WeRead Powered by ReaderPub
O Primo Bazilio: Episodio Domestico cover

O Primo Bazilio: Episodio Domestico

Chapter 9: III
Open in WeRead

Explore more books like this:

About This Book

Um retrato da vida doméstica burguesa que acompanha a rotina entediante de um casal e a perturbação causada pela chegada de um parente sedutor. A esposa, aborrecida pela monotonia conjugal, envolve-se numa relação clandestina que revela fragilidades, vaidades e contradições sociais. A traição desencadeia chantagem, intrigas e o oportunismo de personagens secundários, conduzindo a humilhações e a um desfecho trágico. O texto alia ironia crítica e observação minuciosa dos costumes quotidianos, explorando consequências íntimas e públicas do adúltero e expondo a hipocrisia e o tédio da pequena burguesia.

Impurezas do mundo não me roçam
Nem a fimbria da tunica sequer.


—Ora muito boas noites—disse, á porta, uma voz grossa.

Voltaram-se.

Ó Sebastião! Ó snr. Sebastião! ó Sebastiarrão!

Era elle, Sebastião, o grande Sebastião, o Sebastiarrão, Sebastião tronco d'arvore,—o intimo, o camarada, o inseparavel de Jorge, desde o latim, na aula de frei Liborio, aos Paulistas.

Era um homem baixo e grosso, todo vestido de preto, com um chapéo molle desabado na mão. Começava a perder um pouco na frente, os seus cabellos castanhos e finos. Tinha a pelle muito branca, a barba alourada e curta.

Veio sentar-se ao pé de Luiza.

—Então d'onde vem? d'onde vem?

Vinha do Price. Rira muito com os palhaços. Houvera a brincadeira da pipa.

O seu rosto, em plena luz, tinha uma expressão honesta, simples, aberta: os olhos pequenos, azues d'um azul claro, d'uma suavidade séria, adoçavam-se muito quando sorria: e os beiços escarlates, sem pelliculas seccas, os dentes luzidios, revelavam uma vida saudavel e habitos castos. Fallava devagar, baixo, como se tivesse medo de se manifestar ou de fatigar. Juliana trouxera-lhe a sua chavena, e remexendo o assucar com a colhér direita, os olhos ainda a rir, um sorriso bom:

—A pipa tem muita graça. Muita graça!

Sorveu um gole de chá e depois d'um momento:

—E tu, maroto, sempre partes ámanhã? Não ha umas tentaçõesinhas d'ir por ahi fóra com elle, minha cara amiga?

Luiza sorriu. Tomára ella! Quem dera! Mas era uma jornada tão incommoda! Depois a casa não podia ficar só, não havia que fiar em criados...

—Está claro, está claro—disse elle.

Jorge, então, que abrira a porta do escriptorio, chamou-o:

—Ó Sebastião! Fazes favor?

Elle foi logo com o seu andar pesado, o largo dorso curvado: as abas do seu casaco mal feito tinham um comprimento ecclesiastico.

Entraram para o escriptorio.

Era uma saleta pequena, com uma estante alta e envidraçada, tendo em cima a estatueta de gesso, empoeirada e velha, d'uma bacchante em delirio. A mesa, com um antigo tinteiro de prata que fôra de seu avô, estava ao pé da janella: uma collecção empilhada de Diarios do Governo, branquejava a um canto: por cima da cadeira de marroquim escuro, pendia, n'um caixilho preto, uma larga photographia de Jorge: e sobre o quadro, duas espadas encruzadas reluziam. Uma porta, no fundo, coberta com um reposteiro de baeta escarlate, abria para o patamar.

—Sabes quem esteve ahi de tarde?—disse logo Jorge, accendendo o cachimbo—Aquella desavergonhada da Leopoldina! Que te parece, hein?

—E entrou?—perguntou Sebastião, baixo, correndo por dentro o pesado reposteiro de fazenda listrada.

—Entrou, sentou-se, esteve, demorou-se! Fez o que quiz! A Leopoldina, a Pão e queijo!

E arremessando o phosphoro violentamente:

—Quando penso que aquella desavergonhada vem a minha casa! Uma creatura que tem mais amantes que camisas, que anda pelo Dá-fundo em troças, que passeava nos bailes, este anno, de dominó, com um tenor! A mulher do Zagallão, um devasso que falsificou uma letra!

E quasi ao ouvido de Sebastião:

—Uma mulher que dormiu com o Mendonça dos callos! Aquelle sebento do Mendonça dos callos!

Teve um gesto furioso, exclamou:

—E vem aqui, senta-se nas minhas cadeiras, abraça minha mulher, respira o meu ar!... Palavra d'honra, Sebastião, se a pilho—procurou mentalmente, com o olhar acceso, um castigo sufficiente—dou-lhe açoutes!

Sebastião disse devagar:

—E o peor é a visinhança.

—Está claro que é!—exclamou Jorge.—Toda essa gente ahi pela rua abaixo sabe quem ella é! Sabem-lhe os amantes, sabem-lhe os sitios. É a Pão e queijo! Todo o mundo conhece a Pão e queijo.

—Má visinhança—disse Sebastião.

—De tremer.

Mas então! estava acostumado á casa, era sua, tinha-a arranjado, era uma economia...

—Senão! Não parava aqui um dia!

Era um horror de rua! Pequena, estreita, acavallados uns nos outros! Uma visinhança a postos, avida de mexericos! Qualquer bagatella, o trotar d'uma tipoia, e apparecia por traz de cada vidro um par d'olhos repolhudos a cocar! E era logo um badalar de linguas por ahi abaixo, e conciliabulos, e opiniões formadas! fulano é indecente, fulana é bebeda!

—É o diabo!—disse Sebastião.

—A Luiza é um anjo, coitada—dizia Jorge, passeando pela saleta—mas tem cousas em que é criança! Não vê o mal. É muito boa, deixa-se ir. Com este caso da Leopoldina, por exemplo; foram creadas de pequenas, eram amigas, não tem coragem agora para a pôr fóra. É acanhamento, é bondade. Elle comprehende-se! Mas emfim as leis da vida tem as suas exigencias!...

E depois d'uma pausa:

—Por isso, Sebastião, em quanto eu estiver fóra, se te constar que a Leopoldina vem por cá, avisa a Luiza! Porque ella é assim: esquece-se, não reflexiona. É necessario alguem que a advirta, que lhe diga:—Alto lá, isso não póde ser! Que então cahe logo em si, e é a primeira!... Vens por ahi, fazes-lhe companhia, fazes-lhe musica, e se vires que a Leopoldina apparece ao largo, tu logo:—Minha rica senhora, cuidado, olhe que isso não! Que ella, sentindo-se apoiada, tem decisão. Senão, acanha-se, deixa-a vir. Soffre com isso, mas não tem coragem de lhe dizer: Não te quero vêr, vai-te! Não tem coragem p'ra nada: começam as mãos a tremer-lhe, a seccar-se-lhe a bocca... É mulher, é muito mulher!... Não te esqueças, hein, Sebastião?

—Então havia de me esquecer, homem?

Sentiram então o piano na sala, e a voz de Luiza ergueu-se, fresca e clara, cantando a Mandolinata:


Amici, la notte é bella,
La luna va spontari...


—Fica tão só, coitada!...—disse Jorge.

Deu alguns passos pelo escriptorio, fumando, com a cabeça baixa:

—Todo o casal bem organisado, Sebastião, deve ter dous filhos! Deve ter pelo menos um!...

Sebastião coçou a barba em silencio—e a voz de Luiza, elevando-se com um certo esforço aspero, nos altos da melodia :


Di cà, di là, per la cità
Andiami a transnottari...


Era uma tristeza secreta de Jorge—não ter um filho! Desejava-o tanto! Ainda em solteiro, nas vesperas do casamento, já sonhava aquella felicidade: o seu filho! Via-o de muitas maneiras: ou gatinhando com as suas perninhas vermelhas, cheias de rôscas, e os cabellos annelados, finos como fios de sêda; ou rapaz forte, entrando da escóla com os livros, alegre e d'olho vivo, vindo mostrar-lhe as boas notas dos mestres: ou, melhor, rapariga crescida, clara e rosada, com um vestido branco, as duas tranças cahidas, vindo pousar as mãos nos seus cabellos já grisalhos...

Vinha-lhe, ás vezes, um medo de morrer sem ter tido aquella felicidade completadora!

Agora, na sala, a voz aguda de Ernestinho perorava, depois, no piano Luiza recomeçou a Mandolinata, com um brio jovial.

A porta do escriptorio abriu-se, Julião entrou:

—Que estão vossês aqui a conspirar? Vou-me safar, que é tarde! Até á volta, meu velho, hein? Tambem ia comtigo tomar ar, respirar, vêr campos, mas...

E sorriu com amargura.—Addio! Addio!

Jorge foi alumiar-lhe ao patamar, abraçal-o outra vez. Se quizesse alguma cousa do Alemtejo!...

Julião carregou o chapéo na cabeça:

—Dá cá outro charuto, por despedida! Dá cá dous!

—Leva a caixa! Eu em viagem só fumo cachimbo. Leva a caixa, homem!

Embrulhou-lh'a n'um Diario de Noticias; Julião metteu-a debaixo do braço, e descendo os degraus:

—Cuidado com as sezões, e descobre uma mina d'ouro!

Jorge e Sebastião entraram na sala. Ernestinho, encostado ao piano, torcia as guias do bigodinho, e Luiza começava uma valsa de Strauss—o Danubio Azul.

Jorge disse, rindo, estendendo os braços:

—Uma valsa, D. Felicidade?

Ella voltou-se, com um sorriso. E porque não? Em nova era fallada! Citou logo a valsa que dançára com o sr. D. Fernando, no tempo da Regencia, nas Necessidades. Era uma valsa linda, d'essa época: A Perola d'Ophir.

Estava sentada ao pé do conselheiro, no sophá. E como retomando um dialogo mais querido—continuou, baixo para elle, com uma voz meiga:

—Pois creia, acho-o com optimas côres.

O conselheiro enrolava vagarosamente o seu lenço de sêda da India.

—Na estação calmosa passo sempre melhor. E D. Felicidade?

—Ai! Estou outra, conselheiro! Muito boas digestões, muito livre de gazes... Estou outra!

—Deus o queira, minha senhora, Deus o queira—disse o conselheiro, esfregando lentamente as mãos.

Tossiu, ia levantar-se, mas D. Felicidade pôz-se a dizer:

—Espero que esse interesse seja verdadeiro...

Córou. O corpete flaccido do vestido de sêda preta enchia-se-lhe com o arfar do peito.

O conselheiro recahiu lentamente no sophá,—e com as mãos nos joelhos:

—D. Felicidade sabe que tem em mim um amigo sincero...

Ella levantou para elle seus olhos pisados, d'onde sahiam revelações de paixão e supplicas de felicidade:

—E eu, conselheiro!...

Deu um grande suspiro, pôz o leque sobre o rosto.

O conselheiro ergueu-se seccamente. E com a cabeça alta, as mãos atraz das costas, foi ao piano, perguntou a Luiza curvando-se:

—É alguma canção do Tyrol, D. Luiza?

—Uma valsa de Strauss—murmurou-lhe Ernestinho, em bicos de pés, ao ouvido.

—Ah! Muita fama! Grande author!

Tirou então o relogio. Eram horas, disse, de ir coordenar alguns apontamentos. Aproximou-se de Jorge, com solemnidade:

—Jorge, meu bom Jorge, adeus! Cautela com esse Alemtejo! O clima é nocivo, a estação traiçoeira!

E apertou-o nos braços com uma pressão commovida.

D. Felicidade punha a sua manta de renda negra.

—Já, D. Felicidade?—disse Luiza.

Ella explicou-lhe, ao ouvido:

—Já, sim, filha, que tenho estado a abarrotar, comi umas bajes e tenho estado!... E aquelle homem, aquelle gêlo! O snr. Ernesto vem para os meus sitios, hein?

—Como um fuso, minha senhora!

Tinha vestido o seu paletot d'alpaca clara, fumava chupando, com as faces encovadas, por uma boquilha enorme, onde uma Venus se torcia sobre o dorso d'um leão domado.

—Adeus, primo Jorge, saudinha e dinheiro, hein? Adeus. Quando fôr a Honra e Paixão cá mando um camarote á prima Luiza. Adeus! Saudinha!

Iam a sahir. Mas o conselheiro, á porta, voltando-se subitamente, com as abas do paletot deitadas para traz, a mão pomposamente apoiada no castão de prata da bengala que representava uma cabeça de mouro, disse, com gravidade:

—Esquecia-me, Jorge! Tanto em Evora, como em Beja, visite os governadores civis! E eu lhe digo porquê: deve-lh'o como primeiros funccionarios do districto, e podem-lhe ser de muita utilidade nas suas peregrinações scientificas!

E curvando-se profundamente:

Al rivedere, como se diz em Italia.



Sebastião tinha ficado. Para arejar do fumo de tabaco Luiza foi abrir as janellas; a noite estava quente e immovel, de luar.

Sebastião pozera-se ao piano, e com a cabeça curvada, corria devagar o teclado.

Tocava admiravelmente, com uma comprehensão muito fina da musica. Outr'ora, compozera mesmo uma Meditação, duas Valsas, uma Ballada: mas eram estudos muito trabalhados, cheios de reminiscencias, sem estylo.—Da cachimonia não me sahe nada—costumava elle dizer com bonhomia, batendo na testa, sorrindo—mas lá com os dedos!...

Pôz-se a tocar um Nocturno de Choppin. Jorge sentára-se no sophá ao pé de Luiza.

—Já tens prompto o teu farnelzinho!—disse-lhe ella.

—Bastam umas bolachas, filha. O que quero é o cantil com cognac.

—E não te esqueças de mandar um telegramma logo que chegues!

—Pudera!

—Tu d'aqui a quinze dias, vens!

—Talvez...

Ella teve um gesto amuado.

—Ah, bem! Se não vieres, vou ter comtigo! A culpa é tua.

E olhando em redor:

—Que só que vou ficar!

Mordeu o beicinho, fitou o tapete. E de repente, com a voz ainda triste:

—Pst, Sebastião! A malaguenha, faz favor?

Sebastião começou a tocar a malaguenha. Aquella melodia calida, muito arrastada, encantava-a. Parecia-lhe estar em Malaga, ou em Granada, não sabia: era sob as laranjeiras, mil estrellinhas luzem; a noite é quente, o ar cheira bem; por baixo d'um lampeão suspenso a um ramo, um cantador sentado na tripeça mourisca faz gemer a guitarra; em redor as mulheres com os seus corpetes de velludilho encarnado batem as mãos em cadencia: e ao largo dorme uma Andaluzia de romance e de zarzuela, quente e sensual, onde tudo são braços brancos que se abrem para o amor, capas romanticas que roçam as paredes, sombrias viellas onde luz o nicho do santo e se repenica a viola, serenos que invocam a Virgem Santissima cantando as horas...

—Muito bem, Sebastião! Gracias!

Elle sorriu, ergueu-se, fechou cuidadosamente o piano, e indo buscar o seu chapéo desabado:

—Então ámanhã ás sete? Cá estou, e vou-te acompanhar até ao Barreiro.

Bom Sebastião!

Foram debruçar-se na varanda para o vêr sahir. A noite fazia um silencio alto, d'uma melancolia placida; o gaz dos candieiros parecia mortiço; a sombra que se recortava na rua, com uma nitidez brusca, tinha um tom quente e dôce; a luz punha nas fachadas brancas claridades vivas, e nas pedras da calçada faiscações vidradas; uma clara-boia reluzia, a distancia, como uma velha lamina de prata; nada se movia; e instinctivamente os olhos erguiam-se para as alturas, procuravam a lua branca, muito séria.

—Que linda noite!

A porta bateu, e Sebastião de baixo, na sombra:

—Dá vontade de passear, hein?

—Linda!

Ficaram á varanda preguiçosamente, olhando, detidos pela tranquillidade, pela luz. Puzeram-se a fallar baixo da jornada. Áquella hora onde estaria elle? Já em Evora, n'um quarto d'estalagem, passeando monotonamente sobre um chão de tijolo. Mas voltaria breve; esperava fazer um bom negocio com o Paco, o hespanhol das minas de Portel, trazer talvez alguns centos de mil reis, e teriam então a doçura do mez de setembro; poderiam fazer uma jornada ao Norte, irem ao Bussaco, trepar aos altos, beber a agua fresca das rochas, sob a espessura humida das folhagens: irem a Espinho, e pelas praias, sentar-se na arêa, no bom ar cheio d'azote, vendo o mar unido, d'um azul metallico e faiscante, o mar do verão, com algum fumo de paquete que passa para o Sul ao longe muito adelgaçado. Faziam outros planos com os hombros muito chegados: uma felicidade abundante enchia-os deliciosamente. E Jorge disse:

—Se houvesse um pequerrucho, já não ficavas tão só!

Ella suspirou. Tambem o desejava tanto! Chamar-se-hia Carlos Eduardo. E via-o no seu berço dormindo, ou no collo, nú, agarrando com a mãosinha o dedo do pé, mamando a ponta rosada do seu peito... Um estremecimento d'um deleite infinito correu-lhe no corpo. Passou o braço pela cinta de Jorge. Um dia seria, teria um filho de certo! E não comprehendia o seu filho homem nem Jorge velho: via-os ambos do mesmo modo: um sempre amante, novo, forte; o outro sempre dependente do seu peito, da maminha, ou gatinhando e palrando, louro e côr de rosa. E a vida apparecia-lhe infindavel, d'uma doçura igual, atravessada do mesmo enternecimento amoroso, quente, calma e luminosa como a noite que os cobria.

—A que horas quer a senhora que a venha acordar?—disse a voz secca de Juliana.

Luiza voltou-se:

—Ás sete, já lhe disse ha pouco, creatura.

Fecharam a janella. Em torno das velas uma borboleta branca esvoaçava. Era bom agouro!

Jorge prendeu-a nos braços:

—Vai ficar sem o seu maridinho, hein?—disse tristemente.

Ela deixou pesar o corpo sobre as mãos d'elle cruzadas, olhou-o com um longo olhar que se ennevoava e escurecia, e envolvendo-lhe o pescoço com o gesto lento, harmonioso e solemne dos braços, pousou-lhe na bocca um beijo grave e profundo. Um vago soluço levantou-lhe o peito.

—Jorge! Querido!—murmurou.



III



Havia doze dias que Jorge tinha partido e, apesar do calor e da poeira, Luiza vestia-se para ir a casa de Leopoldina. Se Jorge soubesse, não havia de gostar, não! Mas estava tão farta de estar só! Aborrecia-se tanto! De manhã, ainda tinha os arranjos, a costura, a toilette, algum romance... Mas de tarde!

Á hora em que Jorge costumava voltar do ministerio, a solidão parecia alargar-se em torno d'ella. Fazia-lhe tanta falta o seu toque da campainha, os seus passos no corredor!...

Ao crepusculo, ao vêr cahir o dia, entristecia-se sem razão, cahia n'uma vaga sentimentalidade: sentava-se ao piano, e os fados tristes, as cavatinas apaixonadas gemiam instinctivamente no teclado, sob os seus dedos preguiçosos, no movimento abandonado dos seus braços molles. O que pensava em tolices então! E á noite, só, na larga cama franceza, sem poder dormir com o calor, vinham-lhe de repente terrores, palpites de viuvez.

Não estava acostumada, não podia estar só. Até se lembrára de chamar a tia Patrocinio, uma velha parenta pobre que vivia em Belem: ao menos era alguem: mas receou aborrecer-se mais ao pé da sua longa figura de viuva taciturna, sempre a fazer meia, com enormes oculos de tartaruga sobre um nariz d'aguia.

N'aquella manhã pensára em Leopoldina, toda contente d'ir tagarellar, rir, segredar, passar as horas do calor. Penteava-se em collete e saia branca: a camisinha decotada descobria os ombros alvos d'uma redondeza macia, o collo branco e tenro, azulado de vêasinhas finas; e os seus braços redondinhos, um pouco vermelhos no cotovêlo, descobriam por baixo, quando se erguiam prendendo as tranças, fiosinhos louros, frisando e fazendo ninho.

A sua pelle conservava ainda o rosado humido da agua fria: havia no quarto um cheiro agudo de vinagre de toilette: os transparentes de linho branco descidos davam uma luz baça, com tons de leite.

Ah! positivamente devia escrever a Jorge, que voltasse depressa! Que o que tinha graça era ir surprehendel-o a Evora, cahir-lhe no Tabaquinho, um dia, ás tres horas! E quando elle entrasse empoeirado e encalmado, de lunetas azues, atirar-se-lhe ao pescoço! E á tardinha, pelo braço d'elle, ainda quebrada da jornada, com um vestido fresco, ir vêr a cidade. Pelas ruas estreitas e tristes admiravam-na muito. Os homens vinham ás portas das lojas. Quem seria? É de Lisboa. É a do Engenheiro.—E diante do toucador, apertando o corpete do vestido, sorria áquellas imaginações, e ao seu rosto, no espelho.

A porta do quarto rangeu devagarinho.

—Que é?

A voz de Juliana, plangente, disse:

—A senhora dá licença que eu vá logo ao medico?

—Vá, mas não se demore. Puxe-me essa saia atraz. Mais. O que é que vossê tem?

—Enjôos, minha senhora, peso no coração. Passei a noite em claro.

Estava mais amarella, o olhar muito pisado, a face envelhecida. Trazia um vestido de merino preto escoado, e a cuia da semana de cabellos velhos.

—Pois sim, vá—disse Luiza.—Mas arranje tudo antes. E não se demore, hein ?

Juliana subiu logo á cozinha. Era no segundo andar, com duas janellas de sacada para as trazeiras, larga, ladrilhada de tijolo diante do fogão.

—Diz que sim, snr.a Joanna—disse á cozinheira—que podia ir. Vou-me vestir. Ella tambem está quasi prompta. Fica vossemecê com a casa por sua!

A cozinheira fez-se vermelha, poz-se a cantar, foi logo sacudir, estender na varanda um velho tapete esfiado; e os seus olhos não deixavam, defronte, uma casa baixa, pintada d'amarello, com um portal largo,—a loja de marceneiro do tio João Galho, onde trabalhava o Pedro, o seu amante. A pobre Joanna «babava-se» por ele. Era um rapazola pallido e afadistado; Joanna era minhota, de Avintes, de familia de lavrador, e aquella figura delgada de lisboeta anemico seduzia-a com uma violencia abrazada. Como não podia sahir á semana, mettia-o em casa, pela porta de traz, quando estava só; estendia então na varanda para dar signal o velho tapete desbotado, onde ainda se percebiam os paus de um veado.

Era uma rapariga muito forte, com peitos d'ama, o cabello como azeviche, todo lustroso do oleo de amendoas dôces. Tinha a testa curta de plebêa teimosa. E as sobrancelhas cerradas faziam-lhe parecer o olhar mais negro.

—Ai!—suspirou Juliana.—A snr.a Joanna é que a leva!

A rapariga ficou escarlate.

Mas Juliana acudiu logo:

—Olha o mal! fosse eu! Boa! faz muito bem!

Juliana lisongeava sempre a cozinheira: dependia d'ella: Joanna dava-lhe caldinhos ás horas de debilidade, ou, quando ella estava mais adoentada, fazia-lhe um bife ás escondidas da senhora. Juliana tinha um grande medo de «cair em fraqueza», e a cada momento precisava tomar a «sustancia». De certo, como feia e solteirona detestava aquelle «escandalo do carpinteiro»; mas protegia-o, porque elle valia muitos regalos aos seus fracos de gulosa.

—Fosse eu!—repetiu—dava-lhe o melhor da panella! Se a gente ia a ter escrupulos por causa dos amos, boa! Olha quem! Vêem uma pessoa a morrer, e é como fosse um cão.

E com um risinho amargo:

—Diz que me não demorasse no medico. É como quem diz, cura-te depressa ou espicha depressa!

Foi buscar a vassoura a um canto, e com um suspiro agudo:

—Todas o mesmo, uma récua!

Desceu, começou a varrer o corredor.—Toda a noite estivera doente: o quarto no sotão, debaixo das telhas, muito abafado, com um cheiro de tijolo cozido, dava-lhe enjôos, faltas d'ar, desde o começo do verão: na vespera até vomitára! E já levantada ás seis horas, não descançára, limpando, engommando, despejando, com a pontada no lado e todo o estomago embrulhado!—Tinha escancarado a cancella, e com grandes ais, atirava vassouradas furiosas contra as grades do corrimão.

—A snr.a D. Luiza está em casa?

Voltou-se. Nos ultimos degraus da escada estava um sujeito, que lhe pareceu «estrangeirado». Era trigueiro, alto, tinha um bigode pequeno levantado, um ramo na sobrecasaca azul, e o verniz dos seus sapatos resplandecia.

—A senhora vai sahir—disse ela olhando-o muito.—Faz favor de dizer quem é?

O individuo sorriu.

—Diga-lhe que é um sujeito para um negocio. Um negocio de minas.

Luiza, diante do toucador, já de chapéo, mettia n'uma casa do corpete dous botões de rosa de chá.

—Um negocio!—disse muito surprehendida—Deve ser algum recado para o snr. Jorge, de certo! Mande entrar. Que especie de homem é?

—Um janota!

Luiza desceu o véo branco, calçou devagar as luvas de peau de suède claras, deu duas pancadinhas fofas ao espelho na gravata de renda, e abriu a porta da sala. Mas quasi recuou, fez ah! toda escarlate. Tinha-o reconhecido logo. Era o primo Bazilio.



Houve um shake-hands demorado, um pouco tremulo. Estavam ambos calados:—ella com todo o sangue no rosto, um sorriso vago; elle fitando-a muito, com um olhar admirado. Mas as palavras, as perguntas vieram logo, muito precipitadamente:—Quando tinha elle chegado? Se sabia que elle estava em Lisboa? Como soubera a morada d'ella?

Chegára na vespera no paquete de Bordeus. Perguntára no ministerio: disseram-lhe que Jorge estava no Alemtejo, deram-lhe a adresse...

—Como tu estás mudada, Santo Deus!

—Velha?

—Bonita!

—Ora!

E elle, que tinha feito? Demorava-se?

Foi abrir uma janella, dar uma luz larga, mais clara. Sentaram-se. Elle no sophá muito languidamente; ella ao pé, pousada de leve á beira d'uma poltrona, toda nervosa.

Tinha deixado o degredo—disse elle.—Viera respirar um pouco á velha Europa. Estivera em Constantinopla, na Terra Santa, em Roma. O ultimo anno passára-o em Paris. Vinha de lá, d'aquella aldeola de Paris!—Fallava devagar, recostado, com um ar intimo, estendendo sobre o tapete, commodamente, os seus sapatos de verniz.

Luiza olhava-o. Achava-o mais varonil, mais trigueiro. No cabello preto annelado havia agora alguns fios brancos: mas o bigode pequeno tinha o antigo ar moço, orgulhoso e intrepido; os olhos, quando ria, a mesma doçura amollecida, banhada n'um fluido. Reparou na ferradura de perola da sua gravata de setim preto, nas pequeninas estrellas brancas bordadas nas suas meias de sêda. A Bahia não o vulgarisára. Voltava mais interessante!

—Mas tu, conta-me de ti—dizia elle com um sorriso, inclinado para ela.—És feliz, tens um pequerrucho...

—Não—exclamou Luiza rindo.—Não tenho! Quem te disse?

—Tinham-me dito. E teu marido demora-se?

—Tres, quatro semanas, creio.

Quatro semanas! Era uma viuvez! Offereceu-se logo para a vir vêr mais vezes, palrar um momento, pela manhã...

—Pudera não! És o unico parente, que tenho, agora...

Era verdade!... E a conversação tomou uma intimidade melancolica: fallaram da mãi de Luiza, a tia Jójó, como lhe chamava Bazilio. Luiza contou a sua morte, muito dôce, na poltrona, sem um ai...

—Onde está sepultada?—perguntou Bazilio com uma voz grave; e acrescentou, puxando o punho da camisa de chita:—Está no nosso jazigo?

—Está.

—Hei-de ir lá. Pobre tia Jójó!

Houve um silencio.

—Mas tu ias sahir!—disse Bazilio de repente, querendo erguer-se.

—Não!—exclamou—Não! Estava aborrecida, não tinha nada que fazer. Ia tomar ar. Não saio, já.

Elle ainda disse:

—Não te prendas...

—Que tolice! Ia a casa d'uma amiga passar um momento.

Tirou logo o chapéo; n'aquelle movimento os braços erguidos repuxaram o corpete justo, as fórmas do seio accusaram-se suavemente.

Bazilio torcia a ponta do bigode devagar; e vendo-a descalçar as luvas:

—Era eu antigamente quem te calçava e descalçava as luvas... Lembras-te?... Ainda tenho esse privilegio exclusivo, creio eu...

Ella riu-se.

—De certo que não...

Bazilio disse então, lentamente, fitando o chão:

—Ah! Outros tempos!

E poz-se a fallar de Collares: a sua primeira idéa, mal chegára, tinha sido tomar uma tipoia e ir lá: queria vêr a quinta; ainda existiria o balouço debaixo do castanheiro? ainda haveria o caramanchão de rosinhas brancas, ao pé do Cupido de gesso que tinha uma aza quebrada?...

Luiza ouvira dizer que a quinta pertencia agora a um brazileiro: sobre a estrada havia um mirante com um tecto chinez, ornado de bolas de vidro; e a velha casa morgada fôra reconstruida e mobilada pelo Gardé.

—A nossa pobre sala de bilhar, côr d'oca, com grinaldas de rosas!—disse Bazilio; e fitando-a:—Lembras-te das nossas partidas de bilhar?

Luiza, um pouco vermelha, torcia os dedos das luvas; ergueu os olhos para elle, disse, sorrindo:

—Eramos duas crianças!

Bazilio encolheu tristemente os hombros, fitou as ramagens do tapete: parecia abandonar-se a uma saudade remota, e com uma voz sentida:

—Foi o bom tempo! Foi o meu bom tempo!

Ella via a sua cabeça bem feita, descahida n'aquella melancolia das felicidades passadas, com uma risca muito fina, e os cabellos brancos—que lhe dera a separação. Sentia tambem uma vaga saudade encher-lhe o peito: ergueu-se, foi abrir a outra janella, como para dissipar na luz viva e forte aquella perturbação. Perguntou-lhe então pelas viagens, por Paris, por Constantinopla.

Fôra sempre o seu desejo viajar—dizia—ir ao Oriente. Quereria andar em caravanas, balouçada no dorso dos camêlos; e não teria medo, nem do deserto, nem das feras...

—Estás muito valente!—disse Bazilio.—Tu eras uma maricas, tinhas medo de tudo... Até da adega, na casa do papá, em Almada!

Ella córou. Lembrava-se bem da adega, com a sua frialdade subterranea que dava arripios! A candêa d'azeite pendurada na parede alumiava com uma luz avermelhada e fumosa as grossas traves cheias de têas d'aranha, e a fileira tenebrosa das pipas bojudas. Havia alli ás vezes, pelos cantos, beijos furtados...

Quiz saber então o que tinha feito em Jerusalém, se era bonito.

Era curioso. Ia pela manhã um bocado ao Santo Sepulchro; depois d'almoço montava a cavallo... Não se estava mal no hotel, inglezas bonitas... Tinha algumas intimidades illustres...

Fallava d'ellas, devagar, traçando a perna: o seu amigo o patriarcha de Jerusalém, a sua velha amiga a princeza de La Tour d'Auvergne! Mas o melhor do dia era de tarde—dizia—no Jardim das Oliveiras, vendo defronte as muralhas do templo de Salomão, ao pé a aldêa escura de Bethania onde Martha fiava aos pés de Jesus, e mais longe, faiscando immovel sob o sol, o mar Morto! E alli passava sentado n'um banco, fumando tranquillamente o seu cachimbo!

Se tinha corrido perigos?

De certo. Uma tempestade de arêa no deserto de Petra! Horrivel! Mas que linda viagem, as caravanas, os acampamentos! Descreveu a sua toilette:—uma manta de pelle de camêlo ás listras vermelhas e pretas, um punhal de Damasco n'uma cinta de Bagdad, e a lança comprida dos Beduinos.

—Devia-te ficar bem!

—Muito bem. Tenho photographias.

Prometteu dar-lhe uma, e acrescentou:

—Sabes que te trago presentes?

—Trazes?—E os seus olhos brilhavam.

O melhor era um rosario...

—Um rosario?

—Uma reliquia! Foi benzido primeiro pelo patriarcha de Jerusalém sobre o tumulo de Christo, depois pelo papa...

Ah! Porque tinha estado com o papa! Um velhinho muito aceado, já todo branquinho, vestido de branco, muito amavel!

—Tu d'antes não eras muito devota—disse.

—Não, não sou muito caturra n'essas cousas—respondeu rindo.

—Lembras-te da capella de nossa casa em Almada?

Tinham passado alli lindas tardes! Ao pé da velha capella morgada havia um adro todo cheio de altas hervas floridas,—e as papoulas, quando vinha a aragem, agitavam-se como azas vermelhas de borboletas pousadas...

—E a tilia, lembras-te, onde eu fazia gymnastica?

—Não fallemos no que lá vai!

Em que queria ella então que elle fallasse? Era a sua mocidade, o melhor que tivera na vida...

Ella sorriu, perguntou:

—E no Brazil?

Um horror! Até fizera a côrte a uma mulata.

—E porque te não casaste?...

Estava a mangar! Uma mulata!

—E de resto—acrescentou com a voz d'um arrependimento triste—já que me não casei quando devia,—encolheu os hombros melancolicamente—acabou-se... Perdi a vez. Ficarei solteiro.

Luiza fez-se escarlate. Houve um silencio.

—E qual é o outro presente, então, além do rosario?

—Ah! Luvas. Luvas de verão, de peau de suède, de oito botões. Luvas decentes. Vossês aqui usam umas luvitas de dous botões, a vêr-se o punho, um horror!

De resto pelo que tinha visto, as mulheres em Lisboa cada dia se vestiam peor! Era atroz! Não dizia por ella; até aquelle vestido tinha chic, era simples, era honesto. Mas em geral, era um horror. Em Paris! Que deliciosas, que frescas as toilettes d'aquelle verão! Oh! mas em Paris!... Tudo é superior! Por exemplo, desde que chegára ainda não pudera comer. Positivamente não podia comer!—Só em Paris se come—resumiu.

Luiza voltava entre os dedos o seu medalhão de ouro, preso ao pescoço por uma fita de velludo preto.

—E estiveste então um anno em Paris?

Um anno divino. Tinha um appartamento lindissimo, que pertencera a lord Falmouth, rue Saint Florentin, tinha tres cavallos...

E recostando-se muito, com as mãos nos bolsos:

—Emfim, fazer este valle de lagrimas o mais confortavel possivel!... Dize cá, tens algum retrato n'esse medalhão?

—O retrato de meu marido.

—Ah! deixa vêr!

Luiza abriu o medalhão. Elle debruçou-se; tinha o rosto quasi sobre o peito d'ella. Luiza sentia o aroma fino que vinha de seus cabellos.

—Muito bem, muito bem!—fez Bazilio.

Ficaram calados.

—Que calor que está!—disse Luiza.—Abafa-se, hein!

Levantou-se, foi abrir um pouco uma vidraça. O sol deixára a varanda. Uma aragem suave encheu as pregas grossas das bambinellas.

—É o calor do Brazil—disse elle.—Sabes que estás mais crescida?

Luiza estava de pé. O olhar de Bazilio corria-lhe as linhas do corpo; e com a voz muito intima, os cotovêlos sobre os joelhos, o rosto erguido para ella:

—Mas, francamente, dize cá, pensaste que eu te viria vêr?

—Ora essa! Realmente, se não viesses zangava-me. És o meu unico parente... O que tenho pena é que meu marido não esteja...

—Eu—acudiu Bazilio—foi justamente por elle não estar...

Luiza fez-se escarlate. Bazilio emendou logo, um pouco corado tambem:

—Quero dizer... talvez elle saiba que houve entre nós...

Ella interrompeu:

—Tolices! Eramos duas crianças. Onde isso vai!

—Eu tinha vinte e sete annos—observou elle, curvando-se.

Ficaram calados, um pouco embaraçados. Bazilio cofiava o bigode, olhando vagamente em redor.

—Estás muito bem installada aqui—disse.

Não estava mal... A casa era pequena, mas muito commoda. Pertencia-lhes.

—Ah! estás perfeitamente! Quem é esta senhora, com uma luneta d'ouro?

E indicava o retrato por cima do sophá.

—A mãi de meu marido.

—Ah! vive ainda?

—Morreu.

—É o que uma sogra póde fazer de mais amavel...

Bocejou ligeiramente, fitou um momento os seus sapatos muito aguçados, e com um movimento brusco, ergueu-se, tomou o chapéo.

—Já? Onde estás?

—No Hotel Central. E até quando?

—Até quando quizeres. Não disseste que vinhas ámanhã com o rosario?

Elle tomou-lhe a mão, curvou-se:

—Já se não póde dar um beijo na mão d'uma velha prima?

—Porque não?

Pousou-lhe um beijo na mão, muito longo, com uma pressão dôce.

—Adeus!—disse.

E á porta, com o reposteiro meio erguido, voltando-se:

—Sabes, que eu, ao subir as escadas, vinha a perguntar a mim mesmo, como se vai isto passar?

—Isto quê? Vêrmo-nos outra vez? Mas, perfeitamente. Que imaginaste tu?

Elle hesitou, sorriu:

—Imaginei que não eras tão boa rapariga. Adeus. Ámanhã, hein?

No fundo da escada accendeu o charuto, devagar.

—Que bonita que ella está!—pensou.

E arremessando o phosphoro, com força:

—E eu, pedaço d'asno, que estava quasi decidido a não a vir vêr! Está de appetite! Está muito melhor! E sósinha em casa, aborrecidinha talvez!...

Ao pé da Patriarchal fez parar um coupé vazio; e estendido, com o chapéo nos joelhos, em quanto a parelha esfalfada trotava:

—E tem-me o ar de ser muito aceada, cousa rara na terra! As mãos muito bem tratadas! O pé muito bonito!

Revia a pequenez do pé, poz-se a fazer por elle o desenho mental de outras bellezas, despindo-a, querendo adivinhal-a... A amante que deixára em Paris era muito alta e magra, d'uma elegancia de tisica; quando se decotava viam-se as saliencias das suas primeiras costellas. E as fórmas redondinhas de Luiza decidiram-no:

—A ella!—exclamou com appetite:—A ella, como S. Thiago aos mouros!



Luiza, quando o sentiu em baixo fechar a porta da rua, entrou no quarto, atirou o chapéo para a causeuse, e foi-se logo vêr ao espelho. Que felicidade estar vestida! Se elle a tivesse apanhado em roupão, ou mal penteada!... Achou-se muito afogueada, cobriu-se de pós de arroz. Foi á janella, olhou um momento a rua, o sol que batia ainda nas casas fronteiras. Sentia-se cançada. Áquellas horas, Leopoldina estava a jantar já, de certo... Pensou em escrever a Jorge «para matar o tempo», mas veio-lhe uma preguiça; estava tanto calor! Depois não tinha que lhe dizer! Começou então a despir-se devagar diante do espelho, olhando-se muito, gostando de se vêr branca, acariciando a finura da pelle, com bocejos languidos d'um cansaço feliz.—Havia sete annos que não via o primo Bazilio! Estava mais trigueiro, mais queimado, mas ia-lhe bem!

E depois de jantar ficou junto á janella, estendida na voltaire, com um livro esquecido no regaço. O vento cahira, e o ar, de um azul forte nas alturas, estava immovel; a poeira grossa pousára, a tarde tinha uma transparencia calma de luz; passaros chilreavam na figueira brava; da serralheria proxima sahia o martellar continuo e sonoro de folhas de ferro. Pouco a pouco o azul desbotou; sobre o poente, laivos de côr de laranja desmaiada esbateram-se como grandes pinceladas desleixadas. Depois tudo se cobriu de uma sombra diffusa, calada e quente, com uma estrellinha muita viva que luzia e tremia. E Luiza deixára-se ficar na voltaire esquecida, absorvida, sem pedir luz.

—Que vida interessante a do primo Bazilio!—pensava.—O que elle tinha visto! Se ella podesse tambem fazer as suas malas, partir, admirar aspectos novos e desconhecidos, a neve nos montes, cascatas reluzentes! Como desejaria visitar os paizes que conhecia dos romances—a Escocia e os seus lagos taciturnos, Veneza e os seus palacios tragicos; aportar ás bahias, onde um mar luminoso e faiscante morre na arêa fulva; e das cabanas dos pescadores, de tecto chato, onde vivem as Graziellas, vêr azularem-se ao longe as ilhas de nomes sonoros! E ir a Paris! Paris sobretudo! Mas, qual! Nunca viajaria de certo; eram pobres; Jorge era caseiro, tão lisboeta!

Como seria o patriarcha de Jerusalém? Imaginava-o de longas barbas brancas, recamado d'ouro, entre instrumentações solemnes e rolos de incenso! E a princeza de La Tour d'Auvergne? Devia ser bella, de uma estatura real, vivia cercada de pagens, namorára-se de Bazilio.—A noite escurecia, outras estrellas luziam.—Mas de que servia viajar, enjoar nos paquetes, bocejar nos wagons, e, n'uma diligencia muita sacudida, cabecear de somno pela serra nas madrugadas frias? Não era melhor viver n'um bom conforto, com um marido terno, uma casinha abrigada, colxões macios, uma noite de theatro ás vezes, e um bom almoço nas manhãs claras quando os canarios chalram? Era o que ella tinha. Era bem feliz! Então veio-lhe uma saudade de Jorge; desejaria abraçal-o, tel-o alli, ou quando descesse ir encontral-o fumando o seu cachimbo no escriptorio, com o seu jaquetão de velludo. Tinha tudo, elle, para fazer uma mulher feliz e orgulhosa: era bello, com uns olhos magnificos, terno, fiel. Não gostaria de um marido com uma vida sedentaria e caturra: mas a profissão de Jorge era interessante; descia aos poços tenebrosos das minas, um dia aperrára as pistolas contra uma malta revoltada; era valente, tinha talento! Involuntariamente, porém, o primo Bazilio fazendo fluctuar o seu burnous branco pelas planicies da Terra Santa; ou em Paris, direito na almofada, governando tranquillamente os seus cavallos inquietos—davam-lhe a idéa d'uma outra existencia mais poetica, mais propria para os episodios do sentimento.

Do céo estrellado cahia uma luz diffusa: janellas alumiadas sobresahiam ao longe, abertas á noite abafada: vôos de morcegos passavam diante da vidraça.

—A senhora não quer luz?—perguntou á porta a voz fatigada de Juliana.

—Ponha-a no quarto.

Desceu. Bocejava muito, sentia-se quebrada.

—É trovoada—pensou.

Foi á sala, sentou-se ao piano, tocou ao acaso bocados da Lucia, da Somnambula, o Fado; e parando, os dedos pousados de leve sobre o teclado, poz-se a pensar que Bazilio devia vir no dia seguinte: vestiria o roupão novo de foulard côr de castanho! Recomeçou o Fado, mas os olhos cerravam-se-lhe.

Foi para o quarto.

Juliana trouxe o rol e a lamparina. Vinha arrastando as chinellas, com um casabeque pelos hombros, encolhida e lugubre. Aquella figura com um ar de enfermaria irritou Luiza:

—Credo, mulher! Vossê parece a imagem da morte!

Juliana não respondeu. Pousou a lamparina; apanhou, placa a placa, sobre a commoda, o dinheiro das compras; e com os olhos baixos:

—A senhora não precisa mais nada, não?

—Vá-se, mulher, vá!


Juliana foi buscar o candieiro de petroleo, subiu ao quarto. Dormia em cima, no sotão, ao pé da cozinheira.

—Pareço-te a imagem da morte!—resmungava, furiosa.

O quarto era baixo, muito estreito, com o tecto de madeira inclinado; o sol, aquecendo todo o dia as telhas por cima, fazia-o abafado como um forno; havia sempre á noite um cheiro requentado de tijolo escandecido. Dormia n'um leito de ferro, sobre um colxão de palha molle coberto d'uma colcha de chita; da barra da cabeceira pendiam os seus bentinhos e a rêde enxovalhada que punha na cabeça; ao pé tinha preciosamente a sua grande arca de pau, pintada de azul, com uma grossa fechadura. Sobre a mesa de pinho estava o espelho de gaveta, a escova de cabello ennegrecida e despellada, um pente d'osso, as garrafas de remedio, uma velha pregadeira de setim amarello, e, embrulhada n'um jornal, a cuia de retroz dos domingos. E o unico adorno das paredes sujas, riscadas da cabeça de phosphoros,—era uma lithographia de Nossa Senhora das Dôres por cima da cama, e um daguerreotypo onde se percebia vagamente, no reflexo espelhado da lamina, os bigodes encerados e as divisas de um sargento.

—A senhora já se deitou, snr.a Juliana?—perguntou a cozinheira do quarto pegado, d'onde sahia uma barra de luz viva cortando a escuridão do corredor.

—Já se deitou, snr.a Joanna, já. Está hoje com os azeites. Falta-lhe o homem!

Joanna, ás voltas, fazia ranger as madeiras velhas da cama. Não podia dormir! Abafava-se! Ouf!

—Ai! e aqui!—exclamou Juliana.

Abriu o postigo que dava para os telhados, para deixar arejar; calçou as chinellas de tapete, e foi ao quarto de Joanna. Mas não entrou, ficou á porta; era criada de dentro, evitava familiaridades. Tinha tirado a cuia, e com um lenço preto e amarello amarrado na cabeça, o seu rosto parecia mais chupado, e as orelhas mais despegadas do craneo; a camisa decotada descobria as claviculas descarnadas; a saia curta mostrava as canellas muito brancas, muito seccas. E com o casabeque pelos hombros, coçando devagarinho os cotovêlos agudos:

—Diga-me cá, snr.a Joanna—disse com a voz discreta—aquelle sujeito demorou-se muito? Reparou?

—Tinha sahido n'aquelle instantinho, quando vossemecê entrou. Ouf!

Encalmada, quasi descoberta, com as pernas muito abertas, Joanna coçava-se furiosamente por baixo da grossa camisa com folhos á minhota que lhe descobria os peitos. Não podia parar com os persevejos! O raio do quarto tinha ninhos! Até sentia o estomago embrulhado.

—Ai! é um inferno!—disse com lastima Juliana.—Eu só adormeço com dia. Mas ainda eu agora reparo... Vossemecê tem S. Pedro á cabeceira. É devoção?

—É o santo do meu rapaz—disse a outra. Sentou-se na cama. Ouf! E então tinha estado toda a noite com uma sêde!...

Saltou para o chão, com passadas rijas que faziam tremer o soalho, foi ao jarro, pôl-o á bocca, bebeu uma tarraçada. A camisa justa, feita de pouca fazenda, mostrava as fórmas rijas e valentes.

—Pois eu fui ao medico—disse Juliana. E com um grande suspiro:—Ai! isto só Deus, snr.a Joanna! Isto só Deus!

Mas porque se não resolvia a snr.a Juliana a ir á mulher de virtude? Era a saude certa. Morava ao Poço dos Negros; tinha orações e unguentos para tudo. Levava meia moeda pelo preparo...

—Que isso são humores, snr.a Juliana. O que vossemecê tem, são humores.

Juliana tinha dado dous passos para dentro do quarto. Quando se tratava de doenças, de remedios, tornava-se mais familiar.

—Eu já me tenho lembrado... eu já me tenho lembrado de ir á mulher. Mas, meia moeda!

E ficou a olhar, tristemente, reflectindo.

—É o que eu tenho junto para umas botinas de gaspia!

Eram o seu vicio, as botinas! Arruinava-se com ellas: tinha-as de duraque com ponteiras de verniz, de cordovão com laço, de pellica com pespontos de côr, embrulhadas em papeis de sêda, na arca, fechadas—guardadas para os domingos!

Joanna censurou-a.

—Ai! eu, em se tratando do corpo, do interior, que o diabo leve os arrebiques!

Queixou-se tambem da sua miseria. Tinha pedido á senhora um mez adiantado! Estava sem camisas! As duas que tinha eram uns trapos! Pelo gosto da que trazia, a desfazerem-se!

—Mas, então!—suspirou—O meu rapaz precisou um dinheiro...

—Vossemecê tambem, snr.a Joanna, deixa-se cardar pelo homem!

Joanna sorriu.

—Ainda que eu tivesse de roer ossos, snr.a Juliana, a ultima migalha havia de ser p'ra elle!

Juliana teve um risinho secco, e com a voz arrastada:

—Vale lá a pena!

Mas invejava asperamente a cozinheira pela posse d'aquelle amor, pelas suas delicias. Repetiu, contrafeita:

—Vale lá a pena! Perfeito rapaz—continuou—o que veio hoje vêr a senhora! Melhor que o homem!

E depois d'uma pausa:

—Então esteve mais de duas horas?

—Tinha sahido quando vossemecê entrou.

Mas o candieiro de petroleo apagava-se, com um cheiro fetido e uma fumarada negra.

—Boa noite, snr.a Joanna. Ainda vou rezar a minha corôa.

—Ó snr.a Juliana!—disse a outra d'entre os lençoes—Se vossemecê quer rezar tres salvè-rainhas pela saude do meu rapaz que tem estado adoentado, eu cá lhe rezava tres pelas melhoras do peito.

—Pois sim, snr.a Joanna!

Mas reflectindo:

—Olhe. Eu do peito vou melhor; dê-m'as antes p'ra allivio das dôres de cabeça. A Santa Engracia!

—Como vossemecê quizer, snr.a Juliana.

—Se faz favor. Boa noite! Fica-lhe ahi um cheiro! Credo!

Foi para o quarto. Rezou, apagou a luz. Um calor molle continuo cahia do forro; começou a faltar-lhe o ar: tornou a abrir o postigo, mas o bafo quente que vinha dos telhados enjoava-a; e era assim todas as noites, desde o começo do estio! Depois as madeiras velhas fervilhavam de bicharia! Nunca, nunca, nas casas que servira, tinha tido um quarto peor. Nunca!

A cozinheira começou a resonar ao lado. E acordada, ás voltas, com afflicções no coração, Juliana sentia a vida pesar-lhe, com uma amargura maior!



Nascera em Lisboa. O seu nome era Juliana Couceiro Tavira. Sua mãi fôra engommadeira; e desde pequena tinha conhecido em casa um sujeito, a quem chamavam na visinhança—o fidalgo, a quem sua mãi chamava—o snr. D. Augusto. Vinha todos os dias, de tarde no verão, no inverno de manhã, para a saleta onde sua mãi engommava, e alli estava horas sentado no poial da janella que dava para um quintalejo, fumando cachimbo, cofiando em silencio um enorme bigode preto. Como o poial era de pedra, punha-lhe em cima, com muito methodo, uma almofada de vento, que elle mesmo soprava. Era calvo, e trazia ordinariamente uma quinzena de velludo castanho e chapéo alto branco. Ás seis horas levantava-se, esvaziava a almofada, estava um bocado a esticar as calças para cima, e sahia, com a sua grossa bengala de cana da India debaixo do braço, gingando da cinta. Ella e sua mãi iam então jantar na mesinha de pinho da cozinha debaixo d'um postigo, diante do qual se balouçavam, de verão e d'inverno, galhos magros d'uma arvore triste.

Á noite o snr. D. Augusto voltava; trazia sempre um jornal; sua mãi fazia-lhe chá e torradas, servia-o, toda enlevada n'elle. Muitas vezes Juliana a vira chorar de ciumes.

Um dia uma visinha má, a quem ella não quizera ajudar a lavar a roupa, enfureceu-se, e atirando-lhe injurias dos degraus da porta,—gritou-lhe que sua mãi era uma desavergonhada, e que seu pai estava na Africa por ter morto o Rei de Copas!

Pouco tempo depois foi servir. Sua mãi morreu d'ahi a mezes, com uma doença d'utero. Juliana só uma vez tornou a vêr o snr. D. Augusto,—uma tarde, com uma opa rôxa, lugubre, na procissão de Passos!

Servia, havia vintes annos. Como ella dizia, mudava de amos, mas não mudava de sorte. Vinte annos a dormir em cacifros, a levantar-se de madrugada, a comer os restos, a vestir trapos velhos, a soffrer os repellões das crianças e as más palavras das senhoras, a fazer despejos, a ir para o hospital quando vinha a doença, a esfalfar-se quando voltava a saude!... Era de mais! Tinha agora dias em que só de vêr o balde das aguas sujas e o ferro d'engommar se lhe embrulhava o estomago. Nunca se acostumára a servir. Desde rapariga a sua ambição fôra ter um negociosito, uma tabacaria, uma loja de capellista ou de quinquilherias, dispôr, governar, ser patrôa: mas, apesar d'economias mesquinhas e de calculos sôfregos, o mais que conseguira juntar foram sete moedas ao fim d'annos: tinha então adoecido; com o horror do hospital fôra tratar-se para casa d'uma parenta; e o dinheiro, ai! derretera-se! No dia em que se trocou a ultima libra, chorou horas com a cabeça debaixo da roupa.

Ficou sempre adoentada desde então, perdeu toda a esperança de se estabelecer. Teria de servir até ser velha, sempre, d'amo em amo! Essa certeza dava-lhe uma desconsolação constante. Começou a azedar-se.

E depois não tinha geito, não sabia tirar partido das casas: via companheiras divertir-se, visinhar, janellar, bisbilhotar, sahir aos domingos ás hortas e aos retiros, levar o dia cantando, e quando as patrôas iam ao theatro, abrir a porta aos derriços—e patuscar pelos quartos! Ella não. Sempre fôra embezerrada. Fazia a sua obrigação, comia, ia estirar-se sobre a cama; e aos domingos, quando não passeava, encostava-se a uma janella, com o lenço sobre o peitoril para não roçar as mangas, e alli estava immovel, a olhar, com o seu broche de filigrana e a cuia dos dias santos! Outras companheiras eram muito das amas, faziam-se muito humildes, sabujavam, traziam de fóra as historias da rua, e cartinhas levadas e recadinhos e p'ra dentro e p'ra fóra, muito confidentes,—muito presenteadas tambem! Ella não podia. Era minha senhora isto! minha senhora aquillo! E cada uma no seu lugar! Era genio.

Desde que servia, apenas entrava n'uma casa sentia logo, n'um relance, a hostilidade, a malquerença: a senhora fallava-lhe com seccura, de longe; as crianças tomavam-lhe birra; as outras criadas, se estavam chalrando, calavam-se, mal a sua figura esguia apparecia; punham-lhe alcunhas—a isca sêcca, a fava torrada, o saca-rolhas; imitavam-lhe os trejeitos nervosos; havia risinhos, cochichos pelos cantos; e só tinha encontrado alguma sympathia nos gallegos taciturnos, cheios d'uma saudade morrinhenta, que veem de manhã quando ainda os quartos estão escuros, com as suas grossas passadas, encher os barris, engraxar o calçado.

Lentamente, começou a tornar-se desconfiada, cortante como um nordeste; tinha respostadas, questões com as companheiras; não se havia de deixar pôr o pé no pescoço!

As antipathias que a cercavam faziam-na assanhada, como um circulo d'espingardas enraivece um lobo. Fez-se má; beliscava crianças até lhe ennodoar a pelle; e se lhe ralhavam, a sua colera rompia em rajadas. Começou a ser despedida. N'um só anno esteve em tres casas. Sahia com escandalo, aos gritos, atirando as portas, deixando as amas todas pallidas, todas nervosas...

A inculcadeira, a sua velha amiga, a tia Victoria, disse-lhe:

—Tu acabas por não ter onde te arrumar, e falta-te o bocado do pão!

O pão! Aquella palavra que é o terror, o sonho, a difficuldade do pobre assustou-a. Era fina, e dominou-se. Começou a fazer-se «uma pobre mulher», com affectações de zelo, um ar de soffrer tudo, os olhos no chão. Mas roia-se por dentro: veio-lhe a inquietação nervosa dos musculos da face, o tic de franzir o nariz: a pelle esverdeou-se-lhe de bilis.

A necessidade de se constranger trouxe-lhe o habito d'odiar: odiou sobretudo as patrôas, com um odio irracional e pueril. Tivera-as ricas, com palacetes, e pobres, mulheres d'empregados, velhas e raparigas, colericas e pacientes;—odiava-as a todas, sem differença. É patrôa e basta! Pela mais simples palavra, pelo acto mais trivial! Se as via sentadas:—Anda, refestela-te, que a moura trabalha! Se as via sahir:—Vai-te, a negra cá fica no buraco! Cada riso d'ellas era uma offensa á sua tristeza doentia; cada vestido novo uma affronta ao seu velho vestido de merino tingido. Detestava-as na alegria dos filhos e nas prosperidades da casa. Rogava-lhes pragas. Se os amos tinham um dia de contrariedade, ou via as caras tristes, cantarolava todo o dia em voz de falsete a Carta adorada! Com que gosto trazia a conta retardada d'um credor impaciente, quando presentia embaraços na casa! «Este papel!—gritava com uma voz estridente—diz que não se vai embora sem uma resposta!» Todos os lutos a deleitavam,—e sob o chale preto, que lhe tinham comprado, tinha palpitações de regosijo. Tinha visto morrer criancinhas, e nem a afflicção das mães a commovera; encolhia os hombros: «Vai d'alli, vai fazer outro. Cabras!»

As boas palavras mesmo, as condescendencias eram perdidas com ella, como gotas d'agua lançadas no fogo. Resumia as patrôas na mesma palavra—uma récua! E detestava as boas pelos vexames que soffrera das más. A ama era para ella o Inimigo, o Tyranno. Tinha visto morrer duas,—e de cada vez sentira, sem saber porquê, um vago allivio, como se uma porção do vasto peso, que a suffocava na vida, se tivesse desprendido e evaporado!

Sempre fôra invejosa; com a idade aquelle sentimento exagerou-se de um modo aspero. Invejava tudo na casa: as sobremesas que os amos comiam, a roupa branca que vestiam. As noites de soirée, de theatro, exasperavam-na. Quando havia passeios projectados, se chovia de repente, que felicidade! O aspecto das senhoras vestidas e de chapéo, olhando por dentro da vidraça com um tedio infeliz, deliciava-a, fazia-a loquaz:

—Ai minha senhora! É um temporal desfeito! É a cantaros, está para todo o dia! Olha o ferro!

E muito curiosa: era facil encontral-a, de repente, cosida por detraz de uma porta com a vassoura a prumo, o olhar aguçado. Qualquer carta que vinha era revirada, cheirada... Remexia subtilmente em todas as gavetas abertas, vasculhava em todos os papeis atirados. Tinha um modo de andar ligeiro e surprehendedor. Examinava as visitas. Andava á busca de um segredo, de um bom segredo! Se lhe cahia um nas mãos!

Era muito gulosa. Nutria o desejo insatisfeito de comer bem, de petiscos, de sobremesas. Nas casas em que servia ao jantar, o seu olho avermelhado seguia avidamente as porções cortadas á mesa; e qualquer bom appetite que repetia exasperava-a, como uma diminuição da sua parte. De comer sempre os restos ganhára o ar aguado,—o seu cabello tomára tons seccos, côr de rato. Era lambareira: gostava de vinho; em certos dias comprava uma garrafa de oitenta reis, e bebia-a só, fechada, repimpada, com estalos da lingua, a orla do vestido um pouco erguida, revendo-se no pé.

E nunca tivera um homem, era virgem. Fôra sempre feia, ninguem a tentára: e, por orgulho, por birra, com receio de uma desfeita, não se offerecera, como vira muitas, claramente. O unico homem que a olhára com desejo tinha sido um criado de cavalhariça, atarracado e immundo, de aspecto facinora: a sua magreza, a sua cuia, o seu ar domingueiro tinham excitado o bruto. Fitava-a com um ar de bull-dog. Causára-lhe horror,—mas vaidade. E o primeiro homem por quem ella sentira, um criado bonito e alourado, rira-se d'ella, pozera-lhe o nome da Isca sêcca! Não contou mais com os homens, por despeito, por desconfiança de si mesma. As rebelliões da natureza, suffocava-as; eram fogachos, flatos. Passavam. Mas faziam-na mais secca; e a falta d'aquella grande consolação aggravava a miseria da sua vida.

Um dia teve, emfim, uma grande esperança. Entrára para o serviço da snr.a D. Virginia Lemos, uma viuva rica, tia de Jorge, muito doente, quasi a morrer com um catarrho de bexiga. A tia Victoria, a inculcadeira, preveniu-a:

—Tu trata a velha, apaparica-a, que ella o que quer é uma enfermeira que a soffra. É rica, não é nada apegada ao dinheiro, é capaz de te deixar uma independencia!

Durante um anno Juliana, roída de ambição, foi a enfermeira da velha. Que zelos! que mimos!

Virginia era muito rabugenta, a idéa de morrer enfurecia-a; quanto mais ella ralhava com a sua voz guttural, mais Juliana se fazia serviçal. A velha, por fim, estava enternecida: gabava-a ás pessoas que a vinham vêr, chamava-lhe a sua providencia. Tinha-a recommendado muito a Jorge.

—Não ha outra! não ha outra!—exclamava.

—Pois apanhaste!—dizia-lhe a tia Victoria.—Pelo menos deixa-te o teu conto de reis.

Um conto de reis! Juliana, de noite, em quanto a velha gemia no seu antigo leito de pau santo, via o conto de reis á claridade morbida que dava a lamparina, reluzir em pilhas de ouro inesgotavel e prodigioso. Que faria com o dinheiro? E, á cabeceira da doente, com um cobertor pelos hombros, os olhos dilatados e fixos, planeava: poria uma loja de capellista! Vinham-lhe logo lampejos vivos de outras felicidades: um conto de reis era um dote, poderia casar, teria um homem!

Estavam acabadas as canceiras. Ia jantar, emfim, o seu jantar! Mandar, emfim, a sua criada! A sua criada! Via-se a chamal-a, a dizer-lhe, de cima para baixo:—Faça, vá, despeje, sáia!—Tinha contracções no estomago, de alegria. Havia de ser boa ama. Mas que lhe andassem direitas! Desmazelos, más respostas, não havia de soffrer a criadas!—E, impellida por aquellas imaginações, arrastava subtilmente as chinellas pelo quarto, fallando só.—Não, desmazelos, não havia de soffrer! Mantel-as bem, de certo, porque quem trabalha precisa metter p'ra dentro! Mas havia de lh'o tirar do corpo. Ah! lá isso, haviam de lhe andar direitas...—A velha tinha então um gemido mais afflicto.

—É agora!—pensava—Morre!

E o seu olhar ancioso ia logo para a gaveta da commoda, onde estava de certo o dinheiro, os papeis. Mas não! a velha queria beber, ou voltar-se...

—Como se sente?—perguntava Juliana, com uma voz plangente.

—Melhor, Juliana, melhor—murmurava.

Suppunha-se sempre melhor.

—Mas a senhora tem estado desinquieta!—dizia Juliana, despeitada da melhora.

—Não—suspirava—dormi bem!

—Isso não tem dormido... Tenho-a ouvido gemer! Tem estado toda a noite a gemer!

Queria argumentar com ella, convencel-a que estava peor! Convencer-se a si mesma que o allivio era ephemero, que ia morrer depressa! E todas as manhãs seguia o dr. Pinto até á porta, com os braços cruzados, a face triste:

—Então, snr. doutor, não ha esperança?

—Está por dias!

Queria saber os dias: dous? cinco?

—Sim, snr.a Juliana—dizia o velho, calçando as suas luvas pretas—uns dias, sete, oito.

—Oito dias!