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O Primo Bazilio: Episodio Domestico

Chapter 16: X
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About This Book

Um retrato da vida doméstica burguesa que acompanha a rotina entediante de um casal e a perturbação causada pela chegada de um parente sedutor. A esposa, aborrecida pela monotonia conjugal, envolve-se numa relação clandestina que revela fragilidades, vaidades e contradições sociais. A traição desencadeia chantagem, intrigas e o oportunismo de personagens secundários, conduzindo a humilhações e a um desfecho trágico. O texto alia ironia crítica e observação minuciosa dos costumes quotidianos, explorando consequências íntimas e públicas do adúltero e expondo a hipocrisia e o tédio da pequena burguesia.

Quel giorno più no vi leggiomi avante,


o que quer dizer:—E nós não lemos mais em todo o dia!

—Pozeram-se a derriçar—disse D. Felicidade com um sorriso.

—Peor, minha rica senhora, peor! Porque segundo a mesma confissão de Francesca, este moço, o da guedelha, o cunhado,


La bocca me bacciò tutto tremante,


o que significa:—A bocca me beijou tremendo todo...

—Ah!—fez D. Felicidade, com um olhar rapido para o Conselheiro.—É uma novella?

—É o Dante, D. Felicidade—acudiu com severidade o Conselheiro—um poema epico classificado entre os melhores. Inferior, porém, ao nosso Camões! Mas rival do famoso Milton!

—Que n'essas historias estrangeiras os maridos matam sempre as mulheres!—exclamou ella. E voltando-se para o Conselheiro:—Pois não é verdade?

—Sim. D. Felicidade, repetem-se lá fóra com frequencia essas tragedias domesticas. O desenfreamento das paixões é maior. Mas entre nós, digamol-o com orgulho, o lar é muito respeitado. Assim eu, por exemplo, em todas as minhas relações em Lisboa, que são numerosas, graças a Deus, não conheço senão esposas modêlos.—E com um sorriso cortezão:—De que é de certo a flôr a dona da casa!

D. Felicidade revirou os olhos para Luiza que estava encostada á cadeira d'ella, e batendo-lhe no braço:

—Isto é uma joia!—disse com amor.

—E de resto—acudiu o Conselheiro—o nosso Jorge merece-o. Porque, como diz o poeta:


Seu coração é nobre, e a fronte altiva
Revela-lhe da alma a pura essencia.


Aquella conversação impacientava Luiza. Ia sentar-se ao piano, quando D. Felicidade exclamou:—Dize cá, então não se toma hoje chá n'esta casa?

Luiza foi outra vez á cozinha. Disse a Joanna que viesse ella mesma com o chá.—E d'ahi a pouco Joanna, d'avental branco, vermelha, muito atarantada, entrou com o taboleiro.

—E a Juliana?—perguntou logo D. Felicidade.

—Sahiu, coitada—explicou Luiza—tem andado doente...

—E anda-te então por fóra até estas horas?... Boa! Até desacredita uma casa...

O Conselheiro tambem achava imprudente:

—Porque emfim as tentações são grandes n'uma capital, minha senhora!

Julião exclamou, rindo:

—Não, se aquella é tentada, descreio para sempre e totalmente, dos meus contemporaneos.

—Oh snr. Zuzarte!—acudiu o Conselheiro, quasi severamente—referia-me a outras tentações: entrar, por exemplo, n'uma loja de bebidas, appetecer-lhe ir ao Circo e desleixar os seus deveres...

Mas D. Felicidade não podia soffrer a Juliana: achava-lhe cara de Judas, tinha ar de ser capaz de tudo...

Luiza defendeu-a: era muito serviçal, muito boa engommadeira, muito honesta...

—E anda-te pela rua até ás onze da noite!... Credo! Fosse commigo!

—E creio—observou o Conselheiro—que tem uma doença mortal. Não é verdade, snr. Zuzarte?

—Mortal. Um aneurisma—respondeu Julião, sem levantar os olhos do Dante.

—Ainda para mais!—exclamou D. Felicidade. E abaixando a voz:—Tu o que deves fazer é descartar-te d'ella! Uma criada com uma doença d'essas! Que até lhe póde arrebentar a vir dar um copo d'agua á gente. Cruzes!

O Conselheiro apoiava:

—E ás vezes, que embaraços com a authoridade!

Julião fechou o Dante, e disse:

—Eu tem-me esquecido d'avisar o Jorge; mas um dia a creatura cahe-lhes redonda no chão.—E sorveu um gole de chá.

Luiza estava afflicta. Parecia-lhe que uma nova complicação se formava para a torturar... Pôz-se a dizer que era tão difficil arranjar criadas...

Lá isso era, concordaram.

Fallaram de criados, das suas exigencias. Estavam cada vez mais atrevidos! E em se lhes dando confiança! E que immoralidade!...

—Muitas vezes é culpa das amas—disse D. Felicidade.—Fazem das criadas confidentes, e isto, em ellas apanhando um segredo, tornam-se as donas da casa...

As mãos tremulas de Luiza faziam-lhe tilintar a chavena. Disse, com uma voz affectadamente risonha:

—E o Conselheiro, que tal de criados?

Accacio tossiu:

—Bem. Tenho uma pessoa respeitavel, com bom paladar, muito escrupulosa em contas...

—E que não é feia—acudiu Julião.—Assim me pareceu uma vez que fui á rua do Ferregial...

Uma vermelhidão espalhára-se pela calva do Conselheiro. D. Felicidade fitava-o anciosamente, com a pupilla chammejante. Accacio, então, disse com severidade:

—Nunca reparo para a physionomia dos subalternos, snr. Zuzarte.

Julião ergueu-se e enterrando as mãos nos bolsos, jovialmente:

—Foi um grande erro abolir a escravatura!...

—E o principio da liberdade?—acudiu logo o Conselheiro—E o principio da liberdade? Que os pretos eram grandes cozinheiros, concordo... Mas a liberdade é um bem maior.

Alargou-se então em considerações; fulminou os horrores do trafico, lançou suspeitas sobre a philantropia dos inglezes, foi severo com os plantadores da Nova-Orleans, contou o caso da Charles et Georges: dirigia-se exclusivamente a Julião, que fumava, cabisbaixo.

D. Felicidade fôra-se sentar ao pé de Luiza, e muito inquieta, fallando-lhe ao ouvido:

—Tu conheces a criada do Conselheiro?

—Não.

Será bonita?

Luiza encolheu os hombros.

—Não sei que me diz o coração, Luiza! Estou a abafar!

E em quanto Accacio, de pé, perorava para Julião, D. Felicidade ia murmurando a Luiza as queixas da sua paixão.

Que allivio para Luiza quando elles sahiram! O que ella soffrera, lá por dentro, toda aquella noite! Que massadores, que idiotas!—E a outra sem vir! Oh que vida a sua!

Foi á cozinha dizer a Joanna:

—Espere pela Juliana, tenha paciencia. Que ella não póde tardar; aquillo a mulher achou-se peor!

Mas já passava de meia noite, já Luiza estava deitada, quando a campainha tocou de leve; depois mais forte; emfim, com impaciencia.

A rapariga adormeceu, pensou Luiza. Saltou da cama, subiu descalça á cozinha. Joanna, estirada para cima da mesa, resonava ao pé do candieiro de petroleo, que fumegava fetidamente. Sacudiu-a, fêl-a pôr de pé, estremunhada; voltou, correndo, deitar-se; e sentiu d'ahi a pouco, no corredor, a voz de Juliana dizer com satisfação:

—Já está tudo acommodado, hein? Pois eu estive no theatro. Muito bonito! Do melhor, snr.a Joanna, do melhor!

Luiza adormeceu tarde, e durante toda a noite um sonho inquieto agitou-a.—Estava n'um theatro immenso, dourado como uma igreja. Era uma gala: joias faiscavam sobre seios mimosos, condecorações reluziam sobre fardas palacianas. Na tribuna, um rei triste e moço, immovel n'uma attitude rigida e hieratica, sustentava na mão a esphera armillar, e o seu manto de velludo escuro, constellado de pedrarias como um firmamento, espalhava-se em redor em pregas d'esculptura, fazendo tropeçar a multidão dos cortezãos vestidos como valetes de paus.

Ella estava no palco; era actriz; debutava no drama d'Ernestinho: e toda nervosa via diante de si na vasta platéa susurrante, fileiras de olhos negros e accesos, cravados n'ella com furor: no meio a calva do Conselheiro, d'uma redondeza nevada e nobre, sobresahia, rodeada como uma flôr d'um vôo amoroso d'abelhas. No palco oscillava a vasta decoração d'uma floresta; ella notava sobretudo, á esquerda, um carvalho secular, d'uma arrogancia heroica—cujo tronco tinha a vaga configuração d'uma physionomia, e se parecia com Sebastião.

Mas o contra-regra bateu as palmas: era esguio, parecia-se com D. Quixote, trazia oculos redondos com aros de lata, brandia o Jornal do Commercio torcido em saca-rolhas, e gania: salta a scenasinha de amor! salta-me essa maravilha! Então a orchestra, onde os olhos dos musicos reluziam como granadas e as suas cabelleiras se erriçavam como montões d'estopa, tocou com uma lentidão melancolica o fado de Leopoldina; e uma voz aspera e canalha cantava em falsete:


Vejo-o nas nuvens da tarde,
Nas ondas do mar sem fim,
E por mais longe que esteja
Sinto-o sempre ao pé de mim.


Luiza achava-se nos braços de Bazilio que a enlaçavam, a queimavam: toda desfallecida, sentia-se perder, fundir-se n'um elemento quente como o sol e dôce como o mel: gozava prodigiosamente: mas, por entre os seus soluços, sentia-se envergonhada, porque Bazilio repetia no palco, sem pudor, os delirios libertinos do Paraiso! Como consentia ella?

O theatro n'uma acclamação immensa bradava: Bravo! Bis! bis! Lenços aos milhares esvoaçavam como borboletas brancas n'um campo de trevo: os braços nús das mulheres lançavam com um gesto ondeado ramos de violetas dobradas: o rei erguera-se espectralmente, e, triste, arremessou como um bouquet a sua esphera armillar: e o Conselheiro logo, n'um phrenesi, para seguir os exemplos de Sua Magestade, desaparafusando rapidamente a calva, atirou-lh'a, com um berro de dôr e de gloria! O contraregra gania:—Agradeçam! Agradeçam! Ella curvava-se, os seus cabellos de Magdalena rojavam pelo tablado: e Bazilio, a seu lado, seguia com olhos vivos os charutos que lhe atiravam, apanhando-os com a graça d'um toureiro e a destreza d'um clown!

Subitamente, porém, todo o theatro teve um ah! d'espanto. Fez-se um silencio ancioso e tragico; e todos os olhos, milhares d'olhos attonitos se fitavam no pano de fundo, onde um caramanchão arqueava a sua estructura toda estrellada de rosinhas brancas. Ella voltou-se tambem como magnetisada, e viu Jorge, Jorge que se adiantava, vestido de luto, de luvas pretas, com um punhal na mão; e a lamina reluzia—menos que os olhos d'elle! Aproximou-se da rampa e curvando-se, disse com uma voz graciosa:

—Real magestade, senhor infante, snr. governador civil, minhas senhoras, e meus senhores—agora é commigo! Reparem n'este trabalhinho!

Caminhou então para ella com passos marmoreos que faziam oscillar o tablado; agarrou-lhe os cabellos, como um mólho d'herva que se quer arrancar; curvou-lhe a cabeça para traz; ergueu d'um modo classico o punhal; fez a pontaria ao seio esquerdo: e balançando o corpo, piscando o olho, cravou-lhe o ferro!

—Muito bonito!—disse uma voz—Rico trabalho!

Era Bazilio que fizera entrar nobremente na platéa o seu phaeton! Direito na almofada, com o chapéo ao lado, uma rosa na sobrecasaca, continha com a mão negligente a inquietação soberba dos seus cavallos inglezes; e ao seu lado, sentado como um trintanario coberto das suas vestes sacerdotaes, vinha o patriarcha de Jerusalém!—Mas Jorge arrancára o punhal todo escarlate; as gotas de sangue corriam até á ponta, coalhavam; cahiam depois com um som crystallino, punham-se a rolar pelo tablado como continhas de vidro vermelho. Ella deitára-se, expirante, sob o carvalho que se parecia com Sebastião: então, como a terra era dura, a arvore estendeu por baixo d'ella as suas raizes, macias como coxins de pennas; como o sol a mordia, a arvore desdobrou sobre ella as suas ramagens, como os panos d'uma tenda: e das folhas deixava-lhe escorrer sobre os labios gotas de vinho da Madeira! Ella via no entanto com terror o seu sangue sahir da ferida, vermelho e forte, correr, alastrar-se, fazendo poças aqui, ribeirinhos tortuosos além. E ouvia a platéa berrar:

—O author! Fóra o author!

Ernestinho, muito frisado, pallido, appareceu; agradecia soluçando; e, ás cortezias, saltava aqui, acolá—para não sujar no sangue da prima Luiza os seus sapatinhos de verniz...

Sentiu que ia morrer! Uma voz disse vagamente:—Ólá, como vai isso?—Parecia-lhe de Jorge. D'onde vinha? Do céo? da platéa? do corredor? Um ruido forte, como d'uma mala que se deixa cahir, acordou-a. Sentou-se na cama.

—Bem, deixe ahi—disse a voz de Jorge.

Saltou em camisa. Elle entrava. E ficaram enlaçados, n'um longo abraço, os beiços collados, sem uma palavra. O relogio do quarto dava sete horas.



X



N'esse dia pela uma hora Jorge e Luiza acabavam d'almoçar, como na vespera da partida d'elle. Mas agora não pesava a faiscante inclemencia da calma, as janellas estavam abertas ao sol amavel d'outubro; já passavam no ar certas frescuras outonaes; havia uma pallidez meiga na luz; á tardinha já «sabiam bem» os paletots; e tons amarellados começavam a envelhecer as verduras.

—Que bom achar-se a gente outra vez no seu ninho!—disse Jorge, estirando-se na voltaire.

Estivera contando a Luiza a sua viagem. Tinha trabalhado como um mouro, e tinha ganho dinheiro! Trazia os elementos d'um bello relatorio; creára amigos n'aquella boa gente do Alemtejo; estavam acabadas as soalheiras, as cavalgadas pelos montados, os quartos d'hospedaria; e alli estava emfim na sua casinha. E como na vespera da sua partida, soprava o fumo do cigarro, cofiando com delicias o bigode,—porque tinha cortado a barba! Fôra a grande admiração de Luiza, quando o viu. Elle explicára, com humilhação e melancolia, que tivera um furunculo no queixo, com o calor...

—Mas que bem te fica!—tinha ella dito—que bem que te fica!

Jorge trouxera-lhe como presente seis pratos de louça da China, muito antigos, com mandarins bojudos, de tunicas esmaltadas, suspensos magestosamente no ar azulado; uma preciosidade que descobrira em casa d'umas velhas miguelistas, em Mertola. Luiza dispunha-os muito decorativamente nas prateleiras do guarda-louça: e em bicos de pés, com a larga cauda do seu roupão estendida por traz, a massa loura do cabello pesado, um pouco desmanchado sobre as costas—parecia a Jorge mais esbelta, mais irresistivel, e nunca a sua cinta fina lhe attrahira tanto os braços.

—A ultima vez que aqui almocei, antes de partir, foi um domingo, lembras-te?

—Lembro—disse Luiza sem se voltar, collocando muito delicadamente um prato.

—E é verdade—perguntou Jorge de repente—teu primo? Vistel-o? Veio vêr-te?

O prato escorregou, houve um tlin-tlin de copos.

—Sim, veio—disse Luiza, depois d'um silencio—esteve ahi umas poucas de vezes. Demorou-se pouco...

Abaixou-se, abriu o gavetão do guarda-louça, esteve a remexer nas colheres de prata: ergueu-se, emfim, voltou-se com um sorriso, vermelha, sacudindo as mãos:

—Prompto!

E foi sentar-se nos joelhos de Jorge.

—Como te fica bem!—dizia, torcendo-lhe o bigode. Admirava-o, d'um modo ardente. Quando se atirára aos seus braços n'aquella madrugada, sentira como abrir-se-lhe o coração, e um amor repentino revolver-lh'o deliciosamente; viera-lhe um desejo de o adorar perpetuamente, de o servir, de o apertar nos braços até lhe fazer mal, de lhe obedecer com humildade; era uma sensação multipla, de uma doçura infinita, que a traspassára até ás profundidades do seu sêr. E passando-lhe um braço pelo pescoço, murmurava com um movimento d'uma adulação quasi lasciva:

—Estás contente? Sentes-te bom? Dize!

Nunca lhe parecera tão bonito, tão bom; a sua pessoa depois d'aquella separação dava-lhe as admirações, os enlevos d'uma paixão nova.

—É o snr. Sebastião—veio dizer Juliana toda risonha para Jorge.

Jorge deu um pulo, afastou Luiza bruscamente, atirou-se pelo corredor gritando:

—Aos meus braços! aos meus braços, scelerado!



D'ahi a dias, uma manhã que Jorge sahira para o ministerio, Juliana entrou no quarto de Luiza, e fechando a porta devagarinho, com uma voz muito amavel:

—Eu desejava fallar á senhora n'uma cousa.

E começou a dizer,—que o seu quarto em cima no sotão era peor que uma enxovia; que não podia lá continuar; o calor, o mau cheiro, os persevejos, a falta d'ar, e no inverno a humidade, matavam-na! Emfim, desejava mudar p'ra baixo, p'ra o quarto dos bahus.

O quarto dos bahus tinha uma janella nas trazeiras; era alto e espaçoso; guardavam-se alli os oleados de Jorge, as suas malas, os paletots velhos, e veneraveis bahus do tempo da avó, de couro vermelho com pregos amarellos.

—Ficava alli como no céo, minha senhora!

E... aonde se haviam de pôr os bahus?

—No meu quarto, em cima.—E com um risinho:—Os bahus não são gente, não soffrem...

Luiza disse um pouco embaraçada:

—Bem, eu verei, eu fallarei ao snr. Jorge.

—Conto com a senhora.

Mas apenas n'essa tarde Luiza explicou a Jorge «a ambição da pobre de Christo», elle deu um salto:

—O quê? Mudar os bahus? Está douda!

Luiza então insistiu: era o sonho da pobre creatura desde que viera para a casa! Enterneceu-o. Não, elle não imaginava, ninguem imaginava o que era o quarto da pobre mulher! O cheiro empestava, os ratos passeavam-lhe pelo corpo, o forro estava roto, chovia dentro; fôra lá ha dias, e ia tombando para o lado...

—Santo Deus! Mas isso é o que minha avó contava das enxovias d'Almeida! Muda-a, muda-a depressa, filha!... Porei os meus ricos bahus no sotão.

Quando Juliana soube o favor:

—Ai, minha senhora, é a vida que me dá! Deus lh'o pague! Que eu não tinha saude para viver n'um cacifro d'aquelles.

Ultimamente queixava-se mais: andava amarella, trazia os beiços um pouco arroxeados; tinha dias d'uma tristeza negra, ou d'uma irritabilidade morbida: os pés nunca lhe aqueciam. Ah! Precisava muitos cuidados, muitos cuidados!...

Foi por isso que d'ahi a dous dias veio pedir a Luiza, «se fazia o favor d'ir ao quarto dos bahus». E lá, mostrando-lhe o soalho velho e carunchoso:

—Isto não póde ficar assim, minha senhora, isto precisa uma esteira senão, não vale a pena mudar. Eu se tivesse dinheiro não importunava a senhora, mas...

—Bem, bem, eu arranjarei—disse Luiza com uma voz paciente.

E pagou a esteira, sem dizer nada a Jorge. Mas na manhã em que os esteireiros a pregavam Jorge veio perguntar attonito a Luiza o que era aquillo, «rolos d'esteira no corredor»?

Ella pôz-se a rir, pousou-lhe as mãos sobre os hombros:

—Foi a pobre Juliana que pediu como uma esmola a esteira, que o soalho estava podre. Até a queria pagar, e que eu lh'a descontasse nas soldadas. Ora por uma ridicularia...—E com um gesto compassivo:—Tambem são creaturas de Deus, não são escravas, filho!

—Magnifico! E que não tardem os espelhos e os bronzes! Mas que mudança foi essa, tu que a não podias vêr?

—Coitada!—fez Luiza—reconheci que era boa mulher. E como estive tão só, dei-me mais com ella. Não tinha com quem fallar, fez-me muita companhia. Até quando estive doente...

—Estiveste doente?—exclamou Jorge espantado.

—Oh! tres dias, só—acudiu ella—uma constipação. Pois olha que dia e noite não se tirou d'ao pé de mim.

Luiza ficou logo com receio que Jorge fallasse na doença, e Juliana desprevenida negasse; por isso, n'essa tarde, ao escurecer, chamou-a ao quarto:

—Eu disse ao snr. Jorge que vossê me tinha feito muito boa companhia n'uma doença...—E o seu rosto abrazava-se de vergonha.

Juliana logo, risonha, contente da cumplicidade:

—Fico entendida, minha senhora! Póde estar socegada!

Com effeito Jorge, ao outro dia, depois do café, voltou-se para Juliana, e com bondade:

—Parece que vossê fez boa companhia á snr.a D. Luiza.

—Fiz o meu dever—exclamou, curvando-se com a mão no peito.

—Bem, bem—fez Jorge, remexendo no bolso. E ao sahir da sala meteu-lhe na mão meia libra.

—Palerma!—rosnou ella.

Foi n'essa semana que começou a queixar-se a Luiza, «que a roupa e os vestidos, na arca, se lhe amarfanhavam...» Estava-se-lhe a estragar tudo! Se ella tivesse dinheiro, não vinha com aquelles pedidos á senhora, mas... Emfim uma manhã declarou terminantemente que precisava uma commoda.

Luiza sentiu uma raiva accender-lhe o sangue, e sem levantar os olhos do bordado:

—Uma meia commoda?

—Se a senhora quer fazer o favor, então uma commoda inteira...

—Mas vossê tem pouca roupa—disse Luiza. Começava a installar-se na humilhação e já regateava as condescendencias.

—Tenho, sim, minha senhora—replicou Juliana—mas vou agora completar-me!

A commoda foi comprada em segredo, e introduzida occultamente. Que dia de felicidade para Juliana! Não se fartava de lhe saborear o cheiro da madeira nova! Passava a mão, com a tremura d'uma caricia, sobre o polimento luzidio!... Forrou-lhe as gavetas de papel de sêda, e começou a completar-se!



Foram semanas d'amargura para Luiza.

Juliana entrava no quarto todas as manhãs, muito comprimenteira, começava a arrumar, e de repente com uma voz lamentosa:

—Ai! estou tão falta de camisas! se a senhora me podesse ajudar...

Luiza ia ás suas gavetas cheias, cheirosas, e começava melancolicamente a pôr á parte as peças mais usadas. Adorava a sua roupa branca: tinha tudo ás duzias, com lindas marcas, sachets para perfumar; e aquellas dadivas dilaceravam-n'a como mutilações! Juliana por fim já pedia com seccura, com direito:

—Que bonita que é esta camisinha!—dizia simplesmente.—A senhora não a quer; não?

—Leve, leve!—dizia Luiza sorrindo, por orgulho, para não se mostrar violentada.

E todas as noites Juliana fechada no seu quarto, encruzada na esteira, inchada d'alegria, com o candieiro sobre uma cadeira, desmarcava roupa, desfazendo as duas letras de Luiza, marcando regaladamente as suas, a linha vermelha, enormes—J. C. T.,—Juliana Couceiro Tavira!

Mas emfim cessou, porque, como ella dizia, «de roupa branca estava como um ovo».

—Agora, se a senhora me quizer ajudar com alguma cousa para sahir...

E Luiza começou a vestil-a.

Deu-lhe um vestido roxo de sêda, um casaco de casimira preta, com bordados a soutache. E receando que Jorge estranhasse as generosidades, transformava-as para elle as não reconhecer: mandou tingir de castanho o vestido, ella mesmo por sua mão pôz uma guarnição de velludo no casaco. Trabalhava para ella, agora!—Como acabaria tudo aquillo, Santo Deus?

Todavia Jorge um domingo disse ao jantar, rindo:

—Esta Juliana anda uma janota! Prospera a olhos vistos.

D. Felicidade, á noite, tambem notou:

—Que chic! Nem uma criada do paço!

—Coitada! cousas que ella aproveita...

Prosperava, com effeito! Não punha na cama senão lençoes de linho. Reclamára colxões novos, um tapete para os pés da cama, felpudo! Os sachets que perfumavam a roupa de Luiza iam passando para a dobra das suas calcinhas. Tinha cortinas de cassa na janella, apanhadas com velhas fitas de sêda azul; e sobre a commoda dous vasos da Vista Alegre dourados! Emfim um dia santo, em lugar da cuia de retroz, appareceu com um chignon de cabello!

Joanna pasmava d'aquellas tafularias. Attribuia-as á bondade da senhora, e resentia-se de ser «esquecida». Um dia mesmo, que Juliana estreára uma sombrinha, disse diante de Luiza, com uma voz de despeito:

—Para umas tudo, para outras nada!...

Luiza riu, acudiu:

—Tolices! Eu sou a mesma p'ra todas.

Mas reflectiu: Joanna podia ter desconfianças tambem, ter ouvido alguma cousa a Juliana... E logo ao outro dia, para a conservar contente e amiga, deu-lhe dous lenços de sêda, depois dous mil reis para um vestido; e d'ahi por diante nunca lhe recusou licença para sahir á noitinha a casa d'uma tia...

A Joanna ia por toda a parte fallando da «senhora, que era um anjo». Na rua, de resto, tinha-se notado o luxo de Juliana. Sabia-se do «quarto novo», dizia-se baixo que tinha alcatifa! O Paula decidira, com indignação, «que alli positivamente havia marosca». Mas Juliana uma tarde, diante do Paula e da estanqueira, explicou, acalmou as suspeitas.

—Ora! dizem que tenho isto e aquillo. Não é tanto! Tenho as minhas commodidades. Mas tambem a maneira como eu lhes tratei a tia, de dia e de noite, sem arredar pé... Por mais que façam não me pagam, que arruinei a minha saude!

Assim se justificou a prosperidade de Juliana. Era a familia agradecida, dizia-se; tratavam-na como parenta!

E, pouco a pouco, a casa do «Engenheiro» teve para os criados da visinhança a vaga seducção d'um paraiso: dizia-se que as soldadas eram enormes, havia vinho á discrição, recebiam-se presentes todas as semanas, ceava-se todas as noites caldo do gallinha! Cada um invejava aquella «pechincha». Pela inculcadeira, a fama da «casa do Engenheiro» alargou-se. Creou-se uma legenda.

Jorge, attonito, recebia todos os dias cartas de pessoas offerecendo-se para criados de quarto, criadas de dentro, cozinheiros, escudeiros, governantas, cocheiros, guarda-portões, ajudantes de cozinha... Citavam as casas titulares de que tinham sahido; pediam audiencia; suspeitando certas cousas uma bonita criada de quarto juntou a sua photographia; um cozinheiro trouxe uma carta d'empenho do director geral do ministerio.

—Estranho caso!—dizia Jorge, pasmado—disputam-se a honra de me servir! Imaginarão que me sahiu a sorte grande?

Mas não dava muita attenção áquella singularidade. Vivia então muito occupado: andava escrevendo o seu relatorio; e todos os dias sahia ao meio dia, voltava ás seis, com rolos de papeis, mappas, brochuras, fatigado, berrando pelo jantar, radiante.

Contou o caso, todavia, rindo, um domingo á noite. O Conselheiro observou logo:

—Com o bom genio da D. Luiza, com o seu, Jorge, n'este bairro saudavel, n'uma casa sem escandalos, sem questões de familia, toda virtude, é natural que a criadagem menos favorecida aspire a uma posição tão agradavel.

—Somos os amos ideaes!—disse Jorge, batendo muito alegre no hombro de Luiza.

A casa, com effeito, tornava-se «agradavel». Juliana exigira que o jantar fosse mais largo (para ter uma parte sua, sem sobejos), e como era boa cozinheira vigiava os fogões, provava, ensinava pratos á Joanna.

—Esta Joanna é uma revelação—dizia Jorge—vê-se-lhe crescer o talento!...

Juliana, bem alojada, bem alimentada, com roupa fina sobre a pelle, colxões macios, saboreava a vida: o seu temperamento adoçára-se n'aquellas abundancias; depois, bem aconselhada pela tia Victoria, fazia o seu serviço com um zelo minucioso e habil. Os vestidos de Luiza andavam cuidados como reliquias. Nunca os peitilhos de Jorge tinham resplandecido tanto! O sol d'outubro alegrava a casa, muito aceada, d'uma pacatez d'abbadia. Até o gato engordava.



E no meio d'aquella prosperidade—Luiza definhava-se. Até onde iria a tyrannia de Juliana? era agora o seu terror. E como a odiava! Seguia-a por vezes com um olhar tão intensamente rancoroso, que receava que ella se voltasse subitamente, como ferida pelas costas. E via-a satisfeita, cantarolando a Carta adorada, dormindo em colxões tão bons como os seus, pavoneando-se na sua roupa, reinando na sua casa! Era justo, justos céos?

Ás vezes vinha-lhe uma revolta, torcia os braços, blasphemava, debatia-se na sua desgraça, como nas malhas d'uma rêde; mas, não encontrando nenhuma solução, recahia n'uma melancolia aspera—em que o seu genio se pervertia. Seguia com satisfação a amarellidão crescente das feições de Juliana; tinha esperanças no aneurisma: não rebentaria um dia, o demonio?

E diante de Jorge tinha de a elogiar!

A vida pesava-lhe. Apenas elle pela manhã sahia e fechava a cancella, logo as suas tristezas, os seus receios lhe desciam sobre a alma, devagar, como grandes véos espessos que se abatem lugubremente; não se vestia então até ás quatro, cinco horas, e com o roupão solto, em chinellas, despenteada, arrastava o seu aborrecimento pelo quarto. Vinham-lhe, por momentos, de repente, desejos de fugir, ir metter-se n'um convento! A sua sensibilidade muito exaltada impellil-a-hia de certo a alguma resolução melodramatica,—se a não retivesse, com a força d'uma seducção permanente, o seu amor por Jorge. Porque o amava agora, immensamente! Amava-o com cuidados de mãi, com impetos de concubina... Tinha ciumes de tudo, até do ministerio, até do relatorio! Ia interrompêl-o a cada momento, tirar-lhe a penna da mão, reclamar o seu olhar, a sua voz; e os passos d'elle no corredor davam-lhe o alvoroço dos amores illegitimos...

De resto ella mesma se esforçava por desenvolver aquella paixão, achando n'ella a compensação ineffavel das suas humilhações. Como lhe viera aquillo? Porque sempre o amára, de certo, reconhecia-o agora,—mas não tanto, não tão exclusivamente! Nem ella sabia. Envergonhava-se mesmo, sentindo vagamente n'aquella violencia amorosa pouca dignidade conjugal: suspeitava que o que tinha era apenas um capricho. Um capricho por seu marido! Não lhe parecia rigorosamente casto... Que lhe importava, de resto? Aquillo fazia-a feliz, prodigiosamente. Fosse o que fosse era delicioso!

Ao principio a idéa do outro pairava constantemente sobre este amor, pondo um gosto infeliz em cada beijo, um remorso em cada noite. Mas pouco a pouco esquecêra-o tanto, o outro—que a sua recordação, quando por acaso voltava, não dava mais amargor á nova paixão, que um torrão de sal póde dar ás aguas d'uma torrente. Que feliz que seria—se não fosse a infame!



Era a infame que se sentia feliz! Ás vezes só no seu quarto, punha-se a olhar em redor com um riso d'avaro: desdobrava, batia os vestidos de sêda: punha as botinas em fileira, contemplando-as de longe, extatica; e debruçada sobre as gavetas abertas da commoda contava, recontava a roupa branca, acariciando-a com o olhar de posse satisfeita. Como a da Piorrinha!—murmurava, afogada em jubilo.

—Ai! estou muito bem!—dizia ella á tia Victoria.

—Que duvida que estás! A carta não te rendeu um conto de reis, mas olha que te trouxe um par de regalos. E é que ha-de ser uma pingadeira: ha-de ser a boa peça de linho, o bom adereço, boas moedas... E ainda muito obrigada por cima. Carda-a, filha, carda-a!

Mas já havia pouco que cardar. E lentamente Juliana começou a pensar, que agora o que devia era gozar. Se tinha bons colxões—para que se havia de levantar cêdo? Se tinha bons vestidos—porque não havia d'ir espairecer para a rua? Toca a tirar partido!

Uma manhã que estava mais frio deixou-se ficar na cama até ás nove horas, com as janellas entreabertas, um bom raio de sol na esteira. Depois explicou seccamente, que tinha estado com a dôr. D'ahi a dous dias Joanna, ás dez horas, veio dizer baixo a Luiza:

—A snr.a Juliana ainda está na cama, está tudo por arrumar.

Luiza ficou aterrada. O quê? Teria de soffrer os seus desmazelos, como soffrera as suas exigencias?

Foi ao quarto d'ella:

—Então vossê levanta-se a estas horas?

—Foi o que me recommendou o medico—replicou muito insolente.

E d'ahi por diante Juliana poucas vezes se erguia antes da hora de servir ao almoço. Luiza pediu logo a Joanna que fizesse «o serviço por ella»: era por pouco tempo, a pobre creatura andava tão adoentada! E para acommodar a cozinheira deu-lhe meia moeda, para a ajuda d'um vestido.

Juliana depois, sem pedir licença, começou a sahir. Quando voltava tarde, para o jantar, não se desculpava!

Um dia Luiza não se conteve, disse-lhe, vendo-a passar no corredor a calçar as luvas pretas:

—Vossê vai sahir?

Ella respondeu, muito atrevidamente:

—É como vê. Fica tudo arrumado, tudo o que é minha obrigação.—E abalou, batendo os tacões.

Ora, não lhe faltava mais senão estar a constranger-se por causa da Piorrinha!

Joanna começava a resmungar: «passa a sua vida na rua a snr.a Juliana, e eu é que aguento...»

—Se vossê estivesse doente, tambem ninguem lhe ia á mão—acudia Luiza, afflicta, quando percebia estas revoltas. E presenteava-a. Dava-lhe mesmo vinho e sobremesa.

Havia agora um desperdicio na casa. Os roes cresciam. Luiza andava succumbida.—Como acabaria tudo aquillo?

Os desleixos de Juliana iam-se tornando graves.

Para sahir mais cedo fazia apenas o «essencial». Era Luiza que acabava d'encher os jarros, que levantava muitas vezes a mesa do almoço, que levava para o sotão roupa suja que ficava pelos cantos...

Um dia Jorge que entrára ás quatro horas, viu por acaso a cama por fazer. Luiza apressou-se a dizer que «Juliana sahira, mandára-a ella á modista».

D'ahi a dias, eram seis horas, ainda não tinha voltado para servir ao jantar. «Tinha ido á modista...» explicou Luiza.

—Mas se a Juliana é unicamente para ir á modista, então toma-se outra criada para fazer o serviço da casa—disse elle.

Áquellas palavras seccas Luiza fez-se pallida, duas lagrimas rolaram-lhe pela face.

Jorge ficou pasmado. Que era? Que tinha? Luiza não se dominou, rompeu n'um choro nervoso, hysterico.

—Mas que é, minha filha, que tens? Zangaste-te?...

Ella não podia responder, suffocada. Jorge fez-lhe respirar vinagre de toillette, beijou-a muito.

Só quando o choro acalmou é que ella pôde dizer, com uma voz soluçada:

—Fallaste-me tão seccamente, e eu estou tão nervosa...

Elle riu, chamou-lhe tontinha, limpou-lhe as lagrimas—mas ficou inquieto.

Já então lhe notára certas tristezas, abatimentos inexplicaveis, uma irritabilidade nervosa... Que seria?

Para que Jorge não tornasse a surprehender os desleixos, Luiza começou a completar todas as manhãs os arranjos. Juliana percebeu logo; e muito tranquillamente decidiu-se a «deixar-lhe de cada vez mais com que se entreter». Ora não varria, depois não fazia a cama; emfim uma manhã não vasou as aguas sujas. Luiza foi espreitar no corredor que Joanna não descesse, não a visse, e fez ella mesma os despejos! Quando veio ensaboar as mãos, as lagrimas corriam-lhe pelo rosto. Desejava morrer!... A que tinha chegado!...

D. Felicidade, um dia, tendo entrado de repente, surprehendera-a a varrer a sala.

—Que eu o faça—exclamou—que tenho só uma criada, mas tu!...

A Juliana tinha tanto que engommar...

—Ai! não lhe tires serviço do corpo, que não t'o agradece. E ainda se ri por cima! Se a pões em maus costumes!... Que aguente, que aguente!

Luiza sorriu, disse:

—Ora, por uma vez na vida!



A sua tristeza augmentava cada dia.

Refugiava-se então no amor de Jorge como na sua unica consolação. A noite trazia-lhe a sua desforra: Juliana a essa hora dormia; não via a sua cara medonha; não a receava; não tinha de a elogiar; não trabalhava por ella! Era ella mesma, era Luiza, como d'antes! Estava na sua alcova com o seu marido, fechada por dentro, livre! Podia viver, rir, conversar, ter até appetite! E trazia com effeito ás vezes marmelada e pão para o quarto—para fazer uma cêasinha!

Jorge estranhava-a. «Tu de noite és outra», dizia. Chamava-lhe ave nocturna. Ella ria em saia branca pelo quarto, com os braços nús, o collo nú, o cabello n'um rolo; e passarinhava, cantarolava, chalrava—até que Jorge lhe dizia:

—Passa da uma hora, filha!

Despia-se então rapidamente, cahia-lhe nos braços.

Mas que acordar! Por mais clara que estivesse a manhã, tudo lhe parecia vagamente pardo. A vida sabia-lhe mal. Vestia-se devagar, com repugnancia—entrando no seu dia como n'uma prisão.

Perdêra agora toda a esperança de se libertar! Ás vezes ainda lhe vinha, como um relampago, a vontade «de contar tudo a Sebastião, tudo». Mas quando o via, com o seu olhar honesto, abraçar Jorge, rirem ambos, e irem fumar o seu cachimbo, e elle tão cheio sempre d'admiração por ella, parecia-lhe mais facil sahir p'ra a rua, pedir dinheiro ao primeiro homem que encontrasse—que ir a Sebastião, ao intimo de Jorge, ao melhor amigo da casa, dizer-lhe: escrevi uma carta a um homem, a criada roubou-m'a! Não, antes morrer n'aquella agonia de todos os dias, e ter ella mesma, de rastos, de lavar as escadas! Ás vezes reflectia, pensava:—Mas com que conto eu?—Não sabia. Com o acaso, com a morte de Juliana... E deixava-se viver, gozando como um favor cada dia que vinha, sentindo vagamente, a distancia, alguma cousa de indefinido e de tenebroso onde se afundaria!

Por esse tempo Jorge começou a queixar-se que as suas camisas andavam mal engommadas. A Juliana positivamente «perdia a mão». Um dia mesmo zangou-se: chamou-a, e atirando-lhe uma camisa toda amarrotada:

—Isto não se póde vestir, está indecente!

Juliana fez-se amarella, cravou em Luiza um olhar chammejante; mas, com os beiços tremulos, desculpou-se: «a gomma era má, fôra já trocal-a», etc.

Apenas, porém, Jorge sahiu, veio com uma rajada ao quarto, fechou a porta e poz-se a gritar—que a senhora sujava um rôr de roupa, o senhor um rôr de camisas, que se não tivesse alguem que a ajudasse não podia dar aviamento!... Quem queria negras trazia-as do Brazil!

—E não estou para aturar o genio de seu marido, percebe a senhora? Se quer é arranjar quem me ajude.

Luiza disse simplesmente:

—Eu a ajudarei.

Tinha agora uma resignação muda, sombria, aceitava tudo!

Logo no fim da semana houve uma grande trouxa de roupa: e Juliana veio dizer—que se a senhora passasse, ella engommava. Senão, não!

Estava um dia adoravel, Luiza tencionava sahir... Pôz um roupão, e, sem uma palavra, foi buscar o ferro.

Joanna ficou attonita.

—Então a senhora vai engommar?

—Ha uma carga, e a Juliana só não póde aviar tudo, coitada!

Installou-se no quarto dos engommados,—e estava laboriosamente passando a roupa branca de Jorge, quando Juliana appareceu, de chapéo.

—Vossê vai sahir?—exclamou Luiza.

—É o que eu vinha dizer á senhora. Não posso deixar de sahir.—E abotoava as luvas pretas.

—Mas as camisas, quem as engomma?

—Eu vou sahir—disse a outra seccamente.

—Mas, com os diabos, quem engomma as camisas?

—Engomme-as a senhora! Olha a sarna!

—Infame!—gritou Luiza. Atirou o ferro para o chão, sahiu impetuosamente.

Juliana sentiu-a ir pelo corredor aos soluços. Pôz-se logo a tirar o chapéo e as luvas, assustada. D'ahi a um momento ouviu a cancella da rua bater com força. Veio ao quarto, viu o roupão de Luiza arremessado, a chapelleira tombada. Onde teria ido? Queixar-se á policia? Procurar o marido? C'os diabos! Fôra estupida, com o genio! Arrumou depressa o quarto, foi-se pôr a engommar, com o ouvido á escuta, muito arrependida. Onde diabo teria ido? Devia ter cuidado! Se a impellisse a fazer algum desproposito, quem perdia? Ella, que teria de sahir da casa, deixar o seu quarto, os seus regalos, a sua posição! Safa!



Luiza sahira, como louca. Na rua da Escóla um coupé passava, vazio: atirou-se para dentro, deu ao cocheiro a morada de Leopoldina. Leopoldina devia ter voltado do Porto, queria vêl-a, precisava d'ella, sem saber para que... Para desabafar! Pedir-lhe uma idéa, um meio de se vingar! Porque a vontade de se libertar d'aquella tyrannia—era agora menor que o desejo de se vingar d'aquellas humilhações. Vinham-lhe idéas insensatas! Se a envenenasse! Parecia-lhe que sentiria um prazer delicioso em a vêr torcer-se com vomitos dilacerantes, uivando d'agonia, largando a alma!

Galgou as escadas de Leopoldina; a campainha ficou a retinir muito tempo do puxão da sua mão febril.

A Justina apenas a viu foi a gritar pelo corredor:

—É a snr.a D. Luiza, minha senhora, é a snr.a D. Luiza!

E Leopoldina despenteada, com um roupão escarlate de grande cauda, correu estendendo os braços:

—És tu! Que milagre é este? Eu levantei-me agora! Entra cá p'ra o quarto. Está tudo desarranjado, mas não importa. Mas que é isto, que é isto?

Abriu as janellas que estavam ainda cerradas. Havia um forte cheiro de vinagre de toilette; a Justina tirava á pressa uma bacia de latão, com agua ensaboada; toalhas sujas arrastavam; sobre uma jardineira tinham ficado da vespera os rolos de cabello, o collete, uma chavena com um fundo de chá cheio de pontas de cigarros. E Leopoldina corria o transparente, dizendo:

—Ora graças a Deus que honras esta casa, minha fidalga!...

Mas vendo o rosto perturbado de Luiza, os seus olhos vermelhos de lagrimas:

—Que é? Que tens tu? Que succedeu?

—Um horror, Leopoldina!—exclamou, apertando as mãos.

A outra foi fechar a porta, rapidamente.

—Então?

Mas Luiza chorava sem responder. Leopoldina olhava-a, petrificada.

—A Juliana apanhou-me umas cartas!—disse emfim por entre soluços.—Quer seiscentos mil reis! Estou perdida... Tem-me martyrisado... Quero que me digas, vê se te lembras... Estou como douda. Sou eu que faço tudo em casa... Morro, não posso!—E as lagrimas redobravam.

—E as tuas joias?

—Valem duzentos mil reis. E Jorge, que lhe havia eu de dizer?

Leopoldina ficou um momento calada, e olhando em roda de si, abrindo os braços:

—Tudo o que eu tenho, no prego, minha filha, dá vinte libras!...

Luiza murmurava, limpando os olhos:

—Que expiação esta, Santo Deus, que expiação!

—Que diz a carta?

—Horrores! Estava douda... É uma minha, duas d'elle.

—De teu primo?

Luiza disse «sim», com a cabeça, lentamente.

—E elle?

—Não sei! Está em França, nunca me respondeu.

—Pulha! Como t'as apanhou, a mulher?

Luiza contou rapidamente a historia do sarcophago, e do cofre.

—Mas tu tambem, Luiza, atirar uma carta d'essas! Oh mulher, isso é medonho!

E Leopoldina pôz-se a passear pelo quarto, arrastando a longa cauda do roupão escarlate: os seus grandes olhos negros, excitados, pareciam procurar um meio, um expediente... Murmurava:

—A questão é de dinheiro...

Luiza, prostrada no sophá, repetia:

—A questão é de dinheiro!

Então Leopoldina, parando bruscamente diante d'ella:

—Eu sei quem te dava o dinheiro!...

—Quem?

—Um homem.

Luiza ergueu-se, espantada:

—Quem?

—O Castro.

—O d'oculos?

—O d'oculos.

Luiza fez-se muito córada:

—Oh Leopoldina!—murmurou. E depois d'um silencio, rapidamente:

—Quem t'o disse?

—Sei-o eu. Disse-o elle ao Mendonça. Sabes que eram unha e carne. Que te dava tudo o que tu lhe pedisses! Disse-lh'o mais d'uma vez.

—Que horror!—exclamou Luiza subitamente indignada.—E tu propões-me semelhante cousa?—O seu olhar, sob as sobrancelhas franzidas, dardejava de colera. Ir com um homem por dinheiro!—Tirou o chapéo, violentamente, com as mãos tremulas, arremessou-o para a jardineira, e com passos rapidos pelo quarto:—Antes fugir, ir para um convento, ser criada, apanhar a lama das ruas!

—Não te exaltes, creatura! Quem te diz isso? Talvez o homem te emprestasse o dinheiro, desinteressadamente...

—Acreditas tu?

Leopoldina não respondeu: com a cabeça baixa,
fazia girar os anneis nos dedos.

—E quando fosse outra cousa?—exclamou de
repente—Era um conto de reis, eram dous, estavas
salva, estavas feliz!

Luiza sacudia os hombros, indignada d'aquellas
fazia girar os anneis nos dedos.

—E quando fosse outra cousa?—exclamou de repente—Era um conto de reis, eram dous, estavas salva, estavas feliz!

Luiza sacudia os hombros, indignada d'aquellas palavras—dos seus proprios pensamentos, talvez!

—É indecente! É horrivel!—dizia.

Ficaram caladas.

—Ah! fosse eu!...—disse Leopoldina.

—Que fazias?

—Escrevia ao Castro, que viesse e com dinheiro!

—Isso és tu!—exclamou Luiza, arrebatadamente.

Leopoldina fez-se escarlate sob a camada de pó d'arroz.

Mas Luiza atirou-lhe os braços ao pescoço:

—Perdôa-me, perdôa-me! estou douda, não sei o que digo!...

Começaram ambas a chorar, muito nervosas.

—Tu zangaste-te!—dizia Leopoldina cortada de soluços.—Mas é p'ra teu bem. É o que me parece melhor. Se eu podesse dava-te o dinheiro... Fazia tudo. Acredita!

E abrindo os braços, indicando o seu corpo com um impudor sublime:

—Seiscentos mil reis! Se eu valesse tanto dinheiro, tinhal-o ámanhã!

Nós de dedos bateram á porta.

—Quem é?

—Eu—disse uma voz rouca.

—É meu marido. O animal ainda hoje não despegou de casa... Não posso abrir. Logo.

Luiza limpava os olhos, á pressa, punha o chapéo.

—Quando voltas?—perguntou Leopoldina.

—Quando puder, senão escrevo-te.

—Bem. Eu vou pensar, vou esquadrinhar...

Luiza agarrou-lhe o braço:

—E d'isto, nem palavra.

—Douda!



Sahiu. Foi subindo devagar até ao largo de S. Roque. A porta da igreja da Misericordia estava aberta, com o seu largo reposteiro vermelho d'armas bordadas que o vento agitava brandamente. Veio-lhe um desejo d'entrar. Não sabia para quê; mas parecia-lhe que depois da excitação apaixonada em que vibrára, o fresco silencio da igreja a calmaria. E depois sentia-se tão infeliz que se lembrou de Deus! necessitava alguma cousa de superior, de forte a que se amparar. Foi-se ajoelhar ao pé d'um altar, persignou-se, rezou o Padre-Nosso, depois a Salve Rainha. Mas aquellas orações, que ella recitava em pequena, não a consolavam; sentia que eram sons inertes que não iam mais alto no caminho do céo que a sua mesma respiração; não as comprehendia bem, nem se applicavam ao seu caso: Deus por ellas, nunca poderia saber o que ella pedia, alli, prostrada na afflicção. Quereria fallar a Deus, abrir-se toda a elle: mas com que linguagem? Com as palavras triviaes, como se fallasse a Leopoldina? Iriam as suas confidencias tão longe, que o alcançassem? Estaria elle tão perto, que a ouvisse? E ficou ajoelhada, os braços molles, as mãos cruzadas no regaço, olhando as velas de cera tristes, os bordados desbotados do frontal, a carinha rosada e redonda d'um menino Jesus!

Lentamente perdeu-se n'um scismar que ella não dirigia, que se formava e se movia no seu cerebro, como a fluctuação d'um fumo que se eleva. Pensava no tempo tão distante, em que, por melancolia e por sentimentalidade, frequentava mais as igrejas. Ainda a mamã vivia então; e ella, com o coração quebrado—quando o outro, Bazilio, lhe escrevera, rompendo—procurava dissipar a sua tristeza nas consolações da devoção. Uma amiga sua, a Joanna Silveira, fôra por esse tempo professar a França: e ella ás vezes lembrava-se de partir tambem, ser irmã de caridade, levantar os feridos nos campos de batalha, ou viver na paz d'uma cella mystica! Que differente a sua vida teria sido—d'esta agora tão alvoroçada de cólera, e tão carregada de peccado!... Onde estaria? Longe, n'algum mosteiro antigo, entre arvoredos escuros, n'um valle solitario e contemplativo: na Escocia, talvez, paiz que ella sempre amára desde as suas leituras de Walter Scott. Podia ser nas verde-negras terras de Lamermoor ou de Glencoe, n'alguma velha abbadia saxonia. Em redor os montes cobertos d'abetos, esbatidos nas nevoas, isolam aquelles retiros n'uma paz funeraria: n'um céo saudoso, as nuvens passam devagar, com recolhimento: nenhum som festivo quebra a meiga taciturnidade das cousas: revoadas de corvos cortam á tarde o ar n'um vôo triangular. Alli viveria entre as monjas d'alta estatura e olhar celtico, filhas de duques normandos, ou de lords de clans convertidos a Roma: leria livros dôces e cheios das cousas do céo: sentada na estreita janella da sua cella, veria passar nas mattas baixas os altos paus dos veados, ou pelas tardes vaporosas escutaria o som distante da bagpipe, que vai tristemente tocando o pastor que vem dos valles de Callendar: e todo o ar estaria cheio do murmurio choroso e gottejante dos fios d'agua, que por entre as relvas escuras cahem de rocha em rocha!

Ou então seria outra existencia mais regalada, no convento pacato d'uma boa provincia portugueza. Alli os tectos são baixos; as paredes caiadas faiscam ao sol, com as suas gradesinhas devotas; os sinos repicam no vivo ar azul; em roda, nos campos d'oliveiras que dão azeite para o convento, raparigas varejam a azeitona cantando; no pateo lageado d'uma pedra miudinha as mulas do almocreve, sacudindo a mosca, batem com a ferradura: matronas cochicham ao pé da roda; um carro chia na estrada empoeirada e branca; gallos cacarejam, brilhando ao sol; e freiras gordinhas, d'olho negro, chalram nos frescos corredores.

Alli viveria, engordando, com uma quebrasinha de somno á hora do côro, bebendo copinhos de licôr de rosa no quarto da madre-escrivã, copiando receitas de dôces com uma letra garrafal; morreria velha, ouvindo as andorinhas cantar á beira da sua grade; e o senhor bispo na sua visita, com a pitada nos seus dedos brancos, ouviria sorrindo da bocca da madre abbadessa a historia edificante da sua santa morte...

Um sacristão, que passava, escarrou fortemente; e, como um bando de passaros que se cala a um ruido brusco, todos os seus sonhos fugiram. Suspirou, ergueu-se devagar, foi indo para casa, triste.

Foi Juliana quem veio abrir, e logo no corredor, com a voz supplicante e baixa:

—A senhora por quem é perdôe, que depois estava douda! Estava com a cabeça perdida, não tinha dormido nada toda a noite. Fiquei mais afflicta...

Luiza não respondeu, entrou na sala. Sebastião que vinha jantar, tocava a serenata de D. Juan—e apenas ella appareceu:

—D'onde vem, tão pallida?

—Debilidade, Sebastião, venho da igreja...

Jorge entrava do escriptorio com uns papeis na mão:

—Da igreja!—exclamou—Que horror!