filhos. Outros reis Outros distribuíram justiça, você distribuiu vida. Outros reis governaram uma nação, você criou nações. Outros fizeram reinos, você os gerou. Olhe para seus filhos, pai! — e estendeu a mão para o inimigo.

Auberon não levantou os olhos.

— Veja como esplendidamente — gritou Wayne — novas cidades chegam, as novas cidades além do rio. Veja onde Battersea avança sob a bandeira da Cão Perdido; e Putney, não vê o Homem no Javali Branco brilhando em seu emblema quando o sol o ilumina. É a chegada de uma nova era, vossa Majestade. Notting Hill não é um império comum, é como Atenas, a mãe de um modo de vida, de uma maneira de viver, que deverá renovar a juventude do mundo como Nazaré. Quando era jovem me lembro, nos velhos tempos sombrios, sabichões costumavam escrever livros sobre como os trens ficariam mais rápidos, e todo o mundo seria um império, e como carros elétricos iriam para a lua. E mesmo quando criança, costumava dizer a mim mesmo: “Muito mais provável que comecemos as cruzadas novamente, ou adoraremos os deuses da cidade.” E assim foi. E estou contente, embora esta seja minha última batalha.

Enquanto falava, veio um estrondo de aço a partir da esquerda, e virou a cabeça.

— Wilson! — gritou, com uma espécie de alegria. — Red Wilson atacou nossa esquerda. Ninguém pode segurá-lo; ele come espadas. Ele é tão afiado como soldado quanto Turnbull, mas menos paciente, realmente excelente. Ha! E Barker está se movendo. Como Barker melhorou; quão bonito está! Não é apenas as plumas, mas também ter uma alma na vida diária. Ha!

E outro estrondo de aço à direita mostrou que Barker fechou Notting Hill no outro lado.

— Turnbull está lá! — gritou Wayne. — Eu o vejo empurrá-los de volta! Barker está marcado! Turnbull ataca… e ganha! Mas nossa esquerda está aberta. Wilson esmagou Bowles e Mead, e pode revelar nosso flanco. Em frente, guarda do superintendente!

E todo o centro moveu-se para a frente, o rosto, cabelo e espada flamejante de Wayne na vanguarda.

O rei correu de repente para a frente.

No instante seguinte, um grande sobressalto indicou que haviam encontrado o inimigo. E bem defronte deles, através da madeira de suas próprias armas, Auberon viu a Águia Púrpura de Buck de North Kensington.

À esquerda, Red Wilson assaltou as fileiras quebradas, sua pequena figura verde visível até mesmo no emaranhado de homens e armas, com os bigodes flamejantes vermelhos e a coroa de louros. Bowles o cortou na altura da sua cabeça e arrancou parte da coroa, deixando o resto ensanguentado, e, com um rugido de um touro, Wilson saltou sobre ele, e depois de um ruído de esgrima, mergulhou sua arma no farmacêutico, que caiu, gritando: “Notting Hill!” Em seguida, os habitantes de Notting Hill vacilaram e Bayswater varreu-os de volta em confusão. Wilson levou tudo adiante dele.

À direita, no entanto, Turnbull tinha levado a bandeira do Leão vermelho com uma arrancada contra os homens de Barker, e a bandeira dos Pássaros Dourados estava com dificuldades diante dele. Os homens de Barker caíram rapidamente. No centro Wayne e Buck estavam engajados, teimosos e confusos. A luta estava precisamente equilibrada. Mas a luta era uma farsa. Por trás dos três pequenos exércitos contra os quais o pequeno exército de Wayne estava engajado, apresentava-se o grande mar dos exércitos aliados, que pareciam ainda como espectadores escarnecedores, mas poderiam ter quebrado todos os quatro exércitos com o mover um dedo.

De repente, eles se moveram. Alguns dos contingentes da frente, os chefes pastorais de Shepherd´s Bush, com suas lanças e telas, foram vistos avançando, e os rudes clãs de Paddington Green. Estavam avançando por uma razão muito boa. Buck, de North Kensington, estava sinalizando descontroladamente, estava cercado e totalmente isolado. Seus regimentos eram uma massa de pessoas em dificuldades, ilhados num mar vermelho de Notting Hill.

Os aliados tinham sido muito descuidados e confiantes. Haviam permitido a força de Barker ser quebrada em pedaços por Turnbull, e no momento em que isso foi feito, o astuto velho líder de Notting Hill virou os homens e atacou Buck por trás e em ambos os lados. No mesmo instante, Wayne gritou: “Carga!” e o golpeou pela frente como um raio.

Dois terços dos homens de Buck foram cortados em pedaços antes de seus aliados poderem alcançá-los. Em seguida, o mar de cidades veio com suas bandeiras, como quebradores de linhas, e engoliram Notting Hill para sempre. A batalha não acabou, pois nenhum dos homens de Wayne iria se render, e durou até o pôr do sol, e ainda depois. Mas estava decidida, a história de Notting Hill foi encerrada.

Quando Turnbull viu isso, parou um momento de lutar, e olhou em volta dele. A luz do sol do entardecer atingiu seu rosto, ele parecia uma criança.

— Tive a minha juventude — disse ele. Então, pegando um machado, correu para o grosso das lanças de Shepherd’s Bush, e morreu em algum lugar dentro das profundezas de suas cambaleantes fileiras. Então a batalha rugia; todo homem de Notting Hill foi morto antes da noite.

Wayne estava só apoiado em uma árvore depois da batalha. Vários homens aproximaram-se dele com machados. Um atingiu-o. Seu pé parecia parcialmente escorregar, mas ele firmou a mão na árvore.

Barker surgiu depois dele, a espada na mão, tremendo de emoção:

— Quão grande agora, meu senhor, é o império de Notting Hill?

Wayne sorriu na escuridão crescente.

— Sempre tão grande quanto isto — disse ele, e varreu sua espada ao redor em um semicírculo de prata.

Barker caiu, ferido no pescoço, e Wilson pulou sobre o seu corpo como um tigre, apressando-se até Wayne. No mesmo instante, veio por trás do Lorde do Leão Vermelho um grito e um clarão amarelo, e uma massa de alabardeiros de West Kensington lavrou a encosta, na grama até os joelhos, tendo a bandeira amarela da cidade diante deles, e gritando em voz alta.

Ao mesmo tempo, Wilson caiu debaixo da espada de Wayne, aparentemente esmagado como uma mosca. A grande espada subiu novamente como um pássaro, mas Wilson pareceu subir com ele, e, com a espada quebrada, saltou para a garganta de Wayne como um cão. O mais importante dos alabardeiros amarelos alcançou a árvore e girou o machado acima de Wayne em dificuldades. Praguejando o rei virou sua própria alabarda, e disparou a lâmina no rosto do homem. Ele cambaleou e rolou ladeira abaixo, assim como o furioso Wilson que foi arremessado de costas novamente. E mais uma vez ele estava de pé, e novamente atacando a garganta de Wayne. Em seguida, foi arremessado novamente, mas desta vez rindo triunfante. Na sua mão estava o distintivo vermelho e amarelo que Wayne usava como superintendente de Notting Hill. Ele o rasgou do lugar onde esteve por vinte e cinco anos.

Com um grito, os homens de West Kensington cercaram Wayne, a grande bandeira amarela batendo sobre a sua cabeça.

— Onde está o seu distintivo agora, superintendente? — gritou o líder de West Kensington.

E subiu uma gargalhada.

Adam atacou um porta-estandarte e o levou cambaleando para a frente. Com a bandeira encurvada, agarrou as dobras amarelas e arrancou um fiapo. Um alabardeiro atingiu-lhe no ombro, fazendo uma ferida sangrenta.

— Aqui está uma das cores| — gritou, empurrando o fiapo amarelo no cinto. — E aqui — gritou, apontando para o seu próprio sangue — está a outra.

No mesmo instante, o choque súbito de uma forte alabarda deixou o rei atordoado ou morto. Nas visões selvagens enquanto a consciência desaparecia, viu novamente algo que pertencia a uma época totalmente esquecida, algo que tinha visto em algum lugar há muito tempo em um restaurante. Ele viu, com os olhos úmidos, vermelho e amarelo, as cores da Nicarágua.

Quin não viu o fim. Wilson, selvagem e alegre, saltou novamente para Adam Wayne, e a grande espada de Notting Hill girou novamente. Em seguida, os homens se abaixaram instintivamente com o ruído da espada descendo do céu, e Wilson de Bayswater foi esmagado e varrido no chão como uma mosca. Nada restou dele, exceto destroços; mas a lâmina que o quebrou estava quebrada. Ao morrer, estalou a grande espada e o encanto desta, a espada de Wayne estava quebrada no punho. Uma arremetida do inimigo forçou Wayne contra a árvore. Estavam muito perto para usar alabarda ou mesmo espada, pois estavam peito contra peito, até mesmo narina contra narina. Mas Buck conseguiu libertar sua adaga.

— Matem-no! — gritou, com uma voz abafada estranha. — Matem-no! Bom ou mau, ele não é nenhum de nós! Não se deixem cegar pelo rosto... Deus! Se não estivéssemos cegos o tempo todo! — e puxou o braço para trás para uma facada, e pareceu fechar os olhos.

Wayne não soltou a mão que estava pendurada no galho da árvore. Mas um poderoso suspiro passou sobre seu peito e toda a sua enorme figura, como um terremoto ao longo de grandes colinas. E com essa convulsão de esforço, arrancou o ramo da árvore, com farpas de madeira; e, balançando-o apenas uma vez, jogou a clava lascada em Buck, quebrando seu pescoço. O planejador da Grande Estrada caiu morto, com sua adaga em um aperto de aço.

— Para você e para mim, e para todos os homens valentes, meu irmão — disse Wayne, numa estranha oração — haverá bom vinho vertido na pousada do fim do mundo.

Os homens ao redor fizeram outros movimentos em direção a ele; era quase escuro demais para uma luta clara. Ele agarrou-se no carvalho novamente, desta vez colocando a mão em uma grande fenda e prendendo-se, por assim dizer, nas entranhas da árvore. A multidão toda, em torno de trinta homens, fez um esforço para afastá-lo dela, pendurando todo o seu peso e número, e nada se mexeu. A solidão não poderia ter sido mais imóvel do que aquele grupo de homens tensos. Então, houve um som fraco.

— A mão dele está escorregando — gritaram dois homens em júbilo.

— Você não o conhece — disse outro, tristemente (um homem da velha guerra). — É mais provável que seus ossos estejam quebrando.

—Não é nem um, nem outro. Meu Deus! — disse um dos dois primeiros.

— O que, então? — perguntou o segundo.

— A árvore está caindo.

— À medida que a árvore cai, assim deita-se — disse a voz de Wayne para a escuridão, e tinha o mesmo ar doce mas ainda horrível de estar por toda parte, vindo de uma grande distância, de antes ou depois do evento. Mesmo quando estava lutando como uma enguia ou golpeando como um louco, falava como um espectador. — À medida que a árvore cai, assim deita-se — disse ele. — Os homens chamaram de um texto sombrio. É a essência de toda a exultação. Estou fazendo agora o que tenho feito toda a minha vida, que é a única felicidade, que é a única universalidade. Estou agarrado a alguma coisa. Deixe-o cair, e deixe-o deitar. Tolos, vão passear e ver os reinos da terra, tão liberais, sábios e cosmopolitas, que é tudo que o diabo pode lhes dar, tudo o que ele poderia oferecer a Cristo, apenas para ser rejeitado imediatamente. Estou fazendo o que o verdadeiro sábio faz. Quando uma criança sai para o jardim e se apodera de uma árvore, dizendo: ‘Que esta árvore seja tudo o que tenho’, naquele momento suas raízes tomam posse no inferno e seus ramos sobre as estrelas. A alegria que tenho é a do amante que sabe quando uma mulher é tudo. É a de um selvagem que sabe quando seu ídolo é tudo. É a que tenho quando sei quando Notting Hill é tudo. Eu tenho uma cidade. Esteja ela de pé ou caída.

Enquanto falava, a turfa levantou-se como uma coisa viva, e dela subiram lentamente, como uma crista de serpentes, as raízes do carvalho. Então, a grande cabeça da árvore, que parecia uma nuvem verde entre as cinzas, varreu o céu de repente como uma vassoura, e toda a árvore balançou como um navio, esmagando todos na sua queda.