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O Primo Bazilio: Episodio Domestico

Chapter 14: VIII
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About This Book

Um retrato da vida doméstica burguesa que acompanha a rotina entediante de um casal e a perturbação causada pela chegada de um parente sedutor. A esposa, aborrecida pela monotonia conjugal, envolve-se numa relação clandestina que revela fragilidades, vaidades e contradições sociais. A traição desencadeia chantagem, intrigas e o oportunismo de personagens secundários, conduzindo a humilhações e a um desfecho trágico. O texto alia ironia crítica e observação minuciosa dos costumes quotidianos, explorando consequências íntimas e públicas do adúltero e expondo a hipocrisia e o tédio da pequena burguesia.


—Ah! é essa a maneira por que respondes á minha carta, Luiza?

—E tu, é esse o modo com que me recebes?

Olharam-se um momento, detestando-se.

—Bem, queres uma questão? És como as outras.

—Que outras?

E toda escandalisada:

—Ah! é de mais! Adeus!

Ia sahir.

—Vaes-te, Luiza?

—Vou. É melhor acabarmos por uma vez...

Elle segurou o fecho da porta rapidamente.

—Fallas serio, Luiza?

—De certo. Estou farta!

—Bem. Adeus.

Abriu a porta para a deixar passar, curvou-se silenciosamente.

Ella deu um passo, e Bazilio com a voz um pouco tremula:

—Então, é para sempre? Nunca mais?

Luiza parou, branca. Aquella triste palavra nunca mais deu-lhe uma saudade, uma commoção. Rompeu a chorar.

As lagrimas tornavam-na sempre mais linda. Parecia tão dolorida, tão fragil, tão desamparada!...

Bazilio cahiu-lhe aos pés: tinha tambem os olhos humidos.

—Se tu me deixares, morro!

Os seus labios uniram-se n'um beijo profundo, longo, penetrante. A excitação dos nervos deu-lhes momentaneamente a sinceridade da paixão; e foi uma manhã deliciosa.

Ella prendia-o nos braços nús, pallida como cêra, balbuciava:

—Não me deixas nunca, não?

—Juro-t'o! Nunca, meu amor!

Mas fazia-se tarde, era necessario ir-se! E a mesma idéa de certo acudiu-lhes—porque se olharam avidamente, e Bazilio murmurou:

—Se podesses aqui passar a noite!

Ella disse aterrada, quasi supplicante:

—Oh! não me tentes, não me tentes...

Bazilio suspirou, disse:

—Não, é uma tolice. Vai.

Luiza começou a arranjar-se, á pressa. E de repente, parando, com um sorriso:

—Sabes tu uma cousa?

—O que, meu amor?

—Estou a cahir com fome! Não almocei nada, estou a cahir!

Elle ficou desolado:

—Coitadinha, minha pobre filha! Se eu soubesse...

—Que horas são, filho?

Bazilio viu o relogio, disse quasi envergonhado:

—Sete!

—Ai, Santo Deus!

Punha o chapéo, o véo, atrapalhadamente:

—Que tarde! Jesus! Que tarde!

—E ámanhã, quando?

—Á uma.

—Com certeza?

—Com certeza.

Ao outro dia foi muito pontual. Bazilio veio esperal-a ao fundo da escada; e apenas entraram no quarto, devorando-a de beijos:

—Que me fizeste tu? Desde hontem que estou doudo!

Mas Luiza estava muito intrigada com um cesto que via em cima da cama.

—Que é aquillo?

Elle sorriu, levou-a pela mão junto da barra de ferro, e destampando o cesto, com uma cortezia grave:

—Provisões, festins, bacchanaes! Não dirás depois que tens fome!

Era um lunch. Havia sandwichs, um pâté de foie gras, fruta, uma garrafa de champagne, e, envolto em flanella, gelo.

—É brilhante!—disse ella, com um sorriso quente, rubra de prazer.

—Foi o que se pôde arranjar, minha querida prima! Já vê que pensei em si!

Pôz o cesto no chão, e vindo para ella com os braços abertos:

—E tu pensaste em mim, meu amor?

Os olhos d'ella responderam—e a pressão apaixonada dos seus braços.

Ás tres horas lancharam. Foi delicioso; tinham estendido um guardanapo sobre a cama; a louça tinha a marca do Hotel Central; aquillo parecia a Luiza muito estroina, adoravel—e ria de sensualidade, fazendo tilintar os pedacinhos de gelo contra o vidro do copo, cheio de champagne. Sentia uma felicidade exuberante que transbordava em gritinhos, em beijos, em toda a sorte de gestos buliçosos. Comia com gula; e eram adoraveis os seus braços nús movendo-se por cima dos pratos.

Nunca achára Bazilio tão bonito; o quarto mesmo parecia-lhe muito conchegado para aquellas intimidades da paixão; quasi julgava possivel viver alli, n'aquelle cacifro, annos, feliz com elle, n'um amor permanente, e lunchs ás tres horas... Tinham as pieguices classicas: mettiam-se bocadinhos na bocca; ella ria com os seus dentinhos brancos; bebiam pelo mesmo copo, devoravam-se de beijos,—e elle quiz-lhe ensinar então a verdadeira maneira de beber champagne. Talvez ella não soubesse!

—Como é?—perguntou Luiza erguendo o copo.

—Não é com o copo! Horror! Ninguem que se preza bebe champagne por um copo. O copo é bom para o Collares...

Tomou um gole de champagne, e n'um beijo passou-o para a bocca d'ella. Luiza riu muito, achou «divino», quiz beber mais assim. Ia-se fazendo vermelha, o olhar luzia-lhe.

Tinham tirado os pratos da cama; e sentada á beira do leito, os seus pésinhos calçados n'uma meia côr de rosa pendiam, agitavam-se, em quanto um pouco dobrada sobre si, os cotovêlos sobre o regaço, a cabecinha de lado, tinha em toda a sua pessoa a graça languida d'uma pomba fatigada.

Bazilio achava-a irresistivel: quem diria que uma burguezinha podia ter tanto chic, tanta queda? Ajoelhou-se, tomou-lhe os pésinhos entre as mãos, beijou-lh'os; depois, dizendo muito mal das ligas «tão feias, com fechos de metal», beijou-lhe respeitosamente os joelhos; e então fez-lhe baixinho um pedido. Ella córou, sorriu, dizia: não! não!—E quando sahiu do seu delirio tapou o rosto com as mãos, toda escarlate, murmurou reprehensivamente:

—Oh Bazilio!

Elle torcia o bigode, muito satisfeito. Ensinára-lhe uma sensação nova: tinha-a na mão!

Só ás seis horas se desprendeu dos seus braços. Luiza fez-lhe jurar que havia de pensar n'ella toda a noite:—não queria que elle sahisse; tinha ciumes do Gremio, do ar, de tudo! E já no patamar voltava, beijava-o, louca, repetia:

—E ámanhã mais cedo, sim? para estarmos todo o dia.

—Não vaes vêr a D. Felicidade?

—Que me importa a D. Felicidade! Não me importa ninguem! Quero-te a ti! só a ti!

—Ao meio dia?

—Ao meio dia!



Quanto lhe pezou á noite a solidão do seu quarto! Tinha uma impaciencia que a impellia a prolongar a excitação da tarde, agitar-se. Ainda quiz lêr, mas bem depressa arremessou o livro: as duas velas accesas sobre o toucador pareciam-lhe lugubres; foi vêr a noite,—estava tepida e serena. Chamou Juliana:

—Vá pôr um chale, vamos a casa da snr.a D. Leopoldina.

Quando chegaram foi a Justina que veio abrir, depois d'uma grande demora, esguedelhada, em chambre branco. Pareceu muito espantada:

—A senhora foi p'ra o Porto!

—P'ra o Porto!

Sim. Demorava-se quinze dias.

Luiza ficou muito desconsolada. Mas não queria voltar, o seu quarto solitario aterrava-a.

—Vamos um bocado até alli abaixo, Juliana. A noite está tão bonita!

—Rica, minha senhora!

Foram pela rua de S. Roque. E como guiados pelas duas linhas de pontos de gaz, que desciam a rua do Alecrim, o seu pensamento, o seu desejo foram logo para o Hotel Central.

Estaria em casa? Pensaria n'ella? Se podesse ir surprehendel-o de repente, atirar-se-lhe aos braços, vêr as suas malas... Aquella idéa fazia-a arfar. Entraram na praça de Camões. Gente passeava devagar; sob a sombra mais escura que faziam as arvores cochichava-se pelos bancos; bebia-se agua fresca; claridades cruas de vidraças, de portas de lojas destacavam em redor no tom escuro da noite: e no rumor lento das ruas em redor, sobresahiam as vozes agudas dos vendedores de jornaes.

Então um sujeito com um chapéo de palha passou tão rente d'ella, tão intencionalmente que Luiza teve medo.—Era melhor voltarem—disse.

Mas ao meio da rua de S. Roque o chapéo de palha reappareceu, roçou quasi o hombro de Luiza; dous olhos repolhudos dardejaram sobre ella.

Luiza ia desesperada: o tic-tac das suas botinas batia vivamente a lage do passeio; de repente, ao pé de S. Pedro d'Alcantara, de sob o chapéo de palha sahiu uma voz adocicada e brazileira, dizendo-lhe junto ao pescoço:

—Aonde mora, ó menina?

Agarrou aterrada o braço de Juliana.

A voz repetiu:

—Não se agaste, menina, aonde mora?

—Seu malcriado!—rugiu Juliana.

O chapéo de palha immediatamente desappareceu entre as arvores.

Chegaram a casa a arquejar. Luiza tinha vontade de chorar; deixou-se cahir na causeuse, esfalfada, infeliz. Que imprudencia, pôr-se a passear pelas ruas de noite, com uma criada! Estava douda, desconhecia-se. Que dia aquelle! E recordava-o desde pela manhã: o lunch, o champagne bebido pelos beijos de Bazilio, os seus delirios libertinos, que vergonha! e ir a casa de Leopoldina, de noite, e ser tomada na rua por uma mulher do Bairro Alto!... De repente lembrou-lhe Jorge no Alemtejo trabalhando por ella, pensando n'ella... Escondeu o rosto entre as mãos, detestou-se, os seus olhos humedeceram-se.



Mas na manhã seguinte acordou muito alegre. Sentia, sim, uma vaga vergonha de todas as suas «tolices» da vespera, e como a sensação indefinida, palpite ou presentimento, de que não devia ir ao Paraiso. O seu desejo, porém, que a impellia para lá vivamente, forneceu-lhe logo razões: era desapontar Bazilio, a não ir hoje não devia voltar, e então romper... Além d'isso a manhã muito linda attrahia para a rua: chovera de noite, o calor cedera; havia nos tons da luz e do azul uma frescura lavada e dôce.

E ás onze e meia descia o Moinho de Vento, quando viu a figura digna do conselheiro Accacio que subia da rua da Rosa, devagar, com o guarda-sol fechado, a cabeça alta.

Apenas a avistou apressou-se, curvou-se profundamente:

—Que encontro verdadeiramente feliz!...

—Como está, Conselheiro? Ditosos olhos que o vêem!

—E v. exc.a, minha senhora? Vejo-a com excellente aspecto!

Passou-lhe á esquerda com um movimento solemne, pôz-se a caminhar ao lado d'ella.

—Permitte-me de certo que a acompanhe na sua excursão?

—De certo, com o maior prazer. Mas que tem feito? Tenho muito que lhe ralhar...

—Estive em Cintra, minha querida senhora.—E parando:—Não sabia? O Diario de Noticias especificou-o!

—Mas depois de vir de Cintra?

Elle acudiu:

—Ah! tenho estado occupadissimo! Occupadissimo! Inteiramente absorvido na compilação de certos documentos que me eram indispensaveis para o meu livro...—E depois d'uma pausa:—Cujo nome não ignora, creio.

Luiza não se recordava inteiramente. O Conselheiro então expôz o titulo, os fins, alguns nomes de capitulos, a utilidade da obra: era a Descripção pitoresca das principaes cidades de portugal e seus mais famosos estabelecimentos.

—É um guia, mas um guia scientifico. Illustrarei com um exemplo: V. exc.a quer ir a Bragança: sem o meu livro é muito natural (direi, é certo) que volta sem ter gozado das curiosidades locaes; com o meu livro percorre os edificios mais notaveis, recolhe um fundo muito solido d'instrucção, e tem ao mesmo tempo o prazer.

Luiza mal o escutava, sorrindo vagamente sob o seu véo branco.

—Está hoje muito agradavel!—disse ella.

—Agradabilissimo! Um dia creador!

—Que bom fresco aqui!

Tinham entrado em S. Pedro d'Alcantara; um ar dôce circulava entre as arvores mais verdes; o chão compacto, sem pó, tinha ainda uma ligeira humidade; e, apesar do sol vivo, o céo azul parecia leve e muito remoto.

O Conselheiro então fallou do estio; tinha sido torrido! na sua sala de jantar tinha havido 48 graus á sombra! 48 graus!—E com bonhomia, querendo logo desculpar a sala d'aquella exageração canicular:—Mas é que está exposta ao sul! façamos essa justiça! Está muito exposta ao sul. Hoje porém está verdadeiramente restaurador.

Convidou-a mesmo a dar uma volta em baixo no jardim. Luiza hesitava. E o Conselheiro puxando o relogio, fitando-o de longe, declarou logo que ainda não era meio dia. Estava certo pelo Arsenal, era um relogio inglez.—Muito preferiveis aos suissos!—acrescentou com ar profundo.

Cobardemente, por inercia, enervada pela voz pomposa do Conselheiro, Luiza foi descendo, contrariada, as escadinhas para o jardim. De resto—pensava—tinha tempo, tomaria um trem...

Foram encostar-se ás grades. Através dos varões viam, descendo n'um declive, telhados escuros, intervallos de pateos, cantos de muro com uma ou outra magra verdura de quintal resequido; depois, no fundo do valle, o Passeio estendia a sua massa de folhagem prolongada e oblonga, onde a espaços branquejavam pedaços da rua areada. Do lado de lá erguiam-se logo as fachadas inexpressivas da rua Oriental, recebendo uma luz forte que fazia faiscar as vidraças: por traz iam-se elevando no mesmo plano terrenos d'um verde crestado fechados por fortes muros sombrios, a cantaria da Encarnação de um amarello triste, outras construcções separadas, até ao alto da Graça coberta d'edificios ecclesiasticos, com renques de janellinhas conventuaes e torres d'igrejas, muito brancas sobre o azul: e a Penha de França, mais para além, punha em relevo o vivo do muro caiado, d'onde sobresahia uma tira verde-negra d'arvoredo. Á direita, sobre o monte pellado, o castello assentava, atarracado, ignobilmente sujo: e a linha muito quebrada de telhados, d'esquinas de casas da Mouraria e d'Alfama descia com angulos bruscos até ás duas pesadas torres da Sé, d'um aspecto abbacial e secular. Depois viam um pedaço do rio, batido da luz: duas velas brancas passavam devagar: e na outra banda, á base de uma collina baixa que o ar distante azulava, estendia-se a correnteza de casarias d'uma povoaçãosinha d'um branco de cré luzidio. Da cidade um rumor grosso e lento subia, onde se misturavam o rolar dos trens, o pesado rodar dos carros de bois, a vibração metallica das carretas que levam ferraria, e algum grito agudo de pregão.

—Grande panorama!—disse o Conselheiro com emphase.—E encetou logo o elogio da cidade. Era uma das mais bellas da Europa, de certo, e como entrada, só Constantinopla! Os estrangeiros invejavam-na immenso. Fôra outr'ora um grande emporio, e era uma pena que a canalisação fosse tão má, e a edilidade tão negligente!

—Isto devia estar na mão dos inglezes, minha rica senhora!—exclamou.

Mas arrependeu-se logo d'aquella phrase impatriotica. Jurou que «era uma maneira de dizer». Queria a independencia do seu paiz; morreria por ella, se fosse necessario; nem inglezes nem castelhanos!... Só nós, minha senhora!—E acrescentou com uma voz respeitosa:—E Deus!

—Que bonito está o rio!—disse Luiza.

Accacio affirmou-se, e murmurou em tom cavo:

—O Tejo!

Quiz então dar uma volta pelo jardim. Sobre os canteiros borboletas brancas, amarellas, esvoaçavam; um gotejar d'agua fazia no tanque um rhythmosinho de jardim burguez; um aroma de baunilha predominava; sobre a cabeça dos bustos de marmore, que se elevam d'entre os maciços e as moitas de dhalias, passaros pousavam.

Luiza gostava d'aquelle jardimzinho, mas embirrava com as grades tão altas...

—Por causa dos suicidios!—acudiu logo o Conselheiro.—E todavia, segundo a sua opinião, os suicidios em Lisboa diminuiam consideravelmente; attribuia isso á maneira severa e muito louvavel como a imprensa os condemnava...

—Porque em Portugal, creia isto, minha senhora, a imprensa é uma força!

—Se fossemos andando...?—lembrou Luiza.

O Conselheiro curvou-se, mas vendo-a a ir colher uma flôr, reteve-lhe vivamente o braço:

—Ah, minha rica senhora, por quem é! os regulamentos são muito explicitos! Não os infrinjamos, não os infrinjamos!—E acrescentou:—O exemplo deve vir de cima.

Foram subindo, e Luiza pensava:—Vai para casa, larga-me ao Loreto.

Na rua de S. Roque espreitou o relogio d'uma confeitaria: era meia hora depois do meio dia! Já Bazilio esperava!

Apressou o passo, ao Loreto parou. O Conselheiro olhou-a, sorrindo, esperando.

—Ah! pensei que ia para casa, Conselheiro!

—Já agora quero acompanhal-a, se v. exc.a m'o permitte. De certo não sou indiscreto?

—Ora essa! De modo nenhum.

Uma carruagem da Companhia passava, seguida d'um correio a trote.

O Conselheiro, com um movimento ancioso, tirou profundamente o chapéo.

—É o presidente do conselho. Não viu? Fez-me um signal de dentro.—Começou logo o seu elogio: Era o nosso primeiro parlamentar; vastissimo talento, uma linguagem muito castigada!—E ia de certo fallar das cousas publicas, mas Luiza atravessou para os Martyres, erguendo um pouco o vestido por causa d'uns restos de lama. Parou á porta da igreja, e sorrindo:

—Vou aqui fazer uma devoçãosinha. Não o quero fazer esperar. Adeus, Conselheiro, appareça.—Fechou a sombrinha, estendeu-lhe a mão.

—Ora essa, minha rica senhora! Esperarei, se vir que não se demora muito. Esperarei, não tenho pressa.—E com respeito:—Muito louvavel esse zelo!

Luiza entrou na igreja desesperada. Ficou de pé debaixo do côro, calculando:—Demoro-me aqui, elle cança-se d'esperar e vai-se! Por cima reluziam vagamente os pingentes de crystal dos lustres. Havia uma luz velada, igual, um pouco fôsca. E as architecturas caiadas, a madeira muito lavada do soalho, as balaustradas lateraes de pedra davam uma tonalidade clara e alvadia, onde destacavam os dourados da capella, os frontaes rôxos dos pulpitos, ao fundo dous reposteiros d'um rôxo mais escuro, e sob o docel côr de violeta os ouros do Throno. Um silencio fresco e alto repousava. Diante do Baptisterio um rapaz de joelhos, com um balde de zinco ao pé, esfregava o chão com uma rodilha, discretamente: dorsos de beatas, encapotados ou cobertos de chales tingidos, curvavam-se, aqui e além, diante d'um altar: e um velho, de jaqueta de saragoça, prostrado no meio da igreja, rosnava rezas n'uma molopéa lugubre; via-se a sua cabeça calva, as tachas enormes dos sapatos, e a cada momento, dobrando-se, batia no peito com desespero.

Luiza subiu ao altar-mór. Bazilio impacientava-se, de certo, pobre rapaz! Perguntou então, timidamente, as horas a um sacristão que passava. O homem ergueu a sua face côr de cidra para uma janela na cupula, e olhando Luiza de lado:

—Vai indo p'ra as duas.

Para as duas! Era capaz de não esperar, Bazilio! Veio-lhe um receio de perder a sua manhã amorosa, um desejo aspero de se achar no Paraiso nos braços d'elle! E olhava vagamente os santos, as virgens trespassadas d'espadas, os Christos chagados,—cheia de impaciencias voluptuosas, revendo o quarto, a caminha de ferro, o pequeno bigode de Bazilio!... Mas demorou-se, queria «fatigar o Conselheiro, deixal-o ir». Quando pensou que elle teria partido, sahiu devagarinho.—Viu-o logo á porta, direito, com as mãos atraz das costas, lendo a pauta dos jurados.

Começou immediatamente a louvar a sua devoção. Não entrára porque não quizera perturbar o seu recolhimento. Mas approvava-a muito! A falta de religião era a causa de toda a immoralidade que grassava...

—E além d'isso é de boa educação. V. exc.a ha-de reparar que toda a nobreza cumpre...

Calou-se; aprumava a estatura, todo satisfeito de descer o Chiado com aquella linda senhora, tão olhada. Mesmo, ao passar por um grupo, curvou-se para ella mysteriosamente, disse-lhe ao ouvido, sorrindo:

—Está um dia apreciavel!

E offereceu-lhe bolos á porta do Baltreschi. Luiza recusou.

—Sinto. Todavia acho muito sensata a regularidade nas comidas.

A sua voz vinha agora a Luiza com a impertinencia d'um zumbido; apesar de não fazer calor, abafava, picava-lhe o sangue no corpo; tinha vontade de deitar a correr, de repente; e todavia caminhava devagar, infeliz, como somnambula, cheia da necessidade de chorar.

Sem razão, ao acaso, entrou no Valente. Era hora e meia! Depois d'hesitar pediu gravatas de foulard a um caixeiro louro e jovial.

—Brancas? de côr? de riscas? com pintinhas?

—Sim, verei, sortidas.

Não lhe agradavam. Desdobrava-as, sacudia-as, punha-as de lado; e olhava em roda vagamente, pallida... O caixeiro perguntou-lhe se estava incommodada: offereceu-lhe agua, qualquer cousa...

Não era nada; o ar é que lhe fazia bem; voltaria. Sahiu. O Conselheiro, muito solicito, promptificou-se a acompanhal-a a uma boa pharmacia tomar agua de flôr de laranja... Desciam então a rua Nova do Carmo, e o Conselheiro ia affirmando que o caixeiro fôra muito polido: não se admirava, porque no commercio havia filhos de boas familias: citou exemplos.

Mas vendo-a calada:

—Ainda soffre?

—Não, estou bem.

—Temos dado um delicioso passeio!

Foram ao comprido do Rocio, até ao fim. Voltaram, atravessaram-no em diagonal. E pelo lado do Arco do Bandeira, aproximaram-se para a rua do Ouro. Luiza olhava em redor, afflicta, procurava uma idéa, uma occasião, um acontecimento—e o Conselheiro, grave a seu lado, dissertava. A vista do theatro de D. Maria levára-o para as questões da arte dramatica: tinha achado que a peça do Ernestinho era talvez demasiado forte. De resto só gostava de comedias. Não que se não enthusiasmasse com as bellezas d'um Frei Luiz de Sousa! mas a sua saude não lhe permittia as agitações fortes. Assim por exemplo...

Mas Luiza tivera uma idéa, e immediatamente:

—Ah! esquecia-me! Tenho d'ir ao Vitry. Vou fazer chumbar um dente.

O Conselheiro, interrompido, fitou-a. E Luiza, estendendo-lhe a mão, com a voz rapida:

—Adeus, appareça, hein?—E precipitou-se para o portal do Vitry.

Subiu até ao primeiro andar, correndo, com os vestidos apanhados: parou, arquejando: esperou: desceu devagar, espreitou á porta... A figura do Conselheiro afastava-se direita, digna, para os lados das secretarias.

Chamou um trem.

—A quanto puder!—exclamou.

A carruagem entrou quasi a galope na ruasinha do Paraiso. Figuras pasmadas appareceram á janella. Subiu, palpitante. A porta estava fechada—e logo a cancella do lado abriu-se, e a voz dôce da patrôa segredou:

—Já sahiu. Ha-de haver meia hora.

Desceu. Deu a sua morada ao cocheiro, e atirando-se para o fundo do coupé, rompeu n'um chôro hysterico. Correu os stores para se esconder; arrancou o véo, rasgou uma luva, sentindo em si violencias inesperadas, Então veio-lhe um desejo phrenetico de vêr Bazilio! Bateu nos vidros desesperadamente, gritou:

—Ao Hotel Central!

Porque estava n'um d'aquelles momentos em que os temperamentos sensiveis teem impulsos indomaveis; ha uma delicia colerica em espedaçar os deveres e as conveniencias; e a alma procura sofregamente o mal com estremecimentos de sensualidade!

A parelha estacou, resvalando á porta do hotel. «O snr. Bazilio de Brito não estava, o snr. visconde Reynaldo, sim».

—Bem, para casa, para onde eu disse!

O cocheiro bateu. E Luiza, sacudida por uma irritabilidade febril, insultava o Conselheiro, o estafermo, o imbecil! maldizia a vida que lh'os fizera conhecer, a elle e a todos os amigos da casa! vinha-lhe uma vontade acre de mandar o casamento ao diabo, de fazer o que lhe viesse á cabeça!...

Á porta não tinha troco para o cocheiro. Espere!—disse, subindo furiosa—Eu lhe mandarei pagar!

—Que bicha!—pensou o cocheiro.

Foi Joanna que veio abrir; e quasi recuou, vendo-a tão vermelha, tão excitada.

Luiza foi direita ao quarto: o cuco cantava tres horas. Estava tudo desarrumado; vasos de plantas no chão, o toucador coberto com um lençol velho, roupa suja pelas cadeiras. E Juliana, com um lenço amarrado na cabeça, varria tranquillamente, cantarolando.

—Então vossê ainda não arrumou o quarto!—gritou Luiza.

Juliana estremeceu áquella colera inesperada.

—Estava agora, minha senhora!

—Que estava agora vejo eu!—rompeu Luiza.

—São tres horas da tarde e ainda o quarto n'este estado!

Tinha atirado o chapéo, a sombrinha.

—Como a senhora costuma vir sempre mais tarde...—disse Juliana.

E seus beiços faziam-se brancos.

—Que lhe importa a que horas eu venho? Que tem vossê com isso? A sua obrigação é arrumar logo que eu me levante. E não querendo, rua, fazem-se-lhe as contas!

Juliana fez-se escarlate e cravando em Luiza os olhos injectados:

—Olhe, sabe que mais? não estou para a aturar!

E arremessou violentamente a vassoura.

—Sáia!—berrou Luiza—Sáia immediatamente! Nem mais um momento em casa!

Juliana poz-se diante d'ella, e com palmadas convulsivas no peito, a voz rouca:

—Hei-de sahir se eu quizer! Se eu quizer!

—Joanna!—bradou Luiza.

Queria chamar a cozinheira, um homem, um policia, alguem! Mas Juliana descomposta, com o punho no ar, toda a tremer:

—A senhora não me faça sahir de mim! A senhora não me faça perder a cabeça!—E com a voz estrangulada através dos dentes cerrados:—Olhe que nem todos os papeis foram p'ra o lixo!

Luiza recuou, gritou:

—Que diz vossê?

—Que as cartas que a senhora escreve aos seus amantes, tenho-as eu aqui!—E bateu na algibeira, ferozmente.

Luiza fitou-a um momento com os olhos desvairados, e cahiu no chão, junto á causeuse, desmaiada.



VIII



A primeira impressão, mal acordada, de Luiza foi que duas figuras, que não conhecia, estavam debruçadas sobre ella. Uma, a mais forte, afastou-se; o som frio d'um frasco de vidro, pousado sobre o marmore do toucador, despertou-a. Sentiu então uma voz dizer abafadamente:

—Está muito melhor. Mas deu-lhe de repente, snr.a Juliana?

—De repente.

—Eu vi-a entrar tão afogueada...

Passos subtis pisaram o tapete, a voz de Joanna perguntou-lhe junto do rosto:

—Está melhor, minha senhora?

Abriu os olhos, a percepção nitida das cousas foi-lhe voltando; estava estendida na causeuse, tinham-lhe desapertado o vestido, e havia no quarto um forte cheiro de vinagre. Ergueu-se sobre o cotovêlo, devagar, com um olhar errante, vago:

—E a outra?...

—A snr.a Juliana? Foi-se deitar. Tambem se não achava bem. Foi de vêr a senhora, coitada... Está melhorzinha?

Sentou-se. Sentia uma fadiga em todo o corpo; tudo no quarto lhe parecia oscillar brandamente:

—Póde ir, Joanna, póde ir—disse.

—A senhora não precisa mais nada? Talvez um caldinho lhe fizesse bem...

Luiza, só, pôz-se a olhar em roda, espantada. Estava já tudo arrumado, as janellas cerradas. Uma luva ficára cahida no chão: ergueu-se, ainda tropega, foi apanhal-a, esteve a esticar-lhe os dedos machinalmente, como somnambula, pôl-a na gaveta do toucador. Alisou o cabello; achava-se mudada, com outra expressão como se fosse outra; e o silencio do quarto impressionava-a, como extraordinario.

—Minha senhora—disse a voz timida de Joanna.

—Que é?

—É o cocheiro.

Luiza voltou-se, sem comprehender:

—Que cocheiro?

—Um cocheiro; diz que a senhora que não tinha troco, que o mandou esperar...

—Ah!

E como a uma luz de gaz que salta subitamente e alumia uma decoração, viu, n'um relance, toda a «sua desgraça»!

Ficou tão tremula que mal podia abrir a gavetinha da commoda:

—Tinha-me esquecido, tinha-me esquecido...—balbuciava.

Deu o dinheiro a Joanna; e vindo cahir sobre a causeuse:

—Estou perdida!—murmurou, apertando as mãos na cabeça.

Tudo descoberto! E representaram-se-lhe logo no espirito, com a intensidade de desenhos negros sobre um muro branco, o furor de Jorge, o espanto dos seus amigos, a indignação d'uns, o escarneo dos outros; e estas imagens cahindo com ruido na sua alma, como combustiveis n'uma fogueira, ateavam-lhe desesperadamente o terror.

Que lhe restava?—Fugir com Bazilio!

Aquella idéa, a primeira, a unica, apossou-se d'ella impetuosamente, trespassou-a—como a agua d'uma inundação que subitamente alaga um campo.

Elle tinha-lhe tantas vezes jurado que seriam tão felizes em Paris, no seu appartamento da rua Saint Florentin! Pois bem, iria! Não levaria malas, poria no seu pequeno sacco de marroquim alguma roupa branca, as joias da mamã... E os criados? a casa? Deixaria uma carta a Sebastião para que viesse, fechasse tudo!... Levaria na viagem o vestido de riscadinho azul—ou o preto! Mais nada. O resto compral-o-hia longe, n'outras cidades...

—Se a senhora quer vir jantar...—disse Joanna á porta do quarto.

Tinha posto um avental branco, e acrescentou:

—A snr.a Juliana está deitada, diz que está com a dôr, não póde servir á mesa.

—Já vou.

Tomou apenas uma colhér de sopa, bebeu um grande gole d'agua; e erguendo-se:

—Que tem ella?

—Diz que é uma dôr muito forte no coração.

Se morresse! Estava salva, ella! Podia ficar, então! E com uma esperança perversa:

—Vá vêr, Joanna, vá vêr como está!

Tinha ouvido de tantas pessoas que morrem de uma dôr! Iria logo ao quarto d'ella rebuscar-lhe a arca, apossar-se da carta! E não teria medo do silencio da morte, nem da lividez do cadaver...

—Está mais descançada, minha senhora—veio dizer a Joanna—diz que logo que se levanta. Então a senhora não come mais nada? Credo!

—Não.

E entrou para o quarto, pensando:—de que serve estar a imaginar cousas? Só me resta fugir.

Decidiu-se logo a escrever a Sebastião; mas não pôde acertar com outras palavras além do começo, no alto, n'uma letra muito trémula: Meu amigo!

Para que havia de escrever? Quando ao outro dia ella não voltasse, nem á tarde, nem á noite—as criadas, a outra, a infame! iriam logo a Sebastião. Era o intimo da casa. Que espanto o d'elle! Imaginaria algum accidente, correria á Encarnação, depois á policia, esperaria n'uma angustia até de madrugada! Todo o dia seguinte seriam outras esperanças de a vêr chegar, decepções aterradas,—até que telegrapharia a Jorge! E a essa hora de certo, ella, encolhida no canto do wagon, rolaria, ao ruido offegante da machina, para um destino novo!...

Mas porque se affligia, por fim? Quantas invejariam a sua desgraça! O que havia de infeliz em abandonar a sua vida estreita entre quatro paredes, passada a examinar roes de cozinha e a fazer crochet, e partir com um homem novo e amado, ir para Paris! para Paris! viver nas consolações do luxo, em alcovas de sêda, com um camarote na Opera!... Era bem tola em se affligir! Quasi fôra uma felicidade aquelle «desastre»! Sem elle nunca teria tido a coragem de se desembaraçar da sua vida burgueza; mesmo quando um alto desejo a impellisse, haveria sempre uma timidez maior para a reter!

E depois, fugindo, o seu amor tornava-se digno! Seria só d'um homem; não teria de amar em casa e amar fóra de casa!

Veio-lhe mesmo a idéa de ir ter immediatamente com Bazilio, «acabar com aquillo por uma vez». Mas era tarde para ir ao hotel; temia as ruas escuras, a noite, e os bebedos...

Foi logo arranjar o sacco de marroquim. Metteu lenços, alguma roupa branca, o estojo das unhas, o rosario que lhe dera Bazilio, pós d'arroz, algumas joias que tinham pertencido á mamã... Quiz levar as cartas de Bazilio tambem... Tinha-as guardadas n'um cofre de sandalo, no gavetão do guarda-vestidos. Espalhou-as no regaço; abriu uma, d'onde cahiu uma florzinha sêcca; outra que tinha, na dobra, a photographia de Bazilio. De repente, pareceu-lhe que não estavam completas! Tinha sete: cinco bilhetes curtos, e duas cartas—a primeira que elle lhe escrevêra, tão terna! e a ultima no dia do arrufo! Contou-as... Faltava, com effeito, a primeira, e dous bilhetes! Tinha-lh'as roubado, tambem!... Ergueu-se livida. Ah que infame! veio-lhe uma raiva de subir ao sotão, luctar com ella, arrancar-lh'as, esganal-a!... Que lhe importava, por fim!—E deixou-se cahir na causeuse, aniquilada—Que ella tivesse uma, duas, todas—era a mesma desgraça!

E muito excitada, foi preparar o vestido preto que devia levar, o chapéo, um chale-manta...

O cuco cantou dez horas. Entrou então na alcova; pôz o castiçal sobre a mesinha, ficou a olhar o largo leito com o seu cortinado de fustão branco. Era a ultima vez que alli dormia! Fôra ella que bordára aquella coberta de crochet no primeiro anno de casada: não havia uma malha que não correspondesse a uma alegria. Jorge ás vezes vinha vêl-a trabalhar, e, calado, considerava-a com um sorriso, ou fallava-lhe baixo enrolando devagar nos dedos o fio de algodão grosso! Alli dormira com elle tres annos: o seu lugar era de lá, do lado da parede... Fôra n'aquella cama que ella estivera doente, com a pneumonia. Durante semanas elle não se deitára—a velal-a, a conchegar-lhe a roupa, a dar-lhe os caldos, os remedios, com toda a sorte de palavras dôces que lhe faziam tão bem!... Fallava-lhe como a criancinha pequena: dizia-lhe: «isso vai passar, ámanhã estás boa, vamos passear». Mas o seu olhar ancioso estava marejado de lagrimas! Ou então pedia-lhe: «Melhora, sim? Faze-me a vontade, minha querida, melhora!...» E ella queria tanto melhorar, que sentia como uma ligeira onda de vida que voltava, lhe refrescava o sangue!

Nos primeiros dias da convalescença era elle que a vestia; ajoelhava-se para lhe calçar os sapatos, embrulhava-a no roupão, vinha estendel-a na causeuse, sentava-se ao pé d'ella a lêr-lhe romances, desenhar-lhe paizagens, recortar-lhe soldados de papel. E dependia toda d'elle, não tinha mais ninguem no mundo para a tratar, para soffrer, chorar por ella—senão elle! Adormecia sempre com as mãos nas suas, porque a doença deixára-lhe um vago medo dos pesadêlos da febre; e o pobre Jorge, para a não acordar, alli ficava com a mão presa, horas, sem se mover. Deitava-se vestido n'um colxãosito ao pé d'ella. Muitas vezes, acordando de noite, o tinha visto a limpar as lagrimas; d'alegria, de certo, porque ella então estava salva! o medico, o bom dr. Caminha, tinha-o dito: «Está livre de perigo, agora é refazer esse corpinho». E Jorge, o pobre Jorge, coitado, sem dizer nada, tinha tomado as mãos do velho,—tinha-as coberto de beijos!

E agora, quando elle soubesse, quando elle voltasse! Quando ao entrar alli na alcova—visse os dous travesseirinhos, ainda! Ella iria longe, com outro, por caminhos estranhos, ouvindo outra lingua. Que horror! E elle alli estaria, n'aquella casa só, chorando, abraçado a Sebastião. Quantas memorias d'ella para o torturar! Os seus vestidos, as suas chinellinhas, os seus pentes, toda a casa! Que vida triste, a d'elle! Dormiria alli ! Já não teria ninguem para o acordar de manhã com um beijinho, passar-lhe o braço pelo pescoço, dizer-lhe: é tarde, Jorge! Tudo acabára para ambos. Nunca mais!—Rompeu a chorar, de bruços sobre a cama...

Mas a voz de Juliana fallou alto no corredor com Joanna. Ergueu-se aterrada. Viria ter com ella, aquella infame? Os passos achinellados afastaram-se devagar, e Joanna entrou com o rol e com a lamparina.

—A snr.a Juliana—disse—levantou-se um momento, mas diz que ainda está mal, coitada. Foi-se deitar. A senhora não precisa mais nada?

—Não—disse da alcova.

Despiu-se; e, prostrada, adormeceu profundamente.



Juliana em cima não dormia. A dôr passára-lhe—e agitava-se sobre o enxergão, «com o diabo da espertina»! como tantas outras noites, nas ultimas semanas. Porque desde que apanhára a carta no sarcophago vivia n'uma febre; mas a alegria era tão aguda, a esperança tão larga que a sustentavam, lhe davam saude! Deus emfim tinha-se lembrado d'ella! Desde que Bazilio começára a vir a casa, tivera logo um palpite, uma cousa que lhe dizia que tinha chegado emfim a sua vez! A primeira satisfação fôra n'aquella noite em que achára, depois de Bazilio sahir ás dez horas, a travéssinha de Luiza cahida ao pé do sophá. Mas que explosão de felicidade, quando, depois de tanta espionagem, de tanta canceira, apanhou emfim a carta no sarcophago! Correu ao sotão, leu-a avidamente, e quando viu a importancia da «cousa» arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas, arremessou a sua alma perversa para as alturas, bradando em si, n'um triumpho:

—Bemdito seja Deus! Bemdito seja Deus!

E que havia de fazer áquillo?—foi então a sua inquietação. Ora pensava em a vender a Luiza por uma forte somma... mas onde tinha ella o dinheiro? Não; o melhor era esperar a volta de Jorge, e com ameaças de a publicar, extorquir-lhe um rôr de libras por meio d'outra pessoa, já se vê, e ella á capa! E em certos dias em que a figura, as toilettes, as passeatas de Luiza a irritavam mais, vinham-lhe venetas de sahir p'ra a rua, chamar os visinhos, lêr o papel, pôl-a mais rasa que a lama, vingar-se da «cabra»!

Foi a tia Victoria que a calmou, e a dirigiu. Disse-lhe logo «que para a armadilha ser completa era necessario uma carta do janota». Começára então o lento trabalho de lh'a apanhar! Fôra preciso muita finura, muita chave experimentada, duas feitas por moldes de cêra, paciencia de gato, habilidades de ratoneiro! Mas pilhou-a, e que carta! Tinha-a lido com a tia Victoria—que rira, rira!... Sobre tudo o bilhete em que Bazilio lhe dizia: «Hoje não posso ir, mas espero-te ámanhã ás duas; mando-te essa rosinha, e peço-te que faças o que fizeste á outra, trazel-a no seio, porque é tão bom quando vens assim, sentir-te o peitinho perfumado!...» A tia Victoria, suffocada, quil-a mostrar á sua velha amiga, a Pêdra, a Pêdra gorda, que estava na saleta.

A Pêdra torceu-se! Os seus enormes seios, pendentes como odres mal cheios, tinham sacudidellas furiosas de hilaridade. E com as mãos nas ilhargas, rubra, roncando, com o seu vozeirão de trombone:

—Essa é das boas, tia Victoria! Essa é de mestre. Não, isso merece ir para os papeis! Ai os bebedos! Raios do diabo!

A tia Victoria, então, disse muito seriamente a Juliana:

—Bem; agora tens a faca e o queijo! Com isso já pódes fallar d'alto. É esperar a occasião. Muito bons modos, cara prazenteira, sorrisos a fartar para ella não desconfiar, e o olho álerta. Tens o rato seguro, deixa-o dar ao rabo!

E desde esse dia Juliana saboreava com delicias, com gula, muito comsigo—aquelle gozo de a ter «na mão», a Luizinha, a senhora, a patroa, a piorrinha! Via-a aperaltar-se, ir ao homem, cantarolar, comer bem—e pensava com uma voluptuosidade felina: Anda, folga, folga, que eu cá t'a tenho armada! Aquillo dava-lhe um orgulho perverso. Sentia-se vagamente senhora da casa. Tinha alli fechada na mão a felicidade, o bom nome, a honra, a paz dos patrões! Que desforra!

E o futuro estava certo! Aquillo era dinheiro, o pão da velhice. Ah! tinha-lhe chegado o seu dia! Todos os dias rezava uma Salvè-rainha de graças a Nossa Senhora, mãi dos homens!

Mas agora, depois d'aquella scena com Luiza—não podia ficar de braços cruzados, com as cartas na algibeira. Devia sahir de casa, pôr-se em campo, fazer alguma cousa. O que? A tia Victoria é que havia de dizer...

Logo pela manhã ás sete horas, sem tomar o seu café, sem fallar a Joanna, desceu devagar, sahiu.

A tia Victoria não estava em casa. Gente na saleta esperava. O snr. Gouvêa, com a borla do barretinho muito arrebitada, escrevinhava, dobrado, cuspilhando o seu catarrho. Juliana deu os bons dias em redor, e sentou-se a um canto, direita, com a sua sombrinha nos joelhos.

Conversava-se: e uma mulher de trinta annos, picada das bexigas, que estava sentada no canapé, depois de ter dado um sorriso a Juliana, continuou, voltada para uma gordita com um chale de quadrados vermelhos:

—Pois não imagina, snr.a Anna, não faz idéa! É uma desgraça! É todas as noites como um carro. Ás vezes até acordo com o barulho que elle faz a fallar só, a tropeçar na escada... Eu, do que tenho mais medo, é que o demonio adormeça com a luz e haja um fogo. Ah! é de todo!

—Quem?—perguntou um rapazola bonito, com uma blusa de trintanario, que fallava de pé a um criado alto, de suiças e gravata branca enxovalhada.

—O Cunha, o filho do meu patrão. É uma desgraça!

—Piteireiro, hein?—disse o rapazola, enrolando o cigarro.

—Um horror! Eu pela manhã nem posso entrar no quarto, que é um cheiro... A mãi, coitadinha, chora, rala-se; o rapaz já esteve para ser posto fóra do emprego. Ai! não estou nada contente, nada contente!

—Pois olhe que por lá tambem ha desgosto grande—disse, baixando a voz, a do chale de quadrados.

Os dous homens aproximaram-se.

—O senhor—continuou ella com gestos aterrados—é um desafôro com a cunhada!... A senhora sabe, e aquillo são questões de dia e de noite! As duas irmãs andam n'uma bulha pegada. O homem toma as dôres da rapariga, a mulher põe-se aos gritos... Ai! aquillo vem a acabar mal!

—E então se a gente tem lá o seu descuido—disse o da gravata branca com indignação—é aqui d'el-rei, e d'aqui e d'alli!

—Lá a sua gente é socegada, snr. João—observou a picada das bexigas.

—É boa gente. As raparigas namoradeiras... Proveito das criadas, apanham o seu vestidito, a sua placa... Mas os velhotes é uma santa gente, a verdade é a verdade! E come-se bem!

E voltando-se para o trintanario, batendo-lhe no hombro, com uma voz que o admirava e que o invejava:

—Mas isto sim! Isto é que é leval-a!

O rapazola sorriu com satisfação:

—Ora! são mais as vozes do que as nozes!

—Vá lá, mostra lá—disse o da gravata branca tocando-lhe com o cotovêlo—mostra lá!

O rapaz fez-se rogado, e depois de gingar da cintura, arregaçando a blusa, tirou do bolso do collete de riscadinho um relogio d'ouro.

—Muito bonito! Rica prenda!—disseram as duas mulheres.

—Suor do meu rosto—fez elle, acariciando o queixo.

O da gravata branca indignou-se:

—Ora seu marôto!—E baixo para as raparigas:—Suor do seu rosto, hein!—É o seraphim da patrôa, uma senhora da alta que aquillo são tudo sêdas, muitissimo boa mulher, um bocado entradota, mas muitissimo boa mulher, recebe d'estas lembranças, um relogio d'um par de moedas—e ainda falla!

O rapazola disse então, enterrando as mãos na algibeira:

—E se quizer agora, ha-de largar a corrente!

—Ha-de-lhe custar muito!—exclamou o da gravata branca.—Uma gente que tem ahi pela baixa correntezas de casas! Metade da rua dos Retrozeiros é d'ella!

—Mas muito agarrada!—disse o rapazola. E bamboleando o corpo, com o cigarro ao canto da bocca:—Estou com ella ha dous mezes, e ainda se não desabotoou senão com o relogio e tres libras em ouro!... Que eu, como quem diz, um dia passo-lhe o pé!—E cofiando o cabello para a testa:—Não faltam mulheres! e das que tem Dom!

Mas a tia Victoria entrou, muito azafamada, com o chale no braço; e vendo Juliana:

—Olá! por cá! Tive que dar umas voltas, estou na rua desde as seis. Bons dias, snr.a Theodosia; bons dias, Anna. Viva, temos por cá o alfenim! Entra cá p'ra dentro, Juliana! Eu já venho, meus pombinhos, é um instante!

Levou-a para o outro quarto, para o lado do saguão:

—E então, que ha de novo?

Juliana pôz-se a contar longamente a scena da vespera, o desmaio...

—Pois minha rica—disse a tia Victoria—o que está feito, está feito; não ha tempo a perder; é mãos á obra! Tu vaes ao Brito, ao hótel, e entendes-te com elle.

Juliana recusou-se logo: não se atrevia, tinha medo...

A tia Victoria reflectiu, coçando o ouvido; foi dentro, cochichou com o tio Gouvêa, e voltando, fechando a porta do quarto:

—Arranja-se quem vá. Tens tu as cartas?

Juliana tirou da algibeira uma velha carteirinha de marroquim escarlate. Mas hesitou um momento, olhou a tia Victoria com desconfiança.

—Tens medo de largar os papeis, creatura?—exclamou offendida a velha.—Arranja-te tu, então arranja-te tu...

Juliana deu-lh'as logo. Mas que as guardasse, que tivesse cautela!...

—A pessoa—disse a tia Victoria—vai ámanhã á noite fallar com o Brito, e pede-lhe um conto de reis!

Juliana teve um deslumbramento. Um conto de reis! A tia Victoria estava a brincar!

—Ora essa! Que pensas tu? Por uma carta, que quasi não tinha mal nenhum, pagou uma pessoa que bate ahi o Chiado de carruagem—ainda hontem a vi com uma pequerrucha que tem—pagou trezentos mil reis. E em bellas notas. Pagou-os o janota, já se sabe, foi o janota que pagou. Se fosse outro, não digo, mas o Brito! É rico, é um man-rôtas, cahe logo...

Juliana, muito branca, agarrou-lhe o braço, tremula:

—Oh tia Victoria, dava-lhe um córte de sêda.

—Azul! até já te digo a côr!

—Mas o Brito é homem muito teso, tia Victoria, se lhe tira as cartas, se lhe faz alguma!

A tia Victoria fitou-a, com desdem:

—Sahes-me uma simploria! Imaginas que eu mando lá algum tolo? Nem as cartas vão, o que vai é uma copia! Olha quem! O melro que lá ha-de ir!

E depois de reflectir um momento:

—Tu vai-te para casa...

—Não, lá isso não volto...

—Tambem tens razão. Até vêr em que param as modas, vem cá dormir. Jantas cá hoje; tenho uma rica pescada...

—Mas não haverá perigo, tia Victoria, se o Brito vai á policia...

A tia Victoria encolheu os hombros, e impacientada:

—Olha, vai-te, que me estás a emphrenesiar! Policia! Qual policia! Essas cousas levam-se lá á policia... Deixa a cousa commigo! Adeus—e ás quatro para jantar, hein!

Juliana sahiu como levada pelo ar! Um conto de reis! Era o conto de reis que voltava, o que já um dia entrevira, que lhe fugira, que lhe vinha agora cahir na mão, com um tlin-tlin de libras e um frou-frou de notas! E o cerebro enchia-se-lhe confusamente de perspectivas differentes, todas maravilhosas: um mostrador de capellista onda ella venderia! um marido ao seu lado, ás horas da cêa! pares de botinas das boas, das chics. Onde poria o dinheiro? No Banco? Não; no fundo da arca—para estar mais seguro, mais á mão!

Para passar a sua manhã, comprou uma quarta de rebuçados, e foi-se sentar no Passeio, com a sombrinha aberta, deliciando-se, ruminando já a sua vida rica, julgando-se já senhora; mesmo fez olho a um proprietario pacifico e rubicundo—que se afastou escandalisado!

Áquella hora Luiza acordava. E sentando-se bruscamente na cama:—É hoje!—foi o seu primeiro pensamento. Um susto, uma tristeza horrivel contrahiram-lhe o coração. Começou depois a vestir-se, muito nervosa com a idéa de vêr Juliana! Estava mesmo imaginando fechar-se, não almoçar, sahir pé ante pé ás onze horas, ir procurar Bazilio ao hotel, quando a voz de Joanna disse á porta do quarto:

—A senhora faz favor?

Começou logo a contar, muito espantada, que a snr.a Juliana tinha sahido de manhã, ainda não voltára, estava tudo por arrumar...

—Bem, arranje-me o almoço, eu já vou...—Que allivio para ella!

Calculou logo que Juliana deixára a casa. Para que? Para lhe armar alguma, de certo! O melhor era sahir immediatamente... Podia esperar Bazilio no Paraiso.

Foi á sala de jantar, bebeu um gole de chá, de pé, á pressa.

—A snr.a Juliana ter-lhe-ha dado alguma cousa?—veio dizer Joanna assombrada.

Luiza encolheu os hombros, respondeu vagamente:

—Depois se saberá...

Era hora e meia, foi pôr o chapéo. O coração batia-lhe alto, e apesar do terror de vêr entrar Juliana, não se decidia a sahir; sentou-se mesmo, com o sacco de marroquim nos joelhos. Vamos! pensou emfim.—Ergueu-se; mas parecia que alguma cousa de subtil e de forte a prendia, a enleava... Entrou na alcova devagar: o seu roupão estava cahido aos pés da cama, as suas chinellinhas sobre o tapete felpudo...—Que desgraça! disse alto. Veio ao toucador, mexeu nos pentes, abriu as gavetas; de repente entrou na sala, foi ao album, tirou a photographia de Jorge, metteu-a toda tremula no sacco de marroquim, olhou ainda em roda como desvairada, sahiu, atirou com a porta, desceu a escada correndo.

Á Patriarchal passava um coupé de praça. Tomou-o, mandou-o ir ao Hotel Central.

O snr. Brito sahira logo de manhã cedo, disse o porteiro muito azafamado. De certo algum paquete chegára, porque entravam bagagens, fortes malas cobertas d'oleado, caixas de madeira debruadas de ferro; passageiros com ar espantado da chegada, ainda entontecidos do balouço do mar, fallavam, chamavam. Aquelle movimento animou-a: veio-lhe um desejo de viagens, do ruido nocturno das gares á claridade do gaz, da agitação alegre das partidas nas manhãs frescas, sobre o tombadilho dos paquetes!

Deu ao cocheiro a adresse do Paraiso. E á maneira que o trem trotava parecia-lhe que toda a sua vida passada, Juliana, a casa, se esbatiam, se dissipavam n'um horisonte abandonado. Á porta d'um livreiro julgou entrevêr Julião; debruçou-se pela portinhola, precipitadamente; não o avistou, teve pena: ia-se sem vêr um amigo da casa! Todos agora, Julião, Ernestinho, o Conselheiro, D. Felicidade lhe pareciam adoraveis, com qualidades nobres, que nunca percebera, que repentinamente tomavam um grande encanto. E o pobre Sebastião, tão bom! Nunca mais lhe ouviria tocar a sua Malaguenha!

Ao fim da rua do Ouro o coupé parou n'um embaraço de carroças, e Luiza viu no passeio ao lado o Castro, o Castro dos oculos, o banqueiro, o que Leopoldina lhe dizia que «tinha uma paixão por ella»: um rapazito rôto offerecia-lhe cautelas; e o Castro nedio, com os dous pollegares nas algibeiras do collete branco, dizia graças ao rapaz, com um desdem ricaço, dardejando olhadellas sobre Luiza, através dos seus oculos d'ouro. Ella, pelo canto do olho, observava-o: tinha uma paixão por ella, aquelle homem, que horror! Achava-o medonho, com o seu ventre pançudo, a perninha curta. A lembrança de Bazilio atravessou-a, a sua linda figura!...—e bateu nos vidros impaciente, com pressa de o vêr.

O trem partiu emfim. O Rocio reluzia ao sol; do Americano, parado á esquina, gente descia apressada, de calças brancas, vestidos leves, vinda de Belem, de Pedrouços; pregões cantavam.—Todos alli ficavam nas suas familias, nas suas felicidades, só ella partia!

Na rua Occidental, viu vir a D. Camilla—uma senhora casada com um velho, illustre pelos seus amantes. Parecia gravida; e adiantava-se devagar, com a face branca satisfeita, uma lassitude do corpo arredondado, passeando um marmanjosinho de jaqueta côr de pinhão, uma pequerrucha de sainhas tufadas, e adiante uma ama, vestida de lavradeira, empurrava um carrinho de mão onde um bébé se babava. E a Camilla, feliz, vinha tranquillamente pela rua expondo as suas fecundidades adulteras! Era muito festejada, ninguem dizia mal d'ella; era rica, dava soirées...—O que é o mundo!—pensava Luiza.

O trem parou á porta do Paraiso, era meio dia. A portinha em cima estava fechada: e a patrôa appareceu logo, ciciando que «sentia muitissimo, mas só o senhor é que tinha a chavesinha, se a senhora quizesse descançar...» N'este momento outra carruagem chegou, e Bazilio appareceu galgando os degraus.

—Até que emfim!—exclamou abrindo a porta.—Porque não vieste hontem?...

—Ah! se tu soubesses...

E, agarrando-lhe os braços, cravando os olhos n'elle:

—Bazilio, sabes, estou perdida!

—Que ha?

Luiza atirára o sacco de marroquim para o canapé, e, d'um folego, contou-lhe a historia da carta apanhada nos papeis, as d'elle roubadas, a scena no quarto...—O que me resta é fugir. Aqui estou. Leva-me. Tu disseste que podias, tens-l'o dito muitas vezes. Estou prompta. Trouxe aquelle sacco, com o necessario, lenços, luvas... hein?

Bazilio com as mãos nos bolsos, fazendo tilintar o dinheiro e as chaves, seguia attonito os seus gestos, as suas palavras.

—Isso só a ti!—exclamou.—Que douda! Que mulher!—E muito excitado:—Isso é lá questão de fugir? Que estás tu a fallar em fugir? É uma questão de dinheiro. O que ella quer é dinheiro. É vêr quanto quer, e pagar-se-lhe!

—Não, não!—fez Luiza—Não posso ficar!—Tinha uma afflicção na voz. A mulher venderia a carta, mas conservava o segredo: a todo o tempo podia fallar, Jorge saber: estava perdida, não tinha coragem de voltar para casa!—Não sinto um momento de descanço, em quanto estiver em Lisboa. Partimos hoje, sim? Se não pódes, ámanhã. Eu vou para algum hotel, aonde ninguem saiba, escondo-me esta noite. Mas, ámanhã vamos. Se elle sabe, mata-me, Bazilio! Sim, dize que sim!—Agarrára-se a elle, procurava avidamente com os seus olhos o consentimento dos d'elle.

Bazilio desprendeu-se brandamente:

—Estás douda, Luiza, tu não estás em ti! Póde lá pensar-se em fugir! Era um escandalo atroz, eramos apanhados de certo, com a policia, com os telegraphos! É impossivel! Fugir é bom nos romances! E depois, minha filha, não é um caso para isso! É uma simples questão de dinheiro...

Luiza fazia-se branca, ouvindo-o.

—E além d'isso—continuou Bazilio, muito agitado, pelo quarto—eu não estou preparado, nem tu! Não se foge assim. Ficas desacreditada para toda a vida, sem remedio, Luiza. Uma mulher que foge, deixa de ser a snr.a D. Fulana, é a Fulana, a que fugiu, a desavergonhada, uma concubina! Eu tenho de certo de ir ao Brazil, onde has-de tu ficar? Queres ir tambem, um mez n'um beliche, arriscar-te á febre amarella? E se teu marido nos persegue se formos detidos na fronteira? Achas bonito voltar entre dous policias, e ir passar um anno ao Limoeiro? O teu caso é simplicissimo. Entendes-te com essa creatura, dá-se-lhe um par de libras, que é o que ella quer, e ficas em tua casa, socegada, respeitada como d'antes—sómente mais acautelada! Aqui está!

Aquellas palavras cahiam sobre os planos de Luiza, como machadadas que derrubam arvores. Ás vezes a verdade que ellas continham atravessava-a irresistivelmente, viva como um relampago, desagradavel como um gume frio. Mas via n'aquella recusa uma ingratidão, um abandono. Depois de se ter installado, pela imaginação, n'uma segurança feliz, longe, em Paris—parecia-lhe intoleravel ter de voltar para casa, de cabeça baixa, soffrer Juliana, esperar a morte; e os contentamentos que entrevira n'aquelle outro destino, agora que lhe fugiam d'entre as mãos, pareciam-lhe maravilhosos, quasi indispensaveis! E depois de que servia resgatar a carta a dinheiro? A creatura saberia o seu segredo! E a vida seria amarga, tendo sempre em volta de si aquelle perigo a rondar!

Ficára calada, como perdida n'uma reflexão vaga; e de repente erguendo a cabeça, com um olhar brilhante:

—Então, dize!...

—Mas estou-te a dizer, filha...

—Não queres?

—Não!—exclamou Bazilio com força.—Se tu estás douda, não estou eu!

—Oh! pobre de mim, pobre de mim!

Deixou-se cahir no sophá, tapou o rosto com as mãos. Soluços baixos sacudiam-lhe o peito.

Bazilio sentou-se ao pé d'ella. Aquellas lagrimas mortificavam-no, e impacientavam-no.

—Mas, santo nome de Deus, escuta-me!

Ella voltou para elle os olhos que reluziam sob o pranto:

—Para que dizias então, tantas vezes, que seriamos tão felizes, que se eu quizesse...

Bazilio ergueu-se bruscamente:

—Pois tu pensaste em fugir, em te metter commigo n'um wagon, vir para Paris, viver commigo, ser a minha amante?

—Sahi de casa p'ra sempre, ahi está o que eu fiz!

—Mas vaes voltar p'ra casa!—exclamou elle, quasi com colera.—Por que havias de tu fugir? por amor? então deviamos ter partido ha um mez, não ha razão agora para irmos. Para que, então? Para evitar um escandalo? com um escandalo maior, não é verdade? um escandalo irreparavel, medonho! Estou-te a fallar como um amigo, Luiza!—Tomou-lhe as mãos, com muita ternura:—Tu imaginas que eu não seria feliz em ir viver comtigo para Paris? Mas vejo os resultados, tenho outra experiencia. O escandalo todo evita-se com umas poucas de libras. Tu imaginas que a mulher vai-se pôr a fallar? O seu interesse é safar-se, desapparecer; sabe perfeitamente o que fez, que te roubou, que usou de chaves falsas. A questão é pagar-lhe.

Ella disse, com uma voz lenta:

—E o dinheiro, onde o tenho eu?

—Está claro que o dinheiro tenho-o eu!—E depois de uma pausa:—Não muito, estou mesmo um pouco atrapalhado, mas emfim...—Hesitou, disse:—se a creatura quizer duzentos mil reis, dão-se-lhe!

—E se não quizer?

—Que ha-de ella querer, então? Se roubou a carta é para a vender! Não é para guardar um autographo teu!

Vinham-lhe palavras duras, passeava pelo quarto exasperado. Que pretensão querer vir com elle para Paris, embaraçar-lhe para sempre a sua vida! E que despeza tão tola, dar um 'rôr de libras a uma ladra! Depois aquelle incidente, a carta de namoro roubada nos papeis sujos, a criada, a chave falsa do gavetão dos vestidos—parecia-lhe soberanamente burguez, um pouco pulha. E parando, para acabar:

—Emfim oferece-lhe trezentos mil reis, se quizeres. Mas pelo amor de Deus, não faças outra; não estou para pagar as tuas distracções a trezentos mil reis cada uma!

Luiza fez-se livida, como se elle lhe tivesse cuspido no rosto.

—Se é uma questão de dinheiro, eu o pagarei, Bazilio!

Não sabia como. Que lhe importava! Pediria, trabalharia, empenharia... Não o aceitaria d'elle!

Bazilio encolheu os hombros:

—Estás-te a dar ares, onde o tens tu?

—Que te importa?—exclamou.

Bazilio coçou a cabeça, desesperado. E tomando-lhe as mãos, com uma impaciencia reprimida:

—Estamos a dizer tolices, filha, estamos a irritar-nos... Tu não tens dinheiro.

Ella interrompeu-o, agarrou-lhe violentamente o braço:

—Pois sim, mas falla tu a essa mulher, falla-lhe tu, arranja tudo. Eu não a quero tornar a vêr. Se a vejo, morro, acredita. Falla-lhe tu!

Bazilio recuou vivamente, e batendo com o pé:

—Estás douda, mulher! Se eu lhe fallo, então pede tudo, então pede-me a pelle! Isso é comtigo. Eu dou-te o dinheiro, tu arranja-te!

—Nem isso me fazes?

Bazilio não se conteve:

—Não! c'os diabos, não!

—Adeus!

—Tu estás fóra de ti, Luiza!

—Não. A culpa é minha—dizia, descendo o véo com as mãos tremulas—eu é que devo arranjar tudo!

E abriu a porta. Bazilio correu a ella, prendeu-a por um braço.

—Luiza, Luiza! o que queres tu fazer? não podemos romper assim! Escuta...

—Fujamos então, salva-me de todo!—gritou ella, abraçando-o anciosamente.

—Caramba! Se te estou a dizer que não é possivel!

Ella atirou com a porta, desceu as escadas correndo. O coupé esperava-a.

—Para o Rocio—disse.

E deitando-se para o canto da carruagem, rompeu a chorar convulsivamente.