E por mais longe que esteja
Vejo-o sempre ao pé de mim!...
Vejo-o sempre ao pé de mim!...
Mas um sentimento de solidão, d'abandono, veio impaciental-a. Que sécca, estar alli tão sósinha! Aquella noite calida, bella e dôce, attrahia-a, chamava-a para fóra, para passeios sentimentaes, ou para contemplações do céo, n'um banco de jardim, com as mãos entrelaçadas. Que vida estupida, a d'ella! Oh! aquelle Jorge! Que idéa ir para o Alemtejo!
As conversas de Leopoldina e a lembrança das suas felicidades voltavam-lhe a cada momento; uma pontinha de champagne agitava-se-lhe no sangue. O relogio do quarto começou lentamente a dar nove horas—e de repente a campainha retiniu.
Teve um sobresalto: não podia ser ainda Juliana! Poz-se a escutar, assustada. Vozes fallavam á cancella.
—Minha senhora—veio dizer Joanna baixo—é o primo da senhora que diz que se vem despedir...
Abafou um grito, balbuciou:
—Que entre!
Os seus olhos dilatados cravavam-se febrilmente na porta. O reposteiro franziu-se, Bazilio entrou, pallido, com um sorriso fixo.
—Tu partes!—exclamou ella surdamente, precipitando-se para elle.
—Não!—E prendeu-a nos braços.—Não! Imaginei que me não recebias a esta hora, e tomei este pretexto.
Apertou-a contra si, beijou-a; ella deixava, toda abandonada; os seus labios prendiam-se aos d'elle. Bazilio deitou um olhar rapido, em redor, pela sala, e foi-a levando abraçada, murmurando: Meu amor! minha filha! Mesmo tropeçou na pelle de tigre, estendida ao pé do divan.
—Adoro-te!
—Que susto que tive!—suspirou Luiza.
—Tiveste?
Ella não respondeu; ia perdendo a percepção nitida das cousas; sentia-se como adormecer; balbuciou: Jesus! não! não! Os seus olhos cerraram-se.
Quando a campainha retiniu fortemente ás dez horas, Luiza, havia momentos, sentára-se á beira do divan. Mal teve força de dizer a Bazilio:
—Ha-de ser a Juliana, tinha ido fóra...
Bazilio cofiou o bigode, deu duas voltas na sala, foi accender um charuto. Para quebrar o silencio sentou-se ao piano, tocou alguns compassos ao acaso, e, erguendo um pouco a voz, começou a cantarolar a aria do 3.º acto do Fausto:
Al pallido chiarore
Del astri d'oro...
Del astri d'oro...
Luiza, através das ultimas vibrações dos seus nervos, ia entrando na realidade; os seus joelhos tremiam. E então, ouvindo aquella melodia, uma recordação foi-se formando no seu espirito, ainda estremunhado:—era uma noite, havia annos, em S. Carlos, n'um camarote com Jorge; uma luz electrica dava ao jardim, no palco, um tom livido de luar legendario; e n'uma altitude extatica e suspirante o tenor invocava as estrellas; Jorge tinha-se voltado, dissera-lhe: Que lindo! E o seu olhar devorava-a. Era no segundo mez do seu casamento. Ella estava com um vestido azul-escuro. E á volta, na carruagem, Jorge, passando-lhe a mão pela cinta, repetia:
Al pallido chiarore
Del astri d'oro...
Del astri d'oro...
E apertava-a contra si...
Ficára immovel á beira do divan, quasi a escorregar, os braços frouxos, o olhar fixo, a face envelhecida, o cabello desmanchado. Bazilio então veio sentar-se devagarinho junto d'ella.—Em que estava a pensar?
—Nada.
Elle passou-lhe o braço pela cinta, começou a dizer que havia de procurar uma casinha para se verem melhor, estarem mais á vontade; não era mesmo prudente alli em casa d'ella...
E fallando, voltava a cada momento o rosto, soprava para o lado o fumo do charuto.
—Não te parece que vir eu aqui, todos os dias, póde ser reparado?
Luiza ergueu-se bruscamente, lembrára-lhe Sebastião!... E com uma voz um pouco desvairada:
—Já é tão tarde!—disse.
—Tens razão.
Foi buscar o chapéo em bicos de pés, veio beijal-a muito, sahiu.
—Luiza sentiu-o accender um phosphoro, fechar devagarinho a cancella.
Estava só; pôz-se a olhar em roda, como idiota. O silencio da sala parecia-lhe enorme. As velas tinham uma chamma avermelhada. Piscava os olhos, tinha a bocca sêcca. Uma das almofadas do divan estava cahida, apanhou-a.
E com um ar somnambulo entrou no quarto. Juliana veio trazer o rol. E já vinha com a lamparina, estava a arranjal-a...
Tinha tirado a cuia; subiu á cozinha quasi a correr. A Joanna, que estivera dormitando, espreguiçava-se com bocejos enormes.
Juliana pôz-se a arranjar a torcida da lamparina; os dedos tremiam-lhe; tinha no olhar um brilho agudo; e depois de tossir, devagarinho, com um sorriso para Joanna:
—E então a que horas veio o primo da senhora?
—Veio logo que vossemecê sahiu, estavam a dar as nove.
—Ah!
Desceu com a lamparina; e sentindo Luiza na alcova despir-se:
—A senhora não quer chá?—perguntou, com muito interesse.
—Não.
Foi á sala, fechou o piano. Havia um forte cheiro de charuto. Pôz-se a olhar em redor, devagar, andando com um passo subtil... De repente agachou-se, anciosamente: ao pé do divan uma cousa reluzia. Era uma travessa de Luiza, de tartaruga, com o aro dourado. Tornou a entrar no quarto em pontas de pés, pousou-a no toucador, entre os rôlos de cabello.
—Quem anda ahi?—perguntou da alcova a voz somnolenta de Luiza.
—Sou eu, minha senhora, sou eu, estive a fechar a sala. Muito boas noites, minha senhora!
Áquella hora Bazilio entrava no Gremio. Procurou pelas salas. Estavam quasi desertas. Dous sujeitos, com os rostos entre os punhos, curvados em attitudes lugubres, ruminavam os jornaes: aqui, além, junto a mesinhas redondas, pessoas de calça branca mastigavam torradas com uma satisfação placida; as janellas estavam fechadas, a noite quente, e o calor molle do gaz abafava. Ia descer quando de uma saleta de jogo, de repente, sahiu o ruido irritado de uma altercação; trocavam-se injurias, gritava-se:—Mente! O asno é vossê!
Bazilio estacou, escutando. Mas, subitamente, fez-se um grande silencio; uma das vozes disse com brandura:
—Paus!
A outra respondeu com benevolencia:
—É o que devia ter feito ha pouco.
E immediatamente a questão rebentou de novo, estridente. Praguejavam, diziam obscenidades.
Bazilio foi ao bilhar. O visconde Reynaldo, de pé, apoiado ao taco, seguia com uma immobilidade grave o jogo do seu parceiro; mas apenas viu Bazilio, veio para elle rapidamente, e muito interessado:
—Então?
—Agora mesmo—disse Bazilio mordendo o charuto.
—Emfim, hein?—exclamou Reynaldo, arregalando os olhos, com uma grande alegria.
—Emfim!
—Ainda bem, menino! Ainda bem!
Batia-lhe no hombro, commovido.
Mas chamaram-no para jogar; e todo estirado sobre o bilhar, com uma perna no ar, para dar com mais segurança o effeito, dizia com a voz constrangida pela attitude:
—Estimo, estimo, porque essa cousa começava a arrastar...
Tac! Falhou a carambola.
—Não dou meia!—murmurou com rancor.
E chegando-se a Bazilio, a dar giz no taco:
—Ouve cá...
Fallou-lhe ao ouvido.
—Como um anjo, menino!—suspirou Bazilio.
VI
Foi Juliana que na manhã seguinte veio acordar Luiza, dizendo á porta da alcova com a voz abafada, em confidencia:
—Minha senhora! Minha senhora! É um criado com esta carta, diz que vem do hótel.
Foi abrir uma das janellas, em bicos de pés; e voltando á alcova com uma cautela mysteriosa:
—E está á espera da resposta, está á porta.
Luiza, estremunhada, abriu o largo enveloppe azul com um monogramma—dous BB, um purpura, outro ouro, sob uma corôa de conde.
—Bem, não tem resposta.
Não tem resposta—foi dizer Juliana ao criado, que esperava encostado ao corrimão, fumando um grande charuto, e cofiando as suiças pretas.
—Não tem resposta? Bem, muito bom dia.—Levou o dedo seccamente á aba do «côco», e desceu, gingando.
Perfeito homem! foi pensando Juliana, pela escada da cozinha.
—Quem bateu, snr.a Juliana?—perguntou-lhe logo a cozinheira.
Juliana resmungou:
—Ninguem, um recado da modista.
Desde pela manhã a Joanna achava-lhe o «ar exquisito». Sentira-a desde as sete horas varrer, espanejar, sacudir, lavar as vidraças da sala de jantar, arrumar as louças no aparador. E com uma azafama! Ouvira-a cantar a Carta adorada, ao mesmo tempo que os canarios, nas varandas abertas, chilreavam estridentemente ao sol. Quando veio tomar o seu café á cozinha não palestrou como de costume; parecia preoccupada e ausente.
Joanna até lhe perguntou:
—Sente-se peor, snr.a Juliana?
—Eu? Graças a Deus, nunca me senti tão bem.
—Como a vejo tão calada...
—A malucar cá por dentro... A gente nem sempre está para grulhar.
Apesar de serem nove horas não quizera acordar a senhora. Deixal-a descançar, coitada—disse. Foi em pontas de pés encher devagarinho a bacia grande do banho, no quarto; para não fazer ruido, sacudiu no corredor as saias, o vestido da vespera: e os seus olhos brilharam avidamente quando sentiu na algibeirinha um papel amarrotado! Era o bilhete que Luiza escrevera a Bazilio: «Porque não vens?... Se soubesses o que me fazes soffrer!...» Teve-o um momento na mão, mordendo o beiço, o olhar fixo n'um calculo agudo; por fim tornou a mettel-o na algibeira de Luiza, dobrou o vestido, foi estendel-o com muito cuidado na causeuse.
Enfim, mais tarde, sentindo o cuco dar horas, decidiu-se a ir dizer a Luiza, com uma voz meiga:
—São dez e meia, minha senhora!
Luiza, na cama, tinha lido, relido o bilhete de Bazilio: «Não pudera—escrevia ele—estar mais tempo sem lhe dizer que a adorava. Mal dormira! Erguera-se de manhã muito cêdo para lhe jurar que estava louco, e que punha a sua vida aos pés d'ella.» Compozera aquella prosa na vespera, no Gremio, ás tres horas, depois de alguns robbers d'whist, um bife, dous copos de cerveja e uma leitura preguiçosa da Illustração. E terminava, exclamando:—«Que outros desejem a fortuna, a gloria, as honras, eu desejo-te a ti! Só a ti, minha pomba, porque tu és o unico laço que me prende á vida, e se ámanhã perdesse o teu amor, juro-te que punha um termo, com uma boa bala, a esta existencia inutil!»—Pedira mais cerveja, e levára a carta para a fechar em casa, n'um enveloppe com o seu monogramma, «porque sempre fazia mais effeito».
E Luiza tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquellas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que sahia d'ellas, como um corpo resequido que se estira n'um banho tepido: sentia um acrescimo de estima par si mesma, e parecia-lhe que entrava emfim n'uma existencia superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto differente, cada passo conduzia a um extase, e a alma se cobria d'um luxo radioso de sensações!
Ergueu-se d'um salto, passou rapidamente um roupão, veio levantar os transparentes da janella... Que linda manhã! Era um d'aquelles dias do fim d'agosto em que o estio faz uma pausa; ha prematuramente, no calor e na luz, uma certa tranquillidade outonal; o sol cahe largo, resplandecente, mas pousa de leve; o ar não tem o embaciado canicular, e o azul muito alto reluz com uma nitidez lavada; respira-se mais livremente; e já se não vê na gente que passa o abatimento molle da calma enfraquecedora. Veio-lhe uma alegria: sentia-se ligeira, tinha dormido a noite d'um somno são, continuo, e todas as agitações, as impaciencias dos dias passados pareciam ter-se dissipado n'aquelle repouso. Foi-se vêr ao espelho; achou a pelle mais clara, mais fresca, e um enternecimento humido no olhar;—seria verdade então o que dizia Leopoldina, que «não havia como uma maldadesinha para fazer a gente bonita?» Tinha um amante, ella!
E immovel no meio do quarto, os braços cruzados, o olhar fixo, repetia: Tenho um amante! Recordava a sala na vespera, a chamma aguçada das velas, e certos silencios extraordinarios em que lhe parecia que a vida parára, em quanto os olhos do retrato da mãi de Jorge, negros na face amarella, lhe estendiam da parede o seu olhar fixo de pintura. Mas Juliana entrou com um taboleiro de roupa passada. Eram horas de se vestir...
Que requintes teve n'essa manhã! Perfumou a agua com um cheiro de Lubin, escolheu a camisinha que tinha melhores rendas. E suspirava por ser rica! Queria as bretanhas e as hollandas mais caras, as mobilias mais apparatosas, grossas joias inglezas, um coupé forrado de setim... Porque nos temperamentos sensiveis as alegrias do coração tendem a completar-se com as sensualidades do luxo: o primeiro erro que se installa n'uma alma até ahi defendida, facilita logo aos outros entradas tortuosas;—assim, um ladrão que se introduz n'uma casa vai abrindo subtilmente as portas á sua quadrilha esfomeada.
Subiu para o almoço, muito fresca, com o cabello em duas tranças, um roupão branco. Juliana precipitou-se logo a fechar as janellas, «porque apesar de não estar calor, as portadas cerradas sempre davam mais frescura!» E, vendo que lhe esquecera o lenço, correu a buscar-lhe um, que perfumou com agua de colonia. Servia-a com ternura. Viu-a comer muitos figos:
—Não lhe vão fazer mal, minha senhora!—exclamou quasi lacrimosamente.
Andava em redor d'ella com um sorriso servil, sem ruido: ou defronte da mesa, com os braços cruzados, parecia admiral-a com orgulho, como um sêr precioso e querido, todo seu, a sua ama! O seu olhar esbugalhado apossava-se d'ella.
E dizia consigo:
—Grande cabra! Grande bebeda!
Luiza, depois de almoço, veio para o quarto estender-se na causeuse, com o seu Diario de Noticias. Mas não podia lêr. As recordações da vespera redemoinhavam-lhe n'alma a cada momento, como as folhas que um vento d'outono levanta a espaços d'um chão tranquillo: certas palavras d'elle, certos impetos, toda a sua maneira d'amar... E ficava immovel, o olhar afogado n'um fluido, sentindo aquellas reminiscencias vibrarem-lhe muito tempo, dôcemente, nos nervos da memoria. Todavia a lembrança de Jorge não a deixava; tivera-a sempre no espirito, desde a vespera; não a assustava, nem a torturava; estava alli, immovel mas presente, sem lhe fazer medo, nem lhe trazer remorso; era como se elle tivesse morrido, ou estivesse tão longe que não podesse voltar, ou a tivesse abandonado! Ela mesmo se espantava de se sentir tão tranquilla. E todavia impacientava-a ter constantemente aquella idéa no espirito, impassivel, com uma obstinação espectral; punha-se instinctivamente a accumular as justificações: Não fôra culpa sua. Não abrira os braços a Bazilio voluntariamente!... Tinha sido uma fatalidade: fôra o calor da hora, o crepusculo, uma pontinha de vinho talvez... Estava douda, de certo. E repetia comsigo as attenuações tradicionaes: não era a primeira que enganára seu marido; e muitas era apenas por vicio, ella fôra por paixão... Quantas mulheres viviam n'um amor illegitimo e eram illustres, admiradas! Rainhas mesmo tinham amantes. E elle amava-a tanto!... Seria tão fiel, tão discreto! As suas palavras eram tão captivantes, os seus beijos tão estonteadores!... E emfim que lhe havia de fazer agora? Já agora!...
E resolveu ir responder-lhe. Foi ao escriptorio. Logo ao entrar o seu olhar deu com a photographia de Jorge—a cabeça de tamanho natural,—no seu caixilho envernizado de preto. Uma commoção comprimiu-lhe o coração; ficou como tolhida—como uma pessoa encalmada de ter corrido, que entra na frieza d'um subterraneo; e examinava o seu cabello frisado, a barba negra, a gravata de pontas, as duas espadas encruzadas que reluziam por cima. Se elle soubesse matava-a!... Fez-se muito pallida. Olhava vagamente em redor o casaco de velludo de trabalho dependurado n'um prego, a manta em que elle embrulhava os pés dobrada a um lado, as grandes folhas de papel de desenho na outra mesa ao fundo, e o pótesinho do tabaco, e a caixa das pistolas!... Matava-a de certo!
Aquelle quarto estava tão penetrado da personalidade de Jorge, que lhe parecia que elle ia voltar, entrar d'ahi a bocado... Se elle viesse de repente!... Havia tres dias que não recebia carta—e quando ella estivesse alli a escrever ao seu amante, n'um momento o outro podia apparecer e apanhal-a!... Mas eram tolices, pensou. O vapor do Barreiro só chegava ás cinco horas; e depois elle dizia na ultima carta que ainda se demorava um mez, talvez mais...
Sentou-se, escolheu uma folha de papel, começou a escrever, na sua letra um pouco gorda:
«Meu adorado Bazilio .
Mas um terror importuno tolhia-a; sentia como um palpite de que elle vinha, ia entrar... Era melhor não se pôr a escrever, talvez!... Ergueu-se, foi á sala devagar, sentou-se no divan; e, como se o contacto d'aquelle largo sophá e o ardor das recordações que elle lhe trazia da vespera lhe tivesse dado a coragem das acções amorosas e culpadas, voltou muito decidida ao escriptorio, escreveu rapidamente:
«Não imaginas com que alegria recebi esta manhã a tua carta...»
A penna velha escrevia mal; molhou-a mais, e ao sacudil-a, como lhe tremia um pouco a mão, um borrão negro cahiu no papel. Ficou toda contrariada, pareceu-lhe aquillo um mau agouro. Hesitou um momento,—e coçando a cabeça, com os cotovêlos sobre a mesa, sentia Juliana varrer fóra o patamar, cantarolando a Carta adorada. Emfim, impaciente, rasgou a folha muitas vezes em pedacinhos miudos—e atirou-os para um caixão de pau envernizado com duas argolas de metal, que estava ao canto junto á mesa, onde Jorge deitava os rascunhos velhos e os papeis inuteis: chamavam-lhe o sarcophago; Juliana, de certo, descuidára-se de o esvaziar no lixo, porque transbordava de papelada.
Escolheu outra folha, recomeçou:
«Meu adorado Bazilio .
«Não imaginas como fiquei quando recebi a tua carta, esta manhã, ao acordar. Cobri-a de beijos...»
Mas o reposteiro franziu-se n'uma prega molle, a voz de Juliana disse discretamente:
—Está alli a costureira, minha senhora.
Luiza, sobresaltada, tinha tapado a folha de papel com a mão.
—Que espere.
E continuou:
«...Que tristeza que fosse a carta e que não fosses tu que alli estivesses! Estou pasmada de mim mesma, como em tão pouco tempo te apossaste do meu coração, mas a verdade é que nunca deixei de te amar. Não me julgues por isto leviana, nem penses mal de mim, porque eu desejo a tua estima, mas é que nunca deixei de te amar e ao tornar a vêr-te, depois d'aquella estupida viagem para tão longe, não fui superior ao sentimento que me impellia para ti, meu adorado Bazilio. Era mais forte que eu, meu Bazilio. Hontem, quando aquella maldita criada me veio dizer que tu te vinhas despedir, Bazilio, fiquei como morta; mas quando vi que não, nem eu sei, adorei-te! E se tu me tivesses pedido a vida dava-t'a, porque te amo, que eu mesma, me estranho... Mas para que foi aquella mentira, e para que vieste tu? Mau! tinha vontade de te dizer adeus para sempre, mas não posso, meu adorado Bazilio! É superior a mim. Sempre te amei, e agora que sou tua, que te pertenço corpo e alma, parece-me que te amo mais, se é possivel...»
—Onde está ella? Onde está ella?—disse uma voz na sala.
Luiza ergueu-se, com um salto, livida. Era Jorge! Amarrotou convulsivamente a carta, quiz escondel-a no bolso,—o roupão não tinha bolso! E desvairada, sem reflexão, arremessou-a para o sarcophago. Ficou de pé, esperando, as duas mãos apoiadas á mesa, a vida suspensa.
O reposteiro ergueu-se,—e reconheceu logo o chapéo de velludo azul de D. Felicidade.
—Aqui mettida, sua brejeira! Que estavas tu aqui a fazer? Que tens tu, filha, estás como a cal...
Luiza deixou-se cahir no fauteuil, branca e fria, disse com um sorriso cançado:
—Estava a escrever, deu-me uma tontura...
—Ai! Tonturas, eu!—acudiu logo D. Felicidade—É uma desgraça, a cada momento a agarrar-me aos moveis, até tenho medo d'andar só. Falta de purgas!
—Vamos para o quarto!—disse logo Luiza.—Estamos melhor no quarto.
Ao erguer-se, as pernas tremiam-lhe.
Atravessaram a sala: Juliana começava a arrumar. Luiza, ao passar, viu na pedra da console, debaixo do espelho oval, uma pouca de cinza: era da vespera, do charuto d'elle! Sacudiu-a—e ao erguer os olhos, ficou pasmada de se vêr tão pallida.
A costureira vestida de preto, com um chapéo de fitas rôxas, esperava sentada á beira da causeuse, com um olhar infeliz e o seu embrulho nos joelhos; vinha provar o corpete d'um vestido composto; assentou, pregou, alinhavou, fallando baixo, com uma humildade triste e uma tossinha sêcca ; e apenas ella sahiu, de leve, com o seu andar de sombra, o chale tinto muito cingido ás omoplatas magras,—D. Felicidade começou logo a fallar d'elle, do Conselheiro. Tinha-o encontrado no Moinho de Vento. Pois, senhores, nem lhe viera fallar! Fizera-lhe uma cortezia muito sêcca, por demais, e tic-tic por alli fóra, que se diria que ia fugido! Que te parece? Ai! aquellas indifferenças matavam-na. E não as comprehendia, não, realmente não as comprehendia...
—Porque emfim—exclamava—eu bem me conheço, não sou nenhuma criança, mas tambem não sou nenhum caco! Pois não é verdade?
—Certamente—disse Luiza distrahida. Lembrava-lhe a carta.
—Olha que aqui onde me vês com os meus quarenta, decotada, ainda valho! O que são hombros e collo é do melhor!
Luiza ia erguer-se. Mas D. Felicidade repetiu:
—Do melhor! Tomaram-no muitas novas!
—Creio bem—concordou Luiza, sorrindo vagamente.
—E elle tambem não é nenhum rapazinho novo...
—Não...
—Mas muito bem conservado!—E os olhos luziam-lhe—Para fazer ainda uma mulher muito feliz!
—Muito...
—Um homem d'appetecer!—suspirou D. Felicidade.
E Luiza, então:
—Tu esperas um instantinho! Vou lá dentro e volto já.
—Vai, filha, vai.
Luiza correu ao escriptorio, direita ao sarcophago. Estava vazio! E a carta d'ella, Santo Deus!
Chamou logo Juliana, aterrada.
—Vossê despejou o caixão dos papeis?
—Despejei, sim, minha senhora—respondeu muito tranquillamente.
E com interesse:
—Porquê, perdeu-se algum papel?
Luiza fazia-se pallida.
—Foi um papel que eu atirei para o caixão. Onde o despejou vossê?
—No barril do lixo, como é costume, minha senhora; imaginei que nada servia...
—Ah! deixe vêr!
Subiu rapidamente á cozinha.
Juliana, atraz, ia dizendo:
—Ora esta! Pois ainda não ha cinco minutos! O caixão estava mais cheio... Andei a dar uma arrumadella no escriptorio... Valha-me Deus, se a senhora tem dito...
Mas o barril do lixo estava vazio. Joanna tinha-o ido despejar abaixo n'aquelle instantinho; e vendo a inquietação de Luiza:
—Porquê, perdeu-se alguma cousa?
—Um papel—disse Luiza, que olhava em redor, pelo chão, muito branca.
—Elle iam uns poucos de papeis, minha senhora—disse a rapariga—eu deitei tudo ao despejo.
—Podia ter ficado algum cahido por fóra, snr.a Joanna—lembrou timidamente Juliana.
—Vá vêr, vá vêr, Joanna—acudiu Luiza com uma esperança.
Juliana parecia afflicta:
—Jesus, Senhor! Eu podia lá adivinhar! Mas para que não disse a senhora...?
—Bem, bem, a culpa não é sua, mulher...
—Credo, que até se me está a embrulhar o estomago... E é cousa de importancia, minha senhora?
—Não, é uma conta...
—Valha-me Deus!...
Joanna voltou, sacudindo um papel enxovalhado. Luiza agarrou-o, leu:—«... o diametro do primeiro poço de exploração...»
—Não, não é isto!—exclamou toda contrariada.
—Então foi p'ra baixo p'ra o cano, minha senhora, não está mais nada.
—Viu bem?
—Esquadrinhei tudo...
E Juliana continuava, desolada:
—Antes queria perder dez tostões! Uma assim! Eu, minha senhora, podia lá adivinhar...
—Bem, bem!—murmurou Luiza descendo.
Mas estava assustada, sentia mesmo uma suspeita indefinida... Lembrou-lhe o bilhete que escrevera na vespera a Bazilio, e que mettera, todo amarrotado, no bolso do vestido... Entrou no quarto, agitada.
D. Felicidade tirára o chapéo, acommodára-se na causeuse.
—Tu desculpas, hein?—fez Luiza.
—Anda, filha, anda! Que é?
—Perdi uma conta—respondeu.
Foi ao guarda-vestidos, achou logo o bilhete na algibeira... Aquillo serenou-a. A carta tinha ido para o lixo de certo. Mas que imprudencia!
—Bem, acabou-se!—disse, sentando-se resignada.
E D. Felicidade immediatamente, baixando a voz muito confidencialmente:
—Ora eu vinha-te fallar n'uma cousa. Mas vê lá! Olha que é segredo.
Luiza ficou logo sobresaltada.
—Tu sabes—continuou D. Felicidade, devagar, com pausas—que a minha criada, a Josepha, está para casar com o gallego... O homem é de ao pé de Tuy, e diz que na terra d'elle ha uma mulher que tem uma virtude para fazer casamentos que é uma cousa milagrosa... Diz que é o mais que ha... Em deitando a sorte a um homem,—o homem entra-lhe uma tal paixão que se arranja logo o casamento, e é a maior felicidade.
Luiza tranquillisada, sorriu.
—Escuta—acudiu D. Felicidade—não te ponhas já com as tuas cousas...
No seu tom grave havia um respeito supersticioso.
—Diz que tem feito milagres. Homens que tinham desamparado raparigas, outros que não faziam caso d'ellas, maridos que tinham amigas, emfim toda a sorte de ingratidão... Em a mulher deitando o encanto, os homens começam a esmorecer, a arrepender-se, a apaixonar-se, e estão pelo beiço... A rapariga contou-me isto. Eu lembrei-me logo...
—De deitar uma sorte ao Conselheiro!—exclamou Luiza.
—Que te parece?
Luiza deu uma risada sonora. Mas D. Felicidade quasi se escandalisou. Contou outros casos: um fidalgo que deshonrára uma lavadeira; um homem que abandonou a mulher e os filhos, fugira com uma bebeda... Em todos a sorte operára d'um modo fulminante produzindo um amor subito e fogoso pela pessoa desprezada. Appareciam logo rendidos, se estavam perto; se estavam longe, voltavam, avidos, a pé, a cavallo, na mala-posta, apressando-se, ardendo... E entregavam-se, mansos e humildes como escravos acorrentados...
—Mas o gallego—continuava ella muito excitada—diz que para ir á terra, fallar á mulher, levar o retrato do Conselheiro, é necessario o retrato d'elle, o meu, é necessario o meu, ir fallar, voltar—quer sete moedas!...
—Oh D. Felicidade!—fez Luiza reprehensivamente.
—Não me digas, não venhas com as tuas! Olha que eu sei de casos...
E erguendo-se:
—Mas são sete moedas! Sete moedas!—exclamou, arregalando os olhos.
Juliana appareceu á porta, e muito baixinho, com um sorriso:
—A senhora faz favor?
Chamou-a para o corredor, em segredo:
—Esta carta. Que vem do hótel.
Luiza fez-se escarlate.
—Credo, mulher! não é necessario fazer mysterios!
Mas não entrou no quarto, abriu-a logo no corredor; era a lapis, escripta á pressa:
«Meu amor—dizia Bazilio—por um feliz acaso descobri o que precisavamos, um ninho discreto para nos vêrmos...» E indicava a rua, o numero, os signaes, o caminho mais perto. «... Quando vens, meu amor? Vem ámanhã. Baptisei a casa com o nome de Paraiso: para mim, minha adorada, é com effeito o paraiso. Eu espero-te lá desde o meio dia: logo que te aviste, desço.»
Aquella precipitação amorosa em arranjar o ninho—provando uma paixão impaciente, toda occupada d'ella—produziu-lhe uma dilatação dôce do orgulho; ao mesmo tempo que aquelle Paraiso secreto, como n'um romance, lhe dava a esperança de felicidades excepcionaes; e todas as suas inquietações, os sustos da carta perdida se dissiparam de repente sob uma sensação calida, como flocos de nevoa sob o sol que se levanta.
Voltou ao quarto, com o olhar risonho.
—Que te parece, hein?—perguntou logo D. Felicidade, a quem a sua idéa occupava tyrannicamente.
—O que?
—Achas que mande o homem a Tuy?
Luiza encolheu os hombros; veio-lhe um tedio de taes enredos de bruxaria, misturados a amores caturras. Na vaidade da sua intriga romantica achava repugnante aquelle sentimentalismo senil.
—Tolices!—disse com muito desdem.
—Oh filha! não me digas, não me digas!—acudiu desolada D. Felicidade.
—Bem, então manda, manda!—fez Luiza, já impaciente.
—Mas são sete moedas!—exclamou D. Felicidade, quasi chorosa.
Luiza poz-se a rir.
—Por um marido? Acho barato...
—E se a sorte falha?
—Então é caro!
D. Felicidade deu um grande ai! Estava muito infeliz, n'aquella hesitação entre os impulsos da concupiscencia e as prudencias da economia. Luiza teve pena d'ella, e, tirando um vestido do guarda-roupa:
—Deixa lá, filha! Não hão-de ser necessarias bruxarias!...
D. Felicidade ergueu os olhos ao céo.
—Vaes sahir?—perguntou melancolicamente.
—Não.
D. Felicidade propoz-lhe então que viesse com ella á Encarnação. Visitavam a Silveira, coitada, que tinha um furunculo! E viam a armação da igreja para a festa, estreava-se o frontal novo, um primor!
—E estou tambem com vontade de ir rezar uma estaçãosinha, para alliviar cá por dentro—ajuntou, suspirando.
Luiza aceitou. Appetecia-lhe ir vêr altares alumiados, ouvir o ciciar de rezas no côro, como se os requintes devotos dissessem bem com as suas disposições sentimentaes. Começou a vestir-se depressa.
—Como tu estás gorda, filha!—exclamou D. Felicidade admirada, vendo-lhe os hombros, o collo.
Luiza diante do espelho olhava-se, sorria com o seu sorriso quente, contente das suas linhas, acariciando devagarinho, voluptuosamente, a pelle branca e fina.
—Redondinha—disse, namorando-se.
—Redondinha? Vaes-te a fazer uma bola!
E acrescentou, tristemente:
—Tambem com a tua vida, um marido como o teu, regaladinha, sem filhos, sem cuidados...
—Vamos lá, minha rica—disse Luiza—que as tristezas não te tem feito emmagrecer...
—Pois sim, pois sim! Mas...—e parecia desolada, como curvada sob as suas proprias ruinas—cá por dentro é uma desgraça, estomago, figado...
—Se a mulher de Tuy faz o milagre, põe tudo isso como novo!
D. Felicidade sorriu, com uma duvida desconsolada.
—Sabes que tenho um chapéo lindo?—exclamou de repente Luiza—Não viste? Lindo!
Foi logo buscal-o ao guarda-vestidos. Era de palha fina, guarnecido de myosotis.
—Que te parece?
—É um primor!
Luiza mirava-o dando pancadinhas com as pontas dos dedos nas florzinhas azues.
—Dá frescura—fez D. Felicidade.
—Não é verdade?
Pôl-o com muito cuidado, toda séria. Ficava-lhe bem! Bazilio se a visse havia de gostar, pensou. Era bem possivel que o encontrassem...
Veio-lhe, sem motivo, uma felicidade exuberante: achava tão delicioso viver, sahir, ir á Encarnação, pensar no seu amante!... E toda no ar, procurava pelo quarto as chavinhas do toucador.
Onde tinha deixado as chaves? Na sala de jantar, talvez! Ia vêr! Sahiu correndo, tontinha, cantarolando: