Em outro lugar, em meio ao mar escuro da névoa estava uma pequena figura abalada e com tremores, com o que poderia ser à primeira vista terror ou malária: mas que na verdade sofria de uma estranha doença, o riso solitário. Ele estava repetindo novamente para si mesmo com um rico sotaque — Mas, atendendo-se ao interesse público...
A Colina de Humor
— Em um pequeno jardim quadrado de rosas amarelas, ao lado do mar — disse Auberon Quin — houve um ministro dissidente que nunca tinha ido a Wimbledon. Sua família não entendia a tristeza ou o olhar estranho em seus olhos. Mas um dia eles se arrependeram de sua negligência, pois ouviram que um corpo havia sido encontrado na costa, fustigado, mas usando botas de couro patente. Aconteceu dele não ser o tal ministro. Mas no bolso do homem morto havia um bilhete de volta para Maidstone.
Houve uma breve pausa enquanto Quin e seus amigos, Barker e Lambert, foram andando no meio da relva lamacenta dos jardins de Kensington. Então, Auberon retomou:
— Essa história — disse respeitosamente — é o teste de humor.
Eles caminharam cada vez mais rápido, atravessaram a grama alta quando começaram a subir uma ladeira.
— Percebo — continuou Auberon — que passaram no teste, e consideram a anedota dolorosamente engraçada, já que não dizem nada. Só o humor grosseiro é recebido com aplausos de taverna. A grande anedota é recebida em silêncio, como uma bênção. Sentiu-se muito abençoado, não é, Barker?
— Entendi — disse Barker, um tanto arrogantemente.
— Sabe — disse Quin, com uma espécie de alegria idiota — tenho muitas histórias tão boas quanto esta. Ouça isso.
E limpou um pouco a garganta:
— O dr. Policarpo era, como todos sabem, um bimetalista invulgarmente pálido. Pessoas de larga experiência diziam: “Lá vai o mais pálido bimetalista de Cheshire”. Uma vez isso foi dito de forma que ele ouviu: foi dito por atuário, sob um por do sol lilás e cinza. Policarpo se voltou para ele. “Pálido!”, gritou ferozmente, “Pálido! Quis tulerit Gracchos de seditione querentes”. Foi dito que nenhum atuário jamais se meteu com o dr. Policarpo novamente.
Barker concordou com uma sagacidade simples. Lambert só grunhiu.
— Aqui está outra — continuou Quin, insaciável. — Em um oco das colinas verde cinzentas da chuvosa Irlanda, viveu uma mulher muito velha, cujo tio sempre torcia para Cambridge na regata. Mas em seu oco verde cinzento, ela não sabia nada disto: não sabia que houve uma regata. Também não sabia que tinha um tio. Ela não sabia de nada, exceto de George I, de quem tinha ouvido falar (não sei porquê), e nessa memória histórica, ela confiava. Até que Deus quis que chegasse o dia quando descobriu-se que esse tio dela não era realmente seu tio, e vieram-lhe dizer isso. Ela sorriu em meio às lágrimas, e disse apenas: “A virtude é sua própria recompensa.”
Novamente houve um silêncio, e então Lambert disse:
— Parece um pouco misterioso.
— Misterioso! — exclamou o outro. — O verdadeiro humor é misterioso. Não percebe o principal incidente dos séculos XIX e XX?
— E qual é? — perguntou Lambert, breve.
— É muito simples — respondeu o outro. — Até então era a ruína de uma piada que as pessoas não a entendessem. Agora é a vitória sublime de uma piada que as pessoas não a entendam. Humor, meus amigos, é a santidade que restou para a humanidade. É a única coisa que causa medo. Olhe para a árvore.
Seus interlocutores olharam vagamente para uma faia que se inclinava em direção a eles a partir do cume da colina.
— Se — disse o Sr. Quin — eu dissesse que não viram as grandes verdades da ciência exibidas por aquela árvore, embora estejam escancaradas para um homem de intelecto, o que pensariam ou diriam? Simplesmente me considerariam como um pedante com uma teoria irrelevante sobre algumas células vegetais. Se dissesse que não veem naquela árvore a vil má gestão da política local, iriam me repudiar como um socialista maluco com alguma mania particular sobre parques públicos. Se dissesse que vocês são culpados da blasfêmia suprema de olhar para a árvore e não ver nela uma nova religião, uma revelação especial de Deus, poderiam simplesmente dizer que sou um místico, e não pensar mais em mim. Mas — e levantando uma mão pontifical — se digo que não podem ver o humor daquela árvore, e que eu vejo o humor dela, meu Deus! Poriam-se sob os meus pés.
Parou um momento, e depois retomou.
— Sim; um senso de humor, um estranho e delicado senso de humor, é a nova religião da humanidade! É para onde os homens vão se dirigir com o ascetismo dos santos. Farão exercícios, exercícios espirituais. Perguntarão: “Consegue ver o humor desta grade de ferro?” ou “Pode ver o humor deste campo de milho? Pode ver o humor das estrelas? Pode ver o humor dos pores do sol?” Quantas vezes ri sozinho até dormir por causa de um por do sol violeta.
— Isso mesmo — disse Barker, com um inteligente embaraço.
— Deixe-me contar uma outra história. Quantas vezes acontece que os deputado de Essex são menos pontuais do que se poderia supor. O deputado menos pontual de Essex foi, talvez, James Wilson, que disse, no instante de arrancar uma papoula...
De repente, Lambert se voltou e bateu sua bengala no chão numa atitude desafiadora.
— Auberon, pare. Não suporto isso. É tudo tolice.
Os dois homens olharam para ele, pois havia algo muito explosivo nas palavras, como se estivessem entaladas penosamente por um longo tempo.
— Você — começou Quin — não tem..
— Não me importo com uma maldição — disse Lambert, violentamente — se tenho “um senso de humor delicado” ou não. Não vou suportar isso. É tudo uma fraude para confundir-nos. Não há nenhuma piada naqueles contos infernais. Você sabe disso tão bem quanto eu.
— Bem — respondeu Quin, lentamente —, é verdade que eu, com meu processo mental gradual, não vi nenhuma piada neles. Mas, Barker, com seu sentido mais sutil, achou engraçado.
Baker ficou bem vermelho, mas continuou a olhar para o horizonte.
— Seu idiota – disse Lambert — por que você não pode ser como as outras pessoas? Por que não pode dizer algo realmente engraçado, ou segurar a sua língua? O homem que se senta em um chapéu em pantomina é uma visão muito mais engraçada do que você.
Quin o considerou firmemente. Eles haviam chegado ao topo da serra e o vento atingiu seus rostos.
— Lambert — disse Auberon —, você é um grande e bom homem, embora que eu seja enforcado se você aparenta isso. Mais ainda. É um grande revolucionário ou um salvador do mundo, e estou ansioso para vê-lo esculpido em mármore entre Lutero e Danton, se possível na sua atitude atual, o chapéu ligeiramente para o lado. Eu disse enquanto subia o morro que o novo humor era a última das religiões. Você fez do humor a última das superstições. Mas deixe-me dar-lhe um aviso muito sério. Tenha cuidado ao me pedir para fazer algo outré, como imitar o homem da pantomima, e me sentar no meu chapéu. Porque eu sou um homem cuja alma foi esvaziada de todos os prazeres, exceto a loucura . E por dois pence faria isso.
— Então faça — disse Lambert, balançando com impaciência sua bengala. — Seria mais engraçado do que a bobagem que conta.
Quin, de pé no alto do morro, estendeu a mão em direção à avenida principal do Jardim de Kensington.
— A duzentos metros de distância, estão todos os seus conhecidos elegantes com nada para fazer na terra exceto olhar para si mesmos e para nós. Estamos de pé sobre uma elevação sob o céu aberto, como se fosse um pico de fantasia, um Sinai de humor. Estamos num grande púlpito ou plataforma, iluminado com a luz solar, e metade de Londres pode nos ver. Tenha cuidado com o que sugerir para mim. Porque há em mim uma loucura que vai além do martírio, a loucura de um homem completamente ocioso.
— Não sei do que você está falando — disse Lambert, com desprezo. — Só sei que prefiro você preso na sua cabeça tola, do que falando tanto.
— Auberon! Pelo amor de Deus.... — gritou Barker, saltando para a frente, mas foi muito tarde. Faces de todos os bancos e avenidas se viraram em sua direção. Grupos pararam e pequenas multidões se reuniram, e a luz do forte sol pegou a cena toda em azul, verde e preto, como uma imagem em uma livro infantil. E no topo da colina o pequeno Sr. Auberon Quin estava, com destreza atlética considerável, de ponta cabeça, e acenando com suas botas de couro no ar.
— Pelo amor de Deus, Quin, levante-se e não seja um idiota — gritou Barker, torcendo as mãos — teremos a cidade inteira aqui.
— Sim, levante, levante-se, homem — disse Lambert, divertido e irritado. — Eu só estava brincando, levante-se.
Auberon o fez com um salto, e atirando seu chapéu acima das árvores, começou a pular em uma perna com uma expressão séria. Barker passou a bater o pé no solo descontroladamente.
— Oh, vamos para casa, Barker, e deixá-lo — disse Lambert —, alguns policiais adequados e corretos vão cuidar dele. Aí vêm eles!
Dois homens de aparência séria com uniformes discretos vieram até o morro na direção deles. Um deles trazia um papel na mão.
— Lá está ele, oficial — disse Lambert, alegremente. — Não somos responsáveis por ele.
O oficial virou-se para o travesso sr. Quin com um olhar silencioso.
— Meus senhores, não viemos aqui por causa do que acredito estão aludindo. Nós viemos do quartel-general anunciar a seleção de Sua Majestade, o Rei. É a regra, herdada o antigo regime, que a notícia deve ser trazida para o novo soberano imediatamente, onde quer que esteja; então o seguimos até o jardim de Kensington.
Os olhos de Barker estavam em chamas no seu rosto pálido. Ele era consumido com a ambição por toda sua vida. Com a magnanimidade embrutecida do intelecto, realmente acreditava no método de seleção de déspotas pelo acaso. Mas esta sugestão súbita, que a seleção poderia ter caído em cima dele, o enervou com prazer.
— Qual de nós — começou, mas o respeitoso funcionário o interrompeu.
— Não o senhor, sinto informar. Se me é permitido dizê-lo, sabemos de seus serviços para o governo, e seriamos gratos se fosse. A escolha recaiu ....
— Deus abençoe a minha alma! — disse Lambert, saltando dois passos para trás. — Não eu. Não diga que eu sou o autocrata de todas as Rússias.
— Não, senhor — disse o oficial, com uma leve tosse e um olhar para Auberon, que estava, naquele momento, colocando a cabeça entre as pernas e fazendo um barulho como uma vaca. — No momento, o cavalheiro a quem temos que parabenizar parece estar -er-er- ocupado.
— Quin? Não! — gritou Barker, correndo até ele — não pode ser. Auberon, pelo amor de Deus, componha-se. Você foi escolhido Rei!
Com a cabeça ainda de cabeça para baixo entre as pernas, o sr. Quin respondeu modestamente:
— Não sou digno. Não posso razoavelmente pretender me igualar aos
grandes homens que já empunharam o cetro da Grã-Bretanha. Talvez a
única peculiaridade que posso afirmar é que sou provavelmente o primeiro
monarca que expressou sua alma ao povo de Inglaterra com a cabeça
e corpo na presente posição. Isto pode dar-me, para citar um poema
que escrevi na minha juventude:
Um ofício mais nobre na terra
Do que por valor, poder cerebral, ou nascimento
Poderiam dar aos reis guerreiros antigos.
Assim, com o intelecto esclarecido por essa postura...
Lambert e Barker foram encima dele.
— Não entende? — gritou Lambert. — Não é uma piada. Eles realmente te escolheram rei. Por Deus! Devem ter gostos extravagantes.
— Os grandes bispos da Idade Média — disse Quin, chutando as pernas no ar, enquanto era arrastado mais ou menos de cabeça para baixo — tinham o hábito de recusar a honra da eleição três vezes e depois aceitá-la. Uma mera questão de detalhes me separa desses grandes homens. Aceitarei o cargo três vezes e recusá-lo depois. Oh! vou trabalhar duro para vocês, meus fiéis! Terão um banquete de humor.
Por então, já havia sido aterrizado de cabeça para cima, e os dois homens ainda estavam tentando em vão impressioná-lo com a gravidade da situação.
— Não me disse, Wilfrid Lambert, que eu teria mais valor público se adotasse uma forma mais popular de humor? E quando uma forma popular de humor deveria ser mais firmemente pregada senão agora, quando me tornei o queridinho de todo um povo? Oficial, — continuou ele, dirigindo-se para o mensageiro assustado — não existem cerimônias para comemorar a minha entrada na cidade?
— Cerimônias — começou o oficial, com constrangimento — foram mais ou menos esquecidas por algum tempo, e...
Auberon Quin começou a gradualmente tirar o casaco.
— Toda cerimônia — disse ele — consiste na inversão do óbvio. Assim, os homens, quando desejam ser padres ou juízes, vestem-se como mulheres. Por favor, me ajude com este casaco — e o segurou.
— Mas, Majestade — disse o oficial, depois de um momento de confusão e manipulação — está colocando-o com as caudas na frente.
— A inversão do óbvio — disse o rei, com calma — é o mais próximo a que podemos chegar de um ritual com nosso imperfeito aparato. Pode continuar.
O resto da tarde e noite foi para Barker e Lambert um pesadelo, que não poderiam apropriadamente compreender ou recordar. O rei, com seu casaco invertido, foi para as ruas que estavam à espera dele, e para o antigo palácio de Kensington, que era a residência real. Enquanto passava pequenos grupos de homens, os grupos se transformou em multidões, e emitiam sons que pareciam estranhos para acolher um autocrata. Barker andou atrás, seu cérebro cambaleando, e, enquanto a multidão crescia mais espessa, os sons se tornaram ainda mais incomuns. E quando alcançou o grande mercado local em frente à igreja, Barker sabia que tinha chegado, embora estivesse bem atrás, porque subiu uma gritaria como nunca antes havia recebido nenhum dos reis da terra.
Livro II |
A Carta das Cidades
Lambert estava de pé no lado de fora da porta dos aposentos do rei, atônico em meio a aquela agitação de espanto e ridículo. Estava de passagem para a rua, atordoado, quando James Barker cruzou com ele.
— Onde vai? — perguntou ele.
— Parar com toda essa tolice, é claro — respondeu Barker, e desapareceu dentro do quarto.
Entrou de cabeça, batendo a porta, e colocando seu incomparável chapéu de seda sobre a mesa. Sua boca se abriu, mas antes que pudesse falar, o rei disse:
— Seu chapéu, por favor.
Revolvendo os dedos, e mal sabendo o que estava fazendo, o jovem político o entregou.
O rei colocou-o em sua própria cadeira, e sentou-se nele.
— Um curioso costume antigo — explicou ele, sorrindo acima das ruínas. — Quando o Rei recebe os representantes da casa de Barker, o chapéu do último é imediatamente destruído dessa maneira. Representa a finalidade absoluta do ato de homenagem expressa na remoção do mesmo. Ele declara que nunca, até que o chapéu surja mais uma vez em sua cabeça (uma contingência que acredito firmemente ser remota), poderá a casa de Barker rebelar-se contra a coroa da Inglaterra.
Barker estava com o punho cerrado, e os lábios agitados.
— Suas piadas — começou ele — e minha propriedade.. — e, em seguida, explodiu com um palavrão, e parou de novo.
— Continue, continue — disse o Rei, acenando com as mãos.
— O que significa tudo isso? — exclamou o outro, com um gesto de racionalidade passional. — Está louco?
— Nem um pouco — respondeu o rei, agradavelmente. — Os loucos são sempre graves, enlouquecem por falta de humor. Está ficando muito sério, James.
— Por que não pode manter isso na sua vida privada? — queixou-se o outro. — Agora, tem muito dinheiro, e abundância de casas para bancar o tolo, mas no interesse público...
— Epigramático — disse o rei, apontando o dedo, infelizmente para ele. — Nenhuma de suas ousadas cintilações aqui. Quanto ao porquê de não fazer isso em particular, não consigo entender a sua pergunta. A resposta é de comparativa limpidez. Não o faço em particular, porque é mais engraçado fazê-lo em público. Parece pensar que seria divertido ser dignificado no salão de banquetes e na rua, e na minha própria lareira (eu poderia adquirir uma lareira) manter todos rindo. Mas isso é o que todos fazem. Todo mundo é sério em público, e engraçado em privado. Meu senso de humor sugere a inversão desta; sugere que se deve ser engraçado em público e solene em particular. Desejo fazer das funções de Estado, os parlamentos, coroações, e assim por diante, uma antiquada pantomina para o riso. Por outro lado, eu me tranquei sozinho em uma pequena despensa por duas horas por dia, onde sou tão digno que me sinto mal.
Por esta altura, Barker andava para cima e para baixo da sala, sua sobrecasaca batendo como as asas de um pássaro preto.
— Bem, você vai arruinar o país — disse secamente.
— Parece-me — disse Auberon — que a tradição de dez séculos está sendo quebrada, e a casa dos Barker está se rebelando contra a Coroa da Inglaterra. Seria com pesar (porque admiro a sua aparência) que seria obrigado a decorar a sua cabeça com os restos deste chapéu, mas...
— O que eu não consigo entender — disse Barker levando os dedos com um movimento frenético bem americano — é porque não se importa com nada exceto seus jogos.
O rei parou bruscamente o ato de levantar os restos de seda, deixou-os cair, e caminhou até Barker, olhando-o firmemente.
— Fiz uma espécie de voto de que não iria falar sério, o que sempre
significa responder perguntas tolas. Mas o homem forte será sempre
gentil com os políticos.
“A forma de meus olhares desdenhosos a ridicularizar,
Foi preciso um Deus para moldar”
se assim posso exprimir-me teologicamente. E por alguma razão que
não posso compreender minimamente, sinto-me impelido a responder a
essa pergunta de vocês, e para respondê-la como se realmente houvesse
tal coisa no mundo como um assunto sério. Pergunta-me por que não
ligo para nada mais. Pode dizer-me, em nome de todos os deuses que
você não acredita, por que deveria me importar com outra coisa?
— Não percebe as necessidades públicas comuns? — gritou Barker. — Como é possível que um homem da sua inteligência não percebe que é do interesse de todos...
— Você não acredita em Zoroastro? É possível que negligencie Mumbo-Jumbo? — devolveu o Rei, com animação surpreendente. — Um homem de sua inteligência me vêm com esses malditos princípios de ética vitoriana? Se, ao estudar as minhas características e maneiras, você detectar qualquer semelhança especial com o príncipe consorte, lhe asseguro que está enganado. Será que Herbert Spencer o convenceu, ele nunca convence ninguém, ele nunca por um momento louco convenceu a si mesmo, que é do interesse do indivíduo se sentir um espírito público? Acredita que, se você governa seu departamento mal, terá alguma chance, ou a metade da chance, de ser guilhotinado, que um pescador sendo puxado de dentro do rio por um pique forte? Herbert Spencer absteve-se de roubo, pela mesma razão que ele se absteve de usar penas em seus cabelos, porque era um cavalheiro inglês com gostos diferenciados. Eu sou um cavalheiro inglês, com gostos diferenciados. Ele gostava de filosofia. Eu gosto de arte. Ele gostaria de escrever dez livros sobre a natureza da sociedade humana. Eu gostaria de ver o Lorde Chamberlain andando na minha frente com um pedaço de papel preso ao rabo do paletó. É o meu humor. Entendeu minha resposta? De qualquer forma, disse a minha última palavra séria hoje, e minha última palavra séria confio para o resto da minha vida a este paraíso dos tolos. No restante da minha conversa com vocês hoje, que espero ser longa e estimulante, proponho conduzir em uma nova linguagem de minha criação baseado em movimentos rápidos e simbólicos da perna esquerda — e ele começou a piruetar lentamente em volta da sala com uma expressão preocupada.
Barker percorreu a sala, depois dele, bombardeando-o com as exigências e súplicas. Mas não recebeu nenhuma resposta, exceto no novo idioma. Ele saiu batendo a porta novamente, e doente como um homem vindo em terra. Como ele caminhou pelas ruas se viu de repente em frente ao restaurante Cicconani, e por algum motivo levantou-se diante dele a fantástica figura verde do general espanhol, de pé, como tinha visto ele pela última vez, na porta, com as palavras em sua lábios: “Não se pode argumentar com a escolha da alma.”
O rei saiu de sua dança com o ar de um homem de negócios legitimamente cansado. Ele vestiu um casaco, acendeu um charuto, e saiu para a noite purpura.
“Eu sou o rei do castelo.”
— Irei me misturar com o povo.
Passou rapidamente por uma rua no bairro de Notting Hill, quando de repente sentiu um objeto duro batendo em seu colete. Parou, colocou o seu monóculo, e viu um rapaz com uma espada de madeira e um chapéu de papel armado, usando aquela expressão de temor satisfeito com que uma criança contempla a sua obra quando bate alguém de forma dura. O rei olhou pensativo por algum tempo o seu agressor, e lentamente pegou um caderno do bolso no peito.
— Tenho algumas notas para o meu discurso fúnebre — e virou as folhas. — Discurso fúnebre por assassinato político; idem, se por ex-amigo... hum, hum. Discurso fúnebre por morte nas mãos de um marido afrontado (e arrependido), discurso fúnebre para o mesmo (mas cínico). Não estou certo de qual seria adequado para o presente ....
— Eu sou o rei do castelo — disse o menino, de forma truculenta, e muito satisfeito por alguma razão.
O rei era um homem bondoso, e gostava muito de crianças, como todas as pessoas que gostam do ridículo.
— Infante, estou contente por ser tão valente defensor da antiga e inviolável Notting Hill. Toda noite olhe acima, meu filho, onde levanta-se entre as estrelas, tão antiga, tão solitária, tão indizivelmente Notting. Enquanto estiver pronto para morrer pela montanha sagrada, mesmo que cercado por todos os exércitos de Bayswater...
O rei parou de repente, e seus olhos brilhavam.
— Talvez, talvez a mais nobre de todas as minhas concepções. Um reavivamento da arrogância das antigas cidades medievais aplicadas aos nossos gloriosos subúrbios. Clapham com uma guarda citadina. Wimbledon com uma muralha. Surbiton tocando o sino para chamar seus cidadãos. West Hampstead para a batalha com sua própria bandeira. Deveria ser feito. Eu, o rei, digo isso — e apressadamente presentou o menino com meia coroa, observando: — Para o fundo de guerra de Notting Hill — e então correu violentamente para casa com tal velocidade que as multidões o seguiam por milhas. Ao chegar a seu escritório, pediu uma xícara de café, e mergulhou em profunda meditação sobre o projeto. Finalmente, ele chamou o seu escudeiro favorito, o capitão Bowler, por quem tinha uma afeição profunda, fundada principalmente pela forma de seus bigodes.
— Bowler — disse ele —, não existe uma sociedade de pesquisa histórica, ou algo do qual sou membro honorário?
— Sim, senhor — disse o capitão Bowler, esfregando o nariz —, é um membro dos “Incentivadores do Renascimento Egípcio”, “Clube dos Túmulos Teutônico” , “Sociedade para a Recuperação de Antiguidades de Londres”, e …
— Admirável! — disse o rei. — O de “Antiguidades de Londres” é adequado. Vá para a “Sociedade para a Recuperação de Antiguidades de Londres” e fale com seu secretário, seu sub-secretário, seu presidente, e seu vice-presidente, dizendo: ’O rei da Inglaterra é orgulhoso, mas o membro honorário da Sociedade de Recuperação de Antiguidades de Londres é mais orgulhoso do que reis. Gostaria de dizer-lhe de certas descobertas que fiz no tocante as tradições negligenciadas dos bairros de Londres. As revelações podem causar alguma emoção, agitando memórias ardentes e tocar em velhas feridas em Shepherd’s Bush e Bayswater, em Pimlico e South Kensington. O rei hesita, mas o membro honorário é firme. Aproximo-me invocando os votos de minha iniciação, os Sagrados Sete Gatos, o Poker de Perfeição, e a Provação do Instante Indescritível (perdoem-me se misturá-los com o Clã-na-Gael ou algum outro clube a que pertenço), e peço que me permitam ler um artigo em sua próxima reunião: "As guerras dos bairros de Londres".’ Diga tudo isso para a sociedade, Bowler. Lembre-se com muito cuidado, pois é importante, e esqueci tudo completamente, e envia-me uma xícara de café e alguns dos charutos que mantemos para pessoas bem sucedidas e vulgares. Vou escrever o meu artigo.
A Sociedade para a Recuperação de Antiguidades de Londres encontrou-se um mês depois em um salão de ferro corrugado, nos arredores de um dos subúrbios ao sul de Londres. Um grande número de pessoas tinha se ajuntado lá sob grossos e flamejantes jatos de gases, quando o rei chegou, suado e genial. Ao tirar o sobretudo, perceberam que estava em traje de noite, com a liga da Jarreteira. Sua aparição na pequena mesa, adornada apenas com um copo de água, foi recebida com aplausos respeitosos.
O presidente (Sr. Huggins) disse que tinha certeza de que todos já tiveram o prazer de ouvir tais professores ilustres já há algum tempo (bravo, bravo). O sr. Burton (bravo, bravo), o sr. Cambridge, o professor King (uma exortação continuada), o velho amigo Peter Jessop, sir William White (gargalhadas), e outros homens eminentes que honram este pequeno empreendimento (aplausos). Mas havia outras circunstâncias que emprestam uma certa qualidade exclusiva para a ocasião presente (bravo, bravo). Até onde vai sua lembrança, e em relação a Sociedade de Recuperação de Antiguidades de Londres vai muito longe (aplausos altos), não se lembrava de que qualquer um de seus palestrantes que tivesse o título de rei. Ele iria, portanto, chamar o rei Auberon brevemente para tratar da palestra.
O rei começou por dizer que este discurso pode ser considerado como a primeira declaração de sua nova política para a nação.
— Nesta hora suprema da minha vida sinto que a ninguém, senão aos membros da Sociedade para a Recuperação de Antiguidades de Londres posso abrir meu coração (aplausos). Se o mundo ir contra minha política, e as tempestades de hostilidade popular começarem a subir (não, não), sinto que é aqui, com meus bravos recuperadores em torno de mim, que posso combatê-los melhor, com a espada na mão (altos aplausos).
Sua Majestade, em seguida, passou a explicar que, agora que a velhice se aproxima, propôs-se a dedicar sua força restante para trazer um sentido mais agudo de patriotismo local nos diferentes municípios de Londres. Como tão poucos deles conheciam as lendas de seus bairros próprios! Quantos havia que nunca tinha ouvido falar da verdadeira origem do Wink de Wandsworth! E que uma grande parte da geração mais jovem em Chelsea deixou de interpretar o velho Chuff Chelsea! Pimlico já não bombeava os Pimlies. Battersea tinha esquecido o nome de Blick.
Houve um breve silêncio, e então uma voz disse:
— Que vergonha!
O rei continuou:
— Sendo chamado, mesmo indignamente, a este grande papel, resolvi que, na medida do possível, essa negligência cessará. Não desejo glória militar. Não reivindico igualdade constitucional com Justiniano ou Alfred. Se posso passar na história como o homem que salvou da extinção alguns velhos costumes ingleses, se os nossos descendentes possam dizer que foi através deste homem, humilde como ele era, que os dez nabos ainda são consumidos em Fulham, e que o conselheiro da paróquia ainda raspa metade da cabeça em Putney, quando chegar a hora de descer até a última casa de Reis, vou procurar meus grandes pais com reverência mas não com medo no rosto.
O rei fez uma pausa, visivelmente emocionado, mas se recompôs, e retomou mais uma vez.
— Acredito que muito poucos de vocês, pelo menos, precisariam de mim para debruçar sobre as origens sublimes dessas lendas. Os próprios nomes de seus bairros testemunham para elas. Enquanto Hammersmith é chamado de Hammersmith, o seu povo vive na sombra do herói primordial, o ferreiro, que liderou a democracia da Broadway para a batalha até que enfrentou os cavalheiros de Kensington e derrubou-os no lugar que em honra do melhor sangue da aristocracia derrotada ainda é chamado Kensington Gore. Os homens de Hammersmith não deixarão de lembrar que o próprio nome de Kensington veio dos lábios do seu herói. No grande banquete da reconciliação realizada após a guerra, quando os oligarcas desdenhosos se recusaram a participar das canções dos homens da Broadway (que são até hoje de um caráter rude e popular), o grande líder republicano, com seu humor áspero, disse as palavras que estão escritas em ouro acima de seu monumento, ’Passarinhos que podem cantar e não cantam, deve-se fazê-los cantar.’ E a partir de então os cavaleiros do oriente foram chamados de Cansings ou Kensings. Mas vocês também têm ótimas lembranças, ó homens de Kensington! Mostraram que podem cantar, e cantar grandes canções de guerra. Mesmo após o dia escuro de Kensington Gore, a história vai não esquecer os três cavaleiros que guardavam a sua retirada desordenada do Hyde Park (chamado assim pelo esconderijo lá), os três cavaleiros por quem Knightsbridge foi assim nomeado. Nem vai esquecer o dia de sua reemergência, purificada no fogo de calamidade, purificada de suas corrupções oligárquicas, quando, de espada na mão, dirigiram o Império do Hammersmith de volta milha por milha, o empurraram até a Broadway, e o partiram, finalmente, em uma batalha tão longa e sangrenta que as aves de rapina deixaram seu nome acima. Homens o chamaram, com ironia austera, de Ravenscourt. Não devo ferir o patriotismo de Bayswater, ou o orgulho solitário de Brompton, ou que de qualquer outro município histórico, tomando estes dois exemplos como especiais. Eu os selecionei, não porque eles são mais gloriosos do que o resto, mas em parte por associação pessoal (eu mesmo sou descendente de um dos três heróis de Knightsbridge), e parto da consciência de que sou um antiquário amador, e não posso pretender lidar com tempos e lugares mais remotos e mais misteriosos. Não é para mim resolver a questão entre homens como Professor Hugg e Sir William Whisky se Notting Hill significa Nutting Hill (em alusão às madeiras ricas que já não a cobrem), ou se é uma corrupção de Notting-ill, referindo-se a sua reputação entre os antigos como um paraíso terrestre. Quando um Podkins e um Jossy confessam dúvidas sobre os limites do West Kensington (diz ter sido traçada no sangue de bois), não preciso ter vergonha de confessar uma dúvida similar. Vou pedir-lhes para me desculpar com o aprofundamento da história, e para me ajudar a lidar com o problema que hoje enfrentamos. Deve o espírito antigo dos municípios de Londres morrer? Devem nossos condutores de ônibus e policiais perder totalmente a luz que vemos tão frequentemente nos seus olhos, a luz sonhadora de
“Coisas velhas, infelizes e distantes
E lutas de muito tempo”
para citar palavras de um poeta pouco conhecido, que era meu amigo na minha juventude? Resolvi, como disse, na medida do possível, preservar os olhos de policiais e condutores de ônibus em seu presente estado de sonho. Pois o que é um estado sem sonhos? E o remédio proposto é como se segue:
— Para amanhã de manhã, vinte e cinco minutos depois das dez, se o céu poupar minha vida, pretendo fazer uma proclamação. Tem sido o trabalho da minha vida, e está semiacabado. Com a ajuda de um whisky com soda, vou terminar a outra metade à noite, e meu povo vai recebê-la amanhã. Todos estes bairros onde nasceram, e esperam colocar seus ossos, deverão ser restabelecidos em sua magnificência antiga, Hammersmith, Kensington, Bayswater, Chelsea, Battersea, Clapham, Balham, e uma centena de outros. Cada um deverá imediatamente construir uma muralha com portas para serem fechadas ao pôr do sol. Cada um deve ter uma guarda da cidade, armada até os dentes. Cada um deve ter uma bandeira, um escudo de armas, e, se conveniente, um grito de reunião. Não vou entrar em detalhes agora, meu coração está muito cheio. Eles poderão ser encontrados na proclamação em si. No entanto, todos deverão se inscrever nas guardas locais da cidade, para serem convocados por uma coisa chamada tocsin1, cujo significado estou estudando em minhas pesquisas em história. Pessoalmente, acredito que um tocsin é algum tipo de oficial muito bem pago. Se, portanto, acontecer de você ter algo como uma alabarda na casa, eu deveria aconselhá-lo a praticar com ela no jardim.
Neste ponto o rei cobriu o rosto com um lenço e rapidamente deixou o palco, coberto de emoções.
Os membros da Sociedade para a Recuperação de Antiguidades de Londres se levantaram num indescritível estado de confusão. Alguns estavam roxos de indignação, uns pouco intelectuais estavam roxos de tanto rir, a grande maioria encontrou suas mentes em branco. Conta uma tradição que um rosto pálido, com olhos azuis em chamas permaneceu fixo no palestrante, e após a palestra um menino de cabelos vermelhos saiu correndo da sala.
- 1
- toque de emergência
O Conselho dos Superintendentes
O rei levantou-se cedo na manhã seguinte e desceu três degraus de cada vez como um colegial. Depois de ter comido seu café da manhã às pressas, mas com apetite, ele convocou um dos mais altos funcionários do Palácio, e lhe presenteou com um xelim.
—Vai, e compra-me uma caixa de tintas de um xelim, que você vai conseguir, a menos que as brumas do tempo me enganem, em uma loja na esquina da segunda e mais suja rua que leva para a linha Rochester. Já solicitei ao mestre de Buckhounds para fornecer-me papelão. Pareceu-me (não sei porque) que caia dentro de suas especialidades.
O Rei estava feliz durante toda a manhã com o seu papelão e sua caixa de tintas. Ele estava envolvido na concepção dos uniformes e brasões de armas para os vários bairros de Londres. Pensou profunda e consideravelmente nisto. Sentiu a responsabilidade.
— Não posso imaginar porque as pessoas pensam nos nomes de lugares do campo como mais poéticos do que aqueles em Londres. Românticos superficiais pegam o trem e param em lugares chamados Hugmy-in-the-Hole1, ou Bumps-on-the-Puddle2. Enquanto poderiam, se quisessem, morar em um lugar com o nome, divino e tenebroso de St. John’s Wood3. Nunca fui à St. John’s Wood. Não ouso. Devo ter medo da noite inumerável de pinheiros, medo de encontrar um buraco vermelho-sangue e do bater das asas da águia. Mas todas estas coisas podem ser imaginadas, permanecendo-se dignamente no trem de Harrow.
E cuidadosamente retocou seu projeto para a vestimenta principal do alabardeiro da St. John’s Wood, um desenho em preto e vermelho, composta de um pinheiro e da plumagem de uma águia. Então se virou para outro cartão.
— Vamos pensar em assuntos mais leves — disse ele. — Lavender Hill! Poderia qualquer uma das suas glebas, vales e todo o resto produzir tão perfumada ideia? Pense em uma montanha de lavanda levantando-se em pungência púrpura nos céus de prata e enchendo as narinas dos homens com um novo sopro de vida, uma colina púrpura de incenso. É verdade que nas minhas poucas excursões de exploração num bonde barato, falhei em localizar o ponto exato. Mas deve estar lá; algum poeta o chamou pelo nome. Há pelo menos o suficiente para justificar as solenes plumas púrpuras (seguindo a formação botânica da lavanda) que tornei de uso obrigatório, na vizinhança de Clapham Junction. Depois de tudo, será assim em toda parte. Nunca fui realmente para Southfields, mas suponho que um esquema de de limões e azeitonas represente seus instintos austrais. Nunca visitei Parson’s Green, ou vi tanto o verde ou o pastor, mas certamente os chapéus verde-pálido que projetei devem estar mais ou menos no espírito. Preciso trabalhar no escuro e deixar meus instintos me guiar. O grande amor que tenho pelo meu povo, certamente me salvará de angustiar seu nobre espírito ou violar as suas grandes tradições.
Enquanto estava refletindo nesse sentido, a porta se abriu, e um funcionário anunciou o sr. Barker e o sr. Lambert.
O sr. Barker e sr. Lambert não estavam particularmente surpresos ao encontrar o rei sentado no chão em meio a um monte de esboços de aquarela. Eles não estavam particularmente surpresos porque a última vez que tinham sido convidados haviam o encontrado sentado no chão, rodeado por um monte de tijolos de criança, e da vez anterior cercado por um monte de tentativas inteiramente frustradas de fazer dardos de papel. Mas a tendência de observações da criança real, proferidas no meio deste caos infantil, era algo novo.
Por algum tempo deixaram-no balbuciar, consciente de que suas observações não significavam nada. E então um pensamento horrível começou a se apossar da mente de James Barker. Ele começou a pensar que as observações do rei significavam algo.
— Em nome de Deus, Auberon — gritou de repente, surpreendendo o calmo salão —, você não quer dizer que vai realmente ter essas guardas da cidade, muralhas e todo o resto?
— Terei, realmente — disse a criança, em uma calma voz. — Por que eu não deveria tê-los? Eu os modelei precisamente com seus princípios políticos. Sabe o que eu fiz, Barker? Eu me comportei como um verdadeiro Barkeriano. Eu... mas talvez não interesse a você, a minha noção de conduta Barkeriana.
— Ah, vá, vá em frente — gritou Barker.
— A minha noção da conduta Barkeriana — disse Auberon, calmamente — parece não só interessar, mas alarmá-lo. No entanto, é muito simples. Simplesmente consiste em escolher todos os Superintendentes sob qualquer novo regime pelo mesmo princípio pelo qual o déspota central é nomeado. Cada Superintendente, de cada cidade, sob a minha carta, deve ser nomeado por rotação. Portanto, meu caro Barker, tenha um sono tranquilo.
Os olhos selvagens de Barker brilharam.
— Mas, em nome de Deus, você não vê, Quin, que a coisa é bem diferente? O centro, não importa tanto, apenas porque todo o objetivo do despotismo é obter algum tipo de unidade. Mas se qualquer maldita paróquia pode ser encarregada a qualquer maldito homem...
— Vejo a sua dificuldade — disse o rei Auberon, calmamente. — Você sente que seus talentos podem ser negligenciados. Ouça! — E levantou-se com imensa magnificência. — Eu solenemente dou ao meu vassalo, James Barker, meu favor especial e esplêndido, o direito de substituir o óbvio texto da Carta das Cidades, e ser, em seu direito próprio, alto lorde Superintendente de South Kensington. E agora , meu caro James, está tudo bem. Bom dia.
— Mas... — começou Barker.
— A audiência terminou, Superintendente. — disse o rei, sorrindo.
Até que ponto sua confiança se justificava, exigiria uma descrição um tanto complicada de explicar. “A grande proclamação da Carta das Cidades Livres” apareceu no tempo devido, naquela manhã, e foi afixada em toda parte da frente do palácio por fixadores de cartazes, o rei os ajudando dando direções animadamente, e de pé no meio da estrada, com a cabeça de lado, contemplava o resultado. Também foi exibida, em cima e em baixo, nas vias principais por homens-sanduíche, e o rei foi impedido de fazer o mesmo por dificuldades próprias, sendo, de fato, encontrado pelo moço da estola e o capitão Bowler, lutando entre duas placas. Sua excitação teve de ser acalmada como a de uma criança.
A recepção que a Carta das Cidades encontrou nas mãos do público pode ser moderadamente descrita como uma mistura. Em certo sentido, era bastante popular. Em muitos lares felizes aquele notável documento legal foi lido em voz alta nas noites de inverno em meio a uma apreciação hilariante, quando todos já tinham decorado aquele clássico antiquado mas imortal que era sr. WW Jacobs. Mas quando foi descoberto que o rei tinha a intenção de exigir a sério as disposições a serem realizadas, de insistir que as grotescas cidades, com toques de emergência e guardas municipais, deveriam realmente vir a existir, iniciou-se uma confusão bem raivosa. Os londrinos não tinham nenhuma objeção particular ao rei fazendo papel de bobo, mas ficaram indignados quando se tornou evidente que ele quis fazer eles de bobos, e os protestos começaram a surgir.
O Alto Lorde Superintendente da Boa e Valente Cidade de West Kensington escreveu uma carta respeitosa ao rei, explicando que em ocasiões de Estado seria, é claro, o seu dever observar as formalidades que o Rei pensou adequadas, mas que era realmente estranho para um pai de família decente ser proibido de sair e colocar um cartão-postal em uma caixa postal sem ser escoltado por cinco arautos, que anunciavam, com gritos e explosões formais de um trompete, que o Alto Lorde Superintendente desejava enviar sua correspondência.
O Alto Lorde Superintendente de North Kensington, que era um próspero comerciante de tecidos, escreveu uma breve carta de negócios, como um homem queixando-se de uma empresa ferroviária, queixando-se da definitiva inconveniência causada pela presença dos alabardeiros, que ele tinha que levar por toda parte. Ao tentar pegar um ônibus para a cidade, descobriu que enquanto poderia encontrar espaço para si mesmo, os alabardeiros tinham dificuldade em entrar no veículo: dou fé, seu fiel servidor.
O Alto Lorde Superintendente de Shepherd’s Bush disse que sua esposa não gostava de homens em volta da cozinha.
O rei ficava sempre encantado ao ouvir essas queixas, oferecendo respostas lenientes e reais, mas como ele sempre insistia, com absoluto sine qua non, que as queixas verbais deviam ser apresentados a ele com a maior pompa de trombetas, plumas, e alabardas, apenas alguns espíritos resolutos estavam preparados para encarar o desafio dos pequenos meninos na rua.
Entre estes, no entanto, destacou-se o abrupto, eficiente e metódico cavalheiro, que governava North Kensington. E ele teve em pouco tempo, uma ocasião para entrevistar o rei sobre um assunto mais amplo e ainda mais urgente do que o problema dos alabardeiros e o ônibus. Esta foi a grande questão que, então e por muito tempo, agitou o sangue e enrubesceu o rosto de todos os construtores especulativos e agentes imobiliários de Shepherd’s Bush a Marble Arch, e de Westbourne Grove a High Street de Kensington. Refiro-me ao grande assunto das melhorias em Notting Hill. O esquema foi conduzido principalmente pelo Sr. Buck, o abrupto magnata de North Kensington, e pelo Sr. Wilson, o Superintendente de Bayswater. Uma grande avenida deveria ser conduzida através de três bairros, através de West Kensington, North Kensington e Notting Hill, a abertura em uma extremidade de Hammersmith Broadway, e a outra em Westbourne Grove. As negociações, compras e vendas, a intimidação e o suborno levou dez anos, e no final dela, Buck, que as conduziu quase sozinho, provou-se um homem do tipo mais forte de diplomacia e energia. E assim quando sua esplêndida paciência e ainda mais esplêndida impaciência finalmente trouxeram-lhe a vitória, quando os operários já estavam demolindo casas e muros ao longo da grande linha de Hammersmith, apareceu um obstáculo repentino que não contavam ou mesmo sonhavam, um obstáculo pequeno e estranho, que, como um grão de areia em uma grande máquina, abalou todo o vasto esquema e o paralisou. E o Sr. Buck, o tecelão, vestindo com grande impaciência sua indumentária oficial e convocando com desgosto indescritível seus alabardeiros, correu para falar com o rei.
Dez anos não haviam cansado o rei de sua piada. Havia ainda novos rostos para serem vistos olhando para ele usando os simbólicos chapéus que havia projetado, no meio das fitas pastorais da Shepherd’s Bush ou debaixo dos capuzes sombrios da estrada de Blackfriars. E a entrevista que foi prometida ao superintendente de North Kensington, antecipou com um prazer especial, pois “nunca apreciava toda a riqueza das vestes medievais, a menos que as pessoas obrigadas a usá-las não fossem muito irritadas, eficientes e metódicas”.
O sr. Buck era tal. Ao comando do rei, a porta da câmara de audiência foi aberta e um arauto apareceu nas cores púrpuras da comunidade do sr. Buck, estampada com a grande águia que o rei havia atribuído a North Kensington, em vaga reminiscência à Rússia, pois ele sempre insistiu em relacionar North Kensington como uma espécie de bairro semi-ártico. O arauto anunciou que o superintendente daquela cidade desejava uma audiência com o rei.
— De North Kensington? — disse o Rei, subindo graciosamente. — Que notícias traz de sua terra de altas colinas e mulheres justas? Ele é bem-vindo.
O arauto avançou para o quarto, e foi imediatamente seguido por doze guardas vestidos de purpura, que foram seguidos por um atendente ostentando a bandeira da Águia, que foi seguido por outro atendente tendo as chaves da cidade em cima de uma almofada, que foi seguido pelo sr. Buck com muita pressa. Quando o Rei viu seu forte rosto animal e os olhos fixos, ele sabia que estava na presença de um grande homem de negócios, e preparou-se conscientemente.
— Bem, bem – disse ele, alegremente descendo dois ou três passos de um estrado, e juntando as mãos lentamente —, estou contente de vê-lo. Não se importe, não se importe. Cerimônia não é tudo.
— Não entendo, vossa Majestade — disse o superintendente, impassível.
— Não se preocupe, não importa — disse o Rei, alegremente. — O conhecimento da corte não é de nenhuma maneira um mérito puro, fará melhor da próxima vez, sem dúvida.
O homem de negócios olhou para ele de mau humor sob as sobrancelhas negras e disse mais uma vez sem mostras de civilidade:
— Não entendo.
— Bem, bem — respondeu o rei, bem-humorado —, se você me perguntar, não me importo de lhe contar, porque não atribuo qualquer importância a estas formalidades em comparação com um coração honesto. Mas é usual (e isto é tudo, é usual) para um homem ao entrar na presença da realeza se deitar de costas sobre o chão e elevar seus pés para o céu (como a fonte do poder real) e dizer três vezes: ’Instituições monárquicas melhoram as maneiras.’ Mas a pompa, tal pompa é muito menos verdadeiramente digna do que a sua simples bondade.
O rosto do Superintendente estava vermelho de raiva, mas manteve silêncio.
— E agora — disse o Rei, de ânimo leve, e com o ar exasperante de um homem encerrando uma afronta — que tempo agradável estamos tendo! Deve achar as suas vestes oficiais bem quentes, meu Lorde. Eu as projetei para a sua própria terra coberta de neve!
— Elas são tão quentes como o inferno — disse Buck, brevemente. — Vim aqui a negócios.
— Certo — disse o rei, apontando um grande número de vezes com solenidade bastante inexpressiva —, certo, certo. Negócio, como o velho triste contente persa dizia, é negócio. Seja pontual. Levante cedo. Leve a caneta no ombro, porque você não sabe de onde você vem, nem porquê. Leve a caneta no ombro, porque você não sabe quando nem onde ir.
O Superintendente tirou uma série de papéis do bolso e os abriu violentamente.
— Vossa Majestade deve ter ouvido falar — começou ele, sarcasticamente — de Hammersmith e uma coisa chamada estrada. Estamos trabalhando faz dez anos, comprando propriedades, obtendo poderes compulsórios, fixando indenizações, acomodando interesses velados e, agora, no final, a coisa é interrompido por um idiota. O velho Prout, que era superintendente de Notting Hill, era um homem de negócios, e lidávamos com ele de forma bem satisfatória. Mas ele está morto, e o lote amaldiçoado caiu sobre um jovem chamado Wayne, que está metido em algum jogo que é completamente incompreensível para mim. Nós lhe oferecemos um preço melhor do que qualquer um poderia sonhar, mas ele não vai deixar a estrada passar. E o seu conselho parece estar apoiando-o. É uma loucura de verão.
O Rei, que estava desatento, envolvido em desenhar o nariz do superintendente com o dedo na vidraça, ouviu as duas últimas palavras.
— Que frase perfeita! “Loucura de Verão!”
— O ponto principal é — continuou Buck, obstinadamente — que a única parte que realmente está em questão é uma pequena rua suja, Pump Street, uma rua sem nada, exceto uma taverna, uma loja de brinquedos baratos, e esse tipo de coisa. Todas as pessoas respeitáveis de Notting Hill aceitaram a nossa compensação. Mas o inefável Wayne não cede Pump Street. Diz que é o superintendente de Notting Hill. Ele é apenas superintendente de Pump Street.
— Um bom pensamento — respondeu Auberon. — Gosto da ideia de um superintendente de Pump Street. Por que não deixá-lo em paz?
— E arruinar todo o esquema? — gritou Buck, numa explosão de espírito brutal. — Que eu seja amaldiçoado se o fazemos! Não. Pretendo enviar os trabalhadores para derrubar, sem mais delongas.
— Ataque pela águia purpura! — gritou o rei acalorado pelas associações históricas.
— Vou dizer — disse Buck, perdendo a paciência por completo — , se Vossa Majestade gastasse menos tempo insultando pessoas respeitáveis com seus brasões de armas bobos, e mais tempo com os negócios da nação...
O rei enrugou a testa, pensativo:
— A situação é ruim, o cidadão arrogante desafiando o rei em seu próprio palácio. A cabeça do cidadão deveria estar inclinada e o braço direito estar estendido; a esquerda pode estar levantada para o céu, mas isto deixo para o seu sentimento religioso privado. Estou afundado nesta cadeira, golpeado com fúria perplexa. Agora, de novo, por favor.
Buck abriu a boca como um cão, mas antes que pudesse falar, outro arauto apareceu na porta:
— O alto lorde Superintendente de Bayswater deseja uma audiência.
— Deixe ele entrar — disse Auberon. — Este é um dia alegre.
Os alabardeiros de Bayswater usavam um uniforme predominante verde, e a bandeira que foi levada depois deles era estampada com uma coroa de louro verde sobre um fundo prata, que o rei, no curso de suas pesquisas junto a uma garrafa de champanhe, tinha descoberto ser o trocadilho pitoresco de Bayswater4.
— É um símbolo adequado — disse o Rei —, a imortal coroa de louros. Fulham pode buscar riqueza, Kensington a arte, mas quando os homens de Bayswater se importaram com algo, exceto a glória?
Imediatamente atrás da bandeira, e quase completamente escondido por ela, veio o superintendente, em vestes esplêndidas de verde e prata com peles brancas e coroado com louro. Ele era um pequeno homem ansioso com bigodes vermelhos, originalmente proprietário de uma loja de pequenos doces.
— Nosso primo de Bayswater — disse o Rei, com prazer —, o que podemos servir a ele? O Rei falou distintamente a murmurar — carne, presunto, frango frio — sua voz morrendo em silêncio.
— Vim ver vossa Majestade — disse o superintendente de Bayswater, cujo nome era Wilson — a respeito de Pump Street.
— Acabei de explicar a situação para vossa Majestade — disse Buck, secamente, mas recuperando sua civilidade. — Não tenho certeza, porém, se vossa Majestade sabe o quanto a matéria afeta você também.
— Afeta a ambos, veja Majestade, como este projeto foi iniciado para o benefício de toda a vizinhança. Assim, o Sr. Buck e eu colocamos nossas cabeças juntos...
O rei aplaudiu.
— Perfeito — gritou em êxtase —! Suas cabeças juntas! Já posso visualizar! Não podem fazer isso agora? Oh, façam isso agora!
Um som abafado de divertimento parecia vir dos alabardeiros, mas o sr. Wilson parecia apenas perplexo, e o sr. Buck simplesmente diabólico.
— Acho.. — começou amargamente, mas o rei o deteve fazendo um gesto para ouvir.
— Quieto! Acho que ouvi alguma outra pessoa vindo. Pareço escutar outro arauto, um arauto cujas botas rangem.
Enquanto falava outra voz gritou da porta:
— O alto lorde superintendente de South Kensington deseja uma audiência.
— O alto lorde superintendente de South Kensington — gritou o rei —! Por que? É o meu velho amigo James Barker! Eu me pergunto o que ele quer? Se minhas afetuosas memórias de amizade não ficaram nebulosas, imagino que ele queira algo para si, provavelmente dinheiro. Como está, James?
O sr. James Barker, cuja guarda estava vestida num esplêndido azul, e cuja bandeira azul levava três de ouro pássaros cantando, entrou apressado, em suas vestes azuis e douradas, no quarto. Apesar do absurdo de todas estas vestes, vale a pena notar que aguentava melhor do que o resto, embora detestasse tanto quanto qualquer um deles. Ele era um cavalheiro e um homem muito bonito, e não poderia evitar, inconscientemente, de vestir mesmo o manto absurdo como deveria ser usado. Falou rapidamente, mas com a ligeira hesitação inicial que sempre demonstrou ao falar com o Rei, devido a supressão de um impulso de tratar seu velho conhecido da maneira antiga.
— Vossa Majestade, perdoe a minha intrusão. É sobre este homem em Pump Street.. Vejo que Buck está aqui, então provavelmente já ouviu o que é necessário...
O Rei varreu os olhos ansiosamente em volta da sala, que agora ardia com os ornamentos dos três bairros:
— Falta algo necessário.
— Sim, vossa Majestade — disse Wilson de Bayswater, um pouco ansioso. — O que vossa Majestade acha necessário?
— Um pouco de amarelo — disse o Rei, com firmeza. — Chame o superintendente de West Kensington.
Em meio a alguns protestos materialistas, ele foi chamado e chegou com os seus alabardeiros amarelos em suas vestes cor de açafrão, enxugando a testa com um lenço. Afinal de contas, como estava, tinha bastante a dizer sobre o assunto.
— Bem-vindo, West Kensington — disse o rei. — Há tempo desejava vê-lo sobre esse assunto da terra de Hammersmith ao sul da Casa Rowton. Será que você o receberá feudalmente do superintendente de Hammersmith? Só tem de homenageá-lo colocando o braço esquerdo em seu casaco e depois marchar para casa neste estado.
— Não, Majestade, preferiria não fazê-lo — disse o superintendente de West Kensington, que era um jovem pálido, com um bigode justo e suíças, que mantinha um laticínio de sucesso.
O rei bateu cordialmente no seu ombro:
— O velho forte sangue de West Kensington. Aqueles que lhe pedem homenagem não são sábios.
Então olhou novamente em volta da sala. Estava cheio de um por do sol rugindo de cor, e gostou da vista, possível para tão poucos artistas — a visão dos seus próprios sonhos em movimento e em chamas na sua frente. Em primeiro plano o amarelo das texturas de West Kensington delineou-se contra as roupagens azuis escuras de South Kensington. As cristas destes brilhavam subitamente em verde como as cores quase florestais de Bayswater que subiam detrás deles. E acima e detrás de todos, as grandes plumas púrpuras de North Kensington pretas, quase fúnebres.
— Algo está faltando.. — disse o Rei. — O que pode... Ah, aí está! Aí está!
Na porta apareceu uma nova figura, um arauto em vermelho flamejante. Ele gritou numa voz alta, mas sem emoção:
— O alto lorde superintendente de Notting Hill deseja uma audiência.