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O Olho de Vidro cover

O Olho de Vidro

Chapter 34: XI (Pag. 112)
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About This Book

Set in the late 17th century, the narrative follows Francisco Luiz d'Abreu, a medical student at the University of Coimbra, who is drawn into a world of intrigue and personal turmoil. The story begins with his studies interrupted by the arrival of his friend Antonio de Sá, who brings news of his own misfortunes. As they reconnect, themes of friendship, ambition, and the struggles of youth unfold against a backdrop of societal expectations and personal aspirations. The work explores the complexities of human relationships and the impact of personal choices on one's destiny.

«Quando um primario excellente        lente
contra a fé cáe em desconcerto        certo,
está o que não é tão esperto          perto
de seguir o erro que de presente      sente,

«Mas quem é da hebrea e negligente    gente,
e vendo-se do bom respeito            peito
na fé segura do deserto               certo
nega a Jesus, que é tão clemente      mente

«Povo que elegeu uma bezerra          erra;
deixae do vosso velho estudo          tudo;
Segui a lei para ser guardada         dada;

«que quando em tal descuido           cuido
que um bom lente, o melhor da terra   erra,
mas sciencia sem Deus tornada         nada»

Nunca a piedade inspirou coisa mais insulsa e soez!

III
(Pag. 39)

A expensas da casa, sem licença do reitor...

O Regimento dos medicos e boticarios christãos velhos, adjunto aos Estatutos da Universidade de Coimbra, mandados imprimir em 1653 por Manuel de Saldanha, ordena que haja trinta estudantes porcionistas e os dois logares de collegiaes medicos que sempre houve no collegio real de S. Paulo.

«Os que houverem de ser admittidos no partido da medicina (diz o Regimento) não hão de ter raça de judeu e christão novo, nem mouro, nem proceder de gente infame, nem ter doenças contagiosas...

«Para constar que os pretendentes tem as partes sobreditas, farão petição ao reitor, em que declarem d'onde são naturaes, e cujos filhos; e elle por seu despacho mandará passar carta em meu nome para os corregedores e justiças fazerem as ditas informações com muito segredo, tirando-as das pessoas antigas, honradas, etc.»

Estas averiguações eram feitas tanto pelo miudo, que seria impossivel escapar pela malha porcionista, que tivesse gota de sangue judeu. Braz Luiz não poderia certamente dizer cujo filho era, se pretendesse os vinte mil réis annuaes, que tanto era a porção paga aos quarteis, e tirada das rendas dos concelhos de certas cidades e villas.

XI
(Pag. 112)

As leis do reino davam rasão de sobra a Fernão Cabral, para desherdar a filha...

No tit. 88 do liv. 4.º das Ordn. Filip. § 1.º, lê-se:

«E se alguma filha, antes de ter vinte e cinco annos, dormir com algum homem, ou se casar sem mandado de seu pae, ou de sua mãe, não tendo pae, por esse mesmo feito será desherdada e excluida de todos os bens e fazenda do pae ou mãe, posto que não seja por elles desherdada expressamente(!)»

E no § 17;

«Item. poderá o pae ou mãe, que forem catholicos christãos, desherdar livremente os filhos herejes, que perfeitamente não crerem em nossa santa fé catholica, desviando-se do que tem e crê a santa madre egreja.»

Convinha que, uma vez por outra, tirassemos o látego das costas dos frades e o sacudissemos nas costas dos legisladores. Corriam parelhas na perversidade. A depravação moral era tão cerrada e tamanha que havemos de receber como fabula um justo no meio de taes ministros da justiça divina e humana.