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O Primo Bazilio: Episodio Domestico

Chapter 15: IX
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About This Book

Um retrato da vida doméstica burguesa que acompanha a rotina entediante de um casal e a perturbação causada pela chegada de um parente sedutor. A esposa, aborrecida pela monotonia conjugal, envolve-se numa relação clandestina que revela fragilidades, vaidades e contradições sociais. A traição desencadeia chantagem, intrigas e o oportunismo de personagens secundários, conduzindo a humilhações e a um desfecho trágico. O texto alia ironia crítica e observação minuciosa dos costumes quotidianos, explorando consequências íntimas e públicas do adúltero e expondo a hipocrisia e o tédio da pequena burguesia.

«Minha senhora.


«Bem sei que fui imprudente, o que a senhora deve attribuir tanto á minha desgraça como á falta de saude, o que ás vezes faz que se tenham genios repentinos. Mas se a senhora quer que eu volte e faça o serviço como d'antes—ao qual creio que a senhora não póde oppôr-se, terei muito gosto em ser agradavel na certeza que nunca mais se fallará em tal até que a senhora queira, e cumpra o que prometteu. Prometto fazer o meu serviço, e desejo que a senhora esteja por isto pois que é para bem de todos. Pois que foi genio e naturalmente todos teem os seus repentes, e com isto não canço mais e sou



«Serva muito obediente

«a criada

«Juliana Couceiro Tavira


Ficou com a carta na mão, sem resolução. A sua primeira vontade foi dizer—não! Tornar a recebel-a, vêl-a, com a sua face horrivel, a cuia enorme! Saber que ella tinha no bolso a sua carta, a sua deshonra, e chamal-a, pedir-lhe agua, a lamparina, ser servida por ella! Não! Mas veio-lhe um terror; se recusasse irritava a creatura, Deus sabe o que faria! Estava nas mãos d'ella, devia passar por tudo. Era o seu castigo... Hesitou ainda um momento:

—Que sim, que venha, é a resposta.



Juliana veio com effeito ás oito horas. Subiu pé ante pé para o sotão, poz o fato de casa e as chinellas, e desceu para o quarto dos engommados, onde Joanna sentada n'um tapete costurava, á luz do petroleo.

Joanna, muito curiosa, acabrunhou-a logo de perguntas: Onde estivera? o que tinha acontecido? porque não déra noticias?—Juliana contou que fôra a uma visita a uma amiga, á calçada do Marquez d'Abrantes, e que de repente lhe dera um flato, e a dôr... Não quiz mandar dizer, porque imaginára que poderia vir. Mas qual! estivera dia e meio de cama...

Quiz saber então o que tinha feito a senhora, se sahira, quem estivera...

—A senhora tem andado a modo incommodada—disse Joanna.

—É do tempo—observou Juliana.—Tinha trazido a sua costura, e ambas caladas continuaram o serão.

Ás dez horas Luiza ouviu bater devagarinho á porta do quarto. Era ella, de certo!

—Entre...

A voz de Juliana disse muito naturalmente:

—Está o chá na mesa.

Mas Luiza não se decidia a ir á sala, com medo, horror de a vêr! Deu voltas no quarto, demorou-se; foi emfim, toda tremula. Juliana vinha justamente no corredor; encolheu-se contra a parede, com respeito, disse:

—Quer que vá pôr a lamparina, minha senhora?

Luiza fez que sim com a cabeça, sem a olhar.

Quando voltou ao quarto Juliana enchia o jarro; e depois de ter aberto a cama, cerrado as portas, quasi em pontas de pés:

—A senhora não precisa mais nada?—perguntou.

—Não.

—Muito boa noite, minha senhora.

E não houve outra palavra mais.

—Parece um sonho!—pensava Luiza, ao despir-se melancolicamente.—Esta creatura, com as minhas cartas, installada em minha casa para me torturar, para me roubar!—Como se achava ella, Luiza, n'aquella situação? Nem sabia. As cousas tinham vindo tão bruscamente, com a precipitação furiosa d'uma borrasca, que estala! Não tivera tempo de raciocinar, de se defender: fôra embrulhada: e alli estava, quasi sem «dar fé», na sua casa sob a dominação da sua criada! Ah! se tivesse fallado a Sebastião! Tinha agora o dinheiro, de certo, notas, ouro... Com que phrenesi lh'o arremessaria, a expulsaria, e a arca, e os trapos, e a cuia!...—Jurou a si propria fallar a Sebastião, dizer tudo! Iria mesmo a casa d'elle, para o impressionar mais!

D'ahi a pouco, quebrada da agitação do dia, adormecera—e sonhava que um estranho passaro negro lhe entrára no quarto, fazendo uma ventania, com as suas azas pretas de morcego: era Juliana! Corria aterrada ao escriptorio, gritando: Jorge! Mas não via nem livros, nem estante, nem mesa:—havia uma armação reles de loja de tabaco, e por traz do balcão, Jorge acariciava sobre os joelhos uma bella mulher de fórmas robustas, em camisa d'estopa, que perguntava com uma voz desfallecida de voluptuosidade e os olhos afogados em paixão:—Brejeiros ou de Xabregas?—Fugia então de casa indignada, e, através de successos confusos, via-se ao lado de Bazilio, n'uma rua sem fim, onde os palacios tinham fachadas de cathedraes, e as carruagens rolavam ricamente com uma pompa de cortejo. Contava soluçando a Bazilio a traição de Jorge. E Bazilio, saltitando em volta d'ella com requebros de palhaço, repenicava uma viola, e cantava:


Escrevi uma carta a Cupido
A mandar-lhe perguntar
Se um coração offendido
Tem obrigação de amar!


—Não tem!—gania a voz d'Ernestinho, brandindo triumphante um rolo de papel.—E tudo se obscurecia de repente nos largos vôos circulares que fazia Juliana com as suas azas de morcego.



IX



Juliana voltára para casa de Luiza por conselhos da tia Victoria.

—Olha, minha rica, tinha-lhe ella dito, não ha que vêr, o passaro fugiu-nos! Suspira, bem pódes suspirar que o dinheiro grosso foi-se! Quem podia lá adivinhar que o homem desarvorava! Não, lá isso pódes tirar d'ahi o sentido! Que d'ella escusas d'esperar nem cheta...

—Tambem me regalo de mandar as cartas ao marido, tia Victoria!

A velha encolheu os hombros:

—Não lucras nada com isso. Ou que elles se desquitem, ou que elle lhe parta os ossos, ou que a mande para um convento—tu não ganhas nada. E se se acommodarem, mais ficas a chuchar no dedo, porque nem tens a consolação de fazeres a sizania. E isto é se as cousas correrem pelo melhor, porque pódes muito bem ficar mas é em lençoes de vinagre com alguma carga de pau que elles te mandem dar.—E vendo um gesto espantado de Juliana:—Já não era o primeiro caso, minha rica, já não era o primeiro. Olha que em Lisboa, passa-se muita cousa, e nem tudo vem nos jornaes!

Positivamente o que ella tinha a fazer era voltar para a casa. Porque emfim o que restava de tudo aquillo? O medo de D. Luiza: esse é que lá estava sempre a dar-lhe por dentro a colica: d'esse é que era necessario tirar partido...

—Tu voltas para lá—dizia—á espera que ella cumpra o que prometteu. Se te dá o dinheiro, bem... Senão tem-l'a em todo o caso na mão, estás de dentro da praça, sabes o que se passa, pódes-lhe apanhar muita cousa...

Mas Juliana hesitava.—Era difficil viverem debaixo das mesmas telhas sem haver uma questão por dá cá aquella palha.

—Não te diz uma palavra, tu verás...

—Mas tenho medo...

—De que?—exclamava a tia Victoria. Ella não era mulher para a envenenar, não é verdade? Então? Quem a nada se arriscava nada ganhava.—Isto é se queres—acrescentou—senão trata de te arranjar n'outra parte, e deita as cartas para o fundo da arca. Que diabo! Tu vaes vêr, se não te convém, safas-te...

Juliana decidiu ir, «a vêr».

E reconheceu logo, que «aquella finoria da tia Victoria tinha carradas de razão».

Luiza, com effeito, parecia resignada. Sebastião tinha ido para Almada, outra vez. Mas como estava decidida, apenas elle voltasse, a ir a casa d'elle uma manhã, atirar-se-lhe ao pés, contar-lhe tudo, tudo, supportava Juliana, reflectindo:—É apenas por dias!—Por isso não lhe disse uma palavra. Para que? O que tinha a fazer era pagar-lhe e pôl-a fóra, não é verdade? Em quanto o não podesse fazer, era aguentar e calar. Até que Sebastião voltasse...

No entretanto evitava vêl-a. Nunca a chamava. Não sahia da alcova de manhã, sem a ter sentido fóra no quarto encher o banho, sacudir os vestidos. Ia para a sala de jantar com um livro, e nos intervallos não levantava os olhos das paginas. E durante todo o dia conservava-se no quarto com a porta fechada, lendo, costurando, pensando em Jorge—ás vezes tambem em Bazilio com odio, desejando a volta de Sebastião, e preparando a sua historia.

Juliana, uma manhã, encontrou Luiza no corredor trazendo para o quarto o regador cheio d'agua.

—Oh minha senhora! porque não chamou?—exclamou, quasi escandalisada.

—Não tem duvida—disse Luiza.

Mas Juliana seguiu-a ao quarto, e cerrando a porta:

—Oh minha senhora!—disse muito offendida—isto assim não póde continuar. A senhora parece que tem medo de me vêr, credo! Eu voltei para fazer o meu serviço como d'antes... Verdade, verdade, naturalmente, sempre espero que a senhora faça o que prometteu... E lá largar as cartas não largo, sem ter seguro o pão da velhice. Mas o que se passou foi um repente de genio, e já pedi perdão á senhora. Quero fazer o meu serviço... Agora se a senhora não quer, então saio, e—acrescentou com uma voz secca—talvez seja peor para todos!...

Luiza, muito perturbada, balbuciou:

—Mas...

—Não, minha senhora—cortou Juliana severamente—aqui a criada sou eu.

E sahiu, empertigada.

Tanta audacia aterrou Luiza. Aquella ladra era capaz de tudo!

Então, para a não irritar começou, d'ahi por diante, a chamal-a, a dizer:—Traga isto, traga aquillo,—sem a olhar.

Mas Juliana fazia-se tão serviçal, era tão calada, que Luiza pouco a pouco, dia a dia, com o seu caracter mobil, inconsistente, cheio de deixar-se ir, principiou a perder o sentimento pungente d'aquella difficuldade. E no fim de tres semanas «as cousas tinham entrado nos seus eixos»—dizia Juliana.

Luiza já gritava por ella do quarto, já a mandava a recados fóra: Juliana chegava a ter ás vezes migalhas de conversação:—Está um calor de morrer... A lavadeira tarda...—Um dia arriscou esta phrase mais intima:—Encontrei a criada da snr.a D. Leopoldina.

Luiza perguntou:

—Ainda está para o Porto?

—Ainda se demora um mez, minha senhora...

De resto havia na casa um aspecto muito tranquillo, e Luiza, depois de tantas agitações, abandonava-se com gozo á satisfação d'aquelle descanço. Ia ás vezes vêr D. Felicidade á Encarnação, que já se levantava. E esperava sempre Sebastião, mas sem impaciencia, quasi contente por vêr adiado o momento terrivel de lhe dizer: escrevi a um homem, Sebastião!

Assim iam passando os dias; estava-se no fim de setembro.

Uma tarde Luiza ficára mais tempo á janella da sala de jantar; deixára cahir o livro no regaço, e olhava, sorrindo, um bando de pombas que d'algum quintal visinho viera pousar sobre o tabique do terreno vago. Pensava vagamente em Bazilio, no Paraiso... Sentiu passos, era Juliana.

—Que é?

A mulher cerrára a porta, e vindo junto d'ella, baixo:

—Então a senhora ainda não decidiu nada?

Luiza sentiu como uma pancada no estomago.

—Ainda não pude arranjar nada...

Juliana esteve um momento a olhar para o chão:

—Bem—murmurou, por fim.

E Luiza ouviu-a, no corredor, dizer alto:

—Isto quando o senhor voltar é que são os ajustes de contas!



Quando Jorge voltasse! Immediatamente no seu espirito, que se tinha pouco a pouco serenado, todos os sustos, as angustias estremeceram de novo áquella ameaça—assim uma rajada subita põe em convulsão um arvoredo. Devia, pois, fazer alguma cousa antes que elle chegasse! Justamente Jorge escrevera-lhe, que «não se demoraria, que a avisaria pelo telegrapho...» Desejava, agora, que do ministerio o mandassem fazer uma viagem mais longe, pela Hespanha ou pela Africa; que alguma catastrophe, sem lhe fazer mal, o retardasse mezes!...

Que faria elle, se soubesse! Matal-a-hia? Lembravam-lhe as suas palavras muito sérias, n'aquella noite, quando Ernestinho contára o final do seu drama... Mettel-a-hia n'uma carruagem, leval-a-hia a um convento? E via a grossa portaria fechar-se com um ruido funerario de ferrolhos, olhos lugubres estudal-a curiosamente...

O seu terror irraciocinado fizera-lhe mesmo perder a idéa nitida do seu marido; imaginava um outro Jorge sanguinario e vingativo, esquecendo o seu caracter bom, tão pouco melodramatico. Um dia foi ao escriptorio, tomou a caixa das pistolas, fechou-a n'um bahú de roupa velha, e escondeu a chave!...

Uma idéa amparava-a: era que apenas Sebastião viesse d'Almada, estava salva; e apesar d'aquella agonia miuda de todos os momentos, quasi receava saber que elle tivesse chegado,—tanto a confissão da verdade lhe parecia uma agonia maior! Foi por esse tempo, então, que lhe veio uma lembrança—escrever a Bazilio. O terror permanente amollecera-lhe o orgulho, como a lenta infiltração da agua faz a uma parede; e todos os dias começou a achar uma razão, mais uma, para se dirigir «áquelle infame»: fôra seu amante, já sabia todo o caso das cartas, era o seu unico parente... E não teria de «dizer» a Sebastião! Já ás vezes pensára que não aceitar dinheiro de Bazilio fôra uma «fanfarronada bem tola»! Um dia emfim escreveu-lhe. Era uma carta longa, um pouco confusa, pedia-lhe seiscentos mil reis. Foi ella mesmo leval-a ao correio, sobrecarregando-a de estampilhas.

N'essa tarde, por acaso, Sebastião, que chegára d'Almada, veio vêl-a. Recebeu-o com alegria, feliz por não ter de lhe contar... Fallou da volta de Jorge; alludiu mesmo ao primo Bazilio, á «pouca vergonha da visinhança...»

—Não—disse—é a primeira cousa que hei-de contar ao Jorge.

Porque se considerava salva, agora! E todos os dias seguia a carta, no seu caminho para França, como se a sua mesma vida fosse dentro d'aquelle sobrescripto entregue ao acaso dos trens e á confusão das viagens! Chegára a Madrid, depois a Bayonna, depois a Paris! Um carteiro corria a entregal-a na rua Saint Florentin. Bazilio abria-a tremendo, enchia um sobrescripto de notas, muitas, que cobria de beijos, e o enveloppe, trazendo a sua salvação e o seu descanço, começava a rolar para baixo, pela França e pela Navarra, soprando como um monstro e apressando-se como um proprio.

No dia em que a resposta devia chegar, levantou-se mais cedo, agitada, com o ouvido pregado na porta, esperando o toque do carteiro. Via-se já a expulsar Juliana, a soluçar de alegria!... Mas ás dez e meia começou a estar nervosa: ás onze chamou Joanna, «que fosse saber se o carteiro passára».

—Diz que sim, minha senhora, que já passou.

—Canalha!—murmurou, pensando em Bazilio.

Talvez, todavia, não tivesse respondido no mesmo dia! Esperou ainda, mas desconsolada, já sem fé. Nada! Nem na outra manhã, nem nas seguintes! O infame!

Veio-lhe então a idéa da loteria—porque insensivelmente a esperança tornára-se-lhe necessaria. A primeira vez que sahiu comprou umas poucas de cautelas. Apesar de não ser religiosa nem supersticiosa, metteu-as debaixo da peanha d'um S. Vicente de Paula que tinha sobre a commoda, na alcova. Não se perdia nada! Examinava-as todos os dias, sommava os algarismos a vêr se davam nove, noves fóra, nada, ou um numero par—que é de bom agouro! E aquelle contacto diario com a imagem do santo levando-a a pensar de certo na protecção inesperada do céo, fez uma promessa de cincoenta missas se as cautelas fossem premiadas!...

Sahiram brancas—e então desesperou de tudo; abandonou-se a uma inacção em que sentia quasi uma voluptuosidade, passando dias sem se importar, quasi sem se vestir, desejando morrer, devorando nos jornaes todos os casos de suicidios, de fallencias, de desgraças—consolando-se com a idéa de que nem só ella soffria, e que a vida em redor, na cidade, fervilhava de afflicções.

Ás vezes, de repente, vinha-lhe uma pontada de medo. Decidia-se então de novo a «abrir-se» com Sebastião; depois pensava que seria melhor escrever-lhe; mas não achava as palavras, não conseguia arranjar uma historia racional; vinha-lhe uma cobardia; e recahia na sua inercia, pensando: «ámanhã, ámanhã...»

Quando, só, no seu quarto, se chegava por acaso á janella, punha-se a imaginar o que «diria a visinhança, quando se soubesse»! Condemnal-a-hiam? Lamental-a-hiam? Diriam—«Que desavergonhada»? Diriam—«Coitadinha»? E por dentro da vidraça seguia, com um olhar quasi aterrado, as passeatas do Paula pela rua, o embasbacamento obeso da carvoeira, as Azevedos por traz das bambinellas de cassa! Como elles todos gritariam:—«Bem diziamos nós! Bem diziamos nós!» Que desgraça! Ou então via de repente Jorge, terrivel, fóra de si, com as cartas na mão; e encolhia-se como se já estivesse sob a colera dos seus punhos fechados.

Mas o que a torturava mais era a tranquillidade de Juliana—espanejando, cantarolando, servindo-a ao jantar d'avental branco. Que tencionava ella? Que preparava ella? Ás vezes vinha-lhe uma onda de raiva; se fosse forte ou corajosa, de certo atirar-se-lhe-hia ao pescoço, para a esganar, arrancar-lhe a carta! Mas pobre d'ella, era «uma mosquinha»!

Justamente, n'uma d'essas manhãs, Juliana entrou no quarto—com o vestido de sêda preto no braço. Estendeu-o na causeuse, e mostrou a Luiza, na saia, ao pé do ultimo folho, um rasgão largo que parecia feito com um prego; vinha saber se a senhora queria que o mandasse á costureira.

Luiza lembrava-se bem, rasgára-o uma manhã no Paraiso a brincar com Bazilio!

—Isto é facil d'arranjar—dizia Juliana, passando de leve a mão espalmada sobre a sêda, com a lentidão d'uma caricia.

Luiza examinava-o, hesitando:

—Elle tambem já não está novo... Olhe, guarde-o p'ra vossê!

Juliana estremeceu, fez-se vermelha:

—Oh minha senhora!—exclamou—Muito agradecida! É um rico presente. Muito agradecida, minha senhora! Realmente...—E a voz perturbava-se-lhe.

Tomou-o nos braços, com cuidado, correu logo á cozinha. E Luiza, que a seguira pé ante pé, ouviu-a dizer toda excitada:

—É um rico presente, é o que ha de melhor. E novo! Uma rica sêda!—Fazia arrastar a cauda pelo chão, com um frou-frou. Sempre o invejára: e tinha-o agora, era o seu vestido de sêda!—É de muito boa senhora, snr.a Joanna, é d'um anjo!

Luiza voltou ao quarto, toda alvoroçada; era como uma pessoa perdida de noite, n'um descampado—que de repente, ao longe, vê reluzir um clarão de vidraça! Estava salva! Era presenteal-a, era fartal-a! Começou logo a pensar no que lhe podia dar mais, pouco a pouco: o vestido rôxo, roupas brancas, o roupão velho, uma pulseira!



D'ahi a dous dias—era um domingo—recebeu um telegramma de Jorge: «Parto ámanhã do Carregado. Chego pelo comboio do Porto ás 6.» Que sobresalto! Voltava, emfim!

Era nova, era amorosa—e no primeiro momento todos os sustos, as inquietações desappareceram sob uma sensação d'amor e de desejo, que a inundou. Viria de madrugada, encontral-a-hia deitada,—e já pensava na delicia do seu primeiro beijo!...

Foi-se vêr ao espelho: estava um pouco magra, talvez, com a physionomia um pouco fatigada... E a imagem de Jorge apparecia-lhe então muito nitidamente, mais queimado do sol, com os seus olhos ternos, o cabello tão annelado! Que estranha cousa! Nunca lhe appetecêra tanto vêl-o. Foi logo occupar-se d'elle: o escriptorio estaria bem arranjado? Quereria um banho morno, seria necessario aquecer a agua na tina grande!... E ia e vinha, cantarolando, com um brilho exaltado nos olhos.

Mas a voz de Juliana, de repente no corredor, fêl-a estremecer. Que faria ella, a mulher? Ao menos que a deixasse n'aquelles primeiros dias gozar a volta de Jorge, tranquillamente!... Veio-lhe uma audacia, chamou-a.

Juliana entrou, com o vestido de sêda novo, movendo-se cuidadosamente:

—Quer alguma cousa, minha senhora?

—O snr. Jorge volta amanhã...—disse Luiza.

E suspendeu-se; o coração batia-lhe fortemente.

—Ah!—fez Juliana.—Bem, minha senhora.

E ia sahir.

—Juliana!—fez Luiza, com a voz alterada.

A outra voltou-se, surprehendida.

E Luiza batendo com as mãos, n'um movimento supplicante:

—Mas vossê ao menos n'estes primeiros dias... Eu hei-de arranjar, esteja certa!...

Juliana acudiu logo:

—Oh minha senhora! Eu não quero dar desgostos a ninguem. O que eu quero é um bocadinho de pão para a velhice. Da minha bocca não ha-de vir mal a ninguem. O que peço á senhora é que se fôr da sua vontade e me quizer ir ajudando...

—Lá isso, sim... O que vossê quizer...

—Pois póde estar certa que esta bocca...—E fechou os labios com os dedos.

Que alegria para Luiza! Tinha uns dias, umas semanas, emfim, sem tormentos, com o seu Jorge! Abandonou-se então toda á deliciosa impaciencia de o vêr. Era singular—mas parecia-lhe que o amava mais!...—E depois pensaria, veria, daria outros presentes a Juliana, poderia pouco a pouco preparar Sebastião... Quasi se sentia feliz.

De tarde Juliana veio dizer-lhe, muito risonha;

—A snr.a Joanna sahiu, que era hoje o seu dia, mas eu tinha tanta precisão de sahir, tambem! se a senhora lhe não custasse ficar só...

—Não! Fico, que tem? Vá, vá!

E, d'ahi a pouco, sentiu-a bater os tacões no corredor, fechar com ruido a cancella.

Então de repente uma idéa deslumbrou-a, como a fulguração d'um relampago:—ir ao quarto d'ella, rebuscar-lhe a arca, roubar-lhe as cartas!

Viu-a da janella dobrar a esquina. Subiu logo ao sotão, devagar, escutando, com o coração aos saltos. A porta do quarto de Juliana estava aberta; vinha de lá um cheiro de mofo, de rato e de roupa enxovalhada que a enjoou; pelo postigo entrava uma luz triste, de tarde escura; e por baixo, encostada á parede, ficava a arca! Mas estava fechada! De certo! Desceu correndo, veio buscar o seu mólho de chaves... Sentia uma vergonha,—mas se achasse as cartas! Aquella esperança dava-lhe todos os atrevimentos, como um vinho alcoolico. Começou a experimentar as chaves; a mão tremia-lhe; de repente a lingueta, com um estalinho secco, cedeu! Ergueu a tampa, estavam alli, talvez! E então, com cautela, muito femininamente, poz-se a tirar as cousas uma por uma, pondo-as em cima do colxão:—o vestido de merino; um leque com figuras douradas, embrulhado em papel de sêda; velhas fitas rôxas e azues, passadas a ferro; uma pregadeira de setim côr de rosa, com um coração bordado a matiz: dous frasquinhos de cheiro, intactos, tendo collados ao vidro raminhos de rosas de papel recortado; tres pares de botinas embrulhadas em jornaes; a roupa branca, d'onde se exhalava um cheiro de madeira e de folhas de maçã camoeza. Entre duas camisas estava um maço de cartas atadas com um nastro... Nenhuma era d'ella! Nem de Bazilio! Eram d'uma letra d'aldêa, inintelligivel e amarellada! Que raiva! E ficou a olhar para a arca vazia, de pé, com os braços tristemente cahidos.

Uma sombra de repente passou diante do postigo. Estremeceu, aterrada. Era um gato, que com passos leves, vadiava pelo telhado.—Tornou a repôr tudo com as mesmas dobras, fechou a arca, ia a sahir,—mas lembrou-se de procurar na gaveta da mesa e debaixo do travesseiro. Nada! Impacientou-se então; não se queria ir sem ter gasto toda a esperança; desmanchou a roupa da cama, remexeu a palha amollentada do enxergão, sacudiu as velhas botinas, esgaravatou os cantos... Nada! Nada!

Subitamente, a campainha tocou. Desceu a correr. Que surpreza! Era D. Felicidade.

—És tu! Como estás tu? Entra.

Estava melhor, veio logo contando pelo corredor. Sahira na vespera da Encarnação: o pé ás vezes ainda lhe fazia mal: mas graças a Deus estava escapa! E que lhe agradecesse, era a sua primeira visita!

Entraram no quarto. Escurecia, Luiza accendeu as velas.

—E como me achas tu, hein?—perguntou D. Felicidade, pondo-se diante d'ella.

—Um bocadito mais pallida.

Ai! tinha soffrido muito! Ergueu a saia, mostrou o pé calçado n'um sapato largo, obrigou Luiza a apalpal-o... Que uma consolação lhe restava: é que toda a Lisboa a fôra vêr! Graças a Deus! Toda a Lisboa, o que ha de melhor em Lisboa!

—E tu esta semana—acrescentou—nem appareceste! Pois olha que te cortaram na pelle...

—Não pude, filha. O Jorge chega ámanhã, sabias?

—Ah sua brejeira! Viva! Está esse coraçãosinho aos pulos!—E disse-lhe um segredinho.

Riram muito.

—Pois eu—continuou D. Felicidade sentando-se—arranjei-te hoje a partida. Encontrei esta manhã o Conselheiro, que me disse que vinha. Encontrei-o aos Martyres! Olha que foi sorte, logo no primeiro dia que sahi! E um bocado adiante dou com o Julião: diz que tambem vinha!...—E com uma voz desfallecida:

—Sabes? tomava uma colherinha de dôce...



Foi Luiza que abriu a porta ao Conselheiro e a Julião, que se tinham encontrado na escada, dizendo-lhes a rir:

—Hoje sou eu o guarda-portão!

D. Felicidade, na sala, para disfarçar a perturbação que lhe deu o espectaculo amado da pessoa d'Accacio, começou, fallando muito, a censural-a «por deixar assim sahir no mesmo dia as duas criadas...»

—E se te achares incommodada, filha, se te dér alguma cousa?

Luiza riu. Não era affecta a fanicos...

Todavia achavam-na abatida. E o Conselheiro, com interesse:

—Tem continuado a soffrer dos dentes, D. Luiza?

Dos dentes? Era a primeira vez que tal ouvia!—exclamou logo D. Felicidade. Julião declarou que raras vezes vira uma dentição tão perfeita.

O Conselheiro apressou-se a citar:


Em labios de coral, perolas finas...


E acrescentou:

—É verdade, mas a ultima vez que tive a honra d'estar com D. Luiza, viu-se tão repentinamente afflicta com um dente, que teve d'ir a correr chumbal-o ao Vitry!

Luiza fez-se muito vermelha. Felizmente a campainha tocou. Devia ser a Joanna, ia abrir...

—É verdade—continuou o Conselheiro—tinhamos feito um delicioso passeio, quando de repente D. Luiza empallidece, e parece que a dôr era tão urgente, que se precipitou para a escada do dentista, como louca...

A proposito de dôres, D. Felicidade, que estava anciosa por interessar, commover o Conselheiro, começou a historia do seu pé: disse a queda, o milagre de não ter morrido, as visitas assiduas de condessas e viscondessas, o susto em toda a Encarnação, os cuidados do bom dr. Caminha...

—Ai! soffri muito!—suspirou, com os olhos no Conselheiro, para provocar uma palavra sympathica.

Accacio, então, disse com authoridade:

—É sempre um erro, ao descer uma escada ingreme, não procurar o apoio do corrimão.

—Mas podia ter morrido!—exclamou ella. E voltando-se para Julião:—Pois não é verdade?

—N'este mundo morre-se por qualquer cousa—disse elle enterrado n'uma poltrona, fumando voluptuosamente. Elle mesmo estivera n'aquella tarde para ser atropellado por um trem: destinára o domingo para se dar um feriado, e fizera um grande passeio pela circumvallação...—Ha mais d'um mez vivo no meu cubiculo, como um frade benedictino na livraria do seu convento!—acrescentou, rindo, quebrando complacentemente a cinza do cigarro sobre o tapete.

O Conselheiro quiz saber então o assumpto da these: de certo muito momentoso!... E apenas Julião lhe disse: «Sobre physiologia, snr. Conselheiro», Accacio observou logo, com uma voz profunda:

—Ah! physiologia! Deve ser então de grande magnitude! E presta-se mais ao estylo ameno.

Queixou-se, tambem, de «vergar ao peso dos seus trabalhos litterarios...»

—Esperemos todavia, snr. Zuzarte, que não sejam infructiferas as nossas vigilias!

—As suas, snr. Conselheiro, as suas!—E com interesse:—Quando nos dá o seu novo trabalho? Ha sofreguidão em o vêr!

—Ha alguma sofreguidão—concordou o Conselheiro com seriedade.—Ha dias me dizia o snr. ministro da justiça (esse robustissimo talento), ha dias me dizia, me fazia a honra de me dizer: Dê-nos depressa o seu livro, Accacio, estamos precisados de luz, de muita luz! Foi assim que elle disse. Eu inclinei-me, naturalmente, e respondi: Snr. ministro, não serei eu que a negue ao meu paiz, quando o meu paiz a necessitar!

—Muito bem, muito bem, Conselheiro!

—E—acrescentou—dir-lhes-hei, aqui em familia, que o nosso ministro do reino me deixou entrevêr n'um futuro não remoto, a commenda de S. Thiago!

—Já lh'a deviam ter dado, Conselheiro!—exclamou Julião, divertindo-se.—Mas n'este desgraçado paiz... Já a devia ter ao peito, Conselheiro!

—Ha que tempos!—exclamou com força D. Felicidade.

—Obrigado, obrigado!—balbuciou o Conselheiro, rubro. E na expansão do seu jubilo offereceu com uma familiaridade agradecida, a sua caixa de rapé a Julião.

—Tomarei para espirrar—disse elle.

Sentia-se n'aquella tarde n'uma disposição benevola: o trabalho e as altas esperanças que elle lhe dava tinham de certo dissipado o seu azedume: parecia até ter esquecido a sua humilhação, quando encontrára alli, n'aquella sala, o primo Bazilio, porque apenas Luiza entrou, perguntou-lhe por elle.

—Partiu para Paris, não sabiam? ha que tempos!

D. Felicidade e o Conselheiro fizeram logo o elogio de Bazilio. Tinha ido deixar bilhetes de visita a ambos—o que encantára D. Felicidade, e ensoberbecera o Conselheiro. Era um verdadeiro fidalgo!—exclamava ella. E Accacio affirmou com authoridade:

—E uma voz de barytono, digna de S. Carlos.

—E muito elegante!—disse D. Felicidade.

—Um gentleman!—resumiu o Conselheiro.

Julião, calado, bambaleava a perna. Agora, áquelles elogios, o seu despeito renascia; lembrava a seccura cortante de Luiza, n'aquella manhã, as poses do outro. Não resistiu a dizer:

—Um pouco sobrecarregado nas joias e nos bordados das meias. De resto é moda no Brazil, creio...

Luiza córou; teve-lhe odio. E, vagamente, veio-lhe uma saudade de Bazilio.

D. Felicidade então, perguntou por Sebastião: não o via havia um seculo; e lamentava, porque era uma pessoa que lhe dava saude, só vêl-a.

—É uma grande alma—disse com emphase o Conselheiro.—Todavia censurava-o um pouco por não se occupar, não se tornar util ao seu paiz.—Porque emfim—declarou—o piano é uma bonita habilidade, mas não dá uma posição na sociedade.—Citou então Ernestinho, que, posto que dando-se á arte dramatica, era todavia (e a sua voz tornou-se grave), segundo todas as informações, um excellente empregado aduaneiro...

Que fazia elle, Ernestinho?—perguntaram.

Julião tinha-o encontrado. Dissera-lhe que a Honra e Paixão ia d'ahi a duas semanas, já se estavam a imprimir os cartazes, e na rua dos Condes já lhe não chamavam senão o Dumas filho portuguez! E o pobre rapaz crê-se realmente um Dumas filho!

—Não conheço esse author—disse com gravidade o Conselheiro—posto que me pareça, pelo nome, ser filho do escriptor que se tornou famoso pelos Tres Mosqueteiros e outras obras de imaginação!... Mas, de resto, o nosso Ledesma é um esmerado cultor da arte dos Corneilles! Não lhe parece, D. Luiza?

—Sim—disse ella com um sorriso vago.

Parecia preoccupada. Fôra já duas vezes ao relogio do quarto vêr as horas: quasi dez, e Juliana sem voltar! Quem havia de servir o chá? Ella mesmo foi pôr as chavenas no taboleiro, armar o paliteiro. Quando voltou á sala notou um silencio enfastiado...—Queriam que fosse tocar?—perguntou.

Mas D. Felicidade que olhava, ao pé de Julião, as gravuras do Dante, illustrado por G. Doré, que elle folheava, com o volume sobre os joelhos, exclamou, de repente:

—Ai que bonito! que é? Muito bonito! Viste, Luiza?

Luiza aproximou-se.

—É um caso d'amor infeliz, snr.a D. Felicidade—disse Julião.—É a historia triste de Paulo e Francesca de Rimini.—E explicando o desenho:—Aquella senhora sentada é Francesca: este moço de guedelha, ajoelhado aos pés d'ella, e que a abraça, é seu cunhado, e, lamento ter de o dizer, seu amante. E aquelle barbaças, que lá ao fundo levanta o reposteiro e saca da espada, é o marido que vem, e zás!—E fez o gesto de enterrar o ferro.

—Safa!—fez D. Felicidade, arripiada—E aquelle livro cahido o que é? Estavam a lêr?...

Julião disse discretamente:

—Sim... Tinham começado por lêr, mas depois...