«Minha querida Luiza.
«Seria longo explicar-te, como só antes d'hontem em Nice—d'onde cheguei esta madrugada a Paris—recebi a tua carta, que pelos carimbos vejo que percorreu toda a Europa atraz de mim. Como já lá vão dous mezes e meio que a escreveste, imagino que te arranjaste com a mulher, e que não precisas do dinheiro. De resto se por acaso o queres, manda um telegramma e tens-l'o ahi em dous dias. Vejo pela tua carta que não acreditaste nunca que a minha partida fosse motivada por negocios. És bem injusta. A minha partida não te devia ter tirado, como tu dizes, todas as illusões sobre o amor, porque foi realmente quando sahi de Lisboa que percebi quanto te amava, e não ha dia, acredita, em que me não lembre do Paraiso. Que boas manhãs! Passaste por lá por acaso alguma outra vez? Lembras-te do nosso lunch? Não tenho tempo para mais. Talvez em breve volte a Lisboa. Espero vêr-te, porque sem ti Lisboa é para mim um desterro.
«Um longo beijo do
«Teu do C.
«Bazilio».
Jorge dobrou o papel, lentamente, em duas, em quatro dobras, atirou-o para cima da mesa, disse alto:
—Sim, senhor! bonito!
Encheu o cachimbo de tabaco machinalmente, com os olhos vagos, os beiços a tremer: deu alguns passos incertos pelo escriptorio:—de repente arremessou o cachimbo que despedaçou um vidro da janella, bateu com as mãos desvairado, e atirando-se de bruços para cima da mesa, rompeu a chorar, rolando a cabeça entre os braços, mordendo as mangas, batendo com os pés, louco!
Ergueu-se subitamente, agarrou a carta, ia com ella á alcova de Luiza. Mas a lembrança das palavras de Julião immobilisou-o: que esteja socegada, nada de phrases, nenhuma excitação! Fechou a carta n'uma gaveta, metteu a chave na algibeira. E de pé, a tremer, com os olhos raiados de sangue, sentia idéas insensatas alumiarem-lhe bruscamente o cerebro, como relampagos n'uma tormenta—matal-a, sahir de casa, abandonal-a, fazer saltar os miolos...
A Marianna bateu ligeiramente á porta, disse-lhe que a senhora o chamava.
Uma onda de sangue subiu-lhe á cabeça; fitava Marianna, estupido, batendo as palpebras:
—Já vou—disse com a voz rouca.
Ao passar na sala, diante do espelho oval, ficou pasmado do seu rosto manchado, envelhecido. Foi correr uma toalha molhada pela face, alisou o cabello: e ao entrar na alcova, ao vêl-a, com os seus grandes olhos dilatados onde a febre reluzia, teve de se agarrar á barra do leito, porque sentiu, em redor, as paredes oscillarem como lonas ao vento.
Mas sorriu-lhe:
—Como estás?
—Mal—murmurou ella debilmente.
Chamou-o para ao pé de si com um gesto muito fatigado.
Elle veio, sentou-se sem a olhar.
—Que tens?—disse ella chegando o rosto para elle.—Não te afflijas.—E tomou a mão que elle pousára á beira do leito.
Jorge, com um repellão secco, sacudiu a mão d'ella, ergueu-se bruscamente com os dentes cerrados; sentia uma colera brutal; ia-se, com medo de si, de um crime, quando ouviu a voz de Luiza, arrastando-se, n'uma lamentação:
—Porque, Jorge? Que tens?...
Voltou-se; viu-a meia erguida com os olhos abertos para elle, uma angustia no rosto; e duas lagrimas cahiam-lhe, silenciosamente.
Atirou-se de joelhos, agarrou-lhe as mãos, aos soluços.
—Que é isto?—exclamou a voz de Julião á porta da alcova.
Jorge, muito pallido, ergueu-se devagar.
Julião levou-o para a sala, e cruzando terrivelmente os braços diante d'elle:
—Tu estás doudo? Pois tu sabes que ella está n'um estado d'aquelles, e vaes-te pôr a fazer-lhe scenas de lagrimas?
—Não me pude conter...
—Estoura. Eu estou a cortar-lhe a febre por um lado, e tu a dar-lh'a por outro? Estás doudo!
Estava realmente indignado. Interessava-se por Luiza como doente. Desejava muito cural-a; e sentia uma satisfação em exercer o dominio de pessoa necessaria n'aquella casa, onde as suas visitas tinham tido sempre uma attitude dependente; mesmo agora ao sahir, não se esquecia de offerecer negligentemente um charuto a Jorge.
Jorge foi heroico durante toda essa tarde. Não podia estar muito tempo na alcova de Luiza, a desesperação trazia-o n'um movimento contradictorio; mas ia lá a cada momento, sorria-lhe, conchegava-lhe a roupa com as mãos tremulas; e como ella dormitava, ficava immovel a olhal-a feição por feição, com uma curiosidade dolorosa e immoral, com para lhe surprehender no rosto vestigios de beijos alheios, esperando ouvir-lhe n'algum sonho da febre murmurar um nome ou uma data; e amava-a mais desde que a suppunha infiel, mas d'um outro amor, carnal e perverso. Depois ia-se fechar no escriptorio, e movia-se alli entre as paredes estreitas, como um animal n'uma jaula. Releu a carta infinitas vezes, e a mesma curiosidade roedora, baixa, vil, torturava-o sem cessar: Como tinha sido? Onde era o Paraiso? Havia uma cama? Que vestido levava ella? O que lhe dizia? Que beijos lhe dava?
Foi relêr todas as cartas que ella lhe escrevêra para o Alemtejo, procurando descobrir nas palavras symptomas de frieza, a data da traição! Tinha-lhe odio então, voltavam-lhe ao cerebro idéas homicidas—esganal-a, dar-lhe chloroformio, fazer-lhe beber laudano! E depois immovel, encostado á janella, ficava esquecido n'um scismar espesso, revendo o passado, o dia do seu casamento, certos passeios que déra com ella, palavras que ella dissera...
Ás vezes pensava—seria a carta uma mistificação? Algum inimigo d'elle podia tel-a escripto, remettido para França. Ou talvez Bazilio tivesse outra Luiza em Lisboa, e por engano ao sobrescriptar o enveloppe tivesse escripto o nome da prima; e a alegria momentanea que lhe davam aquellas phantasias fazia-lhe parecer a realidade mais cruel. Mas como fôra? como fôra? Se podesse saber a verdade! Tinha a certeza que socegaria, então! Arrancaria de certo do seu peito aquelle amor como um parasita immundo; apenas ella melhorasse, leval-a-hia a um convento, e elle iria morrer longe, n'Africa, ou algures... Mas quem saberia?... Juliana!
Era ella que sabia! De certo! E todas as condescendencias d'ella por Juliana, os moveis, o quarto, as roupas, comprehendeu tudo! Era a pagar a cumplicidade! Era a sua confidente! Levava as cartas, sabia tudo. E estava na valla, morta, sem poder fallar, a maldita!
Sebastião, como costumava, veio á noitinha. Não havia ainda luzes, e, apenas elle entrou, Jorge chamou-o ao escriptorio, calado, accendeu uma vela, tirou a carta da gaveta.
—Lê isto.
Sebastião ficára assombrado ao vêr o rosto de Jorge. Olhava a carta fechada, e tremia. Apenas viu a assignatura, uma pallidez d'agonia cobriu-lhe o rosto. Parecia-lhe que o soalho tinha uma vibração onde elle se firmava mal. Mas dominou-se, leu devagar, pousou a carta sobre a mesa, sem uma palavra.
Jorge disse então:
—Sebastião, isto p'ra mim é a morte. Sebastião, tu sabes alguma cousa. Tu vinhas aqui. Tu sabes. Dize-me a verdade!
Sebastião abriu devagar os braços e respondeu:
—Que te hei-de eu dizer? Não sei nada!
Jorge agarrou-lhe as mãos, sacudiu-lh'as, e procurando o seu olhar anciosamente:
—Sebastião, pela nossa amizade, pela alma de tua mãi, por tantos annos que temos passado juntos, Sebastião, dize-me a verdade!...
—Não sei nada. Que hei-de eu saber?
—Mentes!
Sebastião disse apenas:
—Podem-te ouvir, homem!
Houve um silencio: Jorge apertava as fontes nas mãos, com passadas pelo escriptorio, que faziam vibrar o soalho; e de repente pondo-se diante de Sebastião, quasi supplicante:
—Mas dize-me ao menos o que fazia ella! Sahia? Vinha aqui alguem?
Sebastião respondeu devagar, os olhos fixos na luz:
—Vinha o primo ás vezes, ao principio. Quando a D. Felicidade esteve doente, ella ia vêl-a... O primo depois partiu... Não sei mais nada.
Jorge esteve um momento a olhar Sebastião, com uma fixidez abstracta.
—Mas que lhe fiz eu, Sebastião? Que lhe fiz eu? Adorava-a! Que lhe fiz eu p'ra isto? Eu, que a adorava, áquella mulher!
Rompeu a chorar.
Sebastião ficára de pé junto á mesa, estupido, aniquilado.
—Foi talvez uma brincadeira, apenas...—murmurou.
—E o que diz a carta?—gritou Jorge, voltando-se n'uma colera, sacudindo o papel.—Este Paraiso! As boas manhãs lá passadas! É uma infame!...
—Está doente, Jorge—disse apenas Sebastião.
Jorge não respondeu. Passeou calado algum tempo. Sebastião, immovel, fatigava a vista contra a chamma da luz. Jorge então fechou a carta na gaveta, e tomando o castiçal com um tom de lassidão lugubre e resignado:
—Queres vir tomar chá, Sebastião?
E não tornaram mais a fallar na carta.
N'essa noite Jorge dormiu profundamente. Ao outro dia o seu rosto estava impassivel, d'uma serenidade livida.
Foi d'ahi por diante o enfermeiro de Luiza.
A doença, depois d'uma marcha incerta durante tres dias, definiu-se: eram crescimentos; enfraquecia muito, mas Julião estava tranquillo.
Jorge passava os seus dias ao pé d'ella. D. Felicidade vinha ordinariamente pelas manhãs: sentava-se aos pés da cama, e ficava calada, com uma face envelhecida; aquella esperança na mulher de Tuy tão subitamente destruida abalára-a como um velho edificio a que se tira subitamente um pilar; ia-se tornando ruina; e só se animava quando o Conselheiro apparecia pelas tres horas a saber da «nossa formosa enferma». Trazia sempre alguma palavra grave que dizia com um tom profundo, conservando o chapéo na mão, sem querer entrar na alcova, por pudor:
—A saude é um bem que só apreciamos quando nos foge!
Ou:
—A doença serve para aquilatarmos os amigos.
E terminava sempre:
—Meu Jorge, as rosas da saude bem cedo reflorirão nas faces de sua virtuosa esposa!...
De noite Jorge dormia vestido, n'um enxergão sobre o chão; mas apenas cerrava os olhos uma ou duas horas. O resto da noite procurava lêr: começava um romance, mas nunca ia além das primeiras linhas; esquecia o livro, e com a cabeça entre as mãos punha-se a pensar: era sempre a mesma idéa—como tinha sido? Conseguira reconstruir aproximadamente, com logica, certos factos; via bem Bazilio chegando, vindo visital-a, desejando-a, mandando-lhe ramos, perseguindo-a, indo-a vêr aqui e além, escrevendo-lhe; mas depois? Viera já a comprehender que o dinheiro era para Juliana. A creatura tivera alguma exigencia: tinha-os surprehendido? possuia cartas?... E encontrava, n'aquella reconstrucção dolorosa, falhas, vazios, como buracos escuros, onde a sua alma se arremessava sofregamente. Então começava a recordar os ultimos mezes desde a sua volta do Alemtejo, e como ella se mostrára amante, e que ardor punha nas suas caricias... Para que o enganára então?
Uma noite, com precauções de ladrão, rebuscou todas as gavetas d'ella, esquadrinhou os vestidos, até as dobras da roupa branca, as caixas de collares, de rendas; viu bem o cofre de sandalo; estava vazio; nem o pó d'uma flôr secca! Ás vezes punha-se a fitar os moveis no quarto, na sala, a sondal-os como se quizesse descobrir n'elles os vestigios do adulterio. Ter-se-hiam sentado alli? Elle teria ajoelhado aos pés d'ella, acolá, sobre o tapete? Sobretudo o divan tão largo, tão commodo, desesperava-o; tomou-lhe odio. Veio a detestar mesmo a casa, como se os tectos que os tinham coberto, os soalhos que os tinham sustentado tivessem uma cumplicidade consciente. Mas o que o torturava sobretudo eram aquellas palavras—o Paraiso, as boas manhãs...
Luiza então já dormia tranquillamente. Ao fim de uma semana os crescimentos desappareceram. Mas estava muito fraca: no dia em que pela primeira vez se levantou, desmaiou duas vezes: era necessario vestil-a, trazel-a amparada para a chaise-longue: e não dispensava Jorge, queria-o alli, ao pé, com exigencias de criança! Parecia receber a vida dos seus olhos, a saude do contacto das suas mãos. Fazia-lhe lêr o jornal pela manhã, e vir escrever para ao pé d'ella. Elle obedecia, e mesmo aquellas instancias eram para a sua dôr como caricias consoladoras. É porque o amava de certo!
Sentia então, machinalmente, abertas de felicidade. Surprehendia-se a dizer-lhe ternuras, a rir com ella, esquecido, como d'antes! E, estendida na chaise-longue, Luiza, contente, percorria antigos volumes da Illustração franceza, que lhe mandára o Conselheiro,—«onde», segundo elle lhe dissera, «podia, ao mesmo tempo que se divertia com os desenhos, adquirir noções uteis sobre importantes acontecimentos historicos»; ou, com a cabeça reclinada, saboreava a felicidade de melhorar, de estar livre das tyrannias da outra, das amarguras do passado.
Uma das suas alegrias era vêr entrar a Marianna com o seu jantarzinho disposto n'um guardanapo sobre o taboleiro; tinha appetite, saboreava muito o calix de vinho do Porto, que Julião recommendára; quando Jorge não estava, fazia longas conversações com Marianna, palrando baixo, consolada, e lambendo colherinhas de gelatina.
Ás vezes, calada, com os olhos no tecto, fazia planos. Dizia-os depois a Jorge: iria estar duas semanas no campo, para ganhar forças; á volta começaria a bordar tiras de casimira para cobrir as cadeiras da sala; porque queria occupar-se muito da casa, viver recolhida; elle não voltaria ao Alemtejo, não sahiria de Lisboa, não é verdade? E a sua vida seria d'ahi por diante d'uma doçura continua e facil.
Mas Luiza ás vezes achava-o «macambusio». Que tinha? Elle explicava pela fadiga, pelas noites mal dormidas... Se adoecesse, ao menos, dizia ella, que fosse quando ella estivesse forte para o tratar, para o velar!... Mas não adoeceria, não? E fazia-o sentar ao pé de si, passava-lhe a mão pelos cabellos, com o olhar quebrado, porque com as forças que renasciam vinham os impulsos do seu temperamento amoroso. Jorge sentia que a adorava, e era mais desgraçado!
Luiza, só comsigo, tinha outras resoluções. Não tornaria a vêr Leopoldina, e frequentaria as igrejas. Sahia da doença com uma vaga sentimentalidade devota. Durante a febre, em certos pesadêlos de que lhe ficára uma indistincta idéa aterrada, vira-se ás vezes n'um lugar pavoroso, onde corpos se erguiam, torcendo os braços, do meio de chammas escarlates: fórmas negras giravam com espetos em braza, um rugido d'agonia subia para a mudez do céo: e já lhe tocavam o peito linguas de fogueiras, quando alguma cousa de dôce e d'ineffavel de repente a refrescava; eram as azas d'um anjo luminoso e sereno, que a tomava nos braços; e ella sentia-se elevar, apoiando a cabeça contra o seio divino, que a penetrava d'uma felicidade sobrenatural; via as estrellas de perto, ouvia fremitos d'azas. Aquella sensação deixára-lhe como uma recordação saudosa do céo. E aspirava a ella, nas debilidades da convalescença, esperando ganhal-a pela pontualidade á missa, e pela repetição de corôas á Virgem.
Emfim uma manhã veio á sala, e abriu pela primeira vez o piano; Jorge, á janella, olhava para a rua—quando ella o chamou, e sorrindo:
—Estou a detestar, ha tempos, aquelle divan—disse.—Podia-se tirar, não te parece?
Jorge sentiu uma pancada no coração: não pôde responder logo; disse, emfim, com esforço:
—Sim, parece...
—Estou com vontade de o tirar—disse ella sahindo da sala, arrastando tranquillamente a longa cauda do seu roupão.
Jorge não pôde destacar os olhos do divan. Veio mesmo sentar-se n'elle; passava a mão sobre o estofo ás listras; e sentia um prazer doloroso em verificar que fôra alli!
Principiára a vir-lhe agora uma especie de resignação sombria; quando a ouvia gozar tanto as melhoras, fallar com felicidade de futuros tranquillos, decidia-se a aniquilar a carta, esquecer tudo. Ella tinha-se arrependido de certo, amava-o: para que havia de crear a sangue frio uma infelicidade perpetua? Mas quando a via com os seus movimentos languidos estender-se na chaise-longue, ou ao despir-se mostrar a brancura do seu collo—e pensava que aquelles braços tinham enlaçado outro homem, aquella bocca gemido de amor n'uma cama alheia—vinha-lhe uma onda de cólera bruta, precisava sahir para a não esganar!
Para explicar os seus maus humores, os seus silencios, começou a queixar-se, a dizer-se doente. E as solicitudes d'ella, então, as interrogações mudas do seu olhar inquieto faziam-o mais infeliz—por se sentir amado, agora que se sabia trahido!
Um domingo emfim Julião deu licença a Luiza para se deitar mais tarde, e fazer á noite as honras da casa. Foi uma alegria para todos vel-a na sala, ainda um pouco pallida e fraca,—mas, como disse o Conselheiro, restituida aos deveres domesticos e aos prazeres da sociedade!
Julião que veio ás nove horas achou-a como nova. E abrindo os braços, no meio da sala:
—E que me dizem á novidade?—exclamou—A peça do Ernesto teve um triumpho!...
Assim tinham lido nos jornaes. O Diario de Noticias dizia mesmo que o «author chamado ao proscenio, no meio do mais vivo enthusiasmo, recebera uma formosa corôa de louros». Luiza declarou logo que queria ir vêr!
—Mais tarde, D. Luiza, mais tarde—acudiu com prudencia o Conselheiro.—Por ora é conveniente evitar toda a commoção forte. As lagrimas que não deixaria de derramar, conheço o seu bom coração, podiam produzir uma recahida. Não é verdade, amigo Julião?
—De certo, Conselheiro, de certo. Eu tambem quero ir. Quero convencer-me por meus olhos...
Mas o ruido d'uma carruagem, lançada a trote largo, que parou á porta, interrompeu-o. A campainha retiniu fortemente.
—Aposto que é o author!—exclamou elle.
E quasi immediatamente a figura radiante de Ernestinho, de casaca, precipitou-se na sala: ergueram-se com ruido, abraçaram-no: mil parabens! mil parabens! E a voz do Conselheiro, dominando as outras:
—Bem vindo o festejado author! Bem vindo!
Ernesto suffocava de jubilo. Tinha um sorriso immobilisado; as azas do nariz dilatavam-se-lhe, como para respirar os incensos; trazia o peito alto, enfunado d'orgulho; e movia a cabeça, sem cessar, como n'um agradecimento instinctivo a multidões applaudidoras.
—Aqui estou! aqui estou!—disse.
Sentou-se offegante; e, com um modo amavel de Deus-bom-rapaz, declarou que os ultimos ensaios de apuro não lhe tinham deixado um momento para vir vêr a prima Luiza. Tinha tido n'aquella noite um instante de seu, mas devia voltar ás dez horas para o theatro: até nem mandára a tipoia embora...
Contou então largamente o triumpho. Ao principio tivera «grandes colicas». Todos as tinham, os mais acostumados, os mais illustres! Mas apenas o Campos disse o monologo do primeiro acto—e como o disse! haviam de vêr, uma cousa sublime!—os applausos romperam. Tinha agradado tudo. No fim era um barulho, gritos pelo author, salvas de palmas... Elle viera ao palco, arrastado; não queria, mas obrigaram-no, a Jesuina por um lado, a Maria Adelaide por outro! Um delirio! O Savedra do Seculo tinha-lhe dito: o amigo é o nosso Shakspeare! O Bastos da Verdade tinha affirmado: és o nosso Scribe! Houve uma cêa. E tinham-lhe dado uma corôa.
—E serve-lhe?—acudiu Julião.
—Perfeitamente; um bocadinho larga...
O Conselheiro disse com authoridade:
—Os grandes authores, o famigerado Tasso, o nosso Camões são sempre representados com as suas respectivas corôas.
—É o que eu lhe aconselho, snr. Ledesma—acudiu Julião, erguendo-se e batendo-lhe no hombro—é que se faça retratar de corôa!...
Riram.
E Ernestinho, um pouco despeitado, desdobrando o seu lenço perfumado:
—O snr. Zuzarte não dispensa o seu epigrammasinho...
—É a prova da gloria, meu amigo. Nos triumphos dos generaes victoriosos, em Roma, havia um bobo no prestito!
—Eu não sei!—disse Luiza muito risonha—É uma honra p'ra a familia!...
Jorge concordou. Passeava pela sala fumando; e disse que gozava tanto a corôa, como se tivesse direito a usal-a...
E Ernestinho voltando-se logo para elle:
—Sabes que lhe perdoei, primo Jorge? Perdoei á esposa...
—Como Christo...
—Como Christo—confirmou Ernestinho, com satisfação.
D. Felicidade approvou logo:
—Fez muito bem! Até é mais moral!
—O Jorge é que queria que eu désse cabo d'ella—disse Ernestinho, rindo tolamente.—Não se lembra, n'aquella noite...
—Sim, sim—fez Jorge, rindo tambem, nervosamente.
—O nosso Jorge—disse com solemnidade o Conselheiro—não podia conservar idéas tão extremas. E de certo a reflexão, a experiencia da vida...
—Mudei, Conselheiro, mudei—interrompeu Jorge.
E entrou bruscamente no escriptorio.
Sebastião, inquieto, foi devagar ter com elle. Estava ás escuras.
—Aquelles idiotas não se calarão? Não se irão?—disse elle abafadamente, agarrando o braço de Sebastião.
—Socega!
—Oh Sebastião! Sebastião!—E sua voz tremia, com lagrimas.
Mas Luiza, da sala, gritou:
—Que conspiração é essa ahi dentro ás escuras?
Sebastião appareceu logo, dizendo:
—Nada, nada. Estavamos lá dentro...—E acrescentou baixo:—O Jorge está fatigado. Está adoentado, coitado!
Notaram, quando elle voltou—que tinha com effeito o ar exquisito.
—Não, realmente não me sinto bom, estou incommodado!
—E a debil D. Luiza precisa o repouso do seu leito—disse o Conselheiro erguendo-se.
Ernestinho que não se podia demorar, offereceu logo ao Conselheiro e a Julião—«a sua carruagem, que era um caleche, se iam para a baixa...»
—Que honra—exclamou Julião olhando Accacio—irmos na tipoia do Grande Homem!
E em quanto D. Felicidade se agasalhava, os tres desceram.
No meio da escada Julião parou, e cruzando os braços:
—Ora aqui vou eu entre os representantes dos dous grandes movimentos de Portugal desde 1820. A Litteratura—e comprimentou Ernestinho—e o Constitucionalismo!—e curvou-se para o Conselheiro.
Os dous riram, lisongeados.
—E o amigo Zuzarte?
—Eu?—E baixando a voz:—Até ha dias um revolucionario terrivel. Mas agora...
—O quê?
—Um amigo da ordem—gritou com jubilo.
E desceram, contentes de si e do seu paiz, para se metterem na tipoia do Grande Homem!
XVII
Ao outro dia Jorge foi ao ministerio, onde não tinha apparecido nos ultimos tempos. Mas demorou-se pouco. A rua, a presença dos conhecidos ou dos estranhos torturava-o; parecia-lhe que todo o mundo sabia; nos olhares mais naturaes via uma intenção maligna, e nos apertos de mão mais sinceros uma ironica pressão de pezames; as carruagens mesmo que passavam davam-lhe a suspeita de a terem conduzido ao rendez-vous, e todas as casas lhe pareciam a fachada infame do Paraiso. Voltou mais sombrio, infeliz, sentindo a vida estragada. E logo do corredor ao entrar ouviu Luiza cantarolando, como outr'ora, a Mandolinata!
Estava-se a vestir.
—Como estás tu?—perguntou, pondo a um canto a sua bengala.
—Estou boa. Hoje estou muito melhor. Um bocado fraca ainda...
Jorge deu alguns passos pelo quarto, taciturno.
—E tu?—perguntou-lhe ella.
—P'ra aqui ando—disse tão desconsoladamente que Luiza pousou o pente, e com os cabellos soltos veio pôr-lhe as mãos nos hombros, muito carinhosa:
—Que tens tu? Tu tens alguma cousa. Estranho-te tanto ha dias! Não és o mesmo! Ás vezes estás com uma cara de réo... Que é? Dize.
E os seus olhos procuravam os d'elle, que se desviavam perturbados.
Abraçou-o. Insistia, queria que dissesse tudo á «sua mulherzinha».
—Dize. Que tens?
Elle olhou-a muito, e de repente, com uma resolução violenta:
—Pois bem, digo-te. Tu agora estás boa, pódes ouvir... Luiza! vivo n'um inferno ha duas semanas. Não posso mais... Tu estás boa, não é verdade? Pois bem, que quer dizer isto? Dize a verdade!
E estendeu-lhe a carta de Bazilio.
—O que é?—fez ella muito branca. E o papel dobrado tremia-lhe na mão.
Abriu-a devagar, viu a letra de Bazilio, n'um relance adivinhou-a. Fixou Jorge um momento d'um modo desvairado, estendeu os braços sem poder fallar, levou as mãos á cabeça com um gesto ancioso como se se sentisse ferida, e oscillando, com um grito rouco, cahiu sobre os joelhos, ficou estirada no tapete.
Jorge gritou. As criadas acudiram. Estenderam-na na cama. Elle quiz que Joanna corresse a chamar Sebastião; e ficou, como petrificado, junto ao leito, olhando-a, em quanto Marianna toda tremula desatacava os espartilhos da senhora.
Sebastião veio logo. Felizmente havia ether, fizeram-lh'o respirar; apenas abriu lentamente os olhos, Jorge precipitou-se sobre ella:
—Luiza, ouve, falla! Não, não tem duvida. Mas falla. Dize, que tens?
Ao ouvir a voz d'elle desmaiou outra vez. Movimentos convulsivos sacudiam-lhe o corpo. Sebastião correu a buscar Julião.
Luiza parecia adormecida agora, immovel, branca como cera, as mãos pousadas sobre a colcha; e duas lagrimas corriam-lhe devagar pelas faces.
Um trem parou. Julião appareceu esbaforido.
—Achou-se mal de repente... Vê, Julião. Está muito mal!—disse Jorge.
Fizeram-lhe respirar mais ether; despertou outra vez. Julião fallou-lhe, tomando-lhe o pulso.
—Não, não, ninguem!—murmurou ella, retirando a mão. Repetiu com impaciencia:—Não, vão-se, não quero...—As suas lagrimas redobravam. E como elles sahiam da alcova para a não excitar contrariando-a, ouviram-na chamar:—Jorge!
Elle ajoelhou-se ao pé da cama, e fallando-lhe junto do rosto:
—Que tens tu? Não se falla mais em tal. Acabou-se. Não estejas doente. Juro-te, amo-te... Fosse o que fosse, não me importa. Não quero saber, não.
E como ella ia fallar, elle pousou-lhe a mão na bocca:
—Não, não quero ouvir. Quero que estejas boa, que não soffras! Dize que estás boa! Que tens? Vamos ámanhã para o campo, e esquece-se tudo. Foi uma cousa que passou...
Ella disse apenas com a voz sumida:
—Oh! Jorge! Jorge!
—Bem sei... Mas agora vaes ser feliz outra vez... Dize, que sentes?
—Aqui—disse ella, e levava as mãos á cabeça.—Dóe-me!
Elle ergueu-se para chamar Julião, mas ella reteve-o, attrahiu-o; e devorando-o com olhos onde a febre se accendia, adiantando o rosto, estendia-lhe os labios. Elle deu-lhe um beijo inteiro, sincero, cheio de perdão.
—Oh! minha pobre cabeça!—gritou ella.
As fontes latejavam-lhe, e uma côr ardente, sêcca, esbrazeava-lhe o rosto.
Como era habituada a enxaquecas, Julião traquillisou-os; recommendou um socego immovel e sinapismos de mostarda aos pés,—até que elle voltasse.
Jorge ficou junto do leito, taciturno, cortado de presentimentos, de sustos, suspirando ás vezes.
Eram então quatro horas; cahia uma chuva miudinha, ennevoada; a alcova tinha uma luz lugubre.
—Não ha-de ser nada...—dizia Sebastião.
Luiza agitava-se no leito, apertando as mãos na cabeça, torturada pela dôr crescente, cheia de sêde.
Marianna acabava d'arrumar em pontas de pés, vagamente assombrada d'aquella casa, onde só vira desgosto e doença: mas só o pousar subtil dos seus passos fazia soffrer Luiza, como se fossem martelladas sobre o craneo.
Julião não tardou; logo da porta do quarto, o aspecto d'ella inquietou-o. Accendeu um phosphoro, aproximou-lh'o do rosto; e aquella luz fez-lhe dar um grito como se um ferro frio lhe trespassasse a cabeça.
Os olhos dilatados tinham um reluzir metallico. Conservava-se muito quieta, porque o gesto mais lento lhe dava na nuca dôres penetrantes que a dilaceravam. Só de vez em quando sorria para Jorge com uma expressão d'afflicção serena e muda.
Julião fez logo pôr tres travesseiros, para lhe conservar a cabeça alta. Fóra cahia o crepusculo humido. Andavam em bicos de pés, com cuidado; e mesmo tiraram o relogio da parede para afastar o tic-tac monotono. Ella começava agora a murmurar sons cançados, e a voltar-se com movimentos bruscos que lhe arrancavam gritos; ou immovel gemia d'um modo continuo e angustioso. Tinham-lhe envolvido as pernas n'um longo sinapismo; mas não o sentia. Pelas nove horas começou a delirar; a lingua tornára-se-lhe branca e dura, como de gesso sujo.
Julião fez logo applicar na cabeça compressas d'agua fria. Mas o delirio exacerbava-se.
Ora tinha um murmurio espesso, um vago rosnar modorrento—onde os nomes de Leopoldina, de Jorge, de Bazilio voltavam incessantemente: depois debatia-se, esgaçava a camisa com as mãos; e, arqueando-se, os seus olhos rolavam, como largos bugalhos prateados onde a pupilla se sumia.
Socegava mais; dava risadinhas d'uma doçura idiota; tinha gestos lentos sobre o lençol, que aconchegavam e acariciavam, como n'um gozo tepido: depois começava a respirar anciosamente, vinham-lhe expressões torturadas de terror, queria enterrar-se nos travesseiros e nos colxões, fugindo a aspectos pavorosos: punha-se então a apertar a cabeça phreneticamente, pedia que lh'a abrissem, que a tinha cheia de pedras, que tivessem piedade d'ella!—e fios de lagrimas corriam-lhe pelo rosto. Não sentia os sinapismos; expunham-lhe agora os pés nús ao vapor d'agua a ferver, carregada de mostarda; um cheiro acre adstringia o ar do quarto. Jorge fallava-lhe com toda a sorte de palavras consoladoras e supplicantes: pedia-lhe que socegasse, que o conhecesse; mas de repente ella desesperava-se, gritava pela carta, maldizia Juliana—ou então dizia palavras d'amor, enumerava sommas de dinheiro... Jorge temia que aquelle delirio revelasse tudo a Julião, ás criadas: tinha um suor á raiz dos cabellos—e quando ella, um momento, julgando-se no Paraiso e nas exaltações do adulterio, chamou Bazilio, pediu champagne, teve palavras libertinas, Jorge fugiu da alcova allucinado, foi para a sala ás escuras, atirou-se para o divan a soluçar, arrepellou-se, blasphemou.
—Está em perigo?—perguntou Sebastião.
—Está—disse Julião.—Se sentisse os sinapismos, ao menos! Mas estas malditas febres cerebraes...
Calaram-se vendo Jorge entrar na alcova, com o rosto manchado, esguedelhado.
E Julião tomando-o pelo braço, levando-o para fóra:
—Ouve lá, é necessario cortar-lhe o cabello, e rapar-lhe a cabeça.
Jorge olhou-o com um ar estupido:
—O cabello?—E agarrando-lhe os braços:—Não, Julião, não, hein? Póde-se fazer outra cousa. Tu deves saber. O cabello não! Não! Isso não, pelo amor de Deus! Ella não está em perigo. P'ra quê?
Mas aquella massa de cabello era o diabo, impedia a acção da agua!
—Ámanhã, se fôr necessario. Ámanhã! Espera até ámanhã... Obrigado, Julião, obrigado!
Julião consentiu, contrariado. Fazia então humedecer constantemente as compressas da cabeça, e como Marianna tremula, desgeitosa, molhava muito o travesseiro, foi Sebastião que se collocou á cabeceira da cama, toda a noite, espremendo sem cessar uma esponja, d'onde a agua gotejava lentamente; tinham jarros fóra da varanda, na sala, para dar á agua uma frialdade gelada. O delirio alta noite acalmára um pouco. Mas o seu olhar injectado tinha um aspecto selvagem: as pupillas pareciam apenas um ponto negro.
Jorge, sentado aos pés da cama, com a cabeça entre as mãos, olhava para ella: lembravam-lhe vagamente outras noites de doença assim, quando ella tivera a pneumonia: e melhorára! Até ficára mais linda, com tons de pallidez que lhe adoçavam a expressão! Iriam para o campo quando ella convalescesse: alugaria uma casinha: voltaria á noite no omnibus, e vêl-a-hia de longe na estrada vindo ao seu encontro, com um vestido claro, na tarde suave!... Mas ella gemia, elle erguia os olhos sobresaltado: e não lhe parecia a mesma: afigurava-se-lhe que se ia dissipando, desapparecendo n'aquelle ar de febre que enchia a alcova, no silencio morbido da noite, e no cheiro da mostarda. Um soluço sacudia-o, e recahia na sua immobilidade.
Joanna, em cima, rezava. As velas, com uma chamma alta e direita, extinguiam-se.
Emfim uma vaga claridade desenhou nos transparentes brancos os caixilhos da vidraça. Amanhecia. Jorge ergueu-se, foi olhar para a rua. Não chovia; a calçada seccava. O ar tinha uma vaga côr d'aço. Tudo dormia: e uma toalha, esquecida á janella das Azevedos, agitava-se ao vento frio, silenciosamente.
Quando entrou na alcova Luiza fallava com uma voz extincta: sentia muito vagamente os sinapismos, mas a dôr de cabeça não cessava. Começou a agitar-se—e o delirio d'ahi a pouco voltou. Julião, então, determinou que se lhe rapasse o cabello.
Sebastião foi acordar um barbeiro na rua da Escóla—que veio logo, com um ar transido, a gola do casaco levantada; e batendo o queixo começou a tirar immediatamente d'um sacco de couro as navalhas, as tesouras, devagar, com as mãos molles da gordura das pomadas.
Jorge foi refugiar-se na sala: parecia-lhe que grandes pedaços mutilados da sua felicidade cahiam com aquellas lindas tranças, destruidas ás tesouradas; e com a cabeça nas mãos recordava certos penteados que ella usava, noites em que os seus cabellos se tinham desmanchado nas alegrias da paixão, tons com que brilhavam á luz... Voltou ao quarto, attrahido irresistivelmente; sentiu na alcova o ruido secco e metallico das tesouras; sobre a mesa, n'uma caixa de sabão, estava um velho pincel de barba, entre flocos d'espuma... Chamou Sebastião baixo:
—Dize-lhe que se avie! Estão-me a matar a fogo lento! É de mais. Que ande depressa!
Foi á sala de jantar, errou pela casa: a manhã fria clareava; erguera-se vento, que ia levando, aos pedaços, nuvens d'um tom alvadio.
Quando tornou a entrar no quarto, o barbeiro guardava as navalhas com a mesma lentidão molle; e tomando o seu chapéo desabado, sahiu em bicos de pés, murmurando n'um tom funerario:
—Estimo as melhoras. Deus ha-de permittir que não seja nada...
O delirio com effeito d'ahi a uma hora acalmou:—e Luiza cahiu n'uma somnolencia prostrada com gemidos fracos, que sahiam de seus labios como a lamentação interior da vida vencida.
Jorge tinha então dito a Sebastião que desejava chamar o doutor Caminha. Era um medico velho que tratára sua mãi, e que curára Luiza da pneumonia, no segundo anno de casada. Jorge conservára uma admiração agradecida por aquella reputação antiquada; e agora a sua esperança voltava-se sofregamente para elle, anciando pela sua presença como pela apparição d'um santo.
Julião condescendeu logo. Até estimava! E Sebastião desceu correndo, para ir a casa do dr. Caminha.
Luiza, que sahira um momento do seu torpôr, sentiu-os fallar baixo. A sua voz extincta chamou Jorge:
—Cortaram-me o cabello...—murmurou tristemente.
—É para te fazer bem—disse-lhe Jorge, quasi tão agonisante como ella.—Cresce logo. Até te vem melhor...
Ella não respondeu; duas lagrimas silenciosas correram-lhe pelos cantos dos olhos.
Devia ser a sua ultima sensação: a prostração comatosa ia-a immobilisando, apenas a sua cabeça rolava n'um movimento dôce e vagaroso sobre o travesseiro, gemendo sempre com um cansaço triste; a pelle empallidecia como um vidro de janella, por traz do qual lentamente uma luz se apaga; e mesmo os ruidos da rua que começavam não a impressionavam, como se fossem muito distantes e abafados em algodão.
Ao meio dia D. Felicidade appareceu. Ficou petrificada quando a viu tão mal: e ella que a vinha buscar para irem á Encarnação, talvez ás lojas! Tirou logo o chapéo, installou-se; fez arranjar a alcova, tirar as bacias, os velhos sinapismos que arrastavam, compôr a cama—«porque não havia peor p'ra um doente que desarranjo no quarto»: e muito corajosamente animava Jorge.
Uma carruagem parou á porta. Era o doutor Caminha, emfim!... Entrou atabafado no seu cachenez de quadrados verdes e pretos, queixando-se muito do frio;—e tirando devagar as grossas luvas de casimira, que pôz dentro do chapéo methodicamente, adiantou-se para a alcova com um passo cadenciado, acamando com a mão as suas repas grisalhas já muito colladas ao craneo pela escova.
Julião e elle ficaram sós na alcova.
No quarto os outros esperavam calados, ao pé de Jorge, pallido como cêra, com os olhos vermelhos como carvões.
—Vai-se-lhe pôr um caustico na nuca—veio dizer Julião.
Jorge devorava com o olhar ancioso o doutor Caminha, que se pozera a calçar tranquillamente as suas luvas de casimira, dizendo:
—Vamos a vêr com o caustico. Não está bem... Mas ha ainda peor. E eu volto, meu amigo, eu volto.
O caustico foi inutil. Não o sentia, immovel e branca, com as feições crispadas; e tremuras passaram-lhe de repente nos nervos da face como vibrações fugitivas.
—Está perdida—disse Julião baixo a Sebastião.
D. Felicidade ficou muito aterrada, fallou logo nos sacramentos.
—P'ra quê?—resmungou Julião impaciente.
Mas D. Felicidade declarou que tinha escrupulos, que era um peccado mortal; e chamando Jorge para o vão da janella, toda tremula:
—Jorge, não se assuste, mas seria bom pensar nos sacramentos...
Elle murmurava como assombrado:
—Os sacramentos!
Julião chegou-se bruscamente, e quasi zangado:
—Nada de tolices! Qual sacramentos! P'ra quê? Ella nem ouve, nem comprehende, nem sente. É necessario deitar-lhe outro caustico, talvez ventosas, e é o que é! Isso é que são os sacramentos!
Mas D. Felicidade escandalisada, muito abalada, começou a chorar. Esqueciam Deus, e em Deus é que está o remedio!—dizia, assoando-se com estrondo.
—Pelo que Deus faz por mim...—exclamou Jorge, sahindo do seu torpôr. E batendo as mãos, como revoltado por uma injustiça:—Porque realmente, que fiz eu p'ra isto? Que fiz eu!...
Julião ordenára outro caustico. Havia agora na casa um movimento allucinado. Joanna entrava de repente com um caldo inutil que ninguem pedira, os olhos muito vermelhos de chorar. Marianna soluçava pelos cantos. D. Felicidade ia, vinha pelo quarto, refugiando-se na sala para rezar, fazendo promessas, lembrando que se chamasse o doutor Barbosa, o doutor Barral.
E Luiza no entanto estava immovel; uma côr macilenta ia-lhe dando ás faces tons cavados e rigidos.
Julião extenuado pediu um calix de vinho, uma fatia de pão. Lembraram-se então que desde a vespera não tinham comido, e foram á sala de jantar onde Joanna, sempre lavada em lagrimas, serviu uma sopa, e ovos. Mas não achava os colheres, nem os guardanapos; murmurava rezas, pedia desculpa; em quanto Jorge, com os olhos inchados, fitos na borda da mesa, a face contrahida, fazia dobras na toalha.
Depois d'um momento pousou devagarinho a colhér, desceu ao quarto. Marianna estava sentada aos pés do leito: Jorge disse-lhe que fosse servir os senhores: e apenas ella sahiu, deixou-se cahir de joelhos, tomou uma das mãos de Luiza, chamou-a baixo; depois mais forte:
—Escuta-me. Ouve, pelo amor de Deus. Não estejas assim, faze por melhorar. Não me deixes n'este mundo, não tenho mais ninguem! Perdôa-me. Dize que sim. Faze signal que sim ao menos. Não me ouve, meu Deus!
E olhava-a anciosamente. Ella não se movia.
Ergueu então os braços ao ar n'uma desesperação allucinada.
—Sabes que creio em ti, meu Deus. Salva-a! Salva-a!—E arremessava a sua alma para as alturas:—Ouve, meu Deus! Escuta-me! Sê bom!
Olhava em roda, esperando um movimento, uma voz, um acaso, um milagre! Mas tudo lhe pareceu mais immovel. A face livida cavava-se; o lenço que lhe envolvia a cabeça desarranjára-se, via-se o craneo rapado, d'uma côr ligeiramente amarellada. Pôz-lhe então a mão na testa, hesitando, com medo; pareceu-lhe que estava fria! Abafou um grito, correu para fóra do quarto, e deu com o doutor Caminha que entrava, tirando pausadamente as luvas.
—Doutor! Está morta! Veja. Não falla, está fria...
—Então! Então!—disse elle—Nada de barulho, nada de barulho!
Tomou o pulso de Luiza, sentiu-o fugir sob os dedos, como a vibração expirante d'uma corda.
Julião veio logo. E concordou com o doutor Caminha que as ventosas eram inuteis.
—Já as não sente—disse o doutor, sacudindo o tabaco dos dedos.
—Se se lhe désse um copo de cognac?...—lembrou de repente Julião. E vendo o olhar espantado do doutor:—Ás vezes estes symptomas de coma não querem dizer que o cerebro esteja desorganisado: podem ser apenas a inacção da força nervosa exhausta. Se a morte é irremediavel não se perde nada; se é apenas uma depressão do systema nervoso, póde-se salvar...
O doutor Caminha, com o beiço descahido, oscillava incredulamente a cabeça:
—Theorias!—murmurou.
—Nos hospitaes inglezes...—começou Julião.
O doutor Caminha encolheu os hombros com desprezo.
—Mas se o doutor lêsse...—insistiu Julião.
—Não leio nada!—disse o doutor Caminha com força—tenho lido de mais! Os livros são os doentes...—E curvando-se, com ironia:—Mas se o meu talentoso collega quer fazer a experiencia...
—Um copo de cognac ou d'aguardente!—pediu Julião á porta.
E o doutor Caminha sentou-se commodamente «para gozar o fracasso do talentoso collega».
Levantaram Luiza; Julião fez-lhe engulir o cognac; quando a deitaram ficou na mesma immobilidade comatosa: o doutor Caminha tirou o relogio, viu as horas, esperou: havia um silencio ancioso: emfim o doutor ergueu-se, tomou-lhe o pulso, apalpou a frialdade crescente das extremidades; e indo buscar silenciosamente o chapéo começou a calçar as luvas.
Jorge foi com elle até á porta:
—Então, doutor?—disse, agarrando com uma força desvairada o braço.
—Fez-se o que se pôde—disse o velho, encolhendo os hombros.
Jorge ficou estupido no patamar, vendo-o descer. As suas passadas vagarosas nos degraus cahiam-lhe com uma percussão medonha no coração. Debruçou-se no corrimão, chamou-o baixo. O doutor parou, levantou os olhos; Jorge pôz as mãos para elle, com uma anciedade humilde:
—Então não é possivel mais nada?
O doutor fez um gesto vago, indicou o céo.
Jorge voltou para o quarto, encostando-se ás paredes. Entrou na alcova, atirou-se de joelhos aos pés da cama, e alli ficou com a cabeça entre as mãos n'um soluçar baixo e continuo.
Luiza morria: os seus braços tão bonitos, que ella costumava acariciar diante do espelho, estavam já paralysados; os seus olhos, a que a paixão dera chammas e a voluptuosidade lagrimas, embaciavam-se como sob a camada ligeira d'uma pulverisação muito fina.
D. Felicidade e Marianna tinham accendido uma lamparina a uma gravura de Nossa Senhora das Dôres, e de joelhos rezavam.
O crepusculo triste descia, parecia trazer um silencio funerario.
A campainha, então, tocou discretamente; e d'ahi a momentos appareceu a figura do Conselheiro Accacio. D. Felicidade ergueu-se logo; e vendo as suas lagrimas, o Conselheiro disse lugubremente:
—Venho cumprir o meu dever, ajudar-lhes a passar este transe!
Explicou «que encontrára por acaso o bom doutor Caminha, que lhe contára a fatal occorrencia»! Mas muito discretamente não quiz entrar na alcova. Sentou-se n'uma cadeira, collocou melancolicamente o cotovêlo sobre o joelho, a testa sobre a mão, dizendo baixo a D. Felicidade:
—Continue as suas orações. Deus é imperscrutavel em seus decretos.
Na alcova, Julião estivera tomando o pulso de Luiza; olhou então Sebastião, fez-lhe o gesto d'alguma cousa que vôa e desapparece... Aproximaram-se de Jorge, que não se movia, de joelhos, com a face enterrada no leito:
—Jorge—disse baixinho Sebastião.
Elle levantou o rosto desfigurado, envelhecido, os cabellos nos olhos, as olheiras escuras.
—Vá, vem—disse Julião. E vendo o espanto do seu olhar:—Não, não está morta, está n'aquella somnolencia... Mas vem.
Elle ergueu-se, dizendo com mansidão:
—Pois sim, eu vou. Estou bem... Obrigado.
Sahiu da alcova.
O Conselheiro levantou-se, foi abraçal-o com solemnidade:
—Aqui estou, meu Jorge!
—Obrigado, Conselheiro, obrigado.
Deu alguns passos pelo quarto; os seus olhos pareciam preoccupar-se com um embrulho que estava sobre a mesa; foi apalpal-o; desapertou as pontas, e viu os cabellos de Luiza. Ficou a olhal-os, erguendo-os, passando-os d'uma das mãos para outra, e disse com os beiços a tremer:
—Fazia tanto gosto n'elles, coitadinha!
Tornou a entrar na alcova. Mas Julião tomou-lhe o braço, queria-o afastar do leito. Elle debatia-se dôcemente; e, como uma vela ardia sobre a mesinha ao pé da cabeceira, disse, mostrando-a:
—Talvez a incommode a luz...
Julião respondeu commovido:
—Já não a vê, Jorge!
Elle soltou-se da mão de Julião, foi debruçar-se sobre ella; tomou-lhe a cabeça entre as mãos com cuidado para a não magoar, esteve a olhal-a um momento; depois pousou-lhe sobre os labios frios um beijo, outro, outro, e murmurava:
—Adeus! Adeus!
Endireitou-se, abriu os braços, cahiu no chão.
Todos correram. Levaram-no para a chaise-longue.
E em quanto D. Felicidade n'um pranto afflicto fechava os olhos de Luiza, o Conselheiro, com o chapéo sempre na mão, cruzava os braços, e oscillando a sua calva respeitavel, dizia a Sebastião:
—Que profundo desgosto de familia!
XVIII
Depois do enterro de Luiza, Jorge despediu as criadas, foi para casa de Sebastião.
N'essa noite pelas nove horas o Conselheiro Accacio, muito abafado, descia o Moinho de Vento, quando encontrou Julião, que vinha de vêr um doente na rua da Rosa. Foram andando juntos, conversando de Luiza, do enterro, da afflicção de Jorge.
—Pobre rapaz! Aquillo é que é soffrer!—disse Julião compadecido.
—Era uma esposa modêlo!...—murmurou o Conselheiro.
De resto, disse, vinha justamente de casa do bom Sebastião, mas não podéra vêr o seu Jorge; tinha-se estirado sobre a cama, e dormia profundamente.
E acrescentou:
—Ultimamente lia eu que aos grandes golpes succedem sempre somnos prolongados. Assim, por exemplo, Napoleão depois de Waterloo, depois do grande desastre de Waterloo!
E passado um momento, continuou:
—É verdade. Fui vêr o nosso Sebastião... Fui mostrar-lhe...—E interrompendo-se, parando:—Porque eu entendi que era o meu dever dedicar um tributo á memoria da infeliz senhora. Era o meu dever, e não me eximi a elle! E estimo tel-o encontrado, porque quero saber a sua opinião conscienciosa e desassombrada.
Julião tossiu, e perguntou:
—É um necrologio?
—É um necrologio.
E o Conselheiro, apesar de «não achar proprio, na sua posição, o entrar em cafés publicos», lembrou a Julião que poderiam descançar um momento no Tavares, se não estivesse muita gente, e elle poderia lêr-lhe «a producção».
Espreitaram.
Estavam apenas, a uma mesa, dous velhos calados defronte dos seus cafés, com os chapéos na cabeça, apoiados a bengalas de cana da India. O moço dormitava ao fundo. Uma luz crua e intensa enchia a sala estreita.
—Ha um silencio propicio—disse o Conselheiro.
Offereceu um café a Julião; e tirando então do bolso uma folha de papel pautado, murmurou:—Infeliz senhora!—Inclinou-se para Julião, e leu: