Dies iræ, dies illa
Solvunt sæcula in favilla!...
Solvunt sæcula in favilla!...
Luiza riu-se:
—Que doudo! Nem póde a gente estar triste...
—Póde!—exclamou Jorge.—Mas então venha a bella tristeza, venha a tristeza completa.—E com uma voz medonha entoou o Bemdito!
—Os visinhos hão-de dizer que estamos doudos, Jorge—acudiu ella.
—É justamente o que nós estamos!—E entrou no escriptorio, atirando com a porta.
Sebastião bateu alguns compassos, e voltando-se para ella, baixo:
—Então que idéas são essas? Que melancolia é essa?
Luiza ergueu os olhos para elle; viu a sua face boa e amiga, cheia de sympathia; ia talvez dizer-lhe tudo n'uma explosão de dôr, mas Jorge sahia do escriptorio. Sorriu, encolheu os hombros, retomou devagar o seu crochet.
No domingo seguinte, á noite, conversava-se na sala. Julião contára o seu concurso. Em resumo, estava contente: tinha fallado duas horas bem, com precisão, com lucidez.
O dr. Figueiredo dissera-lhe que «devia ter amenisado um bocado mais...»
—Litteratos!—fazia Julião, encolhendo os hombros, com desprezo.—Não podem fallar cinco minutos sobre o osso do tornozelo, sem trazerem as «flôres da primavera» e «o facho da civilisação»!
—O portuguez tem a mania da rhetorica...—disse Jorge.
N'este momento Juliana entrou na sala, com uma carta.
—Oh! é do Conselheiro!
Ficaram inquietos. Mas Accacio apenas se desculpava de «não poder vir, como promettera na vespera, partilhar do excellente chá de D. Luiza. Um trabalho urgente retinha-o á banca do dever. Pedia lembranças aos nossos Sebastião e Julião, e affectuosos respeitos á interessante D. Felicidade».
Uma onda de sangue abrazou o rosto da excellente senhora. Ficou a arfar, toda alterada; mudou duas vezes de cadeira, foi tocar no teclado com um dedo a Perola d'Ophir; e emfim, não se dominando, pediu baixo a Luiza «que fossem para o quarto, tinha um segredo...»
Apenas entraram, fechando a porta da sala:
—Que me dizes á carta d'elle?
—Os meus parabens—disse Luiza, rindo.
—É o milagre!—exclamou D. Felicidade—já é o milagre a fazer-se!—E mais baixo:—Mandei o homem! O que eu te disse, o gallego!
Luiza não comprehendia.
—O homem a Tuy, á mulher de virtude! Levou o meu retrato e o d'elle. Partiu ha uma semana: a mulher naturalmente já começou a enterrar-lhe as agulhas no coração...
—Que agulhas?—perguntou Luiza attonita.
Estavam de pé, junto ao toucador. E D. Felicidade com uma voz mysteriosa:
—A mulher faz um coração de cera, colla-o ao retrato do Conselheiro, e durante uma semana á meia noite crava-lhe uma agulha benta com o preparo que ella tem, e faz as orações...
—E déste o dinheiro ao homem?
—Oito moedas.
—Oh D. Felicidade!
—Ai! não me digas. Que já vês! Que mudança! D'aqui a uns dias, baba-se! Ai! Nossa Senhora da Alegria o permitta. Nossa Senhora o permitta! Que aquelle homem traz-me douda. De noite, é cada sonho! Até ando em peccado mortal! e são suores! Mudo de camisa tres e quatro vezes!
E ia-se olhando ao espelho: queria convencer-se que as bellezas da sua pessoa ajudariam as agulhas da bruxa: alisou o cabello.
—Não me achas mais magra?
—Não.
—Ai estou, filha, estou!—E mostrou o corpete lasso.
Já fazia planos. Iria passar a lua de mel a Cintra... Os olhos afogavam-se-lhe n'um fluido lubrico.
—Nossa Senhora da Alegria o permitta. Tenho-lhe duas velas accesas, de dia e de noite...
Mas de repente a voz afflicta de Joanna bradou da escada da cozinha:
—Minha senhora! Minha senhora, acuda!
Luiza correu, Jorge tambem, que ouvira na sala o grito. Juliana estava estendida no soalho da cozinha, desmaiada!
—Deu-lhe de repente, deu-lhe de repente!—exclamava Joanna, muito branca, a tremer.—Tombou p'ra o lado de repente...
Julião tranquillisou-os logo: era uma syncope, simples. Transportaram-na para a cama. Julião fez-lhe esfregar violentamente com uma flanella quente as extremidades,—e, mesmo antes que Joanna atarantada, em cabello, corresse á botica por um antispasmodico, Juliana voltava a si, muito fraca. Quando desceram á sala, Julião disse, enrolando o cigarro:
—Não vale nada. São muito frequentes, estas syncopes, nas doenças de coração. Esta é simples. Mas é o diabo, ás vezes tem um caracter apopletico, e vem a paralysia; pouco duradoura, sim, porque a effusão de sangue no cerebro é muito pequena, mas emfim, sempre desagradavel.—E accendendo o cigarro:—Esta mulher um dia morre-lhes em casa.
Jorge, preoccupado, passeava pela sala com as mãos nos bolsos.
—Sempre o tenho dito—acudiu D. Felicidade, baixando a voz, assustada.—Sempre o tenho dito. É desfazerem-se d'ella.
—Além d'isso o tratamento é incompativel com o serviço—disse Julião.—Emfim, mesmo a engommar roupa se póde tomar digitalis ou quinino; mas é que o verdadeiro tratamento é o repouso, é a absoluta exclusão da fadiga. Que ella um dia se zangue ou que tenha uma manhã de canceira, e póde ir-se!
—E vai adiantada a doença?—perguntou Jorge.
—Pelo que ella diz já tem a difficuldade asthmatica, oppressões, uma dôr aguda na região cardiaca, flatulencia, humidade nas extremidades—o diabo!
—Olha que espiga!—murmurou Jorge, olhando em roda.
—É pôl-a na rua!—resumiu D. Felicidade.
Quando ficaram sós, ás onze horas, Jorge disse logo a Luiza:
—Que te parece esta, hein? É necessario descartarmo-nos da creatura. Não quero que me morra em casa!
Ella, sem se voltar, diante do toucador, tirando os brincos, começou a dizer, que não se podia mandar tambem a pobre creatura morrer p'ra a rua... Lembrou vagamente o que ella tinha feito pela tia Virginia... Ia collocando devagar as suas palavras com a cautela com que se pousa o pé n'um terreno traiçoeiro.—Podia-se talvez dar-lhe algum dinheiro, que ella fosse viver algures...
Jorge, depois d'um silencio, respondeu:
—Não tenho duvida em lhe dar dez ou doze libras, e que se vá, que se arranje!
Dez ou doze libras!—pensou Luiza com um sorriso infeliz.—E á beira do toucador olhava para o seu rosto, ao espelho, com uma indefinida saudade, como se as suas faces devessem dentro em pouco estar cavadas pela afflicção, e os seus olhos fatigados pelas lagrimas...
Porque, emfim, a crise tinha chegado. Se Jorge insistisse em despedir a creatura, ella não podia, sem provocar um espanto e uma explicação, dizer a Jorge: não quero que ella sáia, quero que ella aqui morra! E Juliana vendo-se expulsa, desesperada, doente, percebendo que Luiza não a defendia, não a reclamava,—vingar-se-hia! Que havia de fazer?
Ergueu-se ao outro dia n'uma grande agitação. Juliana muito fatigada, ainda estava na cama. E em quanto Joanna punha a mesa, Luiza sentada na voltaire, á janella da sala de jantar, lia machinalmente o Diario de Noticias, quasi sem comprehender, quando uma noticia, no alto da pagina, lhe deu um sobresalto: «Parte além d'ámanhã para França o nosso amigo e conhecido banqueiro Castro, da firma Castro Miranda & C.a S. exc.a retira-se dos negocios da praça, e vai estabelecer-se definitivamente em França, perto de Bordeus, onde comprou ultimamente uma valiosa propriedade.»
O Castro! O homem que lhe dava dinheiro, o que ella quizesse! dizia Leopoldina. Partia!... E apesar de ter achado, desde o primeiro momento, aquelle recurso infame, vinha-lhe a seu pezar como uma desconsolação de o vêr desapparecer! Porque nunca mais voltaria a Portugal, o Castro!... E de repente uma idéa atravessou-a, que a fez vibrar toda, erguer-se direita, muito pallida.—Se na vespera da partida d'elle, Santo Deus! se na vespera ella consentisse!... Oh! era horrivel! Nem pensar em tal!...
Mas pensou—e sentia-se toda fraca contra uma tentação crescente, que se lhe enroscava na alma com caricias persuasivas. É que então estava salva! Dava seiscentos mil reis a Juliana! E o demonio iria morrer para longe!
E elle, o homem, tomaria o paquete! Não teria de córar diante d'elle; o seu segredo ia para o estrangeiro, tão perdido como se fosse para o tumulo!—E, além d'isso, se o Castro tinha uma paixão por ella, era bem possivel que lhe emprestasse, sem condições!...
Bom Deus! No dia seguinte podia ter alli na algibeira do seu roupão as notas, o ouro... Porque não?—Porque não? E vinha-lhe um desejo ancioso de se libertar, de viver feliz, sem agonias, sem martyrios...
Voltou ao quarto. Pôz-se a remexer no toucador, olhando de lado Jorge que se vestia... A presença d'elle deu-lhe logo um remorso; ir pedir a um homem dinheiro, consentir nos seus olhares lascivos, nas suas palavras intencionaes!... Que horror!—Mas já subtilisava. Era por Jorge, era por elle! Era para lhe poupar o desgosto de saber! Era para o poder amar livremente, toda a vida, sem receios, sem reservas...
Durante todo o almoço esteve calada. O rosto sympathico de Jorge enternecia-a; o outro parecia-lhe medonho, odiava-o já!...
Quando Jorge sahiu ficou muito nervosa. Ia á janella; o sol parecia-lhe adoravel, a rua attrahia-a.—Porque não? Porque não?
A voz de Juliana, muito aspera, fallou então nas escadas da cozinha; e aquelle cantado odioso decidiu-a bruscamente.
Vestiu-se com cuidado: era mulher, quiz parecer bonita.—E chegou toda esbaforida a casa de Leopoldina, quando dava meio dia a S. Roque.
Encontrou-a vestida, esperando o almoço. E tirando immediamente o chapéo, installando-se no sophá, explicou muito claramente a Leopoldina a sua resolução. Queria o dinheiro do Castro. Emprestado ou dado, queria o dinheiro!... Estava n'uma afflicção, devia valer-se de tudo!... Jorge queria despedir a mulher... Tinha medo d'uma vingança d'ella... Queria dinheiro, alli estava!
—Mas assim de repente, filha!—disse Leopoldina, pasmada do seu olhar decidido.
—O Castro vai-se ámanhã. Vai para Bordeus, para o inferno! É necessario fazer alguma cousa, já!
Leopoldina lembrou escrever-lhe.
—O que quizeres... Eu aqui estou!
A outra sentou-se devagar á mesa, escolheu uma folha de papel, e, com o dedinho no ar, a cabeça de lado, começou a escrevinhar.
Luiza passeava pelo quarto, nervosa. Tinha agora uma resolução teimosa, que a presença de Leopoldina fortificava! Divertia-se, aquella, dançava, ia ao campo, gozava, vivia, sem ter como ella uma tortura a minar-lhe, a estragar-lhe a vida! Ah! não voltaria para casa sem levar na algibeira em boas libras o resgate, a salvação! Ainda que tivesse de ser vil como as do Bairro Alto! Estava farta das humilhações, dos sustos, das noites cortadas de pesadêlos!... Queria saborear a vida, que diabo! o seu amor, o seu jantar, sem cuidados, com o coração contente!
—Vê lá—disse Leopoldina, lendo:
«Meu caro amigo.
«Desejo absolutamente fallar-lhe. É um negocio grave. Venha logo que possa. Talvez me agradeça. Espero-o até ás tres horas, o mais tardar.
«Com toda a estima
Sua amiga
Leopoldina».
—Que te parece?
—Horrivel! Mas está bem... Está muito bem! Risca-lhe o talvez me agradeça. É melhor.
Leopoldina copiou o bilhete, mandou-o pela Justina, n'um trem.
—E agora vou almoçar, que me não tenho nas pernas.
A sala de jantar dava para um saguão estreito. As paredes estavam cobertas d'uma pintura medonha, em que grandes manchas verdes semelhavam collinas, e linhas azues ferretes representavam lagos. Um armario, no angulo da parede, servia de guarda-louça. As cadeiras de palhinha tinham almofadinhas de paninho vermelho; e na toalha havia nodoas do café da vespera.
—D'uma cousa pódes tu ter a certeza—dizia Leopoldina, bebendo grandes goles de chá—é que o Castro é um homem p'ra um segredo!... Se te emprestar o dinheiro, que empresta, d'aquella bocca não sahe uma palavra. Lá n'isso é perfeito... Olha que foi o amante da Videira annos! e nem ao Mendonça, que é o seu intimo, disse uma palavra. Nem uma allusão! É um poço.
—Que Videira?—perguntou Luiza.
—Uma alta, de nariz grande, que tem um landau.
—Mas passa por uma mulher tão séria...
—Já tu vês!—E com um risinho:—Ai ellas passam, passam. Lá passar, passam. A questão é conhecer-lhes os pôdres, minha fidalga!
E barrando de manteiga grandes fatias de pão, pôz-se a fallar complacentemente dos escandalos de Lisboa, a desdobrar o sudario: citava nomes, especialidades, as que depois de terem «feito o diabo», gastam, n'uma devoção tardia, o resto d'uma velha sensibilidade; que é por onde ellas acabam, algumas é pelas sacristias! As que, cançadas de certo d'uma virtude monotona, preparam habilmente o seu «fracasso» n'uma estação em Cintra ou em Cascaes. E as meninas solteiras! Muito pequerrucho por essas amas, dos arredores tem o direito de lhes chamar mamã! Outras mais prudentes, receando os resultados do amor, refugiam-se nas precauções da libertinagem... Sem contar as senhoras que em vista dos pequenos ordenados, completam o marido com um sujeito supplementar!—Exagerava muito; mas odiava-as tanto! Porque todas tinham, mais ou menos, sabido conservar a exterioridade decente que ella perdera, e manobravam com habilidade, onde ella, a tola, tivera só a sinceridade! E em quanto ellas conservavam as suas relações, convites para soirées, a estima da côrte,—ella perdera tudo, era apenas a Quebraes!...
Aquella conversação enervava Luiza; n'uma tal generalidade do vicio parecia-lhe que o seu caso, como um edificio n'um nevoeiro, perdia o seu relevo cruel, se esbatia; e sentindo-o tão pouco visivel quasi o julgava já justificado.
Ficaram caladas, vagamente entorpecidas por aquelle sentimento d'uma forte immoralidade geral, onde as resistencias, os orgulhos se amollecem, se enlanguecem,—como os musculos n'uma estufa fortemente saturada de exhalações mornas.
—Este mundo é uma historia—disse Leopoldina erguendo-se e espreguiçando-se.
—E teu marido onde está?—perguntou Luiza no corredor.
Fôra p'ra o Porto. Estavam á vontade, podiam commetter crimes!
E Leopoldina, no quarto, estirando-se no canapé, com o cigarrinho laferme na bocca, começou tambem a queixar-se.
Andava aborrecida ha tempos; enfastiava-se, achava tudo seccante; queria alguma cousa de novo, de desusado! Sentia-se bocejar por todos os poros do seu corpo...
—E o Fernando, então?—disse distrahidamente Luiza, que a cada momento se aproximava da janella.
—Um idiota!—respondeu Leopoldina com um movimento d'hombros, cheio de saciedade e de desprezo.
Não, realmente tinha vontade d'outra cousa, não sabia bem de quê! Ás vezes lembrava-se fazer-se freira! (E estirava os braços com um tedio molle). Eram tão semsaborões todos os homens que conhecia! tão corriqueiros todos os prazeres que encontrára! Queria uma outra vida, forte, aventurosa, perigosa, que a fizesse palpitar—ser mulher d'um salteador, andar no mar, n'um navio pirata... Em quanto ao Fernando, o amado Fernando dava-lhe nauseas! E outro que viesse seria o mesmo. Sentia-se farta dos homens! Estava capaz de tentar Deus!
E, depois d'escancarar a bocca, n'um bocejo de fera engaiolada:
—Aborreço-me! Aborreço-me!... Oh céos!
Ficaram um momento caladas.
—Mas, que se lhe ha-de dizer, a esse homem?—perguntou de repente Luiza.
Leopoldina, soprando o fumo do cigarro, com a voz muito preguiçosa:
—Diz-se-lhe que se precisa um conto de reis, ou seiscentos mil reis... Que se lhe ha-de então dizer? Que se lhe paga.
—Como?
Leopoldina disse, deitada, com os olhos no tecto:
—Em affecto.
—Oh! és horrivel!—exclamou Luiza, exasperada.—Vês-me aqui desgraçada, meia douda, dizes que és minha amiga, e estás a rir, a escarnecer...—A sua voz tremia, quasi chorava.
—Mas tambem que pergunta tão tola! Como se lhe ha-de pagar?... Tu não sabes?
Olharam-se um momento.
—Não, eu vou-me embora, Leopoldina!—exclamou Luiza.
—Não sejas criança!
Um trem parou na rua. A Justina appareceu. Não encontrára o snr. Castro em casa, estava no escriptorio. Fôra lá, disse que vinha immediatamente.
Mas Luiza, muito pallida, tinha o chapéo na mão.
—Não—disse Leopoldina, quasi escandalisada—tu agora não me deixas aqui com o homem! Que lhe hei-de eu dizer?
—É horrivel!—murmurou Luiza com uma lagrima nas palpebras, deixando cahir os braços, solicitada pelo interesse, enleada pela vergonha, muito infeliz!
—É como quem toma oleo de ricino—disse a outra com um gesto cynico. E acrescentou, vendo o horror de Luiza:—Que diabo! onde é que está a deshonra, em pedir dinheiro emprestado? Todo o mundo pede...
N'aquelle momento outra carruagem, a largo trote, parou.
—Entra tu primeiro! falla-lhe tu primeiro!—supplicou Luiza, erguendo as mãos para ella.
A campainha retiniu. Luiza muito tremula, muito branca, olhava para todos os lados com um olhar muito aberto, de susto, d'ancia, como procurando uma idéa, uma resolução ou um recanto para se esconder! Botas d'homem rangeram na esteira da sala ao lado. Leopoldina então disse-lhe baixo, devagar, como para lhe cravar as palavras na alma, uma a uma:
—Lembra-te que d'aqui a uma hora pódes estar salva, com as tuas cartas na algibeira, feliz, livre!
Luiza pôz-se de pé com uma decisão brusca. Foi pôr pós d'arroz, alisou o cabello,—e entraram na sala.
Ao vêr Luiza, o Castro teve um movimento surprehendido. Curvou-se, com os pés pequeninos muito juntos, inclinando a cabeça grossa, onde os cabellos muito finos alourados já rareavam.
Sobre o seu ventresinho redondo, que a perna curta fazia parecer quasi pansudo, o medalhão do relogio pousava com opulencia. Trazia na mão um chicote, cujo cabo de prata representava uma Venus retorcendo os braços. A pelle tinha um rubor prospero; o bigode farto, terminava em pontas agudas, empastadas em cera mostacha, d'um aspecto napoleonico. E os seus oculos de ouro tinham um ar authoritario, bancario, amigo da Ordem. Parecia contente da vida como um pardal muito farto.
Com que! Era necessario mandal-o chamar, para que se lhe pozesse a vista em cima,—começou logo Leopoldina. E depois de o apresentar a Luiza «sua intima, sua amiga de collegio»:
—Que tem feito, porque não tem apparecido?
O Castro repoltreou-se n'uma cadeira de braços, e batendo com o chicote nas botas, desculpou-se com os preparativos da partida...
—Sempre é verdade? Deixa-nos?
O Castro curvou-se:
—Além d'amanhã. No Orenoque.
—Então d'esta vez os jornaes não mentiram. E com demora?
—Per omnia sæcula sæculorum.
Leopoldina pasmava. Deixar Lisboa! Um homem tão estimado, que se podia divertir tanto!—Pois não é verdade?—disse voltando-se para Luiza, para a tirar do seu silencio embaraçado.
—Com certeza—murmurou ella.
Estava sentada á beira da cadeira, como assustada, prompta a fugir. E os olhares do Castro, insistentes por traz dos reflexos dos oculos, incommodavam-na.
Leopoldina reclinára-se no sophá e ameaçando-o com o dedo erguido:
—Ah! Ahi n'essa ida p'ra França anda historia de saias!
Elle negou frouxamente, com um sorriso fatuo.
Mas Leopoldina não achava as francezas bonitas—o que era é que tinham muito chic, muita animação...
O Castro declarou-as adoraveis. Sobretudo para a estroinice! Ah! conhecia-as bem! Emfim, lá como mães de familia não dizia. Mas para uma cêa, para um bocado de can-can não havia outras...—Affirmava-o com convicção, pois, como os burguezes «da sua roda», avaliava doze milhões de francezas por seis prostitutas de Café Concerto,—que tinha pago caro e enfastiado immenso!
Leopoldina, para o lisonjear, chamou-lhe estroina!
Elle sorria, deliciando-se, afiando as pontas do bigode:
—Calumnias, calumnias...—murmurava.
E Leopoldina voltando-se para Luiza:
—Comprou uma quinta magnifica em Bordeus, um palacio!...
—Uma choupana, uma choupana...
—E naturalmente vai dar festas magnificas!...
—Modestos chás, modestos chás...—dizia, repoltreando-se.
E riam ambos d'um modo muito affectado.
O Castro curvou-se então para Luiza:
—Tive o gosto de vêr v. exc.a ha tempos, na rua do Ouro...
—Creio que tambem me lembro—respondeu ella.
E ficaram calados. Leopoldina tossiu, sentou-se mais á beira do sophá, e depois de sorrir:
—Pois eu mandei-o chamar porque temos uma cousa a dizer-lhe.
Castro inclinou-se. O seu olhar não deixava Luiza, percorria-a com atrevimento, palpava-a.
—Aqui está o que é. Eu vou direita ás cousas, sem preambulos.—E teve outro risinho.—Aqui a minha amiga está n'um grande apuro, e precisa um conto de reis.
Luiza acudiu com a voz quasi sumida:
—Seiscentos mil reis...
—Isso não importa—disse Leopoldina com uma indifferença opulenta—estamos a fallar com um millionario! A questão é esta: quer o meu amigo fazer o favor?
O Castro endireitou-se na cadeira, devagar, e com uma voz arrastada, ambigua:
—Certamente, certamente...
Leopoldina ergueu-se logo:
—Bem. Eu tenho alli no quarto a costureira á espera. Deixo-os fallar do negocio.
E á porta do quarto, voltando-se para o Castro, ameaçando-o com o dedo, a voz muito alegre:
—Que o juro seja pequeno, hein?
E sahiu, rindo.
O Castro disse logo a Luiza, curvando-se:
—Pois minha senhora, eu...
—A Leopoldina contou-lhe a verdade, estou n'uma grande afflicção de dinheiro. E dirijo-me a si... São seiscentos mil reis... Procurarei pagar, o mais depressa...
—Oh minha senhora!—fez o Castro com um gesto generoso. Começou então a dizer, que comprehendia perfeitamente, todo o mundo tinha os seus embaraços... Lamentava que a não tivesse conhecido ha mais tempo... Sempre tivera uma grande sympathia por ella... Uma grande sympathia!...
Luiza calava-se, com os olhos baixos. Elle foi pousar o chicote na jardineira, veio sentar-se no sophá junto d'ella. Vendo o seu ar embaraçado, pediu-lhe que não se affligisse. Valia lá a pena por questões de dinheiro! Tinha o maior prazer em servir uma senhora nova, tão interessante... Fizera perfeitamente em se dirigir a elle. Conhecia casos em que senhoras se dirigiam a agiotas que as exploravam, eram indiscretos...—E fallando tinha-lhe tomado a mão; o contacto d'aquella pelle appetecida, exaltando-lhe o desejo brutalmente, fazia-o respirar alto; Luiza, toda constrangida, nem retirára a mão; e Castro abrazado—com uma verbosidade um pouco rouca, promettia tudo, tudo o que ella quizesse!... Os seus olhinhos arregalados devoravam-lhe o pescoço muito branco.
—Seiscentos mil reis..., o que quizer!...
—E quando?—disse Luiza muito perturbada.
Elle via-lhe o seio arfar—e sob a irrupção d'um desejo brutal:
—Já!
Agarrou-a pela cinta, atirou-lhe um beijo voraz, quasi lhe mordeu a face.
Luiza ergueu-se com o salto d'uma mola d'aço.
Mas o Castro escorregára sobre o tapete, de joelhos; e, prendendo-lhe sofregamente os vestidos:
—Dou-lhe o que quizer, mas sente-se! Ha annos que tenho uma paixão por si. Escute!—Os seus braços tremulos subiam; envolviam-na, e o que sentia das suas fórmas inflammava-o.
Luiza, sem ruido, repellia-lhe as mãos, recusava-se.
—O que quizer! Mas ouça!—balbuciava elle puxando-a violentamente para si. A concupiscencia brutal dava-lhe uma respiração de touro.
Então, com um puxão desesperado ás saias, ella soltou-se, e recuando afflicta:
—Deixe-me! Deixe-me!
O Castro ergueu-se, a bufar, e com os dentes cerrados, os braços abertos, rompeu para ella.
Diante d'aquella luxuria bestial, Luiza, indignada, agarrou instinctivamente de sobre a jardineira o chicote e deu-lhe uma forte chicotada na mão.
A dôr, a raiva, o desejo enfureceram-no.
—Seu diabo!—rosnou, rangendo os dentes.
Ia-se arremessar. Mas Luiza então, erguendo o braço, revolvida por uma cólera phrenetica, atirou-lhe chicotadas rapidamente pelos braços, pelos hombros—muito pallida, muito séria, com uma crueldade a reluzir-lhe nos olhos, gozando uma alegria de desforra em fustigar aquella carne gorda.
O Castro, assombrado, defendia-se vagamente, com os braços diante da cara, recuando; de repente, topou contra a jardineira; o candieiro de porcelana oscillou, desequilibrou-se, rolou no chão, com estilhaços de louça, e uma nodoa escura d'azeite alastrou-se na esteira.
—Ahi está! Vê?—disse Luiza toda a tremer, apertando ainda convulsivamente o chicote.
Leopoldina ao barulho correu, do quarto.
—Que foi? Que foi?
—Nada, estavamos a brincar—disse Luiza.
Atirou o chicote para o chão, sahiu da sala.
O Castro, livido de raiva, tinha agarrado o chapéo; e fixando terrivelmente Leopoldina:
—Agradecido! Conte commigo quando quizer!
—Mas que foi? Que foi?
—Até á vista!—rugiu o Castro.—E indo apanhar o chicote, sacudindo-o ameaçadoramente para o quarto, onde Luiza entrára:
—Grande bebeda!—murmurou com rancor.
E sahiu, atirando com as portas.
Leopoldina, attonita, veio encontrar Luiza no quarto a pôr o chapéo, com as mãos ainda tremulas, os olhos muito brilhantes, satisfeita.
—Chegou-me cá uma cousa, e enchi-lhe a cara de chicotadas—disse ella.
Leopoldina esteve um momento a olhal-a petrificada.
—Bateste-lhe?...—E de repente desatou a rir, convulsivamente.—O Castro d'oculos, o Castro coberto de chicotadas! O Castro a levar uma coça!—Atirou-se para cima da chaise-longue, rolou-se; suffocava.—Até já tinha uma pontada, Jesus! O Castro!... Vir a uma casa amiga, levar o tiro de seiscentos mil reis e ser corrido a chicote!... Com o seu proprio chicote!... Oh! era para estourar!...
—O peor foi o candieiro—disse Luiza.
Leopoldina ergueu-se, de salto.
—E o azeite! Ai que agouro!—Correu á sala. Luiza veio encontral-a diante da nodoa escura, com os braços cruzados, como se visse, toda pallida, catastrophes avisinharem-se.—Que agouro, Santo Deus!
—Deita-lhe sal depressa.
—Faz bem?
—Quebra o agouro.
Leopoldina correu a buscar sal; e de joelhos, salgando a nodoa:
—Ai! Nossa Senhora permitta que não haja nada mau! Mas que caso este, que caso este! E agora, filha?
Luiza encolheu os hombros.
—Eu sei cá! Soffrer!...
XIII
N'essa semana, uma manhã, Jorge, que se não recordava que era dia de gala, encontrou a secretaria fechada, e voltou para casa ao meio dia. Joanna á porta conversava com a velha que comprava os ossos; a cancella em cima estava aberta; e Jorge, chegando despercebido ao quarto, surprehendeu Juliana commodamente deitada na chaise-longue, lendo tranquillamente o jornal.
Ergueu-se, muita vermelha, mal o viu, balbuciou:
—Peço desculpa, tinha-me dado uma palpitação tão forte...
—Que se pôz a lêr o jornal, hein?...—disse Jorge, apertando instinctivamente o castão da bengala.—Onde está a senhora?
—Deve estar p'ra a sala de jantar—disse Juliana, que se pôz logo a varrer, muito apressada.
Jorge não encontrou Luiza na sala de jantar; foi dar com ella no quarto dos engommados, despenteada, em roupão de manhã, passando roupa, muito applicada e muito desconsolada.
—Tu estás a engommar?—exclamou.
Luiza córou um pouco, pousou o ferro.—A Juliana estava adoentada, juntára-se uma carga de roupa...
—Dize-me cá, quem é aqui a criada e quem é aqui a senhora?
A sua voz era tão aspera, que Luiza fez-se pallida, murmurou:
—Que queres tu dizer?
—Quero dizer que te venho encontrar a ti a engommar, e que a encontrei a ella lá em baixo muito repimpada na tua cadeira, a lêr o jornal.
Luiza, atarantada, abaixou-se sobre o cesto da roupa lavada, começou a remexer, a desdobrar, a sacudir com a mão tremula...
—Tu não pódes fazer idéa do que aqui vai por fazer—ia dizendo.—É a limpeza, são os engommados, é um servição. A pobre de Christo tem estado doente...
—Pois se está doente que vá p'ra o hospital!
—Não, tambem não tens razão!
Aquella insistencia em defender a outra, que se repoltreava em baixo na sua chaise-longue, exasperou-o:
—Dize cá, tu dependes d'ella? Havia de dizer que tens medo d'ella!
—Ah! se estás com esse genio!—fez Luiza com os beiços tremulos, uma lagrima já nas palpebras.
Mas Jorge continuava, muito zangado:
—Não, essas condescendencias hão-de acabar por uma vez! Vêr aquelle estafermo, com os pés p'ra cova, a prosperar em minha casa, a deitar-se nas minhas cadeiras, a passear, e tu a defendel-a, a fazer-lhe o serviço, ah! não! É necessario acabar com isso. Sempre desculpas! sempre desculpas! Se não póde que arreie. Que vá p'ra o hospital, que vá p'ra o inferno!
Luiza lavada em lagrimas assoava-se, soluçando.
—Bem! Agora choras. Que tens tu? Por que choras?
Ella não respondia, n'um grande pranto.
—Porque choras, filha?—perguntou elle, com uma impaciencia commovida, chegando-se a ella.
—Para que me fallas tu assim?—dizia, toda soluçante, limpando os olhos.—Sabes que estou doente, nervosa, e tens mau genio p'ra mim! O que me sabes dizer são cousas desagradaveis.
—Cousas desagradaveis! Minha filha, eu disse-te lá nada desagradavel!—E abraçou-a, ternamente.
Mas ella desprendeu-se, e com a voz cortada de soluços:
—Então é algum crime estar a engommar? Por que trabalho, por que trato das minhas cousas, zangas-te? Querias que eu fosse uma desarranjada? A mulher tem estado doente! Em quanto se não arranja outra, é necessario fazer as cousas... Mas tu fallas, fallas! P'ra me affligir!...
—Estás a dizer tolices, filha. Não estás em ti. Eu o que não quero é que te cances!
—P'ra que dizes então que tenho medo d'ella?—E as lagrimas recomeçavam.—Medo de quê? Porque hei-de eu ter medo d'ella? Que desproposito!
—Pois bem, não digo. Não se falla mais na creatura. Mas não chores... Vá, acabou-se!—Beijou-a. E tomando-a pela cinta, levando-a dôcemente:—Vá, deixa o ferro agora. Vem! Que criança que tu és!
Por bondade, por consideração com os nervos de Luiza, Jorge durante alguns dias não fallou «na creatura». Mas pensava n'ella; e aquelle estafermo, com os pés para a cova, em sua casa, exasperava-o. Depois as madracices que lhe percebera, os confortos do quarto que vira na noite em que ella desmaiára, aquella bondade ridicula de Luiza!... Achava aquillo estranho, irritante!... Como estava fóra de casa todo o dia, e diante d'ella Juliana só tinha sorrisos para Luiza, muitas attitudes de affecto, imaginava que ella se soubera insinuar, e, pelas pequenas intimidades de ama a criada, se tornára necessaria e estimada. Isso augmentava a sua antipathia. E não a disfarçava.
Luiza vendo-o ás vezes seguir Juliana com um olhar rancoroso, tremia! Mas o que a torturava era a maneira que Jorge adoptára de fallar d'ella com uma veneração ironica; chamava-lhe a illustre D. Juliana, a minha ama e senhora! Se faltava um guardanapo ou um copo, fingia-se espantado: «Como! a D. Juliana esqueceu-se! Uma pessoa tão perfeita!» Tinha gracejos que gelavam Luiza.
—A que sabia o filtro que ella te deu? Era bom?
Luiza agora, diante d'elle, já nem se atrevia a fallar a Juliana com um modo natural; temia os sorrisos malignos, os ápartes:—«Anda, atira-lhe um beijo, conhece-se na cara que estás com a vontade de lh'o atirar!» E, receando as suspeitas d'elle, querendo mostrar-se independente, começou na sua presença, a fallar a Juliana com uma dureza brusca, muito affectada. A pedir-lhe agua, uma faca, dava á voz inflexões d'um rancor postiço.
Juliana, muito fina, tinha percebido tudo, e supportava, calada.
Queria evitar toda a questão que a perturbasse no seu conchego. Sentia-se agora muito mal, e nas noites em que não podia dormir com afflicções asthmaticas, punha-se a pensar com terror—se fosse expulsa d'aquella casa, para onde iria? Para o hospital!
Tinha por isso medo de Jorge.
—Elle está morto por me pilhar em desleixo grosso, e descartar-se de mim—dizia ella á tia Victoria—mas não lhe hei-de dar esse gosto, ao boi manso!
E Luiza, pasmada, vira-a pouco a pouco recomeçar a fazer todo o serviço, com zelo, apparentemente; e todavia ás vezes não podia, vencida pela doença; tinha «flatos» que a faziam cahir n'uma cadeira, arquejando, com as mãos no coração. Mas reagia. Uma occasião mesmo vendo Luiza a passar um espanejador pelos consoles da sala, zangou-se:
—A senhora faz favor de se não metter no meu serviço? Eu ainda posso! Ainda não estou na cova!
Consolava-se então com regalos de gulodice. Durante todo o dia debicava sopinhas, croquettes, pudinzinhos de batata. Tinha no quarto gelatina e vinho do Porto. Em certos dias mesmo queria caldos de gallinha á noite.
—Com o meu corpo o pago—dizia ella a Joanna—que trabalho como uma negra! Arrazo-me!
Um dia, porém, que Jorge se irritára mais com a figura amarellada de Juliana, e que estava nervoso, ao achar á noite o jarro vazio e o lavatorio sem toalha, enfureceu-se desproporcionadamente:
—Não estou para aturar estes desleixos! Irra!—gritou.
Luiza veio logo, inquieta, desculpar Juliana.
Jorge mordeu o beiço, curvou-se profundamente, e com a voz um pouco tremula:
—Perdão! esquecia-me que a pessoa de Juliana é sagrada! eu mesmo vou buscar agua!
Luiza então zangou-se: se havia de estar sempre com aquelles remoques, era mandar a criada embora por uma vez! Imaginava talvez que ella amava de paixão a Juliana? Se a conservava é porque era uma boa criada. Mas se ella se tornava a causa de maus humores, de questões, se elle lhe ganhára tamanho odio, bem, então que se fosse! Era uma sécca aquella ironia constante...
Jorge não respondeu.
E durante a noite Luiza, sem dormir, pensava que aquillo não podia durar! Estava farta! Aturar a mulher, a sua tyranna, e ouvir a todo o momento ditinhos, allusões, ah, não! era de mais! Bastava! Elle começava a desconfiar, a bomba ia estalar! Pois bem, ella mesma chegaria o lume ao rastilho! Ia mandar a Juliana embora! E que mostrasse as cartas, acabou-se! Se elle a mettesse n'um convento, se separasse d'ella, bem! Soffreria, morreria! Tudo, menos aquelle martyrio reles, ás picadinhas, medonho e grotesco!
—Que tens tu?—perguntou Jorge, meio a dormir, sentindo-a inquieta.
—Espertina.
—Coitada! Conta cento e cincoenta p'ra traz!—E voltou-se, enrolando-se commodamente na roupa.
Ao outro dia Jorge levantára-se cedo. Devia encontrar-se com o Alonso, o hespanhol das minas, e jantar com elle no Gibraltar. Depois de vestido foi á sala de jantar—eram dez horas—e voltou a dizer a Luiza, com uma cortezia profunda, espaçando as palavras:—que não estava a mesa posta! que as chavenas do chá da vespera estavam ainda por lavar! e que a snr.a D. Juliana, a illustre snr.a D. Juliana, tinha sahido, a seu passeio!
—Eu disse-lhe hontem á noite que me fosse ao sapateiro...—começou Luiza, que vestia o seu roupão.
—Ah, perdão!—interrompeu Jorge muito ceremoniosamente.—Esquecia-me outra vez que se trata de Juliana, tua ama e senhora! Perdão!
Luiza acudiu logo:
—Não. Tens razão. Tu verás! É preciso pôr um côbro...
Subiu logo á cozinha, desesperada:
—Vossê porque não pôz a mesa, Joanna, se a outra sahiu?
Mas a rapariga não ouvira sahir a snr.a Juliana! Imaginára que estava p'ra baixo, p'ra a sala! Como ella agora é que queria fazer tudo!...
Quando Joanna trouxe o almoço d'ahi a pouco Jorge veio sentar-se á mesa, torcendo muito nervosamente o bigode. Levantou-se duas vezes com um sorriso mudo para ir buscar uma colhér, o assucareiro. Luiza via-lhe os musculos da face contrahidos: mal podia comer, atarantada; a chavena, quando a erguia, tremia-lhe na mão; com os olhos baixos espreitava Jorge ás furtadellas, e o seu silencio torturava-a.
—Tu fallaste hontem que ias jantar fóra hoje...
—Vou—disse seccamente. E acrescentou:—Graças a Deus!
—Estás de bom humor!...—murmurou ella.
—Como vês!
Luiza fez-se pallida, pousou o talher: tomou o jornal para disfarçar uma lagrimasinha que lhe tremia na palpebra; mas as letras confundiam-se, sentia pular o coração. De repente a campainha tocou. Era a outra, de certo!
Jorge, que se ia erguer, disse logo:
—Ha-de ser essa senhora. Ora, vou-lhe dizer duas palavras...
E ficou de pé, junto á mesa, aguçando devagar um palito.
Luiza, a tremer, levantou-se tambem:
—Eu vou-lhe fallar...
Jorge reteve-a pelo braço, e tranquillamente:
—Não, deixa-a vir. Deixa-me gozar!...
Luiza recahiu na cadeira, muito pallida.
Os tacões de Juliana soaram no corredor. Jorge aguçava tranquillamente o seu palito.
Luiza então voltou-se para elle, e batendo as mãos, afflicta:
—Não lhe digas nada!...
Elle fixou-a, assombrado:
—Porque?
Juliana n'este momento abriu o reposteiro.
—Então que desaforo é este, sahir e deixar tudo por arrumar?—disse-lhe Luiza logo, erguendo-se.
Juliana, que vinha sorrindo, estacou á porta, petrificada: apesar da sua amarellidão, uma vaga côr de sangue espalhou-se-lhe nas feições.
—Não lhe torne a acontecer semelhante cousa, ouviu? A sua obrigação é estar em casa pela manhã...—Mas o olhar de Juliana, que se cravava n'ella terrivelmente, emmudeceu-a. Agarrou no bule com as mãos tremulas.—Deite agua n'este bule, vá.
Juliana não se mexeu.
—Vossê não ouviu?—berrou de repente Jorge. E atirou uma punhada á mesa, que fez saltar a louça.
—Jorge!—gritou Luiza, agarrando-lhe no braço.
Mas Juliana fugira da sala, correndo.
—E logo, na rua!—exclamou Jorge.—Faze-lhe as contas, e que se vá. Ah! estou farto! Nem mais um dia! Se a torno a vêr, desfaço-a! Até que emfim! Chegou-me a minha vez!
Foi buscar o paletot, muito excitado, e antes de sahir, voltando á sala:
—E que se vá hoje mesmo, ouviste? Nem uma hora mais! Ha quinze dias que a trago aqui atravessada. P'ra a rua!
Luiza veio para o quarto quasi sem se poder suster. Estava perdida! estava perdida! Uma multidão d'idéas, todas extremas e insensatas, redemoinhava no seu cerebro como um montão de folhas seccas n'uma ventania: queria fugir, atirar-se ao rio, de noite; arrependia-se de não ter cedido ao Castro... De repente imaginou Jorge abrindo as cartas que Juliana lhe entregava, lendo: Meu adorado Bazilio! Então uma cobardia immensa amolleceu-lhe a alma. Correu ao quarto de Juliana. Ia supplicar-lhe que lhe perdoasse, que ficasse, que a martyrisasse!... E Jorge depois? Diria que a Juliana chorára, se atirára de joelhos! Mentiria, cobril-o-hia de beijos... Era nova, era bonita, era ardente—convencel-o-hia!
Juliana não estava no quarto. Subiu á cozinha; estava lá, sentada, com os olhos chammejantes, os braços nervosamente cruzados, n'uma raiva muda. Apenas viu Luiza, deu um salto sobre os calcanhares, e mostrando-lhe o punho, berrou:
—Olhe que a primeira vez que vossê me torna a fallar como hoje, vai aqui tudo raso n'esta casa!
—Cale-se, sua infame!—gritou Luiza.
—Vossê manda-me calar, sua p...!—E Juliana disse a palavra.
Mas a Joanna correu, atirou-lhe pelo queixo uma bofetada que a fez cahir, com um gemido, sobre os joelhos.
—Mulher!—bradou Luiza, arremessando-se sobre a Joanna, agarrando-a pelos braços.
Juliana, assombrada, fugiu.
—Ó Joanna! ó mulher! que desgraça, que escandalo!—exclamava Luiza com as mãos apertadas na cabeça.
—Racho-a!—dizia a rapariga com os dentes cerrados, os olhos como brazas—racho-a!
Luiza andava em volta da mesa da cozinha, automaticamente, pallida como a cal, repetindo, toda a tremer:
—O que vossê foi fazer, mulher! o que vossê foi fazer!
A Joanna ainda toda revolvida de sua colera, com o rosto manchado de vermelho, remexia furiosamente as panellas.
—E se ella me diz uma palavra, acabo-a, aquella bebeda! Acabo-a!
Luiza desceu ao quarto. No corredor sahiu-lhe Juliana, com a cuia á banda, as dedadas escarlates na face, medonha.
—Ou aquella desavergonhada vai já p'ra a rua—gritou ella—ou eu vou-me pôr lá em baixo na escada, e quando o seu homem vier, mostro-lhe tudo!...
—Pois mostre, faça o que quizer!—disse Luiza, passando, sem a olhar.
Fôra uma desesperação, um odio que a tinham decidido. Mais valia acabar por uma vez!...
Sentia então como um allivio doloroso, em vêr o fim do seu longo martyrio! Havia mezes que elle durava. E pensando em tudo o que tinha feito e que tinha soffrido, as infamias em que chafurdára e as humilhações a que descera, vinha-lhe um tedio de si mesma, um nojo immenso da vida. Parecia-lhe que a tinham sujado e espesinhado; que n'ella nem havia orgulho intacto, nem sentimento limpo; que tudo em si, no seu corpo e na sua alma, estava enxovalhado, como um trapo que foi pisado por uma multidão, sobre a lama. Não valia a pena luctar por uma vida tão vil. O convento seria já uma purificação, a morte uma purificação maior...—E onde estava elle, o homem que a desgraçára? Em Paris, retorcendo a guia dos bigodes, chalaceando, governando os seus cavallos, dormindo com outras! E ella morria alli, estupidamente! E quando lhe escrevera a pedir-lhe que a salvasse, nem uma palavra de resposta; nem a julgára digna do meio tostão da estampilha! O que elle lhe dizia pelas terras da Polvora acima, n'aquelle coupé:—Dar-lhe-hia toda a sua vida, viveria á sombra das suas saias! O infame! Já tinha talvez no bolso o bilhete da passagem! Em quanto ella fôra a mulher alegre, que vem, despe o corpete, mostra um lindo collo—então bem, prompto! Mas teve uma difficuldade, chorou, soffreu—ah! não, isso não! És um bello animal que me dás um grande prazer—perfeitamente, tudo o que quizeres: mas tornas-te uma creatura dolorida que precisa consolações, talvez uns poucos de centos de mil reis—então boas noites, cá vou no paquete! Oh que estupida que é a vida! Ainda bem que a deixava!
Foi-se encostar á janella. Estava um dia muito azul, muito dôce. O sol punha grandes claridades de um dourado ligeiro sobre as paredes brancas, sobre a calçada. E havia no ar uma suavidade avelludada. O Paula, em chinellas de tapete, aquecia-se á porta do estanque. Então, diante do lindo ar d'inverno, enterneceu-se. Todos eram felizes n'aquella manhã de rosas, só ella soffria, pobre d'ella! E ficou a olhar, como esquecida n'uma vaga saudade, com uma lagrima na palpebra... De repente viu Juliana atravessar a rua, dobrar a esquina,—e d'ahi a pouco voltar com um gallego, velho e pesado, que trazia o seu sacco ao hombro.
Ia-se embora!—pensou Luiza.—Mandava pôr fóra os bahus! E depois? Remettia as cartas a Jorge, ou entregava-lh'as ella mesma, no portal! Santo Deus!—E parecia-lhe vêr Jorge apparecer no quarto, livido, com as cartas na mão!...
Veio-lhe um terror allucinado: não queria perder o seu marido, o seu Jorge, o seu amor, a sua casa, o seu homem! Apossou-se d'ella a revolta da femea contra a viuvez: aos vinte e cinco annos ir murchar para um convento! Não, c'os diabos!
Foi direita ao quarto de Juliana.
—Vem vêr se lhe levo alguma cousa?—gritou logo a outra furiosa.
Sobre a cama estava roupa branca espalhada, pelo chão botinas embrulhadas em jornaes velhos.
—E ainda cá me ficam quatro camisas, dous pares de calcinhas, tres pares de meias, seis punhos na lavadeira. Fica ahi o rol. E quero as minhas contas!...
—Escute, Juliana, não se vá.—Mas a voz desappareceu-lhe, as lagrimas saltaram-lhe dos olhos.
Juliana poz-se a olhar para ella d'alto, triumphando, com uma botina de duraque em cada mão.
—É mandar aquella desavergonhada embora, e está tudo acabado!—E com uma voz aguda, batendo as solas das botinas:—Fica tudo como d'antes, na paz do Senhor!
Uma alegria extraordinaria accendia-lhe o olhar. Vingava-se! fazia-a chorar! expulsava a outra! e não perdia os seus commodos!
—É pôr a bebeda na rua! É pôl-a na rua!
Luiza curvou os hombros, foi á cozinha devagar; os degraus da escada pareciam-lhe immensos, infindaveis. Deixou-se cahir n'um banco, e limpando os olhos:
—Joanna, venha cá, escute, vossê não póde continuar na casa...
A rapariga ficou a olhar para ella, espantada.
—O que a Juliana disse foi n'um repente... Tem estado a chorar, a arrepender-se. É a criada mais antiga. O senhor estima-a muito...
—Então a senhora manda-me embora? Então a senhora manda-me embora?
Luiza insistiu, baixo, envergonhada:
—Foi um repente, tem estado a pedir perdão...
—Eu foi para defender a senhora!—exclamou a rapariga, abrindo os braços, afflicta.
Luiza sentiu-se indigna; e impaciente, para acabar:
—Bem, Joanna, não estejamos com mais. Eu é que sou a dona da casa... Vou-lhe fazer as contas.
—Olha que pago este!—gritou Joanna, então, desesperada. E com uma resolução, batendo o pé:—Pois o senhor é que ha-de dizer! Eu vou dizer tudo ao senhor! Hei-de-lhe contar tudo o que se passou! A senhora não tem razão!...
Luiza olhava-a, estupida. Agora era aquella! Era d'aquella rapariga, teimosa na sua justiça, que vinha o desastre! Era de mais! Veio-lhe um terror sobrenatural, como um espanto da consciencia, e apertando as fontes nas mãos abertas:
—Que expiação! Que expiação, Santo Deus!
De repente, como desvairada, agarrou Joanna pelos braços, e fallando-lhe junto do rosto:
—Joanna, vá-se pelo amor de Deus, vá-se! Não diga nada. Despeça-se vossê!—E perdendo inteiramente todo o respeito proprio, cahiu de joelhos, diante da cozinheira, soluçando:—Pelas cinco chagas de Christo, vá, Joanna, minha rica Joanna, vá. Peço-lhe eu, Joanna! Pelo amor de Deus!
A rapariga, assombrada, rompeu n'um choro estridente.
—Vou, sim, minha senhora!... vou, sim, minha rica senhora!
—Sim, Joanna, sim. Eu dou-lhe alguma cousa. Vossê bem vê... Não chore... Espere...
Desceu ao quarto correndo, tirou da gaveta duas libras das suas economias, voltou, galgando os degraus, metteu-lh'as na mão, dizendo-lhe baixo:
—Faça uma trouxa, eu ámanhã lhe mandarei o bahu.
—Sim, minha senhora—soluçava a rapariga, babada de dôr—sim, minha rica senhora!
Luiza veio deixar-se cahir de bruços sobre a sua chaise-longue, n'um choro convulsivo tambem, desejando a morte, pedindo, n'um terror, piedade a Deus!
Mas a voz aspera de Juliana disse bruscamente á porta:
—Então em que ficamos?
—A Joanna vai-se. Que quer mais?
—Que sáia já!—disse a outra imperiosamente.—Que o jantar o faço eu. Por hoje, já se vê!
As lagrimas de Luiza seccavam-se, de raiva.
—E a senhora agora ouça!
O tom de Juliana era tão insultante, que Luiza ergueu-se, como ferida.
E Juliana, ameaçando-a, d'alto, com o dedo erguido:
—E a senhora agora é andar-me direita, senão eu lh'as cantarei!...
E voltou as costas, batendo os tacões.
Luiza olhou em roda, como se um raio tivesse atravessado o quarto; mas tudo estava immovel e correcto; nem uma prega das cortinas se movera, e os dous pastorinhos de porcelana sobre o toucador sorriam pretenciosamente.
Então tirou o roupão violentamente, passou um vestido sem apertar o corpete, vestiu por cima um casaco largo d'inverno, atirou o chapéo para a cabeça despenteada, sahiu, desceu a rua tropeçando nas saias, quasi a correr.
O Paula saltou para o meio da rua para a seguir: viu-a parar á porta de Sebastião, e veio dizer á estanqueira:
—Em casa do Engenheiro ha novidade!
E ficou plantado á porta com os olhos cravados para as janellas abertas, onde as bambinellas de reps verde cahiam com as suas pregas immoveis.
—O snr. Sebastião?—perguntava Luiza á rapariguita sardenta, que correra a abrir a porta.
E ia entrando pelo corredor.
—Na sala—disse a pequena.
Luiza subiu; sentia sons de piano; abriu violentamente a porta, e correndo para elle, apertando as mãos contra o peito, n'uma voz angustiosa e sumida:
—Sebastião, escrevi uma carta a um homem, a Juliana apanhou-m'a. Estou perdida!
Elle ergueu-se devagar, assombrado, muito branco; viu-lhe o rosto manchado, o chapéo mal posto, a afflicção do olhar:
—Que é? Que é?
—Escrevi a meu primo—repetiu, com os olhos cravados n'elle, anciosamente—a mulher apanhou-me a carta... Estou perdida!
Fez-se muito pallida, os olhos cerraram-se-lhe.
Sebastião amparou-a, levou-a meio desmaiada para o sophá de damasco amarello. E ficou de pé, mais descórado que ella, com as mãos nos bolsos do seu jaquetão azul, immovel, estupido.
De repente correu fóra, trouxe um copo d'agua, borrifou-lhe o rosto ao acaso. Ella abriu os olhos, as suas mãos errantes apalparam em redor, fitou-o espantada, e deixando-se cahir sobre o braço do canapé, com o rosto escondido nas mãos, rompeu n'um choro hysterico.
O seu chapéo cahira. Sebastião apanhou-o, sacudiu-lhe delicadamente as flôres, pôl-o sobre a jardineira com cuidado; e vindo nas pontas dos pés debruçar-se junto d'ella:
—Então! então!—murmurava. E as suas mãos tocando-lhe de leve o braço, tremiam como folhas.
Quiz dar-lhe agua para a socegar: ella recusou com a mão, endireitou-se devagar no sophá, limpando os olhos, assoando-se com grandes soluços.
—Desculpe, Sebastião, desculpe—dizia.—Bebeu então um gole d'agua, ficou com as mãos no regaço, quebrada; e, uma a uma, as suas lagrimas silenciosas cahiam sem cessar.
Sebastião foi fechar a porta—e vindo ao pé d'ella, com muita doçura:
—Mas então? Que foi?
Ella ergueu para elle a sua face chorosa, onde os olhos brilhavam febrilmente; olhou-o um momento, e deixando pender a cabeça, toda humilhada:
—Uma desgraça, Sebastião, uma vergonha!—murmurou.
—Não se afflija! Não se afflija!
Sentou-se ao pé d'ella, e baixo, com solemnidade:
—Tudo o que eu puder, tudo o que fôr necessario, aqui me tem!
—Oh Sebastião!...—exclamou n'um impulso de reconhecimento humilde; e acrescentou:—Acredite, tenho sido bem castigada! O que eu tenho soffrido, Sebastião!
Esteve um momento com os olhos cravados no chão; e agarrando-lhe o braço de repente, com força, as palavras romperam abundantes e precipitadas, como os borbulhões d'uma agua comprimida que rebenta.
—Apanhou-me a carta, não sei como, por um descuido meu! Ao principio pediu-me seiscentos mil reis. Depois começou a martyrisar-me... Tive de lhe dar vestidos, roupa, tudo! Mudou de quarto, servia-se dos meus lençoes, dos finos. Era a dona da casa. O serviço quem o faz sou eu!... Ameaça-me todos os dias, é um monstro. Tudo tem sido baldado, boas palavras, bons modos... E onde tenho eu dinheiro? Pois não é verdade? Ella bem via... O que eu tenho soffrido! Dizem que estou mais magra, até o Sebastião reparou. A minha vida é um inferno. Se Jorge soubesse!... Aquella infame queria hoje dizer-lhe tudo!... E trabalho como uma negra. Logo pela manhã a limpar e varrer. Ás vezes tenho de lavar as chicaras do almoço. Tenha piedade de mim, Sebastião, por quem é, Sebastião! coitada de mim, não tenho ninguem n'este mundo.
E chorava, com as mãos sobre o rosto.
Sebastião, calado, mordia o beiço; duas lagrimas rolavam-lhe tambem pela face, sobre a barba. E levantando-se, devagar:
—Mas Santo nome de Deus, minha senhora! porque me não disse ha mais tempo?
—Ó Sebastião, podia lá! Uma vez estive para lh'o dizer... Mas não pude, não pude!
—Fez mal!...
—Esta manhã o Jorge quiz pôl-a fóra. Embirra com ella, percebe os desmazelos. Mas não desconfia de nada, Sebastião!...—E desviou os olhos, muito escarlate.—Escarnecia-me ás vezes por eu parecer tão apaixonada por ella... Mas esta manhã zangou-se, mandou-a embora. Apenas elle sahiu, veio como uma furia, insultou-me...
—Santo Deus!—murmurava Sebastião assombrado, com a mão sobre a testa.
—Talvez não acredite, Sebastião, sou eu que faço os despejos!...
—Mas merece a morte, essa infame!—exclamou batendo com o pé no chão.
Deu alguns passos pesados pela sala, devagar, as mãos nos bolsos, os seus largos hombros curvados. Voltou sentar-se ao pé d'ella, e tocando-lhe timidamente no braço, muito baixo:
—É necessario tirar-lhe as cartas...
—Mas como?
Sebastião coçava a barba, a testa.
—Ha-de-se arranjar—disse, por fim.
Ella agarrou-lhe a mão:
—Oh Sebastião, se fizesse isso!
—Ha-de-se arranjar.
Esteve um momento calculando—e com o seu tom grave:
—Eu vou-me entender com ella... É necessario que ella esteja só em casa... Podiam ir ao theatro, esta noite.
Levantou-se lentamente, foi buscar o Jornal do Commercio, sobre a mesa, olhou os annuncios:
—Podiam ir a S. Carlos, que acaba mais tarde... É o Fausto... Podiam ir vêr o Fausto...
—Podiamos ir vêr o Fausto—repetiu Luiza, suspirando.
E então, muito chegados, ao canto do sophá, Sebastião foi-lhe dizendo um plano, em palavras baixas, que ella devorava, anciosa.
Devia escrever a D. Felicidade, para a acompanhar ao theatro... Mandar um recado a Jorge, prevenindo-o que o iriam buscar ao Hotel Gibraltar... E a Joanna? A Joanna deixára a casa. Bem. Ás nove horas, então, Juliana estaria só.
—Vê como tudo se arranja?—disse elle, sorrindo.
Era verdade... Mas daria a mulher as cartas?
Sebastião tornou a coçar a barba, a testa:
—Ha-de dar—disse.
Luiza olhava-o quasi com ternura: parecia-lhe vêr na sua face honesta, uma alta belleza moral. E de pé diante d'elle, com uma melancolia na voz:
—E vai fazer isso por mim, Sebastião, por mim, que fui tão má mulher...
Sebastião córou, respondeu encolhendo os hombros:
—Não ha más mulheres, minha rica senhora, ha maus homens, é o que ha!
E acrescentou logo:
—Eu vou buscar o camarote. Uma boa frisa, hein?... Uma frisasinha ao pé do palco...
Sorria, para a tranquillisar. Ella punha o chapéo, descia o véo com pequeninos soluços tristes, que voltavam a espaços.
No corredor encontraram a tia Joanna com os braços abertos; beijou muito Luiza; aquella visita era um milagre! E que bonita que estava! era a flôr do bairro!
—Está bom, tia Joanna, está bom—disse Sebastião, afastando-a brandamente.
Ora que não fosse mettediço! Já lá a tinha tido mais de meia hora, tambem ella agora a queria um bocadinho! Assim é que elle devia ter uma mulherzinha! Uma rapariga de bem! Uma açucena!
Luiza corava, embaraçada.
E o snr. Jorge? que era feito d'elle? Ninguem o via. E a D. Felicidade?
—Está bom, basta, tia Joanna!—fez Sebastião impaciente.
—Olha o sofrego!... Ninguem lhe come a menina!... Cruzes!...
Luiza sorriu; lembrou-se então de repente que não tinha por quem mandar os bilhetes a D. Felicidade e a Jorge, ao hotel.
Sebastião fel-a entrar logo em baixo no escriptorio: que escrevesse, elle os mandaria: escolheu-lhe o papel, molhando-lhe a penna—mais prompto, mais delicado desde que a sabia infeliz. Luiza fez o bilhete para Jorge; e, como apesar das suas afflicções, se lembrou com terror de certo vestido verde decotado de D. Felicidade, acrescentou n'um P. S., no bilhete para ella: «o melhor é vires de preto, e não fazeres grande toilette. Nada de decotes nem de côres claras.»
Quando entrou em casa, viu um gallego sahindo com a trouxasita de Joanna. E logo no corredor sentiu a voz grossa da rapariga, que das escadas da cozinha dizia para cima, ameaçadoramente:
—Torne eu a apanhal-a, que não me sahe viva das mãos, sua bebeda!